quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (O Médico Alemão-Wakolda)



O Médico Alemão (Wakolda)

Vem da Argentina, em coprodução com a França, Espanha e Noruega, o terceiro longa-metragem da cineasta Lucía Puenzo- selecionado pelo seu país para concorrer na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2014-,o thriller O Médico Alemão, assim batizado no Brasil e em outros países do título original Wakolda, que anteriormente realizou o cultuado XXY (2007) e O Menino Peixe (2009). É outro filme que foi bem recebido pelo público na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, abordando um misterioso médico alemão que conhece por acaso uma família típica argentina na Patagônia, em 1960, seguindo-a até Bariloche em meio a uma tempestade violenta que desaba naquela região com seus mistérios de forte magnetismo.

No drama familiar XXY, a diretora retratava uma criança que nasceu com ambas as características sexuais e tentava fugir dos médicos que desejavam corrigir a ambiguidade genital num vilarejo do Uruguai. Agora o tema é novamente a relação de um profissional especializado em genética como centro da trama sobre Josef Mengele, conhecido como o “Anjo da Morte”, pelas suas atrocidades com seres humanos, inclusive para testar as resistências, coletando órgãos em seu laboratório para experiências futuras.

Puenzo foca essencialmente a estrutura montada em Bariloche para acobertar o nazista com a identidade falsa de Helmut (Alex Brendemuhl- o intérprete catalão está impecável) e os horrores cometidos pela obsessão da raça pura ariana prevalecendo sobre as demais. Ao se utilizar de testes em animais num grande laboratório montado com pesquisadores, camas, uma infraestrutura hospitalar e uma arquivista/fotógrafa da escola (Elena Roger) contratada para documentar todos os experimentos realizados, como se depreende de suas anotações sobre o monstro e seus quadros esquematizados com traços e observações.

A utilização das lindas bonecas em série, inspirada no feio brinquedo da menina de 12 anos Lilith (Florencia Brado- a pequena e graciosa atriz uruguaia esteve bem no papel), é uma metáfora da raça pregada por Hitler e sua insanidade contrária à permanência dos judeus no mundo, pregando o extermínio em massa, num universo escabroso que começa com a perseguição consentida da família. O casal Enzo e Eva (Diego Peretti e Natalia Oreiro) tem três filhos menores e em véspera do quarto e seguem todos num carro para o Lago Nahuel Huapi para abrir uma hospedaria, tendo como seu primeiro cliente o protagonista carismático, elegante, bom papo, conhecedor de métodos científicos eficazes para esticar a traumatizada pequena Lilith e a próxima criança preste a nascer.

Um filme que não alivia nem a mãe que concorda com as experiências, tanto da filha como dela mesma nesta fase de gestação, embora sem saber de quem se tratava realmente. Até o pai se submete aos encantos da oferta milionária em dinheiro para multiplicar as bonecas e ganhar dinheiro, sob a alegação de ser ele o autor da façanha, ao criar o embrião da descoberta, ou seja, a bruxinha da filha. É uma maquiavélica manobra diversionista que dá certo e a cineasta questiona: todo mundo teria seu preço? Parece que sim, e o nazismo foi em frente na Argentina, como se depreende das pífias investigações.

O Médico Alemão é um bom suspense, embora um tanto quanto previsível como se depreende do final já antecipada na cena do voo de um pequeno avião. A tempestade é uma clara premonição metafórica decorrente de um grande temporal com raios que desaba e soa como uma situação de grandes complicações para aquelas criaturas em fase de cair na arapuca, com acontecimentos nebulosos que estão por vir num cenário bucólico de uma espetacular nevasca.

Eis um filme que sugere uma grande teoria da conspiração, se não fosse os fatos reais narrados na história de um médico e suas práticas desprezíveis reveladas num clima de encurralamento de pessoas inocentes nesta amostragem de personagens sofridos. Há uma atmosfera equilibrada com um clímax adequado na película de Puenzo, ainda que esteja longe de empolgar, pelo menos deixa sua contribuição sobre um passado perigoso para a tranquilidade do povo argentino que sofreu com as bestiais incursões nazistas deflagradas.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (La Jaula de Oro)



La Jaula de Oro

Outro filme que é uma grata surpresa e está disparado entre os melhores da 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, com procedência do México, é este incrível drama social La Jaula de Oro, do cineasta espanhol estreante Diego Quemada-Díez, retratando a crise financeira da América Central, mais especificamente a Guatemala, onde três adolescentes favelados partem clandestinamente rumo aos Estados Unidos, em busca de vidas bem melhores do que aquelas que sempre tiveram, num ambiente de muita miséria e de abundância de promiscuidade.

A trama apresenta um componente dramático e estrutural de tintas fortes de uma aventura frustrada previamente anunciada que perturba o mais distraído dos espectadores, numa fotografia de um país de derrotados, tendo seus filhos imigrando para adquirir uma sonhada vida decente e com alguma esperança de sobrevivência. Juan (Brandon López), Sara/Osvaldo (Karen Martinez) e Samuel (Carlos Chajon) são na realidade três crianças que estão ingressando na fase da adolescência e moram em favelas numa Guatemala em estado de miserabilidade pela precária condição humana de sobrevivência.

Na viagem rumo ao México, os dois garotos e a garota travestida de menino conhecem o indiozinho da mesma faixa etária Chauk (Rodolfo Dominguez), da região de Chiapa, que não fala espanhol e se atrapalha com sua linguagem própria. Segue junto com o trio favelado e vão dar continuação à trajetória até os trilhos da ferrovia. É uma verdadeira aventura de nitroglicerina pura em diversos trens de cargas pelo desconforto apresentado e o risco iminente por onde passam, tendo que superar muitas peripécias nada agradáveis.

Surgem no caminho da fronteira com o México diversas adversidades como uma polícia truculenta que bate sem piedade, grupos de assaltantes fortemente armados, quadrilhas de sequestradores para buscarem resgates das famílias dos imigrantes clandestinos que caem facilmente nas armadilhas. A realidade é perversa e começa a ser mostrada para os jovens que terão que encarar uma dureza terrível para tentar ingressar sem visto de permanência num país como os EUA.

Há perdas pelo caminho do agora quarteto. Umas voluntárias e outras decorrentes do clima de violência de grupos beligerantes que buscam meninas para prostituição. É cruel a vida como mostra o diretor numa estética de beleza fotográfica fascinante, porém com uma crueza arrebatadora com os aventureiros na busca da imigração clandestina, tendo que se submeter a serem “mulas” para transportar drogas na travessia da fronteira, porém nem sempre há facilidades para suas vidas. É a lei do mais forte, como numa floresta infestada de animais selvagens devorando-se. Não há glamour para aqueles que sonham com o charme da nevasca de Los Angeles, mas sim uma odisseia disseminada de dissabores como uma escalada para o interior do inferno.

O cineasta retrata o contexto com a complexidade de um filme seco e duro, com alguns elementos pouco sutis dentro de uma violência clássica de cenas chocantes. São enfatizadas pela retumbante perda da dignidade humana, diante de um realismo cênico instigante em seu todo, o que não descaracteriza a proposta, pelo contrário, a eloquência torna-o profundo pela condução firme e sem firulas para demonstrar as sucessões de equívocos dos sonhadores com um mundo mágico. O constrangimento vem junto com uma insustentável humilhação e estão ali porque nada mais tem a perder, o que restou ainda ficou para trás há muito tempo naquelas favelas degradantes e características de um país pobre, sem programas de governo voltados para as populações carentes.

Quemada-Díez, afasta a violência gratuita e foca sua câmera para capar imagens virulentas de uma intolerância social pelas reações dos adolescentes de alma pura, com se vê na cena da galinha furtada, quando Juan sequer sabe matá-la e demonstra sentimento de compaixão para com o animal. La Jaula de Oro é monumental e arrasa pela contundência além da denúncia, insere-se como um filme de crítica social que passa pelo sonho e a perversidade latente, com desdobramentos explícitos das dificuldades financeiras pela falta de dinheiro e emprego, num sistema em que está presente a derrota iminente pela violência num ambiente hostil.

Comentários em São Paulo do diretor sobre a produção do filme:

Após a exibição do filme, o diretor espanhol participou de um agradável bate-papo com o público. Durante a conversa, o cineasta falou que trabalhou com Fernando Meirelles no longa-metragem O Jardineiro Fiel (2005); os figurantes dos trens são imigrantes reais e recebiam comida porque não tinham como a equipe de produção contratá-los formalmente; o quarteto de atores juvenis foram preparados para atuar, depois de uma rigorosa seleção de milhares de jovens, inclusive buscado nas favelas, sendo que hoje seguem suas vidas normais, já Karen Martinez é atriz de teatro e teve assassinado um parente próximo; os atores adolescentes deram muito de realidade nas cenas filmadas, foram preparados física e sensorialmente pela equipe de produção, demonstrando muita força de vontade e sonhos a serem realizados; o filme custou aproximadamente 2 milhões de dólares, mas teve incentivo do governo mexicano; trabalhou com mais de 600 imigrantes e que o filme foi baseado em alguns fatos reais, como da menina que cortou o cabelo para se parecer menino.

Mostra de Cinema São Paulo (Ana Arabia)















Ana Arabia

De Israel em coprodução com a França vem Ana Arabia, do badalado cineasta Amos Gitai que também assina o roteiro em parceria com Marie-José Sanselme, com boa recepção de público e crítica na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo. A última produção do cineasta israelense é um misto de documentário com ficção e aborda essencialmente a manutenção da continuidade do processo pela paz no Oriente Médio e a coexistência entre os povos, inclusive os inimigos declarados. Sua filmografia é extensa sobre filmes recorrentes de desavenças étnicas, entre tantos estão: Kippur- O Dia do Perdão (2000), Kedma (2002), Free Zone (2005), Aproximação (2007), Mais Tarde Você Entenderá (2008) e Rosas a Crédito (2010).

Depois de Free Zone, o diretor israelense paralisou sua criatividade e buscou temas repetitivos como brigas de fronteira entre palestinos e judeus, desta vez inova apenas na estética, ao filmar em um único plano-sequência de 81 minutos, sendo a mais famosa até hoje no cinema os memoráveis 97 minutos da obra-prima Arca Russa (2002), de Alexander Sokurov. Pretendia dar nova luz e reacender seu cinema criativo esquecido, ultimamente anda numa mesmice de doer as suas últimas realizações, demonstrando uma falta de imaginação. Agora busca o experimental como novo, tentando se afastar do supérfluo, mas fica longe de algo consistente e de uma evolução primorosa para uma nova e prodigiosa etapa. Segue com o mesmo discurso folhetinesco e cansativo de ano após ano.

A trama de Ana Arabia mostra a vida de uma pequena comunidade de judeus e árabes exilados coabitando uma sede de um território de terras completamente esquecido na fronteira entre Jaffa e Tel Aviv, em Israel. Como se não houvesse diferenças raciais e religiosas, convivem em modestas casas entre um pomar de limoeiros, numa alusão ao comovente e eficiente filme Limon Tree (2008), de Eran Riklis, que retratou a história de uma mulher palestina que vê seus limões ameaçados quando o Ministro da Defesa de Israel se torna o seu vizinho e para salvar a plantação que lhe dá o sustento aciona a Suprema Corte do país.

Diante da inesperada chegada no enclave da jovem jornalista Yael (Yuval Scharf) para realizar algumas entrevistas bem singelas, cria-se um painel redundante de uma atmosfera vazia para as discussões e reflexões de pessoas quanto aos usos e costumes diferentes. Descobre-se que várias pessoas não estão contaminadas pelas constantes guerras entre muçulmanos e judeus naquela região conflitada permanentemente, inclusive são casadas, como depreende-se de alguns vizinhos, sendo que um deles dá abrigo para a ex-nora judia, após a morte súbita do filho árabe. São relatos sobre os sonhos, as esperanças, os casos amorosos e os desejos de cada um, mesclados com ilusões desfeitas e restos de um fio de esperança sem bombas explodindo nas carnificinas rotineiras. Uma galeria de depoimentos sobre os fragmentos de suas histórias contados com humanismo.

Há até um certo entusiasmo de Yael que choraminga pelo que viu de bom, chega a se esquecer de seu trabalho profissional, ao repensar sobre aquela fonte de sabedoria e esperança para um futuro de coexistência de povos em litígio. Ali o tempo parece ter parado, mesmo sendo um pequeno e frágil reduto, difere em muito das cidades que rodeiam em constante clima de convulsão social com o terror contumaz. A câmera sai do cenário focado e vai ao encontro de uma metrópole com seus prédios enormes, com um céu azul que antes passara um avião barulhento.

Ana Arabia mostra um Gitai ainda mais preguiçoso para filmar, utilizando-se do artifício da jornalista com uma caneta e um bloquinho na mão como fio condutor da trajetória, num enredo debilitado por falta de audácia criativa, de pouca emoção, sobra de indolência e falta de cinema, com um desenrolar exaustivo, embora de boas intenções como dita a regra de um típico folhetim pela paz no Oriente Médio.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Pais e Filhos)














Pais e Filhos

A 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo tem a presença do Japão, muito bem representado pelo festejado cineasta Hirokasu Kore-Eda com Pais e Filhos, baseado em casos reais de crianças trocadas em hospitais que serviram de inspiração para que fosse contada a história. Foi um dos favoritos à Palma de Ouro deste ano, em Cannes, mas levou como consolo apenas o Prêmio do Júri. O diretor nipônico já havia concorrido em outras duas vezes com Distance (2002) e Ninguém Pode Saber (2004). Também é dele os longas Depois da Vida (1998), Seguindo em Frente (2008) e Air Doll (2009).

Eis um drama familiar fabuloso que discute a troca de bebês e os efeitos futuros das crianças com as revelações recebidas. Há uma estrutura do roteiro centrada no casal de melhores condições financeiras, ou seja: Ryota (Masaharu Fukuyama) e Midori (Muchiko Ono). Ryota é um conceituado executivo arrogante de alto poder aquisitivo, ganhou tudo pela sua dedicação e ardor, tem uma vida perfeita e parece que nada poderá atrapalhar seu sucesso profissional, bem como no amor com sua bonita mulher e o filho de 6 anos, porém não legítimo, vindo a descobrir num certo dia, através de um telefonema inusitado. O outro casal é humilde (Lily Franky e Yoko Maki), aparentemente de pouca instrução e sem muito para dar, dono de uma loja de material elétrico, tem três filhos, sendo que um deles foi trocado no berçário. Ledo engano, ali tem duas pessoas estruturadas e com muito amor para dar, com pai e mãe presentes diariamente, se doam ao máximo e dão aula de humanismo e dedicação familiar, além dele consertar os brinquedos, fazer pipas e brincar como se fosse uma criança descobrindo o mundo.

O clima de tensão está instalado diante do amor da esposa para aquela criança, filho de outros pais e a intolerância do marido. E agora, realizar a troca com seu verdadeiro filho ou deixar assim? É uma situação delicada e difícil de ser tomada. Há um questionamento explícito sobre sua condição de pai por estes anos todos, em que criou o filho de outra família totalmente desconhecida. Aquele senhor humilde ensina ao executivo que a gente não precisa imitar o pai que não lhe fez pipas, numa bela metáfora ao inconsequente avô que mandou realizar a troca em nome do sangue nas veias, o mesmo que proibia o filho de visitar a mãe e o fazia fugir para realizar seu desejo.

Kore-Eda coloca de forma incisiva que uma criança não pode ser trocada como se fosse um objeto numa loja qualquer, tendo em vista que cada família tem suas peculiaridades e idiossincrasias, tais como: uma é abastada e vive numa casa como estivesse num hotel, definição do próprio filho; outra tem uma trajetória modesta de poucos recursos; uma o pai é ausente, não tem tempo para o filho, só pensa em trabalhar para ganhar dinheiro; a outra tem no pai um homem que trabalha para sobreviver sem muita ambição, porém é dedicado quase que integralmente para a esposa e os filhos.

Uma reflexão sobre as dúvidas, anseios e o amor entre pais legítimos ou não com seus filhos, numa magnífica abordagem sobre o microcosmo familiar e a relação de afetividade, diante do problema surgido e da paternidade futura em como ser resolvido para não causar traumas e sequelas nas crianças. No contundente longa Ninguém Pode Saber, o diretor retrata o abandono de mãe para seus quatro filhos de pais diferentes, vai embora e deixa para o filho mais velho um bilhete e um pouco de dinheiro e nunca mais retorna. Em Pais e Filhos há a disputa pelas crianças e ninguém quer abrir mão da paternidade, principalmente o amor silencioso e profundo das mães, aparentemente em papéis secundários, porém são realmente as grandes vítimas do contexto, pois sofrem muito sem serem as protagonistas.

O filme está na mesma esteira de um dos episódios de O Que se Move (2012), de Caetano Gotardo, sobre um fato real acontecido em 2002, mais conhecido como Pedrinho de Goiânia, diante do fato do roubo de um bebê da maternidade e somente aos 16 anos encontra seus pais biológicos. Nesta altura da vida, já havia constituído e se estruturado numa nova família, recebendo afeto, carinho e dedicação daqueles que o criaram. O reencontro de mãe, pai e filho mostram o vazio que jamais será preenchido ou suprido de alguma forma e a solução do compartilhamento da paternidade.

O drama de Kore-Eda parece buscar subsídios no filme brasileiro quanto ao destino a ser dado às crianças trocadas no berçário. O bom senso seria em tese a melhor solução com a integração entre famílias. Mas para isto deve ser deixado o orgulho do poder, os caprichos personalíssimos, as diferenças sociais, culturais e financeiras em segundo plano, em nome dos filhos que são vítimas da situação e não podem ser punidos, passando para a condição de culpados. Mexe e instiga com o espectador através do olhar atento do cineasta com as questões advindas das relações e dos sentimentos de todos os envolvidos.

domingo, 27 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Centro Histórico)



Centro Histórico

O longa-metragem coletivo Centro Histórico foi realizado para celebrar a capital da cultura em Portugal, no norte do país, a bela cidade de Guimarães, com direção de Manoel de Oliveira, Aki Kaurismaki, Pedro Costa e Victor Erice, dividem em quatro curtas um outro sucesso garantido na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Muitos relatos para serem contados por estes cineastas engajados com a arte no reduto português com suas peculiaridades locais do cotidiano para ser divulgado sem cerimônia e causar uma bela reflexão sobre a história com emoção e autenticidade.

Num painel de relatos estão dois curtas primorosos e outros dois bem aquém do aguardado. O primeiro e o terceiro são os melhores da produção coletiva, sendo que Kaurismaki faz uma abordagem interessante e muito crítica em O Tasqueiro, com a perda da clientela e como se vê numa das ruas de Guimarães. Há uma profunda desilusão amorosa e os fracassos se sucedem talvez por falta de imaginação do taberneiro para tentar manter seu espaço aberto, enfocados com o triste fado como sonoplastia e dando uma boa e correta dramaticidade no curta silencioso com uma linguagem em tom ficcional adequado.

O segundo ato tem Costa como responsável por O Lamento da Vida Jovem, possivelmente o mais fraco de todos, beirando a sonolência coletiva entre os espectadores, diante do estilo de filmar sem imaginação e exaustivo pela repetição da massificante cena do elevador fechado, através do delírio de um escravo sobre a revolução de Cabo Verde nos anos 70 e o soldado imaginário num diálogo risível. Arrasta-se e não engrena, perde-se uma boa chance de ser dado um recado eficiente e direto.

O terceiro curta Vidros Partidos vem com a assinatura de Erice, disparado o melhor de todos, em tom documental ao melhor estilo de Eduardo Coutinho de As Canções (2011) e Edifício Master (2002), com um painel de relatos contados pela boca de personagens que viveram uma situação no passado, são pessoas humildes que tiveram muitas dificuldades pelos obstáculos do dia a dia, sendo que destes há de tudo um pouco, numa galeria de depoimentos consistentes e emocionantes sob o ponto de vista humano e com força de um pensamento positivo de esperança para alguns e outros já desesperançados, com mágoas, tristezas e decepções.

É uma bela e comovente história sobre uma fábrica de tecidos fundada no século 19 que faliu em 2002, onde os operários mostram seus dedos cortados, com rostos cansados e olhos perdidos no tempo que passou. O epílogo do curta é comovedor com o gaiteiro tocando e a enorme foto da mesa com as pessoas tomando sopa num dia qualquer. Os rostos fotografados são aproximados lentamente em closes magníficos, sobressaindo-se os olhares reveladores com um impressionismo arrebatador de funcionários que criaram ilusões, outros tiveram frustrações e alguns falam sobre a imigração para a França e o retorno sempre aguardado. Um significativo mosaico pela riqueza do cotidiano de uma empresa que serviu para muitas vidas sobreviverem, causando desalento em outras, mas tudo com muito humanismo e a pergunta sobre qual o tempo foi melhor; passado ou presente? Para o ator carismático há uma rede on-line e a perda do emprego se deve muito ao avanço desenfreado da internet que teria retirado muitas vagas, uma das grandes responsáveis pela crise do desemprego.

O centenário Manoel Oliveira encerra com o curta Conquistador Conquistado, mas decepciona na abordagem crítica sobre os turistas e suas máquinas fotográficas, pelos usos abusivos e desproporcionais, dando pouca importância para os museus e monumentos, entre eles uma estátua e seu olhar de desaprovação. É um típico documentário simplista do genial cineasta, porém desta vez pouco inspirado.

Centro Histórico é um razoável filme coletivo, com uma linda fotografia primorosa, diante de alguns méritos inegáveis como os curtas de Aki Kaurismaki e Victor Erice, em suas abordagens certeiras sobre um Portugal mergulhado numa imensa crise financeira decorrente da situação instável na Europa. Ao mesmo tempo presta um belo tributo à capital da cultura Guimarães, relembrando um passado difícil e um presente de incertezas maiores ainda sobre os tempos que não voltam mais.

Mostra de Cinema São Paulo (Wajma)















Wajma

Vem do Afeganistão em coprodução com a França, o surpreendente drama familiar Wajma, do diretor Barmak Akram em seu segundo longa-metragem, antes realizara Kabuli Kid (2008), foi bem recebido pelo público na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, ao abordar a desonra numa família muçulmana com seus dogmas e tradições culturais, diante da gravidez inesperada da filha solteira que recém passara numa faculdade local, um fato até certo ponto evoluído pela licença concedida para estudar, o que não é muito normal para uma mulher em Cabul.

No sensível libelo feminino contra a opressão machista diante da posição da mulher num papel meramente secundário, sem nenhum poder de interferência ou tentativa de marcar posição na sociedade muçulmana dominada eminentemente pelos homens, Mustafa (Mustafa Habini) é um garçom descendente iraniano que seduz uma garota estudante, (Wajma Bahar), dá nome ao filme, que acabara de passar na faculdade para ingressar no curso de Direito. O relacionamento do casal é consciente dos terríveis riscos que correm da quebra dos tabus e regras sociais. Há um lirismo de romantismo entre os dois e tudo vai bem até a descoberta da gravidez e a recusa do rapaz em assumir a paternidade, alegando que ela não era mais virgem.

O clima de tensão está para explodir quando o pai (Hadji Gul), um homem rude e violento que trabalha desarmando minas no Norte do país, volta e aplica uma monumental surra de cinta na filha, esbofeteia a garota e a prende numa despensa da casa. Sobra para todo mundo, inclusive a mãe e o filho, um rapaz que gosta de ver os cachorros brigarem até morrer. Mustafa nega-se a se casar e refuta manter o namoro, mesmo sendo ameaçado de morte pelo possuído pai, que terá que optar entre a honra na família para manter a preservação como se fosse uma instituição, ou o amor da filha apesar do ocorrido.

A justiça é procurada preliminarmente antes de qualquer atitude, com o conselho do promotor para que não haja a vingança prometida, pois não há provas suficientes e nem flagrante do delito, ou seja, da relação sexual entre o acusado e a filha. Indica alternativas, sendo uma delas a reclusão da moça no interior para ganhar o filho e após doar. A mãe sugere o aborto num país vizinho, mas para isto terá que ser adquirido um passaporte no câmbio negro.

Numa linguagem simples e eficiente, mas com um poder de fogo potente, o cineasta reflete a condição feminina precária, sem voz e que vive de sonhos e ilusões, como a protagonista acusada como se fosse uma criminosa numa sociedade conservadora e com predominância de atitudes e decisões eminentemente dos homens. Passa fome e frio naquele cenário de nevasca permanente e o perigo das bombas e mísseis latejando como uma brutal realidade, tal qual a protagonista é humilhada e espancada como um animal. O filme está na mesma esteira de denúncia de O Sonho de Wadjda, de Haifaa Al- Mansour, onde a trama retratou a garota entrando num concurso sobre Alá para obter o prêmio máximo em dinheiro, tem nova decepção e outro golpe na sua infância, com o olhar feminino sem partir para o confronto ou colocar a dualidade de choque de ideias e posições naquela sociedade estereotipada.

Wajma é um bom drama sobre a cultura e a violência diante da desonra familiar pela gravidez, sendo o aborto mencionado sutilmente como proposta a ser discutida como um tabu para romper a barreira da passividade feminina. É um claro e inequívoco relato sobre a tragédia da mulher, sob a ameaça constante de estar infringindo as leis machistas nesta obra de resultado emblemático e com autonomia pela busca da dignidade e da delicadeza da protagonista contrastando com o embrutecimento doentio paternal num conteúdo de protesto.

Mostra de Cinema São Paulo (A Gaiola Dourada)



A Gaiola Dourada

Uma comédia dramática sempre é bem-vinda, ainda mais com o requinte de uma trama portuguesa contada por um descendente luso em coprodução francesa. Falada nos dois idiomas, assim é a bela e charmosa A Gaiola Dourada, do estreante em longa-metragem Rubem Alves, com sucesso garantido na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo e a promessa de estreia nos cinemas para a segunda quinzena de janeiro do ano vindouro.

É uma saborosa proposta cômica intimista típica sobre os costumes lusos e a fleuma francesa em confronto salutar, um misto de romantismo com sarcasmo em alto estilo, pela veia crítica apurada deste promissor cineasta em solo francês, mas preservando nas veias os costumes e tradições com muito orgulho da colônia portuguesa, com certeza, sem deixar de homenagear nos créditos finais os velhos pais que estão residindo há mais de 35 anos na França.

Há um olhar amargo e ao mesmo tempo doce do diretor sobre o microcosmo familiar, sem deixar de alfinetar claramente as hipocrisias e os subterfúgios decorrentes das relações por conveniências, tanto na própria família portuguesa, como dos franceses interesseiros ao saberem da herança obtida pelos imigrantes José (Joaquim de Almeida) e sua mulher Maria (Rita Blanco), pais da contestadora filha (Bárbara Cabrita) que namora o filho dos patrões de seu pai, o futuro sogro (Roland Giraud) e sogra (Chantal Lauby).

Recebem a notícia da herança do irmão desafeto de José, porém com a imposição da volta e permanência definitiva no bucólico vinhedo. Um retrato das amizades por puro interesse e a aproximação maior de parentes distantes são evidentes, com a tônica da comédia pela hipocrisia deslavada e o escracho como uma boa pitada agridoce de crítica social e familiar. A zeladora Maria e o mestre de obras José trabalham dia e noite incansavelmente e o namoro da filha com o filho do patrão não é visto com simpatia pelo casal. São os franceses desta vez que são os colonizadores e as diferenças se distanciam, como se aproximam com o desenrolar da comédia de costumes diante das situações colocadas momentaneamente.

A partir do evento do inesperado retorno, os filhos, cunhado, sobrinhos e a irmã, além de outras pessoas da comunidade se fazem mais presentes e dão suas contribuições valiosas ou não para desatar o emaranhado. O que interessa para eles é que participam ativamente, movidas por interesses financeiros ou emocionais daquela gaiola que estão dentro como presos a um sistema e aos vínculos e laços ocorridos entre eles com os franceses depois de décadas de convivência.

A Gaiola Dourada instiga sobre os desejos de ficar e a vontade de voltar. A saudade pode falar mais alto às vezes, como a lembrança do ídolo Pauleta da seleção de Portugal, uma época anterior a Cristiano Ronaldo, com uma fotografia primorosa, além dos belos fados cantados com muito ardor e paixão, relembrando um passado difícil e um presente eivado de incertezas maiores ainda, sobre os tempos que não voltam mais, nesta magnífica comédia de profundas reflexões, com traços autobiográficos do cineasta utilizados como inspiração para um agradável acerto de contas com seus pais e com seu povo, com toques recheados de um humor refinado por piadas inteligentes e sacadas memoráveis, através de algum sarcasmo, boa ironia e um crítica social bem dosada. Prevalece as aparências cínicas e fantasiosas do evento comemorativo, apenas esboçando um quadro cênico de realismo deturpado.

Comentários em São Paulo do diretor sobre a produção do filme:

Após a exibição do filme, o diretor francês Ruben Alves, de raízes portuguesas, participou de um apreciável bate-papo com o público. Durante a conversa, o cineasta falou que seu filme foi muito inspirado na emoção de uma realidade dos seus pais em Paris; disse que é bom rir de nós mesmos; o longa foi bem recebido na França que coproduziu com Portugal, tendo levado 1.200.000 espectadores às salas; pode ser feita mais de uma leitura do filme como rir e chorar por estar longe de seu país e suas raízes; o título é uma coisa muito parisiense sobre a casa enorme; as pessoas querem voltar mas pensam que estão bem onde estão e acabam desistindo pelos efeitos da ditadura que se fez por muito tempo; os franceses têm muita fleuma e gostam de aparências, mas os elogios aos portugueses são muito em razão de patrão para empregado, pois os lusos se adaptaram bem por lá e as piadas de bacalhau e mulher de bigode são clichês repetidos para agradar; Portugal é muito conhecido na Europa e outros continentes por Cristiano Ronaldo; a realidade da França é bem superior como indústria de cinema dando chance para todos, já em Portugal há um mercado restrito aos grandes realizadores.

sábado, 26 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Cantos)















Cantos

Uma produção da Suíça, rodada clandestinamente em Cuba, é o documentário corajoso Cantos, do jovem cineasta estreante em longas Charlie Petersmann, presente na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Um filme realizado sem incentivo e sequer autorização do governo comunista, aborda pessoas que vivem como sombras e se distanciaram da ideologia pregada na Revolução liderada por Fidel Castro. Uma transformação num país em que os cubanos são cada vez mais vítimas de um sistema que tem duas classes: ricos e pobres.

O ponto de partida está centrado na sobrevivência do entrevistado com seu olhar para o mar em busca de uma solução. Um flerte com a ideologia dentro de uma situação inicial com toques poéticos e pessimistas no final, numa sociedade de uma economia em frangalhos e cada vez mais, todos se virando como podem. A ilegalidade campeia solta e o mercantilismo impera num mercado negro como uma dura realidade, parecendo ser até tolerado de certa forma.

Um relato sobre a hipocrisia do governo no faz de conta, realizado com extrema simplicidade, onde o diretor e o roteirista, produtor e fotógrafo, com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, como pregava o saudoso Glauber Rocha, instala-se em Havana por quatro meses, sem autorização para trabalhar e obtém dos moradores algumas imagens descritas com bastante detalhes sobre a crise e a situação caótica de Cuba.

Um retrato patético da miséria da classe baixa, com expressões marcadas por emoção e convencimento, como do homem com câncer que toma analgésicos para não sentir dor; da blogueira e seus problemas recorrentes com a internet precária e até os bloqueios frequentes; a venda de chocolate e peixes, um comércio proibido, mas que ninguém abre mão para ter um dinheirinho a mais; o homem que vê o mar e lembra dos refugiados vai buscar remédios no paralelo para levar ao doente. Uma crise decorrente dos sérios traumas de uma saúde deficiente para a classe menos favorecida.

São mencionadas as fugas com mortes no mar e as raras autorizações para alguns viverem na Europa, com licença governamental para os apadrinhados. Cantos é um filme sem grandes revelações, ou denúncias escabrosas. É de certa forma previsível e simplista nos depoimentos e nada do que é contado chega a ser novidade. É realizado num formato acadêmico estudantil com muita crueza e sem requinte ou uma melhor elaboração com pretensões maiores.

Eis um documentário com um objetivo claro de uma viagem de aventura, sem planejamento ou um roteiro elaborado previamente. Embora obtenha algumas situações peculiares dos habitantes, não empolga e deixa como registro os diversos relatos de uma população que carece de liberdade, democracia e dinheiro.

Debate em São Paulo

Após a exibição do filme, o diretor suíço Charlie Petersmann participou de um rápido bate-papo com o público. Durante a conversa, o cineasta falou que passou algum tempo para cativar os moradores e obter depoimentos livres, como vieram posteriormente ao se soltarem; fez sozinho o filme e usou uma câmera não profissional, pois não obteve licença do governo para filmar; se estabeleceu por quatro meses e percebeu as diferenças ouvidas como realidade na Europa para o sentimento de estar in loco; a visão crítica é fruto de sua estadia e a convivência com aquelas pessoas humildes de classe baixa escolhida não por opção, mas por ser a classe alta pertencente ao governo castrista.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Uma Casa com Torre)















Uma Casa com Torre

Vem da Ucrânia o fascinante longa-metragem Uma Casa com Torre, da diretora Eva Neymann em seu segundo longa-metragem, antes realizara At The River (2007), consta ainda em sua filmografia três curtas e três documentários. Este é um daqueles filmes marcantes e que causou uma ótima impressão na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, ao enfocar de maneira criativa um fato triste durante um dia de inverno na Rússia, em plena Segunda Guerra Mundial, baseado no conto autobiográfico homônimo de Friedrich Gorenstein, um dos roteiristas do cultuado Solaris (1972), de Andrei Tarkóvski.

Um drama de guerra magistral com uma beleza estética rara e alguma similitude de outro filme sobre uma mãe gravemente enferma que se recusa a realizar tratamento médico, a produção independente norte-americana As Terras Frias (2013), do diretor Tom Gilroy. O filme ucraniano aborda a história centralizando a trama no menino de 8 anos (Dmitriy Kobetskoy- em interpretação de astro) que fica sozinho e desamparado, tendo em vista que sua mãe (Katerina Golubeva) tem a saúde muito afetada e vai para o único hospital da cidade, em meio às vitimas da guerra. Guarda com ele a recomendação para que retorne até a rua em que viveu sua infância para procurar uma casa com uma torre.

A procura da sobrevivência está em jogo e a guerra interminável é vista como um despropósito aterrador que danifica e esmaga os sentimentos humanos de vidas inocentes sendo ceifadas. Os horrores das batalhas causam uma falta de comida imensurável para os povos devastados, resultante de governos belicistas pelo mundo, mais preocupados com interesses próprios e loucos no poder, como Hitler e Mussolini. Uma bela metáfora da sociedade pelo olhar melancólico do garotinho órfão e seu sofrimento de dor pela solidão e a fome por falta de subsistência.

A diretora utiliza-se de um artifício recorrente ultimamente no cinema, quando traz para o enredo a figura materna para dar assistência espiritual e a condução empírica do menino para desatar e retirar seus traumas, dando-lhe forças para seguir em frente, como visto na última cena de extrema delicadeza da mão passando com doçura e carinho pelo rosto do filho. Segue na esteira da inspiração e da visão com o infinito pós-morte de As Terras Frias e o cultuado Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, e a incursão no infinito para imergir num clima transcendental.

Uma Casa com Torre retrata os efeitos da guerra num cenário instigante de nevasca por todos os lados, do trem com seu apito estridente cortando cidades pelos caminhos desertos e longínquos de qualquer população. O filme fascina pelo movimento interessante de uma câmera em planos-sequência longos, às vezes em contraplanos mais curtos, captando as doloridas imagens de um neorrealismo de grandes filmes do cinema como Arca Russa (2002) em plano-sequência único e a famosa trilogia impactante de realismo cênico em Moloch (1999), Taurus (2001) e O Sol (2005), todos de Alexander Sokurov; ou ainda em Glória Feita de Sangue (1957), de Stanley Kubrick. São mostradas as sobras de guerra, como se pessoas fossem animais sem importância, diante da falta de cuidados mínimos para os sobreviventes. Há uma carência de calor humano das enfermeiras nos hospitais, embora se possa compreender pelo contato diário com vítimas. São amontoadas e a morte da mãe do protagonista simboliza o descaso e reflete alegoricamente toda a situação de um país convalescente pelas perdas do extermínio advindo dos campos de matança. Morrer é uma circunstância vista como normal e quase que banalizada.

Outra grande referência pelo descaso às vidas está na viagem de trem para um destino indeterminado e bem longe do fronte, em acomodações precárias se acotovelam e querem seus espaços, numa busca de um futuro um pouco melhor e com alguma segurança. Eis um drama sem estardalhaço pela ausência de uma pirotecnia em moda, pois se utiliza do recuso da fotografia preto e branco para causar um impacto mais realista aos fatos e o recurso da câmera estática é notável na busca de sentimentos, ternuras e tristezas entre os passageiros desesperançados rumo ao céu ou o inferno que querem deixar para trás como herança maldita.

A cineasta acerta em cheio com o menino órfão, uma pela magnífica atuação de Dmitriy Kobetskoy; outra pela sua trajetória nos caminhos de um país destroçado em ruínas evidentes, dentro de um panorama de fome e miséria espalhado por todos os cantos. Neymann dá uma aula de simplicidade cinematográfica por demonstrar os efeitos nefastos de uma guerra com suas marcas indeléveis e com cicatrizes permanentes, com pouca perspectiva de recuperação. Como o barulho violento das botas no chão soando com o rigor militar desenfreado para o combate; assim como o cenário do hospital simbolizando vidas miseráveis ainda existentes; já o trem é o sopro da esperança naquelas criaturas agoniadas pelo tédio da amargura do passado, exceto o protagonista com sua fibra para viver, através do embalo cadenciado do trem como uma trilha sonora em formato de canção de ninar para fazer dormir e seguir em frente nos seus sonhos, iluminado pela nevasca insistente predominando como a vida renascendo pelo afago da mão da mãe.

Mostra de Cinema São Paulo (Para Aqueles em Perigo)

















Para Aqueles em Perigo

O Reino Unido também se faz presente na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo com o apreciável drama Para Aqueles em Perigo, sendo dirigido pelo estreante em longas Paul Wright, antes havia em sua filmografia quatro curtas-metragens. O enfoque tem como tema a culpa de um jovem aparentemente desajustado numa paradisíaca ilha isolada na Escócia, em que é o único sobrevivente de um estranho acidente de um barco pesqueiro em alto-mar, tendo morrido seu irmão mais velho Michael e outros quatro pescadores. Uma inesperada tragédia que torna uma ida sem volta daqueles jovens, causando muita comoção na população.

Um drama com algumas similitudes com o fabuloso filme sobre perda e culpa, o holandês em coprodução húngara Em Silêncio (2013), da cineasta estreante Ricky Rijneke. Uma comunidade que está voltada para o folclore, onde existe como fato indiscutível a superstição de um monstro no fundo do mar. Todos sabem ou ouviram falar dele e a tradição é espalhada com o propósito de atormentar o acusado sobrevivente Aaron (George MacKay) pela inconsequência. O rapaz é visto como um exilado e sem papel definido no meio social entre os moradores, é escorraçado como um cachorro sarnento e enxotado de um lado para outro, como se vê na cena do pai rancoroso de uma das vítimas, ou na ameaça de morte do ex-sogro do irmão (Michael Smiley).

No filme Em Silêncio havia o tormento da irmã mais velha no papel da mãe e seu sentimento de culpa, com o esquecimento involuntário do trágico acidente ocorrido de automóvel, bem como a frustração de tristeza com a perda e o sonho não realizado; já em Para Aqueles em Perigo é o irmão mais novo que carrega esta carga emocional em relação ao mano vitimado com quem não tinha uma boa relação, disputava o mesmo espaço e se sentia humilhado e inferiorizado, tendo na figura carismática da mãe (Kate Dickie) entrando como o algodão entre os cristais. Sua interferência é oportuna e defende com sutileza seu filho desprezado pela sociedade hostil. Conta a lenda do fundo do mar para o filho, que pede para repetir numa cena que determinará o caminho a ser seguido pelo Aaron.

Diante do evidente questionamento pela autoria das mortes anunciadas e recusando-se a acreditar que realmente houve os fatos, o rapaz vai à procura do irmão com o intuito de trazê-lo de volta ao convívio dos vivos. Há uma sutil mescla de delírio pela crença mística com uma loucura sintomática pela perda da lucidez que corrói e esmaga sua consciência dentro de uma atmosfera de dor e revolta com misto de raiva e ódio, deixando margem para interpretação favorável dos seus detratores, diante dos sonhos delirantes que vêm perseguindo-o nas noites de pesadelo.

Há uma significativa mexida no roteiro que coloca ainda mais dúvidas sobre a realidade sobre os acontecimentos trágicos ocorridos, quando há o ingresso de Jane (Nichoa Burley), a namorada apaixonada de Michel que se aproxima de Aaron e cria um clima de fingimento de affaire, o que haverá desdobramentos e margens para mais dúvidas ainda, após algumas revelações.

A abordagem sobre os fantasmas da perda pela suposta culpa se entrelaçam no bom começo da história, apesar do longa se desenvolver com boa desenvoltura, porém o clímax vai esvaindo-se e o final inusitado apaga um pouco o brilho e tira a sustentação de uma obra com forma e efeito para reflexão mais apurada, diante da falta de coesão num roteiro dúbio e fraquejante. Há fatos desarmonizados com o contexto que se encaixam numa construção psicológica do protagonista para a simplificação esquizofrênica.

Eis um drama que falta um aprofundamento maior de causas e efeitos, visto aqui como lineares e carecedores de um mergulho no imaginário da comunidade de pescadores humildes colocados como algozes, diante da falta de um elemento de reflexão mais aproximado com a tragédia ali existente e sua densidade. Para Aqueles em Perigo é um filme razoável com uma boa proposta, mas que poderia alcançar um resultado melhor se fosse dirigido por um cineasta mais atento com o contexto e as revelações culturais localizadas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Em Silêncio)















Em Silêncio

Vem da Holanda em coprodução com a Hungria para arrasar na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o fabuloso drama Em Silêncio, com direção da jovem promissora estreante em longas Ricky Rijneke. Retrata a trajetória de partida de dois irmãos do Leste europeu para conhecer um mundo desconhecido, numa viagem sem destino. Não há um roteiro definido, mas a busca por uma condição de vida melhor para os dois, deixando o lugar de origem de poucas opções de trabalho para descobrir e desbravar novos horizontes. Uma viagem cega, às escuras, com sonhos a serem realizados, principalmente conhecer o mar inatingível. Uma ida sem volta, custe o que for necessário para cumprir a promessa.

Eis um drama sensitivo na sua estética, com força de construção de personagens, ao abordar a culpa, perda e solidão. Não há arrependimento da jornada construída, mas um sentimento arrasador de culpa da irmã, Csilla (Orsolva Tóth- de atuação impecável) pelo trágico acidente que se envolveu juntamente com o irmão mais novo Isti (Fatih Dervisoglu), onde desperta dentro de um carro tombado num local ermo e sem ninguém. A figura maternal está presente e investida claramente quando se responsabiliza pelo fato doloroso que antecipa e abrevia um sonho do garoto em chegar ao ambicionado litoral.

Há um claro questionamento pela interrupção brusca da viagem e seu objetivo, se foi por uma obra do acaso ou de uma desatenção negligenciada que corrói, rasga e dilacera a alma da protagonista. Mexe no cérebro e com o equilíbrio do espectador na sua plenitude, para uma reflexão até o fim da existência, sem ter a pretensão de chegar a algum ponto de vista definitivo, dá luz para um olhar frustrado que aflora desordenadamente, embora haja o impacto sensorial num presente e passado de névoa intensa para decifrar os enigmas da vida.

Um filme que vai do prólogo para o epílogo, com um retorno lento para dar uma suposta solução na densidade dramática espetacular num contexto de cenas que se tornam duras, com a frequente pergunta: “Isti, cadê você?” É uma realidade dolorosa pela presença rítmica bem elaborada de planos-sequência como uma essência do cinema. Há pouco diálogo na busca do indivíduo aterrado pela culpa e sua insignificância na vida. É inevitável não deixar de refletir sobre os fantasmas de um passado nem tão distante, bem mais próximo do que se imagina.

São personagens de grande humanismo que funcionam como elementos essenciais e são despidos com sensibilidade, apresentando suas dores, medos e ansiedades. O furto do colar com o peixinho é comovente e retrata metaforicamente o desenlace da trama na última cena como uma perda irreparável simbolizada, como se verá pelo nevoeiro que se aproxima e se distancia pelo enquadramento da câmera, no dia fatídico com a ida da vítima para um lugar imaginário no infinito, numa marcante imagem de uma tomada estupenda e reveladora. É o prólogo que está se decifrando no final e a solidão presente soma-se às perdas que ficaram pelos caminhos da vida.

A primeira separação dos irmãos se dá num posto de gasolina, na beira de uma estrada deserta, reduto de caminhões gigantescos e despersonalizados, nos remete como uma premonição da história. A antecipação como metáfora é o mundo imenso e rude com a solidão estampada de forma contundente, como retrata a cineasta no navio cargueiro que navega de um porto a outro sem se estabelecer ou criar vínculos. Pelo contrário, há uma brutalidade explícita como do chefe da embarcação (Roland Rába) que dá emprego à moça, mas cobra um preço alto para seu trabalho de auxiliar de serviços gerais.

Em Silêncio é um drama reflexivo e silencioso, como prometera o título, numa viagem beirando ao transcendentalismo, com soluções sugeridas por alegorias que comovem pela sutileza e as delicadezas apresentadas na trama, diante de um roteiro simples transformado num petardo estético de qualidade superior. A dança dos irmãos ao reencontrarem-se na lanchonete, após a primeira separação traumática, é um lirismo magnífico de doçura e amor, realizada com densidade, fluindo numa fotografia esplendorosa que fecha em algumas tomadas e abre em outras, bem secundada pela fascinante trilha sonora compatível ao clímax.

Um drama melancólico numa abordagem de culpa, perdas na vida e a solidão num mosaico surpreendente para uma diretora neófita, mas que chega a um resultado cinematográfico inesquecível com imagens e diálogos fluindo. Há um olhar de entendimento ao ser humano confuso e com a lucidez abalada, através de uma narrativa em flashbacks com equilíbrio técnico, num filme pungente e intenso com atmosfera de dor e revolta angustiante.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Dezembro)















Dezembro

A Coreia do Sul se faz presente na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo com o sensível filme Dezembro, do jovem cineasta estreante em longas Park Jeong-Hoon. É uma abordagem intimista sobre o lirismo entre dois adolescentes ainda sem experiências sexuais que desabrocham para o amor e a essência de viver num mundo em transformação cada vez mais violento e desregrado, deixando poucas opções para os enamorados e românticos remanescentes, diante de crises que levam à bancarrota sistemas financeiros, decorrentes da explosão da bolha imobiliária, numa fórmula de desgaste num capitalismo com evidência de esgotamento em seu modelo tradicional.

O ponto de partida está centrado na menina que quer andar de mãos dadas pelas ruas com sua paixão adormecida, no mês de janeiro, numa manhã qualquer, em uma cidade bucólica. Um filme que fala de amor, poesia e uma contida ternura entre o casal, especialmente o garoto tímido e com dificuldades de tomar atitudes mais ousadas. Entre eles está a amiga confidente da garota com seu amor beirando ao platônico, não por culpa dela, que exerce um jogo de sedução quase que irresistível. Uma espécie de brincadeira simbólica de gato e rato.

O cineasta buscou alternativas dentro de um belo e pitoresco romance juvenil, ao demonstrar sua insatisfação com a ocidentalização de seu país, diante da entrada galopante e desmedida de produtos tipicamente dos EUA, tais como o refrigerante Sprite, o salgadinho Doritos e o badalado de fast food McDonald's, entre outro tantos que assolam os coreanos. Eis um filme experimental nos seus 73 minutos de pura poesia e ressaltando a nova geração na iminência da decomposição de seus valores arraigados com vínculos de humanismo, embora sejam retratados o amor e a ingenuidade de puro lirismo numa era de amor virtual pela internet, com pessoas se relacionando apenas pelo computador, está bem equilibrado e harmonioso. Ainda que, nos planos sequenciais, haja às vezes o elemento da dúvida para o espectador, diante da desconstrução estrutural de uma narrativa com distorções das mudanças oriundas do tempo em dissonância do calendário andando lentamente sem um seguimento normal.

O drama romântico apresenta várias fases no relacionamento, entre elas a cooperação e a solidariedade entre os dois adolescentes, como ele sempre lendo ou ensinando matemática para a amada, como se fosse um alerta de um futuro que está cobrando um ensino com maior dedicação e determinação. Numa clara evidência de sugestão de uma perspectiva para quem se preparou melhor para o mercado de trabalho.

Dezembro é um gostoso longa de sugestões para concessões nas entrelinhas, através de sutilezas e delicadezas de um roteiro refinado e enxuto. O epílogo deixa margens para interpretações por uma dubiedade alicerçada pelo diretor, através de uma câmera estática captando as melhores imagens em grandes planos-sequência, usando as elipses nos momentos adequados. Retorna até a bomboniere, onde foram feitas a maioria das locações neste bem-vindo e salutar drama romântico voltado para o social, em formato experimental giza um tema tão esquecido e refutado: o amor e seus desdobramentos pelas suas deliciosas conquistas e perdas.

Mostra de Cinema São Paulo (Bellas Mariposas)















Bellas Mariposas

Vem da Itália a grande decepção desta 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o sofrível filme Bellas Mariposas, quarto longa-metragem do cineasta Salvatore Mereu, que tem em sua filmografia Ballo a ter Passi (2003), Sonetaula (2008) e Tajabone (2010). Aborda a ansiedade da juventude e os contrastes com os adultos num mundo surreal e inusitado por situações bizonhas sem um aprimoramento estético mínimo como condizente, beirando ao risível uma produção de pobreza franciscana e sem grandes ambições.

Antes de tudo, deveria ser uma comédia escrachada com pretensões de toques intimistas, porém tornam-se pífias e descambam para uma obra tosca e sem um mínimo de depuração. O que se vê é um filme mal conduzido e pior ainda é a produção cinematográfica despauperada, que se arrasta por uma eternidade de doer na alma, pela falta de uma estrutura narrativa compatível com o bom senso aguardado pelo espectador. Descamba para o grotesco em várias situações do cotidiano de uma escatologia escarrada: arrotos, defecações em penicos dentro de uma suposta banheira, escovação de dente com espuma caindo pela casa. Tudo isto complementado por um alarido ensurdecedor de falas desconexas e baboseiras sem sentidos.

Um longa em que o painel de personagens está repletos de clichês, para apresentar um desnível desmesurado e longe de alcançar um resultado com alguma proposta apreciável. A sensibilidade passou longe e sequer há um mínimo de sutileza, diante de uma câmera solta captando imagens sem sentido ou que pudesse contribuir com alguma coisa. Falar em cuidado estético seria pedir demais e inalcançável para ser respeitado com alguma seriedade para fazer parte de uma Mostra de Cinema. Não haveria necessidade de ser apelativo, caso tivesse alguma consistência de estrutura psicológica de personagens. Mereu deve ter pensado em realizar uma comédia felliniana ao montar um painel de tipos caracterizados na Itália do velho mestre e sua criação inesgotável, porém parou por aí. As duas meninas adolescentes e amigas próximas, que no final saberão realmente sobre suas identidades e paternidades finalmente reveladas, estão na maioria das cenas.

A história é contada na primeira pessoa para a câmera por Cate (Sara Podda) vivendo com seus irmãos na periferia paupérrima da Sardenha de poucas opções, pensa em sair daquele lugar barulhento para ser cantora, embora esteja ali Luna (Maya Mulas), a amiga para todas as horas. Não pensa em ter filho cedo, como sua irmã de 13 anos. Seu pai é um pária que se aposentou por invalidez, embora nunca estivesse doente, ou seja, sua enfermidade é ser um tremendo garanhão obsessivo que ataca todas as mulheres da comunidade. A garotinha busca uma alternativa bizarra para salvar o namoradinho que está ameaçado de morte pelo irmão, o bem dotado, terror das mulheres, tal qual o pai canastrão, porém há o outro irmão com tendência homossexual que sonha em jogar na Cagliari como atleta profissional. A mãe é uma faxineira noturna, mas também aposentada por invalidez e há ainda a piranha que todos pegam.

Bellas Mariposas tinha tudo para dar certo e ser uma comédia sobre a dignidade humana e seus valores que se esvaem por circunstâncias familiares de vínculos perdidos e violentados pelo meio, porém é colocado fora e a ideia de reflexão foi literalmente liquidada por uma direção inexistente pela falta de conhecimento sobre um cinema de qualidade aceitável, resulta numa obra infantojuvenil descartável, além da gritaria desconexa e ruim para os ouvidos desacostumados com baixarias.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (Miss Violence)




Miss Violence

Outro filme que é uma grata surpresa, possivelmente o melhor da 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, é este incrível drama familiar Miss Violence, do diretor Alexandros Avranas em seu segundo longa-metragem, antes realizara Without (2008), retratando a crise europeia através de uma metáfora sobre o patriarca (Themis Panou- impecável em sua atuação) que manda as mulheres da casa se prostituírem, tendo como objetivo claro colocar a família grega falando sobre sua sociedade desencantada e traumatizada com os duros rumos de seu país. Venceu o Festival de Veneza com ator e direção. Segue na mesma esteira crítica dos defeitos sociais demonstrados no outro filme grego, o badalado O Garoto que Come Alpiste (2013), do estreante Ektoras Lygizos, um drama social com tintas fortes de tragédia que perturba o mais distraído dos espectadores, numa fotografia de um país de mortos-vivos e amplamente liquidado.

O cineasta retrata alegoricamente para caracterizar o contexto formal de um filme seco e duro, com alguns elementos pouco sutis dentro de uma violência extraordinária pelo extremo das cenas chocantes. São enfatizadas pela retumbante perda da dignidade humana, diante de um realismo cênico nauseante de estupros e assédio sexuais na obra em seu todo, o que não descaracteriza a proposta, pelo contrário, a eloquência torna-o estupendo pela condução firme e sem firulas para demonstrar as sucessões de fatos intrigantes naquela família aparentemente serena, mas com um rombo na sua estrutura que está prestes a desmoronar, pois é sustentada por pilares podres na figura metafórica do abjeto patriarca.

O constrangimento vem junto com uma insustentável humilhação e a vergonha é imensurável no seio familiar deturpado. Tudo começa na fatídica festa de 11 anos de uma das netas, que pula da sacada e morre com um sorriso angelical estampado no rosto. Polícia e assistência social tentam desvendar o suicídio, mas encontram uma forte barreira para solucionar o intrincado caso. O avô é o mentor da dissimulação, a mãe (Eleni Roussinou- além de bela e uma ótima atriz) se submete por razões que não podem ser reveladas e a avó (Reni Pittaki- sóbria e eficiente) passiva e repugnante até a explosão de raiva e ódio. Todos escondem a verdade e o mistério ficará para ser solucionado no inusitado e bombástico final.

Avranas afasta a violência gratuita e foca sua câmera parada para capar as imagens virulentas de intolerância pelas reações com os contumazes tapas nas caras contrastando com o silêncio das refeições orquestrado pelo senhor todo poderoso e soberano, do alto de sua disciplina rígida e ferrenha para com filha, mulher e netos. Segue uma linha clássica de rigor formal ao melhor estilo de similitude e abrangência com A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, sobre fatos misteriosos que começam a acontecer entre os moradores pela conduta autoritária e centralizadora do protagonista e seus problemas de relacionamento, diante das crianças apresentadas como inocentes num ambiente de hipocrisias e mentiras, numa caracterização como a do médico que se relaciona com sua filha incestuosamente e que teria alguma responsabilidade na disputa pelo pai; também há subsídios evidentes de Volver (2005), de Pedro Almodóvar, aprofundado com sutileza o tema da pedofilia, envolvendo pai, filha e neta num relacionamento de incesto; sem esquecer a semelhança estética e o formalismo cênico de Luz Silenciosa (2007), de Carlos Reygadas.

Miss Violence é um filme que arrasa pela perversidade latente e com os desdobramentos explícitos naquela enigmática casa que não quer perder o auxílio da assistência do governo, uma espécie de bolsa-família brasileira, diante das terríveis dificuldades financeiras que assolam o país. As crianças são vistas com alguma inocência de pureza, embora quando deslizam são castigadas com violência física e psicológica, diante de uma educação ferrenha pelo medo e não do respeito, mantendo a punição como um ritual de um celerado.

A conclusão do filme embora sugira uma solução, pode também esconder os verdadeiros autores intelectuais da atrocidade. A hiprocrisia anda solta e de mãos dadas com as frequentes mentiras e arranjos para obscurecer a verdade que deve ficar completamente escondida das autoridades e do restante da febril sociedade debilitada, diante do delírio enlouquecedor de uma situação estática pelo pragmatismo de um suposto homem bom escondido atrás de uma moral de bons costumes estereotipados, cria-se uma loucura mental combalida de uma crise pela falta de dinheiro e emprego, sendo incluídos como base da culpa e da prepotência num sistema em que estão presentes a derrota iminente pela violência e a humilhação num ambiente hostil, atraindo a revolta e a vingança pela mutilação nesta mini obra-prima.

Mostra de Cinema São Paulo (Habi, A Estrangeira)















Habi, A Estrangeira

Vem da Argentina, em coprodução com o brasileiro Walter Salles, o drama familiar Habi, A Estrangeira, da cineasta estreante María Florencia Alvarez que também assina o roteiro. Foi bem recebido por público e crítica na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, abordando essencialmente a busca da identidade de uma jovem interiorana, recém-saída da adolescência que se converte radicalmente pelo fascínio da pregação do islamismo, vivendo uma inusitada e assumida crise existencial de valores e rumos a serem seguidos.

As produções do país vizinho têm características muito peculiares como a sutileza e a sensibilidade. Nos temas discutidos há a busca da simplicidade, deixando os grandes cenários em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e as conclusões filosóficas de vida e relações humanas tangenciadas pelo clima hostil ou pela solidariedade, como visto nas obras de Carlos Sorín com Histórias Mínimas (2002), O Cão (2004) e A Janela (2008); Pablo Trapero com Família Rodante (2004), Nascido e Criado (2006) e Abutres (2008); Lucrécia Martel com a obra-prima O Pântano (2001); Marcelo Piñeyro com o belíssimo Kamchatka (2002); Paula Hernández, com o comovente Chuva (2008), e outros tantos cineastas comprometidos com as coisas simples e belas da vida, muitas vezes invadidas ou perturbadas por problemas familiares, ou pela crise econômica que assolou o país vizinho e que ainda não se afastou totalmente.

María Florencia não chega a inovar e tem em Analia (Martina Juncadella- de ótima atuação e grata surpresa) deslocando-se do interior até Buenos Aires para entregar umas encomendas de sua mãe para clientes. Sua estada deveria ser rápida, pois os compromissos na sua cidade natal lhe aguardam, entre eles assumir o salão de beleza da família. Diante de um imprevisto na agenda de endereços, acaba por entrar numa comunidade muçulmana, logo se depara com rituais religiosos jamais vistos ou imaginados na sua cabeça. É presenteada pelos seguidores do islã com uma túnica, um mapa e uma receita estranha, tudo como se fosse uma mensagem repleta de mistérios para seu futuro ser mentalizado espiritualmente. A moça não hesita e assume uma identidade diferente, passando a se chamar Habi, ou Habiba, escolhido de um mural de avisos, para tentar descobrir os segredos e enigmas de uma nova personalidade de um mundo desconhecido.

A cineasta buscou numa mesquita muçulmana pessoas comuns que nunca foram atores, o que reforça o clímax e dá verossimilhança de realismo à narrativa, sendo que apenas dois são profissionais. É um filme sobre a busca da liberdade de uma garota de 20 anos que está enfastiada de sua vidinha provinciana e busca algo mais. Embora paradoxal, como afirma a diretora, a cultura islâmica pode ser vista como livre para a mulher nos seus propósitos de trilhar caminhos diferentes do habitual no cotidiano.

O drama é uma boa amostragem de personagens sofridos, como a prostituta sensível Marguerita (Maria Luisa Mendonça- está impecável e seu espanhol é corretíssimo) é oriunda do Brasil e torna-se amiga de Habi para chorar suas mágoas numa pensão de categoria de um prostíbulo de baixarias em que estão hospedadas, se vê envolvida por um homem que lhe bate e faz gato e sapato da coitada. A brasileira parece estar num outro planeta, pois seus dias são melancólicos e doloridos pela angústia da incerteza.

Habi, A Estrangeira é um longa-metragem instigante e tem méritos na pesquisa realizada por mais de seis anos nas mesquitas muçulmanas pela cineasta, uma dedicada e entusiasta sobre o tema religioso em questão. A abordagem da temática é aparentemente simples, porém interessante e nada convencional, se distingue pela originalidade de um roteiro enxuto e sem pirotecnias e nem panfletagens apelativas.

O equívoco da trama está na religião muçulmana criada por Alá e com seguidores fervorosos pelo Alcorão ser vista com complacência de um olhar de ternura pela realizadora, que demonstra admiração irrestrita pelos usos, costumes, tradição e fé nos templos islâmicos. Não há óbices e a reflexão é de pura aprovação pelos métodos aplicados como sendo inquestionáveis. Eis um filme argentino que não empolga pelo seu conteúdo de ausência de contestação, mas que possui uma técnica aprimorada pela narrativa consistente com enquadramentos de sequências de aproximação e alguns closes em harmonia, secundados por uma bonita fotografia, deixando esmaecer e desbotar no quarto e nas situações sem glamour para dar um realismo contundente.

Debate em São Paulo

Após a exibição do filme, a diretora María Florencia Alvarez participou de um bate-papo com o público. Durante a conversa, a cineasta falou que o construção da criação da identidade da protagonista esteve baseada em um fato conhecido em 1999, que desenvolveu por anos e chegou até a realização do roteiro; quanto a utilização da atriz brasileira Maria Luiza Mendonça foi por indicação de seu coprodudutor Walter Salles, em que esteve acertado para a personagem Marguerita; falou sobre os pais de Habi como sendo importantes, embora ocultos e que deram uma boa dimensão ao filme, mesmo sem se mostrarem explicitamente; buscou na cultura dos muçulmanos uma liberdade da protagonista e falou sobre o papel da mulher islâmica, ainda que possa parecer estranho para nós, mesmo sendo um paradoxo, são personagens reais da mesquita e não atores profissionais, exceto apenas dois deles.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (As Terras Frias)



As Terras Frias

Vem dos EUA o filme As Terras Frias, do diretor Tom Gilroy em seu segundo longa-metragem, antes realizara Spring Forward (1999). É uma produção independente que causou boa impressão na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo, enfoca de maneira direta e bem criativa a recente crise dos norte-americanos, que levou à bancarrota o sistema financeiro, logo após a explosão da bolha imobiliária, numa intrincada e intrigante fórmula de um capitalismo selvagem com evidência de esgotamento em seu modelo clássico.

A trama se desenrola com o filho Atticus (Silas Yelich) vendo sua mãe (Lili Taylor) gravemente enferma que se recusa a realizar um tratamento médico adequado. Moram como se fossem reclusos numa casa velha de madeira encravada na entrada de uma imensa floresta e sem luz. Ela é faxineira e ele mantém de reciclagem de objetos descartados à beira da estrada. Com o falecimento prematuro da genitora, o jovem de apenas 11 anos se vê obrigado a abandonar o lar, tendo em vista que o pai é ausente e os vizinhos distantes não são confiáveis, embrenha-se no bosque fechado à procura da sobrevivência mais segura, o que é contraditório para as circunstâncias climáticas e a falta de suprimento para viver.

O diretor utiliza-se de um artifício bem recorrente no cinema, quando traz para o enredo novamente a figura materna para dar assistência espiritual e a condução empírica do menino para desatar e retirar seus traumas com as pessoas que tentam se aproximar de uma forma ou de outra. Segue na esteira da inspiração e da visão com o infinito depois da morte o extraordinário longa filipino Independência (2009), de Raya Martin, abordando uma mãe fugindo com seu único filho para o meio da floresta, às vésperas de uma invasão e seu exílio no interior de uma selva indevassável, em precárias condições para um ser humano, dentro de uma choupana construída com pedaços de paus e capim como telha com a morte rondando; o outro é o cultuado Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, do diretor tailandês Apichatpong Weerasethakul, diante da escolha do protagonista para passar seus últimos dias no meio da floresta, amparado pela cunhada e por um sobrinho que faz seus curativos, adequando os aparelhos no seu corpo para ajudá-lo a vencer a enfermidade que o atormenta, deixa-o cada vez mais agonizante, para imergir num clima transcendental.

O longa dá uma grande guinada no roteiro do meio para o epílogo, com o surgimento inesperado de um rapaz hippie (Peter Scanavino), um típico americano representante do movimento da contracultura dos anos 1960. Planta e fuma maconha, adepto do nudismo com os amigos nos acampamentos que frequenta, contrário a furtos, ensina seu amigo fazer para vender artesanato como forma de sobrevivência digna, passa a proteger Atticus como se fosse seu irmão caçula, depois que o garoto órfão passou por poucas e boas, comendo folhas no mato e devorando restos de comida nas lixeiras, surge um novo horizonte no futuro.

As Terras Frias desemboca e segue uma trajetória no final para o recente Na Estrada (2012), dirigido por Walter Salles, sobre o best-seller de Jack Kerouac On The Road, de 1957, centralizando seus personagens numa viagem existencial improvável, de rumos irrefreados, apenas tendo como lema a inspiração para viver bem longe de um universo incerto pelos dogmas e normas, recriando a saga da contracultura dos jovens perdidos no mundo do pós-guerra, deixando nítidos os reflexos violentos do período da Grande depressão americana de 1929. Já Gilroy busca elementos que indicam uma crise sem precedentes e que dá rumo e destino após a generalizada quebradeira decorrente de um abalo financeiro inimaginável, deixando bons subsídios para uma reflexão desapaixonada, diante das referências familiares e de solidariedade neste instigante drama social.

Mostra de Cinema São Paulo (O Garoto que Come Alpiste)



O Garoto que Come Alpiste

Um filme surpreendente na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo é este instigante O Garoto que Come Alpiste, do estreante Ektoras Lygizos, digno representante de seu país para uma das vagas ao Oscar de 2014, ao retratar de forma comovente a falência da Grécia, tem no título a reflexão literal do desenrolar da trama e o modo de sobrevivência de Yorgos (Yannis Papadopoulos- de estupenda interpretação), um jovem cantor de 22 anos, sem namorada e sem comida, morador em Atenas em meio a crise europeia vem perder o emprego. As latas de lixo são sua fonte de sustento e ainda busca desesperadamente sobras na vizinhança para saciar a fome, além da ração de seu passarinho de estimação.

O diretor utiliza-se de uma metáfora dolorida para mostrar o único companheiro do rapaz, um canário engaiolado, preso como seu dono e enrolado na bandeira de seu país quebrado em todos os sentidos, sem uma perspectiva de restabelecimento na economia. Enfatiza a falta de suprimento para uma retumbante perda da dignidade humana, através de cenas chocantes pelo uso da escatologia. Neste aspecto Lygizos exagerou e equivoca-se ao não sugerir ou utilizar uma elipse para mostrar o sêmen como alimento após a masturbação, ou ainda a lavagem da latrina com água mineral para propor um realismo cênico nauseante, embora não chegue a comprometer a obra no todo.

Uma crise sem precedentes com a desvalorização da moeda euro que atingiu países fortes economicamente como a Grécia. Afeta em cheio o protagonista que sente a degradação humana lhe corroer dia após dia. O constrangimento vem junto com uma insustentável humilhação e a vergonha é imensurável, pois sequer consegue passar para a própria mãe pelo telefonema realizado entre os dois, diante de sua miséria física e o estado de espírito combalido. Uma perturbação avassaladora que acaba por lhe induzir em vender tudo o que ainda resta para ganhar algumas parcas moedas.

Eis um drama social aprofundado através da performance de Yorgos como homem mostra-se abalada, afetando inevitavelmente sua virilidade e por consequência a autoestima. Seu único contato com o mundo exterior é perseguir uma bela moça recepcionista de um hotel, logo após ser despejado. Nutre um carinho especial pela sua musa, diante da iminência de começar a sofrer um processo de deterioração mental e a lucidez se esboroando gradativamente, reduzindo sua aptidão e sua libido desaparece.

Um filme silencioso e com raros diálogos que reflete um país falido e sem condições de reagir, como se faltasse combustível para uma energia humana prostrada diante da perda de suas referências, como o vínculo familiar, como se vê na senhora da igreja simbolizando a mãe, ao cantar com todo denodo e força de seu coração, demonstra entusiasmo e afeto materno já quase que esquecidos pelo tempo e pelas derrotas inevitáveis que a vida teima em aplicar sistematicamente nesses anos de extrema dificuldade financeira.

O Garoto que Come Alpiste é um belo e paradoxal dolorido drama social com tintas fortes de tragédia grega, que perturba o mais distraído dos espectadores. Numa condução frenética do cineasta com sua câmera na mão para captar as imagens degradantes de um trêmulo jovem derrotado e suas vertigens decorrentes da fome que o consome, retratada de maneira nua e crua, sem rodeios ou sutilezas que ficam de lado. Uma fotografia de um país de mortos-vivos e amplamente liquidado.

domingo, 20 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (O Lobo Atrás da Porta)



O Lobo Atrás da Porta

A aguardada promessa O Lobo Atrás da Porta, do cineasta paulista estreante Fernando Coimbra, surpreendeu de maneira agradável na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo. O clássico triângulo amoroso já rendeu vários bons filmes pelas mãos de diversos cineastas pelo mundo, entre os quais os brasileiros Beto Brant e Renato Ciasca, no recente e denso Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios (2011), com Camila Pitanga arrasando. Coimbra incursiona também pela paixão entre três seres distintos neste instigante e desmistificante misto de suspense policial com drama familiar, que lhe rendeu o prêmio de melhor filme do Festival do Rio de Janeiro deste ano, dividindo a premiação com De Menor (2012), da neófita Caru Alves de Souza.

A trama tem no vértice a sensual e competente Leandra Leal, que encarna de forma despudorada a amante jovem instável de belo corpo Rosa. Nos outros extremos estão Sylvia (Fabíula Nascimento), no papel da esposa traída e vitimizada pela dor da perda; e o marido Bernardo (Milhem Cortaz- em grande forma, está num crescendo no cenário cinematográfico), encarnando o traidor do cotidiano e sem grandes compromissos amorosos, praticando apenas uma rápida escapadinha, como afirma para o delegado (Juliano Cazarré- ainda que num papel secundário, está impecável).

Aproveitando mote do romance proibido, o diretor busca desmistificar e lançar um olhar de imparcialidade para “A Fera da Penha”, personagem da década dos anos 60, ao mostrar as duas versões recorrentes sobre o rapto da filha do casal, em que o caso rumoroso do Rio de Janeiro lhe serviu de inspiração e não como uma adaptação simples do fato real, como afirmou no bate-papo após a apresentação do longa. Os depoimentos na delegacia são desencontrados dos pais da criança e não há verossimilhança plausível com as alegações da principal suspeita Rosa. Surge uma outra personagem na história, onde há uma suposta traição da mãe da garotinha, ao tenta-se inviabilizar cada vez mais o direcionamento das investigações policiais.

Coimbra não se debruça especificamente pelo ângulo do suspense policial e aos poucos a trama direciona seu foco para as versões e busca elementos intrigantes nas relações atribuladas da protagonista na sua paixão avassaladora pelo homem casado. Cria uma inusitada amizade insólita com a esposa traída e faz uma encenação que a coloca dentro da residência do casal. Simula situações estranhas e vai tomando conta e se adonando das peculiaridades da arquirrival e de sua filha na creche. Ao assumir a identidade de Sylvia, a lucidez começa a se esvair e a loucura vai se incrustando lentamente até atingir um grau máximo de descontrole e desatinos próprios de uma mulher desprezada.

O filme mostra aspetos típicos de um outro Rio de Janeiro, o lado menos conhecido e estigmatizado das estações de trens na zona norte suburbana. Foi lá que Rosa conheceu Bernardo e as mentiras se sucederam, desde o primeiro encontro, sob a alegação de não perdê-la e as invenções da amante para se aproximar de Sylvia. Há uma boa dose de densidade aos personagens evidenciados em cada cena que avança até o epílogo, fluindo em belas imagens de uma fotografia esplendorosa que fecha em algumas tomadas e abre em outras de dias ensolarados, nublados e chuvosos para acompanhar a transformação do romance. Estão bem secundados pelo som e a trilha sonora compatíveis e adequados ao clímax, entrecortadas por cenas apimentadas de sexo com um erotismo de muita sensualidade apanhadas por uma câmera estática à espera do amor, paixão e da loucura.

O drama familiar passa a ser o foco principal e vai crescendo aos poucos, numa clara premonição metafórica pela tempestade decorrente de um grande temporal com raios que desaba numa noite de amor entre as duas criaturas inseguras com o futuro. Soa como um final com tendência de tragicidade. O diretor inclina-se pela abordagem sem culpa específica e com um olhar de entendimento ao ser humano em confusão e com perda dos sentidos lúcido numa narrativa em flashbacks bem explorado. Mas há o fator do aborto a incomodar e cutucar a protagonista e sua visão de perda e insatisfação com uma realidade pessimista e sem perspectiva.

O Loba Atrás da Porta é um filme pungente e de bastante intensidade no seu desenrolar. Aborda o cotidiano de sons de batidas, gritos, o apito e o barulho dos trens entrando pela janela no encontro da amante e da esposa com magnífica discrição, sem causar medo da perda, diante da impossibilidade pelo desconhecimento da situação criada patologicamente para a reviravolta que o futuro reserva aos fantasmas que estão rondando. É criado um realismo cênico para dar um clima adequado na atmosfera de dor e revolta neste magistral drama angustiante de reflexão realizado por um cineasta promissor, que faz pensar e tentar entender o universo humano.

Debate em São Paulo

Após a exibição do filme, o diretor Fernando Coimbra e os atores Milhem Cortaz e Leandra Leal participaram de um bate-papo com o público. Durante a conversa, o cineasta falou que o caso real chamado de “A Fera da Penha”, nos anos 60, Rio de Janeiro, apenas serviu de inspiração e não adaptação para seu longa-metragem; quanto ao aborto não houve uma investigação profunda e apenas indícios de depoimentos, tendo em vista que houve muita pressão da imprensa e da sociedade para condenar a amante; achou na zona norte do Rio para um cenário de realismo com estação de trens; buscou um cenário diverso com sol, nuvens, chuva e sons do cotidiano para dar uma atmosfera consistente da transformação do caso; a trilha sonora e o som estavam harmonizados com o desenrolar da trama; entende que seu filme é mais um drama do que um suspense policial. Já a dupla de atores, Milhem e Leandra, reforçaram que o roteiro é muito maduro e que seguiram o que o diretor determinou, sem grandes invenções espontâneas, principalmente nas tórridas cenas de sexo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Gravidade


















À Deriva

Não há os urros do gorila com o osso na boca atirado ao ar pelos homens das cavernas até as imagens futurísticas que metamorfoseiam uma nave para a reflexão do isolamento espacial, na antológica cena ao som da valsa espacial Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, na obra-prima de ficção científica 2001- Uma Odisseia no Espaço (1968), dirigida espetacularmente por Stanley Kublick, para um saboroso mergulho no futuro da humanidade. Não havia na época os recursos sofisticados do 3D que dão suporte ao filme Gravidade, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, reconhecido pelas obras E Sua Mãe Também (2001) e os hollywoodianos Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e Filhos da Esperança (2006), seu filme anterior.

Embora seja uma trama simples, Gravidade é um forte concorrente ao Oscar de 2014 e Hollywood aposta todas as fichas nesta obra ficcional muito superior a Avatar (2009), de James Cameron, mas bem aquém de Alien, O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott; Solaris (1972), de Andrei Tarkovsky; Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas, bem como não está nem próximo de 2001.., de Kublick. O filme tem como roteiristas o próprio Cuarón e seu filho Jonás, para uma produção orçada em US$80 milhões assinada por David Heyman. Mesmo que não comprometendo no todo, há demasias por alguns equívocos que refogem da livre licença poética criativa e vão de encontro ao bom senso, tornando-se em absurdos espetaculosos memoráveis como a queda livre do espaço até o mar, com a pronta e intacta recuperação da personagem transformada em heroína, após uma odisseia pelo espaço sideral flutuando no universo de estrelas, planetas e meteoritos em transformações desencontradas.

A trama tem bons momentos cinematográficos e é um filme realizado para ser visto especialmente em 3D. Conta a história de uma dupla de astronautas numa operação rotineira no lado externo da nave mãe, onde os personagens trabalham e ao mesmo tempo se divertem muito, com boas tiradas irônicas e sutis nos diálogos do veterano, já prestes a se aposentar, Matt Kowalsky (George Clooney) com a neófita, ainda em fase de adaptação, doutora Ryan Stone (Sandra Bullock- na melhor interpretação de sua carreira). Porém, um grave incidente é provocado pelos russos e coloca o ônibus espacial à deriva, deixando a dupla atônita, através de um clima sufocante e com uma agonia quase sem fim transmitida ao espectador no desenrolar do longa-metragem. Há méritos inegáveis nesta fase indefinida da obra ficcional, provocando ansiedade e expectativa quanto ao futuro do casal completamente perdido na imensidão do espaço.

Um filme que busca reforçar a luta pela sobrevivência, como uma ode de valoração à vida, coloca o espectador dentro da nave em algumas cenas tensas, já em outras é visto fora e flutua na estratosfera cósmica, mas em outras acompanha o drama dos personagens pela visão lateral do capacete, com movimentos horizontais e verticais da câmara para causar vertigens. Fica assim evidente o ar rarefeito e seus efeitos que causam uma respiração ofegante em Stone, que repassa para a plateia angustiada e sufocada pela falta de oxigênio, afastando a mera contemplação.

Cuarón é um diretor que não abusa da pirotecnia, embora pudesse fazer uso desmedido da técnica tridimensional, está contido e busca o equilíbrio sem ser omisso, estando aí uma das grandes virtudes como realizador. Usa os efeitos especiais adequados dentro de uma atmosfera num universo planetário a ser fustigado pelo homem que quer descobrir o enigma das galáxias. Um filme onde o silêncio é quebrado apenas pela música de fundo vinda de muito longe, diante da sutil e comovente cena da protagonista ouvindo latidos de cachorros e crianças sendo embaladas por cânticos de ninar na plataforma chinesa, que surge como símbolo da salvação e da solidariedade aos americanos, contrastando com a perversidade dos eternos inimigos russos.

Eis um filme de ficção científica com reconhecidos méritos, mas que contém algumas cenas previsíveis como da ciência inabalável e indestrutível, diante da fé ardorosa de um povo que nasceu para vencer. Obviamente que não falta o heroísmo desbragado pela paixão nacionalista sem limites, numa louvação de enaltecimento desproporcional do patriotismo salvador para um encerramento decorrente de uma situação inverossímil que se torna realidade e base de esperança, principalmente para os estúdios de Hollywood e sua vocação para o vitimismo inicial e os atos heroicos espetaculares no epílogo, ressalvando-se o clímax narrativo aprimorado. Talvez aí o mérito maior de Cuarón com a tensão sendo mantida, intercalada com algum humor para descontrair, mostrando uma realidade falsa advinda da ficção.