terça-feira, 14 de setembro de 2021

Bagdá Vive em Mim

Fantasmas do Passado

O partido de Saddam Hussein passou a governar o Iraque, em 1968, logo após ter dado um golpe de Estado, tendo o ditador assumido o poder, em 1979. Envolveu-se em conflitos armados com o Irã e o Kuwait, tornando-se alvo da Guerra ao Terror patrocinada pelos Estados Unidos após o atentado às Torres Gêmeas, em setembro de 2001. As forças de coalizão ligadas aos norte-americanos invadiram o Iraque, em 2003, derrubaram Saddam, e em 2006, foi executado. O instigante filme Bagdá Vive em Mim é uma coprodução da Suíça, Alemanha e o Reino Unido, embora haja simplicidade no seu desenrolar, é um drama mesclado com romance e política na sua genuína essência cinematográfica. O diretor e roteirista iraquiano Samir está exilado na Suíça e, em entrevista ao jornal Estado de Minas, conta que depois da revolução de 1958, os comunistas foram perseguidos por forças apoiadas pelos EUA e a CIA. “Eu era criança e me disseram: 'Vamos passar férias na Suíça’. Ninguém me disse que seríamos refugiados. Não ficamos um mês, quatro meses ou quatro anos. Passaram-se 40 anos da minha vida”. De acordo com o realizador, Brasil e Iraque têm muitas semelhanças, que vão além da influência da religião ou do passado marcado pela ditadura, e revela ter se inspirado no cineasta Glauber Rocha (1939-1981): “Me inspirei muito no cinema brasileiro dos anos 1970, vi muitos filmes políticos e experimentais do Brasil naquele tempo”.

Samir aborda com certa profundidade temas para uma boa reflexão, tais como os tabus da sociedade árabe, a religião, o machismo de seu povo, a homofobia explícita, os aspectos culturais e principalmente a política do passado ainda reinante no Iraque. Faz um retrato alegórico fiel e com tintas fortes do regime arbitrário, de poucos ou quase nenhum direito, representado simbolicamente por um grupo de imigrantes que transformam o café londrino Abu Nawas num refúgio de iraquianos que já não têm mais espaço em seu país. Buscam preservar com galhardia sua cultura em meio a discutíveis valores ocidentais. Cada personagem, que teve o seu motivo para abandonar a pátria, precisa lidar com fantasmas do passado para seguir em frente. Há sucessivos desafios a serem enfrentados diariamente naquele recinto que deveria ser de puro entretenimento, mas que sofre atentados e dissabores já recorrentes para um sofrido povo que não se senta nas mesas para rir, mas se apoiam nas xícaras para lutar pela sobrevivência. Além de carregarem os traumas e as chagas fétidas de um tempo nem tão distante, que permanecem pelas circunstâncias que são apresentadas em um roteiro dinâmico. O olhar é de desencanto, sem reminiscências pueris lacrimejantes, pelas lentes deste promissor cineasta atento aos acontecimentos de sua aldeia que nunca esqueceu.

A trama é conduzida pelo poeta Taufiq (Haitham Abdel-Razzaq), que faz uma narrativa imparcial e dolorida através do personagem atual na pele do guarda-noturno. Aos poucos, descobre-se os horrores que passou em Bagdá ao ser torturado numa tragédia pessoal traumatizante pelas marcas físicas no corpo que ainda carrega e o levou à Europa. Por ser comunista e contrário ao fundamentalismo islâmico, foi perseguido pelo regime de Saddam nos anos de 1990. Embora tenha fugido para Londres, traz a dor da morte do irmão e sua noiva que foram assassinados pelo inescrupuloso e violento regime ditatorial. Em comum, os personagens têm a mesma origem, como a arquiteta Amal (Zahraa Ghandour), que não consegue validar o diploma e virou garçonete. Ela representa a libertação feminina no contexto árabe para fugir do ex-marido Ahmed (Ali Daim Mailiki), um temido espião de Saddam, que surge na capital inglesa como o endemoniado adido cultural do Iraque. Porém, vive uma tensão permanente entre seu desejo por liberdade contrapondo com a pressão da sua comunidade que não aceita que se case com um homem não iraquiano, embora tenha se apaixonado por um britânico. Samir revela que parte da juventude do país não se alinha a valores extremistas e seus ideais são confrontados pelo fundamentalismo religioso. Há o técnico de informática homossexual que esconde o namorado com medo de represálias, tendo de lidar com as risadas e provocações dos conterrâneos, além do jovem problemático que vai a uma mesquita radical ouvir sermões e acaba se convertendo no islamismo radical.

O filme mostra como as diásporas são variadas, embora o realizador esteja voltado essencialmente para as coisas do cotidiano de seu país, ainda que tenha filmado em Londres, bem distante de seu povo, não se afasta das relações intrincadas e apresentadas com naturalidade a dramaticidade decorrente de uma situação provocada por um governo autocrático com suas crises políticas e perseguições aos opositores, ao ser explorado com talento e sensibilidade. A tensão estabelecida nos personagens bem construídos, como se fossem de carne e osso, retrata a garçonete, o gay e o rapaz convertido, nada mais é do que o conflito instalado que trará muitas revelações pretéritas com feridas abertas sem cicatrização que tentam ser removidas, apesar da crueza e de uma sucessão de fatos e circunstâncias de personagens que conviveram e discutiram as nuances marcadas pelo tempo. Há um imbróglio com trocas de acusações, principalmente pelos costumes rígidos de uma sociedade moralista com seus sentimentos e escrúpulos conservadores dentro de um vazio existencial latente. As mulheres e os homossexuais não passam de meros coadjuvantes e de restritos direitos. O foco tem o viés da visão das minorias, pois há entre os homens o sentimento arraigado preconceituoso pela manutenção dos tabus.

Bagdá Vive em Mim retrata um presente muito atual com verdades do passado irrecuperáveis para uma reflexão sobre os temas abordados que estão marcados em cada personagem. Está bem demonstrada nesta realização com dignidade, diante da interação estabelecida com o espectador. O diretor lança as dúvidas e não radicaliza com os elementos representados da força e da opressão. A emoção é contida com um tom que deriva de uma situação peculiar para a complexidade do enredo e do rol de refugiados que se alinham em conflitos quase que insolúveis, aparentemente. Todavia, nem mesmo o que há como subsídios fortes de ligação justificam as atitudes que ficam à deriva como consequência de um regime totalitário implantado como forma de subtrair ideias e manifestações livres das angústias que os acompanham. As temáticas são consistentes e intimistas do realizador que se detém na abordagem política, cultural, familiar, tabus da sociedade, religião, machismo e homofobia como forma de interagir com seus compatriotas. É significativa a importância dada às palavras nos diálogos numa forma bem estruturada do enredo. Ficou distante do maniqueísmo, através de uma segura direção com um elenco impecável que dá brilho nesta obra admirável no conteúdo e magnífica no contexto.

terça-feira, 31 de agosto de 2021

Jogo do Poder

 

Armações Inescrupulosas

O cineasta grego naturalizado francês Constantin Costa-Gavras está de volta ao cinema com Jogo do Poder, demonstrando grande e calibrado poder de fogo, afiado e em boa forma no alto de seus 88 anos de idade. Mestre do cinema de denúncia política, entre os quais estão os extraordinários Z (1968), A Confissão (1970), Estado de Sítio (1972), O Quarto Poder (1997), Desaparecido- Um Grande Mistério (1982), e dos ótimos Amém (2002), O Corte (2005) e O Capital (2012). A estreia de seu último longa foi no Festival de Veneza de 2019, com inspiração no livro Adultos na Sala: Minha Batalha Contra o Establishment, escrito pelo ex-ministro grego de finanças Yanis Varoufakisb, numa abordagem contundente, nua e crua, dos bastidores da terrível crise econômica da Grécia em 2015. O diretor escreveu o enxuto roteiro em parceria com o próprio Varoufakis e revelou ao site francês L’Artvues: "O filme é uma espécie de tragicomédia que os gregos viveram e ainda vivem por dez anos e na qual a Europa parece não estar muito interessada.”

O realizador faz uma abordagem transparente sobre a perversa agenda oculta da Europa que expõe o que realmente aconteceu em seus corredores dominados pelos poderosos ao apontar as razões que assolou impiedosamente a derrocada na Grécia. O drama político com viés sócio-econômico faz um relato sincero e imparcial travado em uma das mais espetaculares e controversas batalhas na história política internacional. Uma exposição com tintas fortes da insanidade e do cinismo sobre a realidade totalmente desconhecida do grande público, tendo em vista que as peculiaridades retratadas são protagonizadas principalmente porque grande parte dos negócios da União Europeia (UE) são desdobradas num submundo de portas fechadas. As razões verdadeiras que levam à crise um país poderoso como a Grécia são enfaticamente jogadas na cara da plateia para uma compreensão das artimanhas inescrupulosas de um jogo nefasto de poder com roupagem de desumanidade, tais como uma espécie de guerra fria comandada principalmente pela Alemanha, além da França, Inglaterra e outros países europeus mencionados no longa-metragem.

Através de uma fascinante trilha sonora assinada por Alexandre Desplat, no tom certo das cenas para dar fluidez à narrativa e um elenco coeso sem derrapadas, com sequências de grandes salões, jantares e reuniões, em uma estética magnífica, a trama centraliza seu foco no ex-ministro de finanças Yanis (Christos Loulis- impecável atuação). Ele narra com eficiência na primeira pessoa, ao fazer os relatos instigantes sobre os movimentos políticos na União Europeia com a participação da representante do FMI e os jogos de poder que beiram a inverossimilhança, mas que são reais e cruéis para o povo grego que votou contra no plebiscito para adesão ao contrato devastador imposto por estes órgãos. São armações políticas abjetas e nefastas. O ex-ministro é um homem talentoso e braço forte do demagogo e indeciso primeiro-ministro eleito com promessas de reformas profundas. O método de trabalho de Yanis é pela conciliação e recusa das propostas inviáveis apresentadas. Demonstra fibra e ardor na defesa de seu país que vivia um ciclo de destruição, no qual geraria apenas mais arrocho e uma queda insustentável do PIB. Não se conforma e mostra insatisfação com os métodos impostos pelas grandes nações europeias. Chega a ser constrangedor o modo como é afastado das negociações, tendo que ir embora daquelas reuniões que humilham e debocham de seus compatriotas.

O filme é um mergulho no mundo voraz de um capitalismo selvagem e desenfreado, quando bate à porta da União Europeia e do FMI para tentar solucionar a saúde financeira debilitada de uma nação, diante da grave enfermidade que assola a economia em crise ocorrida em 2015, decorrente da ciranda de negócios mal realizados num cenário nebuloso de um débito impagável, sendo que a única solução proposta por governos anteriores era fazer novos empréstimos. Costa-Gavras enfatiza o protagonista como um político malvisto por ser de esquerda e sofrer ofensas em seus valores éticos e morais, ao entrar em choque direto numa rota de colisão com a cúpula dominante. Há retaliações e ameaças no corte iminente de recursos aos bancos gregos que levariam à falência inevitável com consequências inimagináveis, causam visões alucinantes no próprio primeiro-ministro e sua indecisão diante das graves dificuldades de sobrevivência que se confundem com uma realidade quase sem saída, onde já foram cortadas na carne parte das pensões dos aposentados. É um panorama do que acontece não só num país endividado, mas que também pode ser estendido a outras nações na mesma situação de miséria em outros continentes, bem como uma abordagem sobre a concorrência desleal, onde executivos e políticos são treinados para dirigir de maneira fria, impessoal e insensível num mundo que se esboroa, com embates árduos entre os poderosos e os desmilinguidos sem a força da barganha.

Jogo do Poder é um filme conduzido com sarcasmo arrebatador, com tintas de lesão grave ao humanismo e suas perdas, sem deixar de abordar e enfocar com energia o comportamento dúbio de quem tem o poder na mão na escala de países ricos do primeiro mundo numa época em que a UE não queria mais aceitar o rolamento de dívidas com os bancos do continente. Também dá um bom enfoque nas promessas populistas de campanha de políticos aventureiros e antiéticos. Há impagáveis cenas com requintes perversos dentro de uma denúncia devastadora, como do ministro francês que joga a situação para o representante da Alemanha deslindar. Mas é fulminante e vai ao cerne da questão, no desfecho providencial na elipse da cena, em que a dança é repetida várias vezes até deixar tonto e sem lucidez o fragilizado personagem demagogo no fatídico dia da adesão ao leonino contrato unilateral. Ali se desenha um futuro como resultado de uma catástrofe na metafórica teatralização do circo político. De forma magistral, o genial Costa-Gavras marca seu retorno retumbante pelo consagrado formalismo típico com domínio narrativo ao ensinar todos a dançarem o jogo político como poucos conseguiriam esta façanha, em um epílogo inesquecível nesta obra singular.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Piedade

A Resistência

Cláudio Assis é um cineasta pernambucano que não se submete a dogmas e paradigmas daqueles filmes bem feitinhos e ajustadinhos que indiquem alguma propaganda ou louvação de um gênero. Sua cinematografia é contundente e provocativa, com reflexos marcantes sobre o comportamento humano na abordagem de temas sociais, com passagens pela violência física e psicológica. Mesmo que sua obra seja regional através da típica linguagem nordestina, a universalidade do cinema está acima e se sobrepõe peremptoriamente. Não pertence a uma casta de diretores politicamente corretos, como bem enfatiza tanto em seu discurso no cinema pelos atos do poeta anarquista no perturbador longa Febre do Rato (2011), bem como em entrevistas à imprensa. Segue uma linha dos realizadores malditos ou marginais, tais como: Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Ozualdo Candeias. Lançou-se ao cinema com dois bons filmes Amarelo Manga (2002) e Baixio das Bestas (2006), posteriormente realizou Big Jato (2016). Mostra novamente sua versatilidade e competência com esta nova provocação instigante, no seu quinto longa-metragem, Piedade.

Eis um drama que reflete a preocupação do cinema autoral com a temática do cotidiano invadido e da especulação desenfreada que só visa lucros, pouco se importando com a ética e os desejos de escolha e opção do cidadão. A narrativa traz no bojo um realismo da exacerbação pela intransigência através de métodos absurdos de coação de uma empresa que visa somente seus lucros e está de olho no espaço para ter melhor acesso aos recursos naturais que irá transformar aquela comunidade de uma praia fictícia da Grande Recife num verdadeiro caos aos nativos. Segue a linha do conterrâneo Kleber Mendonça Filho que lançou luzes para bons debates sobre a desenfreada especulação imobiliária no badalado O Som ao Redor (2013), e no polêmico Aquarius (2016), sobre uma empreiteira que amedronta uma jornalista aposentada, escritora, viúva e mãe de três filhos adultos, que recém saiu de um câncer de mama, o qual venceu com galhardia e determinação a moléstia, para lutar agora contra outro obstáculo da vida, sua permanência ameaçada no último edifício antigo da Av. Beira-Mar, da bela praia da cidade de Recife.

Piedade foi filmado no Porto Suape e na Reserva do Paiva, em Pernambuco, alterna alguma leveza ao mostrar um povoado com uma praia paradisíaca, cujo nome dá título do filme, com uma imensurável pressão de grupos econômicos poderosos que lançam cizânia nos nativos para uma disputa ferrenha por terras. Naquele lugar aconchegante, a trama retrata uma matriarca viúva (Fernanda Montenegro), que mora com o indignado filho, Omar (Irandhir Santos), uma espécie de resistência aos desmandos especulativos, mas percebe a dificuldade quando o dinheiro entra no jogo, e seu neto Ramsés (Francisco Assis), filho da caçula Fátima (Mariana Ruggiero), que trabalha nas cercanias de Recife. O bar mantido pela família é vítima das distorções ambientais diante da construção de um porto nas proximidades, berçário de tubarões que interferiu no habitat, e por consequência passam a atacar, acabando por afugentar os turistas que migram para outras praias menos perigosas, escasseando a clientela. Uma significativa metáfora para o duplo sentido da agressão dos tubarões, tanto o peixe como o do poder econômico.

O enxuto roteiro assinado por Hilton Lacerda e Anna Carolinna Francisco, conta uma história aparentemente simples, porém surgem na trajetória da trama situações complexas encontradas no dia a dia de qualquer mortal. Assis faz interessantes comentários sociais pelos quais é recorrente, mas sua obra traz para a telona uma reflexão mais madura e menos panfletária, embora ainda haja alguns excessos sexuais descartáveis no contexto, para melhor ser absorvida sobre a rotina dos moradores abalada pela chegada da potente empresa petrolífera Petrogreen, que decide expulsar todos de suas casas para instalar ali empreendimentos para ter melhor acesso ao local escolhido. O realizador faz referências pontuais aos problemas, como o paradoxo da corporação interessada em destruir as reservas naturais, com o pomposo nome que resume em petróleo e o verde (green), numa clara e manifesta distopia com o meio ambiente. A inverossimilhança está centrada na extração de óleos e similares se contrapondo com a preservação responsável da ecologia ao prejudicar a biodiversidade.

O diretor registra com tintas fortes o inescrupuloso representante da petrolífera, Aurélio (Mateus Nachtergaele), que negocia a compra de terrenos do vilarejo para um futuro empreendimento. Ele investiga o núcleo da família, e alguns segredos, entre eles um filho perdido, Sandro (Cauã Reymond), dono de um cinema pornô, que virão à tona, com chantagens que minam a harmonia de todos, principalmente da conciliadora mãe e sua energia diante das revelações e o constrangimento do adultério. Outra importante construção no enredo é o personagem infantil que sonha em entrar no mar, mas contenta-se com um óculos, presente do famigerado executivo, para dar vazão às suas fantasias por uma realidade virtual, o que, segundo o presenteador: “é melhor que mar de verdade”. O filme retrata com sensibilidade as hipocrisias e os cinismos do preposto do empreendimento. Assis retrata com delicadeza o lado familiar e carinhoso dos personagens na defesa de seus direitos sendo descartados por dinheiro em nome do progresso e do futuro incerto nos planos de compra. A modernização ditada como regra de soluções pragmáticas fica evidente no desfecho sombrio estampado na visão do jovem realocado, embora toda a luta da preservação como forma de manter viva a alma como essência contrária à ganância especulativa invasiva. A imposição da força dominadora do progresso no contexto é apontada no poder de fogo pela pressão psicológica. Um painel dos contrastes de uma realidade brasileira de anomalias e distanciamentos dos sonhos, sem cair na obviedade, através de elementos caracterizadores e envolventes que marcam com qualidade esta admirável obra sobre a injustiça social no cenário nacional.

terça-feira, 25 de maio de 2021

Nomadland

Viagem Existencial

Nomadland é o longa-metragem que vem consagrar definitivamente Chloé Zhao ao ser premiada com o Oscar e o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme, que a fez se tornar também a segunda mulher oscarizada com a estatueta de Melhor Direção. Além de diretora, roteirista, produtora e editora, esta jovem chinesa de 39 anos, radicada nos EUA, ganhou ainda o Leão de Ouro no Festival de Veneza e o People's Choice Award no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Conhecida por seus trabalhos independentes: Songs My Brothers Taught Me (2015), Domando o Destino (2017), e o inédito Os Eternos (2021). Desta vez, a dobradinha foi feita com a atriz americana Frances McDormand, de 63 anos, casada com o cineasta Joel Coen, desde 1984, que atingiu a marca de três estatuetas do Oscar, tendo antes sido laureada em Fargo (1996) e Três Anúncios Para um Crime (2017). Então, a equipe fez as malas e colocou o pé na estrada para viajar por cinco estados, durante várias semanas, com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, como dizia o saudoso cineasta mais influente do efervescente Cinema Novo brasileiro, Glauber Rocha.

A trama gira em torno de Fern (McDormand- excelente atuação ao carregar o filme nas costas), uma mulher de 60 anos, que entra numa velha van, mas bem equipada, com tudo dentro para atender o básico da dignidade humana. Parte para uma longa trajetória na esperança de viver fora da sociedade convencional, como uma moderna nômade, após o colapso econômico que abalou a cidade industrial de Empire, na zona rural de Nevada, nos Estados Unidos, diante da desativação de uma grande fábrica que a fez perder o emprego. Além de McDormand e David Strathairn, que interpreta um idoso interessado em Fern, todos os demais personagens são atores amadores selecionados entre os nômades reais. A protagonista é vítima da Grande Recessão de 2008 que impactou as vidas de milhares de pessoas por uma recessão poucas vezes vista. Ela carrega também o luto do marido falecido, mas tenta superar esta que foi a maior perda de sua vida. Na sua obstinada jornada, consegue empregos temporários, tem contratempos com o veículo, mas constrói algumas amizades e descobertas, como revelações de criaturas amarguradas e solitárias na saga pelos caminhos que irá desbravar. Entre tantas personagens reais, está Linda May, assim como outros nômades da terceira idade que trabalharam durante décadas para ter um padrão de vida confortável da classe média, porém com um câncer invasivo e dúvidas de que teria alguns anos para descansar, conta suas angústias. Já o mentor Bob Wells, outro personagem que interpreta sua vida, embora ainda abalado pelo suicídio do filho, fala do sistema de Seguridade Social de seu país, que dá uma aposentadoria mensal modesta de US$ 500 e da opção de escolher entre comer, ir ao médico ou ter uma casa.

A realização é uma mescla de ficção e realidade, rotulada por alguns críticos como um filme híbrido, que por vezes torna-se um documentário, diante dos relatos tristes de demissão, divórcio, dívidas e perdas por hipotecas. Baseado no livro-reportagem da jornalista Jessica Bruder, publicado em 2017 nos EUA, que conta histórias verdadeiras e amargas, porém a protagonista é ficcional que está cercada por autênticos nômades encontrados no mundo real, e em fuga distópica com um olhar distante, sem as benesses do lazer. São indicativos de um futuro sombrio com a precarização do trabalho e uma aposentadoria cada vez mais improvável. Inquietações e atrocidades são reveladas oriundas de uma crise econômica devastadora, porém que solidificará uma rede de solidariedade entre aquelas criaturas em fuga da realidade.

A diretora demonstra que ao abandonar o ideal da classe média, os personagens solitários também recuperam a reminiscência da juventude que mitificou os hippies. Ajudam-se na montagem dos veículos, na busca de empregos de freelancer e lidar com os abusos dos empregadores. A comunidade on-line cria blogs para trocar experiências das viagens sem destino e suas andanças pelas estradas. Não perdem o prazer de dançar e propiciar encontros como um poema de amor à vida e exaltação à natureza, embora a decrepitude esteja estampada na fisionomia de muitos e a proximidade da morte esteja espreitando algumas vidas já condenadas. Uma boa reflexão sobre as amizades sendo fortalecidas neste epílogo de suspiro existencial de interessantes diálogos através de uma peregrinação na qual todos seguem, tendo de lidar com as fragilidades da vida para valorizar cada momento pelas lentes de uma fotografia majestosa de belas imagens. Uma abordagem de cunho sensorial, com uma trilha sonora não invasiva que dá o tom certeiro na melodia, para adequar simbolicamente uma volta ao passado pelo itinerário do presente, sem um futuro definido pelas poucas luzes no horizonte.

Nomadland é um admirável filme sombrio, mas no qual a esperança se confunde com a melancolia, por alguns instantes, dando sinais de aflição e consolos nos sentimentos da convivência dos personagens mergulhados na solidão. Em outros momentos, cede lugar para edificar, tanto pela adversidade, como pela dor da perda, como por escassos instantes de prazer daqueles seres buscando o reconhecimento da dignidade para serem valorizados. Há uma atmosfera equilibrada dos contrastes da liberdade e o medo da jornada espiritual de aventuras nos questionamentos da vida neste retrato honesto sobre uma parcela da população norte-americana no enfrentamento dos perigos diários decorrentes do frio congelante e a pobreza iminente. Uma imersão de magia na naturalidade proporcionada pela cineasta neste legítimo drama road movie, que mostra com tintas consistentes o pós- crise de 2008 e o número expressivo de pessoas que irão se abrigar em automóveis como suas casas, sintetizado no desabafo da personagem central. Estão lá mais por falta de opção do que por uma prazerosa escolha. Eis um retrato sensível, maduro e quase que poético advindo dos núcleos familiares decorrentes das fragilidades do isolamento social que dá lugar para o convívio e a fraternidade naquele espaço desalentador de ilusória harmonia coletiva.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Meu Pai

Demência Devastadora

Indicado ao Oscar deste ano em seis categorias (melhor filme, ator, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, design e edição), disponível nas plataformas Net/Claro Now, Apple TV e Google Play, o longa-metragem Meu Pai, do romancista e teatrólogo francês Florian Zeller, que tem uma estreia promissora na direção com sobriedade e sensibilidade sobre a perda da lucidez e o mergulho no mundo dos devaneios da fantasia e do imaginário de um idoso octogenário que começa perder a memória. Distancia-se do cotidiano para oscilar entre uma triste realidade de outrora e de reminiscências de um passado longínquo. São situações delicadas que irão causar desconforto e perplexidade entre os mais próximos, como a recusa da ajuda da filha que pretende se mudar para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora. Na ânsia de buscar alguém como cuidadora, surgem as mudanças pertinentes da grave moléstia do Alzheimer (a Organização Mundial da Saúde estima que haja atualmente 35 milhões no mundo) que irão atordoar e lançar desconfianças e dúvidas entre o enfermo e seus familiares, como a confusão mental estabelecida até uma ruptura da estrutura do mundo real. Ingredientes estes que devem ser creditados ao fértil roteiro adaptado magistralmente da peça teatral Le Père (2012) por Christopher Hampton, oscarizado por Ligações Perigosas (1988), em parceria com o diretor.

A história é aparentemente simples, mas a complexidade do enredo está mais para uma reflexão dolorida do que para as inquietudes e desconfianças de Anthony (Anthony Hopkins- em mais uma atuação soberba e irreparável) que ainda conserva sua imponência de um lorde, apesar dos constantes ataques de confusão e esquecimento. Recusa-se terminantemente a admitir, embora por força da saúde já dando mostras de um estágio debilitado como as sucessivas acusações do furto de seu relógio. Como um artefato explosivo que cai no colo, a filha Anne (Olivia Colman- impecável na interpretação com doação) travará uma batalha diária inglória e desgastante para cuidar do pai e evitar maiores dissabores com o cotidiano. Ela terá ainda que lidar com as cobranças do intransigente marido Paul (Rufus Sewell), que insiste em internar o sogro num asilo. A preocupação da filha e o seu dilema diário estão associados a possíveis acidentes domésticos, pois ele não consegue viver sem a ajuda de terceiros, mas mesmo assim insiste em morar com a filha em seu apartamento confortável. Com suas obsessões e manias adquiridas, bota a correr todas as zelosas cuidadoras, exceto Laura (Imogen Poots) com quem associa a semelhança física com a outra filha Lucy, morta tragicamente há muitos anos.

Como um novelo que se desenrola nesta experiência sensorial, o realizador vai lançando as situações diárias típicas de conflitos com as empregadas, bem como o choque de frente do pai com a filha e o marido. O filme propõe a meditação sobre a chegada da devastadora demência na terceira idade tendo como consequência as peraltices causadas pela vítima da doença que aflora sem piedade e não como um elemento agressivo de quem tem as faculdades mentais sadias. Como referências de subsídios já foram realizados outros excelentes filmes com a mesma temática: Nebraska (2013), de Alexander Payne, O Filho da Noiva (2001), de Juan José Campanella, Sr. Kaplan (2012), de Álvaro Brechner, Para Sempre Alice (2014), de Lisa Genova e A Viagem de Meu Pai (2015), de Philippe Le Guay. Na mesma esteira, porém com um viés um pouco diferente pelo contexto da eutanásia em foco, há a obra-prima Amor (2012), de Michael Haneke, no qual o companheiro trocava fraldas geriátricas, alimentava com papinhas na boca, medicação, água e dava banho, embora a contundência psicológica do personagem fosse mais intensa e agressiva, diante da aproximação iminente do ocaso implacável da vida. Zeller constrói um universo perverso advindo do tempo passando, mas não deixa cair no melodrama, mesclando o bom humor e a sensibilidade das situações cômicas ingressarem como um doce amargor decorrente de uma acidez involuntária de uma vida que se esvai lentamente. Assim é o avanço da idade e os cuidados especiais que requerem, através da sugestão implícita do acometimento nefasto da memória corroída através dos recorrentes lapsos incuráveis que se agravam ao longo da existência.

O desenrolar do drama vivenciado pelo protagonista através de sua visão, dará um ângulo correto pela distorção da enfermidade, criando fantasias com confusão mental ao dizer à nova cuidadora ser um dançarino, embora fosse um engenheiro aposentado; os delírios e as hostilidades com o genro são situações que se agravam, embora o cineasta deixe em aberto a possível agressão sofrida pelo idoso. As alucinações crescem e os conflitos aumentam com as adversidades cada vez mais presentes. Cria-se um clímax de suspense psicológico com o passado da filha falecida, num emaranhado de novas situações que povoam a mente do pai no antagonismo com Anne e seu drama em deixá-lo numa casa de repouso e ir para o exterior. A internação abrupta será certamente traumática para ambos. Os enfermeiros Bill (Mark Gattis) e Catherine (Olivia Williams) entram na ciranda confusa das digressões e pensamentos do passado pela visão de Anthony, que pedirá a presença da mãe para levá-lo para casa numa súplica angustiante e, aos prantos, chora como criança desamparada e assustada pelo terror do momento nos braços da meiga enfermeira. Pergunta: “quem sou eu?”, em comoventes e doloridas cenas, em que a agonia do protagonista com alguns lampejos de lucidez dói no espectador e na profissional da saúde.

Meu Pai não é mais um filme sobre demência e a relação familiar, devendo estar na lista dos dez melhores do ano. A singularidade está no instigante roteiro ao apresentar a situação pelos dois pontos de vista. Tanto do idoso e sua solidão, bem como a vida da filha e as circunstâncias que se apresentam no dia a dia. O desfecho é arrepiante ao elucidar a temporalidade e o real espaço físico das imagens que até então eram mostradas como num jogo de xadrez. É a realidade de uma situação sinistra e definitiva da deterioração mental para sempre como somente o cartão postal no epílogo irá revelar a versão correta de tempo e a sincronia do enredo no flashback ocultado pelo diretor. Uma inesquecível obra no formato de gestos teatrais na mais pura essência cinematográfica sem rótulos sobre o início e a melancólica finitude diante dos sentidos cognitivos que levam para a perda dos sentidos. Uma impactante proposta direta e sem pasteurização da evolução (início da destruição do cérebro, por consequência a razão, e finalmente minando a consciência) até atingir o ápice deste extraordinário drama familiar existencial com imagens finais de árvores e seu verde de esperança de um novo dia contrastando com o olhar desorientado. Fica acentuado o estrago pelo avanço da moléstia arrebatadora dentro de um contexto chocante e seus prejuízos que fluirão paradoxalmente na reconstrução familiar buscada nos pequenos detalhes. Eis uma pungente abordagem que ganha tons de uma imersão paranoica obsessiva pela desorientação da impotente vítima na passagem das luzes se apagando na contemplação da ruptura com o presente e o futuro, restando alguns resquícios do passado.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Druk - Mais uma Rodada

Limites do Alcoolismo

Thomas Vinterberg e Lars von Trier, no mês de março de 1995, em Copenhague, lançaram um manifesto cinematográfico internacional denominado Dogma 95. Era um movimento estético, exatamente no centenário de nascimento da sétima arte. Começa com a publicação de dez regras de ética e valores, conhecidos como voto de castidade, tendo como objetivo principal o resgate de um cinema mais realista e menos comercial, anterior à exploração industrial de Hollywood. Em sendo aprovado pelos seus membros, receberia o Certificado Dogma 95. Foi a mais inventiva escola, depois da celebrizada Nouvelle Vague. Von Trier dá a partida com Os Idiotas (1998), segundo filme do movimento, depois vem Dançando no Escuro (2000), premiado com a Palma de Ouro em Cannes como Melhor Filme. A consagração vem com o fabuloso Dogville (2003), que tem sequência com Manderlay (2005), também em grande performance e fiel ao seu estilo proposto de um cinema mais simples, sem muita luz artificial e com cenários externos exclusivamente. Mas foi Vinterberg que recebeu o selo nº. 01 de certificado Dogma 95 para seu filme Festa de Família (1998), que mostra uma sessão de terapia coletiva, revelando ressentimentos e aflorando fortes revelações num aniversário. Fracassou com Dogma do Amor (2003), e melhorou com Querida Wendy (2005).

O diretor dinamarquês retornou com vigor e todo fôlego em Submarino (2010), deixando definitivamente para trás o movimento que criou, numa trama bem urdida de dois irmãos com grandes recordações e feridas abertas de uma infância conturbada pela tragédia da perda do caçula e, sobretudo, pela convivência diária com a mãe alcoólatra e agressiva com seus dois filhos maiores. Símbolo de um lar desestruturado e destroçado pelo vício e a morte rondando permanentemente. Realizou depois a obra-prima A Caça (2012), contundente reflexão sobre os preconceitos contemporâneos e da pressão de uma casta dentro de uma comunidade conservadora sobre os direitos e princípios morais do indivíduo acuado e liquidado moralmente para sempre, como se depreende da última cena da caçada no mato de um homem acusado injustamente pela prática de pedofilia. Agora, o cineasta retoma a temática do alcoolismo na excelente comédia dramática Druk -Mais uma Rodada, em cartaz na Net/Claro Now, Apple TV, Google Play e You Tube, ao abordar a história de quatro professores com diversos problemas em suas vidas. Eles irão testar a teoria de um estudo sobre a necessidade do corpo humano viver com um teor alcoólico de 0,05 em suas correntes sanguíneas para ter mais prazer, relaxar, e ter melhor desempenho nas aulas.

Com bom humor mesclado por algumas crises existenciais, o enredo irá conduzir para que eles passem a beber diariamente uma taça de vinho ou de espumante; depois tomam cerveja e vodka. O consumo das doses aumenta cada vez mais até se tornarem potenciais alcoólatras, no limite tênue do equilíbrio que passa para o descontrole total e evolui para problemas que estavam submersos, chegando à violência doméstica para explodir na crise conjugal, a pouca relação com os filhos do protagonista e fio condutor da trama, Martin (Mads Mikkelsen, o premiado ator do filme A Caça no Festival de Cannes, novamente teve uma atuação antológica, sem precisar falar muito, se expressa pelos olhares e os movimentos corporais). Ele está num dilema ao ser colocado em xeque nas aulas de História, mais uma razão para buscar energia nas bebidas para os novos desafios dos alunos. Os outros três colegas irão lhe dar apoio na nova teoria do álcool: Nikolaj (Magnus Millang) leciona Filosofia e aparentemente é um pai dedicado à esposa e os três filhos; Toomy (Thomas Bo Larsen) é um sensível instrutor solteiro de Educação Física que sempre protege o garotinho de óculos nas partidas de futebol; já Peter (Lars Ranthe) ministra aulas de música no coral. Os atores não encenaram bêbados, mas tomaram grandes porres nos ensaios antes das filmagens, para ar um realismo natural pós-embriaguês.

Indicado pela Dinamarca ao Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme Internacional, a realização cria uma experiência dos personagens e retrata os limites do alcoolismo com suas próprias vidas e o poder do vício nesta história escrita pelo diretor em parceria com Tobias Lindholm. Foi baseada em relatos da filha do cineasta sobre uma brincadeira de estudantes que correm em torno de um lago e competem sobre quem bebe mais. Ida morreu aos 19 anos num acidente de carro provocado por um motorista distraído que dirigia olhando o celular. Ela estrearia como atriz neste filme, mas a tragédia ocorreu no quarto dia de filmagens. Vinterberg pensou em cancelar toda a produção, mas foi convencido a continuar para homenagear a filha que certamente gostaria de ver o filme pronto, tendo em vista que ela deu a ideia do projeto na abordagem dos reflexos da pressão da sociedade focando os dramas existenciais de professores com suas vidas entediadas num cotidiano que beira melancolia. O realizador menciona na trama Roosevelt e Churchill que afirma: “eu não bebo antes do café da manhã”, ambos perdem para Hitler numa brincadeira paradoxal sobre caráter numa aula de História. Outros líderes mundiais são citados com atitudes suspeitas de embriaguez em apresentações e discursos, entre eles estão Boris Yeltsin, Clinton e Brejnev.

O longa tem um desenrolar equilibrado entre os benefícios do álcool, sem fazer apologia, como na cena em que o aluno bebe moderadamente para relaxar e ser aprovado contrastando com o personagem que sofre os efeitos nefastos da bebida e vem a falecer por ter a saúde debilitada. A diretora do estabelecimento de ensino que faz uma reunião para tratar da suposta embriaguez de alunos e seus mestres é outro ponto de lucidez que o cineasta enfatiza em uma das cenas para afastar alguma tendência de enaltecimento das bebidas. Em outra cena, há a posição do psicólogo que critica o álcool em uso prolongado e seus efeitos devastadores. Os quatro amigos acabam por beber em demasia, dão show em casas noturnas, correm nas ruas até caírem. “Esse país só sabe beber mesmo”, diz a esposa de Martin. Embora não haja semelhança estética, mas apenas temática, pode ser comparado com Coração Louco (2009), de Scott Cooper, na trajetória clássica de derrotas de um cantor country, com uma vida desregrada pelo alcoolismo e em decadência iminente. Também há alguma semelhança temática com o clássico americano Farrapo Humano (1945), com a qualificada direção do mestre Billy Wilder, em que Ray Milland protagonizou aquele triste espetáculo dantesco de uma pessoa desmoronando.

A relação de amizade do quarteto docente nos remete para a inesquecível fábula filosófica A Comilança (1973), de Marco Ferreri, com Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Philippe Noiret, onde quatro senhores entediados com a vida se trancam numa mansão com uma quantidade enorme de comida, planejam comer até morrer, mas antes combinam uma orgia sexual com prostitutas. Druk -Mais uma Rodada tem um epílogo catártico da formatura celebrada por jovens tomando espumantes dentro de um caminhão que irá contrapor com a esquecida esposa suplicando o retorno do marido vacilante entre a lucidez e o desatino mental que opta pela liberdade da escolha das atitudes que culmina no voo para o mergulho simbólico na águas do rio. São apontadas as consequências trágicas do final em aberto de uma realização imparcial sem proselitismos ou apologias. Deixa o recado sobre o equilíbrio e os limites escassos da bebida diante dos excessos, abordando tanto o lado bom deste desafio da bebida contrastando com o pior cenário possível. Eis uma singular comédia dramática que deixa na sua essência ensinamentos para o espectador refletir, passando longe do politicamente correto.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Agente Duplo

Abandono e Solidão

Agente Duplo é o digno representante do Chile no Oscar deste ano e, pela primeira vez, disputa a categoria de documentário, sendo aclamado pelo público e pela crítica com mais de 90% de aprovação no site Rotten Tomatoes, podendo ser visto na Globoplay. Escrito e dirigido pela documentarista Maite Alberdi, conhecida até agora em seu país por temas de pouca relevância, sem atrair significativamente as atenções dos cinéfilos. Entre suas realizações estão Hora do Chá (2014), Los Niños (2016) e Rito de Passagem (2016). Finalmente alcança o reconhecimento mundial com esta fascinante obra de exercício metalinguístico em seu formato, que transita do documentário, ideia inicial embrionária da produção e da direção, para tornar-se na realidade uma comédia dramática com pitadas de espionagem e filme-denúncia. Ganhou o prêmio do Público no Festival de Cinema de San Sebastián e foi finalista no Prêmio Goya. A cineasta, premonitoriamente, em entrevista ao jornal El País, antes de ser indicada como finalista pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, profetizou: “Este é um marco para um documentário chileno”. A mais recente produção premiada dos chilenos foi com o drama Uma Mulher Fantástica (2017), de Sebastian Lelio, na categoria de melhor filme em língua estrangeira, sobre a violência contra uma mulher transgênero. Em 2013, No, de Pablo Larraín, concorreu, mas não obteve premiação.

No prólogo da realização, a diretora coloca Rômulo Aitken, proprietário de uma empresa de detetives, fazendo uma minuciosa seleção para encontrar o perfil mais adequado para o idoso que fará o papel de um agente espião, que será infiltrado sob a farsa de uma internação comum no Asilo São Francisco. O objeto da investigação é a desconfiança de maus-tratos e negligência dos funcionários no interior da casa de repouso, diante de uma suspeita da filha de uma senhora, suposta vítima. Sergio Chamy, um viúvo de 83 anos, foi o vencedor da inverossímil tarefa de um emprego temporário por três meses, porém lhe soa como uma libertação dos filhos e netos neste período, além de esquecer o luto e as lembranças da esposa falecida recentemente. O contratado deverá executar as atividades de um detetive particular para espionar, devendo fazer relatórios diários, adaptar-se ao vídeo do Facebook e manusear uma caneta com câmera digital num óculos. Tecnologias estas que são distantes de seu real mundo da presença física, mas indispensáveis para obter dados e informações sigilosas com o auxílio da internet.

O protagonista se torna venerado dentro do lar, logo conquista o posto de “Rei do Baile” durante uma festa de aniversário, sendo cercado por grande parte das mulheres, que são maioria no recinto. O espião narra em seu relatório com dor e melancolia o cotidiano de várias internadas que perderam o sentido da vida. Lá, encontra uma senhora que faz pequenos furtos; outra, que se apaixona e quer casar para refazer a vida com ele; tem a que recita poemas; a idosa que está perdendo a memória por uma doença degenerativa, que sentia a falta de visitas dos familiares e necessita de fotografias dos parentes próximos; também a que fala com a mãe imaginária por telefone; outras ficam no portão externo à espera de visitas que nunca acontecem. Finalmente conclui sua exposição reveladora dizendo que a suposta vítima de maus-tratos nunca recebeu a visita da filha contratante das investigações, ou seja, está esquecida literalmente, carente e solitária. Uma autêntica denúncia de abandono que se materializa com contundência advinda da triste frieza familiar e o egoísmo latente que salta aos olhos do agente que fez pequenas amizades naquele ambiente de tédio retumbante num cotidiano de ausência de afeto de filhos e netos.

A gaúcha Ana Luiza Azevedo, no drama Aos Olhos de Ernesto (2019), colocou magnificamente os traumas das perdas e dissabores do envelhecimento com muita sutileza e sensibilidade para uma profunda reflexão. Fez um mergulho nos confrontos e adversidades da irônica "melhor idade" e o espectro da solidão melancólica. Com dignidade e algum otimismo também se debruçou sobre a temática o diretor argentino Daniel Burman em Dois Irmãos (2009), enfatizando o afago final das águas do rio que serviam de cenário para o domicílio daquelas idosas criaturas inertes, distantes e sobreviventes do universo familiar. Através da beleza estética de Laís Bodanzky, realizou o estupendo drama Chega de Saudade (2008), tendo como cenário um clube de São Paulo com suas diversas histórias numa noite de baile, aflorando as ilusões e desilusões, perdas e ganhos, amor e traição, para sintetizar tudo num imenso isolamento social. Pelo olhar de Marcos Bernstein, vimos o ótimo O Outro Lado da Rua (2004), refletindo a dor da solidão da idade, reavaliando suas vidas e descobrindo novos rumos. Em GranTorino (2008), de Clint Eastwood, foi abordada as perdas hereditárias e os valores dos descendentes colocados em xeque de forma satisfatória pelo decadente herói de guerra. Já Alberdi faz um painel com nuances importantes dos idosos solitários desprezados nos asilos transformados em depósitos, como fio condutor para o desfecho do processo das emoções e a vazão para uma grande sombria existência humana alicerçada sobre o angustiante tema universal da terceira idade dos esquecidos pelos familiares.

A dosagem de humor está no ponto certo e torna adequada esta obra minimalista para retratar com equilíbrio o drama existencial daquelas pessoas mergulhadas em uma solidão devastadora pelo abandono nas clínicas geriátricas. “Meu filme de detetives é na verdade uma desculpa para ver um assunto que, sem essa desculpa, talvez ninguém visse”, afirma a diretora na mesma entrevista, que depois arremata: "Antigamente, não era comum ter parentes nesses locais. Os avós moravam com os filhos e netos. Mas hoje moramos em casas menores, onde não há espaço para eles muitas vezes". Informa a documentarista que embora se sentisse culpada por ter enganado a direção do asilo ao dizer que seu filme era uma ficção sobre a velhice, não houve maiores problemas posteriores na montagem, tendo em vista que o objetivo era retratar a importância desses asilos no cotidiano das famílias. O documentário que deveria ser sobre as más condições da casa de repouso, acaba por se transformar em uma eloquente denúncia de abandonados na velhice pelos parentes, por serem pessoas completamente descartáveis. Embora as pétalas de uma rosa caindo sobre um riacho indiquem um ar de romantismo poético com suspiro de uma minguada esperança, há o contraponto das idosas cochilando entediadas num banco ao entardecer. Agente Duplo revela admiravelmente as imagens de vidas combalidas que despertam compaixão num cenário desolador pela imensurável solidão, perda da lucidez, até o embate entre vida e morte, diante das emoções existenciais sobre o progressivo fim de seres humanos abandonados.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Aznavour por Charles

Grande Legado

A cineasta belga naturalizada francesa, Agnès Varda, deixou um legado imensurável, com realizações abrangentes e muitas reflexões com críticas pontuais à sociedade e seus preconceitos em Varda por Agnès (2019). Não foi somente um documentário autobiográfico testamentário, mas também um mosaico do passado, presente e do futuro, onde aparecem intercalados personagens sofridos por uma sociedade cruel com a humanidade. Com alguma similitude de temática de visão do mundo, o documentário Aznavour por Charles, que pode ser visto na Net/Claro Now, depois de ter estreado no cinema, acabou sendo mais uma vítima da pandemia. O próprio lendário cantor e compositor mundial celebrizado pelo público e pela crítica pelas suas canções marcantes filmou sua vida e como a desfrutou durante sua existência. Até o dia em que mostrou o material que capturou ao longo de 34 anos para o cineasta e amigo Marc di Domenico, que ficou impressionado com as imagens. Do material doado do diário cinematográfico, resultou montado 83 minutos. A câmera era o fiel guardião para os registros do artista, pois gravava tudo que via por onde andava, tais como os amigos, seus amores e suas dificuldades tediosas pertinentes.

A história dos registros começou em 1948, quando a grande amiga Edith Piaf (1915-1963), já famosa por La Vie en Rose, presenteou Charles Aznavour (1924-2018) com uma câmera Super 8, ainda desconhecido da maioria das pessoas, que se tornou um bem particular essencial e nunca mais a largou. Varda tinha uma trajetória dedicada ao cinema, fotografia, artes visuais e o companheiro de todas as horas Jacques Demy como elementos de amor e paixão. Aznavour filmou não só sua vida, mas o dia a dia por onde passava com seus shows no Marrocos, na extinta URSS, Ilha de Capri, Japão, China, África e as reminiscências buscadas na Armênia, a qual presta justa homenagem. Os pais do protagonista eram da geração de armênios nascidos no exílio, neto de sobreviventes do Genocídio Armênio, massacre ocorrido de 1915 a 1923, com uma estimativa de dois milhões de pessoas assassinadas pelas autoridades otomanas. Um acontecimento histórico citado e ilustrado com flagrantes análogos pelos países em que o artista passou ao longo da vida. No filme, além da modéstia revelada nas imagens, menciona a dor pelo filho de 25 anos que faleceu tragicamente. Fatos importantes como o modo fascinante no semblante do seu grande amor, a sueca Ulla, com quem se casou numa cerimônia em Las Vegas e os registros do casal de filhos brincando são cenas marcantes entre som e imagem.

Teve uma carreira de 70 anos e mais de mil canções escritas com participação em dezenas de filmes, inclusive menciona agradecido e carinhosamente a amizade com o cultuado cineasta François Truffaut, ao ter a oportunidade de fazer aparições breves em algumas das realizações do mestre francês. Embora tenha convivido com celebridades, o foco de sua câmera era filmar pessoas anônimas, desde fãs nas filas do teatro até meninos jogando futebol em campinhos de várzea sem grama. “Era esse o propósito do documentário: mostrar o seu ponto de vista como ‘homem’ e não ‘estrela’. Ele captura a natureza humana, não as aparências. Charles filma ruas movimentadas, agitados passeios de barco e, mesmo assim, ele transparece através do que escolheu retratar”, diz o cineasta em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Domenico afirma na entrevista que Aznavour não participou da escolha dos textos e das imagens da obra, mas que o realizador e o filho do cantor, Misha, convidaram o ator Romain Duris para narrar em off o documentário. Retratou com certa melancolia através de uma visão global os prismas de uma exposição dos dilemas universais apontados, ainda que timidamente e sem um aprofundamento maior, mas com a altivez do artista sempre diligente aos percalços que rondam a humanidade e suas transformações.

O longa é uma boa mostragem das observações feitas no cotidiano, a vida boêmia, os sonhos de juventude, a vida de um neófito cantor, a miséria por muitos lugares que passou, dos romances que marcaram os amores conquistados e perdidos com grandes paixões que iriam inspirar as letras de suas antológicas canções que viraram sucessos incontestáveis, tais como: La Bohème, Emmenez-moi, Hier Encore, She, For me e Formidable. “Embora não deixe de ser autobiográfico, pois são documentos de momentos presenciados por ele, o conjunto de filmes feitos por Charles oferece uma visão poderosa e original sobre ele mesmo”, diz na mesma entrevista o documentarista. Eis um filme sensível, delicioso e leve sobre o sentido existencialista, seus ensinamentos reflexivos e emoções com fino humor decorrente de uma vida significativa deste apaixonado por pessoas e sua essência humana colocada na tela. Já no prólogo, relata sua abertura de olhos, coração e mente para o que acontecia fora de Paris, ao ler o best-seller Viagem ao Fim da Noite, do controvertido escritor conterrâneo Louis-Ferdinand Céline. Aznavour por Charles é um admirável filme que contribui sobre a arte da criação musical com reflexos na cinematografia. Um documentário criado com simplicidade, amor, dedicação e dignidade sobre o emblemático artista autobiografado da cultura francesa, que gira em torno dos acasos e das situações genéricas e peculiares das idiossincrasias da vida através de suas canções inesquecíveis e seu olhar atento para a realidade do planeta.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Relatos do Mundo

Destinos Marcados

O cineasta Paul Greengrass realiza com grandes méritos seu primeiro western esbanjando sobriedade e firmeza neste magnífico Relatos do Mundo, baseado no livro de Paulette Jiles, no qual dirigiu e escreveu o roteiro em parceria com Luke Davies, que se passa no ano de 1870, pós-Guerra Civil nos EUA, tendo por consequência muita violência e o racismo reinante no Texas. Tem em sua filmografia vários longas de sucesso, entre os quais se destaca Domingo Sangrento (2002), obra que o fez ser reconhecido no cenário mundial através de sua câmera frenética pelos movimentos constantes ao retratar o massacre de civis pelas tropas inglesas na Irlanda, em janeiro de 1972. Também realizou A Supremacia Bourne (2004), O Ultimato Bourne (2007), e com o Capitão Phillips (2013), dirigiu pela primeira vez o astro Tom Hanks, que agora encarna de maneira irretocável o capitão Jefferson Kidd, personagem central da trama. A grande surpresa positiva do filme ficou por conta da jovem Helena Zengel, que interpreta impecavelmente a determinada a selvagem garotinha alemã Johanna Leonberger, de 10 anos. Embora lançado nos cinemas pela Universal no ano passado, agora está disponível na plataforma da Netflix.

A história é contada com bons artifícios já conhecidos no Velho Oeste, porém sem abusar de tiros e perseguições recorrentes em obras menores. O protagonista possui interessantes argumentos para sua saga numa época de tempos conturbados pela discriminação racial. Lutou em duas guerras, tendo perdido sua tipografia que editava um informativo de notícias jornalísticas. Sua missão atual é viajar pelo sul dos Estados Unidos e fazer leituras dos acontecimentos ocorridos no mundo encontrados nos jornais para pessoas submissas com dificuldades de acesso à realidade. São homens que trabalham para os patrões poderosos de minas de carvão e dos abatedores de animais que não respeitam o mínimo de normas que garantam o bem-estar dos empregados. Em meio à sua jornada, o capitão e ex-combatente aceita uma proposta para levar a menina até seus familiares, após ela ter seus pais mortos num ataque a tribo Kiowa. Ela foi criada com o dialeto indígena e tem dificuldades de comunicação, e por isto, apresenta um comportamento hostil. O vínculo com Kidd é inevitável, como uma relação de pai e filha, que irá forçar os dois a lidarem com as escolhas que terão de tomar no futuro.

O faroeste tem como ingredientes significativos a belíssima trilha sonora de James Newton Howard, sendo executada com perfeição como mola mestra e condutora do enredo, ditando o clímax das cenas do prólogo como no desenrolar até o epílogo. Há o respaldo de uma maravilhosa fotografia assinada por Dariusz Wolski, que rememora imagens lindas realizadas a céu aberto advindas dos antigos westerns de beleza plástica arrebatadora. Não há como esquecer a cena ameaçadora da tempestade de areia que aos poucos se dissipa e vira apenas poeira, colocando os personagens perdidos novamente em contato com a dura realidade e o reencontro com a luz solar que irá dar um novo rumo aos seus destinos. Para alguns críticos, Relatos do Mundo é uma bela homenagem a John Ford e sua obra-prima Rastros de Ódio (1956), tendo a exemplar atuação de John Wayne, com suas variações inerentes dos antigos clássicos para não deixar desaparecer este gênero ainda pouco compreendido, mas que jamais será esquecido por realizadores competentes e engajados na sua renovação e na sua manutenção como arte na essência. O realizador não buscou apenas uma refilmagem da obra de Ford, mas sua intenção era realmente fazer um grande tributo ao inesquecível mestre do western. Em momento algum se afastou dos clássicos recorrentes, mas ao filmar no tradicional cenário do Velho Oeste adere ao tom e a dinâmica cinematográfica que embalou por muitos anos aficionados deste gênero. Cada detalhe, movimento da câmera, luz, fotografia, as tabernas, os julgamentos, as execuções, e o figurino estão harmonicamente distribuídos com primazia e colocados em seus lugares exatos, pontuais e com fidelidade.

Relatos do Mundo tem muitas semelhanças com Bravura Indômita (2010), o exemplar remake dos irmãos Ethan e Joel Coen, no qual também a trama é conduzida pela ótica de uma garotinha de 14 anos que se junta a um agente federal justiceiro, também por uma relação de filha e pai, buscará vingar a morte de seu pai por um bandoleiro famoso. Greengrass revisita o gênero dos filmes do Velho Oeste com o intuito de repetir passos e situações para reforçar as transformações do gênero, e consegue com sobras, tendo vida e luz própria, diante de sua imaginação bem acima da média de diretores medíocres que pululam o universo cinematográfico. Basta observar seu estilo equilibrado no desenrolar da história, sem utilizar os meios para tiroteios forçados ou balas perdidas por tudo quanto é canto. Segue o melhor estilo dos grandes clássicos, no qual nos remete para aguçar as lembranças do magistral Os Imperdoáveis (1992), de e com Clint Eastwood, onde encontramos uma gama de mocinhos velhos, decadentes, sendo que um deles com apenas um olho, também tendo que cumprir a última missão. Também lembra Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson; além do já citado pelas referências em Rastros de Ódio e No Tempo das Diligências (1939), ambos de John Ford, com construções fantásticas de personagens; mas como esquecer Meu Ódio Será Sua Herança (1969), de Sam Peckinpah, ou ainda Os Brutos Também Amam (1953), de George Stevens.

Embora com um desfecho até certo ponto previsível, nem tudo é bonito no fascinante cenário, como se observa na acolhida fria dos tios de Johanna na cena do reencontro e a revolta da menina silenciosa ao ser presa por um dos pés com uma corda na árvore. Uma alegoria do ranço racista ainda imperante naquela comunidade conservadora com valores ultrapassados. Os resquícios de um sistema que ainda segue com os velhos tabus sem abrir mão da liberdade, especialmente das mulheres, mesmo que seja um ente do mesmo sangue, porém visto com desdém e com ausência de carinho e fraternidade. Prevalece aprisionar quem se rebela. Os laços e vínculos irão ao encontro de pessoas desconhecidas como um ato de harmonia pela aproximação casual de civilizações brancas e indígenas contrapondo com o racismo aos negros em conflito permanente. A revelação no epílogo daquelas pessoas desconhecidas sobre seus destinos fará com que também sintam o tempo passar rapidamente. Como bem fica marcado no último ato registrado na tela, há um sopro de lucidez para o recomeço de novas vidas que estavam vendo um ciclo se escoando, que irá conduzir para a reflexão no final dos destinos marcados, como decorrência dolorida da solidão e da sombria rejeição familiar, num comovente desfecho pela emoção digno de um admirável faroeste.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Tigre Branco




 



Castas Sociais

Lançado há poucas semanas pela poderosa plataforma de streaming da Netflix, o filme O Tigre Branco traz na sua construção uma crítica social sarcástica com humor corrosivo e uma violência moderada, com um viés nitidamente anticapitalista. Já é um dos mais vistos e comentados pelos críticos e cinéfilos em busca de histórias com bom conteúdo diante do distanciamento das telonas por conta da pandemia da Covid-19. Baseado no best-seller homônimo de Aravind Adiga, ganhador do almejado prêmio Man Booker Prize de 2008, aborda a história do ambicioso motorista indiano Balram (Adarsh Gourav) que quer fugir da pobreza humilhante e se libertar da vida de escravidão dedicada aos patrões milionários, usando a astúcia para tornar-se um novo rico, precedido de uma ascensão social com decisões ilegais e antiéticas. A direção e o roteiro são do competente cineasta norte-americano descendente de imigrantes iranianos Ramin Bahrani, que tem em sua filmografia os longas A Qualquer Preço (2012) e Fahrenheit 451 (2018).

Eis um drama social indiano coproduzido com os EUA, que tem sua ação transcorrida e filmada totalmente na Índia, para retratar e contar a história do personagem central, um homem bem-sucedido que escreve para o primeiro-ministro da China, explicando como subiu socialmente alguns degraus para chegar até o topo da pirâmide de uma sociedade de castas, resumidas entre pobres e ricos no seu país. Explica que o “tigre branco” que empresta o nome ao título do filme é um animal raro que existe apenas um exemplar por geração. É uma alusão alegórica tão improvável quanto alguém que nasceu pobre no depauperado vilarejo de Laxmangarh acabar ficando rico. O filme mostra que o personagem teve uma infância dura e foi explorado por uma família com requintes de máfia suburbana de um sistema de duas distintas castas. Sobre passar da condição inferior para a superior, diz ser uma lógica inverossímil diante da corrupção reinante naquela sociedade em que o uso de expedientes nefastos são defendidos, uma espécie de “os fins justificam os meios”, celebrizado na obra O Príncipe, de Maquiavel. Desabafa com uma frase ardilosa e raivosa sobre a ascensão: “Um empresário indiano deve ser ético e antiético, crente e descrente, malicioso e sincero, tudo ao mesmo tempo”.

O Tigre Branco está sendo comparado com o cultuado drama Parasita (2019), do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019 e dos Oscars de Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro 2020, no qual alguns críticos entendem como igual, embora não seja, pois está aquém daquela obra que faz uma abordagem bem mais aprofundada e sem restrições sobre a ascensão social de uma família excluída que vive na miséria e todos seus membros estão desempregados. Joon-ho fez um retrato devastador sobre a busca por uma vida digna com todo seu glamour em um núcleo de uma residência composta por um casal rico, uma menina adolescente e um garotinho pré-adolescente, em que só o homem trabalha. No filme da Coreia do Sul, havia discussões amargas e controversas de contornos de grande relevância sobre as regras e o formato que estruturam as relações sociais aceitas ou não pela convivência dolorosa do cotidiano distópico. Ninguém saiu ileso desta convivência marcada por acontecimentos de alta tensão, humor e a tragédia iminente com o resultado do confronto de classes distintas e paradoxais. A sociedade contemporânea estava em pauta e o questionamento foi sobre a polarização pela desigualdade com contornos do desequilíbrio de uma cruel realidade consumista. Havia a violência não gratuita, mas quase circunstancial, pelo desdobramento do enredo com um banho de sangue apoteótico no desfecho. Ao retratar as classes sociais diferentes com personagens de lados opostos, também há uma enorme similaridade com o fabuloso Assunto de Família (2018), de Hirokasu Kore-eda, tanto pela estética como pelo foco social.

Bahrani mostra com boa dose de ironia que fugir do “galinheiro” para não ser a próxima vítima a ter o pescoço cortado como os galináceos é a metáfora que orienta e dá o norte ao protagonista como fio condutor de sua evasão da complexa favela em que as pessoas vivem amontoadas como animais sujos e submissos. A trajetória do protagonista em busca do sucesso vai evidenciar a distopia social impregnada na Índia dos ricaços com suas ostentações através de seus carrões e outros bens luxuosos contrapondo com a saga dos excluídos que se tornaram pessoas na mais ampla miséria espalhadas nos arredores e ruas pitorescas de Nova Déli. Para ter acesso aos influentes bem aquinhoados é preciso aproximar-se deles na única condição possível, a de empregado que segue o ritual da exemplar subordinação sem questionar direitos, tendo somente deveres como lema, inclusive apanhar e não contestar. Dormir numa espécie de “pocilga” no estacionamento também faz parte do manual, bem como não reclamar do horário abusivo e aguentar todos os insultos. Balram consegue se tornar motorista particular de Ashok (Rajkumar Rao), um rapaz simpático do clã milionário, casado com Pinky (Priyanka Chopra Jonas, Miss Mundo pela Índia em 2000). Logo irá ganhar a confiança de todos os membros da família do patrão e do irmão deste, o truculento Mangusto (Vijay Maurya). O casal aparenta estar feliz na Capital, embora haja alguns problemas de relacionamento, pois eles não esquecem a vida e o cotidiano de quando moraram em Nova York. Detestam a cidadania de indianos por não se reconhecerem legítimos cidadãos daquela pátria.

O filme aborda com esmero o casal que, embora despreza os pobres, aparenta uma certa amizade e empatia com os subordinados, até serem descartáveis como objetos. A cena em que Pinky dirige seu carro completamente embriagada, atropela uma pessoa e não presta socorro é tão revoltante como procurar uma espécie de “laranja” para assumir a culpa e evitar o escândalo na sociedade aristocrática imorredoura. Comprar o motorista pobre com muito dinheiro que não faz falta faz parte da estratégia da inviolabilidade. O Tigre Branco é uma antítese da produção premiada com várias estatuetas do Oscar Quem Quer Ser um Milionário(2008), do britânico Danny Boyle, quando o protagonista assevera: “Não acredite nem por um segundo que há um jogo milionário de perguntas e respostas que você pode ganhar para poder sair daqui”. A maldade em conluio com o egoísmo dos indivíduos está em perfeita harmonia para atingir uma estável situação econômica como finalidade, pela ótica de Balram através de um jogo com regras próprias, mesmo que antiéticas e criminosas. Neste sentido, com tintas pessimistas de uma realidade sem escapatórias, o realizador abre feridas e ignora os falsos moralismos de um capitalismo selvagem que deteriora a alma humana e desgasta as relações interpessoais. É uma luta de classes sombreada com a falsa ideia do empreendedorismo, onde a classe trabalhadora tenta superar suas dificuldades enraizadas com objetivo de enriquecer para também ser patrão. O diretor insinua com boa provocação e uma certeira cutucada pontiaguda nos conservadores, onde tudo se move para a ilicitude. A reflexão é proposta como conscientização da repressão de valores que aguardam a absorção de uma sociedade agonizante e com contornos trágicos na busca do poder para abandonar o triste isolamento da universal injustiça social.