segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A Outra Mulher



Fantasias Amorosas

A indústria cinematográfica da França não é uma especialista do gênero comédias, tendo nos dramas seu forte, principalmente quando há conotações sociais ou abordagens sobre as relações humanas, os contrastes do amor e o existencialismo como temáticas aprofundadas. O longa-metragem A Outra Mulher é uma exceção à regra da comédia de costumes, com apimentados ingredientes de romantismo em dosagem bem comportada sobre as convivências amorosas e a fértil criação de um instável homem de meia-idade apaixonado pela esposa que se deslumbra com a namorada de seu melhor amigo. Cria-se uma atmosfera invejável e propícia para traições e fantasias em tom de drama conjugal com sabor agridoce em cenários paradisíacos, no qual os devaneios intensos vêm à tona e fisgam o espectador durante o desenrolar da história, dirigida por Daniel Auteuil, com adaptação da obra original de uma peça teatral escrita por Florian Zeller, responsável pelo enxuto roteiro.

A trama gira em torno de Daniel (Daniel Auteuil), um editor de livros reconhecido pelo seu poder inventivo acentuado que quase entra em transe ao receber em sua casa para um jantar o grande comparsa recém-separado, Patrick (Gérard Depardieu), acompanhado de sua nova conquista, a estonteante e bela Emma (Adriana Ugarte), uma aspirante à carreira de atriz de teatro, vestida de vermelho com o magnetismo de olhares de malícia. Antes, teve que fazer vários rodeios para convencer a esposa, Isabelle (Sandrine Kiberlain), muito amiga da ex-mulher de Patrick, para a turbulenta recepção. Embora tivesse um matrimônio quase perfeito, tendo em vista a perda do interesse de outrora pela companheira e o tédio reinante do trabalho, o protagonista não consegue escapar da tentação carnal dando asas à concepção exacerbada, ao deixar a ética e a cautela de lado, envolve-se numa viagem delirante para a realização dos prazeres libidinosos com elucubrações sexuais enlouquecidas, deixando todos perplexos e agoniados diante de situações inverossímeis de alucinações que perturbam sua mente e são colocadas em xeque.

Os amores com ciúmes como consequência e, em alguns casos, a traição como um elemento de discórdia prepondera nos temas sempre presentes no cinema francês. O mestre François Truffaut obteve resultados magníficos com Jules e Jim (1961) e A Mulher do Lado (1981), assim como o festejado Claude Chabrol retratou com eficácia em Ciúme- O Inferno do Amor Possessivo (1994). Da Finlândia veio outro ótimo filme O Ciúme Mora ao Lado (2009), dirigido por Mika Kaurismäki. As realizações de Philippe Garrel O Ciúme (2013) e O Amante de Um Dia (2017) também manteve a tradição de boas obras sobre a temática recorrente e indispensável para um bom contingente de espectadores fiéis. Auteuil, que estreou na direção com A Filha do Pai (2011), neste segundo longa por trás das câmeras, dá seguimento nestas abordagens, embora bem menores, são inequívocas circunstâncias da alma e do coração, no qual não falta o amor com ardor e dor, a angústia e o prazer entrelaçados, que são criados através de momentos de pura beleza como uma poesia dentro de uma proposta aparentemente simples, na qual está presente o objeto fundamental do estado emocional complexo envolvente de um sentimento provocado em relação ao medo iminente da perda (mais que a própria morte) da pessoa amada.

Importante destacar a primorosa fotografia, o coeso e consistente elenco de atores e atrizes que impressionam pelos desempenhos sem reparos do quarteto, que dão o equilíbrio exato nesta trama bem urdida, aparentemente simples, mas com méritos na conotação sobre as fragilidades dos homens e suas fantasias, seus arrependimentos pelo prazer volúvel, os encantos juvenis na idade já madura, retratados com sutileza e bom alcance de sensibilidade. O cineasta disseca por uma lúcida reflexão os atritos das relações surgidas no cotidiano amoroso em toda sua extensão com os prazeres sexuais e os vínculos afetivos decorrentes. A solidão, o abandono, a iminência da terceira idade e a traição estão presentes nos personagens envolvidos que representam os papéis da vida no dia a dia da ficção mesclada com realidade, da dúvida sempre entrelaçados no realismo lançado dentro de uma verdade inafastável e onipresente na vida masculina do macho alfa com seus vacilos inerentes pela precariedade da incerteza do amanhã, como simbologia da existência e sua finitude, além dos descompassos que levam à procura da essência do amor e do prazer pelo instinto.

A Outra Mulher é um filme que deixa rastros pelo caminho que levam para a aleivosia, o rompimento e a reconciliação de um outro personagem mergulhado na solidão, além das idas e vindas nas relações conturbadas. Há simplicidade com alguma profundidade nos romances desfeitos e refeitos, o que dá realismo e alma à trama. Não há propriamente culpados apontados pelo diretor, exceto as fragilidades masculinas, diante das escolhas e as consequências que os personagens terão que enfrentar. A fuga e a espera pelos conciliamentos aguardados e desejados advindos de uma grande paixão. A infidelidade fugaz no prazer sexual como válvula de escape sem vinculação afetiva é contextualizada para uma reflexão sem preconceitos ou moralismos baratos, vistos como personagens vitimados pelo amor sem fronteiras. O cineasta cria imagens fabulosas nos passeios pelas ruas de Paris e nas gôndolas de Veneza, até o desfecho pouco inspirado, numa narrativa sobre as fantasias e fetiches, traições e reconstrução familiar, desta surpreendente comédia leve pela narrativa com ausência de arrebatamentos prolixos, mas com sentimentos enaltecedores da força e do papel importante da mulher em tempos de igualdade e conquistas universais, sem margem para retrocessos.