Sombras da Ditadura
O aclamado cineasta brasileiro Walter Salles, numa produção
dos EUA, França e Grã-Bretanha, através do cineasta e produtor Francis Ford
Copolla, que em 1979, adquiriu os direitos legais para adaptar o best-seller de
Jack Kerouac On The Road, de 1957,
foi levado pela primeira vez às telas do cinema com o título Na Estrada (2012), sua última grande
realização. Recriou de forma elegante a saga da contracultura dos jovens
perdidos no mundo do pós-guerra, deixando nítidos os reflexos violentos do
período da Grande Depressão norte-americana de 1929. Antes, dirigiu Linha de Passe (2008), Diários de Motocicleta (2003), Abril Despedaçado (2001) e Central do Brasil (1998), até então sua
obra absoluta. Agora, Salles dá seu maior salto na carreira e atinge o ápice
com Ainda Estou Aqui, uma adaptação
do livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, pelos roteiristas Murilo
Hauser e Heitor Lorega, ao narrar a emocionante saga da mãe do escritor, Eunice
Paiva, durante a ditadura militar no Brasil, ambientada em 1970. A realização coproduzida
com a França foi indicada para representar o Brasil na categoria de Melhor
Filme Internacional no Oscar de 2025.
A trama conta a história que se
passa na casa da família do engenheiro, importante político e ex-deputado
federal Rubens (Selton Mello- sempre sóbrio e irrepreensível) e sua esposa, Eunice
(Fernanda Torres- em atuação antológica, certamente numa das maiores já vistas
no cinema nacional, carrega o filme com uma desenvoltura soberba), uma mulher
destemida, gigante na altivez, empoderada e com muita fibra, na companhia dos
cinco filhos do casal. Aparentemente era uma pessoa comum, que teve de mudar
drasticamente seu comportamento logo após o desaparecimento do marido, levado
da residência para supostamente prestar alguns esclarecimentos sobre o sequestro
do embaixador suíço no auge do regime de exceção, acusado de conspirar contra o
governo. Salles conduz a trama com segurança e energia, deixando transparecer
sempre sobra de fôlego com um estilo próprio de uma insustentável leveza
narrativa para golpear o espectador no âmago de seu imaginário. Uma obra com
ausência de violência explícita e com uma perspicaz criação de terror
psicológico, sem abusar ou desbordar para o melodrama maniqueísta que pudesse
levar facilmente às lágrimas. Pode levar a náuseas pelo impacto auditivo e
sensitivo dos gritos dos presos sendo torturados, mas com sutileza e finesse,
que só um criativo artesão poderia conseguir tal resultado.
Tudo é fruto de uma boa estrutura
para uma dramaticidade equilibrada e sem sensacionalismos, mas com um apreciável
tecnicismo para evitar os arroubos de grandes cenários, numa história contada
com sensibilidade e uma profunda visão sobre a ditadura sobrepondo os efeitos
da liberdade democrática. Há um domínio excelente dos planos e contraplanos de
cenas, aproximando sempre a câmera nos rostos dos personagens para captar toda
a emoção e a dor dilacerante, tanto da esposa como dos filhos, mas sem utilizar
métodos apelativos baratos. Forçada a abandonar sua rotina de dona de casa, a resiliente
mãe e mulher se transforma em uma ativista dos direitos humanos e dos indígenas,
lutando pela verdade sobre o paradeiro do companheiro ao enfrentar as
consequências brutais da repressão dos duros anos de chumbo. O filme não se
resume em retratar somente um drama familiar, mas principalmente o impacto do
regime militar na vida de milhares de famílias brasileiras na mesma situação, com
uma distinção especial para a força feminina na espinhosa e terrível empreitada
da resistência diante das questões de perdas, mas sem abstrair a coragem e a
dignidade.
Salles revisita um dos períodos
mais sombrios da história brasileira, mergulhando nos fétidos porões escuros e
abjetos de uma época a ser lembrada para mostrar as feridas abertas de
fantasmas que ainda pululam como lembranças nefastas. Um tributo à força da
magnitude de uma mulher poderosa pela sua energia sólida para manter a família
de pé, mesmo com sorrisos e poses emblemáticos pela ironia, sem nunca se abater
ou vitimizar por todas as adversidades atrozes de um regime sanguinário. Um
hino à democracia na luta pelos direitos esfacelados, tendo como simbologia o
desaparecimento para sempre de um opositor ao sistema truculento com resultados
nefandos. Uma viagem existencial recheada de dor, melancolia e rumos irrefreados
de um universo incerto pelos dogmas com normas totalitárias preocupadas com os
ditames estabelecidos por uma sociedade avessa aos diálogos civilizados, sendo
sempre conveniente lembrar as atrocidades contra um cidadão sequestrado por agentes
do governo, sem deixar vestígios e provas.
Eunice é determinada e quer manter
o bem-estar de seus filhos ao buscar respostas que sempre vieram com evasivas.
Tenta subverter as angústias da ausência incômoda antecedida pelos momentos de
alegria e felicidade do microcosmo familiar nas belas praias carioca
ensolaradas. Os namoros das filhas, o cachorrinho achado pelo filho menor, tudo
regado com brincadeiras nostálgicas de um pai amoroso naquela casa sempre aberta,
com o sol iluminando e motivando um cotidiano idílico, depois aniquilado pela
força bruta, na qual as janelas e portas se fecharão para sempre, deixando a
escuridão claustrofóbica, metáfora da tirania, invadir e se perpetuar como um
elemento intimidador. O novo momento retornará no desfecho, agora em São Paulo,
mas os acontecimentos abordados irão voltar à tona, mesmo que dezenas de anos
depois para apontar uma resposta sem elucidação, exceto uma minguada vitória
amarga e contraditória como da obtenção da certidão de óbito. É preciso
continuar vivendo como um lema protocolar, sem extrair jamais a tristeza, pois a
crueldade de sobreviver sem saber o que aconteceu se faz necessário para uma
mãe acuada, perseguida e torturada psicologicamente, sem direito algum de se
despedir. Há uma pergunta de um filho sobre qual é a hora de enterrar uma
pessoa na própria memória? Cada um tem no imaginário uma solução pragmática,
mas desprovida de uma realidade absoluta.
Embora haja uma linha autoral em sua estética, há similitude
em conteúdo e proposta com o instigante Marighella
(2019), de Wagner Moura, 52 anos após o assassinato do revolucionário baiano,
neto de escravos, sobre as violentas ações e reações impostas em 1964; o extraordinário
Pra Frente Brasil (1982), de Roberto
Farias; e o sequestro do embaixador dos EUA no filme O Que É Isso, Companheiro? (1997), de Bruno Barreto, baseado no livro
do jornalista Fernando Gabeira. Ainda
Estou Aqui indica as atrocidades marcantes no enredo, com o objetivo de
alertar o espectador, principalmente os jovens que não viveram aquele período
de exceção, e o futuro incerto de todos carregados pela intolerância política,
ao colocar em lados opostos membros da família brasileira. Contém densidade
sobre um ciclo manchado de sangue por um sistema opressor, em que a
reconstrução das vidas pela perda decorre do devastador estigma golpista. Cartas
e recordações estão presentes em um cenário sinistro, embora a família tenha se
multiplicado ao longo da história, deixando o abismo do vazio em segundo plano
para seguir em frente, mas a agonia e o emocional fragilizado dos filhos e mãe
estarão sempre juntos. A protagonista retorna no desfecho, já com a saúde
debilitada pelo Mal de Alzheimer, na qual Fernanda Montenegro entra em cena,
sem dizer uma palavra, mas se expressa pelo olhar, para coexistir seus últimos
dias com os filhos adultos e alguns netos, num recorte da própria memória. Um
marcante registro histórico do pior período político brasileiro contemporâneo. Significativo
e relevante por seus aspectos em um regime vergado da democracia para o estado totalitário,
sob o manto do autoritarismo nesta obra-prima de Walter Salles.