terça-feira, 25 de maio de 2021

Nomadland

Viagem Existencial

Nomadland é o longa-metragem que vem consagrar definitivamente Chloé Zhao ao ser premiada com o Oscar e o Globo de Ouro na categoria de Melhor Filme, que a fez se tornar também a segunda mulher oscarizada com a estatueta de Melhor Direção. Além de diretora, roteirista, produtora e editora, esta jovem chinesa de 39 anos, radicada nos EUA, ganhou ainda o Leão de Ouro no Festival de Veneza e o People's Choice Award no Festival Internacional de Cinema de Toronto. Conhecida por seus trabalhos independentes: Songs My Brothers Taught Me (2015), Domando o Destino (2017), e o inédito Os Eternos (2021). Desta vez, a dobradinha foi feita com a atriz americana Frances McDormand, de 63 anos, casada com o cineasta Joel Coen, desde 1984, que atingiu a marca de três estatuetas do Oscar, tendo antes sido laureada em Fargo (1996) e Três Anúncios Para um Crime (2017). Então, a equipe fez as malas e colocou o pé na estrada para viajar por cinco estados, durante várias semanas, com uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, como dizia o saudoso cineasta mais influente do efervescente Cinema Novo brasileiro, Glauber Rocha.

A trama gira em torno de Fern (McDormand- excelente atuação ao carregar o filme nas costas), uma mulher de 60 anos, que entra numa velha van, mas bem equipada, com tudo dentro para atender o básico da dignidade humana. Parte para uma longa trajetória na esperança de viver fora da sociedade convencional, como uma moderna nômade, após o colapso econômico que abalou a cidade industrial de Empire, na zona rural de Nevada, nos Estados Unidos, diante da desativação de uma grande fábrica que a fez perder o emprego. Além de McDormand e David Strathairn, que interpreta um idoso interessado em Fern, todos os demais personagens são atores amadores selecionados entre os nômades reais. A protagonista é vítima da Grande Recessão de 2008 que impactou as vidas de milhares de pessoas por uma recessão poucas vezes vista. Ela carrega também o luto do marido falecido, mas tenta superar esta que foi a maior perda de sua vida. Na sua obstinada jornada, consegue empregos temporários, tem contratempos com o veículo, mas constrói algumas amizades e descobertas, como revelações de criaturas amarguradas e solitárias na saga pelos caminhos que irá desbravar. Entre tantas personagens reais, está Linda May, assim como outros nômades da terceira idade que trabalharam durante décadas para ter um padrão de vida confortável da classe média, porém com um câncer invasivo e dúvidas de que teria alguns anos para descansar, conta suas angústias. Já o mentor Bob Wells, outro personagem que interpreta sua vida, embora ainda abalado pelo suicídio do filho, fala do sistema de Seguridade Social de seu país, que dá uma aposentadoria mensal modesta de US$ 500 e da opção de escolher entre comer, ir ao médico ou ter uma casa.

A realização é uma mescla de ficção e realidade, rotulada por alguns críticos como um filme híbrido, que por vezes torna-se um documentário, diante dos relatos tristes de demissão, divórcio, dívidas e perdas por hipotecas. Baseado no livro-reportagem da jornalista Jessica Bruder, publicado em 2017 nos EUA, que conta histórias verdadeiras e amargas, porém a protagonista é ficcional que está cercada por autênticos nômades encontrados no mundo real, e em fuga distópica com um olhar distante, sem as benesses do lazer. São indicativos de um futuro sombrio com a precarização do trabalho e uma aposentadoria cada vez mais improvável. Inquietações e atrocidades são reveladas oriundas de uma crise econômica devastadora, porém que solidificará uma rede de solidariedade entre aquelas criaturas em fuga da realidade.

A diretora demonstra que ao abandonar o ideal da classe média, os personagens solitários também recuperam a reminiscência da juventude que mitificou os hippies. Ajudam-se na montagem dos veículos, na busca de empregos de freelancer e lidar com os abusos dos empregadores. A comunidade on-line cria blogs para trocar experiências das viagens sem destino e suas andanças pelas estradas. Não perdem o prazer de dançar e propiciar encontros como um poema de amor à vida e exaltação à natureza, embora a decrepitude esteja estampada na fisionomia de muitos e a proximidade da morte esteja espreitando algumas vidas já condenadas. Uma boa reflexão sobre as amizades sendo fortalecidas neste epílogo de suspiro existencial de interessantes diálogos através de uma peregrinação na qual todos seguem, tendo de lidar com as fragilidades da vida para valorizar cada momento pelas lentes de uma fotografia majestosa de belas imagens. Uma abordagem de cunho sensorial, com uma trilha sonora não invasiva que dá o tom certeiro na melodia, para adequar simbolicamente uma volta ao passado pelo itinerário do presente, sem um futuro definido pelas poucas luzes no horizonte.

Nomadland é um admirável filme sombrio, mas no qual a esperança se confunde com a melancolia, por alguns instantes, dando sinais de aflição e consolos nos sentimentos da convivência dos personagens mergulhados na solidão. Em outros momentos, cede lugar para edificar, tanto pela adversidade, como pela dor da perda, como por escassos instantes de prazer daqueles seres buscando o reconhecimento da dignidade para serem valorizados. Há uma atmosfera equilibrada dos contrastes da liberdade e o medo da jornada espiritual de aventuras nos questionamentos da vida neste retrato honesto sobre uma parcela da população norte-americana no enfrentamento dos perigos diários decorrentes do frio congelante e a pobreza iminente. Uma imersão de magia na naturalidade proporcionada pela cineasta neste legítimo drama road movie, que mostra com tintas consistentes o pós- crise de 2008 e o número expressivo de pessoas que irão se abrigar em automóveis como suas casas, sintetizado no desabafo da personagem central. Estão lá mais por falta de opção do que por uma prazerosa escolha. Eis um retrato sensível, maduro e quase que poético advindo dos núcleos familiares decorrentes das fragilidades do isolamento social que dá lugar para o convívio e a fraternidade naquele espaço desalentador de ilusória harmonia coletiva.

sexta-feira, 16 de abril de 2021

Meu Pai

Demência Devastadora

Indicado ao Oscar deste ano em seis categorias (melhor filme, ator, atriz coadjuvante, roteiro adaptado, design e edição), disponível nas plataformas Net/Claro Now, Apple TV e Google Play, o longa-metragem Meu Pai, do romancista e teatrólogo francês Florian Zeller, que tem uma estreia promissora na direção com sobriedade e sensibilidade sobre a perda da lucidez e o mergulho no mundo dos devaneios da fantasia e do imaginário de um idoso octogenário que começa perder a memória. Distancia-se do cotidiano para oscilar entre uma triste realidade de outrora e de reminiscências de um passado longínquo. São situações delicadas que irão causar desconforto e perplexidade entre os mais próximos, como a recusa da ajuda da filha que pretende se mudar para Paris e precisa garantir os cuidados dele enquanto estiver fora. Na ânsia de buscar alguém como cuidadora, surgem as mudanças pertinentes da grave moléstia do Alzheimer (a Organização Mundial da Saúde estima que haja atualmente 35 milhões no mundo) que irão atordoar e lançar desconfianças e dúvidas entre o enfermo e seus familiares, como a confusão mental estabelecida até uma ruptura da estrutura do mundo real. Ingredientes estes que devem ser creditados ao fértil roteiro adaptado magistralmente da peça teatral Le Père (2012) por Christopher Hampton, oscarizado por Ligações Perigosas (1988), em parceria com o diretor.

A história é aparentemente simples, mas a complexidade do enredo está mais para uma reflexão dolorida do que para as inquietudes e desconfianças de Anthony (Anthony Hopkins- em mais uma atuação soberba e irreparável) que ainda conserva sua imponência de um lorde, apesar dos constantes ataques de confusão e esquecimento. Recusa-se terminantemente a admitir, embora por força da saúde já dando mostras de um estágio debilitado como as sucessivas acusações do furto de seu relógio. Como um artefato explosivo que cai no colo, a filha Anne (Olivia Colman- impecável na interpretação com doação) travará uma batalha diária inglória e desgastante para cuidar do pai e evitar maiores dissabores com o cotidiano. Ela terá ainda que lidar com as cobranças do intransigente marido Paul (Rufus Sewell), que insiste em internar o sogro num asilo. A preocupação da filha e o seu dilema diário estão associados a possíveis acidentes domésticos, pois ele não consegue viver sem a ajuda de terceiros, mas mesmo assim insiste em morar com a filha em seu apartamento confortável. Com suas obsessões e manias adquiridas, bota a correr todas as zelosas cuidadoras, exceto Laura (Imogen Poots) com quem associa a semelhança física com a outra filha Lucy, morta tragicamente há muitos anos.

Como um novelo que se desenrola nesta experiência sensorial, o realizador vai lançando as situações diárias típicas de conflitos com as empregadas, bem como o choque de frente do pai com a filha e o marido. O filme propõe a meditação sobre a chegada da devastadora demência na terceira idade tendo como consequência as peraltices causadas pela vítima da doença que aflora sem piedade e não como um elemento agressivo de quem tem as faculdades mentais sadias. Como referências de subsídios já foram realizados outros excelentes filmes com a mesma temática: Nebraska (2013), de Alexander Payne, O Filho da Noiva (2001), de Juan José Campanella, Sr. Kaplan (2012), de Álvaro Brechner, Para Sempre Alice (2014), de Lisa Genova e A Viagem de Meu Pai (2015), de Philippe Le Guay. Na mesma esteira, porém com um viés um pouco diferente pelo contexto da eutanásia em foco, há a obra-prima Amor (2012), de Michael Haneke, no qual o companheiro trocava fraldas geriátricas, alimentava com papinhas na boca, medicação, água e dava banho, embora a contundência psicológica do personagem fosse mais intensa e agressiva, diante da aproximação iminente do ocaso implacável da vida. Zeller constrói um universo perverso advindo do tempo passando, mas não deixa cair no melodrama, mesclando o bom humor e a sensibilidade das situações cômicas ingressarem como um doce amargor decorrente de uma acidez involuntária de uma vida que se esvai lentamente. Assim é o avanço da idade e os cuidados especiais que requerem, através da sugestão implícita do acometimento nefasto da memória corroída através dos recorrentes lapsos incuráveis que se agravam ao longo da existência.

O desenrolar do drama vivenciado pelo protagonista através de sua visão, dará um ângulo correto pela distorção da enfermidade, criando fantasias com confusão mental ao dizer à nova cuidadora ser um dançarino, embora fosse um engenheiro aposentado; os delírios e as hostilidades com o genro são situações que se agravam, embora o cineasta deixe em aberto a possível agressão sofrida pelo idoso. As alucinações crescem e os conflitos aumentam com as adversidades cada vez mais presentes. Cria-se um clímax de suspense psicológico com o passado da filha falecida, num emaranhado de novas situações que povoam a mente do pai no antagonismo com Anne e seu drama em deixá-lo numa casa de repouso e ir para o exterior. A internação abrupta será certamente traumática para ambos. Os enfermeiros Bill (Mark Gattis) e Catherine (Olivia Williams) entram na ciranda confusa das digressões e pensamentos do passado pela visão de Anthony, que pedirá a presença da mãe para levá-lo para casa numa súplica angustiante e, aos prantos, chora como criança desamparada e assustada pelo terror do momento nos braços da meiga enfermeira. Pergunta: “quem sou eu?”, em comoventes e doloridas cenas, em que a agonia do protagonista com alguns lampejos de lucidez dói no espectador e na profissional da saúde.

Meu Pai não é mais um filme sobre demência e a relação familiar, devendo estar na lista dos dez melhores do ano. A singularidade está no instigante roteiro ao apresentar a situação pelos dois pontos de vista. Tanto do idoso e sua solidão, bem como a vida da filha e as circunstâncias que se apresentam no dia a dia. O desfecho é arrepiante ao elucidar a temporalidade e o real espaço físico das imagens que até então eram mostradas como num jogo de xadrez. É a realidade de uma situação sinistra e definitiva da deterioração mental para sempre como somente o cartão postal no epílogo irá revelar a versão correta de tempo e a sincronia do enredo no flashback ocultado pelo diretor. Uma inesquecível obra no formato de gestos teatrais na mais pura essência cinematográfica sem rótulos sobre o início e a melancólica finitude diante dos sentidos cognitivos que levam para a perda dos sentidos. Uma impactante proposta direta e sem pasteurização da evolução (início da destruição do cérebro, por consequência a razão, e finalmente minando a consciência) até atingir o ápice deste extraordinário drama familiar existencial com imagens finais de árvores e seu verde de esperança de um novo dia contrastando com o olhar desorientado. Fica acentuado o estrago pelo avanço da moléstia arrebatadora dentro de um contexto chocante e seus prejuízos que fluirão paradoxalmente na reconstrução familiar buscada nos pequenos detalhes. Eis uma pungente abordagem que ganha tons de uma imersão paranoica obsessiva pela desorientação da impotente vítima na passagem das luzes se apagando na contemplação da ruptura com o presente e o futuro, restando alguns resquícios do passado.

sexta-feira, 9 de abril de 2021

Druk - Mais uma Rodada

Limites do Alcoolismo

Thomas Vinterberg e Lars von Trier, no mês de março de 1995, em Copenhague, lançaram um manifesto cinematográfico internacional denominado Dogma 95. Era um movimento estético, exatamente no centenário de nascimento da sétima arte. Começa com a publicação de dez regras de ética e valores, conhecidos como voto de castidade, tendo como objetivo principal o resgate de um cinema mais realista e menos comercial, anterior à exploração industrial de Hollywood. Em sendo aprovado pelos seus membros, receberia o Certificado Dogma 95. Foi a mais inventiva escola, depois da celebrizada Nouvelle Vague. Von Trier dá a partida com Os Idiotas (1998), segundo filme do movimento, depois vem Dançando no Escuro (2000), premiado com a Palma de Ouro em Cannes como Melhor Filme. A consagração vem com o fabuloso Dogville (2003), que tem sequência com Manderlay (2005), também em grande performance e fiel ao seu estilo proposto de um cinema mais simples, sem muita luz artificial e com cenários externos exclusivamente. Mas foi Vinterberg que recebeu o selo nº. 01 de certificado Dogma 95 para seu filme Festa de Família (1998), que mostra uma sessão de terapia coletiva, revelando ressentimentos e aflorando fortes revelações num aniversário. Fracassou com Dogma do Amor (2003), e melhorou com Querida Wendy (2005).

O diretor dinamarquês retornou com vigor e todo fôlego em Submarino (2010), deixando definitivamente para trás o movimento que criou, numa trama bem urdida de dois irmãos com grandes recordações e feridas abertas de uma infância conturbada pela tragédia da perda do caçula e, sobretudo, pela convivência diária com a mãe alcoólatra e agressiva com seus dois filhos maiores. Símbolo de um lar desestruturado e destroçado pelo vício e a morte rondando permanentemente. Realizou depois a obra-prima A Caça (2012), contundente reflexão sobre os preconceitos contemporâneos e da pressão de uma casta dentro de uma comunidade conservadora sobre os direitos e princípios morais do indivíduo acuado e liquidado moralmente para sempre, como se depreende da última cena da caçada no mato de um homem acusado injustamente pela prática de pedofilia. Agora, o cineasta retoma a temática do alcoolismo na excelente comédia dramática Druk -Mais uma Rodada, em cartaz na Net/Claro Now, Apple TV, Google Play e You Tube, ao abordar a história de quatro professores com diversos problemas em suas vidas. Eles irão testar a teoria de um estudo sobre a necessidade do corpo humano viver com um teor alcoólico de 0,05 em suas correntes sanguíneas para ter mais prazer, relaxar, e ter melhor desempenho nas aulas.

Com bom humor mesclado por algumas crises existenciais, o enredo irá conduzir para que eles passem a beber diariamente uma taça de vinho ou de espumante; depois tomam cerveja e vodka. O consumo das doses aumenta cada vez mais até se tornarem potenciais alcoólatras, no limite tênue do equilíbrio que passa para o descontrole total e evolui para problemas que estavam submersos, chegando à violência doméstica para explodir na crise conjugal, a pouca relação com os filhos do protagonista e fio condutor da trama, Martin (Mads Mikkelsen, o premiado ator do filme A Caça no Festival de Cannes, novamente teve uma atuação antológica, sem precisar falar muito, se expressa pelos olhares e os movimentos corporais). Ele está num dilema ao ser colocado em xeque nas aulas de História, mais uma razão para buscar energia nas bebidas para os novos desafios dos alunos. Os outros três colegas irão lhe dar apoio na nova teoria do álcool: Nikolaj (Magnus Millang) leciona Filosofia e aparentemente é um pai dedicado à esposa e os três filhos; Toomy (Thomas Bo Larsen) é um sensível instrutor solteiro de Educação Física que sempre protege o garotinho de óculos nas partidas de futebol; já Peter (Lars Ranthe) ministra aulas de música no coral. Os atores não encenaram bêbados, mas tomaram grandes porres nos ensaios antes das filmagens, para ar um realismo natural pós-embriaguês.

Indicado pela Dinamarca ao Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme Internacional, a realização cria uma experiência dos personagens e retrata os limites do alcoolismo com suas próprias vidas e o poder do vício nesta história escrita pelo diretor em parceria com Tobias Lindholm. Foi baseada em relatos da filha do cineasta sobre uma brincadeira de estudantes que correm em torno de um lago e competem sobre quem bebe mais. Ida morreu aos 19 anos num acidente de carro provocado por um motorista distraído que dirigia olhando o celular. Ela estrearia como atriz neste filme, mas a tragédia ocorreu no quarto dia de filmagens. Vinterberg pensou em cancelar toda a produção, mas foi convencido a continuar para homenagear a filha que certamente gostaria de ver o filme pronto, tendo em vista que ela deu a ideia do projeto na abordagem dos reflexos da pressão da sociedade focando os dramas existenciais de professores com suas vidas entediadas num cotidiano que beira melancolia. O realizador menciona na trama Roosevelt e Churchill que afirma: “eu não bebo antes do café da manhã”, ambos perdem para Hitler numa brincadeira paradoxal sobre caráter numa aula de História. Outros líderes mundiais são citados com atitudes suspeitas de embriaguez em apresentações e discursos, entre eles estão Boris Yeltsin, Clinton e Brejnev.

O longa tem um desenrolar equilibrado entre os benefícios do álcool, sem fazer apologia, como na cena em que o aluno bebe moderadamente para relaxar e ser aprovado contrastando com o personagem que sofre os efeitos nefastos da bebida e vem a falecer por ter a saúde debilitada. A diretora do estabelecimento de ensino que faz uma reunião para tratar da suposta embriaguez de alunos e seus mestres é outro ponto de lucidez que o cineasta enfatiza em uma das cenas para afastar alguma tendência de enaltecimento das bebidas. Em outra cena, há a posição do psicólogo que critica o álcool em uso prolongado e seus efeitos devastadores. Os quatro amigos acabam por beber em demasia, dão show em casas noturnas, correm nas ruas até caírem. “Esse país só sabe beber mesmo”, diz a esposa de Martin. Embora não haja semelhança estética, mas apenas temática, pode ser comparado com Coração Louco (2009), de Scott Cooper, na trajetória clássica de derrotas de um cantor country, com uma vida desregrada pelo alcoolismo e em decadência iminente. Também há alguma semelhança temática com o clássico americano Farrapo Humano (1945), com a qualificada direção do mestre Billy Wilder, em que Ray Milland protagonizou aquele triste espetáculo dantesco de uma pessoa desmoronando.

A relação de amizade do quarteto docente nos remete para a inesquecível fábula filosófica A Comilança (1973), de Marco Ferreri, com Marcello Mastroianni, Ugo Tognazzi, Michel Piccoli e Philippe Noiret, onde quatro senhores entediados com a vida se trancam numa mansão com uma quantidade enorme de comida, planejam comer até morrer, mas antes combinam uma orgia sexual com prostitutas. Druk -Mais uma Rodada tem um epílogo catártico da formatura celebrada por jovens tomando espumantes dentro de um caminhão que irá contrapor com a esquecida esposa suplicando o retorno do marido vacilante entre a lucidez e o desatino mental que opta pela liberdade da escolha das atitudes que culmina no voo para o mergulho simbólico na águas do rio. São apontadas as consequências trágicas do final em aberto de uma realização imparcial sem proselitismos ou apologias. Deixa o recado sobre o equilíbrio e os limites escassos da bebida diante dos excessos, abordando tanto o lado bom deste desafio da bebida contrastando com o pior cenário possível. Eis uma singular comédia dramática que deixa na sua essência ensinamentos para o espectador refletir, passando longe do politicamente correto.

quarta-feira, 24 de março de 2021

Agente Duplo

Abandono e Solidão

Agente Duplo é o digno representante do Chile no Oscar deste ano e, pela primeira vez, disputa a categoria de documentário, sendo aclamado pelo público e pela crítica com mais de 90% de aprovação no site Rotten Tomatoes, podendo ser visto na Globoplay. Escrito e dirigido pela documentarista Maite Alberdi, conhecida até agora em seu país por temas de pouca relevância, sem atrair significativamente as atenções dos cinéfilos. Entre suas realizações estão Hora do Chá (2014), Los Niños (2016) e Rito de Passagem (2016). Finalmente alcança o reconhecimento mundial com esta fascinante obra de exercício metalinguístico em seu formato, que transita do documentário, ideia inicial embrionária da produção e da direção, para tornar-se na realidade uma comédia dramática com pitadas de espionagem e filme-denúncia. Ganhou o prêmio do Público no Festival de Cinema de San Sebastián e foi finalista no Prêmio Goya. A cineasta, premonitoriamente, em entrevista ao jornal El País, antes de ser indicada como finalista pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, profetizou: “Este é um marco para um documentário chileno”. A mais recente produção premiada dos chilenos foi com o drama Uma Mulher Fantástica (2017), de Sebastian Lelio, na categoria de melhor filme em língua estrangeira, sobre a violência contra uma mulher transgênero. Em 2013, No, de Pablo Larraín, concorreu, mas não obteve premiação.

No prólogo da realização, a diretora coloca Rômulo Aitken, proprietário de uma empresa de detetives, fazendo uma minuciosa seleção para encontrar o perfil mais adequado para o idoso que fará o papel de um agente espião, que será infiltrado sob a farsa de uma internação comum no Asilo São Francisco. O objeto da investigação é a desconfiança de maus-tratos e negligência dos funcionários no interior da casa de repouso, diante de uma suspeita da filha de uma senhora, suposta vítima. Sergio Chamy, um viúvo de 83 anos, foi o vencedor da inverossímil tarefa de um emprego temporário por três meses, porém lhe soa como uma libertação dos filhos e netos neste período, além de esquecer o luto e as lembranças da esposa falecida recentemente. O contratado deverá executar as atividades de um detetive particular para espionar, devendo fazer relatórios diários, adaptar-se ao vídeo do Facebook e manusear uma caneta com câmera digital num óculos. Tecnologias estas que são distantes de seu real mundo da presença física, mas indispensáveis para obter dados e informações sigilosas com o auxílio da internet.

O protagonista se torna venerado dentro do lar, logo conquista o posto de “Rei do Baile” durante uma festa de aniversário, sendo cercado por grande parte das mulheres, que são maioria no recinto. O espião narra em seu relatório com dor e melancolia o cotidiano de várias internadas que perderam o sentido da vida. Lá, encontra uma senhora que faz pequenos furtos; outra, que se apaixona e quer casar para refazer a vida com ele; tem a que recita poemas; a idosa que está perdendo a memória por uma doença degenerativa, que sentia a falta de visitas dos familiares e necessita de fotografias dos parentes próximos; também a que fala com a mãe imaginária por telefone; outras ficam no portão externo à espera de visitas que nunca acontecem. Finalmente conclui sua exposição reveladora dizendo que a suposta vítima de maus-tratos nunca recebeu a visita da filha contratante das investigações, ou seja, está esquecida literalmente, carente e solitária. Uma autêntica denúncia de abandono que se materializa com contundência advinda da triste frieza familiar e o egoísmo latente que salta aos olhos do agente que fez pequenas amizades naquele ambiente de tédio retumbante num cotidiano de ausência de afeto de filhos e netos.

A gaúcha Ana Luiza Azevedo, no drama Aos Olhos de Ernesto (2019), colocou magnificamente os traumas das perdas e dissabores do envelhecimento com muita sutileza e sensibilidade para uma profunda reflexão. Fez um mergulho nos confrontos e adversidades da irônica "melhor idade" e o espectro da solidão melancólica. Com dignidade e algum otimismo também se debruçou sobre a temática o diretor argentino Daniel Burman em Dois Irmãos (2009), enfatizando o afago final das águas do rio que serviam de cenário para o domicílio daquelas idosas criaturas inertes, distantes e sobreviventes do universo familiar. Através da beleza estética de Laís Bodanzky, realizou o estupendo drama Chega de Saudade (2008), tendo como cenário um clube de São Paulo com suas diversas histórias numa noite de baile, aflorando as ilusões e desilusões, perdas e ganhos, amor e traição, para sintetizar tudo num imenso isolamento social. Pelo olhar de Marcos Bernstein, vimos o ótimo O Outro Lado da Rua (2004), refletindo a dor da solidão da idade, reavaliando suas vidas e descobrindo novos rumos. Em GranTorino (2008), de Clint Eastwood, foi abordada as perdas hereditárias e os valores dos descendentes colocados em xeque de forma satisfatória pelo decadente herói de guerra. Já Alberdi faz um painel com nuances importantes dos idosos solitários desprezados nos asilos transformados em depósitos, como fio condutor para o desfecho do processo das emoções e a vazão para uma grande sombria existência humana alicerçada sobre o angustiante tema universal da terceira idade dos esquecidos pelos familiares.

A dosagem de humor está no ponto certo e torna adequada esta obra minimalista para retratar com equilíbrio o drama existencial daquelas pessoas mergulhadas em uma solidão devastadora pelo abandono nas clínicas geriátricas. “Meu filme de detetives é na verdade uma desculpa para ver um assunto que, sem essa desculpa, talvez ninguém visse”, afirma a diretora na mesma entrevista, que depois arremata: "Antigamente, não era comum ter parentes nesses locais. Os avós moravam com os filhos e netos. Mas hoje moramos em casas menores, onde não há espaço para eles muitas vezes". Informa a documentarista que embora se sentisse culpada por ter enganado a direção do asilo ao dizer que seu filme era uma ficção sobre a velhice, não houve maiores problemas posteriores na montagem, tendo em vista que o objetivo era retratar a importância desses asilos no cotidiano das famílias. O documentário que deveria ser sobre as más condições da casa de repouso, acaba por se transformar em uma eloquente denúncia de abandonados na velhice pelos parentes, por serem pessoas completamente descartáveis. Embora as pétalas de uma rosa caindo sobre um riacho indiquem um ar de romantismo poético com suspiro de uma minguada esperança, há o contraponto das idosas cochilando entediadas num banco ao entardecer. Agente Duplo revela admiravelmente as imagens de vidas combalidas que despertam compaixão num cenário desolador pela imensurável solidão, perda da lucidez, até o embate entre vida e morte, diante das emoções existenciais sobre o progressivo fim de seres humanos abandonados.

sexta-feira, 19 de março de 2021

Aznavour por Charles

Grande Legado

A cineasta belga naturalizada francesa, Agnès Varda, deixou um legado imensurável, com realizações abrangentes e muitas reflexões com críticas pontuais à sociedade e seus preconceitos em Varda por Agnès (2019). Não foi somente um documentário autobiográfico testamentário, mas também um mosaico do passado, presente e do futuro, onde aparecem intercalados personagens sofridos por uma sociedade cruel com a humanidade. Com alguma similitude de temática de visão do mundo, o documentário Aznavour por Charles, que pode ser visto na Net/Claro Now, depois de ter estreado no cinema, acabou sendo mais uma vítima da pandemia. O próprio lendário cantor e compositor mundial celebrizado pelo público e pela crítica pelas suas canções marcantes filmou sua vida e como a desfrutou durante sua existência. Até o dia em que mostrou o material que capturou ao longo de 34 anos para o cineasta e amigo Marc di Domenico, que ficou impressionado com as imagens. Do material doado do diário cinematográfico, resultou montado 83 minutos. A câmera era o fiel guardião para os registros do artista, pois gravava tudo que via por onde andava, tais como os amigos, seus amores e suas dificuldades tediosas pertinentes.

A história dos registros começou em 1948, quando a grande amiga Edith Piaf (1915-1963), já famosa por La Vie en Rose, presenteou Charles Aznavour (1924-2018) com uma câmera Super 8, ainda desconhecido da maioria das pessoas, que se tornou um bem particular essencial e nunca mais a largou. Varda tinha uma trajetória dedicada ao cinema, fotografia, artes visuais e o companheiro de todas as horas Jacques Demy como elementos de amor e paixão. Aznavour filmou não só sua vida, mas o dia a dia por onde passava com seus shows no Marrocos, na extinta URSS, Ilha de Capri, Japão, China, África e as reminiscências buscadas na Armênia, a qual presta justa homenagem. Os pais do protagonista eram da geração de armênios nascidos no exílio, neto de sobreviventes do Genocídio Armênio, massacre ocorrido de 1915 a 1923, com uma estimativa de dois milhões de pessoas assassinadas pelas autoridades otomanas. Um acontecimento histórico citado e ilustrado com flagrantes análogos pelos países em que o artista passou ao longo da vida. No filme, além da modéstia revelada nas imagens, menciona a dor pelo filho de 25 anos que faleceu tragicamente. Fatos importantes como o modo fascinante no semblante do seu grande amor, a sueca Ulla, com quem se casou numa cerimônia em Las Vegas e os registros do casal de filhos brincando são cenas marcantes entre som e imagem.

Teve uma carreira de 70 anos e mais de mil canções escritas com participação em dezenas de filmes, inclusive menciona agradecido e carinhosamente a amizade com o cultuado cineasta François Truffaut, ao ter a oportunidade de fazer aparições breves em algumas das realizações do mestre francês. Embora tenha convivido com celebridades, o foco de sua câmera era filmar pessoas anônimas, desde fãs nas filas do teatro até meninos jogando futebol em campinhos de várzea sem grama. “Era esse o propósito do documentário: mostrar o seu ponto de vista como ‘homem’ e não ‘estrela’. Ele captura a natureza humana, não as aparências. Charles filma ruas movimentadas, agitados passeios de barco e, mesmo assim, ele transparece através do que escolheu retratar”, diz o cineasta em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. Domenico afirma na entrevista que Aznavour não participou da escolha dos textos e das imagens da obra, mas que o realizador e o filho do cantor, Misha, convidaram o ator Romain Duris para narrar em off o documentário. Retratou com certa melancolia através de uma visão global os prismas de uma exposição dos dilemas universais apontados, ainda que timidamente e sem um aprofundamento maior, mas com a altivez do artista sempre diligente aos percalços que rondam a humanidade e suas transformações.

O longa é uma boa mostragem das observações feitas no cotidiano, a vida boêmia, os sonhos de juventude, a vida de um neófito cantor, a miséria por muitos lugares que passou, dos romances que marcaram os amores conquistados e perdidos com grandes paixões que iriam inspirar as letras de suas antológicas canções que viraram sucessos incontestáveis, tais como: La Bohème, Emmenez-moi, Hier Encore, She, For me e Formidable. “Embora não deixe de ser autobiográfico, pois são documentos de momentos presenciados por ele, o conjunto de filmes feitos por Charles oferece uma visão poderosa e original sobre ele mesmo”, diz na mesma entrevista o documentarista. Eis um filme sensível, delicioso e leve sobre o sentido existencialista, seus ensinamentos reflexivos e emoções com fino humor decorrente de uma vida significativa deste apaixonado por pessoas e sua essência humana colocada na tela. Já no prólogo, relata sua abertura de olhos, coração e mente para o que acontecia fora de Paris, ao ler o best-seller Viagem ao Fim da Noite, do controvertido escritor conterrâneo Louis-Ferdinand Céline. Aznavour por Charles é um admirável filme que contribui sobre a arte da criação musical com reflexos na cinematografia. Um documentário criado com simplicidade, amor, dedicação e dignidade sobre o emblemático artista autobiografado da cultura francesa, que gira em torno dos acasos e das situações genéricas e peculiares das idiossincrasias da vida através de suas canções inesquecíveis e seu olhar atento para a realidade do planeta.

segunda-feira, 8 de março de 2021

Relatos do Mundo

Destinos Marcados

O cineasta Paul Greengrass realiza com grandes méritos seu primeiro western esbanjando sobriedade e firmeza neste magnífico Relatos do Mundo, baseado no livro de Paulette Jiles, no qual dirigiu e escreveu o roteiro em parceria com Luke Davies, que se passa no ano de 1870, pós-Guerra Civil nos EUA, tendo por consequência muita violência e o racismo reinante no Texas. Tem em sua filmografia vários longas de sucesso, entre os quais se destaca Domingo Sangrento (2002), obra que o fez ser reconhecido no cenário mundial através de sua câmera frenética pelos movimentos constantes ao retratar o massacre de civis pelas tropas inglesas na Irlanda, em janeiro de 1972. Também realizou A Supremacia Bourne (2004), O Ultimato Bourne (2007), e com o Capitão Phillips (2013), dirigiu pela primeira vez o astro Tom Hanks, que agora encarna de maneira irretocável o capitão Jefferson Kidd, personagem central da trama. A grande surpresa positiva do filme ficou por conta da jovem Helena Zengel, que interpreta impecavelmente a determinada a selvagem garotinha alemã Johanna Leonberger, de 10 anos. Embora lançado nos cinemas pela Universal no ano passado, agora está disponível na plataforma da Netflix.

A história é contada com bons artifícios já conhecidos no Velho Oeste, porém sem abusar de tiros e perseguições recorrentes em obras menores. O protagonista possui interessantes argumentos para sua saga numa época de tempos conturbados pela discriminação racial. Lutou em duas guerras, tendo perdido sua tipografia que editava um informativo de notícias jornalísticas. Sua missão atual é viajar pelo sul dos Estados Unidos e fazer leituras dos acontecimentos ocorridos no mundo encontrados nos jornais para pessoas submissas com dificuldades de acesso à realidade. São homens que trabalham para os patrões poderosos de minas de carvão e dos abatedores de animais que não respeitam o mínimo de normas que garantam o bem-estar dos empregados. Em meio à sua jornada, o capitão e ex-combatente aceita uma proposta para levar a menina até seus familiares, após ela ter seus pais mortos num ataque a tribo Kiowa. Ela foi criada com o dialeto indígena e tem dificuldades de comunicação, e por isto, apresenta um comportamento hostil. O vínculo com Kidd é inevitável, como uma relação de pai e filha, que irá forçar os dois a lidarem com as escolhas que terão de tomar no futuro.

O faroeste tem como ingredientes significativos a belíssima trilha sonora de James Newton Howard, sendo executada com perfeição como mola mestra e condutora do enredo, ditando o clímax das cenas do prólogo como no desenrolar até o epílogo. Há o respaldo de uma maravilhosa fotografia assinada por Dariusz Wolski, que rememora imagens lindas realizadas a céu aberto advindas dos antigos westerns de beleza plástica arrebatadora. Não há como esquecer a cena ameaçadora da tempestade de areia que aos poucos se dissipa e vira apenas poeira, colocando os personagens perdidos novamente em contato com a dura realidade e o reencontro com a luz solar que irá dar um novo rumo aos seus destinos. Para alguns críticos, Relatos do Mundo é uma bela homenagem a John Ford e sua obra-prima Rastros de Ódio (1956), tendo a exemplar atuação de John Wayne, com suas variações inerentes dos antigos clássicos para não deixar desaparecer este gênero ainda pouco compreendido, mas que jamais será esquecido por realizadores competentes e engajados na sua renovação e na sua manutenção como arte na essência. O realizador não buscou apenas uma refilmagem da obra de Ford, mas sua intenção era realmente fazer um grande tributo ao inesquecível mestre do western. Em momento algum se afastou dos clássicos recorrentes, mas ao filmar no tradicional cenário do Velho Oeste adere ao tom e a dinâmica cinematográfica que embalou por muitos anos aficionados deste gênero. Cada detalhe, movimento da câmera, luz, fotografia, as tabernas, os julgamentos, as execuções, e o figurino estão harmonicamente distribuídos com primazia e colocados em seus lugares exatos, pontuais e com fidelidade.

Relatos do Mundo tem muitas semelhanças com Bravura Indômita (2010), o exemplar remake dos irmãos Ethan e Joel Coen, no qual também a trama é conduzida pela ótica de uma garotinha de 14 anos que se junta a um agente federal justiceiro, também por uma relação de filha e pai, buscará vingar a morte de seu pai por um bandoleiro famoso. Greengrass revisita o gênero dos filmes do Velho Oeste com o intuito de repetir passos e situações para reforçar as transformações do gênero, e consegue com sobras, tendo vida e luz própria, diante de sua imaginação bem acima da média de diretores medíocres que pululam o universo cinematográfico. Basta observar seu estilo equilibrado no desenrolar da história, sem utilizar os meios para tiroteios forçados ou balas perdidas por tudo quanto é canto. Segue o melhor estilo dos grandes clássicos, no qual nos remete para aguçar as lembranças do magistral Os Imperdoáveis (1992), de e com Clint Eastwood, onde encontramos uma gama de mocinhos velhos, decadentes, sendo que um deles com apenas um olho, também tendo que cumprir a última missão. Também lembra Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson; além do já citado pelas referências em Rastros de Ódio e No Tempo das Diligências (1939), ambos de John Ford, com construções fantásticas de personagens; mas como esquecer Meu Ódio Será Sua Herança (1969), de Sam Peckinpah, ou ainda Os Brutos Também Amam (1953), de George Stevens.

Embora com um desfecho até certo ponto previsível, nem tudo é bonito no fascinante cenário, como se observa na acolhida fria dos tios de Johanna na cena do reencontro e a revolta da menina silenciosa ao ser presa por um dos pés com uma corda na árvore. Uma alegoria do ranço racista ainda imperante naquela comunidade conservadora com valores ultrapassados. Os resquícios de um sistema que ainda segue com os velhos tabus sem abrir mão da liberdade, especialmente das mulheres, mesmo que seja um ente do mesmo sangue, porém visto com desdém e com ausência de carinho e fraternidade. Prevalece aprisionar quem se rebela. Os laços e vínculos irão ao encontro de pessoas desconhecidas como um ato de harmonia pela aproximação casual de civilizações brancas e indígenas contrapondo com o racismo aos negros em conflito permanente. A revelação no epílogo daquelas pessoas desconhecidas sobre seus destinos fará com que também sintam o tempo passar rapidamente. Como bem fica marcado no último ato registrado na tela, há um sopro de lucidez para o recomeço de novas vidas que estavam vendo um ciclo se escoando, que irá conduzir para a reflexão no final dos destinos marcados, como decorrência dolorida da solidão e da sombria rejeição familiar, num comovente desfecho pela emoção digno de um admirável faroeste.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O Tigre Branco




 



Castas Sociais

Lançado há poucas semanas pela poderosa plataforma de streaming da Netflix, o filme O Tigre Branco traz na sua construção uma crítica social sarcástica com humor corrosivo e uma violência moderada, com um viés nitidamente anticapitalista. Já é um dos mais vistos e comentados pelos críticos e cinéfilos em busca de histórias com bom conteúdo diante do distanciamento das telonas por conta da pandemia da Covid-19. Baseado no best-seller homônimo de Aravind Adiga, ganhador do almejado prêmio Man Booker Prize de 2008, aborda a história do ambicioso motorista indiano Balram (Adarsh Gourav) que quer fugir da pobreza humilhante e se libertar da vida de escravidão dedicada aos patrões milionários, usando a astúcia para tornar-se um novo rico, precedido de uma ascensão social com decisões ilegais e antiéticas. A direção e o roteiro são do competente cineasta norte-americano descendente de imigrantes iranianos Ramin Bahrani, que tem em sua filmografia os longas A Qualquer Preço (2012) e Fahrenheit 451 (2018).

Eis um drama social indiano coproduzido com os EUA, que tem sua ação transcorrida e filmada totalmente na Índia, para retratar e contar a história do personagem central, um homem bem-sucedido que escreve para o primeiro-ministro da China, explicando como subiu socialmente alguns degraus para chegar até o topo da pirâmide de uma sociedade de castas, resumidas entre pobres e ricos no seu país. Explica que o “tigre branco” que empresta o nome ao título do filme é um animal raro que existe apenas um exemplar por geração. É uma alusão alegórica tão improvável quanto alguém que nasceu pobre no depauperado vilarejo de Laxmangarh acabar ficando rico. O filme mostra que o personagem teve uma infância dura e foi explorado por uma família com requintes de máfia suburbana de um sistema de duas distintas castas. Sobre passar da condição inferior para a superior, diz ser uma lógica inverossímil diante da corrupção reinante naquela sociedade em que o uso de expedientes nefastos são defendidos, uma espécie de “os fins justificam os meios”, celebrizado na obra O Príncipe, de Maquiavel. Desabafa com uma frase ardilosa e raivosa sobre a ascensão: “Um empresário indiano deve ser ético e antiético, crente e descrente, malicioso e sincero, tudo ao mesmo tempo”.

O Tigre Branco está sendo comparado com o cultuado drama Parasita (2019), do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho, vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019 e dos Oscars de Melhor Filme e Melhor Filme Estrangeiro 2020, no qual alguns críticos entendem como igual, embora não seja, pois está aquém daquela obra que faz uma abordagem bem mais aprofundada e sem restrições sobre a ascensão social de uma família excluída que vive na miséria e todos seus membros estão desempregados. Joon-ho fez um retrato devastador sobre a busca por uma vida digna com todo seu glamour em um núcleo de uma residência composta por um casal rico, uma menina adolescente e um garotinho pré-adolescente, em que só o homem trabalha. No filme da Coreia do Sul, havia discussões amargas e controversas de contornos de grande relevância sobre as regras e o formato que estruturam as relações sociais aceitas ou não pela convivência dolorosa do cotidiano distópico. Ninguém saiu ileso desta convivência marcada por acontecimentos de alta tensão, humor e a tragédia iminente com o resultado do confronto de classes distintas e paradoxais. A sociedade contemporânea estava em pauta e o questionamento foi sobre a polarização pela desigualdade com contornos do desequilíbrio de uma cruel realidade consumista. Havia a violência não gratuita, mas quase circunstancial, pelo desdobramento do enredo com um banho de sangue apoteótico no desfecho. Ao retratar as classes sociais diferentes com personagens de lados opostos, também há uma enorme similaridade com o fabuloso Assunto de Família (2018), de Hirokasu Kore-eda, tanto pela estética como pelo foco social.

Bahrani mostra com boa dose de ironia que fugir do “galinheiro” para não ser a próxima vítima a ter o pescoço cortado como os galináceos é a metáfora que orienta e dá o norte ao protagonista como fio condutor de sua evasão da complexa favela em que as pessoas vivem amontoadas como animais sujos e submissos. A trajetória do protagonista em busca do sucesso vai evidenciar a distopia social impregnada na Índia dos ricaços com suas ostentações através de seus carrões e outros bens luxuosos contrapondo com a saga dos excluídos que se tornaram pessoas na mais ampla miséria espalhadas nos arredores e ruas pitorescas de Nova Déli. Para ter acesso aos influentes bem aquinhoados é preciso aproximar-se deles na única condição possível, a de empregado que segue o ritual da exemplar subordinação sem questionar direitos, tendo somente deveres como lema, inclusive apanhar e não contestar. Dormir numa espécie de “pocilga” no estacionamento também faz parte do manual, bem como não reclamar do horário abusivo e aguentar todos os insultos. Balram consegue se tornar motorista particular de Ashok (Rajkumar Rao), um rapaz simpático do clã milionário, casado com Pinky (Priyanka Chopra Jonas, Miss Mundo pela Índia em 2000). Logo irá ganhar a confiança de todos os membros da família do patrão e do irmão deste, o truculento Mangusto (Vijay Maurya). O casal aparenta estar feliz na Capital, embora haja alguns problemas de relacionamento, pois eles não esquecem a vida e o cotidiano de quando moraram em Nova York. Detestam a cidadania de indianos por não se reconhecerem legítimos cidadãos daquela pátria.

O filme aborda com esmero o casal que, embora despreza os pobres, aparenta uma certa amizade e empatia com os subordinados, até serem descartáveis como objetos. A cena em que Pinky dirige seu carro completamente embriagada, atropela uma pessoa e não presta socorro é tão revoltante como procurar uma espécie de “laranja” para assumir a culpa e evitar o escândalo na sociedade aristocrática imorredoura. Comprar o motorista pobre com muito dinheiro que não faz falta faz parte da estratégia da inviolabilidade. O Tigre Branco é uma antítese da produção premiada com várias estatuetas do Oscar Quem Quer Ser um Milionário(2008), do britânico Danny Boyle, quando o protagonista assevera: “Não acredite nem por um segundo que há um jogo milionário de perguntas e respostas que você pode ganhar para poder sair daqui”. A maldade em conluio com o egoísmo dos indivíduos está em perfeita harmonia para atingir uma estável situação econômica como finalidade, pela ótica de Balram através de um jogo com regras próprias, mesmo que antiéticas e criminosas. Neste sentido, com tintas pessimistas de uma realidade sem escapatórias, o realizador abre feridas e ignora os falsos moralismos de um capitalismo selvagem que deteriora a alma humana e desgasta as relações interpessoais. É uma luta de classes sombreada com a falsa ideia do empreendedorismo, onde a classe trabalhadora tenta superar suas dificuldades enraizadas com objetivo de enriquecer para também ser patrão. O diretor insinua com boa provocação e uma certeira cutucada pontiaguda nos conservadores, onde tudo se move para a ilicitude. A reflexão é proposta como conscientização da repressão de valores que aguardam a absorção de uma sociedade agonizante e com contornos trágicos na busca do poder para abandonar o triste isolamento da universal injustiça social.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Minha Irmã

Luta pela Vida

Indicado pela Suíça para competir no Oscar deste ano, o drama familiar Minha Irmã é uma agradável surpresa neste início de 2021, com direção e roteiro de Véronique Reymond e Stéphanie Chuat, que já representaram seu país na mesma competição em 2011, com o longa ficcional The Little Bedroom (2010). Um autêntico mergulho na vida de dois irmãos e o sentimento construtivo que requer grande sacrifício de um em prol do outro. Sven (Lars Eidinger) teve piorada sua saúde pela progressão de um câncer de leucemia e a trajetória crepuscular vai se acentuando cada vez mais. A irmã gêmea, Lisa (Nina Hoss- de estupenda atuação, carrega o filme nas costas), decide que ele deve retornar às suas raízes em Berlim e conviver com a mãe, também atriz, Kathy (Marthe Keller), de difícil relacionamento, o que faz com intensidade e um certo êxito. No entanto, ela terá adversidades e consequências significativas no relacionamento com seu marido, Martin (Jens Albinus), que quer voltar para a gelada Suíça com suas nevascas constantes, e levar os filhos do casal, onde administra uma escola particular de dança.

A dupla de cineastas retrata com sensibilidade o fim de uma existência e toda sua decomposição aviltante, decorrente do agravamento da doença e sua decrepitude com o passar do tempo. Lisa foi uma dramaturga renomada, mas não estava mais escrevendo, já faz algum tempo que desistira de suas ambições, pois havia se mudado para os alpes suíços com os filhos menores e o marido. Seus pensamentos continuam na capital alemã, onde se encontra Sven, um famoso ator de teatro que ensaiava Hamlet, de William Shakespeare, mas vê seu projeto frustrado pelas péssimas condições de saúde. O companheiro dele o abandona, o teatrólogo desiste da peça por falta de recursos financeiros associado à moléstia do intérprete protagonista. Mas a irmã demonstra amor e garra ao enfrentar com obstinação quase que obsessiva pelo restabelecimento da vida do irmão. No meio deste turbilhão que surgiu inesperadamente diante da doença terminal, ainda terá de digladiar como uma leoa pelas crianças que o marido tenta raptar, após tê-la abandonada, diante da suposta negligência da manutenção do casamento. Faz de tudo, o possível e o impossível, para levar Sven de volta aos palcos, com o propósito único de dar alguma esperança como motivação para que continue a lutar pela vida.

Um filme denso e instigante sobre as relações humanas e o grande elo familiar advindo da complicada situação que acaba por refletir em anseios mais profundos no despertar da personagem central e o desejo de voltar a criar e se sentir viva novamente. Embora haja um painel caótico, este soa como uma inspiração pela lucidez mantida, que irá se refletir ao reescrever João e Maria, dos irmãos Grimm, de forma arrebatadora, ao transportar o conto de fadas infantil para uma alegoria adulta e sensível. A dor lancinante mexe com o espectador e suas emoções, mesmo sem ser um drama de grandiloquência, mas que se estende com sutileza pelos caminhos transversos que conduzem para a finitude. Dentro de um clímax sombrio, embora exista uma minguada luz de esperança, apenas entrecortado pela bela cena do desfecho do quarto compartilhado entre os dois, como que ela estivesse a homenagear o irmão e a vida com a escrita do monólogo criado com denodo e devoção para que ele atue de maneira derradeira no palco. É uma batalha contra o tempo e sozinha sente o mundo desmoronando, mas que não impedirá de deixar sua contribuição e seu amor fraternal como prova de resistência, dignidade e um humanismo na essência.

A trama é conduzida com um roteiro enxuto pelas realizadoras, sem arroubos ou manifestações de pieguismos baratos pelas armadilhas do melodrama, como já antecipa o prólogo. Num cenário registrado por alguns planos-sequência com os demais em contraplanos que individualizam e marcam a dor dos personagens, diante da aproximação da iminência da morte batendo à porta. Já a mãe vive solitária e indiferente num mundo egoísta e com certo desprezo ao filho homossexual. Não são usados subterfúgios, mas sim um estilo direto e objetivo de dirigir, em uma abordagem da doença de forma nua e crua, sem recursos alegóricos. As amarras do sofrimento angustiante decorrente da moléstia devastadora e implacável que deixa sequelas e marcas profundas terão uma poética licença lírica de uma relação fraterna no epílogo do cotidiano implacável no qual o grande vínculo familiar se mostra indissolúvel.

Temas como a morte, solidão e doença já foram explorados com méritos inegáveis pelo genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957), e na incomparável e inigualável obra-prima Gritos e Sussurros (1972); ou ainda em Viver (1952), de Akira Kurosawa; bem como em Amor (2012), de Michael Haneke. Porém, há se ressaltar em Minha Irmã um naturalismo exposto como vísceras de uma dacadência humana sendo intensa, embora bergmaniano na abordagem proposta, tem na forma da crueza direta e em nada comparável com a estética criativa e metafórica dos mestres inspiradores citados. Uma jornada emocional que invoca uma profunda reflexão sobre a morte, a existência e o amor abundante e infinito, que tem na vida um final que dilacera, embora haja uma reconstrução de outra vida, num contexto de grande amor e amizade como duradouros e eternos. Um drama magnífico sobre o relacionamento de dois gêmeos, que pelo destino traiçoeiro deixará marcas boas e uma saudade imensa a quem fica. Reflete sobre os métodos de carinho, ternura, sintonia, sentimentos, parceria e a defesa incondicional do fraterno amor familiar no confronto entre vida e morte e suas emoções existenciais do progressivo fim do ser humano.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2021

Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou

 



 











Um Grandioso Tributo

A atriz gaúcha de Campo Bom Bárbara Paz estreia na direção do comovente Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou, indicado para representar o Brasil no Oscar deste ano, pela primeira vez um documentário concorre como melhor filme internacional. Venceu o Festival de Veneza de 2019 na categoria de documentários. Relata com notável sensibilidade a trajetória da vida de seu marido, o cineasta argentino oriundo de Mar del Plata naturalizado brasileiro e de ascendência judaico-ucraniana Héctor Babenco, morto em 2016, aos 70 anos, por uma parada cardiorrespiratória, depois de lutar por oito anos contra um câncer linfático. Com um poder de síntese admirável, bastaram somente 73 minutos para a diretora, que também assinou o roteiro em parceria com Maria Camargo, que começou a filmar em 2010 num hospital de Paris, para retratar a longeva carreira de 40 anos, 10 longas, do festejado realizador biografado. Iniciou por O Rei da Noite (1975) até chegar na derradeira obra autobiográfica Meu Amigo Hindu (2016), passando pela sua obra-prima Pixote: A Lei do Mais Fraco (1981).

O amor profundo de Bárbara pelo companheiro é a marca principal da realização que foca no cineasta que viveu e morreu se dedicando à sétima arte, razão pela qual sua vida tinha todo o sentido da existência dele e o prazer para continuar vivendo, ainda que o destino lhe aprontasse com a doença maligna contraída quando lançava, em 1990, Brincando nos Campos do Senhor, sendo diagnosticado a ter mais alguns minguados meses de vida, mas superou e conviveu por mais 30 anos com a moléstia. Em relatos marcantes sobre as memórias, medos e anseios flagrados na intimidade do lar e suas passagens pelos hospitais, com reflexões, a inerente intelectualidade contrapondo com a frágil condição de saúde do artista, são revelações do quanto seu amor pelo cinema o fez viver por tantos anos. Impressiona a maturidade da documentarista que subverte as expectativas para um tom de ensaio documental, sem cair na tentação de enveredar por lamentos chorosos de emoções baratas que descamba para o pieguismo. A relação entre os dois é construída por uma narrativa imparcial, retratada no envolvimento equidistante, mas com características espirituosas de bom humor, afastando-se dos truques empregados de forma gratuita e apelativa visto em realizações menores e apelativas. As interações e os diálogos do casal, mesmo em uma situação marcada pela dor latejante, torna o longa palatável diante da magnífica condução que deriva para um acompanhamento sem lágrimas gratuitas.

Outro achado no documentário é a opção de transformar as cenas dos filmes originais em cores numa fotografia em preto e branco, numa sensação de uma realização literalmente orgânica. Um mosaico de imagens de uma seleção magistral que ressalta os momentos mais inspirados do biografado. Um painel organizado com muita habilidade que ganha contundência, sem depender tanto do contexto, que ganha força autônoma em diversas cenas de colagens, tais como: imagens marcantes do período ditatorial em Lúcio Flávio, O Passageiro da Agonia (1977); a amamentação da prostituta interpretada por Marília Pêra na antológica sequência em Pixote, que nos remete para a arte sacra Pietá, do pintor renascentista Michelangelo; Sônia Braga na praia em O Beijo da Mulher-Aranha (1985); os detentos nus no Carandiru (2003), a cena emblemática de Bárbara cantando e dançando na chuva em Meu Amigo Hindu, além das aparições de William Hurt, numa sugestão de Babenco interagindo com astros e estrelas do cinema norte-americano, bem como sua relação próxima com a Academia de Artes e Ciências de Holywood, resumida por ele na importância do cinema: “Não sei o que veio antes, viver ou filmar”.

A neófita e promissora diretora estreante não esconde suas limitações técnicas iniciais e escancara as falhas daquilo que poderia ser um defeito. Assume a falta de experiência, cria uma metalinguagem documental com o objetivo de um ensaio que tem grandes méritos criativos. Nas cenas iniciais, com humildade, mostra Babenco a ensinando sobre a relação entre a distância do foco e o enquadramento, e as diferenças técnicas pertinentes que irão ao encontro de uma estética eficiente adotada no projeto da produção. A ausência de um foco correto, associado a um erro de fotografia, acaba por ser adotada como uma reflexão repassada no prólogo. Porém, mesmo com o domínio da câmera, desfoca intencionalmente alguns planos para dar consistência e ratificar uma realização que se propõe coesa e com o selo autônomo de sua assinatura. A água é usada como elemento primordial, que vai da lentidão das gotas do soro até se transformar numa abundante onda em movimento. Uma sacada sutil metaforicamente utilizada para dar consistência e ilustrar um estado de espírito em seus devaneios de sonhos e pesadelos até atingir a plena bonança da calmaria da lucidez que aguarda a emboscada do traiçoeiro passamento, embora o protagonista a refute com teimosia e recuse com dignidade o avanço da finitude.

O desfecho em aberto é poético e sublime ao atender o grande desejo do marido, sem articular reminiscências impróprias, quando transforma o dia da partida, que deveria ser de tristeza e lágrimas, num apoteótico jantar com seus melhores amigos reunidos para beber, comer, sorrir e reviver lembranças sobre grandes fatos históricos e pitorescos de Babenco que não aceitava meio termo na sua existência. Não ficou de fora o tango de Astor Piazzolla e sua admiração por uma atriz chinesa com o epílogo transposto para Hong Kong, com o intuito de mantê-lo permanentemente vivo na eternidade para filmar como forma de redenção ao mundo cinematográfico em consonância com a vasta filmografia de um artesão e sua forma imaginativa singular. Babenco - Alguém Tem que Ouvir o Coração e Dizer: Parou é um dos mais inventivos e sensíveis momentos de talento e sutileza de uma documentarista que brilha, ilumina, dá vida e amor em sua obra recheada de dor, alegria, sutileza e finesse neste tributo justo prestado ao marido e sua trajetória com toda a essência do cinema ao qual se dedicou. Uma significativa obra que contribui neste registro importante sobre a criação na sétima arte truncada pela insustentável leveza da morte.

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Pieces of a Woman

Dor Redentora

O ano começa em grande estilo com a estreia em janeiro na Netflix do drama familiar Pieces of a Woman (tradução livre: “pedaços de uma mulher”), vindo dos EUA em coprodução com o Canadá e a Hungria. Uma abordagem contundente da jornada emocional de uma mãe que acaba de perder sua bebê e os desdobramentos da dor imensurável e os resquícios da culpa ilimitada, sem que haja um alento para atenuar o sofrimento que arde como uma ferida aberta latejante. A direção exemplar é do húngaro Kornél Mundruczó, que havia dirigido anteriormente Deus Branco (2014), vencedor da mostra paralela Um Certo Olhar, do Festival de Cannes. O longa atual rendeu merecidamente o prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza do ano passado para a britânica Vanessa Kirby (conhecida por interpretar a princesa Margaret na primeira fase do seriado The Crown) pela impecável e convincente atuação como Martha Carson, que precisa lidar com o luto e suas fases inerentes. Começa pela negação, passa pela ira, atinge o estado de depressão profunda e finalmente a aceitação como último recurso do mistério da morte abrupta que assolou sua família.

Kata Wéber, esposa do diretor, escreveu o roteiro inspirado em fatos reais pessoais do casal. Em entrevista à AFP, o cineasta revela que eles queriam compartilhar estas experiências com o público em geral, na tentativa de que a arte fosse o melhor remédio para a dor que vivenciaram. O filme retrata de maneira digna as consequências nas relações matrimoniais da protagonista e sua ruptura gradual com o marido Sean Carson (Shia LeBeouf- envolvido numa acusação de agressão e abuso sexual na época da produção do filme) e a hostilidade enraizada pelas marcas de uma situações mal resolvidas no passado com a mãe (Ellen Burstyn), numa luta diária e permanente para que seu mundo de sonhos e ilusões não desabe completamente. Os ingredientes são tristes na trajetória de Martha, que é surpreendida com a morte inesperada da bebê recém-nascida em um parto domiciliar realizada por uma parteira profissional (Molly Parker), por opção da própria gestante. O prólogo tem angustiantes trinta minutos da preparação para o parto, com contrações, bolsa rompida, enjoos, exercícios, medo, estresse e o coração do feto batendo. Tudo com a ajuda solidária de Sean, que sai numa busca desatinada para encontrar uma ambulância para levar a parturiente para o hospital quando a situação se torna crítica. Cria-se um clímax de alta tensão, bem conduzido em plano único pelo realizador, que não cai em armadilhas melodramáticas.

Com forte influência da filmografia dos irmãos Dardenne e sua mise-en-scène, especialmente dos longas O Filho (2002) e A Criança (2005), o bom roteiro dá um salto do dia fatídico para o retorno ao trabalho da silenciosa mãe. A humilhação que ouve de conversas entrecortadas é como uma salvaguarda às avessas que encara como um resgate pelo castigo que até entende ser merecedora. A vida segue após a tragédia, as marcas são recentes e dilacerantes da perda da criança. As acusações de culpa da profissional são marteladas pelo marido e pela mãe da personagem central. O casal passeia de carro, mas as lembranças das causas e efeitos continuam como consequências da morte sendo ventiladas pelos contrastes do laudo da autópsia colocado em xeque. Cada situação nova é um dilema para embates verbais, como a negativa de Sean e da sogra em doar a criança para pesquisa médica. O conflito familiar se estabelece pela abordagem sem subterfúgios sob o efeito da raiva, do ódio e da ética sendo colocados no jogo, através do olhar maternal de uma doce inveja para outras crianças no shopping e no transporte público como elementos de pura melancolia.

No meio deste turbilhão de problemas que povoa a cabeça de Martha, ela terá de harmonizar a consciência e relembrar os motivos nefastos perturbadores que causaram seu afastamento do marido, como o desmonte do quarto da filha como forma de agressão ao pai que quer manter viva uma imagem para não esquecer o sonho roubado. O desprezo e a rejeição ao sexo são outros elementos que só agravam a crise matrimonial. Surgem as traições de parte a parte, as agressões físicas e verbais atingindo o ápice do relacionamento para o desmoronamento do vínculo ainda resistente. A reunião de família vira uma lavanderia para acusações mútuas e sugestões para tratamento psicológico. Culmina numa defesa catártica sobre os culpados pela tragédia, se é que existem, como insinua Mundruczó. São combustíveis inflamáveis para o forte impacto emocional que desestruturou razões de viver para manter um profundo remorso. O abalo sísmico familiar vai dissipando os enigmas com revelações devastadoras para renúncia à felicidade, através de tons agressivos. Há uma explosão de raiva e ódio desmesurada que aflora da dor intensa e do isolamento progressivo para o entendimento de uma situação caótica. A memória traz à tona os fantasmas do dia do infortúnio e alguns resquícios pretéritos que deixam uma agonia lancinante, através de transtornos psicológicos que marcaram definitivamente a protagonista.

Pieces of a Woman mostra as imagens que povoam um novo horizonte em reconstrução da instransponível amargura, pela derrocada do equilíbrio que assombra Martha, por espectros que ainda rondam e remoem seus pensamentos atormentados. Os atritos entre ela e a matriarca, uma espécie de resgate da infância, estão presentes nos dilemas das relações familiares nos sacrifícios indesejados que soam como elementos punitivos redentores de uma alma destroçada pela perda dilacerante. A frieza que acompanha a protagonista, uma pessoa sombria numa iminente situação autodestrutiva, está presente na narrativa imparcial sobre as causas e efeitos. O julgamento no tribunal da parteira pela acusação de culpa ao substituir a colega é o desfecho que faltava para a redenção final entre mãe filha. Distante dos clichês que infestam os melodramas fáceis, faz com que os 126 minutos passem voando num filme de anti-heróis, sem sentimentalismos piegas que possam descambar para as facilidades abomináveis em realizações encontradas em obras menores. Um retrato duro com ênfase pelo descompasso do estado físico com o psicológico, com voos rasantes desgovernados, principalmente no remorso carregado em consonância com o vínculo de um fardo insustentável e pesado com dimensões eloquentes neste painel de frustrações e vazios existenciais. O magnífico drama reserva um epílogo de esperança no futuro através da árvore da vida com suas maçãs reveladoras na relação conturbada de outrora entre mãe e filha.