quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

London River- Destinos Cruzados



Diferenças Étnicas e Religiosas

O diretor franco-argelino Rachid Bouchareb é um cineasta voltado para os preconceitos étnicos dentro dos países europeus, especialmente França e Inglaterra, onde ele tem realizado suas películas doloridas e questionadoras, abordando as diferenças raciais, os conflitos religiosos e a independência dos povos massacrados pelo imperialismos dos mais fortes e donos de um poder econômico que suplanta as camadas menos abastadas.

A trajetória de Bouchareb tem como marco o notável longa-metragem Dias de Glória (2006), ao abordar em 1943, a saga de milhares de soldados das colônias francesas na África irem lutar na Europa na 2ª Guerra Mundial e ajudar a libertar uma pátria-mãe na qual nunca antes haviam estado, lidando com o preconceito existente ao mesmo tempo em que lutam pela vitória da França. Já Fora da Lei (2010), debruça-se sobre os problemas enfrentados pelos descendentes da Argélia para conquistarem sua independência da França, acontecendo somente em 1962, depois de um banho de sangue, onde morreram milhares de inocentes, tanto argelinos como franceses. Abre feridas e toca em questões cruciais como a luta pela independência da Argélia dentro da França e a existência de guerrilhas francesas estimuladas por suas autoridades, onde a história se sobrepõe as barbáries e agressões explícitas apresentados de maneira nua e crua, sem abusar da violência gratuita. A luta dos povos africanos colonizados, saturados e cansados de serem humilhados pelas suas colônias imperiais, começaram a dar um basta, tendo a Argélia despontada como uma das primeiras a se rebelar, tem a dignidade e o orgulho deste cineasta em colocar com toda contundência neste filme universal e maior.

Agora Bouchareb lança seu último longa London River- Destinos Cruzados, tendo por mote os pais à procura de seus filhos desaparecidos na capital Londres incendiada, numa Inglaterra de diferenças multiétnicas, porém efervescente por atos terroristas com dezenas de mortes em atentados, num filme silencioso e que tem na busca incessante de dois jovens enamorados sumidos num certo dia de julho de 2005. Percebe-se a inspiração no longa iraniano O Caçador (2010), de Rafi Pitts, bem como avança na xenofobia e abordagem extraordinária em Bem-Vindo (2009), de Philippe Lioret e o não menos apreciável e devastador O Visitante (2007), de Tom McCarthy. Mas também encontra similitude pela aproximação religiosa cristã com muçulmano e ataques terroristas no belíssimo Hadewijch (2009), de Bruno Dumont

A obstinada procura e o desespero daqueles pais, sendo que Elisabeth (Brenda Blethyn, melhor atriz em Cannes por Segredos e Mentiras (1996), em mais uma notável atuação), é uma mãe viúva que toca uma pequena propriedade rural numa ilha inglesa; o outro é o técnico ambiental Ousmane (Sotigui Kouyaté, em grande desempenho, vindo a falecer em abril de 2010, aos 73 anos, vencendo antes em fevereiro, como melhor ator no Festival de Berlim), um pai que vive na França, mas originário de um país distante da África. Nenhum dos pais sabiam o que realmente faziam seus filhos em Londres. Prova cabal do desconhecimento e ausência paterna. As cenas vão mostrando e plasmando uma evidência, tendo Ousmane visto seu filho pela última vez na África, quando ainda era criança, como confessa em tom culposo. Elisabeth admite que perdeu o contato com sua filha, mesmo deixando recados e mensagens suplicantes no celular, a falta do retorno é a indicação da perda do vínculo familiar.

A angústia avança e os dias conduzem para um pessimismo realista do bem maior que são seus filhos. A polícia não tem resposta concreta para aquelas criaturas que aos poucos vão deixando as diferenças de lado e os preconceitos para trás, especialmente Elisabeth, uma inglesa que simboliza todo o racismo e diferenças éticas estampados e deflagrados nas atitudes e palavras jocosas para com Ousmane, aquele africano pobre e pai do namorado de sua filha. Cria-se uma amizade entre os pais que acabam dormindo, como bons amigos, no mesmo apartamento que abrigara o casal desaparecido. Há o respeito de seus espaços e dos dias melancólicos que vão se passando com a velocidade da dúvida e da esperança perdida, após as peregrinações por hospitais e necrotérios, reduzindo as diferenças religiosas e unindo-os pela fé.

Apesar de não ser o que de melhor realizou Bouchareb, tendo em vista que Fora da Lei, sua obra-prima, que deve estrear no Brasil neste verão, e que passou recentemente na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, e o magnífico Dias de Glória; fica o legado e a proposta sensível e sutil deste cineasta das indiferenças e preconceitos, neste bom longa-metragem London River- Destinos Cruzados, que tem emoções dentro da razoabilidade, nunca fora de ponto, afasta a pieguice com classe, deixando uma boa reflexão para os defensores da xenofobia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os 10 Melhores Filmes do Ano



Como é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos em 2010, também estou elencando o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. O Segredo dos Seus Olhos (foto acima), de Juan José Campanella;

02. A Origem, de Christopher Nolan;

03. Um Homem que Grita, de Mahamat-Saleh Haroun;

04. Vincere, de Marco Bellocchio;

05. Tropa de Elite 2, de José Padilha;

06. A Fita Branca, de Michael Haneke;

07. Film Socialisme, de Jean-Luc Godard;

08. O Escritor Fantasma, de Roman Polanski;

09. As Melhores Coisas do Mundo, de Laís Bodanzsky;

10. Mother- A Busca pela Verdade, de Bong Joon-ho.

Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:


- À Prova de Morte, de Quentin Tarantino;
- Coração Louco, de Scott Cooper;
- Mademoiselle Chambon, de Philippe Lioret;
- Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar, de Christophe Honoré;
- Tudo Pode dar Certo, de Woody Allen.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A Rede Social



Rede Controvertida

A criação do website Facebook é o núcleo da trama, ao mostrar toda confusa, controvertida e renhida disputa judicial de uma das redes mais famosas do mundo, propiciando este fenômeno de bilheteria A Rede Social. Surge, então, toda a genialidade criativa daquele aluno da faculdade de computação de Harward, o nerd Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg, em atuação impecável e convincente, falando por compulsão como se estivesse programado por um computador). A direção é do emergente cineasta americano David Fincher, o mesmo do muito bom Clube da Luta (1999) e do discutível O Curioso Caso de Benjamin Button (2008). O longa foi baseado com adaptação livre do livro Bilionários por Acaso- A Criação do Facebook, de Bem Mezrich.

O drama repete incessantemente a fala do obstinado fundador Zuckerberg "nunca estará pronto, vai estar sempre crescendo", como seu lema de vida, logo após ter tomado um porre monumental pela perda da namorada, começa a se dedicar em sites de relacionamentos de intrigas e fofocas de colegas da universidade, colocando on-line as estrepolias de seus pares e as orgias eram jogadas nas telas sem pudor ou qualquer tipo de precaução, com truques realizados para atingir e ferir, não importando quem fosse o alvo.

Os gêmeos remadores Winklevoss (Josh Pence e Armie Hammer), embora estivessem sempre treinando nas belas águas do rio, pressentindo ali uma mina de ouro, trataram de se aproximar do nerd e deram a ideia da fundação de algo mais contundente como um site universal, supostamente os idealizadores do Facebook. Entra em cena em seguida o jovem brasileiro criado em Miami Eduardo Saverin (Andrew Garfield), como o administrador, pois sua formação é economia, vindo a alegar no judiciário ser o cofundador, pois seria também parceiro de Zuckerberg na empreitada. Mas tem ainda o cofundador do site de músicas Napster, o irreverente e mulherengo Sean Parker (o cantor popstar Justin Timberlake).

A Rede Social é um filme de estrutura simples e um ritmo acelerado, tendo na batalha judicial do brasileiro Saverin o fio condutor para trazer em flashbacks as negociações, armadilhas e disputas ferrenhas para a criação deste famoso website, tendo cadastrado mais de 500 milhões de usuários e um patrimônio avaliado em 25 bilhões de dólares, por isso as artimanhas e filigranas jurídicas são conduzidas em grande parte da película ao extremo, pois as amizades e as parcerias vão dando lugar para o ódio e o rancor daqueles garotos outrora amigos e colegas, todos estudantes de um universidade classe média alta.

O proprietário do Facebook é seguramente o jovem mais rico do mundo na atualidade e já é comparado ao bilionário Bill Gates dono da Microsoft. Não mede esforços e a ética fica para trás, parecendo que a frieza e seu estilo compenetrado e sério, com uma risada nervosa, pouco se importando para as consequências nefastas que vier a acontecer. Não tem escrúpulos e o pragmatismo é sua arma principal. Se tiver que tirar alguém de seu convívio, caso esteja dificultando seus negócios, faz qualquer coisa, até uma armação para a polícia invadir determinado local, onde rola uma festinha com muita bebida e droga, comandado pelo parceiro Sean Parker, que passara a ser um incômodo, a partir de determinado momento de sua ascensão.

Tanto o criador como sua rede social de relacionamentos não têm limites de crescimento, pois sempre superou as posteriores similares como Orkut, Twitter, MSN e outras. Porém, o preço é caro e as acusações de infidelidade e os direitos desrespeitados são a tônica do filme, ainda que muitas decisões judiciais fossem desfavoráveis a Zuckerberg, nada impediu a estratosférica consagração do Facebook, neste bom filme do cineasta Fincher, que certamente arrebatará muitos prêmios nas festas do Globo de Ouro e o Oscar, pois é uma típica obra hollywoodiana, nos moldes dos espectadores americanos.

Cabe ressaltar que agora com a repercussão mundial de outro site polêmico como o WikiLeads e a prisão de seu fundador Julian Assange, certamente alavancará ainda mais as bilheterias e as estatuetas virão aos borbotões, mesmo que seja uma obra apenas boa, sem maiores eloquências cinematográficas, destacando-se a bela trilha sonora de Trent Reznor, como um achado inquestionável, na magnífica cena da competição de remo na Inglaterra.

É um longa-metragem voltado para a ética e os desmandos, bem como o dinheiro se sobrepondo às amizades, o turbilhão dos negócios efetivados a qualquer preço e a ganância financeira como símbolo da prepotência humana, com causas e consequências irrefreadas no mundo e no universo do poder onipotente da internet, nesta virada do milênio, funcionando como um fonte arrecadora inimaginável.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Film Socialisme















A Contestação de Godard

O octagenário Jean-Luc Godard nunca foi um diretor acomodado ou de filmes fáceis. Notabilizou sua filmografia por um estilo sempre recheado de alegorias e metáforas, como em Nossa Música (2004), Elogio ao Amor (2001) e Nouvelle Vague (1990); porém seu longa menos denso, discursivo e por vezes enigmático, talvez seja o magnífico O Acossado (1979).

Em Film Socialisme não foge a regra e deslumbra com seu magnetismo singular, diante das citações filosóficas, buscando nas lembranças de um passado repleto de acontecimentos históricos, que aos poucos irão se desnudando e o mosaico de fatos contestados vão desfilando em imagens colocadas na cabeça do espectador, fazendo-o imaginar e dar vida as mesmas, viajando pelo mundo de tantas injustiças e segregações. Godard dividiu seu longa em momentos cruciais, como se fosse uma ópera bufa. Ou seja, o primeiro Coisas Assim, se passa numa viagem pelo Mar Mediterrâneo num cruzeiro, com conversas em vários idiomas entre os passageiros; o segundo movimento é Nossa Europa, onde há o questionamento de dois irmãos, refletindo sobre a liberdade, igualdade e a fraternidade, lema da Revolução Francesa em 1789; o terceiro e o melhor sem dúvida é Nossas Humanidades, sobre a falsidade e a verdade de alguns mitos de países que são visitados, como Egito, Palestina, Grécia, Odessa, Nepal e Barcelona, servindo como uma revisão histórica pelo cinema.

A viagem se inicia pelo cruzeiro que singra calmamente aquele mar num tom azulado esplendoroso, de Alger a Barcelona, com passagens por Nápoles e algumas cidades do Oriente Médio, tendo em seu interior as distorcidas imagens captadas como se fossem por uma câmera de segurança. Ali há diálogos desencontrados e dispersivos em idiomas diversos, tendo um criminoso de guerra, uma ex-oficial da ONU, uma cantora negra americana, um embaixador da Palestina, um filósofo, e tantos outros. Os personagens vão se encontrando e as multietnias se interagem, com questionamentos exemplarmente confrontados e contestados. Nada escapa da câmera, como o som abafado e a falta de diálogos na boate do cruzeiro, apenas os corpos rebolando e dançando freneticamente, tendo nos garçons e barmans amplamente focados, demonstrando um certo desinteresse e às vezes pasmados com as tolices ouvidas de pseudos intelectuais.

Inicialmente o filme gira e anda pelos corredores, passando do quarto para o convés, da pista de dança para os diálogos entrecortados e murmurados como se as legendas derivassem de escritas de povos alienígenas, numa crítica social a própria Europa que se enche de orgulho e rejeita os demais como se fosse a toda poderosa e dominadora. Começa naquele mar turvo e revolto e aos poucos vai ao encontro da placidez e da calmaria das águas azuis-turquesa. No segundo ato ou momento, o mais fraco deles, mostra uma equipe de TV registrando as peculiaridades e o dia a dia de uma família interiorana da França. A jornalista branca representa uma Europa decadente, tendo ao seu lado a fotógrafa negra como simbologia da África, observadas atentamente no posto de gasolina por um burro e um dromedário, indiferentes as loucuras da humanidade. Já na cena anterior uma referência a Honoré Balzac, através do livro Ilusões Perdidas, como metáfora de uma geração desiludida.

Em seguida, passamos para o terceiro ato, com as cenas chocantes das guerras e golpes militares, enfatizando com clarividência o Nazismo, a bolsa de valores com o suposto dinheiro de ganho fácil, tendo suas consequências nefastas e antiéticas. Há frases de efeito sobre o dinheiro inventado para que os homens não precisassem olhar nos olhos dos coirmãos. Menciona o excesso de livros e a literatura num continente fora da realidade, voltado para o irreal e fictício. E a não menos bela cena da visita à escadaria de Odessa, que serviu de cenário do filme- que teve a cena antológica do berço do bebê que teve a mãe assassinada descendo pelos degraus, no famoso massacre dos marinheiros- a obra-prima Encouraçado Potemkin (1925), de Sergei Ensenstein, sobre a Revolução Russa de 1905, contra a tirania do regime czarista.

Godard deixa o filme fluir num roteiro que parece frouxo e prolixo por vezes, mas retoma e estrutura os três momentos com grande eloquência, dando eficiência, não deixando os enigmas sem solução ou uma posição como resposta aos diversos questionamentos lançados no prólogo. Inegavelmente não podemos deixar de lembrar de Manoel de Oliveira, na obra-prima Um Filme Falado (2003), como inspiração e porque não uma homenagem ao jovial centenário cineasta portugês. Um tributo merecido, ainda que de modo sutil, mas com todo frenesi e amor ao cinema.

Não é um filme para neófitos ou aqueles acostumados com uma estrutura de roteiro convencional de início, meio e fim. É uma película que aborda nas entrelinhas os preconceitos raciais e as diferenças entre povos de etnias diversas, bem como os valores éticos e morais literalmente feridos e arranhados, colocando com precisão as elipses entre as cenas sequenciais. Não há pieguices, embora esteja atento as peculiaridades, mas dentro de seu estilo formal e irreverente paradoxalmente. Às vezes, com rigor e em outras solta a câmera, dentro de seu modo de conduzir com sutileza, resultando neste inventário de suas obras para uma posteridade digna e merecedora de todos os aplausos, mesmo que restrito a uma seleta gama de espectadores.

Dizer que é um filme perturbador é pouco; dizer que é um inventário histórico, filosófico e intelectual, também seria um análise de reconhecimento menor, deste diretor irrequieto, desde os tempos que participou da célebre Nouvelle Vague na década de 50, insatisfeito com as rumos da indústria cinematográfica, juntamente com outros cineastas, tais como: François Truffaut, Alain Resnais, Éric Rohmer, Claude Chabrol e Jacques Rivette. Enfim, a abrangência no relato e na busca em flasbacks de episódios passados que permanecem marcantes, demonstram a qualidade da obra, que se insere desde já como um dos melhores filmes do ano.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Tetro
















Melodrama Familiar

Francis Ford Coppola realizou seu 21º. longa-metragem com Tetro, produção rodada no bairro La Boca, em Buenos Aires, e na região da Patagônia, na Argentina, sendo seu primeiro roteiro original desde A Conversação. É uma abordagem sobre as fraturas familiares, as distenções dos seus membros e os conflitos inerentes entre pais, filhos e irmãos, numa ótica convencional e de profundidade escassa, longe de suas grandes realizações do passado, como a trilogia de O Poderoso Chefão (1972, 1974 e 1990), Apocalypse Now (1979), O Selvagem da Motocicleta (1983), A Conversação (1974; porém, bem mais próximo dos fracassos como Velha Juventude (2007 - inédito no Brasil), O Fundo do Coração (1982) e Vidas sem Rumo (1983), entre tantas decepções.

A trama é baseada em sua própria família, como admitido nas entrevistas concedidas no Brasil, seguindo uma linha autobiográfica. Começa com a visita ao escritor recluso e sem sucesso, desaparecido dos EUA há mais de uma década, o irascível Tetro (Vincent Gallo), casado com a portenha (Maribel Verdú), pelo seu suposto irmão mais novo Bennie (Alden Ehrenreich), um jovem de 17 anos, que vai procurá-lo em Buenos Aires. A fuga de casa tem um segredo familiar e um mistério guardado a sete chaves. Já na recepção, fica evidente a frieza do encontro e a falta de afeto de Tetro para com Bennie, cobrado por este, na cena em que seu irmão se derrete de gentilezas e amabilidades familiares com pessoas desconhecidas, visivelmente para agredi-lo.

Aos poucos o nó vai se desatando e as revelações vão aflorando e desmistificando uma realidade sombria e nefasta, com a dureza impregnada naquela criatura perturbada, que guarda o enigma de seu pai autoritário à beira da morte, radicado em Nova York, tendo sido no passado um homem poderoso e egoísta, na pele do maestro famoso e inescrupuloso Carlo Tetrocini (Klaus Maria Brandauer, em grande atuação). Não é à toa que Coppola centra na figura do maestro, pois há a explicitude do resgate do seu pai, que era também um músico. O conflito arrasador entre pai e filho se estabelece no drama, afastando o filho mais velho definitivamente de um futuro promissor, ofuscado pela figura paterna que o atormenta e dilacera, mantida no silêncio, mas demonstrada na agressividade peculiar e nos seus escritos todos guardados nas malas de viagens.

O uso inadequado da ópera se mesclando com os rascunhos do longa Tetro e concluídos às pressas por Bennie indicam uma confusa salada de fruta, mal aproveitada e sem demonstração de força e vigor, num roteiro que se esvai e se perde num Festival de Teatro na Patagônia, em que é presidido pela escritora e crítica Alone (Carmem Maura), que inicia e termina tudo na mesma noite, de forma absurda e ridícula, com o intuito da premiação barata do herói que surge do nada e abocanha um prêmio já previsível chamado ironicamente de Parricida. O drama foge do contexto realista e da análise pontual que se espera de um diretor autoral, inclinando-se para um final convencional e pouco inteligente, naufraga e mergulha num melodrama novelesco.

O filme segue um caminho de acomodação pueril, embora tente rejeitar sua própria estrutura proposta de conflito familiar, falta o clímax e a profundidade de outras obras de outrora, neste que foi um extraordinário diretor que se notabilizou pela ambição e criatividade, dá sinais evidentes de que sua fonte parece ter secado, pois ainda que tenha buscado com todo o esforço, está cada vez mais distante daquelas películas que o consagraram, restando a impressão de esgotamento definitivo da inspiração, aparecendo somente a transpiração. Coppola tentou dar seguimento da sua filmografia marcada por belos dramas, parecendo num primeiro momento que iria conseguir se soltar das amarras dos fracassos, nos cenários e nas falas elaborados num rigor bem ao seu melhor estilo, optando pela magnífica fotografia em preto e branco uma tentativa válida e interessante, deixando o colorido das cenas para os flasbacks, como uma espécie de recordação e saudade dos tempos áureos. Mas o roteiro vai se desmanchando pela fragilidade e inconsistência dos personagens, deixando a indecisão se sobressair e a previsibilidade arrebatar o final.

É evidente que a grande revelação que se aguardava para o epílogo torna contraditório um filme realizado com pretensões maiores, tornando-o um grande novelão com um final lamentável, com mocinhos e bandidos, revelações dignas do padrão global, com direção de Daniel Filho; ou ainda quem sabe dos filmes-novelísticos do francês Claude Lelouch, não condizentes para um cineasta da capacidade de Francis Coppola. Apesar que a figura de Édipo fosse tentada com todo esforço na tragédia familiar, nos relacionamentos incestuosos explícitos e implícitos, tudo se perde e vira pó pela ingenuidade do final.

Só resta aguardar pelo próximo longa prometido pelo cineasta, rezar e fazer algumas promessas para que haja a tão esperada reabilitação deste singular diretor, mas atualmente em franca decadência de inspiração.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos















Casais em Crise

Woody Allen é um diretor que mesmo se reinventando, ou ainda seguindo sua trajetória de comédia de costumes ou comédia dramática, seu sarcasmo e sua ironia sempre estão presentes como marcas registradas de sua obra. Neste seu último longa lançado Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos é um bom filme, que não chega a encantar e nem decepcionar no seu todo.

Embora os últimos filmes de Allen ficassem bem aquém de sua capacidade imaginativa de um cinema voltado para as inquietações e neuroses do dia a dia, Vicki e Cristina em Barcelona (2008) decepcionou quase que totalmente, por ser insosso e sonolento; O Sonho de Cassandra (2007), um pouco melhor, com alguma graça e finesse; Scoop- O Grande Furo (2006) com certa dose de ironia, era muito irregular e sucumbiu. Nada se compara com Zelig (2003), uma de suas obras-primas, assim como outras grandes realizações foram Dirigindo no Escuro ( 2002), Trapaceiros (2000); os notáveis Ponto Final- Match Point (2005) e Tudo Pode dar Certo (2009). Entretanto, talvez o maior filme do velho mestre seja A Rosa Púrpura do Cairo (1985), naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela e indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película, para fugir do martírio de sua vida cotidiana na época da Grande Depressão dos EUA. Há um forte relacionamento afetivo com o personagem fictício. Realidade e ficção se misturam e a mocinha tristonha passa a ter uma nova perspectiva de vida. Insuperável pela magia e pela beleza plástica deste fabuloso filme.

Seus personagens muitas vezes são reescritos, às vezes com bons resultados e em outros apenas discretos. Mais uma vez Allen parte dos desajustes familiares, como do casal formado pela pintora frustrada que sonha em ter sua galeria, a Sally (Naomi Watts), braço direito do seu chefe, o charmoso e renomado marchand Greg (Antônio Banderas); tem no marido, o médico e escritor Roy (Josh Brolin), mas que vive com problemas de tempo para ela, pois seus dotes literários estão decadentes e seus livros são constantemente rejeitados pelos editores. Porém, vê na vizinha do sugestivo nome Dia (Freida Pinto), que é uma noiva indecisa sua válvula de escape e fuga do casamento em crise. Ao apreciá-la pela janela, o filme presta duas solenes homenagens: uma ao mestre Alfred Hitchcock, pela sua obra-prima Janela Indiscreta (1954); e a outra, ao recente filme de outro mestre, desta vez Manoel de Oliveira, pela belo longa Singularidades de uma Rapariga Loura (2009).

Mas há mais casais conflitados, como os pais de Sally, que estão em processo de separação, tendo no pai Alfie (Anthony Hopkins), que busca seus prazeres numa pseudo atriz fútil, mais para uma prostituta de luxo, Charmaine (Lucy Punch); já a mãe Helena (Gemma Jones) se apaixona por um viúvo, que busca na sessão espírita seus contatos com a falecida e a consequente permissão para se casar novamente. Helena é mística e faz consultas regulares e segue rigorosamente as orientações da vidente Cristal (Pauline Collins), que não passa de uma charlatã barata. Tem até dia para emprestar dinheiro para a filha, mas não gosta do espírito da viúva, que com seus toques na mesa custa para deixar livre seu pretendente, numa grande ironia do destino.

Os desajustes dos casais em crises conjugais e as descobertas durante o desenrolar da trama são as molas mestras condutoras, com uma boa dose de humor, leva com habilidade e desenvoltura esta comédia de costumes, naquele cenário meticulosamente arrumado com todos os cuidados inerentes, especialmente as cenas externas de carros antigos mas esportivos deslizando pela glamourosa Londres. São cenas bem conduzidas que levam ao encontro dos velhos personagens remasterizados de Allen, bem elaborados e modernizados no presente.

A ironia fina e o sarcasmo estão presentes, até mesmo na sessão espírita, nas consultas da charlatã, dando ao esoterismo uma cutucada com classe, bem como as conturbadas relações dos emergentes descasados, deixando transparecer com clareza a monotonia e o desgaste dos metais no casamento. Ainda que não chegue a ser uma preciosidade esta película de Allen, seu estilo e sua marca estão presentes, como a estrutura bem elaborada do longa se mantém na sua forma clássica, conduzindo para a construção psicológica dos personagens sofridos e transtornados pelos relacionamentos no ocaso, aparecendo as fraquezas interiores que vão desfilando uma a uma e se mostrando com clarividência ao espectadores.

Allen nunca negou sua influência pelo cineasta da alma Ingmar Bergman e até já fez tributos em alguns de seus filmes, novamente presta homenagem quando Sally e Greg vão assistir uma bela ópera, tal qual no magnífico Morangos Silvestres (1957). Allen tem por característica quase sempre mergulhar no interior humano na busca obsessiva das neuroses presentes em seus personagens, dando soluções nada pragmáticas. Outro fator encontrado com frequência contumaz é o seu peculiar pessimismo, com conotações devastadoras em algumas situações, redundando no vazio existencial do ser e sua indelével e notável busca do amor e em outras até a paixão fugaz, tendo inevitavelmente desdobramentos que vão se esvaindo e muitas vezes se perdem num infinito de obstinados fracassos nas relações.

Assistir Woody Allen sempre é maravilhoso, mesmo que Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos seja um filme menor na vasta filmografia deste genial diretor bergmaniano voltado para os acontecimentos do cotidiano, do amor, da paixão desenfreada, os fracassos do ser humano e o pessimismo com o mundo das pessoas amarguradas.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Um Homem Que Grita



Dor Silenciosa

O cinema da África está de parabéns com este excelente filme vindo da República do Chade Um Homem Que Grita, quarto longa-metragem do cineasta Mahamat-Saleh Haroun e ganhador do Prêmio do Júri de Cannes do último festival, que esteve na competição da 34a. Mostra de Cinema Internacional de São Paulo deste ano. Fizera antes seu primeiro longa Bye Bye Africa (1999), eleito o Melhor Filme do Festival de Veneza. Também dirigiu Abouna, Notre Pére (2002) e Durrat, Dry Season (2006), ganhando o Prêmio Especial do Júri de Veneza, todos inéditos no circuito comercial brasileiro.

O diretor foi feliz no seu roteiro enxuto e conta com elegância esta comovente história de um pai de 55 anos e seu filho de 20 anos, dentro uma conturbada guerra civil no país africano da República do Chade, onde muitos habitantes fogem desesperadamente para países vizinhos como a República do Congo e República dos Camarões. A cena inicial dá o mote e a diretriz que seguirá a película, numa metáfora esplendorosa, quando dentro da piscina do hotel de luxo da cidade de N´Djamena, fica evidente a disputa fratricida. De um lado o pai Adam (Youssouf Djaoro, em notável atuação) é um ex-campeão nacional de natação em conflito com seu filho Abdel (Diouc Koma) que busca espaço profissional e disputam a mesma vaga de salva-vidas daquele hotel comprado por investidores chineses. Adam simboliza um falso patriotismo com uma visão caolha do mundo, ao pensar que se perder a vaga para o filho seu mundo acaba, ou como ele mesmo afirma: "mudou o mundo, não eu".

Os problemas sociais se avolumam e o cozinheiro, melhor amigo de Adam, é despedido sem maiores explicações, ao ficar velho e doente, torna-se descartável. A trama parece conduzir para os problemas inerentes daqueles que estão na iminência de ingressar na terceira idade, como foi visto recentemente no bom filme argentino Dois Irmãos (2010), de Daniel Burman, que abordou e desenvolveu com muita clareza e sutileza o tema. Adam dá mostras de sua preocupação, ao perguntar ao filho de forma sintomática, se ele também o achava velho. O clima é tenso entre os dois e a mãe da garoto questiona e busca explicação para aquele silêncio sepulcral entre pai e filho na hora do jantar.

Mas o diretor redireciona seu roteiro com habilidade para os conflitos da guerra civil e os destroços que sobraram como uma herança maldita da luta fratricida já anunciada no prólogo. Sem tomar partido, mostra os rebeldes de um lado e as forças governamentais de outro, tendo ambas suas implicações políticas e os excessos inerentes de uma batalha entre irmãos, tema visto recentemente em outra produção africana White Material (2009), dirigido pela francesa Claire Denis, com Isabelle Huppert, que não chega a evoluir na profundidade aguardada, acaba por diluir-se em cenas de trucidamentos exagerados das guerrilhas, faltando uma direção mais firme e capaz, naufragando num final melancólico sem inspiração.

Um Homem que Grita vai avançando com extrema sutileza e dor, como da cena do aparecimento daquela jovem grávida de Abdel, faz com que o pai caia em profunda tristeza e o tardio arrependimento por entregar o próprio filho para o Exército do Chade, ao invés de contribuir financeiramente na campanha de arrecadação, não por ser um patriota convicto, porém levado pelo sentimento de perda de espaço na piscina, ao ser guindado para um humilde posto de porteiro do hotel. A felicidade momentânea vira uma drama familiar, com a tragicidade se anunciando como castigo pelo egoísmo e o ressentimento da traição se abatendo na alma que grita do pai. Os enfoques são muitos no longa de Haroun, deixando desfilar com magnífica profundidade, como nas cenas da busca do filho no acampamento, a peregrinação naquela motocicleta velha levando aqueles personagens com dignidade para a bancarrota, existindo antes a purificação no final e o perdão sendo implorado por aqueles olhos entristecidos diante daquelas profundas águas que correm no rio e descem lenta e silenciosamente, num epílogo de tarde angustiante que nunca será esquecido por Adler naquele cerimonial funesto.

Haroun sabe lidar com as emoções sem se deixar levar pela pieguice, deixando fluir a reflexão nos temas sugeridos como a tristeza pelo arrependimento; a ética paternal; o falso patriotismo; a traição e a disputa de espaço; abalados num relacionamento estremecido pela perda da grandeza e da dignidade, diante da iminência da terceira idade, resultado do medo da velhice. Há o pano de fundo da guerra civil sendo abordado com equilíbrio, levando para os questionamentos internos e externos.

Com temas e subtemas dignos, fazem deste longa um soberbo exemplar do cinema realizado na África, deixando como resultado um olhar terno e perturbador para os seres transgressores dos limites éticos e morais, que não medem consequências, mesmo que a dor consuma-os com força arrebatadora. Rodado em longos planos-sequência como instrumentos de narrativa, é pontuado pelo silêncio, com elipses no tom certo fazem deste longa preocupado com o ser humano e sua consciência, inserindo-se desde já, como uma das grandes surpresas do ano.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A Suprema Felicidade



Decepção Suprema

Arnaldo Jabor é um diretor que encantou e revolucionou com Toda Nudez Será Castigada (1973), depois mostrou seu lado mais apurado como um crítico e observador dos relacionamentos humanos conturbados das mazelas causadas pelo desgaste impulsionado pelas entranhas dos seus personagens sofridos em Tudo Bem (1978) e Eu te Amo (1981), sendo que depois viria o estonteante Eu Sei Quer Vou Te Amar (1986), onde um casal faz um jogo de palavras memorável através de uma esplendorosa terapia filmada de forma arrasadora, dissecando e derrubando normas preconceituosas e tabus existentes entre duas pessoas que se amam.

Depois do ostracismo do diretor que buscou a reclusão numa rede de TV, realizando seus comentários sarcásticos e instigantes, avacalhando com a esquerda e se tornando um defensor nato e estereotipado da direita conservadora e ultrapassada, esperava-se um cineasta ainda mais maduro, que pudesse passar aos espectadores todo seu talento de sua verve política e conhecedor do cotidiano, atributos que lhe são inegáveis. A aguardada volta de Jabor em A Suprema Felicidade foi decepcionante, pois vem com muitas ideias na cabeça para contar várias histórias e ao mesmo tempo nenhuma original que pudesse ser a principal. A tentativa desencontrada de moldurar com fatos pitorescos num Rio de Janeiro dos anos 40, através do personagem de um menino sofrido como condutor da trama, deixa em muito a desejar. Longe do cineasta comprometido com as peculiaridades do amor e das relações familiares que mostrava no passado com extrema competência.

O início do longa com Paulinho (Jayme Matarazzo), um garoto de 8 anos, que observa o fim da II Guerra Mundial, na cama, ouvindo o tique-taque do relógio no silêncio do seu quarto, já nos remete ao filme Fanny e Alexander (1982), de Ingmar Bergman, corroborado depois em outras cenas como dos padres conflitados em sala de aula, nos papéis de Ary Fontoura e Jorge Loredo, num encontro que conduz solenemente para o barroco e talvez seja a única cena que se salva realmente do desastre total. Ao tentar se inspirar em alguns filmes de Federico Fellini, em especial Amarcord (1973), várias cenas mais parecem cópias mal-feitas e desajeitadas dos clichês satirizados pelo mestre italiano. O vento desconectado e as prostitutas surreais sendo esfaqueadas com o sangue jorrando vão, inexoravelmente, ao encontro do grotesco e inoperante resultado, numa sucessão de erros e gafes indignos de um cineasta da capacidade de Jabor que adere ao mau gosto e pela simploriedade.

A tentativa de buscar na forma teatral com uma música operística flutuando num passado e voltando para uma escola de samba ensaiando na avenida, deixa tudo encrencado e inconcluso, em elipses completamente destoantes e sem conexão, numa estética evasiva e perdida num emaranhado de atores e atrizes desfilando como se fossem chamados às pressas para darem seus recados e se retirarem estrategicamente. Nas cenas de amor de Paulinho com a namorada traidora e depois com a cantora Marilyn do Cabaré Eldorado (a belíssima Tammy Di Calafiori) fica tudo muito lacrimoso, beirando as novelinhas globais onde ainda é comentarista, ou lembrando em muito as telenovelas mexicanas com muita emoção, nada de razão, com pessoas se derretendo de tanto chorar.

Também beira ao ridículo as piadinhas infames contadas pelo vendedor de pipocas (João Miguel), onde a vulgaridade é indesculpável, diante das redundâncias e de uma grossura, que talvez pudessem ser contadas num ambiente de muito baixo nível, correndo o risco de não serem apreciadas com a suposta graça que tentou em vão no longa, com a assessoria do personagem mata-mosquitos e de um modorrento comprador de coisas antigas, jornais e livros velhos. Até o papagaio quase que conta uma de suas piadinhas clássicas e abomináveis. Outra cena risível é a que Paulinho sai correndo do prostíbulo sem pagar seu programa, junto com um amigo boboca e sonhador, tendo na intervenção do avô Noel (Marcos Nanini sempre um bom ator), resolvendo tudo na porrada e na macheza. A avó (Elke Maravilha) surge com diálogos soltos e desencontrados que não levam a nada, exceto que tenha sido uma ex-dançarina da Lapa.
Falta inspiração para o diretor que tem mais transpiração do que qualquer outra coisa. Há a cena do pai (Dan Stulbach) deixando a mãe (Mariana Lima) choramingando pelos cantos, para assistir a cantora num show no bordel, sendo seguido pelo filho que se apaixona pela mesma moça pobre e sofrida e filha de uma cafetina bêbada (Maria Luisa Mendonça) que é oprimida por um rufião, mas que também não tem consistência. As cenas não fluem naturalmente e se diluem, acomodando-se como num passe artificial.

Também fica solta a cena do avô dançando na rua, numa tentativa de rememorar os famosos bailes da Urca ou quando tocava trombone e filosava na boemia, mas inexiste o clímax para uma pequena dose de emoção. Ou seja, falta tudo, pois agora não há choro e nem vela. Como o próprio Hotel Glória aparece do nada. O filme se arrasta como uma eternidade para um final melancólico, onde se mescla carnaval de rua com com um romance conflitado, misturando com uma suposta ópera, tendo ainda um sermão religioso, bafejado com reminiscências de um vovô perdido no tempo.

A lamentar-se as obviedades que se desenvolvem e se aliam no transcorrer do longa, resultando uma verdadeira salada de fruta indigesta neste desastroso e decepcionante A Suprema Infelicidade de um dos grandes diretores do passado, que parece ter perdido toda sua lucidez e criatividade, deixando suas virtudes distantes de suas magníficas obras de outrora. O resultado final descamba mais para uma pornochanchada do que para as inspirações buscadas em Fellini e Bergman.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Mostra de Cinema São Paulo (Caterpillar)















Caterpillar

O diretor Koji Wakamatsu é um experiente cineasta japonês que realizou este estonteante longa-metragem Caterpillar (lagarta) sobre os horrores da guerra e seu inventário macabro e horrendo, como a sobra mutilada de um ser humano que é recebido com condecorações de medalhas e levado ao topo da glória como herói "Deus da Guerra".

Wakamatsu foi produtor-executivo de direção de Nagisa Oshima no polêmico Império dos Sentidos (1976), sobre a paixão obsessiva de uma ex-prostituta pelo chefe de uma propriedade, onde ela é contratada. Um romance sem limites na busca do prazer, em que os desejos se confundem e o casal é envolvido numa atmosfera sensual e sem precedentes, com um final surpreendente e inusitado para aqueles anos setenta. O ato sexual incontido é novamente abordado como um subtema neste longa, mas não dissociado do contexto hipócrita e frio das relações que envolvem os protagonistas vitimizados pelo sistema.

O drama gira em torno da 2ª. Guerra Sino-Japonesa, de 1937 a 1945, quando o tenente Kurokawa (Keigo Kasuya) retorna para casa, recebendo todas as honrarias e condecorações do Japão pelo seu gesto bravo na luta contra a China. É reconhecido nacionalmente como um grande herói, embora tenha perdido suas pernas, braços, a fala, parte do lado direito da cabeça queimada e deformada, reduzido a uma miniatura humana de somente tronco com um pênis que quer se saciar constantemente, resultante de seu apetite sexual voraz.

A esposa Shigeko (Shinobu Terajima) é vista e aclamada como a grande mulher do tenente, sendo que as esperanças dos membros da família e da sociedade local recaem sobre seus ombros, para que honre o imperador japonês e o país, tornar-se um exemplo de dedicação de assumir seu papel, mesmo que a revolta, a angústia, a dor, a mágoa e todos seus desejos femininos, passem a ser ignorados literalmente, em nome de uma causa que não lhe foi consultada previamente. Nosso herói tem um passado que não é recomendável, pois na guerra estuprou chinesas indefesas em meio a incêndios em suas residências, espancava sua mulher antes de ir para o front. Agora é a vez de dar o troco com todo ódio e irresignação daquela que tem que lhe servir sexualmente, lavar e fazer sua higiene pessoal, dar comida e bebida compulsivamente, embora haja uma crise de racionamento decorrente da guerra.

A cena em que há o reflexo do rosto queimado no lago é triste e dolorida para o tenente, arrastando-se como um lagarto deformado e em tom animalesco e brutal, metáfora de uma guerra deflagrada e que deixou resíduos. Outra metáfora é o apetite sexual descomunal para com as intrincadas políticas de guerras que ceifaram centenas de milhares de pessoas. Ficaram impunes as bombas que o Japão foi agraciado pelos EUA, como em Nagasaki e Hiroshima, referências explícitas feitas pelo diretor, como uma observação e um recado direto para aqueles que ainda continuam a usar da força bélica mundial. Os choques de imagens não são gratuitos, muito pelo contrário, estão inseridos num clímax elevado de insatisfação e realizado com dureza e contundência, mas jamais para explorar figuras disformes. Não deixar as consequências de uma batalha inglória passar sem uma abordagem profunda é o principal eixo e objetivo deste veterano diretor sempre preocupado com as mazelas de seu país, num passado que não dever ser esquecido.

Caterpillar se insere e pode ser classificado como um longa bizarro, mas os seus efeitos nefastos e devastadores, resultantes de uma reflexão pontual, faz com que as cenas que desfilam tenham o caráter da dor e da demagogia dos seus governantes estampados naquela criatura em forma de miniatura que sobrou da guerra. Fruto é claro dos poderes definidos dentro dos gabinetes, como se vê nas homenagens emblemáticas em praça pública. Um filme digno e eloquente pela sua grandeza.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Mostra de Cinema São Paulo (Os Amores Imaginários)



Os Amores Imaginários

Xavier Dolan é um diretor canadense de apenas 21 nos, que conquistou seu público com o filme de estreia Eu Matei a Minha Mãe (2009), onde um rapaz de 17 anos não ama sua mãe, tem gosto kitsch, usa roupas bregas e pequenos detalhes como a forma que ela come, ele a contempla com desprezo. Os mecanismos de manipulação e a culpabilização empregados por ela também não lhe passam desapercebidos, tem um ódio fora do seu controle. Confuso, vaga por uma adolescência marginal e típica, repleta de descobertas artísticas, experiências ilícitas, amizades e se assume como homossexual.

Mas neste segundo longa Os Amores Imaginários, seus propósitos desvirtuaram completamente de sua promissora e festejada estreia. Agora busca fazer um filme mais leve e engajado na causa gay. Ou seja, uma pequena apologia para tentar manter um relacionamento num típico ménage à trois, colocando no centro da proposta de um "homo", um "bi" e um "hétero", o que vai levando ató o final da trama com o gay Francis (o próprio Xavier Dolan) e a hétero Marie (a bela e boa atriz Monia Chokri), numa amizade quase que inseparável, acabam conhecendo num almoço o esfuziante Nicholas (Niels Schneider), gerando um inevitável triângulo amoroso.

Do relacionamento resultam fantasias obsessivas decorrentes dos encontros problemáticos e repletos de picuinhas e mal-entendidos, afundando-se em procuras e devaneios sexuais, que obrigam por vezes se afastarem e deixarem de lado as amizades. O objeto do desejo do trio custa a se definir e nem eles sabem na verdade definir o que um quer do outro. A força do desejo é mais forte do que manter os laços de união da amizade e em determinado momento se rompem com o desenrolar desta frágil comédia dramática engajada nos movimentos GLS, LGBT e tantos outros que se proliferam e se difundem como em sexo alternativo e livres da amarras sociais.

A competição por Nicholas é o centro e o estopim da disputa, até que o rapaz toma uma posição e defina que também é apenas um garoto heterossexual, porém na cena final, com o aparecimento do personagem encarnado por Louis Garrel, numa piscadinha clássica de olho direito, demonstra a continuidade num próximo filme na busca pelo sexo a três não parou neste fraco longa de Dolan. O filme não tem profundidade alguma e nem se propõe a debater os problemas do homossexualismo, mas visa unicamente o entretenimento e a diversão pelo cineasta prodígio, assumidamente defensor da causa gay, mas que nesta película se afasta da reflexão e deixa os estereótipos se emaranharem e invadir a trama, sem nenhum controle de direção, tentando dar leveza com umas piadinhas bobas e sem nenhuma graça.

Entretanto, demonstra ser um estudioso do cinema ao fazer várias citações, como do filme Bonequinha de Luxo (1961), de Blake Edwards, com Audrey Hepburn no papel que leva o título, traz à baila o jogo sensual num filme pretensamente moderninho, com referências musicais, cinematográficas e literárias, inseridas no filme como elementos destinados a compor o mundo que o diretor pretende retratar. Apesar de tudo o filme não satisfaz e deixa a desejar para uma obra mais reflexiva, e talvez, devesse ser mais comprometida com uma análise e crítica mais aprofundada. Fica para o próximo longa, quem sabe, mais maduro e com objetivos definidos razoavelmente.

Mostra de Cinema São Paulo (Dormir ao Sol)



















Dormir ao Sol

A Argentina já produziu filmes bem melhores do que este abaixo do razoável Dormir ao Sol , sob a direção pífia de Alejandro Chomski que se perdeu completamente numa trama que tinha tudo para dar certo, porém diante da salada de fruta que o cineasta fez, acabou por liquidar com seus propósitos e pretensões maiores que pudesse almejar. Antes dirigira Hoje e Amanhã (2003) que passou discretamente pela 27ª. Mostra.

Seu drama está centrado na vida do relojoeiro Lucio Bordenava (Luis Machin) nos anos 50, no Parque Chas, um tranquilo bairro de Buenos Aires, onde as ruas não têm esquinas e são em forma de círculos como labirintos. Sua mulher Diana (Esther Goris) é internada subitamente numa clínica psiquiátrica meio esquisita, pois se dedica a curar pessoas ditas especiais. Foi inspirado no livro do portenho Adolfo Bioy Casares.

A cunhada de Bordenave se aproveita que a irmã está hospitalizada, passando a seduzi-lo constantemente e até a provocá-lo quanto sua masculinidade e a causa que teria levado Diana até aquele instituto de saúde; as entrevistas com o Dr. Samaniego (Carlos Belloso) são preocupantes e as visitas à sua esposa são proibidas sem maiores explicações. O inverossímil começa a se clarear aos poucos, quando um cachorro chamado "Diana" surge repentinamente na trama, causando sérias desconfianças de tráfico de alma de humanos para caninos com experiências naquela casa dita de cura e preocupada com a saúde, funcionando como um laboratório futurístico de transposição de almas e pensamentos para os ingênuos cachorrinhos e as inadvertidas pessoas que a procuram.

O cinema já deu grandes filmes sobre o tema tratamento psiquiátrico forçado, como a obra-prima O Estranho no Ninho (1975) de Milos Forman, com a atuação impagável de Jack Nicholson, numa aula sobre como fugir do trabalho na prisão fingindo ser louco, sendo enviado a um sanatório, onde deve lidar com uma realidade triste e dura, além de ter que encarar a enfermeira que dificulta as coisas para ele. Também em O Expresso da Meia-Noite (1978), de Alan Parker, quando um jovem estudante americano, ao visitar a Turquia, é detido, com sua vida se transformando em um pesadelo a partir de então, é brutalmente espancado e jogado em uma imunda prisão e depois vai para um manicômio. Mas o brasileiro O Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bodansky, talvez seja o melhor referencial para hospitais de pessoas jogadas em seu interior como se fossem loucas, embora tivessem apenas algumas pequenas perturbações psicológicas.

Dormir ao Sol não é uma coisa nem outra. Nem se aprofunda na análise dos hospícios e seus métodos ultrapassados, nem faz uma reflexão sobre as pessoas que deveriam ou não realizar algum tipo de tratamento. É um filme oportunista e medíocre, pelos seus propósitos e resultados insatisfatórios, com um roteiro frágil, embora tivesse um elenco razoável, bem que poderia ter obtido algo bem melhor. Chomski não é um cineasta de ponta no vizinho país, mas já dirigiu nove curtas e médias e este é o seu quarto longa, portanto, se nada mostrou até agora, seu futuro não é nada promissor, pois esta sua última película ficou distante do que se espera para um bom filme, diante de suas pretensões sem maiores voos ou uma obra marcante. É para se esquecer este trabalho, totalmente descartável.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Mostra de Cinema São Paulo (Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas)



Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas

Apichatpong Weerasethakul, de codinome "Joe", para facilitar a vida dos ocidentais, é o diretor deste bizarro longa-metragem que venceu o Festival de Cannes de 2010, levando para a Tailândia o Palma de Ouro, prêmio máximo da categoria, deixando para trás filmes bem melhores como Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa; Tournée, de Mathieu Amalric; La Princesse de Montpensier, de Bertrand Tavernier; Outrage, de Takeshi Kitano; Fair Game, de Doug Liman; La Nostra Vita, de Daniele Luchetti; Hors la Loi, de Rachid Bouchareb e O Sol Enganador 2 – Exodus, de Nikita Mikhalkov.

Apenas para citar a quantidade e a não menos qualidade para se comparar com este horrendo filme tailandês, desprovido de mínima qualidade estética e estrutural, num emaranhado de personagens perdidos na selva fugindo do demônio travestido num boi com suas aspas ponteagudas na cena inicial; ou ainda do fruto do amor que podia ter nascido daquela kafkaniana relação sexual da princesa com o peixe bagre, nas translúcidas águas que caiam da vertente, rompendo a inverossimilhança e o absurdo, mesmo com toda licença poética de expressão.

A trama é simplória, diante da morte quase que iminente de Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas, este escolhe passar seus últimos dias no meio da floresta, amparado pela cunhada e por um sobrinho que faz seus curativos e adequa os aparelhos no seu corpo para ajudá-lo a vencer a insuficiência renal que o atormenta e o deixa cada vez mais agonizante.

O diretor "Joe" não se dá por satisfeito e faz surgir inesperadamente num jantar de tio Boonmee, num clima propício para o incesto indireto com a cunhada prestativa, surge a esposa morta há 19 anos e logo reaparece o filho desaparecido também por um bom tempo, mas metamorfoseado num macaco com olhos vermelhos, talvez de tanto chorar de arrependimento. Pronto, a titular ora morta voltou e assumiu seu posto, seriamente ameaçado pela irmã tinhosa e louquinha para dar o bote, embora na cena final, junto com a filhinha ambiciosa contam e fazem o inventário do que restou para elas.

Outra cena solta no roteiro e feita bem melhor no filme Alice no País das Maravilhas (2010), de Tim Burton, foi a visita na caverna misteriosa e o "belo" achado de alguns peixinhos num dos cantos escuros, mas iluminados por algumas luzinhas coloridas da parte superior, restabelecendo a ordem e a visão de uma suposta primeira vida, neste lugar feérico que seria a origem de tudo.

O encontro do jovem budista com a família e as cenas de longas reflexões e observações de filmes na TV conduzem para um abstrato. O banho de purificação da alma no chuveiro desperta curiosidade nos espectadores, pois poderia acontecer algo inusitado. Ainda bem que não saltou daquelas águas que desciam pelo cano nenhum peixe do sexo feminino e seduzisse o neófito monge, das idiotices bizarras da cabeça de "Joe", para alívio e a espera do aguardado final do longa.

Não dá para comparar esta película com filmes como O Estranho Caso de Angélica (2010), do veterano e genial Manoel de Oliveira, com seu estilo formal e clássico de fazer cinema da melhor qualidade para um público que saboreia a essência da sétima arte. Longe ficou do magnífico filme Independência (2009), oriundo das Filipinas, de impecável direção de Raya Martin, que também é o autor do roteiro, de apenas 26 anos de idade, com um tema similar arrasou na Mostra de 2009. Mas a maior heresia é comparar, como alguns críticos afoitos fizeram, com o mestre David Lynch. Sem comparação e sem similitude, seria o mesmo que comparar vinho com vinagre.

Tio Boonmee... não tem nada de transcendental ou espiritual como possa parecer. É uma aberração cinematográfica que encontra similar em muitas obras disformes, ocas e caóticas como na atual Bienal de São Paulo. Mas, enfim, tem gosto para tudo, para o absurdo e fraudulento filme como este que veio embalado em papel celofane da premiação máxima em Cannes.

A 34ª. Mostra de Cinema de São Paulo já tem sua maior decepção e candidato certo ao Troféu Frambroesa, se houvesse é claro, tanto pelo engodo como pela falsa arte travestida de filme cabeça e perturbador, nada mais é que um substrato de uma farsa fantasmagórica, que tem até uma cena do rapaz-macaco posando para fotografia com alguns soldados, como não poderia faltar a demagogia na frase do tio Boonmee, se era castigo a doença adquirida, por ter matado muitos comunistas.

Mostra de Cinema São Paulo (Minha Felicidade)



Minha Felicidade

Vem da Bielorrússia um dos melhores filmes da 34ª. Mostra de São Paulo, o soberbo Minha Felicidade, tendo na direção um estreante em longa-metragem, o promissor Sergei Loznitsa, que tem em sua bagagem dois documentários, sendo Blokade (2005) e Revue (2008), onde aparecem imagens de documentos históricos dos arquivos soviéticos, em compilações raras e apreciáveis.

A trama tem como ponto de partida o caminhoneiro Georgy (Victor Nemets) que encontra o trânsito congestionado devido a um acidente na estrada, logo após ter uma primeira experiência nada agradável com dois patrulheiros numa blitz, que insinuavam extorqui-lo, mas estavam naquele momento mais preocupados numa mulher com os documentos de seu carro irregular, com prenúncio para uma orgia no próprio posto, deixando-o ir embora com seu caminhãozinho modesto.

Na estrada impraticável para o fluxo do trânsito conhece o outro lado de uma vida que não apenas existe e é deplorável, ao deparar-se com a prostituição de uma adolescente agressiva que inventa uma idade acima da realidade de uma garotinha que é, visando um programa de estrada, ensina-lhe um caminho perigoso pelo pântano numa noite escura e extremamente terrível para dirigir naquela natureza selvagem da área rural russa, tal qual a vida que tem suas saídas bloqueadas e pantanosas, num metáfora para o homem que busca alternativas de vida e acaba por se embretar num emaranhado de complicações de seres excluídos da sociedade de um pós-guerra de dificuldades e um atoleiro como só poderia ser desvendado, caso o mundo tivesse uma visão mais abrangente e menos belicista.

Na busca pela volta à civilização, as histórias vão desfilando com requintes dolorosos e amargurados, como do velhinho vagando nas estradas como um dos tantos zumbis que percorrem nela, trazendo suas mágoas inerentes de um veterano de guerra enlouquecido pelo terror e violência deixados para trás, mas que faz questão de lembrar e contar como um desabafo e não um ensinamento. Já a cigana misteriosa que entra e sai de cena como se fosse uma criatura sem alma e sem vida é a típica caracterização individual daquela que só tem como meta a sobrevivência, diante daqueles homens horrendos e abrutalhados que passam pelo seu caminho. Na cena da execução do russo simpatizante pela causa alemã é comovente pelo lado do filho que tudo presencia e fica à mercê de seu futuro, como também é enojante pela falta de escrúpulos daqueles dois integrantes de um exército já em decomposição que vagueia pelos campos como moribundos, perdendo a dignidade e o senso humanitário, demonstram um total embrutecimento com a perda da lucidez como se verá nas cenas posteriores.

A viagem de Georgy é a alegoria perversa do instinto do homem civilizado e transformado naquele ser selvagem e de uma força bruta e delirante, em que os fantasmas da guerra sobrevoam e pairam nas mentes deturpadas e sem um destino como objetivo de um recomeço, longe do equilíbrio e distante ainda mais do processo civilizatório. Sobra a selvageria e a corrupção dos policiais no epílogo, relembrando como se fosse uma fotografia o início, mas agora com personagens diferentes,menos um, restando a explosão contida à flor da pele para ser detonada, como um vulcão adormecido à espera da melhor oportunidade.

Minha Felicidade é a ironia de seres desvalidos e inutilizados de um final de guerra sem vencedores e com muitos perdedores, remanescentes de um sistema, onde a prostituição é o meio de trabalho para crianças e a corrupção impera na força policial, tal qual Tropa de Elite 2 (2010) de José Padilha. Loznitsa filma os horrores das profundezas humanas, com um rigorismo construtivo invejável, numa estética formal, não deixando de ser um longa intuitivo e inspirado na melhor e mais madura forma de fazer cinema, sem penduricalhos, num roteiro enxuto e bem acabado, tornam esta obra como uma das melhores vista até agora nesta Mostra.

Uma bela reflexão sobre os horrores da guerra e a perda de seus valores e a transformação do ser animal homem numa besta, bem como a derrocada do comunismo e o que sobrou como lembrança de um triste passado, fazem deste drama de estrada que percorre o interior humano, uma viagem sensorial e magistral pelas profundezas e sensibilidade aguçada das pessoas para com o fim da impunidade e a busca de parâmetros e compromissos com a dignidade.

domingo, 31 de outubro de 2010

Mostra de Cinema São Paulo (O Estranho Caso de Angélica)














O Estranho Caso de Angélica

Manoel de Oliveira parece um garoto de cabeça arejada de 102 anos, mas um veterano na sabedoria, experiência e galhardia, no seu velho estilo formal e clássico de fazer cinema da melhor qualidade para um público ávido da essência da sétima arte, cada vez mais rara e distante, diante das mediocridades que se acumulam e brotam volumosamente pelas salas nas sessões teoricamente vanguarda ou classicismos superados.

O velho mestre português está inspiradíssimo novamente e sua lucidez é abundante e não para de transbordar, tornando-o imortal e interminável graças a Deus e para o bem dos cinéfilos que adoram ver uma obra deste tamanho como O Estranho Caso de Angélica desfilar seus personagens na tela escura dos cinemas. Este seu longa-metragem foi censurado pelo governo de Salazar entre 1949 e 1952, logo após a 2a. Guerra Mundial, pois pretendia trazer à baila as consequências do Nazismo, mas teve seu projeto torpedeado por um regime autoritário e ditatorial, mas agora 6 anos depois, retoma e atualiza este memorável filme de autor, que tem no papel de protagonista principal o fotógrafo Isaac (Ricardo Trêpa- seu neto, que já atuou em outros longas, entre eles o ótimo Singularidades de uma Rapariga Loura (2009), em atuação irreparável), também está irrepreensível como um jovem alucinado.

O jovem fotógrafo é chamado para realizar uma sessão de fotografias pela mãe de Angélica, tendo em vista que a moça morre poucos dias depois de seu casamento. Ao focar a morta esta aparece esboçando um leve sorriso em uma das fotos, deixando-o atormentado e obsessivo por aquela imagem absurda e inverossímil. Tem alucinações pela noite e depois já durante o dia, deixando em pânico a dona da pensão e seus convidados e amigos, todos muito peocupados e percebendo que o rapaz está em surto e demonstrando uma atitude estranha.

Isaac perde o equilíbrio e sua mentalização psicótica é para o cadáver daquela mulher de pouca idade toda de branco sendo velada uma posição atípica, que esboça um sorriso numa das fotos, levando-o a delírios intermináveis, voos ancestrais e viagens alucinadas por um universo imaginário e depressivo quando volta a realidade. Perfeita a metáfora da morte protagonizada pelo gato seduzindo o pássaro na gaiola, tal qual Angélica para com Isaac, numa premonição magnífica de uma cinematografia só encontrada entre os gênios como Manoel de Oliveira. Mas as cenas se sucedem e a música cantada em forma de fado pelo comandante ou capataz daqueles lavradores num trabalho subalterno e arcaico, mas determinados em aplainar as terras dos vinhedos, com as foices no alto como para carpir e ceifar vidas, estampadas nas fotografias, emolduram o painel de tantas alegorias notáveis desta película.

Ao tentar buscar soluções para os problemas que rodeiam a crise financeira, os amantes sobrevoam a cidade como fantasmas perdidos no universo, tentando se livrar das amarras e das prisões que os cercam, tal qual o pássaro pintassilgo na gaiola e a morta Angélica na sepultura, surge a frase da liberdade citada pelo filósofo Ortega y Gasset "O homem é sua circunstância". Oliveira ironiza a sociedade burguesa de Portugal com sua maestria formal como se fosse uma solenidade de um teatro de mentiras e prisões; ou pelo sorriso da morte que espreita e arrebata a vitalidade daquele fotógrafo enlouquecido por um lugar estranho e bonito ao mesmo tempo, com um cenário de um rio e um casario com uma minúscula igreja ao fundo. Aquele canto melódico e triste de uma melancolia prenunciando o instinto da partida definitiva.

Um filme instigante e perturbador pela sua complexidade e de um tema aparentemente simples, desenvolve com soberba lucidez um estonteante painel de metáforas e alegorias, só encontradas numa autêntica obra-prima, escalando-se como um dos favoritos para abocanhar o prêmio de melhor filme desta 34ª. Mostra de São Paulo.

Mostra de Cinema São Paulo (O Caçador)















O Caçador

Rafi Pitts é um diretor iraniano que mora desde o anos 90 em Paris, foi assistente de direção de Leos Carax no filme francês Os Amantes da Pont-Neuf (1991), com estupenda atuação de Juliette Binoche, dirigiu As Cinco Estações (1997) e o inédito It´s Winter (2006).

Agora traz para a 34a. Mostra de São Paulo, seu longa-metragem O Caçador, um projeto mais arrojado, tendo escrito o roteiro e também atuado como o ator principal do longa no papel-título, no personagem Ali. A trama gira em torno de um recém-egresso da penitenciária, que busca emprego e consegue uma vaga como vigilante numa fábrica no turno da noite. Seu retorno à sociedade está repleto de expectativas diante das próximas eleições que são promissoras e alardeiam mudanças radicais no governo, tenta passar boa parte de seu tempo livre durante o dia com sua bela esposa e sua adorada filha de 6 anos.

Ali tem como passatempo se embrenhar na floresta e caçar para aliviar as tensões do trabalho e o estresse da vida cotidiana e monótona, ausenta-se de sua casa urbana, com seu carro velho e parceiro de todas as horas, para buscar a paz entre as árvores e a caça como entretenimento e refúgio de dias passados atrás das grades. A tragédia lhe aguarda mais adiante, quando sua mulher Sara (Mitra Hajjar) é morta aparentemente de maneira acidental, num tiroteio da polícia com simpatizantes de uma manifestação de rua contra o vigente regime iraniano déspota e impositivo. A filha do casal desaparece literalmente e a procura pela garotinha torna-se sua missão diária e frequente, sem descanso beirando à obsessão.

Ali tenta encontrar sua filha numa frenética busca pelas ruas e arredores, depois de tomar um verdadeiro "chá de banco" numa delegacia distrital, ser hostilizado por policiais, resolve fazer sua investigação particular e de sucesso remoto, tomando rumos trágicos, com o fuzilamento daqueles que ele entende serem os culpados pela morte da esposa e o desaparecimento da filha. O longa peca do meio para o final, quando o roteiro troca os papéis na clássica inversão de caçador para caça. A monotonia toma conta do filme e a mesmice se torna completa, deixando traços de insatisfação nos espectadores e a perda completa do controle do filme, que desce ladeira abaixo nos minutos finais.

Rafi Pitts erra a mão e torna este longa, que tinha tudo para ser um bom filme, em apenas uma realização razoável diante de seus enormes defeitos estruturais e frágeis, embora tivesse uma proposta abrangente de um ser atormentado na busca de seus familiares, acreditando nas mudanças do governo e se decepcionado, perdendo o sentido e o rumo da vida. Porém, os resultados estéticos e reflexivos ficaram longe do desejado, reduzindo um bom projeto para uma obra menor e precária.

sábado, 30 de outubro de 2010

Mostra de Cinema São Paulo (Fora da Lei)




Fora da Lei

Rachid Bouchareb roteiriza e dirige este magnífico longa-metragem Fora da Lei, em que mais uma vez se debruça sobre os problemas enfrentados pelos descendentes da Argélia para conquistarem sua independência da França, acontecendo somente em 1962, depois de um banho de sangue, onde morreram milhares de inocentes, tanto argelinos como franceses. Este filme provocou polêmica antes mesmo de sua exibição no Festival de Cannes, houve um grande esquema de segurança para a sessão destinada aos jornalistas, com revistas de bolsas e proibição de entrar com garrafas de água. Depois de assistido o filme, a impressão é a de que não era para tanto.

Fora da Lei abre feridas e toca em questões cruciais como a luta pela independência da Argélia dentro da França e a existência de guerrilhas francesas estimuladas por suas autoridades, como a "mão vermelha", braço do serviço secreto autorizado a assassinar líderes argelinos, mas aborda de maneira profunda a luta sanguinária e violenta pela revolução, promovida pela organização FLN e refutada com não menos violência pela MCA.

O diretor enfoca a trama com vigor pelos três irmãos expulsos de suas terras junto com os pais: Said (Jamel Debbouze) é o responsável pela mudança da mãe para a França e sonha em sair da pobreza, aplicando pequenos golpes e explorando a prostituição, cassinos e clubes de boxe, treina um conterrâneo para ser o herói nacional; já Abdelkader (Sami Bouajila) é o intelectual que estuda e se dedica aos livros, mas acaba preso logo após o massacre de argelinos numa passeata no dia da rendição alemã, em 1945, vem tornar-se líder da luta armada; o terceiro irmão é Messaoud (Roschdy Zem), um soldado que lutou na Indochina e volta para ser o executor da Frente da Libertação Nacional.

O filme lembra os velhos faroestes com muitos tiros e vítimas tombando ao solo inapelavelmente, bem como as memoráveis películas de gângsteres, seguindo com coerência um correto filme político, onde a história se sobrepõe aos atos de barbárie e agressões explícitas apresentados de maneira nua e crua, sem abusar da violência gratuita. Inegavelmente Bouchareb aborda com eficiência e maturidade um filme que busca no passado colonialista francês,visto ainda hoje como uma questão tensa e delicada para os ex-colonizadores, quando reabre o debate e busca a reflexão ocorrida naquele terrível campo de batalha, que deixou os próprios argelinos endurecidos em seus sentimentos, como na resistência de Abdelkader em se entregar ao amor, com a bela loira francesa que o tentava seduzi-lo.

O diretor chegou a afirmar no Festival de Cannes deste ano, ao ser hostilizado, que sua intenção era ter num futuro bem próximo o encontro entre franceses e argelinos, deixando o passado para trás definitivamente, renegando-o ao esquecimento. Posiciona-se favorável pela abordagem não só dos cineastas, mas também dos historiadores, do público e dos políticos discutirem a luta pela independência da Argélia.

A trama lembra outro grande filme que abordou a luta dos argelinos, como A Batalha de Argel (1965), de Gillo Pontecorvo, que mostra os momentos decisivos pela independência, como um marco do processo da libertação das colônias europeias na África, entre 1954 e 1957, demonstrando a maneira de agir dos dois lados conflitados, não escondendo que a FLN desenvolvia técnicas não convencionais de combate, baseadas na guerrilha e no terrorismo, enquanto isso o Exército da França utilizava a tortura como sua arma potente e letal para abafar os ditos inimigos, exatamente como vemos com uma clareza direta e sem subterfúgios neste imperdível Fora da Lei.

A luta dos povos africanos que eram colonizados teve seu apogeu nas décadas 50 e 60, pois já saturados e cansados de serem humilhados pelas suas colônias imperiais, começaram a dar um basta, tendo a Argélia despontada como uma das primeiras a se rebelar e Fora da Lei tem a dignidade e o orgulho deste notável cineasta em colocar com toda contundência este filme universal e maior, tanto pela sua impecável edição, como pelo som, um elenco de primeiríssima qualidade, diante de um roteiro enxuto e um direção precisa, torna este longa como um dos melhores desta 34ª. Mostra de São Paulo.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Mostra de Cinema São Paulo (Memórias de Xangai)



Memórias de Xangai

Jia Zhang Ke dirigiu o instigante Plataforma (2000), seu segundo filme, um drama de três horas de duração, que já abordava os efeitos da abertura capitalista na fechada sociedade chinesa, em que a migração interna parece ser a única alternativa para toda uma geração. No caso, uma trupe de atores que assume outros empregos. No filme seguinte, Prazeres Desconhecidos (2002), tratava dos efeitos dessa abertura nos adolescentes, perdidos entre a cultura de seu país e o ocidente. Seu primeiro filme foi o premiado Pickpocket (1997).

O cineasta chinês agora realizou de forma elegante e sutil este semidocumentário Memórias de Xangai que aborda visceralmente toda revolução cultural e política nesta bela cidade portuária de pequenos barcos e navios majestosos que descem vagarosamente pelo seu rio, em plano-sequência aberto, em câmera lenta aproximada, desenhando um lindo quadro como se fosse pintado pelo impressionista clássico Renoir ou o barroco europeu Rembrant.

Mas Memórias de Xangai não é só beleza plástica, pois traça um painel de lágrimas e recordações, com muitas reminiscências pelos sobreviventes e descendentes daqueles que lutaram pela revolução e independência desta principal e calorosa cidade portuária mais importante da República Popular da China. Os diálogos mostram o que foi e o que é hoje Xangai, com mais de 20 milhões de habitantes, localizada na costa da China Oriental, administrada como um município, com um estatuto de província. Era uma cidade favorável pelo seu porto e com uma das mais abertas ao comércio exterior pelo Tratado de Nanquim, florescendo como um centro comercial, financeiro e de negócios na década de 30.

No entanto, sua prosperidade foi interrompida devido a tomada lenta pelo Japão durante a 2ª. Guerra Sino-Japonesa e após a tomada comunista, em 1949, devido à cessação de investimentos estrangeiros. As reformas econômicas em 1990 resultaram em um intenso desenvolvimento da cidade em 2005, tornando-se o maior porto de carga do mundo. É famosa por seus marcos históricos, como o Bund, o Templo da Idade de Deus, o moderno Centro Financeiro de Pudong, onde está localizada a famosa Torre de Pérola Oriental, por sua reputação como um centro cosmopolita da cultura e da moda, sendo o maior centro comercial e financeiro, descrita como o grande exemplo da pujança de economia.

Até o filme de Michelangelo Antonioni China (1972) é questionado por um depoimento de um simpático chinês estarrecido com a preocupação do cineasta com as coisas do passado que representam o passado atrasado e não o presente novo e alvissareiro. Outros filmes emolduram e inspiram os personagens para dissecarem suas mágoas, lembranças e frustrações de um passado que os atormentam, pois tragaram muitas vidas, com as esperanças sendo retorcidas naquela deprimente guerra civil sanguinária deflagrada para que os irmãos se matassem por uma ideologia arcaica e sem nenhuma glória.

O diretor chinês finca pé e dá seu tom de esperança, naquela cena final em que os personagens já ocidentalizados e divorciados de um sistema comunista sepultado, sobem pelos elevadores naquele prédio de mais de 100 andares, para os altos da torre do capital financeiro, para observarem os barcos descendo por aquele mesmo rio, mostrando em flasbacks um atraso do passado, emoldurados por prédios enormes e majestosos, com os viadutos de um cidade civilizada e próspera.

Com a vitória do comunismo em 1949, milhares de pessoas se refugiaram em Taiwan e Hong Kong, voltando 30 anos depois, com a abertura do capitalismo, enfrentando ainda dureza do regime autoritário e castrador de artistas e a liberdade de opinião, nesta Xangai que conviveu com assassinatos e muitas histórias de amor e desilusões de uma gama heterogênea de seus habitantes, tais como: do revolucionário ao pacificador; do gângster ao intelectual; do capitalista ao comunista; do soldado ao cidadão comum. Um bom semidocumentário que desfila um painel de diversas camadas da sociedade de Xangai, onde pessoas simples e intelectuais dão seus depoimentos humildes e em outros já mais politizados e com suas posições bem definidas politicamente, sobre passado, presente e futuro.