Noite de Agonia
A Voz de Hind Rajab representa a Tunísia, coproduzida com a França, na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar deste ano e vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2025, sendo aplaudido por ininterruptos 22 minutos. Um surpreendente docudrama com tintas contidas de suspense psicológico, embora com duração de 89 minutos que passa rápido, mas parece durar uma eternidade pela agonia que a obra passa para o espectador. Tem uma invejável produção executiva com nomes renomados, entre os quais estão os atores Brad Pitt, Joaquin Phoenix e Spike Lee, a atriz Rooney Mara e os diretores Jonathan Glazer e Alfonso Cuarón. Dirigido por Kaouther Ben Hania, uma cineasta e roteirista tunisiana de 48 anos. Indicada ao Oscar na edição de 2021 pelo filme O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020), tendo em sua filmografia O Agressor de Túnis (2014), A Bela e Os Cães (2017) e As 4 Filhas de Olfa (2023), vencedor do prêmio Golden Eye de Documentário no Festival de Cannes, e ainda disputou o Oscar 2024 na categoria de melhor documentário em longa-metragem.
Na trama do filme, apenas é usada a voz da menininha Hind Rajab de 6 anos pelas ligações de áudio originais feitas para o serviço de emergência palestino, sem a presença de uma atriz para interpretá-la, para dar maior autenticidade e uma respeitosa ética à vitima, que só é mostrada por uma foto. Construído em um painel angustiante de tirar o fôlego por meio do pedido de socorro, metáfora de um povo encurralado. Primeiro de um familiar, depois pelo clamor suplicante e desesperado com sons ao fundo de rajadas de metralhadora vindos pelo celular. Ambientado na guerra ocorrida em Gaza, há uma tentativa de fuga do local da garotinha escondida dentro do carro de um tio, presa após o veículo começar a pegar fogo, diante do massacre efetuado pelos soldados israelenses a civis desprotegidos. A saga trágica durou três horas no telefone com os voluntários do Crescente Vermelho, uma organização humanitária que atua na Cisjordânia, na Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza: Omar (Motaz Malhees), o mais indignado e sanguíneo de todos, quer o resgate dos paramédicos a qualquer preço; Rana (Saja Kilani) é uma supervisora doce e emotiva que nunca perde a esperança, entre soluços e lágrimas; Nisreen (Clara Khoury) é a terapeuta centrada com palavras de consolo; Mahdi (Amer Hlehel) é o chefe da equipe, cauteloso e por vezes até demais, parece frio, mas nunca usa o coração, sempre a razão.
O longa faz uma dramatização dos acontecimentos com a súplica por socorro, bem como reporta as frustradas tentativas da ajuda humanitária para retirar a criança do meio daquele caos de ataques iminentes. Diante de uma enxurrada de denúncias, o tema é abordado ao chocar o mundo, principalmente pela falta de acesso das ambulâncias que poderiam ter salvado milhares de vidas nesta iluminada obra de humanismo e delicadeza, que questiona os elementos de moral, justiça e ética nos campos de batalhas. Não são raras as burocracias inerentes ao sistema de ajuda, o que fica claro pela controversa atuação do chefe com os representantes de Israel. Ele tem que resolver tudo sem sair do local em que está instalado. Há algumas lacunas preenchidas apenas pela imaginação com decisões que poderão ser precipitadas, por falta de maior informação da zona conflitada, que devem ser solucionados em questão de minutos para o deslocamento até o local, tendo em vista que a noite surge e aterroriza ainda mais a personagem central fragilizada. São encontradas resistências pela respectiva área de competência e atuação em razão dos limites para se evitar que haja ainda mais inocentes mortos, como os próprios paramédicos.
O docudrama dá vazão para o imaginário do espectador, tendo em vista os efeitos sensoriais causados pela narrativa com o viés dos diálogos tensos e arrebatadores. Há um pedido entrecortado por ligações desligadas abruptamente entre os voluntários com a menina acuada pela emboscada das tropas israelenses sedentas em matar. Tudo é muito rápido e a situação de risco para descobrir onde ela está exatamente é iminente diante da corrida contra o tempo que voa. A grande mobilização da resistente equipe de voluntários para salvá-la e evitar a tragédia anunciada, tira o espectador da zona de conforto, deixando-o atônito para acompanhar em alta dose de expectativa o desenlace da história, na tentativa de desvendar os caminhos para o resgate em tempo real fragmentadas pela ruptura da dor de todos que assistem e torcem. Desencadeia num episódio como elemento profundo de uma situação caótica marcada pela violência da guerra, através da sonoridade impactante dos tiros sem imagens, para soluções reveladoras do sofrimento pelos enigmas da responsabilidade de povos conflitados pela precipitação e a punição de inocentes com traumas psicológicos mentais arrasadores.
O limite estabelecido pela diretora é perceptível pelas ligações entre os atendentes e a garota em crise naquele cenário único e claustrofóbico do interior do veículo em chamas, com a capacidade de sugerir imagens sem mostrá-las numa realização minimalista, embora repetitivo não é tedioso por ser bem explorado os diversos ângulos da narrativa de ritmo beirando o alucinante pelos diálogos com repetições e incertezas da linguagem oral, concomitante com os ruídos de explosões, mapas no computador apontando as setas de localização. Em meio a tudo isto, o chefe parece ou simula estar completamente distante e alheio da aflição exterior que está fervendo nos ouvidos dos colegas e dos espectadores. O filme de Hania tem aproximação com o suspense Culpa (2018), do estreante sueco Gustav Möller, que retratava um painel curioso de tirar o fôlego pelos relatos de vozes desesperadas de pessoas pedindo socorro por telefone, no qual há trotes enviados à central de atendimentos de urgência, até surgir um pedido verdadeiro de uma mulher em prantos tentando comunicar o seu sequestro. Tem também similitudes com Chaga de Fogo (1951), de William Wyler e Uma Vida em Suspense (1965), de Sidney Pollak.
Eis uma realização densa, em que há o clímax do desfecho de raiva, dor e derrota pelas circunstâncias da irracionalidade, já prenunciada em cenas anteriores com a imposição das injustiças cometidas pelo sistema arcaico que prima pela falta de reuniões elucidativas. Há um duelo de poderes a serem decifrados entre a truculência do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, que assumiu o cargo em dezembro de 2022, em seu sexto mandato, e o grupo terrorista palestino Hamas em confronto permanente e doentio dos envolvidos, principalmente de que tem o maior poder bélico do Oriente Médio. Um filme com todos os requintes para transitar do tom dramático ao suspense sensitivo da sutileza magistral no epílogo de um silêncio sepulcral. Osmar quer sair para a rua, pegar uma ambulância e libertar a Hind, mas as ordens superiores são contrárias para tal atitude, que simboliza a injustiça refletindo na materialização pelas consequências nefastas que remanescem com tintas de uma violência pontual. A falta da valorização de diálogos num contexto sombrio de um cotidiano desumano em mais um episódio de uma das maiores crises humanitárias das últimas décadas, também mostrada no documentário Sem Chão (2024), pelo olhar de um coletivo dos cineastas e ativistas palestinos-israelenses Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor. Ainda que haja ausência do gênero melodrama apelativo no enredo para escapar das armadilhas do maniqueísmo, fica difícil segurar a lágrima que escorre pelo rosto neste comovente e histórico relato baseado em um fato real, na interminável disputa pela Faixa de Gaza, negada ao povo da Palestina.









