segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os 10 Melhores do Ano













Os 10 Mais

Como é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos em 2009, também estou elencando o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais. Não segue uma ordem crescente, mas aleatória sem preferência de lugar:

01. Bastardos Inglórios (foto acima), de Quentin Tarantino;

02. Anticristo, de Lars Von Trier;

03. Horas de Verão, de Olivier Assayas;

04. A Questão Humana, de Nicolas Klotz;

05. Paris, de Cédric Klapisch;

06. Entre os Muros da Escola, de Laurent Cantet;

07. Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes;

08. A Partida, de Yojiro Takita;

09. Desejo e Perigo, de Ang Lee;

10. A Festa da Menina Morta, de Matheus Nachtergaele.

Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:
- Katyn, de Andrzej Wajda;
- Valsa com Bashir, de Ari Foman;
- Stella, de Sylvie Verheide;
- Hanami - Cerejeiras em Flor, de Doris Dörrie;
- A Bela Junie, de Christophe Honoré.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Partir














Paixão sem Limites

A diretora francesa Catherine Corsini, em seu sétimo longa-metragem Partir (2009), reverencia com estilo próprio o grande mestre François Traffaut, que tinha nas grandes paixões arrebatadoras, por vezes trágicas, sua marca registrada. As semelhanças entre Partir e A Mulher do Lado são por demais iguais.

No longa A Mulher do Lado, Truffaut tinha no elenco nada mais do que a exuberante e magnífica Fanny Ardant sendo disputada pelo marido Henri Garcin e o ex-amante Gérard Depardieu. A narrativa girava em torno de um triângulo amoroso, onde o locador tivera um romance há 8 anos com a mulher de seu mais novo inquilino. Apesar das falsas aparências e dissimulações, logo o relacionamento do passado vem à tona, explodindo com a perda do controle numa festa, o clima de tensão se instala. O velho mestre conduziu como quase sempre o fizera, com sua elegância, capacidade de convencimento e sutileza mesclados com um bom gosto indiscutível.

Já em Partir, a diretora conduz com boa performance, mas longe da genialidade de Truffaut. Soube escolher bem seu elenco, tendo na atriz inglesa de 49 anos Kristin Scott Thomas, com sua beleza mais clássica, porém de enorme talento, como já brilhara em Há Tanto Tempo que te Amo (2008) e O Paciente Inglês (1996), contracenando com o famoso médico (Yvan Attal), seu marido traído, e o amante na pele de um pedreiro espanhol (Sergi López), do enigmático filme O Labirinto do Fauno (2006).

O fogo de um amor enlouquecido numa paixão sem limites é o núcleo deste drama, onde a fisioterapeuta Suzanne é casada com um célebre médico, resolve voltar a trabalhar em casa. Para isso haverá reformas na sua residência no interior da França, sendo contratado um pedreiro espanhol com problemas de imigração e algumas passagens pela polícia. O envolvimento é iminente e os limites do relacionamento entre mulher e marido são transpostos e a separação sempre negada pelo médico se encaminha para a tragicidade. No meio deste redemoinho há os filhos que se dividem em apoio ao pai pela filha e à mãe pelo filho. Num conflito de interesses e amores mal resolvidos sobra para os adolescentes.

Como num vulcão, há o perdão do esposo condescendente e vingativo ao extremo, mas ignorado por Suzanne que sofre todo o tipo de preconceito para ter ao lado seu companheiro. Passam por uma crise financeira inimaginável, mas a paixão se mantém incólume e sua obsessão é transparente. A resistência de Suzanne, nas busca incansável pelo seu destino com o amante é comovedora. Luta bravamente com muita gana, digna de uma pessoa forte que se mantém com equilíbrio até não mais resistir e se deixar levar pela coação e pela solução que vê como única saída, num mundo de preconceitos e de valores estereotipados que são impostos com dinheiro e ameaças, ficando à mercê de uma explícita armadilha do poder e da fama de quem não mais ama, numa metáfora de uma sociedade onde os menos favorecidos são usurpados e levados à humilhação quando se rebelam.

Um bom filme este Partir, mesmo sem o glamour de A Mulher do Lado, deve ser prestigiado e assistido pelas suas qualidades que não são poucas. Um drama de amor e paixão sem pieguices ou tratados de autoajuda. As reflexões sobre o mundo da adolescência no sofrimento dos filhos são bem explorados e contidos. O próprio perdão com o interesse único da permanência simbólica, tem na busca do indiciamento do amante para afastá-lo são vistos como reprováveis e abjetos, pois os meios utilizados são os piores possíveis e dentro de uma clausura de possessão sobre a mulher pelo homem, ainda que o adultério esteja escancarado

Em tempo: O Instituto NT, na Rua Marquês do Pombal, nº. 1111, em Porto Alegre, foi uma agradável surpresa que merece todos os elogios e alguns reparos. A sala de cinema fica no térreo de uma casa antiga e rústica tombada pelo patrimônio público. Tem um ar condicionado perfeito, com uma tela de ótima projeção, tendo nas poltronas revestidas de couro seu ponto máximo e irretocável, embora pequena é extremamente aconchegante. No interior do pátio há uma cafeteria com um telão, estando as diversas mesas e cadeiras temáticas bem distribuídas, homenageando grandes diretores do cenário nacional e internacional. Não há estacionamento privativo, mas na rua é fácil encontrar lugares para os carros, com a presteza de um segurança atento. Há apenas um banheiro, tanto para cavalheiros como para as damas, mas parece não haver problemas maiores.

Como nada é perfeito, faltam placas de indicação da bilheteria, da sala de cinema e do banheiro, mas os funcionários são muito eficientes e dinâmicos, não deixando o espectador perdido. A parte superior do Instituto estava fechada e se destina para exposições.
É de se pensar em reforçar a segurança, pois a localização no Instituto NT é em lugar ermo e propício para assaltos.

No mais, parabéns pela iniciativa! Que venham outras da mesma grandeza e qualidade técnica aliadas ao conforto para os cinéfilos gaúchos e turistas, por quê não?

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

A Questão Humana

















Feridas do Nazismo

O filme A Questão Humana não é mais uma obra que trata do Holocausto em que se envolveu de forma bárbara o Nazismo. O diretor Nicolas Klotz aborda de forma sutil, as feridas ainda abertas de uma época que jamais se esquecerá, onde o celerado Adolf Hitler comprometeu toda uma civilização e um povo como o alemão. Esta obra é a terceira de uma trilogia informal que começou com Pária (2000) e A Ferida (2004), onde a estagnação econômica que assola uma França tem os reflexos nos diferentes aspectos impregnados numa década de dificuldades para os franceses.

O longa tem na figura central do psicólogo Simon (Mathieu Amalric), escolhido a dedo no departamento de recursos humanos, pelo vice-presidente da filial francesa de uma corporação petroquímica com matriz na Alemanha, para investigar a vida pregressa do próprio presidente da empresa Mathias Jüst (Michael Londsdale), diante da suspeição de insanidade mental.

Simon demonstra todas as fraquezas inerentes de um ser humano sensível e torna-se uma pessoa debilitada e com sérios transtornos. Envolve-se com mulheres e ainda se deixa levar por drogas numa "Festa Rave", sendo que a loucura parece lhe tomar conta de seus sentimentos, do seu corpo, mente e percepção de um técnico equilibrado e de bom senso. Sua vida esboroa-se cada vez vez mais e sua derrota pessoal parece iminente, com as revelações que vão surgindo e o emaranhado que começa a se dissipar e a desanuviar um passado. As ligações com o nazismo são a mola mestra de uma aluvião de segredos e vidas eivadas por um passado inglório e de ligações com a dívida que teima em retornar e cobrar.

Num misto de confusão mental com as terríveis ligações perigosas do presidente da empresa com o fatídico regime que eliminou milhões de judeus, começam a clarear lentamente e o terror volta ao presente. Não é um filme de imagens monumentais de pessoas sendo mortas nos chuveiros de gases químicos envenenados, mas de elucubrações psicológicas que vão se diluindo, tendo nas palavras e gestos as matizes primordiais desta contundente narrativa de mais de duas horas de duração.

Nicolas Klotz tem uma direção consistente e faz brilhar o talentoso Mathieu Amalric, numa atuação estupenda e consagradora na pele de um profissional isento até o envolvimento com um passado de cadávers insepultos numa França em crise econômica. Aquele pesadelo que vai se formando num terreno de areia movediça, faz com que Simon sinta que nada é mais tão firme e o mundo gira e vai de encontro aos espectadores, por meio de palavras e de sentimentos contidos, que logo irão tomar por completo a mente do mais distraído dos assistentes, pela dor e pela avassaladora confusão psíquica que se instala no investigativo psicólogo que aplica a dinâmica de grupo, se transfere com absoluta propriedade e convencimento.

Simon busca em seus jogos com os funcionários, a tentativa de captar com esmero a agressividade natural das pessoas, fazendo-as ultrapassarem seus limites e se entregarem a persuasão técnica para atingir a competição aguardada numa empresa de nossos tempos, usando como metáforas a reengenharia e a reestruturação. Discretamente tem na investigação seu ponto principal e atinge o ápice ao se encontrar com os participantes do quarteto de cordas em que Mathias era um violinista que se deixará convencer e revelar uma ligação com o pai a serviço de um monumental erro histórico de uma nação, com ressonância de geração a geração.

Eis um filme de cinema político moderno, longe dos clichês didáticos de épocas passadas, que afasta com clarividência o ódio e a vingança, mesmo sendo em tom seco, quase frio, mas jamais omisso ou de sentimentalismos baratos, que desestabiliza o espectador pela visão confusa e perturbada de Simon que revela a monstruosidade vivendo entre nossos pares de um mundo onde as atrocidades ganham espaço, contadas sutil e metaforicamente neste perturbador e extraordinário longa sem dualismo que expõe as vísceras abertas das vítimas tanto das gerações do pós-Nazismo como as do Holocausto. A reflexão proposta no final deixa marcas indeléveis para serem discutidas e absorvidas com um gosto amargo de fel na boca.

Waldick, Sempre no Meu Coração



Brega com Carinho

Patrícia Pilar é uma pessoa iluminada e de uma estrela que nunca quer se apagar. Tem uma beleza estonteante, sendo uma das atrizes mais lindas mesclada com um talento invejável, quando atua na TV ou nas aparições esporádicas no cinema. Recentemente, arrasou no papel da vilã Flora numa das últimas novelas da Rede Globo. Tem chances até de se tornar a primeira dama do Brasil, caso seu marido Ciro Gomes, bem cotado no cenário nacional, venha conquistar a Presidência da República, como sucessor de Lula. É um dos paparicados do atual presidente e a bela loura poderá dar luzes fashion em substituição a dona Marisa.

Pois agora Patrícia Pilar dirige seu primeiro filme, em forma de documentário, com um resultado satisfatório. Mostra sensibilidade em Waldick, Sempre no Meu Coração, dissecando a trajetória deste ícone da cafonice, atualmente chamado de brega, conforme ele mesmo admite no filme, embora prefira a classificação de um poeta romântico. Para quem se lança no mundo do cinema, por trás das câmeras, com seu primeiro trabalho, fica um gosto de quero mais e qual seu próximo trabalho, diante da estreia alvissareira.

A sensibilidade na condução do enredo é contagiante, logo nas primeiras cenas aparece o controvertido cantor dentro de um carro relatando sua vida, suas amarguras e suas inquietações. Não há espaço para lamúrias ou melodramas, afastando todo o sentimentalismo barato, Waldick vai logo dizendo que se inspirou no personagem Durango Kid dos velhos faroestes americanos, que usava roupas com uma capa preta. Adotou também óculos sempre pretos como um estilo próprio e uma maneira de viver como os míticos caubóis.

Admite que tem a fama de mulherengo, beberrão e um homem que apesar de seus sentimentos de um eterno apaixonado nunca se prendeu por muito tempo ao lado de uma mulher. Deixou o sertão da Bahia aos 27 anos para buscar a fama numa profissão digna em São Paulo, pois se cansara do garimpo. Prometeu ao seu pai que só voltaria se vencesse e por isso voltou para a terra natal, embora tenha passado maus momentos no início, aliás como em todos os relatos de famosos.

Waldick diz, sem nenhum constrangimento, que a procura da inspiração está exatamente na tristeza e nas lembranças de saudades como sendo esta a palavra mágica que mais lhe dói. Estar na "fossa" lhe dá vazão para criar e deixar nas canções suas dores de cotovelo de perda e paixão. A felicidade para ele é a busca de uma outra canção ou de uma outra mulher. A volúpia pelo novo contrasta com seu perfil conservador, mas joga tudo isso para o fato de ser um poeta que tem na busca incessante uma fonte sempre mais adiante.

O encontro com o filho está bem dosado, embora haja mágoas dos dois lados, prevalece a voz forte do pai Waldick cobrando a presença do rapaz nos seus shows, como se esse fosse o ausente, sem arrependimentos ou choradeiras. O filho ainda tenta se explicar, mas o corte se faz necessário e a vida continua. Patrícia demonstra conhecimento estético e se impõe como diretora, as elipses são sempre na hora certa. Não há bruscas interrupções e a leveza como conduz este belo documentário se insere como um dos filmes bem aceitos pelo público, pois faz por merecer, diante da suavidade e da finesse como conduz e tendo no centro uma personagem tosca repleta de bravatas.

A reverência da vida e obra ficarão documentadas, embora o filme não se preste para desfilar músicas intermináveis, o que é um acréscimo a mais para a película sobre este romântico baiano morto de câncer em 2008, logo após as gravações finais, que deixou um enorme número de fãs e detratores.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

À Procura de Eric
















Conselhos do Ídolo

À Procura de Eric abriu a 33a. Mostra de Cinema de São Paulo, escolha esta saudada com pompas e elogios desmedidos. Este é o último trabalho do festejado diretor Ken Loach, um britânico que tem sua trajetória voltada para as condições da classe operária, suas mazelas e as condições humanas e socias fragilizadas e debatidas à exaustão. Assim foi em Ventos da Liberdade (2006), ganhador do Palma de Ouro em Cannes, diante da sensível abordagem da luta dos trabalhadores irlandeses em 1920 contra os soldados ingleses que tentam obstruir a independência da Irlanda. Segue o tema em Pão e Rosas (2000), Mundo Livre (2007) e Sweet Sixteen (2002), entre tantos com a reflexão sobre o operariado e suas dificuldades de emprego, surgindo a esperança e logo a desesperança.

Mas não muito distante desta reflexão, há a preocupação com os ídolos e suas decadências desportivas, moral e pessoal e amorosas. Bem explorado em Meu Nome é Joe (1998), ao se debruçar sobre um técnico de futebol do pior time de desempregados da Escócia, que acaba por se entregar ao alcoolismo e farras homéricas.

Agora com À procura de Eric seu foco é novamente as diabruras do temperamental e polêmico ex-jogador de futebol do poderoso Manchester Leeds United, um francês de jogadas e dribles refinados e uma pontaria mortal chamado Eric Cantona, com as sequências delirantes de jogadas do passado e gols memoráveis, entre as fotos que se espalham e a idolatria atingindo o ápice e transpondo da realidade para a ficção e a fantasia do cinema

O diretor neste longa faz as confissões do célebre Cantona pela boca do seu fã maior, um carteiro Eric Bishop (Steve Evets) em grande desempenho, numa performance invejável como o homem apaixonado pela ex-esposa Lily (Stephanie Bishop) que conheceu há 30 anos. Apesar de sua luta interior e seu esforço descomunal, as coisas parecem que não se encaixam e nada dá certo. Busca no baseado sua fuga para relaxar e esquecer as amarguras da vida. Nesses devaneios de visões aparece seu ídolo maior Cantona que tenta ajudá-lo, aconselhando como um legítimo amigo a superar os percalços e as dificuldades encontradas para superar os momentos difíceis que está passando.

Na procura dos Erics, tenta se encontrar o Cantona como o Bishop, um é carteiro com suas fragilidades de convivência, dificuldades de resolver as relações interpessoais pela sua intempestividade e o envolvimento de um dos dois enteados com gangues de tráfico, bem como a ausência de paternidade para com sua filha que não criou e tenta se aproximar, para resgatar um passado que vive lhe assombrando, assim como da ex-mulher Lily, por quem nutre a esperança da reconquista. Mas Cantona, seu ídolo inconteste e amigo deixa passar seu passado de glórias e as relações interiores e exteriores conturbadas pelo seu fã Bishop. Ambos se fundem num Eric, mas as frágeis e intrínsecas relações são pertinentes e dolorosas, tanto para o burocrata como para a celebridade.

O cineasta sempre foi um engajado em causas sociais e contra os preconceitos aos imigrantes, quase se deixa levar no final para a autoajuda, como na cena das máscaras de Cantona disseminadas nas torcidas organizadas numa caravana de ônibus, invadindo uma residência de pessoas más e malfeitoras para a sociedade. As filmagens e a humilhação aos cachorros Rotweillers e a destruição simbólica do poder junto aos quadros na parede com agressão moral superior à física, quase que detonam com as ideias maiores propostas. Por pouco a superficialidade aparente que esbarra não acaba com uma reflexiva e grandiosa visão sobre um mundo pouco explorado como o a análise dos ídolos.

Há uma volta com uma saída honrosa, que quase derrapa, deixando algumas lacunas e feridas abertas propícias para a artificialidade refutadas com inteligência. Eis um filme que retrata em doses homeopáticas a vida atribulada deste misto de atleta vilão de bom coração e conselheiro, embora de língua afiada, marrento e irascível por vezes. Nos bons conselhos lembra o filme de Woody Allen, Sonhos de Um Sedutor (1972), como em outros menos votados. Não é novo no cinema, mas com um resultado satisfatório para este bom filme sobre a magia eterna do futebol.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A Erva do Rato



Ciúmes do Roedor

Júlio Bressane surpreende quase sempre. Às vezes positivamente como o belo e sensual Filme de Amor (2003), e em outras tantas seu lado negativo aflora, como em A Erva do Rato, seu último trabalho, depois do desastrado e vaiado Cleópatra (2007) no Festival de Brasília daquele ano. Tem em seu currículo obras discutíveis como O Anjo Nasceu (1969), Matou a Família e foi ao Cinema (1969), Miramar (1997), Dias de Nietzsche em Turim (2001). Porém há sua obra maior em Brás Cubas (1985).

Com A Erva do Rato aborda o voyeurismo, o erotismo conjugado com uma morbidez entrecortada pelo escatologismo, sem se afastar das neuroses enlouquecidas, retiradas de dois contos de Machado de Assis. O longa funde os elementos extraídos da obra machadiana como O Esqueleto (1875) e A Causa Secreta (1885). Embora não seja uma adaptação, inclina-se para uma livre e desplugada união do conteúdo desses contos. Já em Brás Cubas admite que adaptou diretamente do livro do maior escritor brasileiro de todos os tempos.

As peripécias do ratinho e suas incursões pelas pernas e seu passeio noturno pelo corpo de Alessandra Negrini, faz com que seu companheiro sinta um ciúme doentio pelo pobre roedor erotizado, tendo suas elucubrações e taras punidas pela decapitação dos membros de forma nua e crua com requintes de tortura como a crueldade inerente dos fascínoras traídos, numa cena chocante pela neurótica alucinação de Selton Mello pela mulher invadida e com trejeitos indicadores de uma satisfação mórbida e repugnante. As ratoeiras espalhadas pela casa simbolizam uma opressão e a caça ao animal se transforma num fascínio do homem ultrajado.

Ciúmes de um ratinho ou apenas uma alegoria do mal e do bem, mas que fica destruída pela loucura das cenas finais da adoração pelo esqueleto. Lembra em muito Alfred Hitchcock com a inesquecível cena da mãe e do filho em Psicose (1960), quando há a veneração entre a mãe simbolizando a opressão e o filho cultivando seu passado com seu enlouquecido amor matriarcal. Também no filme do velho mestre Hitchcock, há o ciúme presente e a jovem ouve a mãe dizer para se afastar, pois não deseja a presença de uma estranha naquele lugar. Ainda que bizarro e inverossímil, este é um dos maiores filmes de suspense da história do cinema, mas que serve apenas de apanágio para Bressane se inspirar, e diga-se de passagem, muito mal, diante das dificuldades de continuidade com as aberrações estéticas decorrentes deste sofrível e descartável longa-metragem.

A se lamentar ainda mais, a atuação de Alessandra Negrini, em mais um papel deplorável e melancólico, pois Bressane tem um inimaginável e desproporcional gosto por ela e a vê como sua musa, o que retarda e atrapalha o desenvolvimento de seus filmes, como já o fora em Cleópatra. Uma atriz de escassa dramaticidade, com ausência de uma presença mais marcante, longe de ser uma estrela ou sequer uma boa figurante. Não tem dotes mínimos para ser a protagonista principal e acaba por entortar e comprometer o desempenho de Selton Mello, que está lamentável, longe de sua performance habitual e sabida de equilíbrio técnico e postura de um dos melhores atores brasileiros da atualidade.

O cineasta poderia realizar um filme fabuloso, pois tinha nos contos machadianos, na inspiração hitchcockiana e na sua imaginação fértil, tudo para consagrar-se definitivamente como uma obra singular. Ficou somente o esboço e as alusões filosóficas frustradas de um retumbante fracasso e o desprezível A Erva do Rato irá fazer parte de um ultrapassado formalismo estético, sem emoção ou de uma lembrança construtiva qualificada inexistente, que logo cairá no esquecimento, assim que sair de cartaz.

Garapa

















Fome e Miséria

Encerrada a grandiosa 33a. Mostra de Cinema de São Paulo, com ótimos filmes vi e já analisei anteriormente, voltamos à realidade porto-alegrense. Para começar, vimos o irregular filme Garapa, de José Padilha. Realizador de duas obras discutíveis, como o polêmico Tropa de Elite (2007), onde beira ao fascismo, embora haja quem entenda como abordagem cinematográfica de denúncia, o que é controverso, dirigiu Ônibus 174 (2002), bem superior ao filme Última Parada 174, de Bruno Barreto, que tratou do mesmo tema, onde o personagem principal é um dos sobreviventes do massacre da Igreja Candelária. Produziu e escreveu o documentário Os Carvoeiros (2000) e Estamira (2006) somente esteve na produção.

Garapa é um documentário em que três famílias do sertão cearense são as protagonistas da fome e da miséria brasileira nosdestina. Não chega nem próximo das magníficas obras do saudoso Glauber Rocha, como o estonteante Terra em Transe (1967) e a inesquecível obra-prima Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963). Ambos voltados para as desgraças do Nordeste, como a seca e a miséria intermitente, onde a fome era avassaladora e destrutiva conjugadas com as mazelas sociais.

Outro diretor genial que conseguiu passar com maestria a seca e os retirantes nordestinos foi Nelson Pereira dos Santos, no extraordinário Vidas Secas (1963), baseado no livro homônimo de Graciliano Ramos. O neorrealismo do cinema italiano fica evidenciado neste que talvez seja o maior filme sobre a vida e a miséria de um povo, com a fome sendo a personagem irretocável como símbolo de uma era de desolação de pessoas abatidas pela penúria e sem saída.

José Padilha parte para a câmera solta documentando tudo, sem um roteiro, numa estética afastada de uma envergadura cinematográfica plausível. Filmado em preto e branco, as sequências da rotina das famílias vão acontecendo. Há as bebedeiras com porres homéricos rotineiros, as agressões físicas e visuais, o sofrível atendimento do SUS, e uma discreta propaganda do programa do Governo Lula denominado Bolsa Família, com números e estatísticas internacionais de famintos num disfarce bem sutil. Os dados são apresentados pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), o que já dá para se desconfiar, afirmando que 910 milhões de pessoas sofrem por deficiência alimentar no mundo, sendo que 55 millhões delas são atendidas pelo Bolsa Família. Nada é discutido ou revisado, há apenas uma euforia incontida de um meta de governo que inegavelmente não deixa morrer mais pessoas famintas. Mas para isso não é necessário apenas aplausos, a discussão e o questionamento são necessários.

Falta ao documentário é a isenção, pois o próprio diretor admite que ao filmar as famílias acabou por se comprometer e fazer parte deste núcleo, até porque seu olhar sociológico tem em muito com sua formação de Administração em Empresas, Economia Política e Política Internacional. Padilha poderia ter realizado um documentário bem melhor, de uma eloquência contundente e imparcial, como Glauber Rocha e Nelson Pereira do Santos. Deve, para isso, deixar de ser o diretor do quase: quase fascista em Tropa de Elite e quase bom e quase isento em Garapa. Também é quase um diretor talentoso.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo (Singularidades...)

















Singularidades uma Rapariga Loura

Manoel de Oliveira nem parece ter 101 anos, pois está em forma e adaptou desta vez um conto de Eça de Queiroz, com a jovialidade do cineasta mais velho em atividade na história do cinema. Desta vez debruça-se sobre um conto do universo clássico da literatura de seu conterrâneo português. Já fez trabalhos melhores, isso é verdade, como Amor de Perdição (1978), Vou para Casa (2001) e o magistral Um Filme Falado (2003).

Sua última obra Singularidades de Uma Rapariga Loura mostra a paixão de Macário (Ricardo Trêpa) pela deslumbrante vizinha da casa do outro lado da rua em Lisboa (Catarina Wallenstein), numa alusão discreta e fascinante ao mestre Alfred Hitchcock com o filme Janela Indiscreta (1954) e suas louras fatais. Espia diariamente aquela moça encantadora e misteriosa que balança seu leque chinês com dragões em ambos os lados, numa metáfora sobre qual sua verdadeira face e a ilusão de ótica do pretendente. Seu tio Francisco (Diogo Dória) opõe-se inexplicavelmente ao relacionamento e ao pedido de casamento, acaba por expulsá-lo de casa e afasta-o do trabalho. Este busca emprego em outro armazém e vai fazer fortuna em Cabo Verde, conseguindo finalmente a permissão do velho tio para se casar, porém o inesperado acontece e o infortúnio da desilusão com a desgraça se abate sobre sua cabeça de forma categórica e triste.

A história deste grande amor é contada pelo próprio Macário para uma senhora aguçada pelo desenlace, numa viagem de trem para Algarves onde o cobrador confere as passagens minuciosa e educadamente, com o gingado pelos trilhos da locomotiva. Os fatos começam a se delinear com a visita ao sarau literário, num mundo requintado e diferente de Macário, para ouvir o poeta Luiz Miguel Cintra recitar poemas, onde há citações a Fernando Pessoa.

As ironias do destino e o desdobramento para as revelações que serão conhecidas somente na última cena destes 63 minutos bem elaborados e o refinamento da síntese cinematográfica proposta pelo velho mestre Manoel Oliveira. O voyeurismo está presente, assim como em Hitchcock tão bem colocava. A descrição da poética Lisboa que serve como cenário é feita com toda a sutileza e elegância. Os quadros nas suntuosas paredes com os belos tapetes vermelhos que guarnecem a linda residência do tabelião com candelabros e lustres que pendem do teto são majestosos, ao mesmo tempo conflitantes com a paixão pela rapariga enigmática e com traços de desvio comportamental não visíveis.

O cineasta explora com boa qualidade as relações entre um homem e uma mulher, mesmo que o sofrimento se faça presente e haja uma fracassada união em ebulição. Nas joias que se encontram na joalheria está a solução e o contraste daqueles dois seres com propósitos diferentes. Um romântico e apaixonado querendo casar e preservar a espécie, o outro sedento pela mesquinharia e torpeza, apenas deixando marcas indeléveis de desonestidade e falta de caráter, já prenunciados no amigo de Macário que o envolveu num empréstimo bancário, levando o rapaz como fiador.

Embora seja um filme menor, ainda se vê todo dinamismo de um cinema com toda sua eloquência. O poder de síntese com cenários meticulosamente apresentados ao seu fiel público corroboram para a expectativa sempre de uma película elegante. Ser jovem e coerente com o que faz, demonstrando lucidez numa pessoa centenária também comovem e remetem para a beleza de cenas sempre dignas de uma realidade, além de tudo muito humana e sensível.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo (Seguindo em Frente)
















Seguindo em Frente

As relações familiares são confusas e têm suas peculiaridades intrínsecas que norteiam as vidas e suas passagens, com seus segredos e ressentimentos. Eis o mote deste magnífico microcosmo apresentado no Seguindo em Frente, do japonês Hirokazu Kore-eda, que tem na sua filmografia os instigantes Maborosi (1995), Depois da Vida (1999), Ninguém Pode Saber (2004) e Hana (2006).

O drama familiar está presente com suas singularidades, revelações e preferências da família que atingem em cheio os espectadores. De uma reunião para celebrar a morte de Junpei, filho mais velho, acontecida há 15 anos, muitas revelações vêm à tona e arrebatam sem pieguices o âmago da alma daqueles membros doloridos pela perda misturado ao ciúme entre irmãos, filho e pais, esposa e marido, de forma avassaladora como um míssil no coração.

Os valores culturais são cultivados quase sem questionamentos, como na última cena, onde é colocada água na sepultura dos pais que recém os deixaram, prática esta ensinada na comovente cena da velha mãe que num dia escaldante de verão, põe minuciosamente o líquido para aliviar o calor do filho nunca esquecido, mesmo que já não mais esteja entre os vivos, mas a memória e a sua presença são uma constante e a preservação faz parte do ritual, assim como visto no excelente A Partida (2008), de Yojiro Takita, sobre a celebração da morte com suas nuanças.

O segredo das borboletas amarelas é intrigante e elas perseguem aquelas desorientadas pessoas por ondem andam, como no cemitério, no interior da residência ou pela bela alameda constituída de uma enorme escadaria sinuosa e de árvores frondosas fazendo a sombra, com o mar ao longe servindo de painel para a beleza plástica daquele aconchegante lugarejo, salpicado por ruelas minúsculas e seus pássaros cantando radiantes à espera do tempo passar.

Se o filho Ryota sente o peso da responsabilidade do velho pai, um médico aposentado, à procura do sucessor na medicina, até mesmo naquele menino que ele chama de não neto legítimo, por ser filho da viúva e vista à distância como nora, pois a irmã é uma fútil e destrambelhada, que ignora a convivência entre parentes, dedicando-se apenas aos seus afazeres profissionais e seu esposo.

Em outro momento marcante, há a cena da volta, já com uma filha que seria de verdade, como alegado outrora, para aquele lugar de lembranças, lamenta-se por não ter podido realizar os sonhos acalentado no seio familiar: como ir ao futebol com seu pai, ainda que de relações estremecidas e de não ter dado uma singela carona de carro para sua mãe, uma pessoa surpreendente pelas comidas que se dedicava e fazia com extrema sensibilidade, contraditoriamente com as revelações de ódio e vingança contra o jovem gordo e pivô da morte de seu amado e predileto filho, ao salvá-lo de um afogamento imininente, chamado de imprestável pelo médico aposentado, deixam estupefato e ainda mais pessimista Ryota para um convívio salutar, além do incômodo que parece ser sua existência na célula daquela família desagregada. Impossível conter uma lágrima docemente rolando pelo rosto, diante da ternura da imagens.

O diretor demonstra as fortes ligações com o velho mestre japonês Yasujiro Ozu, morto em 1963, um preocupado cineasta com as intrigantes relações interpessoais e os dramas familiares, bem com a tradição cultivada, embora a modernidade invadindo os costumes no Japão seja uma realidade, entrando em choque cultural, diante dos novos tempos que se avizinham e estão cada vez mais presentes, tais como Jupey, o filho falecido tragicamente que nunca aparece. Permanece apenas as lembranças que se vão e a renovação familiar como bem estimula a última cena deste sensível e imperdível filme de Kore-eda, de beleza lírica constante constrastando com os ressentimentos que se expõem como vísceras abertas.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo (Soul Kitchen)

















Soul Kitchen

Novamente o brilho do cineasta alemão de ascendência turca Fatih Akin, se faz presente nesta elogiável comédia dramática Soul Kitchen, que obteve o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza deste ano. O diretor tem no seu currículo filmes rigorosamente dramáticos como sua obra-prima Do Outro Lado (2007), que obteve o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes daquele ano. Causou furor no cenário brasileiro inicialmente com Contra a Parede (2004) e em seguida com o deslumbrante documentário musical Atravessando a Ponte- O Som de Istambul (2005), demonstrando toda sua sensibilidade e vigor estético inovador nestas três obras anteriores magistrais.

Desta vez o documentário e o drama cedem seus lugares para a comédia escrachada com pitadas de drama. Começa com uma cozinha saborosa, com pratos bem feitos e deliciosos quitutes colocados numa mesa bem posta, lembrando A Festa de Babette (1987) e O jantar (1998). Mas Akin tem luz própria e não se deixa levar pelas semelhanças de filmes estritamente de forno, fogão e mesa.

Sua história com o cinema é mais elevada e os dramas pessoais abrangem o contexto e dominam as diversas situações; como as do cozinheiro com suas peripécias do amor quase perdido da namorada que está indo para Xangai, ou da dor física como os problemas com sua insólita hérnia de disco a perturbar seus movimentos. Ainda que o riso provocado pelas situações cômicas se alternem, fica evidente a preocupação com o ser humano. O irmão em liberdade condicional, viciado em jogo, ao assumir o restaurante leva-o para um imbróglio. A troca do chefe de cozinha e a fiscalização da saúde e da fazenda levam para uma verdadeira maratona confusa quase sem saída.

Mas o amor está como uma solução para os irmãos, como uma cura protagonizada com eficácia; ou para aquele viciado com problemas com a justiça, mesmo mentindo para a mãe não se acha desleal; ou para o dono do estabelecimento que parte para uma solução drástica para sua doença, conduzido pelas mãos de uma fisioterapeuta que aos poucos vai conquistando o coração daquele atrapalhado comerciante de comidas. Inova com grupos musicais realizando shows e muda a mentalidade de seu estabelecimento outrora decadente, abriga agora um público mais eclético e descolado, pois os tempos de mudança sopram rapidamente para o futuro.

O filme mostra as decisões equivocadas e inconsequentes, como uma boa reflexão sobre a persistência e a renovação do restaurante para a busca de um idealização com o se significado próprio como a cozinha das almas.

As mudanças sugeridas são o elo entre o pessimismo e uma realidade que às vezes está bem próxima, mas teimosamente alija ou afasta como forma de um preconceito ou conservadorismo cultuado. A insistência e a fibra com uma mentalidade criativa servem de estímulo deste belo filme, com uma Istambul com seus barcos e rios maravilhosos desfilando na tela.

Mostra de Cinema São Paulo (A Fita Branca)











A Fita Branca

Já em Caché (2005), o cineasta austríaco por adoção e alemão por nascimento Michael Haneke aborda as questões intrínsecas ao mistério de uma fita de vídeo enviada para a casa de uma casal francês que está sendo vigiada. Porém em A Professora de Piano (2001), seu talento fica mais evidente na personagem de uma professora que instiga pela perversidade latente naquela misteriosa educadora de música com gostos estranhos. Agora em A Fita Branca, ganhador da Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2009, sua lucidez com a parábola sobre o nazismo, que em breve se alastrará pelo mundo, fica estigmatizado sutilmente.

O longa-metragem tem como cenário uma aldeia de protestantes na Alemanha, em 1913, antes da disseminação do nazismo por Hitler, às vésperas da I Guerra Mundial, com uma semelhança enorme pela estética e o formalismo das cenas de Luz Silenciosa (2007), de Carlos Reygadas. Fatos misteriosos começam a acontecer entre os moradores, como um fio que quase degola o médico e uma mulher que morre de maneira estranha na empresa do Barão, uma espécie de Führer pela sua conduta autoritária e centralizadora e seus problemas de relacionamento com a baronesa que busca sua liberdade e a do filho que vivem naquele ambiente inóspito.

As crianças apresentadas como inocentes- os filhos do pastor usavam a fita branca para mostrarem e celebrarem a inocência que não poderia ser perdida- que de inocentes pouco tinham naquele vilarejo de hipocrisias e mentiras, numa caracterização como a do médico que se relaciona com sua filha incestuosamente, tem um filho deficiente com a parteira, alvo de chacotas e ameaças de vida. Sua mulher morta leva a uma reflexão do instinto da morte planejada ou por acaso. A filha teria alguma responsabilidade na disputa pelo pai.

Outro personagem contraditório é o pastor que se denomina de pregador religioso, embora suas atitudes de educador descambe para a violência e a humilhação em público dos filhos, atraindo a revolta e a vingança pela mutilação de um pássaro de estimação. No filho menor existe ainda a esperança de vida e beleza poética nos seus diálogos com palavras de interrogação e afeto com o pastor-pai.

É evidente que o rigorismo da religião serve como mote para o desenrolar da trama, propiciando questionamentos como o extremo ardor pela ordem com o inaceitável deslize, sendo muitas vezes respondido com bofetadas nos rostos daquelas crianças angelicais na imagem e demoníacas nas atitudes. A intolerância está presente em cada ato, não se admitindo a masturbação dos filhos, com ameaças de que estariam adquirindo uma doença fatal, mesmo que os instintos da natureza da juventude assim determinassem.

A ordem social não poderia ser minimamente ameaçada, para que uma reunião se fizesse presente e o barão, ou o Führer, conclamasse aos moradores- quase todos seus empregados-, para que os entregassem, com o intuito de serem retirados do convívio da aldeia, mantendo a punição do ritual. Enquanto isso fatos misteriosos continuam a eclodir e as vidas daquele meio hostil e nada hospitaleiro entram em ebulição, com incêndios, torturas e perseguições no trabalho são contadas didaticamente na primeira pessoa pelo professor do coral de crianças. Nem a música é respeitada, pois as aulas são interrompidas pelas autoridades que submetem os menores a verdadeiros interrogatórios de inquisição nazista.

A conclusão do filme embora sugira a solução, pode também esconder os verdadeiros autores intelectuais das atrocidades. Isso pouco importa, pois a bela parábola constrói e lança suas farpas para serem refletidas, por ser um relato histórico perturbador, digno de prêmios, ainda que o contexto total do longa seja menos denso do que o sugerido.

Mostra de Cinema São Paulo (Shirin)















Shirin

Às vezes a busca da reformulação ou de uma metalinguagem no cinema pode levar para a consagração ou para uma derrocada espetacular. Foi o que aconteceu com o indiscutível diretor iraniano Abbas Kiarostami com o longa Shirin na 33a. Mostra de São Paulo. Autor da obra-prima Gosto de Cereja (1997), obteve a Palma de Ouro em Cannes naquele ano. Tem na sua biografia outras obras magníficas que o consagraram no cenário internacional, como Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Close Up (1990), Através das Oliveiras (1994), O vento nos Levará (1999) e em 2000 é indicado ao Palma de Ouro com o filme Dez.

Desta vez não estava inspirado e seu talento invulgar pediu férias para descansar e relaxar possivelmente em Paris. Ver Shirin parece ser uma tortura para os espectadores que assistem os intermináveis 91 minutos de rostos de mulheres chorando copiosamente pelo desenrolar de um melodrama em que uma princesa e um rei são os protagonistas.

Nem a presença e Juliette Binoche com lágrimas rolando pelo rosto conseguiu salvar Kiarostami do fiasco retumbante que foi esta caricatura de filme, em que fala de uma paixão de uma princesa armênia por um príncipe, relatada pela poetisa iraniana Nezami no século XII, contada para uma plateia majoritariamente feminina, de rostos lindos com belos lenços envoltos na cabeça, ficando para o espectador assistir pelos olhos destas mulheres as sequências da trama.

O som do trote dos cavalos, as espadas se tocando, vozes desconexas e rios com as águas subindo e descendo, com as chuvas tamborilando no palco, nada mais é do que uma volta ao passado; onde as velhas novelas de rádio, com os contrarregras sendo as estrelas com seus sons entrando e saindo nas cenas e os ouvintes em casa curtindo com todo o ardor o próximo capítulo. Mas isso foi lá na década de 60. Evidentemente que o diretor não se reportou e sequer pensou nesta ideia, mas que é um atraso para os dias de hoje uma referência destas é inegável. Ainda mais que estamos em plena era da internet.

A película ficaria muito bem num curta de no máximo 15 minutos, competindo na categoria. Porém é imperdoável massacrar os abnegados cinéfilos apreciadores de um gênero que o consagrou como o humanismo, a denúncia, a aproximação de um cinema de pessoas comuns com uma dramaturgia com a marca registrada da escola iraniana de diretores da primeira linha do cinema mundial.

O artista deve buscar alternativas, mas desde que o seu contexto de metalinguagem não frustre e decepcione, como ocorreu neste caso, em todos os sentidos, deixando passar uma oportunidade que se frustra, inegavelmente por outro lado fica o alerta de uma inovação menor e sem sentido, beirando ao risível que macula mesmo que levemente uma imagem construída com dignidade de histórias maravilhosas de uma beleza poética, social e política como o cultuado Gosto de Cereja.

domingo, 1 de novembro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo- (Ninguém Sabe...)


















Ninguém Sabe dos Gatos Persas

O cinema iraniano traz mais um bom filme para a 33ª. Mostra de São Paulo, no irrequieto Ninguém Sabe dos Gatos Persas, tendo na direção Bahman Ghobadi, que já realizara outras grandes obras, tais como Tempos de Embebedar Cavalos (20o0), Canções da Terra de Minha Mãe (2002) e Tartarugas Podem Voar (2004), todas com premiação nas mostras anteriores. A simplicidade é uma tônica nos produtos do Irã, porém dificilmente não traz reflexões políticas e sociais satisfatórias.

Bahman é um cineasta de muita sensibilidade, assim como demonstrara em seus filmes antecessores. Neste longa aborda com muita propriedade a trajetória de um casal de jovens músicos que saem da prisão, decididos a formarem uma banda de indie rock, mas encontram diversos obstáculos, como a polícia repressora de um regime totalitário. São reprimidos nas suas incursões pelos subúrbios, encontram sérios problemas para realizarem seus ensaios, achando alguma tranquilidade num estábulo, onde as assistentes são as vacas leiteiras que atônitas parecem escutar a música vinda daquele grupo de ideais e vontades contrárias à ordem e aos bons costumes.

As andanças pelo submundo do Teerã, procurando parceiros e instrumentos, refletem o caos das ruas da periferia, assim como nas baladas os jovens se divertem bebendo ou se drogando, reflexo de um sociedade derrotista e sem perspectiva para uma geração de desafortunados. As autoridades proíbem músicas ao vivo e ensaios, mas são corruptas como na cena do policial que alivia uma multa pesada, ou arranca um cão de dentro do carro, na espera de propina.

A busca da liberdade fora do País para tocar na Europa é tentada, mas os óbices vão surgindo e os caminhos cada vez mais encurtando, até mesmo com a prisão daqueles atravessadores que recebem dinheiro para conseguir passaportes clandestinos. O casal fica sem dinheiro e o jeito é tocar nos subterrâneos da capital iraniana, enfrentando a fúria dos vizinhos delatores e da polícia repressora.

A reflexão dos caminhos daquela juventude se cruza com um músico voltado para atividade voluntária de um grupo de crianças carentes, numa cena bonita de esperança que resiste no coração daquele ativista convicto, embora haja o contraste da morte por suicídio, quando há na metáfora do jovem literalmente sem saída para um futuro imediato, cansado da opressão e não vislumbrando um destino como previa, numa situação desoladora pela revolta.

Um filme inquietante numa estética simples e eficiente, que alavanca para uma reflexão de um Irã repleto de contrastes, onde a religião é usada como escudo de um totalitarismo de xás, mulás e homens voltados para seus instintos de domínio, sem uma democracia que conceda a juventude um mínimo de direito ou a possibilidade de partir para a busca de outros horizontes pelo mundo.

Mostra de Cinema São Paulo (Vencer)



Vencer

Marco Bellocchio reaparece em grande forma com este poderoso longa-metragem Vencer na 33ª. Mostra de São Paulo. Realizador de Em Nome do Pai (1971) e Bom Dia, Noite (2003), conta de maneira simples e instigante o lado sombrio da vida de Benito Mussolini, seu passado de rejeição ao filho e abandono total à sua primeira mulher que contribuiu de forma decisiva para sua ascensão.

O longa se debruça na história de Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno, em desempenho elogiável), primeira mulher de Mussolini (Filippo Timi, num grande duplo papel) que vende sua casa e todos os seus bens, alcançando para o Duce montar um jornal, dando-lhe autoconfiança e um filho, que sofre todas as amarguras, após o abandono do velho fascista que se nega a assumir a paternidade.

A vida de Mussolini é dissecada, desde o tempo e que começou como líder sindical socialista, ateu, fundando o Partido Fascista na Itália. Incita as massas contra a igreja e a monarquia. Alista-se no Exército para ir lutar na I Guerra Mundial, mas desaparece misteriosamente, ressurgindo logo após casado com outra mulher, construindo uma nova família e negando qualquer outro vínculo com o passado, ignorando a primeira mulher e o filho bastardo. Manda queimar toda documentação nos cartórios e igrejas que possa prejudicar sua imagem. Vira as costas também para as bases sindicais que lhe deram suporte, conduzindo-o ao topo do governo e a liderança mundial.

Ida tenta buscar seus direitos em vão. O fascismo está por toda parte, até dentro da igreja junto às madres, entre os médicos psiquiatras, parentes e vizinhos. Sua luta é inglória e o seu destino é um longo enclausuramento num hospício por 11 anos, pois é tachada de louca com laudos forjados, com o objetivo de calar sua voz que poderia manchar a reputação de líder de uma nação em delírio com um dos mais abjetos regimes que foi o fascismo, a partir de 1919. É amarrada e torturada, por determinação superior, pois o Duce não pode ser injuriado, afastada definitivamente do filho que nunca mais poderá vê-lo, num castigo como só se aplicava na Idade Média. Dos direitos reivindicados, recebe como recompensa o isolamento e a pecha de louca.

A simbiose da política com o erotismo é abordada nas primeiras cenas com bastante maturidade entre Ida e Mussolini, porém já revela um País que se deixará envolver pelo fanatismo político e prenuncia a institucionalização fascista, onde o Duce deixa transparecer todas suas fraquezas, dúvidas e interrogações inerentes das deficiências de uma pessoa de carne e osso, bem como revela seus instintos violentos de uma personalidade doentia, onde os demônios do totalitarismo afloram neste longa italiano como poucas vezes se vê, ultimamente Sokurov (Sol- 2005), (Arca Russa-2002), (Taurus- 2001) e (Moloch-1999).

Bellocchio deixa singrar seu filme pelos mares da visão feminina, demonstrando e refletindo o usurpamento e o vilipêndio da mulher já desde aqueles tempos, ao ser descartada como um objeto pelo ditador. Ida é uma espécie de Antígona e de uma mãe lutadora pelo filho e pelo amor do marido, nesta bela caracterização do cineasta, neste drama político imperdível.

sábado, 31 de outubro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo (Insolação)

















Insolação

Há filmes que têm tudo para dar certo, com um grande elenco, a começar pelo magnífico Paulo José, passando pelo sempre bom Leonardo Oliveira na companhia de seu filho Antônio Medeiros, Simone Spoladore, Maria Luiza Mendonça, Leandra Leal, André Frateschi, Daniela Piepsyk e Emílio di Biasi, entre tantos outros. Tem uma bela trilha sonora composta por Arthur de Faria, uma boa fotografia com um cenário sob medida.

Acontece que Insolação tudo dá errado num tema de solidão em uma cidade vazia pela frieza e a ausência de calor humano, a falta de amor entre velhos e jovens que se confundem numa Brasília distante e corroída pelos fantasmas da morte, alicerçada na utopia dos contos da literatura russa, não funcionam apesar do esforço. Peca a montagem, com uma pífia direção de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, com um roteiro fragilizado pelas pretensões poéticas, distante porém de uma qualidade mais efetiva e sem uma mínima verossimilhança.

Um filme não precisa ter início, meio e fim. Longe disso, mas a lógica e o cinema como um todo se faz necessário, para não torná-lo chato e arrastado com repetições vagas e tênues de desinteligência. Ora, repetir várias vezes "por favor, um café", é brincar com a eloquência de uma continuação lógica e fundindo os ouvidos mais perceptivos, minando os neurônios à espera de uma inovação de cena.

Insolação lembra dois filmes com a mesma estética narrativa pelas complicadas metáforas poéticas, como A Via Láctea (2007) e O Signo da Cidade (2008). Ambos fracassaram em seus propósitos e objetivos, sendo verdadeiros fiascos de bilheteria e crucificados pela crítica mais isenta de apadrinhamentos. O tema proposto foi bem abordado em Brasília 18% (2006), dirigido por Nélson Pereira dos Santos, um dos mais experientes e melhores diretores brasileiros. Aprofundou Brasília sem perfumaria, deixando a poesia para outros filmes em ocasiões mais apropriadas, com personagens de corpo e alma, sem parecerem robôs orbitando a lua na procura do sol.

Se na Mostra de São Paulo houvesse premiação para os piores filmes, assim como há uma paródia ao Oscar, com a estatueta de Framboesa de Ouro, esta teria teria um forte candidato, o inconsequente e confuso Insolação. A filmografia brasileira merece algo melhor, assim como o brilhante Hotel Atlântico, simples e com uma reflexão perturbadora, com suas revelações típicas de um "cinema de autor".

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo (O Apedrejamento...)



O Apedrejamento de Soraya M

Surge mais um forte candidato de melhor filme da 33ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o vigoroso e perturbador O Apedrejamento de Soraya M, com direção de Cyrus Nowrasteh, tendo seus últimos trabalhos como roteirista nos EUA com Amor sem Fronteiras (2003), Caçado (2003) e Atirador (2007), dirigiu o documentário histórico Depois do Atentado, sobre Ronald Reagan, com produção de Oliver Stone (2001).

Logo na saída da sala de projeção, ouve-se dois comentários que resumem o longa: "porrada na cara" e "chute no estômago". É exatamente isso o que este brihante filme nos revela de forma aterradora. O suplício de uma mulher acusada pelo marido injustamente, numa trama urdida e perpetrada como uma farsa, com o intuito de obter o divórcio sem ter que indenizá-la, para poder casar com uma menina de 14 anos, filha de um médico que será enforcado por crime político contra o regime vigente no Irã. Isso é apenas o início de um sofrimento que perdurará até o final, de forma trágica e avassaladora.

Há um julgamento grotesco e ridículo, sem um mínimo de defesa e sequer se fala em ampla defesa, abortando a legitimidade de uma legalidade corrompida, onde um falso mulá, que se denomina líder de uma mesquita, em conluio com o marido que o ameaça, mais o prefeito que é o ex-marido da tia de Soraya, a rebelde Zahra, organizam um julgamento com ameaças e subornos, correndo solta a corrupção, pois já está decidido o futuro de Soraya ao inferno que lhe espera, pois nega-se a conceder o divórcio amigável. Acusada de traição, mesmo sendo uma mulher digna, isso pouco importa, pois comete o pecado capital em desafiar seu próprio marido, homem forte do regime totalitário que sucedeu o xá Reza Pahlevi.

O filme mostra de forma crua e de uma secura extrema a submissão das mulheres, pois como diz o prefeito laconicamente: "se a mulher é acusada, cabe a ela provar sua inocência; se a mulher acusa um homem, cabe a ela também provar o adultério do marido". Ou seja, nunca terá sucesso, pois o poder está concentrado numa sociedade machista, que alijou qualquer tipo de direitos humanos, num mundo incivilizado, onde as leis são feitas de acordo com os interesses de quem manda e detém na mão a caneta.

Neste cenário, numa aldeia, aparece o jornalista franco-iraniano Freidoune Sahebjam que consegue uma fita do depoimento de Zarah sobre a sobrinha Soraya e escvreve um livro com base em fatos reais, divulgando numa reportagem esta poderosa denúncia para os principais países do mundo ocidental em que vivem as pessoas contrárias às decisões dos governantes ditatoriais.

O massacre de Soraya é estonteante, com cenas fortíssimas do apedrejamento explícito, com dilaceramento de órgãos vitais, repugna pela maledicência e atemoriza pelo barulho das pedras como um coral num tic-tac ensurdecedor. Começa pelo próprio pai trêmulo pela velhice, mas convicto da traição da filha, em jogar pedras; vêm os dois filhos divididos pela certeza, mas desencorajado pela tradição o vacilante; o marido alucinado pelo ódio entra em êxtase; e finalmente a população excitada por sangue, lembrando o calvário de Jesus Cristo na cruz e Joana D'Arc ao ser queimada viva na fogueira, acusada pela igreja de bruxaria. O carro com os palhaços anunciando seu espetáculo, exatamente na hora da leitura do veredito condenatório por unanimidade, é uma metáfora magnífica do circo montado para a decisão do Conselho de Homens reunidos para decidir o destino de uma mulher sem direito à defesa.

A intransigência e os descalabros não podem prosperar do Irã para o Brasil, pois no dia 23 deste mês, uma aluna de 20 anos, do primeiro ano de Turismo da UNIBAN, foi chamada literalmente pelos colegas dito homens de "loira puta da UNIBAN", sendo que "loira gostosa" foi o termo mais ameno. Seu crime foi ter usado um microvestido rosa, causando um ataque selvagem, lembrando a ignorância e o horror dos talebans do Afeganistão e do Irã, numa regressão à Idade Média, com xingamentos, assédio moral e tentativa de estupro por colegas de aula, inclusive sendo alguns seus vizinhos de bairro. Isso não aconteceu no Oriente Médio, mas aqui no coração do Brasil, no Estado de São Paulo, no ABC Paulista, em São Bernardo do Campo. A vítima, a nossa "Soraya", só conseguiu sair da universidade para ir embora, escoltada por meia dúzia de policiais militares e disfarçada com um guarda-pó. A sanha taleban não só se encontra em países de regime totalitário, pois os verdugos moram às vezes bem mais próximos do que imaginamos, aguardando o momento propício para atirarem pedras nas Sorayas ou atacarem meninas que cometeram o crime de nascerem bonitas. Não é preciso nem se negar a dar o divórcio amigável como na aldeia iraniana.

Enfim, um longa atual, até pelos acontecimentos tribais na UNIBAN, que deve ser apontado como talvez o melhor, porém há uma certeza, será um dos maiores filmes que já passaram pelas 33 Mostras de São Paulo. Segurem o fôlego, dominem o estômago e assistam esta obra-prima iraniana.

Mostra de Cinema São Paulo (A 40ª. Porta)















A 40ª. Porta

Outro filme em que a mãe e o filho lutam pela sobrevivência, assim como na obra-prima Independência que veio das Filipinas, também o pequeno e recém-independente Azerbaijão nos apresenta este bom e sensível primeiro longa-metragem de Elchin Musaoglu, A 40ª. Porta. Foi apontado por parte da crítica como um dos favoritos para melhor filme da 33a. Mostra de São Paulo, embora seja um filme que tem boas qualidades, está longe de concorrer com o filme filipino supramencionado, bem como o iraniano O Apedrejamento de Soraya M e o espanhol de Almodóvar Abraços Partidos, estes sim, candidatos com potenciais fortes.

A película A 40ª. Porta está bem estruturada num bom roteiro, uma fotografia radiante, com atuações excelentes dos atores escalados, em especial filho e mãe. Porém peca pela mania de alguns diretores em minimizar os dramas pessoais, querendo deixar propostas próximas de um otimismo exacerbado. Não que o longa do Azerbaijão tenha algo descomunal, mas seu final fica a desejar, levando a uma crença dúbia e estéril.

A morte do pai de Rustam pela máfia russa é o ponto de partida, tornando-se o chefe da família com seus 14 anos, protege a mãe e sua honra junto à comunidade, afastando incautos pretendentes. Luta pela retomada de um tapete de estimação, armando contra o comerciante maldoso. Trabalha de lavador de carros e acaba dentro de algumas encrencas com delinquentes juvenis perigosos e ciumentos, envolve-se com um chefe de gangue, mas consegue por se libertar sozinho e com a imagem do pai assassinado. Sonha em ser músico e ganha um instrumento que tocará na ponte junto com uma lâmpada que teima em acender e apagar.

O menino tem um coração maravilhoso e resiste bravamente, luta para não se envolver, situação que não teve melhor sorte o menino do nacional Pixote- A Lei do Mais Fraco (1981), morrendo até o próprio ator pela polícia, por suspeita de assalto em 1987. Outro filme em que os garotos não tiveram uma sorte razoável foi no longa Linha de Passe (2008), sem falar no Cidade de Deus (2002). Mas, enfim o Azerbaijão talvez seja diferente mesmo.

Já no início do filme começa também com um jogo de futebol da gurizada num campinho como nas velhas e tradicionais "peladas", assim como no Brasil, a busca pela profissão de atleta é uma constante. A luta pela dignidade é interrompida com a tragédia pessoal deste promissor jogador, mas as demais situações de guerrilha juvenil são elaboradas de forma amena.

Uma cena realizada com forte dramaticidade é a do menino cego que é carregado nos braços para a casa de Radum, após a prisão de seu irmão e protetor, ainda tenta buscar seu gatinho de estimação, num belo e sensível humanismo de extrema profundidade do diretor.

Fica a reflexão do cinema de um país distante e de uma desconhecida filmografia, onde a criminalidade existe em proporções ainda com algum desconhecimento mais profundo ou talvez por probemas de censura, mas imagináveis como uma das portas que se abrem para o futuro.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Mostra de Cinema São Paulo (Independência)

















Independência

Vem das Filipinas o provável melhor filme da 33ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, com a obra-prima Independência, de impecável direção de Raya Martin, que também é o autor do roteiro. Com apenas 25 anos de idade, já arrebatou o prêmio de melhor filme no Festival de Pesaro de 2006, com o longa Or The Prolonged Sorrow of the Filipinos, tendo dirigido ainda Autohystoria (2007) e Now Showing (2008), todo inéditos no Brasil.

É uma obra extremamente madura e tem na simplicidade seu ponto alto e essencial para a beleza e a aula de cinema deste jovem filipino recém-formado em 2005, no seu País, já desponta como um dos mais promissores cineastas deste início de século. Será difícil a Mostra não contemplar Independência como sua apresentação maior, embora haja outra duas obras fortes na concorrência, como Abraços Partidos (Pedro Almodóvar) e o polêmico e extraordinário iraniano O Apedrejamento de Soraya M (Cyrus Nowrasteh)

Uma mãe foge com seu único filho para o meio da floresta, às vésperas de uma invasão dos EUA nas Filipinas. Seu medo da guerra é a causa da evasão e sua reclusão no interior de uma selva indevassável. Vivem em circunstâncias precárias para um ser humano, sem as mínimas condições de dignidade dentro de uma choupana construída com pedaços de paus e capim como telhado. Logo seu filho encontra uma moça caída entre as árvores com ferimentos leves, sendo abrigada, vindo a formar um casal com um o nascimento de um menino. Mesmo com toda a simploriedade do casebre, criam algumas galinhas e o agora jovem pai caça e pesca para a sobrevivência.

O drama é latente e o temor dos invasores está em cada galho que se mexe naquele local atemorizante e escuro com frequentes chuvas intermináveis, com seus segredos escondidos em seu interior. O farfalhar das folhas chega a ser alucinante, com o barulho incessante pelo canto das aves e sente-se até o rugido dos animais selvagens, embora não explícito, somente para o espectador mais atento e sensitivo. O psicológico é testado com os enervantes ruídos das folhas, galhos e aves com as tempestades que jorram águas abundantes naquele cenário fantástico. A tensão instalada a cada momento ou dúvida sugere o ataque iminente dos americanos com bombas e morteiros que poderiam explodir naquele local inóspito. Todo aquele aguaceiro com trovoadas, que se assemelham com os roncos dos motores dos aviões, invadindo seus cômodos, ou melhor, seu chão que serve de cama

A floresta funciona como uma metáfora entre caça e caçador, entre os soldados yanques perseguindo suas presas filipinas, num país em que a democracia é inexistente e a morte de uma criança por furtar frutas serve como exemplo para os demais. Não há julgamentos mas um recado direto para aquele povo sofrido e humilde. Não importa a fome ou a luta pela sobrevivência, pois até o javali na selva teve mais sorte, tendo o direito de fugir do caçador.

A morte alastra-se na família, dizima quase todos, assim como a guerra liquida o povo filipino exaurido pela pobreza e seus direitos subtraídos, há o remanescente que sobrevive e está literalmente acuado, quase sem saída. Sua corrida desesperadora dos seus perseguidores invocam novamente o elemento da caça e do caçador como simbologia de vidas perseguidas pelos ditadores em seus regimes totalitários. Resta o inferno traduzido por parte de um céu avermelhado contrastando com as cores do paraíso que esperam para a redenção, com um final memorável numa cena antológica.

Mostra de Cinema São Paulo (Tokyo)
















Tokyo

Três diretores reúnem num longa-metragem três filmes com episódios de pouco mais de 30minutos cada um. O filme inicia com o francês Michel Gondry (Brilho Eterno de uma Mente sem lembranças- 2005 e Rebobine, Por Favor-2008), dirigindo Interior Design; no segundo episódio o francês Leos Carax (Os Amantes da Ponte Neuf-1991) apresenta Em Merde; e o último ato leva a assinatura do coreano Bong Joon-Ho (O Hospedeiro-2006), com Shaking Tokyo.

O trio consegue obter um resultado espantoso com este magnífico longa Tokyo, pela qualidade e o acerto do tema abordado, ou seja a futurista capital do Japão, com todos os seus sentimentos de perda de solidariedade, medo ao melhor estilo americano e abundância de tédio e depressão, num País que cada vez mais o senso de vida em grupo se dispersa e avança estrondosamente para o abismo da falta da solidão, prevalecendo o coletivo em detrimento da individualidade, que fica evidente pela perda do amor ao próximo.

Gondry dirige o primeiro episódio Interior Design, o mais frágil dos três, pela inconsistência narrativa e a inverossimilhança barata, faltou o manejo e a exuberância existente nos últimos dois, embora o enredo fosse propício para desenvolver algo mais palatável. Os dois jovens que tem dificuldades para se acomodarem num minúsculo apartamento, onde tudo é reduzido já indica um desenrolar crítico. No contraditório do relacionamento, o namorado quer ser diretor de cinema e tem ambição bem consistente, porém sua namorada descamba para um sentimento de culpa e acaba por perder o controle de sua vida, causando enormes contratempos para si e torna-se invisível aos olhos dos outros. A fita avança para o epílogo e as situações de eloquência desaparecem por completo. Erra a mão e a direção demonstra uma fragilidade primária.

Leos Carax dirige o segundo ato que se credencia como um soberbo Em Merde, filme que aborda de forma humana uma criatura misteriosa e sensível que emerge de um esgoto em plena Tóquio, relembrando o inusitado e instigante O Hospedeiro, que tem como uma espécie de continuidade, em homenagem ao seu colega Bong Joon-Ho. Detentor de unhas enormes e sujas, ao melhor estilo Zé do Caixão, com um olho furado e de aspecto horrendo, causa pânico na cidade, derrubando edifícios com centenas de mortes, em referência quase que explícita ao 11 de setembro em New York, diante da destruição e correria que causa na população, faz lembrar os longas americanos Godzilla (1998) e Independence Day (1996).

Há passeatas para evitar o enforcamento de Merde, assim como se contrapõe os contrários a absolvição. O advogado francês também de um olho só, mais atrapalha do que ajuda seu cliente. O clima é de revolta e sentimento de piedade, num jogral de vozes que encanta e transforma o vilão em vítima. A ironia vem no final quando é anunciado suas novas aventuras nos EUA. Simplesmente fantástico este episódio que denota a força e a grandeza do cinema quando se propõe a colocar o inverossímil como coerência e reflexão.

No último episódio que é dirigido pelo coreano Bong Joon-Ho Shaking Tokyo, talvez um dos mais melancólicos e devastadores relatos de solidão humana contada no cinema. Um rapaz vive há mais de 10 anos enclausurado em sua casa, literalmente isolado do mundo e das pessoas. Seu contato com o mundo exterior se dá apenas quando recebe pizzas pela tele-entrega. Mas nada é tão definitivo que a natureza não pode pinçar e devastar, pois a moça que lhe entrega sua refeição pela primeira vez, vê no terremoto que assola a cidade como o insólito e também acaba por ingressar neste mundo claustrofóbico da distância com o ser humano.

A corrida do rapaz pelas ruas de Tóquio completamente vazias, contrapõe com aquelas imagens dos episódios anteriores com seu colorido esquizofrênico diante da correria arrebatadora e desvairada de pessoas sem destino definido. Ainda há tempo para um possível e enigmático relacionamento de uma paixão que por si só poderá romper com as amarras da doença contagiante das vidas solitárias e sem perspectivas numa Tóquio futurista e fria.