Relações Familiares
O diretor e roteirista dinamarquês-norueguês Joachim Trier é conhecido por seus dramas intimistas, com meditações sobre identidade, memória e família, na trilogia Reprise (2006), Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021). Primo distante do cultuado cineasta dinamarquês Lars von Trier. Está de volta com um dos filmes mais exaltados nos últimos anos, seu mais recente longa-metragem, Valor Sentimental, uma coprodução da Noruega com França, Dinamarca, Suécia e Alemanha, tendo escrito o roteiro em parceria com Eskil Vogt. Aclamado pela crítica e o público, foi destaque no Globo de Ouro deste ano, com o ator Stellan Skarsgärd, ganhador do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, por sua atuação extremamente versátil, que entrega com méritos, tanto mocinhos, quanto personagens de caráter duvidosos, mas principalmente vilões, como em Millleniun- Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2011), de David Fincher. Recebeu nove indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme, Filme Internacional (representante da Noruega), Direção, Atriz (Renate Reinsve), Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgärd), Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas), Roteiro Original e Montagem. Conquistou seis prêmios no mês passado, na 38ª. edição do European Film Awards em Berlim: Melhor Filme, Direção, Atriz (Renate Reinsve), Ator (Stellan Skarsgård), Roteiro e Trilha Sonora. Ganhou ainda o Grand Prix no Festival de Cannes de 2025, sendo ovacionado por quase vinte minutos em aplausos.
A trama retrata a reconexão de um veterano cineasta com suas filhas em um microcosmo completamente desintegrado por conflitos internos, que acaba sendo transformado ao passar por uma rotina pouco habitual na qual viviam. Um drama familiar na pura essência cinematográfica, passando pelos problemas de relacionamentos advindos de um passado oculto e nada revelador. Intenso, sutil, dolorido, com tintas fortes de melancolia e feridas abertas complexas que se estendem por anos de uma relação nebulosa. Capta a grande solidão de seus membros como elementos propulsores de uma sociedade moderna sem rumo, pelo deleite do realizador bergmaniano na narrativa em atmosfera densa, que tem sua marca registrada na qualidade estética e estrutural. Mostra personagens perdidos na selva humana que tentam fugir dos seus demônios. O relacionamento conturbado entre o carismático pai, Gustav (Stellan Skarsgärd), sem ser vilão, que tenta uma aproximação com as filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). O laço paternal é frágil pelo distanciamento do renomado diretor de cinema com sua prole, que decide retornar aos holofotes com um projeto pessoal ousado e valioso para sua próxima, e possivelmente, a mais importante realização de sua vida.
Trier aborda as cicatrizes pretéritas se abrindo, quando o pai oferece à filha Nora o papel principal da trama, uma atriz de teatro com talento indiscutível, apesar de suas inseguranças psicológicas vindas da infância e dos traumas pela perda da mãe muito cedo, e da ausência paternal constante. Ao se recusar interpretar a personagem principal oferecida diante da péssima relação entre eles, o pai busca alternativa numa jovem estrela em ascensão de Hollywood. O clima hostil se estabelece, rapidamente Rachel Kemp (Elle Fanning) percebe que entrou numa fria, fora e dentro das telas. Enquanto isto, as irmãs lidam com seus artifícios próprios, mas a relação permanece mais complicada com Gustav, que demonstra já estar com a saúde debilitada, e tendo a atriz substituta naquele eixo dinâmico na complexa situação familiar e profissional disfuncional. Enfrenta o próprio colapso enquanto lida com os problemas inerentes do dia a dia. Os personagens possuem vidas distintas e estão divorciados da vivência em comum, sem interesse no que cada um faz, numa relação individualista, de raro afeto. Aos poucos vão revelando suas emoções subtraídas, deixando as verdades da infância e da adolescência virem à tona. Há uma busca para uma nova fase para aqueles indivíduos desunidos e perdidos em suas existências, mas que gradativamente vai mudando a forma de entender e ver o presente.
A obra é intimista sobre as fragilidades e a presença invisível das relações fraturadas no contexto da desintegração silenciosa de um pai esgotado com algumas soluções para se reconectar com as filhas, tendo em vista o abismo da solidão e do minguado vínculo emocional. As jovens distantes flutuam numa rotina sem carinho, dedicação e amor paterno. A perspectiva de seu novo e derradeiro filme surge com uma luz pequena no fim do túnel para uma reaproximação de personagens à deriva numa rotina comprometida na conexão com um mundo marcado pelo distanciamento sombrio, quase sem saída, como se estivessem paradoxalmente todos presos dentro de um ambiente claustrofóbico a céu aberto. Um retrato estonteante do comportamento humano dos familiares que são estranhos entre si e se encontram fortuitamente. Descobrem aleatoriamente afinidades como a vida dos isolados numa antiga casa suntuosa que aponta ausências, saudades e medos nas buscas interpessoais e seus desejos complexos. A obra impressiona tanto pela abordagem familiar desestruturada como pela mudança do roteiro que perpassa do cinema convencional para entrar no realismo de uma ficção que está sendo criada no novo filme para mexer no imaginário de mentes e corações. Tanto dos personagens como do espectador, quando os fantasmas recorrentes do suicídio retornam como lembranças sensoriais marcantes até a última cena. Brota como uma grande redenção e um suspiro de alívio no set de filmagem, quando a avó e o neto se abraçam.
A desconfiança da realidade emerge e ilumina não apenas nos espaços das filmagens, mas nos pensamento que se tornaram confortáveis através de uma história precisa pelos elementos psicológicos construídos no enredo que aponta uma amargura familiar. Há uma inspiração genuína para as vidas dos seres humanos dentro de uma engrenagem tristonha e exausta. Como um discípulo fiel de Ingmar Bergman, pelas inquietações do cineasta da alma que mergulhava profundamente na angústia, solidão, velhice e morte, Trier reverencia com passagens valiosas seu longa ao buscar inspiração na inesgotável fonte do mestre, como Morangos Silvestres (1957), Persona (1966), Gritos e Sussurros (1972) e A Flauta Mágica (1974), clássicos memoráveis sobre o existencialismo. Eis a materialização da distância entre o núcleo familiar com a criação do universo da ficção, distante da realidade, simbolizado pelo convite feito a uma atriz estrangeira intrusa. Porém a reconstituição para dar uma forma autêntica é exaltada no desfecho que humaniza e celebra o amor fraternal e impositivo de um cinema permanente nesta obra-prima que dignifica a sétima arte inventada pelos irmãos vanguardista Lumière e, sem esquecer, o sonhador e ilusionista George Méliès, que lançou as bases para a ficção com truques, da montagem e do corte. Há outra clara declaração de amor ao cinema e à arte no epílogo, que remete ao inesquecível drama A Noite Americana (1973), do genial François Truffaut. Trier pensa no cinema como mecanismo de magia do mundo, o que é louvável. Exuberante nas imagens e na interpretação para todas as evidências lançadas como provocação. Deixa fluir a história para reflexão que irá se incrustando aos poucos em nossa alma, coração e espírito. Propõe uma meditação vigorosa do existencialismo e seus reflexos sutis com o olhar humanista que transcende e exorbita para o universo da fantasia. Valor Sentimental fascina como soluções que perturbam nossa realidade. Sobra sensibilidade para um mergulho sobre o sentido da vida e as questões dentro de uma relação de circunstâncias que acompanham os fatos com surpreendente equilíbrio emocional.









