sexta-feira, 25 de novembro de 2022

Nada de Novo no Front

 

Encurralados

Indicado ao Oscar pela Alemanha e considerado um dos favoritos para abocanhar a estatueta de Melhor Filme Internacional, Nada de Novo no Front, em cartaz na Netflix, conta uma impressionante história da saga do protagonista Paul Bäumer (Felix Kammerer, de atuação comovente), que falsifica a autorização dos pais para embarcar e lutar com seus amigos. Eles se alistam voluntariamente no Exército “pelo Kaiser, por Deus e pela pátria”, diante de uma fervorosa onda patriótica, que logo faz com que os futuros anti-heróis caiam na realidade brutal de uma guerra que nada tem de glamourosa, sequer leva para os caminhos da glória. Os preconceitos sobre os ditos inimigos e os acertos e erros do conflito se desequilibram, no entanto, em meio à contagem regressiva da desejada volta. Paul continua lutando até o fim para satisfazer os generais do alto escalão com discursos fáceis e palavras bonitas, convencem os rapazes a arriscarem suas vidas por ideais para tentar acabar com a batalha, na tão sonhada ofensiva vitoriosa alemã contra a resistência francesa. O cenário patético nada mais é do que as insalubres trincheiras lamacentas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

A direção é do alemão Edward Berger, que também resgata o roteiro original de um best-seller da literatura, o livro homônimo escrito em 1929, das lembranças do soldado Erich Maria Remarque, imediatamente celebrado pelo seu olhar pacifista para retratar as experiências de jovens trucidados pela perspectiva do confronto sem limites, através de uma narrativa de vários personagens que estavam a serviço de uma sentença de morte injustificável. Foi adaptado no ano seguinte para o cinema e lançado no Brasil com o nome de Sem Novidade no Front. Uma mistura de épico com ação que foi considerado um marco da sétima arte, tornando Lewis Milestone um dos principais diretores de sua geração, à época, pela visão antibelicista. Venceu naquele ano os Oscars de Melhor Filme e Melhor Diretor, além de ter sido indicado para Melhor Fotografia e Roteiro Adaptado. Berger segue a surrada inclusão de lugares-comuns na construção dos velhos clichês do gênero no longa-metragem atual. Inspirado no clássico de 1930, esta é terceira versão, que tem um cuidado técnico bem apurado, tanto na bela fotografia, como na fascinante trilha sonora, embora haja muita repetição de cenas, ainda assim faz os espectadores repensarem os motivos verdadeiros e as mentiras da Primeira Guerra Mundial.

O drama de guerra faz um retrato interessante da falta de provisões e de água potável, das dificuldades de recuperação dos feridos, a estratégia errada do local para os combates, além da preferência pela retirada pseudoestratégica dos militares alemães, com algumas pitadas fortes de crítica social aos governos da época, tanto da Alemanha como da França. Questiona sobre os filhos que morrem no front por culpa de quem os empurra para lá, ainda que bem distante do arrebatador discurso feito em tom de protesto na excelente realização Frantz (2016), de François Ozon. Um país derrotado solenemente em terras estrangeiras com um saldo gigantesco de vítimas dos dois lados soa como uma proposta objetiva de um libelo contra o armamentismo e seu espírito belicoso. Estampa-se a dor das perdas e a derrota nos rostos dos sobreviventes na máxima: “A guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam, por decisões de velhos que se conhecem e se odeiam, mas não se matam.”

Embora o filme dê uma sensação de déjà vu à trama, há o encadeamento dos dramas pessoais como estratégia para a construção de um discurso pacifista. O protagonista representa a essência da tragédia de uma guerra ensandecida pelos homens. Como fio condutor, revela outras realidades e expectativas frustradas semelhantes às suas fantasias ao contrariar a celebração dos heróis para continuar alimentando a máquina das armas e dos conflitos bélicos. Remete para outras obras similares como Dunkirk (2017), do britânico Christopher Nolan, inspirado na história verídica da Operação Dínamo, na qual houve o resgate histórico no início da Segunda Guerra Mundial, para salvar cerca de 400 mil homens das tropas aliadas. Acabam encurralados contra o Canal da Mancha pelas forças do Exército e Aeronáutica nazistas de Hitler na Praia de Dunquerque, no Norte do território francês. Também há analogia com o drama humano da Segunda Guerra Mundial retratado no dinamismo de Steven Spielberg em O Resgate do Soldado Ryan (1998), que segue a fonte de inspiração da abordagem pela paz. Também há uma aproximação com Glória Feita de Sangue (1957), de Stanley Kubrick, quando em 1916, durante a Primeira Guerra Mundial, um general francês ordena um ataque suicida. Porém, nem todos os seus soldados cumprem a decisão insana do militar. Então ele exige que sua artilharia ataque as próprias trincheiras. O pedido absurdo não é obedecido, por isto resolve pedir o julgamento e a execução de todo regimento por se comportar covardemente no campo de batalha e assim justificar o fracasso de sua estratégia.

Nada de Novo no Front tem alguns méritos pela eloquência e boa verossimilhança narrativa ao retratar soldados acuados e sem uma perspectiva de fugir daquele lugar inóspito, um buraco sem saída, com a morte rondando a cada minuto. Reitera a ideia do absurdo de mandar inocentes morrerem como animais de pouca importância, decorrente de caprichos dos militares com suas estratégias. A origem é a ambição geopolítica das nações com suas fragilidades e os atropelos exercidos pelas arbitrariedades dos comandantes com vidas alheias vistas como joguetes descartáveis. Enquanto os jovens extasiados pelos sonhos vendidos a eles passam fome e se alimentam com restos de comida, frio dilacerante e bebem água fétida para saciar a sede, os altas patentes, distante do front, participam de banquetes regados com os melhores vinhos e sobremesas suculentas, e ainda reclamam da qualidade que não está no ápice para seus paladares apurados. Uma ignomia recorrente, com uma triste mistura de lodo, sangue, bombas, punhais, tiros, mortes, discursos militaristas e arranjos nos gabinetes. Demora um pouco, mas logo os personagens se cruzam em suas peripécias de luta num roteiro flexível e complexo pelo clímax neurotizante sem tempo para delongas, deixando o fervor do cenário se diversificar. A reflexão fica estampada na carnificina doentia pela estupidez humana com resultado aterrador imposto ao olhos das testemunha dos fatos. Uma obra admirável que funciona quando retrata as individualidades e nas causas políticas e econômicas que pairam da loucura dos conflitos coletivos da chacina pela irracionalidade.

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

O Perdão

 

Arrependimento e Vingança

Vem do Irã em coprodução com a França o contundente drama O Perdão, que escancara o absurdo inominável da pena de morte. Um retrato digno da saga de uma mulher que luta corajosamente para exigir o reconhecimento da justiça, ainda que as autoridades se desculpem timidamente e ofereçam uma compensação financeira, pelo brutal erro cometido que levou seu marido, Babak, a ser executado. Além de dirigir e interpretar a viúva Mina, personagem central, Maryam Moghadam também assina o dinâmico roteiro ao lado de seu companheiro, Behtash Sanaeeha, e Mehrdad Kouroshniya. Abordagem contagiante da força feminina advinda da persistência para mostrar a todos que houve uma tenebrosa injustiça a um inocente, que por força das circunstâncias acabou confessando um crime que não praticou, mas que não tem volta, mesmo após ser descoberto o verdadeiro assassino. Uma obra corajosa que aponta o dedo para a questão da pena de morte e suas consequências trágicas e irreversíveis, que atingem a esposa da vítima e sua filha de oito anos, surda e muda, e seu fragilizado comportamento no colégio. Atualmente, estima-se que mais de 500 pessoas são executadas por ano.

O casal de cineasta coloca com precisão toda a tortura psicológica que sofrem as mulheres no Irã, especialmente por ter ainda que conviver com a segregação de gênero devido à condição de não ter nascido homem, bem focado no assédio sexual do inescrupuloso cunhado. Há uma boa similaridade nesta temática com o drama social egípcio O Truque da Galinha (2021), do diretor Omar El Zohairy. Por receber a visita masculina que se apresenta como um suposto amigo do marido, a protagonista é expulsa do apartamento que morava. Seu crime foi ter dividido o mesmo ambiente com uma pessoa do sexo oposto, a portas fechadas. Sofre as agruras da viuvez prematura ao tentar alugar um imóvel para residir com a filha. Um filme silencioso com um olhar feminino, de poucos diálogos, em que as imagens são reveladoras - principalmente após as manifestações recentes contra o atual regime teocrático do Irã, diante da morte da jovem Mahsa Amini, de 22 anos, presa e morta pela autoritária polícia dos costumes por não estar usando corretamente o véu na cabeça- torna o filme O Perdão atual e obrigatório a ser conferido. Foi amplamente noticiado pela imprensa os protestos em diversas ruas de Teerã e em outras cidades iranianas.

O desenrolar da trama é eloquente pela altivez da sensibilidade de focar a chaga maligna enraizada no seio de uma sociedade preconceituosa deste tema universal sobre a condição humana da mulher subserviente que busca seu espaço, e no filme, não desiste nunca de lutar pela honra enxovalhada do marido. Para isto, sobrou uma invejável força interior e uma resiliente capacidade emocional daquela mãe e esposa, que jamais se desequilibrou, mesmo que os transtornos se multiplicassem. Não se afasta do seu intuito, embora a vingança exceda os limites do bom senso diante do agente do sistema judiciário arrependido, visto como algoz, para buscar a redentora justiça, suscite uma discussão sobre o ato de perdoar contrapondo com a culpa não assumida expressamente. Polemiza a excrescência da pena de morte, figura jurídica incompatível com a possibilidade da reparação do erro. Esta realização nos remete para outra pequena obra-prima iraniana, Não Há Mal Algum (2021), vencedora do Urso de Ouro e do Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Berlim, do festejado diretor Mohammad Rasoulof, preso em 2010, enquanto trabalhava ao lado do conterrâneo Jafar Panahi, sendo condenado a um ano de detenção e impedido de deixar seu país desde 2017. Foi laureado pelo público na categoria de Melhor Filme de Ficção Internacional na 44ª. Mostra de Cinema de São Paulo, abordou um tema pouco explorado, que é o perfil dos executores na aplicação da pena de morte ao transformar os aspectos psicológicos dos verdugos e seus relacionamentos pessoais, bem como a dinâmica da vida de cada um deles, direta ou indiretamente, além das questões morais e da pena capital imposta. Uma história fragmentada e ressonante na complexidade da essência cinematográfica dos grotescos julgamentos dos não alinhados ao regime.

A liberdade individual tem pouco valor e não pode ser expressa como livre expressão de vontade em um regime tirânico diante das ameaças incontornáveis como verdades absolutas e inquestionáveis, deixando traumas indeléveis em seres humanos submetidos a execuções, apontou Rasoulof. Ficou marcante a frase dita com acidez e ironia: “Se o homem foi condenado à morte, ele deve ter feito algo para estar ali”, sendo repetida reiteradamente. Parte-se da premissa que a polícia e o judiciário não erram, por isto, pressupostamente, não há falha na engrenagem funcional, e sendo assim inexiste espaço para questionamentos sobre alguma perseguição política contrária ao conjunto de leis baseadas no Alcorão que fortalecem os regimes teocráticos. Já os realizadores Moghadam e Sanaeeha enfatizam a frase repetida várias vezes à exaustão: "foi a vontade de Deus" para acabar com a discussão sobre as perversidades do regime tomadas para punir sem respeitar o estado de direito democrático, totalmente ausente. Assim foi também no último filme de Asghar Farhadi, Um Herói (2021), na melancólica impressão de perplexidade diante de uma realidade às avessas de uma sociedade de valores tradicionais, com alguns flertes com a modernidade, impacta com a opção de continuar preso um anti-herói devedor a um agiota à margem da lei.

Tanto no prólogo como no desfecho deste admirável drama O Perdão, estão presentes as cenas estranhas com a leitura enigmática de uma citação vinda do Alcorão, sobre a passagem da Al-Baqara, A Sura da Vaca, onde Moisés menciona a reparação pela morte de um homem. O pedido explícito para sacrificar uma vaca estática no pátio de uma prisão, para convencer o povo e os desígnios do profeta como motivo controverso a ser salvo ou sacrificado? Seria o passaporte para matar ou executar um transgressor da lei? Os dilemas controvertidos da vida e da morte como resposta a tudo? São enigmas a serem decifrados sobre o destino do animal ou do homem condenado pouco importando. O copo de leite redentor na última cena estaria decifrando o jogo de xadrez proposto. Ficam as imagens para reflexão dentro do contexto da opressão às mulheres simbolizada metaforicamente com a surdez e a fala inexistente da garota na sua passividade como elementos de instrumentos sub-reptícios do sistema vigente dominante pelo fundamentalismo encontrado nos tribunais de inquisição contemporâneos. São as particularidades da engrenagem judicial do país que chamam a atenção pela burocracia e parciais métodos duvidosos com o alijamento da ampla defesa. Mas há uma cumplicidade com o silêncio de outros personagens, onde as mentiras são desculpadas com facilidade para esconder a barbárie da triste realidade na injusta execução. Os absurdos são mantidos por uma sociedade completamente dominada pelo fanatismo do pensamento religioso e amordaçada pela burocracia oficial.

sexta-feira, 14 de outubro de 2022

Ennio, O Maestro

Um Gênio Reverenciado

Empolgante com emoção à flor da pele, assim é o documentário Ennio, O Maestro que conta a vida e a carreira artística do lendário maestro italiano Ennio Morricone (1928-2020). O artista se tornou um dos mais conhecidos compositores de trilhas sonoras de filmes, especialmente os faroestes clássicos, além de dramas e sagas históricas. O diretor é o conterrâneo Giuseppe Tornatore, para quem trabalhou em Cinema Paradiso (1988) e A Lenda do Pianista do Mar (1998), bem como escolheu para realizar sua cinebiografia, filmar e entrevistar o biografado, com o apoio de inúmeros cineastas e parceiros próximos, por cinco anos, até 2019, um ano antes de falecer, em decorrência de uma queda em casa, onde fraturou o fêmur. Trabalhou até o fim para a inauguração da nova ponte, em Gênova, numa peça em memória das vítimas do desabamento da antiga que desabou e matou 43 pessoas, em 2018. Uma excelente amostragem das observações feitas no cotidiano, a vida que iniciou com um presente do pai na juventude, um trompete para se tornar músico, embora pretendesse ser médico. Gostava de inovar, porém jamais traiu sua origem da música clássica, em especial Stravinsky, que aprendeu com Goffredo Petrassi, o compositor, professor e principal mentor de Morricone. Mas, aos poucos foi migrando para a música da sétima arte, buscando inspiração em Johann Sebastian Bach e Beethoven.

O diretor apresenta com elegância e seu estilo peculiar o maestro no processo criativo, autor de mais de 500 faixas de música para cinema, televisão e obras clássicas. Abocanhou por duas vezes o Oscar. O primeiro como honorário pelo conjunto da obra, e o segundo com Os Oito Odiados (2015), de Quentin Tarantino, denominado como “hiperbólico” pelo seu exagero contumaz, ao se derramar em elogios a Morricone. As entrevistas e os depoimentos com artistas renomados passam pelo já mencionado Tarantino, Sergio Leone, Quincy Jones, Bruce Springsteen, John Williams, Liliana Cavani, Sergio Corbucci, Clint Eastwood, Paul Anka, Wong Kar Wai, Marco Bellocchio, Dario Argento e Bernardo Bertolucci, entre tantos outros. Também traz outros fatos não revelados sobre o compositor e arranjador, como seu amor por xadrez, que ajudou em suas composições, seu pensamento e motivos por trás de cada faixa. Para um dos entrevistados, o maestro era "geométrico, matemático"; para outro, era "espiritual, transcendental". O personagem central assistiu duas versões, uma com 6h40min; a segunda, com mais de 4h; mas o longa foi finalizado com uma duração de 156minutos, que passam voando, com gosto de quero mais.

Há alguma similitude de temática com outro grande compositor no documentário Aznavour por Charles, dirigido por Marc di Domenico, sobre o icônico cantor e compositor mundial Charles Aznavour (1924-2018). Celebrizado pelo público e pela crítica pelas suas canções marcantes com uma carreira de 70 anos e mais de mil canções escritas com participação em dezenas de filmes, inclusive menciona agradecido e carinhosamente a amizade com o cultuado cineasta François Truffaut, ao ter a oportunidade de fazer aparições breves em algumas das realizações do mestre francês. Ennio, O Maestro também traz na sua narrativa a essência do cinema e sua fusão com a música, sendo um filme sensível, delicioso e leve sobre o sentido existencialista, seus ensinamentos e emoções com fino humor decorrente de uma vida significativa deste maestro apaixonado por música clássica e sua derivação monumental para a cinematografia colocada na tela. É admirável a forma da engrenagem que contribui sobre a arte da criação musical com reflexos diretos no cinema. Foi construído com um prólogo arrastado de uma narrativa com quase 30 minutos para as apresentações pessoais do personagem documentado. Às vezes, com alguma simplicidade; em outras, na maioria, o amor, a dedicação e a dignidade estampada sobre o emblemático artista e sua vocação que transcende da música para o cotidiano dos mortais humanos. Rege harmonicamente com ardor sua orquestra e o grupo de coralistas, que gira em torno da vida através de suas canções inesquecíveis e seu olhar atento para uma impecável apresentação.

A realização estampa e foca a maturidade de Morricone para fazer as duas coisas ao mesmo tempo. A música clássica e a de cinema, esta denominada de absoluta, termo este que utilizava para falar sobre a produção concebida como um ato livre, não condicionada a outras expressões artísticas. Criou algumas das mais marcantes trilhas sonoras do cinema, como nos faroestes de Leone, Por um Punhado de Dólares (1964), Três Homens em Conflito (1966), Era uma Vez no Oeste (1968), e a obra-prima das trilhas em Era uma Vez na América (1984); dos filmes histórico-políticos de Gillo Pontecorvo, A Batalha de Argel (1966), Queimada (1969) e Ogro (1979); de Dario Argento, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970) e O Gato de Nove Caudas (1971); de Terrence Malick, Cinzas no Paraíso (1978); de Roland Joffé, A Missão (1986); de Brian De Palma, Os Intocáveis (1987); de Pasoline, Teorema (1968); de Elio Petri, Investigação Sobre um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita (1970); de Giuliano Montaldo, Sacco e Vanzetti (1971); de Bertolucci, 1900 (1976). E tantos outros que foram mencionados com ilustrações de cenas inesquecíveis.

Ennio, O Maestro é um documentário intenso, grandiloquente, sublime e de formato espetacular, que vai muito além de enumerar os sucessos na eficiente montagem que une vários pontos de uma trajetória em que a música é o foco primordial da história contada. Admirável a menção especial ao seu grande amor, a esposa Maria Travia, união que durou 63 anos, a quem submetia as composições como consultora final antes de repassar para os cineastas. O artista fala com algum resquício de mágoa da lembrança outrora de quando houve a ocupação da Itália na Segunda Guerra Mundial, fato que nunca esqueceu diante da humilhação de tocar por um prato de comida. Também a tristeza de não ter composto para Laranja Mecânica (1971), embora consultado por Stanley Kubrick. Houve um dissimulado ruído de comunicação, pois Leone informou ao colega que não podia liberá-lo, tendo em vista que o longa Quando Explode a Vingança (1971) ainda estaria sendo realizado, numa pequena mentira do seu mais fiel parceiro. Eis um retrato pungente documentado da vida de um gênio e sua fervorosa vocação como compositor e maestro, com todo seu magnetismo e brilho quase inigualável no universo cultuado da música, em especial as trilhas sonoras para o cinema. Uma ode para os apreciadores da pura arte na companhia musical saborosa e sedutora neste tributo arrebatador.



quarta-feira, 28 de setembro de 2022

Marte Um

 

Sonhos Familiares

Marte Um é a grande surpresa das produções brasileiras recentes. Tomou por empréstimo o nome de um programa espacial criado e lançado pela NASA em 2012, com o objetivo de levar uma tripulação humana para a colonização do planeta vermelho Marte. Indicado para representar o Brasil no Oscar de 2023, a escolha não poderia ter sido melhor; ganhador de quatro kikitos no Festival de Gramado deste ano (Melhor Filme do Júri Popular, Roteiro, Trilha Musical e Prêmio Especial do Júri) com aclamação do público presente e da crítica; teve a estreia no Festival Internacional de Sundance (EUA). O competente jovem mineiro Gabriel Martins, de 34 anos, dirige e assina o roteiro com muita sensibilidade e extrema habilidade. Tem em sua filmografia os longas Aliança (2014), O Nó do Diabo (2018) e No Coração do Mundo (2019), além do curta-metragem Nada (2017).

A trama começa após o anúncio das eleições presidenciais de 2018, com a posterior posse do presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro, como pano de fundo, num clima de incerteza, dúvida e angústia sobre o futuro do Brasil, principalmente para as camadas sociais de pessoas em situações vulneráveis economicamente. A família Martins é de classe média baixa, formada por pessoas negras, que vive às margens de uma cidade da Grande Belo Horizonte, dentro de um país sob o prisma do contexto impregnado pelo racismo estrutural. A história é contada com muita delicadeza e sutilezas sobre o microcosmo familiar, onde Deivinho (Cícero Lucas), um garotinho que imagina ser um astrofísico e participar da missão espacial que parece inalcançável. Porém, além da condição de pobreza, terá que convencer seu pai - o porteiro Wellington (Carlos Francisco), um fervoroso torcedor do Cruzeiro de Minas Gerais -, que tem outros planos. Ele sonha e deposita todas as esperanças que o filho se torne um grande jogador de futebol, com uma auspiciosa carreira. É o desejo de ascensão, ainda que jogue de óculos e tenha pouca intimidade com a bola, não mede esforços para colocá-lo no clube do coração, inclusive com o auxílio de um ex-craque cruzeirense, mesmo contra a vontade do menino.

O enxuto e prodigioso roteiro apresenta a mãe, Tércia (Rejane Faria), uma diarista que teria sido vítima de uma circunstância inesperada com resquícios nefastos. Ela terá sérios problemas com visões que motivam situações paranormais ao mergulhar em uma crise existencial por se achar uma pessoa amaldiçoada pelo fato pitoresco que vivenciou. No meio deste painel familiar de elucubrações, está a emponderada Eunice (Camilla Damião), filha primogênita que está na faculdade de Direito e vive uma paixão homossexual por uma jovem colega de espírito livre, que lhe questiona para sair de casa e buscar sua independência, como uma maneira objetiva de libertação para a fase adulta. Faz o papel de mediadora entre o pai e o filho, mas terá que lutar com inteligência para resolver seu destino e os tabus que irá encontrar dentro do eixo familiar e da própria sociedade conservadora e preconceituosa que lhe afetarão pela escolha de sua opção sexual.

Os méritos do cineasta são muitos na construção deste drama familiar e social que realça o poder de indignação e de sobrevivência de pessoas praticamente alijadas da sociedade. Mostra um realismo puro que reflete uma sociedade retrógrada de pensamentos e comportamentos quanto à cor da pele do indivíduo e a sua orientação sexual, que agem com o instinto machista, dominada essencialmente por brancos conservadores. O mérito maior é buscar a transformação para inquietar o espectador de maneira contundente pela dádiva de evitar a violência e o confronto brutal oriundos de propostas torpes de governos reacionários. Esta é a maior transgressão do ser humano, pela ótica do diretor. Eis uma saga com seus dilemas intrínsecos e extrínsecos, como a demissão sumária do pai pela síndica de um condomínio de classe alta, onde a alegria, a tristeza e o sonho são tão genuínos de seres descartados. Mas não há outra alternativa, senão em deixar a vida conduzir com dignidade e altruísmo trazidos de berço, para um futuro de sonhos e realizações, bem focados nos filhos do casal.

Marte Um não tem grandes reviravoltas no enredo, sequer cai em armadilhas quixotescas ou discursos vazios e enfadonhos. O filme não embarca no proselitismo político que poderia levar para o melodrama folhetinesco. O magnetismo do longa está na construção psicológica de personagens fortes e naturais, no qual encontramos pessoas de carne e osso de nosso cotidiano recheado de injustiças sociais no seio de uma família planificada com sentimentos puros, às vezes ingênuos, mas com instinto inalienável do afeto em tempos conturbados; em outras vezes, de sonhadores sensíveis e esperançosos, numa conexão direta com a realidade que atinge o alvo, ou seja, o espectador em sua zona de conforto. Cada personagem enfrenta com solidez as vicissitudes apresentadas pelos tombos do dia a dia. Uma espécie de corrente de apoio para manter viva a alma e a luz no fim do túnel como elemento inspirador de empatia e coragem para vencer os percalços que afligem os mais desprotegidos pela sua condição social, e o maniqueísmo epidérmico monstruoso da coloração. Embora a pobreza salte aos olhos como uma deplorável força arrasadora, há garra, dignidade e muita dor no coração e na alma contrapondo com as desigualdades que estruturam nossa sociedade.

Através da bela fotografia assinada por Leonardo Feliciano, com o embalo musical da trilha sonora de Daniel Simitan, bem pontual e sem atravessar o enredo, o drama reflete os efeitos sociais impactantes na abundante falta de solidariedade mesclada com o deboche arrogante. Aponta atitudes condenáveis que fazem sofrer pessoas realmente vitimizadas pelo infortúnio do destino neste triste relato que abala consciências lúcidas e revela as mazelas impregnadas pela desumanidade com os excluídos. O realizador conduz a trama com eloquência e admirável bom humor, ternura e amor para alcançar um efeito raro a ser encontrado. Este conjunto harmonioso estético o distancia de Parasita (2019), do festejado cineasta Bong Joon-ho, embora haja consideráveis similaridades de exclusão social com a obra-prima da Coreia do Sul. São paradigmas humanos resultantes de uma reflexão pontual, que faz com que as cenas tenham o caráter da luta contra a humilhação pela persistência contumaz. “A gente dá um jeito”, diz o pai em uma cena inesquecível, para não se afastar do futuro com marcas de uma esperança redentora comovedora, mostrando a importância do olhar de um para o outro nas relações de afinidades e sintonias familiares marcantes nesta extraordinária obra cinematográfica brasileira.

terça-feira, 16 de agosto de 2022

Um Herói

 

A Liberdade

O premiado cineasta Asghar Farhadi se notabilizou por realizações voltadas para seus conterrâneos, através de obras em que aborda os conflitos sociais do dia a dia, os aspectos morais da sociedade conservadora, as imposições religiosas, além de lançar um olhar sobre as gerações futuras e as relações com o passado. Assim foi com o inesquecível, talvez seu melhor filme, A Separação (2011), em que é o primeiro iraniano a ganhar o Oscar de Filme Internacional, Globo de Ouro e Urso de Ouro em Berlim. Depois viria conquistar novamente o Oscar em língua estrangeira com o admirável O Apartamento (2016), vencendo ainda em melhor roteiro e melhor ator no Festival de Cannes. Tem em sua filmografia importantes títulos, tais como o frenético e acolhedor À Procura de Elly (2009), ganhador do Urso de Prata de Direção no Festival de Berlim; O Passado (2013) abocanhou o prêmio do júri ecumênico no Festival de Cannes, tendo sido sua primeira produção fora do Irã, com rodagem na França, testou suas habilidades em outra cultura. Mostrou-se um realizador voltado essencialmente para as coisas do cotidiano conflitado de seu país, embora bem distante de seu povo, não se afastou das relações intrincadas com a tradicional naturalidade. Todos Já Sabem (2018) foi seu penúltimo longa, agora em língua espanhola, reitera sua universalidade depois da experiência exitosa em francês, num misto de drama com thriller policial.

Laureado em Cannes com o Prêmio do Júri, Um Herói, lançado no Festival Varilux, segue a trajetória narrativa semelhante aos dramas anteriores A Separação e O Apartamento. Aborda a história de Rahim Soltani (Amir Jadidi, de estupenda interpretação), um calígrafo que está preso por conta de uma dívida que não conseguiu pagar, mas que ao ganhar um benefício de dois dias fora da prisão, tenta convencer o seu credor a retirar a queixa, oferecendo o pagamento de parte do valor devido. Com o auxílio da namorada, Farkhondeh (Sahar Goldtur), que esboça apenas um sorriso no frio encontro diante da proibição do contato físico entre homens e mulheres no país, um obstáculo a mais para se filmar que é repassado pelo diretor ao espectador. Assim como é vetado no cinema lá realizado à dispensa do xador que deixa apenas os olhos sem proteção, embora o cenário seja na distante Shiraz, no sudoeste do país. A origem do dinheiro para pagar o empréstimo é uma sacola de moedas de ouro encontrada numa parada de ônibus, que é trocada em espécie em uma loja de câmbio de acordo com a valorização do dia, mas que dá apenas para pagar metade da dívida para o agiota.

Antes, Farhadi coloca a situação como dúvidas éticas e morais do endividado quanto ao direito de usufruir das moedas. Ingenuamente, ele espalha cartazes procurando o verdadeiro dono, após tentar vender e descobrir que a cotação está em baixa. Inevitavelmente surge uma vigarista que conta um melodrama familiar, alegando que seriam economias guardadas e escondidas de um suposto marido inconfiável. Diante da devolução à mulher, esta desaparece sem deixar rastros. A trama toma contornos inverossímeis como uma torrente de situações absurdas do cotidiano kafkiano que recai sobre o protagonista com repletas adversidades por tintas doloridas que impregnam suas relações familiares já abaladas pela desgraça da prisão. Tudo fica completamente fora de controle e ele cada vez mais se sente encurralado. Vai perdendo a credibilidade até no seio da família, inclusive de seu filho, dos amigos, e dos colegas de cela. Os dois dias de liberdade vão se esgotando, tudo parece conspirar contra. Está num beco sem saída e as circunstâncias contrárias aumentam, enquanto que nada evolui para a busca do perdão do credor. Mas surge uma tênue luz no fim do túnel que poderá ser sua salvação, quando é eleito na prisão como um modelo de homem ético, honesto e indulgente. A imprensa é chamada para entrevistá-lo e sua boa imagem toma conta da televisão, deixando-o conhecido, porém também há uma incrível inveja que vem emergir. Tenta arrumar um emprego para quitar toda a dívida e receber o indulto, mas numa engenharia do roteiro as conjunturas irão ao sentido contrário com uma mescla de corrupção subreptícia de vários setores do sistema teocrático vigente predominado pelo fanático fundamentalismo. Surgem os questionamentos nas redes sociais com vídeos e opiniões agindo como tribunais da inquisição contemporâneos, que tomarão conta nos debates sobre a verdadeira identidade do personagem central, se um falso altruísta ou um brilhante dissimulador.

A narrativa construída pelo cineasta é advinda da forte influência do neorrealismo italiano, movimento cultural surgido na Itália ao final da Segunda Guerra Mundial, cujas maiores expressões ocorreram no cinema. Seus maiores expoentes foram Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, que iria influenciar a cinematografia produzida no Irã, como os cineastas Abbas Kiarostami em Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e O Vento nos Levará (1999), bem como de Mohsen Makhmalbaf com o admirável A Caminho de Kandahar (2001), em que os detalhes são fundamentais de um realismo puro que reflete uma sociedade machista atrasada e completamente arcaica de pensamentos e comportamentos retrógrados. As possíveis soluções são buscadas dentro de um contexto de personagens fragilizados pelas feridas abertas, dando margens para os fantasmas se locomoverem de um lado para outro neste jogo de xadrez. O passado é colocado em xeque nas vidas entrecruzadas com fragmentos rancorosos sobre amor, dinheiro, frustrações, ética, manipulações e ganância.

Um Herói sintetiza uma moralidade repressora por costumes obsoletos e corrompidos de um microcosmo de vínculos familiares rompidos por situações oriundas da inveja pela fama repentina de um prisioneiro. Acompanha a rotina dos parentes próximos na construção psicológica, onde ninguém é esquecido pela câmera numa estética pragmática, sem que a imagem abandone todos os personagens envolvidos. O desenvolvimento do enredo bem urdido vai ao encontro do criativo epílogo que sinaliza uma esperança tênue, embora difusa e pouco luminosa. Deixa uma melancólica impressão com um misto de perplexidade diante de uma realidade às avessas de uma sociedade de valores tradicionais, com alguns flertes com a modernidade, onde celulares último tipo e redes sociais começam a predominar. Impacta com a opção por um criminoso condenado à morte em detrimento de um inadimplente anti-herói com um agiota à margem da lei. As particularidades do sistema judicial do país chamam a atenção pela burocracia e parciais métodos duvidosos com o alijamento do estado de direito democrático, bem contado em A Separação. Com elegância e sutileza, Farhadi deixa o primoroso desfecho para reflexão sobre qual foi a melhor escolha. Um filme extraordinário que coloca a dignidade nas entrelinhas sobre questões controversas, usando a sensibilidade para apontar a prepotência estatal com seus valores discutíveis neste conteúdo de protesto silencioso dos dissabores e as complexidades das relações humanas do povo com sua pátria mãe, como elementos indispensáveis que contribuem para as angústias de um imenso sofrimento que ainda restam como sombras permanentes.

terça-feira, 2 de agosto de 2022

O Truque da Galinha









Mãe e Filhos

Vem do Egito em coprodução com Holanda, Grécia e França o disruptivo e cativante drama social O Truque da Galinha, do jovem diretor estreante Omar El Zohairy, de 33 anos, que assinou o roteiro em parceira com Ahmed Amer. Venceu o Grande Prêmio da Semana da Crítica do Festival de Cannes. O cineasta construiu uma narrativa que se aproxima do neorrealismo italiano, movimento cultural surgido na Itália ao final da Segunda Guerra Mundial, cujas maiores expressões ocorreram no cinema, tendo como seus maiores expoentes Roberto Rosselini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti, que iria influenciar a cinematografia produzida no Irã. Tem na dinâmica descritiva a inspiração dos cineastas iranianos Abbas Kiarostami em Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e O Vento nos Levará (1999), bem como de Mohsen Makhmalbaf com o admirável A Caminho de Kandahar (2001), em que os detalhes são fundamentais de um realismo puro que reflete uma sociedade atrasada e completamente arcaica de pensamentos e comportamentos retrógrados que agem com o instinto machista de métodos clássicos utilizados pela máfia.

A trama gira em torno de uma família forçada a um período de autodescoberta, depois que seu patriarca autoritário endividado com a fábrica em que trabalha é acidentalmente transformado supostamente em uma galinha por um truque de mágica que dá errado na festa de aniversário de um dos filhos. Uma avalanche de coincidências absurdas do cotidiano kafkiano recai sobre todos como uma fábula adulta repleta de adversidades com sabor melancólico impregna o microcosmo familiar abalado pela desgraça. A calada mãe (Demyana Nassar), cuja vida foi dedicada ao marido e aos três filhos menores, um ainda sendo amamentado, vai ser o foco da aterradora situação. Moram numa casa humilde, uma típica tapera com paredes sem tinta, pouca iluminação, raros móveis, uma precária televisão, e a fumaça cinzenta da fábrica vizinha invadindo constantemente a residência quando a janela está aberta. Logo, o ambiente anoitece imediatamente como num estalar de dedos. Ela é uma brava leoa na defesa de seus filhotes, que assume a condição de administradora do lar para lutar com uma dignidade comovente. Tenta encontrar o marido, mas passa por humilhações e assédios, inclusive por um homem familiar, a quem se vinga com inteligência atroz. Busca emprego em vários lugares, mas acaba despedida por alguns desatinos para a subsistência. Consegue colocar para trabalhar num subemprego o filho mais velho de pouco mais de 10 anos, mas ainda assim as contas se avolumam cada vez mais, inclusive o aluguel atrasado por três meses seguidos.

O filme tem parâmetros em outra produção egípcia, Yomeddinne- Em Busca de Um Lar (2018), do roteirista e diretor Abu Bakr Shawky, que representou o país na categoria de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar. Abordava um homem pobre, catador de lixo que decide sair pela primeira vez do confinamento da colônia de leprosos de uma comunidade isolada onde foi abandonado quando criança, para embarcar numa jornada até sua cidade natal, à procura da família e saber o motivo pelo qual seu pai nunca cumpriu a promessa de voltar para buscá-lo. Também há similitude com o provocante drama social Cafarnaum (2018), de Nadine Labaki, que representou o Líbano na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar de 2019. Retratava os perigosos desatinos pelas rupturas dos laços que unem os respectivos membros familiares, além de mostrar os problemas de imigração e o descontrole da natalidade, com boas doses de manifestações positivas que vão ao encontro dos anseios de justiça social. O Truque da Galinha, um título condescendente com a brutal realidade, embora remeta para uma comédia, passa longe deste gênero, pois sua construção é oriunda do absurdo que vem para escancarar uma dura veracidade de uma sociedade patriarcal extremamente machista e conservadora. Embora seja doloroso na sua temática, tem como grande mérito ser transformadora para inquietar o espectador de maneira contundente e transgressora.

O promissor realizador mostra talento para abordar um filme complexo na sua essência pontilhada pela amargura de uma família em frangalhos. A perda momentânea do pai gestor que evaporou de circunstâncias pouco esclarecidas pelas autoridades policiais, que irão dar uma resposta na trama quase no desfecho, deixam margens para dúvidas e especulações sobre a verdade do desaparecimento. O inusitado epílogo remete para um semelhante no extraordinário drama Amor (2012), de Michael Haneke, soa como uma atitude redentora e reflexiva sobre os métodos de carinho, ternura e da defesa incondicional da grande amizade mesclada com amor e sofrimento. Retira os véus dos bons costumes, dando um tapa na cara da infelicidade, como fez a protagonista num ato de desabafo e desespero, partindo para o confronto entre a vida e a morte, diante das emoções existenciais sobre o progressivo fim do ser humano virado um farrapo. Aquele cenário insalubre com a presença da galinha ciscando sobre a cama, mostrado em quadros fixos, repleto de silêncios perturbadores e incômodos ruídos externos, conduzem para uma densa contemplação que beira o apocalíptico mundo das mulheres excluídas pela violência latente, às vezes; e recorrentemente severa. A pobreza salta aos olhos como um deplorável elemento de uma força propulsora arrasadora. Com garra, dignidade e muita dor no coração e na alma, a protagonista dá uma aula de lição de vida pela sobrevivência dela e de seus filhos. São paradigmas humanos resultantes de uma reflexão pontual, que faz com que as cenas tenham o caráter da luta monumental daquela criatura humilhada, sem piedade.

Um drama com efeitos sociais impactantes na abundante falta de solidariedade mesclada com o deboche arrogante, através de atitudes condenáveis a pessoas realmente vitimizadas pelo infortúnio do destino neste relato cruel, mas aterrador na manifestação da arte cinematográfica que rasga a mente, abala a consciência e revela o caráter dizimante de uma casta de pessoas poderosas contagiadas pela desumanidade com os excluídos da sociedade dominada pelos homens. Importando-se muito pouco com os necessitados próximos. Além da paupérrima vida da personagem central com seus filhos dependentes, tem ainda que conviver com a segregação de gênero devido à condição de ter nascido mulher. Um filme com um olhar feminino, de poucos diálogos, em que as imagens chocantes revelam os enigmas apresentados pelo enxuto roteiro. O desenrolar da trama é eloquente pela altivez da sensibilidade de focar a chaga maligna enraizada no seio de uma sociedade preconceituosa deste tema universal sobre a condição humana da mulher, que passa pela pujança estimulante de impor sua vontade para um futuro da liberdade inegociável. Para isto, sobrou uma invejável força interior e uma resiliente capacidade emocional naquela mãe, que nunca se esvaiu ou se desequilibrou, mesmo que os transtornos se multiplicassem, para não se afastar do amanhã com marcas de uma esperança redentora.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Elvis

Ídolo Reverenciado

Empolgante com muito frenesi e emoção à flor da pele, politicamente incorreto, assim é a cinebiografia Elvis que conta a vida e a carreira artística do músico que se torna o Rei do Rock’n’Roll. Interpretado por Austin Butler, em atuação antológica e irretocável, oferece uma performance treinada por dois anos com carisma e magnetismo bem próximos de Elvis Presley. O diretor australiano de 59 anos Baz Luhrmann traz novamente sua marca registrada característica de filmes eletrizantes com sensações intensas e de visual forte, entre os quais estão Vem Dançar Comigo (1992), Romeu+Julieta (1996), Moulin Rouge (2001), Austrália (2008) e O Grande Gatsby (2013). Os desafios para uma obra com a complexidade da trajetória do biografado e seus malabarismos de palco com inúmeras imitações foram um grande desafio para o cineasta e toda a reverência deste fenômeno cultural que ainda causa suspiros em seus abnegados fãs, embora ele tenha dito no transcorrer do longa como um desabafo angustiante: “ninguém vai se lembrar de mim, nunca fiz nada duradouro, nunca fiz um filme clássico”.

O realizador faz uma narrativa admirável, com seu olhar pessoal, do astro nascido em 1935, e morto em 16 de agosto de 1977, na cidade de Memphis, situada às margens do rio Mississipi, no sudoeste do Tennessee (EUA), famosa pela influência de blues, soul e rock'n'roll que lá se originaram. O filme mostra a admiração de Elvis por B.B. King, Johnny Cash, Big Mama Thornton, Little Richard e Fats Domino, pois eles gravaram álbuns no lendário Sun Studio. A mansão Graceland da família Presley ainda é uma das grandes atrações local. O cantor gravou 18 canções, terceiro que mais vendeu discos, atrás apenas dos Beatles e de Michael Jackson. Participou de 31 filmes sem grande sucesso como ator. Seu show especial na TV Aloha From Havai em 1973 superou a audiência do homem descendo na Lua em 1969.

Construído de maneira que beira uma denúncia, numa descrição contundente, às vezes poética e em outras reveladoras, faz um passeio pela conturbada trajetória do personagem-título, através de versões e fatos que marcaram sua existência entre prós e contras, alegrias e dissabores, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar uma história recheada de futilidades. Ou explicar didaticamente situações evidentes, imprime ótima velocidade num clímax certeiro para impactar a plateia. Lança um olhar sombrio de lembranças do passado, sem deixar de mostrar o início da carreira e seus derradeiros dias, já abalado por crises existenciais como a enfermidade da alma em frangalhos, tentando voltar aos palcos que o legitimou como um autêntico personagem de show business com sua técnica perfeita de palco através de seu rebolado e interpretação que levava seus fãs para uma catarse coletiva. Priscila (Olivia DeJonge) foi o grande amor de sua vida, desde os 14 anos, fonte de inspiração e uma das pessoas mais importantes para ele, que resultou no nascimento de uma filha. Mesmo em um papel secundário, demonstra atormentação pela fragilidade da saúde do companheiro decorrente das intoxicações por medicações fortes para mantê-lo sempre em pé e disponível para cantar e encantar seu público com os hits Suspicious Mind, I Can’t Help Falling in Love, e a última canção Unchained Melody, entre tantos com toda aquela energia pulsante, pouco se importando com dinheiro.

Luhrmann enfatiza as cenas de maneira impactante para atingir em cheio os sentidos auditivos e visuais com uma estrondosa pirotecnia estética exagerada de colagens, cores e sons, com movimentos alucinados de câmeras com elipses de edição às mancheias, porém palatável para quem venera o ídolo, pouco se importando com sutilezas e carícias agradáveis. Nada é implícito, tudo é explícito, sem ironias finas, mas com denúncias para fustigar e perturbar mesmo o espectador, desde a juventude com seus ternos cor de rosa, passando pelo uniforme militar e as roupas pretas de couro. Instiga com a morte precoce da mãe, o alistamento no Exército, a ida coagida para Alemanha por dois anos, logo após fazer um show que buscava a liberdade de expressão para dançar e requebrar sem as amarras da censura. Inspirou-se desde a infância na música de origem negra e nas lembranças de um pastor evangélico que entrava em transe nos cultos. Esta mescla usada com o objetivo de cantar deste futuro showman incomodava os conservadores e as famílias tradicionais de uma sociedade hipócrita machista, recheada de tabus, além do viés racista. Há momentos históricos retratados de uma época marcada pela violência como o assassinato de Martin Luther King em Memphis, passa pelas tragédias da atriz Sharon Tate e o senador Robert Kennedy, vitimados pela intolerância e o ódio intransigente.

Elvis é um retrato pungente documentado da vida amarga de uma estrela e sua fervorosa vocação como cantor, com todo seu magnetismo e brilho pessoal inigualável no universo cultuado do rock’n’roll que o tornou uma majestade cultuada até hoje. Uma ode para os apreciadores da arte na companhia de um genial artista com suas dolorosas lacunas pela vida nas armadilhas do destino neste belo tributo. Está bem acima de Bohemian Rhapsody (2018), de Bryan Singer e Dexter Fletcher, que mostrou no filme biográfico o cantor britânico Freddie Mercury e o grupo de rock Queen, de maneira superficial e pouca coragem para uma abordagem mais profunda; supera Rocketman (2019), de Dexter Fletcher, que segue desde a origem de Elton John até a relativa libertação dos problemas que teve na infância, a relação com o compositor e parceiro profissional Bernie Taupin e o empresário e ex-amante John Reid.

O mérito da trama que acompanha décadas da vida do artista é não esconder nada, desde a ascensão à fama, até as tentativas de retorno como objetivo maior, para relembrar os episódios inesquecíveis de sua consagrada carreira. Inclusive o relacionamento tóxico com seu empresário controlador, Coronel Parker (Tom Hanks, ótima atuação com enchimentos e próteses para torná-lo uma figura caricata). O mergulho na dinâmica entre eles por mais de 20 anos de parceria, numa turnê pelos EUA, especialmente num hotel internacional em Las Vegas. Aflora em tom de indignação o mau-caratismo deste pseudoprofissional, apátrida, sem passaporte, um sanguessuga que deixaria indeléveis cicatrizes com marcas eternas no destino da vida do cantor que nunca fez show ou turnê fora dos Estados Unidos. As escolhas difíceis de Elvis que o marcou como uma saga tortuosa estão presentes nos problemas com cobranças severas do seu mentor, bem retratadas como elemento central da trama. A frustração de um sonho que levou para o túmulo diante das idiossincrasias daquele a quem confiou como um segundo pai, pois o seu verdadeiro era uma pessoa subserviente, que só acordou e tomou pulso da situação com a morte do filho, então foi buscar na justiça ressarcimento dos milhões de dólares surrupiados pelo Coronel Parker em contratos absurdos para benefício próprio. Mesmo negando as falcatruas realizadas sob a ótica do empresário bonzinho, fica evidente que o artista se tornou uma figura manipulada. Um filme intenso e arrebatador.

segunda-feira, 4 de julho de 2022

Festival Varilux Cinema Francês (O Acontecimento)

 

O Acontecimento

Um dos mais aguardados lançamentos do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano era O Acontecimento, segundo longa-metragem da diretora Audrey Diwan, que também assina o roteiro em parceria com Anne Berest. Uma adaptação do romance homônimo de Annie Ernaux, é a história vivida pela escritora, hoje aos 81 anos, ambientado na França, em 1963. Vencedor do Leão de Ouro de melhor filme no Festival de Veneza de 2021, sendo a segunda diretora francesa a receber esse prêmio. Também abocanhou o prêmio da crítica no mesmo festival do ano passado. Antes de se tornar cineasta, trabalhou como editora, jornalista e roteirista. Escreveu vários livros, dentre eles La Fabrication d’un mensonge, que recebeu o prêmio René Fallet, em 2008. Também faz parte do Collectif 50/50, uma ONG francesa que promove a igualdade entre homens e mulheres na indústria cinematográfica.

O drama conta a saga de Anne (Anamaria Vartolomei- de atuação estupenda, recebeu a láurea de atriz revelação no César, o Oscar francês), onde uma estudante promissora de literatura que adora dançar, pobre, acaba por ter uma gravidez indesejada. Resolve abortar, mas seus colegas, amigos e os médicos irão se colocar contra sua decisão irrefutável. Está aparentemente pronta para fazer qualquer coisa para colocar em prática seu desejo, pois entende que não está preparada para a maternidade naquela ocasião fora do contexto programado, tendo em vista que seus estudos são prioridade. Aquela boa aluna começa a desabar e suas notas são cada vez piores diante das fragilidades que povoam sua mente de ser mãe. Entende que uma criança naquele momento iria brecar seus planos para o futuro. Mesmo alegando que é dona de seu próprio corpo, ela busca sozinha seu inarredável objetivo num universo negacionista. Há uma corrida contra o tempo que passa rápido, além do desafio da lei que proibia terminantemente o aborto provocado, exceto o voluntário, como menciona os obstetras. Na França, a interrupção voluntária da gravidez só foi legalizada em 1975.

A realização tem requintadas pitadas de suspense psicológico, dirigido com sobriedade, de maneira nua e crua, vai direto ao ponto, com traços autobiográficos tanto da cineasta como da escritora. A diretora constrói um universo perverso advindo do tempo que passa cronologicamente a cada semana da gestação, até chegar a nove semanas. Tempo este que vai se esgotando, até receber uma indicação de uma colega para procurar uma parteira de um subúrbio. O périplo angustiante da protagonista começa na cama da casa, uma espécie de clínica clandestina de fundo de quintal, passando pelos vasos sanitários do alojamento estudantil da faculdade até ser levada inconsciente para o hospital. O estômago do espectador embrulha por vezes, mas Diwan acompanha a personagem central com dignidade, posicionando a câmera de maneira bem próxima, num panorama com clímax angustiante, dá para ouvir a respiração ofegante que entra na alma para um olhar aterrorizante, tanto do espectador como da jovem.

A temática do drama é polêmica por retratar a decisão da interrupção da gravidez voluntariamente, que irá trazer uma notável contribuição ao cinema, em que já teve ótimas obras de forma semelhante. O tema por ser indigesto e controvertido fez furor com o cineasta romeno Cristian Mungiu em 4 Meses,3 Semanas e 2 Dias (2007), retratou em 1987, nos últimos dias do comunismo, duas jovens que dividem um quarto num dormitório estudantil, quando uma delas descobre que está grávida, mas o aborto é ilegal na Romênia. Consegue uma pessoa que irá fazer o procedimento, mas ao saber do estado adiantado, aumenta as exigências e cobra um preço que as colegas não estão preparadas para pagar. Eliza Hittman dirige com contundência Nunca, Raramente, Ás Vezes, Sempre (2020), sobre duas amigas e primas inseparáveis que viajam pela rural Pensilvânia (EUA), quando uma delas inesperadamente engravida, mas é confrontada com uma legislação conservadora, sem piedade de mulheres que tentam abortar. O realizador argentino Pablo Giorgelli também retrata de maneira crucial o longa Invisível (2017), para contar a história de uma garota de 17 anos que mora com a mãe, em um pequeno apartamento no bairro de La Boca. Descobre que está grávida de um homem bem mais velho, casado e seu chefe, onde terá uma difícil decisão: fazer ou não o aborto.

Um dos grandes méritos de Diwan é não deixa cair no melodrama fácil e apelativo. Deixa transcorrer com imparcialidade as situações intrincadas ingressarem como um amargor decorrente da tensão e da ansiedade se intercalarem lentamente, com a exposição visceral de um filme que mostra a dureza moralista de uma sociedade que se apropria nefastamente dos corpos das mulheres. São os elementos propulsores do enredo, num clímax bem engendrado e asfixiante da batalha claustrofóbica de uma mulher livre, mas ao mesmo tempo reclusa pela opinião pública, como visto recentemente no caso de uma atriz global que viu seu nome divulgado nas redes sociais, teve sua privacidade invadida e devastada sem piedade, por querer doar o recém-nascido fruto de estupro. Nos EUA, a Suprema Corte derrubou na última semana de junho deste ano uma decisão anterior que virou lei desde 1973, conhecida como Roe vs. Wade, que permitia a prática do aborto. Também na semana passada, uma menina de 11 anos, que foi estuprada em Santa Catarina, teve negada por uma juíza a interrupção da gravidez, obtendo em grau de recurso o direito de realizar tal prática permitida legalmente pelo Código Penal.

O Acontecimento é uma magnífica obra que transforma uma ácida história de um drama social de resistência e redenção da mulher, muito bem articulada num roteiro enxuto pela marca de uma diretora promissora na carreira, que cria uma digna realização humanista, com tintas dolorosas. Traz uma intensidade de uma narrativa pela ótica de uma mulher, para mesclar situações presentes com um futuro que tanto almejou a protagonista ao tentar driblar as adversidades. Apresenta uma invejável força de seu interior e uma resiliente capacidade emocional que quase se esvai, e quase se desequilibra, por estar angustiada pelos transtornos diante da iminência do rompimento com o amanhã e a probabilidade da perda desta batalha. Uma reflexão magistral sobre a condição humana feminina e sua meta de vida se fragilizando, embora tenha uma pujança feroz estimulante de ser livre e impor sua vontade de um futuro pela escolha pretendida da liberdade inegociável desta obsoleta realidade ainda existente ditada pelos conservadores e moralistas de plantão. Um filme imperdível.

terça-feira, 21 de junho de 2022

Está Tudo Bem

 

Direito de Morrer

Um dos mais aguardados lançamento do Festival Varilux de Cinema Francês de 2021 foi o controvertido Está Tudo Bem, com direção do producente François Ozon, nome constante em festivais como Cannes, Berlim e Veneza. O longa-metragem foi visto com algum entusiasmo pela crítica internacional no Festival de Cannes do ano passado. O cineasta tem em sua filmografia realizações com temáticas diversas, tais como O Refúgio (2009); Potiche-Esposa Troféu (2010); Dentro de Casa (2012); Jovem e Bela (2013); o premiado Frantz (2016), drama histórico que recebeu onze indicações ao Prêmio César, o Oscar da França, abocanhando a láurea de melhor fotografia, além da premiação de melhor jovem atriz no Festival de Veneza de 2016 para a linda Paula Beer; o magnífico O Amante Duplo (2017); e o polêmico Graças a Deus (2021), baseado em fatos reais ocorridos em Lyon, na França, no qual retratou de forma imparcial, nua e crua, a pedofilia escancarada na Igreja Católica, com denúncia de requintes psicológicos nefastos na sua mais pura essência, mesmo sem grandes pretensões estilísticas.

Ozon, agora, constrói um painel doloroso para contar uma amarga história sobre André (André Dussollier), o industrial de 85 anos de idade é acometido de um AVC irreversível que o deixa semiparalisado. Ele é um homem totalmente independente, homossexual, e apaixonado pela vida, porém está cansado da situação crítica de sua saúde cada vez mais debilitada, acaba por decidir que não quer mais continuar a viver sequelado e pede à sua filha Emmanuèle (Sophie Marceau), uma romancista realizada na sua vida privada e profissional, para ajudá-lo a terminar com esta agonia. Ela consulta e pede orientação à irmã, Pascale (Géraldine Pailhas), sobre a escolha em aceitar a vontade do pai ou convencê-lo a mudar de ideia. Convivem com a presença indesejada do suposto namorado do pai, que ronda constantemente o hospital, e as irmãs o chamam de “O Canalha”. A ex-esposa de André, mãe das duas mulheres indecisas, Claude (Charlotte Rampling), é uma escultora famosa que tem o Mal de Parkinson, parece não estar entendendo lucidamente o que está acontecendo. O realizador busca no cotidiano familiar a leveza de fatos pitorescos para diluir as emoções sentimentais da jornada dos personagens em cena que transitam do choro quase contido contrastando com aspectos irônicos da vida, porém o espectador assiste de maneira curiosa o desenrolar da trama contada com elegância e sem artifícios da comiseração alheia.

A temática é polêmica por retratar a decisão das filhas sobre direito de morrer do pai pelo método do suicídio assistido na Suíça, uma situação controvertida e bem atual como do ator Alain Delon que optou pela prática diferente da eutanásia ao exigir do paciente ingerir uma cápsula que contenha substância letal, prescrito por autoridades médicas, de maneira discernida e consentida expressamente, mas com o auxílio de terceiros. No longa, o protagonista inicia uma ampla mobilização para conseguir o direito à morte assistida numa clínica na Suíça, mas para isto precisará convencer totalmente as filhas relutantes. Uma profunda abordagem da escolha em continuar vivendo ou não, além de contar a história comovente e surpreendente de uma família em busca de entendimento acerca da existência e o desenlace pela morte com dignidade. Uma reivindicação feita por muitos pacientes, embora ainda seja um assunto tabu na França. O diretor, de forma admirável, não cai em armadilhas fáceis para fisgar o espectador com situações lacrimejantes, mas poderia pelas circunstâncias conduzir a trama para um filme menor com demagogias baratas, faz uma narrativa hábil com um propósito sério para uma realização madura e provocativa, afastando-se das tentações de pieguismos apelativos.

Tanto no suicídio assistido, como na eutanásia onde outra pessoa executa o pedido do paciente, geralmente através de uma injeção letal, eis uma boa contribuição do cinema para esta temática tabu e polêmica, com ótimas obras de abordagem idêntica. O tema por ser indigesto e contraditório fez Marco Bellocchio não se posicionar em A Bela Que Dorme (2012), deixa nas entrelinhas uma contrariedade implícita, possivelmente por não querer se incomodar com a igreja, tudo meio que implícito, completamente oposto a Alejandro Amenábar em Mar Adentro (2004), que aborda diretamente um homem que luta para ter o direito de pôr fim à sua própria vida. Lúcido e inteligente, luta na justiça para decidir sobre seu destino, o que lhe gera problemas religiosos, com a sociedade e até com os familiares. Michael Haneke em Amor (2012) instiga por destruir dogmas como a defesa de uma eutanásia abrupta redentora ao dar um soco no estômago do espectador, deixando-o meio grogue, mas ao mesmo tempo reflexivo sobre métodos de carinho, ternura e da defesa incondicional do amor eterno, retirando os véus dos bons costumes, dá um tapa na cara da morte, como fez o personagem central num ato de desabafo pelo desespero. Stéphane Brizé em Uma Primavera com Minha Mãe (2012) fustiga pela sua essência direta rasgando a alma do espectador numa amostragem sobre a morte e as consequências de seus vínculos e relações decorrentes de uma vida repleta de contratempos e solidão para uma decisão tomada com lucidez pela ausência de perspectiva para o ser humano.

Está Tudo Bem é uma realização sustentada de forma marcante ao retratar com leveza um tema árido e tão controvertido. Há ainda os instrumentos burocráticos de documentos, consultas, viagens, medicações e autorizações para atingir a finalidade desejada em meio a dores, tristezas, lembranças do passado das filhas, e o pai com a ideia fixa e intransigente. Antes, o paciente quer uma despedida de gala da vida que lhe foi tão boa. O roteiro minimiza a finitude, mas aponta a triste ironia de perceber que a opção do velho pai burguês, brincalhão, ranzinza, tirano, e, às vezes violento, passará deixando a vida que segue, como a do neto que se prepara para um recital musical. Um drama significante de uma proposta sincera e crucial para uma análise quanto às posições religiosas e da legalidade abordada na França e na Suíça. O grande mérito de Ozon é retratar com equidistância a polêmica do drama, especialmente a morte, numa narrativa com sutileza e boa dose de desprendimento equilibrado. Afasta-se dos horrores da perda melancólica definitiva, mantendo a lucidez e o desejo como fusão de maneiras dignas do indivíduo pelas suas escolhas. Arrebata com interessantes cenas, como a do jantar de despedida. Um filme maior pelo realismo cênico de um epílogo improvável em nossa realidade para refletir sobre a espera do ocaso sem volta, que cativa pela condução sem arroubos, num roteiro enxuto que aponta dogmas existentes dos defensores da vida a qualquer preço.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Tre Piani

 

Angústias Familiares

O festejado cineasta Nanni Moretti flutua entre os dramas familiares e filmes religiosos, políticos e sociais como O Crocodilo (2006), quando abordou o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que teve sua imagem abalada sem perdão, questionou a escolha do papa em Habemus Papam (2011) com boa dose de humor e ironia fina, ao discorrer sobre a eleição do Sumo Pontífice realizada entre os cardeais na escolha do vacilante Melville, como já o fizera em A Missa Acabou (1985), ao satirizar a igreja através de um complicado padre na periferia de Roma. Ganhou o Prêmio do Júri em Cannes com Mia Madre (2015), num retorno às origens de abordagens profundas sobre a morte e a forte sensação da perda pelas lembranças pretéritas, bem como o que poderia ter feito e não fez para quem partiu, quase um remorso instintivo dos que ficaram. Uma análise sincera e despojada das picuinhas que remanesceram da existência e sua complexidade, como fez no drama O Quarto do Filho (2001), possivelmente sua obra maior, sendo premiado com a Palma de Ouro em Cannes, na história do psicanalista residente em Ancona, tem dois filhos, até que uma tragédia o transtorna completamente, por deixar de acompanhar o filho à praia que morreu afogado. Moretti gosta de usar situações que vivenciou para incrementar suas realizações de cunho pessoal, assim foi em Caro Diário (1993), Aprile (1998) e Mia Madre, drama este que o faz relembrar a morte de sua própria mãe durante as filmagens de Habemus Papan.

Retorna agora em grande estilo no drama Tre Piani (em tradução livre significa Três Andares) ao retratar três famílias que vivem no mesmo condomínio de classe média alta, e suas vidas acabam ardilosamente se entrelaçando. No impactante prólogo, o jovem Andréa (Alessandro Sperduti) dirige o carro embriagado, atropela e mata um pedestre ao desviar para evitar bater em Monica (Alba Rohrwacher), uma gestante que estava indo para o hospital ao romper a bolsa. Está sempre sozinha, pois o marido vive viajando a trabalho, tem na filha a única companhia até surgir o cunhado, um vigarista simpático. A solidão faz com que ela imagine muitas coisas, o que a deixa ainda mais tensa porque pensa que pode ter herdado da mãe problemas mentais. Os pais de Andréa são os juízes Vittorio (Nanni Moretti) e Dora (Margherita Buy). A doce mãe quer ajudar o filho, mas o austero e inflexível pai não faz nada, por entender que ele é o culpado e terá que pagar pelo crime, numa espécie de reserva moral incorruptível. Na sequência, o rapaz acaba também batendo o carro no imóvel de Lucio (Riccardo Scamarcio) e sua esposa Sara (Elena Lietti), que tem uma filha pré-adolescente que frequenta a casa da vizinhança, pois seus pais estão sempre ocupados com seus afazeres profissionais. A garotinha chama o vizinho de avô, um idoso (Paolo Graziosi) com demência, que mora com a neta adolescente (Denise Tantucci). Porém, um inusitado incidente no parque desperta em Lucio a suspeita de que sua filha poderia ter sido abusada sexualmente, dúvida que irá persistir por quase toda sua vida.

O longa foi baseado no livro homônimo do escritor israelense Eshkol Nevo. O diretor, que escreveu o roteiro em parceria com Valia Santella, traz o cenário de Tel Aviv para Roma de maneira admirável, embora pudesse pelas circunstâncias conduzir a trama para um filme menor com demagogias baratas e lacrimejantes, mas habilmente foge das armadilhas piegas e faz uma obra espetacular com cenas marcantes, como dos casais dançando na rua. Cada um dos moradores do prédio, enquanto os anos passam pela narrativa que dá saltos de cinco em cinco anos, no qual todos terão suas vidas transformadas e irão avançar no tempo. As pessoas crescem, tanto na idade como em suas maneiras de vida através de mudanças de hábitos, para gradualmente buscarem um lampejo de paz, em alguns casos; estender o perdão para refazer as relações, em outros. Moretti é hábil ao apresentar o pai obcecado pelo suposto estupro de sua filha vulnerável, mas o mesmo acaba se envolvendo com a adolescente desmiolada. Passa com sensibilidade as agonias e devaneios à flor da pele com ingredientes delicados e demolidores até chegar ao epílogo transformador.

Neste grande mosaico construído por uma gama enorme de personagens em ciclos de amor e ódio, em que as histórias são de desencontros e aflições da vida no universo do cotidiano, com luzes de esperanças contrapondo com desesperanças, em muitas vezes. O medo do presente traz os fantasmas do passado que atormentam paulatinamente pelas recordações que fragilizam um futuro incerto povoado de temores pelas referências do destino ingrato. A solidão vem acompanhada pelas mazelas de um mundo conturbado que provoca um grande vazio existencial da maioria dos personagens em foco. Tre Piani é uma grande babel que resulta neste filme significativo de qualidade superior, que mostra com extrema profundidade os desencantos da humanidade através de uma abordagem madura, transparente e equilibrada pelo olhar atento do realizador sobres os dramas pessoais em que as desavenças acabam sendo retratadas pelas reveladoras imagens na busca do equilíbrio para o convívio harmonioso.

O cineasta traça com sutileza um retrato com realismo sem metáforas para tentar entender a subtração marcante daquelas famílias em seus microcosmos amargurados como decorrência da solidão e dos vínculos estremecidos em vias de ruínas. Dilacera e mergulha nos momentos conturbados do cotidiano carregado de problemas sociais e complexos oriundos de uma sociedade em desconstrução universal de seus habitantes, embora o desfecho traga um sopro de esperança e vida de continuidade e renascimento através da simbolização da criança. O diretor dá o recado ao mostrar a manutenção da herança infinita familiar de valores a serem seguidos, mesmo que num lugar quase que inacessível, mas em que a natureza propicia o reencontro com a vida e a dignidade como elementos sublimes e maiores da perseverança. A narrativa tem o naturalismo exposto como vísceras expostas da decadência humana intensa, embora bergmaniano na abordagem proposta como o envelhecimento, morte e solidão, além das superações diárias, tem na forma e na estética criativa os traços singulares da marca registrada do mestre italiano com seu estilo do controle preciso de tempo e intensidade com notável construção psicológica na complexidade dos personagens focados como conexões numa teia de aranha. Há perdas, culpa, arrependimentos, renovações e desajustes pelas decepções e sofrimentos familiares na essência da abordagem reflexiva deste drama estupendo.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Drive My Car

 

Culpa e Solidão

O mestre Alain Resnais em Vocês Ainda Não Viram Nada! (2011) fundiu teatro e cinema para realizar o último desejo de um famoso dramaturgo que morreu de repente e deixa uma mensagem num vídeo convidando seus melhores amigos para remontar livremente, em quatro atos, a peça Eurídice, escrita por Jean Anouilh, e o relacionamento conturbado com seu amante Orfeu. Na sua despedida, que ocorreu em alto nível, novamente aprontou positivamente com Amar, Beber e Cantar (2014), outra vez presta uma bela homenagem ao teatro como prova da estima do veterano diretor por essa arte, ao trazê-la para o cinema, dentro do seu contumaz formalismo. O cineasta japonês Ryüsuke Hamaguchi segue esta mesma estética de linha narrativa em Drive My Car, ao mesclar teatro com cinema numa perfeita estrutura cênica na montagem e edição de três horas de duração, que parece arrastado, mas é na lenta trajetória que o torna admirável e reflexivo, ao adaptar livremente para a telona em parceria com Takamasa Oe, um conto homônimo do livro Homens Sem Mulheres, de autoria do famoso escritor conterrâneo Haruki Murakami, lançado em 2015 no Brasil. Está em cartaz nos cinemas e na plataforma MUBI.

Drive My Car, justamente premiado como Melhor Filme Internacional no Oscar deste ano, também levou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes do ano passado, é um drama comovente, onde o teatro com sua formalidade estrutural cênica se faz presente na apresentação da remontagem da peça Tio Vânia, de um dos principais autores do Realismo russo Anton Tchekhov, que já havia chegado ao cinema pelas mãos de Andrei Konchalovski, em 1971, e pelo cultuado diretor francês Louis Malle com Tio Vânia em Nova Iorque (1994). Hamaguchi dá vazão para um mergulho no imaginário do espectador da sétima arte ao levar a peça para encenar em Hiroshima, não por acaso a cidade que foi destruída por uma bomba atômica lançada pelos EUA, e que agora se mostra renascida, é o mesmo cenário do clássico Hiroshima, Meu Amor (1959), de Resnais. Elogiáveis os magnéticos diálogos dos personagens teatrais com os do cinema até o inusitado desfecho fundido de peça com a realização pelo magistral monólogo elucidativo, que comove e impressiona de maneira original as duas plateias.

O realizador perturba os mais desatentos com as duas linguagens distintas e cria um ambiente psicológico de amor e ódio, alegria e tristeza entre os personagens envolvidos no magnífico enredo cinematográfico cativante pela sua singularidade, que se torna ficção no cenário das interpretações pela estética apurada com consistência no equilíbrio cênico que encontra sustentação no roteiro dinâmico para uma atmosfera que vem à tona com lucidez, bem alicerçada num molho saboroso desta vigorosa obra de cinema teatral. Aos poucos, os espectadores começam a se envolver no clímax pela proposta, diante das artimanhas que entram cautelosamente na encenação e vão tomando o espaço dos dois formidáveis cenários com bastante precisão para ser colocada a realidade de suas interpretações. Diante do luto pela morte prematura e a solidão são sentimentos complexos que atordoam os seres humanos e que são explorados com sensibilidade através de uma admirável delicadeza pelas diferentes formas alternativas da arte.

A história em foco, que tem um prólogo de mais de meia hora de encantamento do amor com o ingrediente da traição improvável, capta com sutileza, afastando-se de qualquer indicativo de pieguismo. Méritos para o realizador, que constrói um clima de dor dilacerante da perda que repassa ao espectador, além das frustrações decorrentes da vida, o resgate para um renascimento para continuar vivendo, sem abdicar da esperança e de alguma alegria no decorrer da trama. Com um elenco homogêneo e convincente, especialmente o desempenho do personagem que lida com a vida conjugal em risco até a perda impactante da esposa, Oto (Reika Kirishima), uma linda mulher, porém também uma roteirista com muitos segredos, com que divide sua vida, seu passado e sua prestimosa colaboração artística. Ela é casada com o personagem central Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima- de soberba atuação), um ator e diretor de sucesso no teatro que entra num período nebuloso de perturbação pela dúvida alucinante. Muitas perguntas ficaram sem respostas do relacionamento do casal que perdeu um filho, além do arrependimento de nunca ter conseguido compreender a companheira.

O cineasta dá um salto no roteiro de dois anos para estabelecer a profunda tristeza do enlutamento que se encontra o protagonista. Ele é convidado para dirigir uma peça no teatro de Hiroshima, onde lidará com a adaptação dos manuscritos de sua amada falecida, mas para isto terá que ceder ao pedido da produção, que condiciona ter que aceitar como motorista de seu majestoso automóvel a jovem Misaki Watari (Toko Miura- de desempenho impecável), com que dividirá suas angústias e dúvidas pretéritas durante o trajeto do hotel até os ensaios no teatro. Porém, logo surgirá um vínculo progressivo de uma especial relação amigável entre aqueles dois seres solitários que irão encontrar coragem para enfrentar o passado sequelado que deixa uma agonia latejante. O veículo, que substitui o divã, vira uma espécie de confessionário entre eles, com troca de mágoas, confissões, emoções reprimidas e causas devastadoras como resquícios anteriores povoados de fantasmas que se esgueiram pelas suas almas, mentes e corações atormentados pela culpa, como tendo que ouvir a gravação da interpretação das falas da peça para uma fuga exorcizante.

Um filme contemplativo das viagens para o interior de cada personagem com uma imensidão infinita de sentimentos abalados. Ambos estão presos a um passado, onde as amarras parecem não poder libertá-los, ou por consequência fazer entender de vez o destino traiçoeiro daqueles sentimentos doloridos. Somente os poucos gestos ou confissões, mas significativos para revelar as complexas dúvidas e a melancolia incrustada naqueles dois seres humanos que carregam muitas emoções reprimidas que assombram e reduz a capacidade de lucidez. Mas é significativo quando eles compartilham suas histórias marcantes de feridas abertas, mostram arrependimentos, para chegar até o abraço afetuoso e a conclusão da peça teatral como forma inequívoca de libertação para a paz interior diante da volta à arte para esquecer as mazelas pretéritas que rondam o presente, dar o mergulho em si mesmo para obter a redenção e o novo recomeço. Elementos intrínsecos não faltam para a construção psicológica e suas complexidades dos personagens focados nesta saga sobre perdas, danos, culpa, arrependimentos e renovações neste extraordinário drama familiar dos desajustes do amor até a solidão implacável pelas decepções e sofrimentos da existência na sua plena essência. Até agora, o melhor filme de 2022.

terça-feira, 22 de março de 2022

A Felicidade das Pequenas Coisas

 

Sonho e Realidade

Vem do Butão em coprodução com a China o sensível drama social A Felicidade das Pequenas Coisas (o título original seria Lunana, um Iaque na Sala de Aula), indicado ao Oscar e considerado um dos favoritos para abocanhar a estatueta de Melhor Filme InternacionalA direção é do estreante Pawo Choyning Dorji, de 38 anos, que também assina o enxuto roteiro. Ele é cineasta e fotógrafo butanês. O cenário é Lunana, distrito de Gasa, no noroeste do país, onde está localizada a "escola mais remota do mundo”. A maioria do elenco é de estreantes que moram na região e nunca saíram de lá. Butão tem a alcunha de ser “o país mais feliz mundo”, com uma população de 771 mil habitantes, está localizado no extremo leste do Himalaia, na Ásia, sendo conhecido por seus mosteiros, suas fortalezas e suas paisagens impressionantes que incluem desde planícies subtropicais até montanhas íngremes e vales. A Capital é Timbu e fica a 3.000 metros de altura, e seus habitantes usam roupas tradicionais no dia a dia, tendo o regime da monarquia constitucional exercido pelo rei que lá também faz o papel político e ainda governa o Estado.

A trama é uma realização minimalista sobre as descobertas do jovem professor relutante Ugyen Dorji (Sherab Dorji), que está terminando sua formação profissional, mas não tem nenhuma vocação para ensinar. Seu grande sonho é conseguir um visto para a Austrália, mas há uma enorme dificuldade burocrática para sair, o que só o desanima ainda mais a cruzar o país, diante do desejo inegociável de poder cantar e tocar violão nos bares de Sydney. Ele é enviado pelo governo ao longínquo vilarejo de Lunana, no topo de uma imensa montanha, com 56 moradores aproximadamente. Um lugar de pouca transitabilidade que só é possível chegar lá a pé, após uma semana de caminhada com alguma alternância de andar no lombo de cavalos cansados por trilhas nas matas virgens. Não há condições de qualquer outro tipo de transporte, como carro, por exemplo, que é desconhecido pela população. Quando chega a nevasca, a região fica inacessível e incomunicável por vários meses. Inexiste tecnologia para o uso de celular, internet, televisão e energia elétrica, sequer um quadro negro na precária escola para os alunos, nem uma bola para se jogar basquete ou outro esporte, além do péssimo estado do quarto que é destinado ao docente com janelas protegidas do frio com papel de arroz. O estrume do iaque, uma espécie de búfalo, com presença marcante em pequenos rebanhos, serve como combustão para acender o fogo.

O diretor dá ênfase no realismo pujante da comunidade e seu afeto e louvação aos educadores que perderam sua autoridade, pois lá ainda se acredita que “os professores tocam o futuro”, razão pela qual o protagonista é visto como uma celebridade e tem um tratamento privilegiado, tendo revelações constantes para perder o gelo da alma e colocar generosidade, amor e gratidão numa pessoa que vai ao iminente encontro da felicidade. O filme nos remete para o extraordinário drama similar do gênero Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir. O surgimento da jovem pastora Saldon (Kelden Lhano Gurung) que o conquista através de suas músicas pela bela voz que se esparrama na natureza para os possíveis espíritos que flutuam naqueles deslumbrantes vales montanhosos, além de presenteá-lo com um iaque que deve ser criado dentro da sala de aula, para ser protegido do frio, o animal irá dividir o espaço com os alunos. O sonho do personagem central vai sendo desconstruído com muita delicadeza e sensibilidade para o emocionante desfecho com um banho de humildade trazida dos ensinamentos de outrora, ao interpretar a canção já em Sydney, com mais de 5 milhões de pessoas, que aprendeu na aldeia. Até a metáfora do célebre educador brasileiro Paulo Freire se faz presente: “a educação se faz até debaixo de um pé de manga”. Todos vivem como se fossem uma grande família sob a batuta do chefe da aldeia e sua garra e obstinação para obter o melhor a todos. Embora haja algumas desestruturas, como o pai da encantadora menininha líder da turma de aula (Pem Zam), um alcoólatra inveterado e ausente no núcleo, fica acentuada a contextualização da vizinhança e seu cotidiano inerente com suas fraquezas, mas com um raro humanismo e solidariedade.

Com uma linda fotografia que capta com arte as cenas com imagens de paisagem exuberante das montanhas, traz sequências com grandes planos abertos de uma região vazia, porém mágica e envolvente, que será relevante para a narrativa que cresce com a evolução do enredo, embalada pela pontual e cativante trilha sonora. Uma obra que aborda de forma clara e inequívoca a educação como elemento primordial naquelas contradições de uma aldeia que refletem uma sociedade em ruínas, embora haja civilidade, ternura e amor. Mesmo que aparente um falso universo de paz nas relações humanas num contexto amargo pelas circunstâncias precárias, com poucas condições de dignidade para uma população humilde que recebe de braços abertos os indivíduos aparentemente frios, desconectados da família e da triste realidade que atinge a pureza daquelas crianças que vivem naquela natureza selvagem encravada nesta inóspita região.

A Felicidade das Pequenas Coisas tem um epílogo otimista e redentor, por ser instigante a saga do professor e seu encontro com o sentido da existência humana num filme seco, direto e com boa dose de sobriedade, sem grandes rodeios ou exercícios pirotécnicos, usando apenas a equilibrada dose de amargura mesclada com algum alento. Não há cenas de pieguismos, méritos para o cineasta que conduz com criatividade o espectador a acompanhar sem lamentar o destino dos desprivilegiados. É contagiante na essência cinematográfica pelo simbolismo do descaso com o ensino das crianças pela ausência de um vínculo de importância de seus governantes diante dos fatos que se sucedem numa atmosfera criada em torno daquele bucólico lugarejo com seus costumes cultuados que passam a fazer parte do cotidiano dos habitantes. O drama comove o espectador, fisga pela boa narrativa das idiossincrasias dos personagens envolvidos e suas más condições econômicas, ainda que sem atritos ou violência, que levam para um realismo social presente nas comunidades afastadas para ser refletido. Eis uma mini obra-prima que deverá estar entre os dez melhores filmes no final do ano.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A Noite do Fogo

 

Domínio do Cartel

A competente cineasta Tatiana Huezo, de 50, anos tem dupla nacionalidade, pois nasceu em El Salvador e atualmente reside no México onde se naturalizou. Iniciou a carreira com o premiado documentário El Lugar Más Pequeño (2011) que abordava a Guerra Civil Salvadorenha. Seguiu no mesmo gênero com A Aula Vazia (2015) e Tempestade (2016). Estreia na ficção com este potente drama social A Noite do Fogo (na Netflix), coproduzido com Alemanha, Brasil, Catar, Argentina e Suíça, tendo escrito o roteiro baseado no romance Reze Pelas Mulheres Roubadas, da escritora Jennifer Clement, publicado em 2014. Conquistou a Menção Especial na Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes e foi indicado para representar o México no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2022. A realizadora não se intimida e revela muita segurança ao abordar um tema pesado, complicado, tenso, e com grandes implicações econômicas em seu país e nos EUA por envolver o dominante cartel mexicano do narcotráfico e da corrupção. Há efeitos maléficos que deixam cicatrizes como marcas definitivas das mazelas nos personagens atingidos por uma nociva guerra suja entre poderosos que reflete em inocentes na disputa de territórios para dominar o mercado.

A trama gira em uma cidade pequena e solitária situada nas montanhas mexicanas, onde três pré-adolescentes brincam numa casa de uma família que fugiu. Às vezes, se vestem e se pintam como mulheres adultas, desconhecendo o perigo iminente que ronda o lugar. Enquanto isso, a magia, a alegria e o lado lúdico tentam se fortalecer naquele inóspito e impenetrável universo. As mães orientam como podem as três garotas para se protegerem dos grupos de sequestradores de meninas que atuam na região. A diretora faz bem ao contar de maneira delicada a história sob o prisma e o cândido olhar infantil daquelas crianças. A protagonista Ana (interpretada por Ana Cristina Ordóñez González na infância e Marya Membreño na adolescência) vive com sua mãe Rita (Mayra Batalla- de atuação arrebatadora), tem como suas melhores amigas Maria (Blanca Itzel Pérez-com lábio leporino- e Giselle Barreira Sánchez) e Paula (Camila Gaal e Alejandra Camacho). A diretora buscou atores/atrizes amadores para obter mais autenticidade, tendo como preparadora de um elenco infantojuvenil a brasileira Fátima Toledo, que também orientou com os mesmos recursos técnicos Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Katia Lund, nesta fascinante temática da infância à deriva no meio da criminalidade.

O drama reflete a ingenuidade das meninas que não compreendem e nem desconfiam os reais motivos que fizeram algumas mães ardilosamente cortarem os cabelos ao melhor estilo curto masculino. É comovedora a determinação da genitora de Ana para que a filha escavasse um buraco na terra em formato de um abrigo subterrâneo, como se fosse um bunker para esconder-se quando o perigo fosse iminente pelos homens fortemente armados na busca de ninfetas para raptá-las. O intuito único é comercializar as meninas para a prostituição, diante das evidências que existem dos desaparecimentos constatados, e de uma jovem que apareceu morta na mata. O treinamento dado à filha no bosque para entender e ouvir os sons de humanos e animais emitidos bem distantes é uma esperança e uma das poucas e eficientes armas bem utilizadas pelos nativos, bem como as cores decoradas para identificar a cobra coral. A defesa ferrenha da prole reflete o ponto de vista maternal na imaginativa e enternecedora proteção pelo ataque furioso do cartel que controla o povoado. Neste meio tempo, há os momentos pueris de descoberta da primeira menstruação e a candidez do amor platônico pelo professor, com as recorrentes confidências do trio de amigas.

A Noite do Fogo é um retrato fiel das fissuras sociais abertas pelas suas complexidades no México criadas pelo tráfico, na qual se busca um espaço para chegar ao poder, envolvendo diretamente as políticas governamentais. A violência extremada e explícita é o cartão de visita destes grupos do narcotráfico, provocando o horror constante, como já foi muito bem abordado em filmes da mesma temática sobre o cartel mexicano, entre os mais vigorosos estão Sicário- Terra de Ninguém (2015), de Denis Villeneuve, numa realidade de barbárie da divisa dos EUA com o México, com cercas de arames como se fosse uma guerra entre os dois países, expondo as vísceras de uma situação traumática dos excluídos da sociedade, pelo prisma da CIA, que prepara uma audaciosa operação para deter o grande líder de drogas na fronteira. Segue na mesma esteira o excelente Heli (2013), do espanhol Amat Escalante, na denúncia de um país envolvido num clima nebuloso e catastrófico sob o ponto de vista do comércio ilegal e da corrupção ativa, em que o realizador intencionalmente provoca mal-estar no espectador, decorrente da violência explícita da história. Tem ainda o comedido La Playa (2012), do colombiano Juan Andrés Arango Garcia, sob um contexto humano naquele cenário de uma cidade violenta, num retrato sombrio de um país em ebulição, em que o tráfico também se faz presente.

A triste e dolorosa sina de uma realidade de barbárie que expõe uma situação caótica pelo abalo constante dos habitantes que estão sozinhos nessa árdua luta contra as forças do tráfico. Até mesmo o exército consegue enfrentar o temido cartel, enquanto isto a própria polícia dá suporte por estar em conluio com os criminosos. Os moradores do povoado para sobrevierem trabalham para uma facção daquele lugar com o pagamento correspondente a uma pífia ajuda de custo nos campos de plantação de papoulas na qual a flor produz a seiva que serve de matéria-prima para a fabricação de heroína e outros opiáceos. Porém, vivem sob o domínio diário do medo aterrorizante, inclusive os professores são ameaçados e desistem de dar aulas. A inevitável catarse trágica está anunciada, como parafraseando Gabriel García Márquez, em sua obra Crônica de Uma Morte Anunciada, no clímax de tom dramático que chega de maneira devastadora, como se arrebentasse uma grande guerra com barricadas nas ruas que contrapõe com os prazeres da infância, pré-adolescência e adolescência neste conflitado ambiente. Há se ressaltar a bela analogia do resistente professor no desfecho ao divulgar tese da cadeira virada para algum aluno se sentar, instigando pela luta de seus direitos de cidadãos numa narrativa que vai do delicado ao intenso pela explosão na épica noite para a sobrevivência. Transita da estupidez humana irracional para o grito de liberdade das amarras neste drama imperdível para quem aprecia singularidades com ênfase neste painel delirante.