A diretora polonesa Agnieszka Holland tem em sua filmografia filmes como Zona de Exclusão (2023), O Charlatão (2020), A Sombra de Stalin (2019) e Rastros (2017). Com Franz, uma cinebiografia sobre a vida e a obra de Franz Kafka (1883-1924), um dos mais importantes escritores do século 20, foi indicado para representar a Polônia no Oscar deste ano na categoria de melhor filme internacional. A trama acompanha sua infância em Praga e segue até a morte na Áustria após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Conhecido por criações literárias perturbadoras, tais como: A Metamorfose, O Processo, O Castelo, Carta ao Pai, e os contos Na Colônia Penal e Um Artista da Fome. Uma interessante história contada com eficiente elaboração ao fazer registros do cinebiografado nesta trajetória de um autor dos mais lidos mundialmente. Interpretado com intensidade e boa dramaturgia pelo convincente ator tcheco Idan Weiss. Não é fácil encarnar o icônico e emblemático romancista em uma construção intimista e psicológica em ritmo moderado, misturando passado e futuro com tons oníricos e marcados pelos absurdos através de uma personalidade bem peculiar.
Com um roteiro multifacetado escrito pela realizadora em parceria com Marek Epstein, narra com algum virtuosismo o conturbado relacionamento do escritor com seu pai (Peter Kurth), autoritário e exigente em uma infância marcada pelo conflito entre os dois, contrapondo com a bondosa, mas subserviente mãe (Sandra Korzeniak). Remete à cinebiografia brasileira Homem com H (2025), de Esmir Filho, não pela estética, mas pela relação paterna com o filho. A rotina de trabalho num escritório de seguros e a forte amizade com seu editor Max Brod (Sebastian Schwarz) e os complicados romances com Felice Bauer (Carol Schuler) e Milena Jesenká (Jenovéfa Boková) são abordagens retratadas com imparcialidade numa atmosfera de dúvidas. Um jovem que ansiava por uma vida comum, com pouca dedicação para dirigir os negócios da família, é a simbologia da angústia que mostra o sofrimento pela repressão. Porém, sua imaginação deriva para escrever suas ansiedades e seus propósitos através de grandes histórias como uma terapia do cotidiano sufocante pela opressão do genitor pelos conteúdos emocionais e o microcosmo familiar sendo expostos ao espectador com boa dosagem de emoção. Pontua o escritor na essência como artista e ser humano, quase que um documentário, buscando uma fidelidade, embora haja idas e vindas no roteiro, sem seguir uma cronologia.
O cineasta Steven Soderbergh já havia adaptado para a telona o filme Kafka (1991) ao colocar o romancista como protagonista numa trama de suspense psicológico. Abordou as paranoias e obsessões num lugar controlado por senhores misteriosos num castelo de Praga, em 1919, mostrando um burocrata do serviço público que escreve nas horas vagas. Já Holland retrata a desarmonia familiar, as neuroses e a inquietação do escritor com imparcialidade nesta sua realização atual. Passou em revista com alguma sutileza a vida pessoal, artística e a todos os caminhos trilhados do renomado protagonista. Logo se percebe a desenvoltura e o senso crítico desde a infância em Praga até a morte emViena, decorrente da tuberculose, como uma característica atrelada na personalidade forte e rebelde de jamais se subordinar ao sistema autoritário, metáfora de um mundo em crise advinda da Primeira Guerra Mundial. A começar pelo pai opressor símbolo de uma época machista beirando à tirania de um paternalismo sufocante; próximo da irmã caçula (Katharina Stark); e do amigo e editor que o incentiva categoricamente ao afirmar: "Franz, só você consegue fazer o lixo parecer bonito". As sequências que envolvem o escritor que não se deixa dobrar mostram sua disposição e a vontade expressa de buscar novos rumos sem amarras, como escrever suas aflições dilacerantes. Um filme que busca a humanização nos momentos difíceis pela árdua superação que resulta no profundo desabrochar pela metamorfose em direção ao renascimento de um escritor até a publicação de suas obras, reconhecidas posteriormente. A celebração pelos visitantes de várias cidades do mundo transforma cada sequência, multiplicado em ganchos para a entrada da vida e da obra de Kafka, sem ser linear no roteiro, com cenas contemporâneas no museu, discutem o legado literário pós- morte num ícone pop como atração turística.
A literatura servia de fresta para a libertação do indivíduo anestesiado em trabalhos burocráticos de extrema monotonia como um burocrata de uma seguradora e seu furor para soltar seus fantasmas escrevendo. Sombrio e com dificuldades para o amor pleno como um homem preso às suas idiossincrasias que quer se libertar de uma sociedade hipócrita e anômala por decorrência de um sistema caolho como visão universal imaginária, pelo seu ponto de vista, para atingir o coletivo. Como na leitura pública do conto Na Colônia Penal, o personagem central intercala o desconforto daquela plateia burguesa com a dramatização cruel da história sádica sobre uma máquina do tempo que leva horas gravando a sentença na pele de um condenado sendo martirizado por um sofrimento físico e moral como êxtase da punição pelos seus algozes. São passagens que simbolizam as amarguras na vida do cinebiografado com situações de pouca delicadeza e uma beleza constrangedora vinda da dor dilacerante de uma obra com estrutura narrativa fragmentada, não linear e cheia de perspectivas que se cruzam, na qual são criados paralelos entre o homem e o escritor, repleto de instintos selvagens, sem se afastar da realidade.
Franz transmite uma reflexão para se entender e compreender este escritor tão relevante e autêntico, que quebra regras e paradigmas sociais obsoletas e preconceituosas ao criar as suas para uma vida própria com dignidade, quando luta com resiliência contra os obstáculos. Ousado para ter a tão obsessiva soberania de escrever para soltar suas ilusões adormecidas e valorizar o espírito libertário de uma alma sem aprisionamento. Uma realização que poderia ser melhor explorada diante da notável biografia significativa do personagem central e sua literatura. O resultado poderia ser melhor para deleite do espectador nesta imersão que beira pelos caminhos das tensões oriundas de um período de guerra em que se passava de iminente ameaça. A história contada faz estes registros na turbulência de um período em sincronia com os eventos de turbulência mundial. Um passeio pela trajetória de fatos verídicos que marcaram uma existência entre prós e contras, poucas alegrias e mais dissabores, sem os estereótipos vistos em várias realizações, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar uma história recheada de futilidades das celebridades. Há méritos por não se ater e explorar pieguismos baratos. Uma narrativa que poderia ser mais profunda e arrebatadora deste importante legado literário, caso a diretora estivesse melhor inspirada.









