quarta-feira, 6 de maio de 2020

Ema



Novas Relações Familiares

Diante dos conturbados tempos de isolamento social, com o fechamento dos cinemas devido à pandemia do brutal coronavírus que distancia e afasta cada vez mais os seres humanos, surge como opção a busca nas plataformas de streaming. Realizada em colaboração com a Imovision, em exibição única e exclusiva na plataforma MUBI, ficou disponível por 24 horas, no feriado deste 1º. de maio, o filme Ema, do cultuado diretor chileno Pablo Larraín, com o estimulante roteiro de Guillermo Calderón e Alejandro Moreno. Além do Brasil, foi disponibilizado simultaneamente em mais de 50 países, entre os quais estão o Reino Unido, Canadá, Chile, Argentina, Coreia do Sul, Índia, Suécia e Singapura. Premiado no Festival de Veneza como melhor filme, teve ainda mais quatro indicações. Já no Festival de Liubliana, na Eslovênia, foi laureado com a melhor direção. A trilha sonora original assinada pelo produtor e músico chileno Nicolas Jaar, com o estilo musical reggaeton originário da Colômbia, foi inspirado pela disseminação das danças nas ruas de Valparaíso, e obteve premiação no Festival de Miami de 2019.

Larraín é um cineasta de 43 anos, inquieto e sempre inventivo nas suas propostas, procura lançar questionamentos profundos sobre suas realizações, mostra-se preocupado com as distorções das mazelas sociais e políticas de seu país. Na sua filmografia estão: Fuga (2006); o aclamado Tony Manero (2008; Post Mortem (2010); No (2012) foi festejado pela crítica e aplaudido pelo púbico, talvez o mais popular deles por retratar a pressão internacional sobre o ditador Augusto Pinochet, que convoca um plebiscito para avaliar seu governo sanguinário e a manutenção do regime em 1988. É dele também o badalado O Clube (2015); a comentada cinebiografia Jackie (2016), sobre a ex-primeira-dama dos EUA Jacqueline Kennedy, rendeu a indicação de Natalie Portman ao Globo de Ouro. Neruda foi sua penúltima obra, em que abordou um período pouco conhecido do poeta Pablo Neruda (1904-1973) e sua incursão como senador cassado na política chilena, bem como seu período no exílio, ao se refugiar no sul do país, foi perseguido pelo governo totalitário chileno de 1948, sob o comando do presidente Gabriel González Videla, por ser um comunista assumido e com ligações ao governo da extinta União Soviética.

O último trabalho de Larraín é emocionalmente desafiador ao contar a história do coreógrafo Gastón (Gael García Bernal- com um atuação apática) e sua mulher bailarina, que empresta o nome ao título do longa (Mariana Di Girolamo- em desempenho dignificante). A relação toma proporções iminentes de ruptura dos vínculos matrimoniais depois que o casal adota um menino problemático que provoca uma pequena tragédia com seu instinto incendiário que irá literalmente deformar o rosto da irmã da protagonista. O drama familiar tem um roteiro eclético com vários contornos e mudanças de itinerário durante sua trajetória. Quando tudo indica que seguirá um rumo, muda rapidamente e envereda para outra saída. É uma realização que traz em seu bojo a imprevisibilidade, afastando-se sempre da mesmice, por tratar de situações dos microcosmos de famílias com suas relações carregadas de problemas obscuros em tom sombrio, com algumas lembranças do passado que persistem, como o da personagem central.

Ema pode transparecer uma obra quase que intoxicante sobre sexo e suas nuances, em que o poder e o caos estão presentes manifestamente. Mas na realidade representa uma juventude do século XXI diante dos novos horizontes que afloram e o corte das amarras da transição que passa o Chile contemporâneo. Tem o viés da improbabilidade como no desfecho completamente inusitado pela reviravolta em sua amplitude e o resultado que o destino reserva e contemplará os casais envolvidos no imbróglio. Mais pela força e a busca incessante de uma solução diferente na atitude rebelde da personagem com seu visual andrógino e sua obsessão pela genetriz de gerar, tanto quanto atípica em que ela busca no homem treinado para abafar as labaredas do incêndio, bem como pela adoção e o carinho externado ao adotado. São metáforas da vida lançadas na primeira cena e depois no desenrolar da trama, em que o bombeiro surge como o herói dos conflitos naturais, mas o destino lhe reserva o protagonismo casual para ser uma figura proeminente com sua mulher no epílogo.

O casamento desmoronando depois que o casal de artistas se vê obrigado a devolver a criança que eles adotaram para o orfanato é o mote para Larraín lançar um novo olhar para esta juventude sedenta de liberdade no Chile. Para isso, usa o artifício da coreógrafa bissexual, uma mulher multifacetada com uma personalidade alicerçada sob o prisma do enigmatismo, a sensualidade advinda da dança e a relação com o fogo estreitada pelo aparelho lança-chamas que irá dar um norte para iluminar o futuro. Por ser intensa, louca e lúcida com seus paradoxos, irá construir calculadamente com sua audácia sem limites as novas polifamílias através da ousada proposta de uma sociedade que deriva diante das circunstâncias apresentadas para um novo universo dos multicasais. O mérito do realizador está em não colocar Ema como uma personagem politicamente correta, mas desnudar intrínseco e extrinsecamente a natureza de sua personalidade dúbia, por vezes; meticulosa, em outras aparições, até atingir seu desiderato persuasivo e obstinado pela continuidade com a força interior da maternidade. Ainda que haja excessos e repetições em muitas cenas, o que torna o drama arrastado, quase que entediante, embora não invalide a proposta psicanalítica complexa. A criatividade flui em um clima hipnótico pelas imagens sensoriais e da pulsação da música como ingredientes preponderantes deste bom filme, embora menor que suas realizações anteriores, há méritos a serem ressaltados e prestigiados pelo espectador.