quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Depois da Tempestade


Laços de Família

O Festival de Cannes do ano passado teve a presença do Japão, muito bem representado pelo festejado cineasta Hirokasu Kore-eda com Nossa Irmã Mais Nova (2014). Embora aclamado pela crítica e pelo público, saiu de mãos vazias. Foi obter a recompensa pelo seu belo trabalho no Festival de Yokohama, ao ser agraciado com a premiação de melhor filme, e ainda levou o prêmio de público no Festival de San Sebastian. O festejado diretor nipônico já havia concorrido, sem êxito, à Palma de Ouro em outras duas vezes com Distance (2002) e Ninguém Pode Saber (2004). Neste ano, participou da mostra Un Certain Regard com Depois da Tempestade, mas novamente saiu sem premiação. Porém, sua consagração aconteceu na 40ª. Mostra de Cinema em São Paulo, ao ser laureado como Melhor Filme pelo Prêmio da Crítica Internacional.

Kore-eda tem uma vasta filmografia das crônicas ambientadas na classe média baixa de seu país, dá um mergulho no microcosmo familiar para contar histórias verossímeis do dia a dia. Observa as mudanças inerentes que acontecem com o passar dos anos, expondo as feridas não cicatrizadas para lançar luzes ao universo das distorções dos lares desagregados em ruínas, com uma temática voltada para as perdas, enigmas da vida e por consequência a morte. Abordagens estas encontradas em Depois da Tempestade, um drama suave, onde não falta singeleza e uma aparente serenidade para buscar a reconstrução dos vínculos rompidos dos laços afetivos na madrugada de uma iminente tormenta que se aproxima. Um exorcismo das almas magoadas e dilaceradas pelas circunstâncias antagônicas, como do instável e descompromissado Ryota (Hiroshi Abe), um escritor fracassado que ganha dinheiro bisbilhotando a vida dos outros, num subemprego de detetive numa agência antiética e voltada para a extorsão. O protagonista tenta se aproximar do filho pré-adolescente Shingo (Taiyo Yoshizawa) e da ex-mulher Kyoko (Yoko Maki), mas no meio do turbilhão está a carismática avó (Kirin Kiki), que coloca panos quentes na relação conturbada e faz o que pode para dirimir as desavenças.

O realizador tem como marca registrada seu olhar voltado para as transformações das gerações, numa abordagem humana e profunda sobre as relações familiares, o cotidiano das simples coisas que irão ao encontro de situações complexas e modificações relevantes. Herdou a sutileza mesclada com sensibilidade dos inspirados diretores conterrâneos como Yusujiro Ozu em Era Uma Vez em Tóquio (1953), Mikio Naruse por Midareru (1964), e o criador do cinema de animação Hayao Miyazaki com temas recorrentes da relação da humanidade com a natureza. Segue a trajetória do questionamento primoroso dos velhos mestres para mergulhar no universo peculiar das tradições da cultura japonesa. No longa Ninguém Pode Saber (2003), havia a temática da mãe ausente dos filhos e a contundente falta de afeto aos mesmos. Em Pais e Filhos (2013), retratava um drama que discutia a troca de bebês e os efeitos futuros das crianças trocadas no berçário com as revelações recebidas, num clima de tensão instalado diante do amor pelo filho de outros pais e a intolerância de um deles. Na sua realização anterior, Nossa Irmã Mais Nova, mostra a dolorosa distância de três filhas que não veem o pai há 15 anos, mas ao saberem da morte dele, resolvem ir ao seu enterro, e lá conhecerão a tímida meia-irmã.

A história é traçada com um sabor agridoce, sem ser piegas, ao deixar emergir fatos que trarão conflitos sentimentais que envolvem pais conflitados. Os personagens terão que lidar com adversidades repentinas, pois precisam tocar suas vidas e resolverem as encrencas rotineiras, como na bela cena da idosa tentando aproximar o filho da ex-mulher que se tornou fria e pragmática em decorrência do cansaço pelo ex-companheiro que não amadureceu e parece sempre estar no mundo da fantasia, como um adolescente eterno, traz no vício do jogo um estigma de seu pai, um inveterado apostador que também teve problemas com a esposa que escondia o dinheiro dentro de casa para não gastar tudo. A reaproximação é uma tentativa válida almejada, tanto do garoto como da avó. Já o bilhete da loteria que seria uma possibilidade de compra de uma confortável casa para todos morarem juntos, mas com os ventos e a chuva incessante acaba se perdendo na noite, como um prenúncio alegórico da infelicidade que se desenhava como um sonho de uma noite nebulosa. A cobrança da pensão no epílogo, com as palavras duras anteriores de que Ryota brinca de ser pai uma vez por mês, soa como uma balde de água fria.

O drama é uma síntese com delicadeza de amores desfeitos e tentativas frustradas de reconciliação. O cineasta aponta para o sofrimento do filho, o que mais sofre, ao ser usado como um joguete nas mãos dos pais. O diretor é incisivo e pessimista no desfecho da trama, mas retrata o jogo de interesses dos adultos como uma insustentável e cruel realidade a ser trilhada. A leveza é a forma adotada na narrativa linear no ponto de equilíbrio, mas o filme é sombrio e a tristeza se mescla com alguns momentos de felicidade para os componentes do núcleo familiar em extinção, embora todos os ajustes nas buscas da reconstrução que se esvaem. Um magnífico filme sobre as sutilezas do amor rompido e dos laços de ternura com seus vínculos esboroados, mas que tem na doçura da avó com sua culpa e confissão para a ex-nora uma cena comovente de desabafo, neste drama familiar bem estruturado num roteiro enxuto, com uma trilha sonora equilibrada, sendo ambientado em belas paisagens bucólicas de uma fotografia fascinante. Emociona sem ser intenso pela complexidade da relação entre as partes envolvidas. Uma reflexão madura sobre as dúvidas, anseios, o amor fraterno com sua força inerente, para alicerçar as ruínas sendo reconstruídas com exemplar magnetismo de beleza lírica nas relações de afetividade e suas profundas sequelas deixadas silenciosamente.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cinema Novo


Resgate e Tributo

Vencedor da premiação paralela Olho de Ouro no Festival de Cannes deste ano, o instigante documentário Cinema Novo conta a história do mais relevante movimento cinematográfico brasileiro, ocorrido nos anos de 1960, que projetou nosso país no universo mundial. São 90 minutos de pura magia e beleza apresentado pelo diretor Eryk Rocha, 38 anos, filho de Glauber Rocha, um dos idealizadores e divulgadores exponenciais de uma era artística que já merecia o resgate, tendo em vista que foi importante para nossa autoestima, bem como para a evolução de nosso cinema, com imagens poderosas de clássicos de arquivos e trechos de 130 filmes, como Rio, 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963), Terra em Transe (1968), Macunaíma (1969), entre tantas realizações agora homenageadas para não cair no esquecimento e reativar a memória, através da rigorosa montagem poética de Renato Vallone.

Diretor de Rocha que Voa (2002), Transeunte (2010) e Campo de Jogo (2015), Eryk Rocha recupera entrevistas de cineastas que estiveram envolvidos e consagraram o movimento homônimo, tais como: Gustavo Dahl, Mário Carneiro e Paulo Cezar Saraceni, apenas pelas suas vozes, pois ao ser montado o filme, o realizador optou em não colocar imagens atuais deles por já serem falecidos, exceto as antigas. É feito um estudo profundo e vai até os primórdios da história cinematográfica brasileira para evoluir até o Cinema Novo, traz para subsidiar O Limite (1931), de Mário Peixoto. Faz uma saudação especial ao pioneiro Humberto Mauro, falecido em 1983, para chegar até os expoentes Ruy Guerra, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, David Neves, Walter Lima Jr., Orlando Senna, Geraldo Sarno, Alex Viany, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Zelito Viana e o crítico  Paulo Emílio Salles Gomes, até chegar a Luiz Carlos Barreto, o maior produtor em atividade, mas sem esquecer e ter um carinho todo especial com o pai, Glauber Rocha, e sua célebre frase: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, numa defesa intransigente da utilização dos meios de produção artística a serviço da transformação social.

Cinema Novo dialoga com as novas gerações,mas sem esquecer da velha guarda que acompanhou e prestigiou aquela fome por inovar o cinema brasileiro. É um fascinante tributo de amor e paixão pelas cores verdes amarelas transformadas em anseios e dificuldades, às vezes regionalizadas, em outras universais como os temas reivindicatórios de uma nação que foi sufocada pelo Ato Institucional nº. 5, o abominável AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, pelo duro golpe da ditadura militar. Um digno retrato dos protestos nas ruas e os jogos de futebol com Garrincha como símbolo. Fala das religiões, profanando ou não, e suas implicações alienantes no contexto nacional. Um movimento que tinha, e por isto foi marcante, um grau de preocupação e engajamento com as dificuldades socioeconômicas e políticas. Tem em Antônio das Mortes com seu trágico destino de matador de cangaceiro em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, vencedor do Festival de Veneza, alegórico e sintetizador das realizações anteriores, como denúncia do imperialismo multinacional e das elites na manutenção do subdesenvolvimento e da pobreza brasileira.

O documentário retrata com precisão e detalhes cronológicos a evolução do cinema na essência da estética com planos, contraplanos, closes e planos sequências longos, bem como é além de tudo, uma declaração pública da construção de um legado inesquecível pelo ponto de vista político com imagens do passado até o presente, para aproximar e desvendar enigmas para o espectador mais atento e preocupado com a cultura de nosso país, tão vilipendiada e massacrada por alguns governos paraquedistas. Além de uma análise importante, prólogo e epílogo têm a mesma sequência do lendário Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), há uma similitude com o movimento musical no documentário Tropicália (2012), que revelou como lideranças Caetano Veloso e Gilberto Gil, a partir de 1967, do diretor Marcelo Machado, que também resgata uma fase cultural quase esquecida na história do Brasil, onde fervilhavam os festivais de músicas populares, numa época difícil na vida dos brasileiros que viviam amordaçados pelo regime ditatorial implantado, e que tinha a simpatia de Glauber Rocha ao Tropicalismo. Mostrava o realismo e a nitidez de tempos antagônicos culturalmente, com a imposição de uma censura não só dos militares como dos próprios artistas de outras matizes, que não entendiam o que estava acontecendo, mas que deixou raízes e veio para ficar, abrir cabeças fechadas e vislumbrar novos horizontes.

O Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa estão no contexto de Cinema Novo e as influências da Europa para marcar os fragmentos que constituem o todo de nossa cinematografia brasileira. São os subsídios buscados no Exterior que alavancaram para uma evolução e um certo amadurecimento de nossos cineastas, tanto na estética como no conteúdo enriquecedor que teve como espírito objetivo para se chegar até a integração por uma geração que inventou uma nova forma de filmar e fazer cinema autoral. Uma aula de conhecimentos retirados da história para ser sorvido como uma boa reflexão de riqueza artística que está sempre se modificando para dar luzes de estímulos e recompensas. Eis um registro importante advindo de um olhar pela observação atenta de um diretor promissor neste belo filme-ensaio de coerente narrativa de uma coletânea construída com consistência e amor com marca própria.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (Morte em Sarajevo)


Morte em Sarajevo

O interessante Morte em Sarajevo foi outro filme bem aguardado e com boa expectativa de público e crítica na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo, vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Crítica no Festival de Berlim, com direção e roteiro de Danis Tanovic, cineasta nascido na Bósnia-Herzegovina e criado em Sarajevo. O realizador tem em sua filmografia os prestigiados e importantes títulos do cinema do seu país, tais como: Terra de Ninguém (2001), seu primeiro longa e ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Prêmio do Público de Melhor Longa Estrangeiro na 25ª Mostra; também é dele o segmento Bósnia-Herzegovina do filme 11 de Setembro (2002, 26ª Mostra); O Inferno (2005, 29ª Mostra), Triage (2009), Cirkus Columbia (2010, 34ª Mostra), Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (2013) e Tigres (2014, 39ª Mostra).

Um drama sobre os conflitos étnicos da Bósnia, Sarajevo, Montenegro, Croácia e Sérvia que originou uma guerra civil entre os anos de 1992 a 1995. A causa foi por uma combinação complexa de fatores políticos e religiosos com um fervor nacionalista de crises políticas, sociais e segurança que se seguiu ao fim da guerra fria com a queda do comunismo na antiga Iugoslávia. Esta agitação ruidosa é o tema focado no cenário do Hotel Europe, em Sarajevo, para uma movimentada preparação para a festa de gala da União Europeia como manutenção da paz no continente, em memória do centenário do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando pelas mãos de Gavrilo Princip. Mas há um grande entrave: os funcionários do estabelecimento planejam uma greve pelos dois últimos meses de salários atrasados, o que ocasiona um verdadeiro caos que poderá levar à falência o majestoso hotel cinco estrelas hipotecado para um banco e com dívidas astronômicas. Tudo depende deste importante jantar político que não pode dar errado com a presença da mídia internacional.

Em meio ao clima tenso está uma jornalista de Sarajevo que duela ao vivo num programa de televisão com um ativista da Sérvia, sobre as causas e efeitos oriundos desde 1914, que explodiram na ferrenha luta pela separação até o fim da Iugoslávia. O choque de opiniões leva para uma disputa árdua entre os dois, tirando o programa do ar, levando para um desfecho trágico com evacuação das dependências de todos os hóspedes e convidados famosos. As consequências são as piores possíveis e se complicam ainda mais com a deflagração da paralisação, diante do desaparecimento de um líder do movimento e o envolvimento direto de uma antiga funcionária da rouparia que trará indiretamente transtornos à sua filha despedida e assediada sexualmente pelo gerente.

O longa retrata um lugar belicoso que traz angústia e medo, no qual há seguranças armados que agem violentamente para manter a ordem e resolver as questões com ferocidade. Enquanto isto, como uma panela de pressão ideológica, há uma crescente crise que aumenta as tensões, passando pela recepção, lavanderia e cozinha até chegar à direção do estabelecimento. Nesta turbulência toda ainda há um ator (Jacques Weber) dedicado no quarto mais luxuoso, parece estar alheio à realidade, porém não consegue achar o tom correto em seu ensaio solitário, embora seu objetivo maior seja a representação adequada sobre os fatos de 1914. Os três eventos distintos: entrevista, greve e encenação, irão se interligar pelos fatos ocorridos e as consequências da crise financeira e política que fervilham e atingem o ápice, tendo em vista as dificuldades de se manter aberto aquele local. Mas se as coisas não andam pela transição forçada, chama-se a segurança para na base da truculência fazer andar. São métodos enraizados de violência explícita que ainda prevalecem naqueles homens rudes que cheiram pó.

O diretor se arrisca numa crônica de fatos marcantes recentes e os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial, com personagens discutindo abertamente as circunstâncias do atentado, para refletir sobre a divisão dos povos, em que as etnias falam mais alto. Eis uma crise evidente e inatacável diante da guerra civil que por muitos anos permeou por ali. Tudo em nome da independência e da liberdade para ter seus espaços respeitados. Mas os reflexos chegaram com o agravamento da economia europeia em decomposição pedindo socorro. O roteiro falha nas exaustivas falas em Morte em Sarajevo, como por exemplo, a longa reportagem televisiva que menciona nomes e fatos pouco conhecidos do grande público, bem como exagera no discurso vazio e repetitivo do ator em seu quarto defendendo a velha Europa. Um bom filme que tem alguns méritos ao passar a limpo a história e as consequências dos reflexos iminentes, embora excessivo no didatismo, como a alegoria do encontro e a discussão entre uma bósnia e um sérvio numa guerra sem pausa que nunca termina. Tanovic ficou devendo uma realização mais consistente e menos alegórica.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (O Apartamento)


O Apartamento

Um outro filme aguardado que correspondeu a expectativa depositada é o agradável O Apartamento, do cultuado cineasta iraniano Asghar Farhadi, que também assinou o enxuto roteiro, emprestando credibilidade para a calorosa recepção de público e crítica na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Venceu os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator no Festival de Cannes. O realizador dirigiu importantes títulos, tais como: Linda Cidade (2004, 28ª Mostra), o frenético e acolhedor À Procura de Elly (2009, 33ª Mostra), vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim; o magnífico, talvez o melhor filme do diretor, A Separação (2011), primeiro iraniano a ganhar um Oscar estrangeiro, Globo de Ouro e Urso de Ouro em Berlim; e O Passado (2013), realizado na França.

A trama retrata um casal de atores que se vê obrigado a sair do apartamento com rachaduras onde vivem por causa de obras inadiáveis que deverão fazer, tendo em vista as escavações no terreno vizinho que comprometeram seu prédio. Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) se mudam para um novo flat no centro de Teerã. Mas a vida deles dá uma guinada com um suposto assalto com tentativa de morte que sofre a mulher, ao deixar a porta aberta, depois de tocar o interfone, por achar que era o companheiro que estava vindo para casa. Porém os fatos irão clareando do incidente, por estar ligado à antiga moradora que era prostituta. O cotidiano do povo iraniano é abordado novamente, através de uma história simples e complexa na essência, ao adquirir grande amplitude no desenrolar da trama.

O drama intimista dos personagens em foco é esmiuçado pelo diretor em dois momentos distintos pela importância da história no contexto. A vida real e a encenação no teatro, no qual os dois fazem parte como protagonistas da peça montada, transformando ficção e realidade como exponenciais alegóricos para o desenvolvimento bem urdido do roteiro proposto. O ataque violento à vitima por um desconhecido no banheiro é uma síntese alegórica da falta de justiça e da submissão das mulheres. Emad não se conforma com o ocorrido e faz uma meticulosa investigação por conta própria, com a finalidade de descobrir o malfeitor que atacou covardemente Rana.

No longa O Passado havia uma decorrência de A Separação com muitos personagens em comum. Não visava mostrar inocentes neste painel de erros, culpas e arrependimentos, onde todos estavam interligados numa babel de confrontos e acusações. Todavia, nem mesmo o que há como elementos fortes de ligação justificam as atitudes que ficam à deriva como consequência de um regime totalitário implantado como forma de subtrair ideias e manifestações livres e com os anseios que os acompanham. A temática é consistente aos planos intimistas do cineasta que se detém na abordagem moral familiar neste confronto de questões. Assim, como também nos filmes anteriores que desenvolviam um argumento que dava importância às palavras nos diálogos numa forma bem estruturada. Nesta última realização se repete este aspecto pelo olhar realista para um país de conceitos éticos duvidosos para uma justiça plena, inexistindo atitudes certas ou erradas, bem longe do maniqueísmo de alguns realizadores, mas que mantém com brilho significativo o conteúdo contextualizado.

O Apartamento toma contornos de um clímax com direcionamento para o suspense até descobrir quem é o verdadeiro culpado. Deveria ser uma ação do Estado a ser feita pela sua competência no âmbito investigatório, mas a sugestiva temática abordada se depara com elementos de culpa em consonância com a vingança, decorrente de uma justiça arcaica, inoperante e machista. Ou seja, a polícia não é acionada pela descrença na instituição falha, descompromissada e sem nenhum crédito dos cidadãos de bem. A vida imita a ficção artística e as situações se complementam e se fundem num regime totalitário, que aparentemente dá mostras de uma certa evolução, diante de alguma liberalidade teatral, embora sempre haja o medo dos homens do governo em fechar as portas da casa de espetáculos, como é bem enfatizado pela segura direção.

O desfecho com as luzes sendo apagadas, com as cadeiras frente a frente são símbolos de um resquício frequente da inquirição sem a ampla defesa nos tribunais e nos julgamentos no Irã de uma quase inexistente justiça. Tanto no aspecto legal sem a sustentação dos pilares básicos da legitimidade dos parâmetros de uma boa defesa para uma condenação justa, se for o caso. É o que se observa pela metáfora lançada na tela. O escuro e o silêncio são elementos indispensáveis que contribuem para o drama e as angústias de imenso sofrimento que ainda restam como sombras permanentes da tortura ainda viva para todos, neste ótimo filme de Farhadi.