quarta-feira, 24 de julho de 2024

Ervas Secas

 

O Sentido da Vida

O maior cineasta turco em atividades, Nuri Bilge Ceylan, de 65 anos, está de volta com Ervas Secas, um drama que aborda com profundidade a sociologia, a filosofia, os aspectos sociais e éticos ao redor. Lança um olhar sobre os efeitos internos de sentimentos de alienação e de afastamento, mas também interpreta as lutas dos moradores dessas regiões, a difícil vida e a dinâmica geográfica. Um filme de 198 minutos pode assustar no primeiro momento, mas flui e anda com uma ótima dinâmica do multifacetado roteiro, embora os diálogos sejam longos. Os conflitos escolares entre professores, alunos e direção soam como elementos alegóricos para retratar o sentido da existência de momentos marcantes na vida de personagens em busca de uma nova realidade. Salta aos olhos uma sociedade conservadora com raízes eivadas de tabus atrelada flagrantemente aos abusos autoritários. São simbolizadas pelos desmandos da derrocada e a divisão dos membros daquele microcosmo em iminente decomposição moral diante da luta pela dignidade humana dos vínculos a serem rompidos numa jornada emocional e visualmente deslumbrante. O filme estreou na Seleção Oficial do Festival de Cannes, onde Merve Dizdar venceu o Prêmio de Melhor Atriz e se tornou a primeira mulher turca laureada na história do festival. Foi selecionado oficialmente para disputar a Palma de Ouro em 2023, sendo indicado para representar a Turquia no Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano. Pode ser visto nas plataformas Amazon Prime Video, Globoplay e Claro Now.

Ceylan já havia vencido a Palma de Ouro em Cannes e o prêmio da Federação Internacional de Críticos (FIPRESCI) com a obra-prima Winter Sleep (2014), batizado no Brasil com o título Sono de Inverno, possivelmente sua maior realização. Fez uma reflexão profunda sobre a existência e seu sentido na essência da vida, os efeitos do tédio e o ressentimento de um homem em crise e com a sensação de perda, acompanhado da solidão e da velhice que afloram de forma devastadora. Com o longa Distante (2002) venceu o Grande Prêmio do Júri de Cannes e de Melhor Ator; levou a láurea de Melhor Diretor em Cannes pelo perturbador e enigmático Três Macacos (2008). Arrasou depois com o inesquecível Era Uma na Anatólia (2011), pelo qual abocanhou novamente o Grande Prêmio do Júri em Cannes. Mescla de filme policial noir com drama social numa aparente e singela investigação de um crime, durante uma noite inteira com o desfecho no outro dia, em que nada funciona, a começar pelos arcaicos carros corroídos pelo tempo. Solidificou-se como um realizador preocupado com as questões sociais e a falência do sistema turco, onde a burocracia está presente no caos instalado nas improvisações que vão desde a polícia até a medicina, passando por um judiciário inócuo para resolver um simplório crime numa aldeia rural encravada dentro de uma estepe rodeada de colinas. Em A Árvore dos Frutos Selvagens (2018), seu penúltimo filme, mostra a crise de um jovem apaixonado por literatura que sempre sonhou em se tornar um grande escritor e ter sua primeira publicação, na qual aposta tudo. Recém-formado na faculdade, retorna à região em que nasceu, mas vive às turras com o pai, um professor fracassado em meio à complexidade da situação em que se encontra pela decadência profissional, moral e familiar, e um apostador contumaz no hipódromo.

Ervas Secas foi baseada no diário do escritor e professor Akin Aksu durante seu serviço obrigatório de três anos na Anatólia. Assinou o roteiro em parceria com o diretor e Ebru Ceylan, e levaram cerca de um ano para concluir em coprodução com a França, Alemanha e Suécia. A primeira versão ficou enorme, duas vezes maior que Winter Sleep. Retrata com uma melancolia nostálgica de um passado idealizado e uma desesperança incomum na busca do sentido em vidas presas à deriva na trajetória do professor de meia-idade, Samet (Deniz Celiloğlu), que espera ser nomeado para Istambul após cumprir uma transitória passagem obrigatória em uma pequena aldeia, na qual o personagem central chama constantemente de “buraco”. Depois de muito tempo, vai perdendo a esperança de escapar daquela vida sombria e de pouco sentido. Ceylan demonstra ser um admirador de Samuel Beckett ao frisar no enredo a longa imaginação da transferência, assim como os personagens esperam Godot. Porém, seu colega Kenan (Musab Ekici) tenta ajudá-lo como pode para recuperar seu objetivo. Como retribuição, apresenta a ex-professora ideologicamente progressista que tem uma perna mecânica devido a uma bomba que explodiu numa manifestação, Nuray (Merve Dizdar). Ela luta para superar as adversidades, porque é preciso continuar vivendo, mas logo a traição como elemento de vingança, machismo e poder se estabelece naquele triângulo amoroso.

A remota aldeia parece ter apenas duas estações: o inverno inclemente coberto de neve intensa funciona como um personagem opressor ao amplificar a sensação de afastamento daquele lugarejo inóspito e completamente isolado, e um verão que revela as suas altas belas pastagens. O protagonista desenvolve uma obsessão pouco recomendável por uma aluna ingênua de 14 anos, Sevim (Ece Bagci), quando se derrama em delicadezas e elogios. Uma denúncia desencadeada pela descoberta de uma carta de amor leva a uma imersão na identidade psicológica dos personagens envolvidos. Contrário ao instigante drama sobre pedofilia A Caça (2012), de Thomas Vinterberg, o realizador afasta a suposta dúvida sobre o que verdadeiramente aconteceu com o registro da ocorrência pela conduta inapropriada. No questionamento sobre a responsabilidade, Ceylan não dá margens para mal-entendidos, embora sinalize o revanchismo adolescente como fato motivador, mesmo que a conduta daquele professor agradável, porém onipotente não seja correta, como presentear a aluna com um espelho e solicitar segredo. É uma situação ambígua e desproporcional pela forma autoritária que se porta na sala de aula, como na tirânica cena emblemática num surto de ego ferido. O docente vocifera que são pessoas ignorantes ao ser pressionado pela acusação que complicará seus planos, acaba atingindo todos os alunos ao decretar que são agricultores que não passam de “plantadores de batatas”. A ambivalência é o ponto alto da trama, por não conduzir como um personagem eticamente correto, moral e de comportamento nada exemplar. Justamente as contradições e tormentas apresentadas levam para a percepção do educador desiludido que brada o “cansaço da esperança”.

Assim como no recente A Sala dos Professores (2023), do diretor germânico, de ascendência turca, Ilker Çatak, eis uma realização com uma temática universal sobre as angústias através de uma ética que flutua por um terreno pantanoso na temática sobre os discentes e o corpo docente com a desconfiança dos colegas. Uma imersão na vida de um personagem contraditório que provoca reflexões sobre a educação, com a insatisfação dos professores como consequência de uma má gestão pública. Um mergulho sociológico-filosófico para criar personagens consistentes, fortes ou frágeis, vencedores ou vencidos, pouco importa. Todos com alma e coração, remete para os diálogos literários em uma das melhores cenas, como o longo debate entre Samet e Nuray, mesmo com visões discordantes ideologicamente. Invoca com facilidade a técnica para prender o espectador, abordando o cotidiano que se espraia num contexto de grande cinismo e domínio do poder, tanto do secretário de educação e do professor de personalidade complexa, sobre os inferiorizados pelas circunstâncias pessimistas. O desenrolar da história traz um aprofundamento intenso nos questionamentos implacáveis, pela maneira elegante da condução com um toque de classe com extremo realismo de cenas de som direto ao melhor estilo do rigor formal clássico típico do diretor. Há movimentos interessantes de uma câmera em longos planos-sequência, raros contraplanos curtos, captando as imagens fascinantes e a valorização primordial da importância da palavra, neste regresso à Anatólia. Além disso, a breve revelação dos bastidores soa com um gesto mágico inserido, no qual só um mestre é capaz. Uma obra extraordinária da existência e o seu sentido que faz refletir sobre os conflitos como mola propulsora para ir ao encontro das decorrentes fragilidades dos aspectos sociais e éticos. “Um frescor sensível e literário, chekhoviano como o inferno, sobre a passagem do tempo e os sentimentos que renascem”, sentenciou o crítico Louis Guichard, doTélérama.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

A Sala dos Professores

 

Educação e Valores Éticos

Indicado para representar a Alemanha no Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano, A Sala dos Professores tem na direção o diretor germânico, de ascendência turca, Ilker Çatak, de 40 anos, em seu terceiro longa-metragem, que também assina o roteiro em parceria Johannes Duncker. Demonstra segurança e bons conhecimentos neste drama social em que a escola é o pano de fundo para tratar de vários problemas da sociedade contemporânea. A história traz reflexões necessárias, mas de forma sutil, embora haja pouco aprofundamento na temática sobre alunos, professores e a intromissão dos pais nas diretrizes e a educação. Neste mosaico inclui o racismo, a xenofobia, o bullying, o poder da desinformação, o corporativismo entre os docentes, os cancelamentos e a censura à informação, como o jornal realizado pelos jovens. O realizador coloca em xeque uma discussão importante para a população mundial no século XXI: a educação, além de dar algumas pinceladas para refletir sobre o descaso, o preconceito de funcionários que lidam com o ensino, a segurança dos alunos e dos educadores. Está em cartaz nas plataformas Amazon Prime Video, Apple TV, Google Play e You Tube.

A trama gira em torno da história de Carla Nowak (Leonie Benesch, de atuação impecável, surgiu como atriz coadjuvante em A Fita Branca (2009), de Michael Haneke), a idealista professora de matemática e física, recém-chegada, que tenta manter uma relação compreensiva com seus alunos. Apesar dos contratempos inerentes da profissão de educar, a protagonista mostra controle de classe e consegue conectar-se com seus alunos de maneira satisfatória, até eclodir um clima na escola de insubordinação dos estudantes em solidariedade a um coleguinha que teve a mãe, também professora, acusada de furto e ser filmada clandestinamente. Já, antes, uma outra docente fora vista surrupiando moedas de dentro de um cofrinho. Diante dos frequentes desaparecimentos de dinheiro no recinto, os rumos da discórdia se alastram e Carla fica numa situação antagônica e desconfortável. Tudo começa quando um de seus alunos é suspeito do crime e inquirido pela direção de maneira drástica, sem defesa ampla. Lembra em muito o belo drama Monster (2023), do cultuado cineasta japonês Hirokasu Kore-eda, em que na singeleza de uma aparente serenidade escolar há uma busca de construção dos vínculos afetivos com ternura em meio a um julgamento precipitado pelas normas morais vigentes. As imposições da sociedade que nos rege e com elementos fortes de bullying, principalmente entre os grupos de colegas do colégio onde estudam os personagens em foco. Há prática sistemática de atos de violência psicológica, intimidação e humilhação, com duras consequências pela reviravolta do roteiro, que acaba por se tornar uma amarga e cruel realidade.

A Sala dos Professores mostra com realismo a protagonista tentando investigar por conta própria, mas de forma atabalhoada, o caso com consequências inimaginadas por tomar proporções que fogem do controle, afetando o comportamento dos pais e, especialmente, dos discentes. Remete com muita astúcia para a temática também abordada no badalado filme Entre os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet, morto em abril deste ano, no qual a rotina comum de uma escola francesa entra em conflito. Ali são elencadas situações que exploram as relações interpessoais e profissionais que ocorrem dentro da sala de aula, onde os professores mais antigos orientam os mais novos sobre as normas de quem é ou não comportado. Castigos e punições entre outras situações do gênero vêm à tona. Aborda um professor de língua francesa em uma escola na periferia de Paris e seus colegas de ensino que buscam apoio mútuo na difícil tarefa de fazer com que os alunos problemáticos aprendam algo ao longo do ano letivo. Violência e tensões étnicas testam sua paciência e, mais importante, sua determinação como um educador. Já o diretor alemão mostra-se preocupado com o futuro da sala de aula, que torna-se emblematicamente um laboratório. Eis um microcosmo da educação que marcam o movimento migratório no país em que são esboçados problemas como um suspense da premissa carregada em apresentar culpados de imediato. A política de tolerância zero do colégio leva a uma investigação ferrenha que afeta alunos e professores num todo. Mesmo que os valores éticos sejam corrompidos e jogados para longe num contexto de precipitação e preservação de uma moral discutível pelas fragilidades apresentadas.

Çatak é bem mais modesto e metódico e está distante de Cantet e Kore-eda, e ainda mais afastado dos realizadores búlgaros Kristina Grozeva e Petar Valchanov que brilharam no drama social A Lição (2014), premiado no Festival San Sebastián, na Espanha. A dupla conta uma dolorosa história real inspirada em uma notícia estampada na página de um jornal ao acompanhar a saga de uma metódica professora certinha de ensino fundamental de uma escola pública, que descobre um furto de dinheiro dentro da sala de aula. Cria-se uma obsessão em descobrir quem foi o culpado. Um retrato profundo dos valores éticos destruídos num país deteriorado pela corrupção policial no Leste Europeu, como metáfora do regime arcaico comunista em vias de extinção pelas incongruências de uma burocracia emperrante de um sistema superado. A Sala dos Professores tem uma abordagem apenas parecida, mas completamente divorciada de uma análise mais eloquente e incisiva. Em A Lição, a professora é colocada no meio deste turbilhão na tentativa de solucionar o caso e seu envolvimento com uma série de situações inverossímeis que a faz questionar os limites éticos e morais, numa meditação sobre o que é certo ou errado, tendo como mote a ilicitude praticada em plena sala de aula por uma criança. O epílogo é sintomático ao ser estampado pelo olhar de cumplicidade entre mestre e aluno. No filme alemão, a cumplicidade escapa e os valores éticos são esfacelados a mancheias.

Mesmo que não haja uma profundidade no tema da educação e dos subtemas que estão no fulcro do enredo, tais como racismo, xenofobia, bullying, desinformação, corporativismo, cancelamentos e censura, há razoáveis méritos nesta obra interessante. O drama que trata da pedagogia pelo viés da moralidade entra em rota de colisão entre pais, o corpo docente e discente. A confusão que se estabelece na cabeça da personagem central fica caracterizada quando aparecem várias pessoas usando a mesma blusa no corredor, onde a sintonia com a desordem se evidencia como sintoma da claustrofobia completa. Mas o realizador não deixa de explorar uma narrativa recheada de tensão, medo e humilhação como elementos significativos dos questionamentos e a exposição de cicatrizes abertas do processo investigativo dentro do colégio. Remete para uma reflexão com um desfecho inusitado do garoto sendo carregado nos ombros, em câmera lenta, como um anti-herói da estupidez pedagógica alemã vigente e os princípios da tolerância zero que apontou um filho de imigrante como surrupiador. Uma realização com uma temática universal sobre as angústias que ameaçam pela dissimulação através de uma ética que flutua por um terreno pantanoso.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

Cinema Victoria Fecha Novamente

 

Já não bastavam as vidas humanas ceifadas e as astronômicas perdas materiais em maio decorrentes da maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul, temos outra triste notícia para os cinéfilos: fechou outra vez o charmoso Cinema Victoria de Porto Alegre. Estava ali, bem localizado no Centro Histórico, com entrada pela Av. Borges de Medeiros e pela Travessa Acilino de Carvalho (Rua 24 horas). Desaparece do cenário cinematográfico uma lenda do patrimônio da arte, um dos últimos cinemas de rua que foi empurrado nos últimos tempos para dentro de uma galeria. Restam nas calçadas somente a Cinemateca Capitólio, as salas da Casa de Cultura Mário Quintana e o CineBancários.

A trajetória começou com o cinema originalmente se chamando Vera Cruz, tendo sua primeira sessão em 04 de setembro de 1940, com a exibição do longa-metragem A Mulher Faz o Homem (1939), de Frank Capra. No início da década de 1950, fechou pela primeira vez, mas voltou a reabrir em 12 de setembro de 1953, com o nome de Victoria, exibindo A Dupla do Barulho (1953), de Carlos Manga, com Grande Otelo e Oscarito. Fechou novamente em 1998, reabriu em maio de 1999, vindo a fechar outra vez em 2018. Reabriu em julho de 2023, com o badalado filme Barbie, de Greta Gerwig, com Margot Robbie, Ryan Gosling e America Ferrera, e fechou, agora, em maio de 2024.

Assisti ali o meu primeiro filme na Capital gaúcha, o longa-metragem Um Certo Capitão Rodrigo (1971), de Anselmo Duarte, com Francisco Di Franco, Elza Prado e Pepita Rodrigues. Fui levado pela primeira vez naquele suntuoso cinema, com uma entrada principal ao estilo de um teatro, todo atapetado em vermelho para um pisar macio, dois andares de cadeiras de madeiras chiques para se apreciar as películas. Havia uma sala de espera repleta de sofás e poltronas de couro, portarias com funcionários engravatados e nas laterais bilheterias com educadas e belas moças, de cabelos presos e um sorriso carinhoso nos lábios pintados de um batom luzidio.

Existia uma bomboniere com as insuperáveis balas azedinhas e as imperdíveis balas de goma, barras de chocolate ao melhor estilo da Neugebauer. Pipoca não era recomendável, não ficava de bom tom, lembrava pessoas ruminando. Às vezes, os filmes paravam de repente para serem trocados os rolos, um bom momento para uma troca de beijos discretos e um tocar de mãos no escurinho da sala. Um aprazível local de referência para esperar a namorada e assistir em cinemascope naquele telão Tubarão (1975), de Steven Spielberg, E O Vento Levou (1939), de Victor Fleming, Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille e o badalado O Exorcista (1973), de William Friedkin.

No Cine Victoria levei meus filhos para assistir comédias, suspense, dramas e quase sempre os infantis da Walt Disney, entre os quais Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Cinderela (1950) A Bela Adormecida (1959), além de filmes de piratas, ilhas de tesouros, entre outros. Fica uma ponta de melancolia pelo fechamento e um ciclo que se encerra para um dos últimos cinemas de calçada, ou quase, pois já estava encolhido dentro de uma galeria. Agora, sobrou ali, apenas um espaço vazio que logo poderá ser locado por uma agência bancária, ou um restaurante, ou uma igreja pentecostal, ou ainda, quem sabe uma agência lotérica. Tudo ficou para trás, repleto de reminiscências das lembranças de um passado, na qual a arte e a cultura sucumbiram diante de uma economia combalida e quase sempre em crise. A dor da derrota novamente se faz presente no sombrio e desesperançado futuro do cinema. Triste, mas realista, diante da melancolia em consonância com o saudosismo.

terça-feira, 30 de abril de 2024

Os Colonos

Massacre Indígena

Vencedor do prêmio FIPRESCI da seleção Un Certain Regard no Festival de Cannes 2023, indicado para representar o Chile no Oscar de Melhor Filme Internacional, Os Colonos pode ser visto na plataforma do MUBI. O longa-metragem de estreia na direção de Felipe Gálvez Haberle, que também assina o enxuto roteiro em parceria com Antonia Girardi e Mariano Lilinás, explora os temas da colonização, da violência e do extermínio sofrido pela população indígena na fronteira chilena com a Argentina. Ambientado em 1901, na Terra do Fogo, através da fascinante fotografia do diretor italiano Simone D’Darcangelo que capta lindas imagens com paisagens montanhosas deslumbrantes, para retratar a brutalidade nas fronteiras destes dois países por conta da demarcação tingida com sangue e muita perversidade. Um épico com ingredientes de um faroeste revisionista que lança um olhar corajoso para um triste passado no embalo da instigante trilha sonora de Harry Allouche. O cenário enfatiza um lugar bucólico, às vezes inóspito, no qual os invasores escravizam e matam os indígenas, que lutavam pelos seus direitos numa batalha inglória e desproporcional pelas suas terras. Eram guerras pelas demarcações que colonizavam nas fronteiras do sul da América Latina, mas que surtiria resultados discutíveis dos países latinos independentes.

A trama conta a história das crescentes tensões de três cavaleiros contratados por um rico proprietário de terras de um imenso rebanho de ovelhas, conhecido pela alcunha de rei do "ouro branco", José Menéndez (Alfredo Castro), para "civilizar" a população indígena da região. Na companhia de um truculento tenente escocês travestido de britânico, Mac Lennan (Mark Stanley), do mercenário racista norte-americano, Bill (Benjamin Westfall), está o emérito atirador mestiço silencioso com boas sobras de moral naquele lugar sem lei, Segundo (Camilo Arancibia), que logo irá perceber as reais intenções da missão a ser cumprida, ou seja, expulsar a qualquer preço a população nativa daquelas terras desejadas. O historiador espanhol José Luis Alonso Marchante, no livro "Menéndez, Rey de la Patagonia", conta que a extinção do povo Selk'nam, conhecido como Onas, na Patagônia, foi um extermínio planejado por José Menéndez, a quem é atribuído o desenvolvimento econômico no extremo sul do Chile. Há muitas semelhanças tanto temática como geográfica com Zama (2017), da badalada cineasta argentina Lucrecia Martel, que abordou a história de um homem amordaçado por ele mesmo num contexto ambientado em uma região pantanosa, onde hoje está fincado o Paraguai, no final do século XVIII, na América do Sul. Ali, os colonizadores escravizavam negros e índios, nas guerras pelas independências contra a Espanha. Baseado no romance homônimo de Antonio di Benedetto, publicado em 1956, sobre um funcionário da Coroa Espanhola com a função de assessor jurídico, que aguardava ansiosamente por uma carta do rei para sua transferência daquele lugar onde está (Assunção) para um outro melhor. Mostrava as mentiras da colonização e revelava as trambicagens para se obter resultados satisfatórios.

Para alguns setores da crítica, Os Colonos se aproxima de Assassinos da Lua das Flores (2023), o western épico do veterano cineasta Martin Scorsese, adaptado do best-seller homônimo do escritor David Grann, também baseado em uma história real. Apontava para a verdadeira faceta ambiciosa e preconceituosa sentida e nutrida pelos nativos, além da busca incessante do protagonista por dinheiro e o envolvimento direto com uma engrenagem obscura. Mostrava os planos diabólicos para se apropriar da riqueza das terras indígenas como uma grande riqueza na região norte-americana de Oklahoma, em 1920. Manipulava o sobrinho para se casar com a herdeira de terras ricas em petróleo que despertam interesse e cobiça dos aventureiros. Já o realizador da obra chilena, enfatiza as imagens que são mais reveladoras e eloquentes de que os próprios diálogos, deixando o lado perceptivo falar mais alto como forma de expressão. Não é daqueles filmes que primam pela descrição bem comum em ficções históricas com o viés da epopeia de heroísmos marcantes que entram para o rol dos afortunados. O rigor da abordagem pode variar quando se trata de colonização com vítimas e algozes para uma estreita relação das forças da natureza interagir com as dos seres humanos nativos contrapondo com aqueles pseudosdesbravadores sem pudores.

O longa cumpre com interessante importância seu papel sobre o processo da ocupação em novos territórios pela América do Sul com o objetivo da exploração de terras e seus recursos naturais. A colonização em foco retrata as abjetas sujeiras empurradas para o limbo, que pouco foram aprofundadas com rigor histórico imparcial. Esta realização mostra a abertura dos caminhos até o oceano Atlântico, atravessando uma terra já ocupada há milhares de anos antes da chegada dos europeus pela tribo indígena conhecida como Os Onas, nômades que faziam sua caça em terra, em vez de serem marinheiros. Em produções menores faltaram questionamentos de cobranças éticas de situações escabrosas de nossos antepassados. Méritos para o neófito diretor que tira o véu da impunidade para um bom debate a ser discutido, porque aponta o desastre do avanço de homens brancos de maneira fria e calculista sobre os povos originários, com o uso da brutalidade ao dizimar uma comunidade, e ainda praticar covardes estupros, onde a luta de egos dos personagens afloram nos confrontos entre o trio para apontar o poder e a autoridade na missão e no território. Nesse ínterim, surge o Coronel Martin (Sam Spruell), um superior britânico irá revelar a verdadeira identidade de McLennan, que sentirá na pele o mesmo que fez com suas vítimas.

O desfecho inusitado mostra uma reviravolta do roteiro, quando o funcionário do governo,Vicuña (Marcelo Alonso), vai conversar timidamente com o dono das terras sobre suas possíveis atrocidades com prática de genocídio e a repercussão negativa na capital chilena. Tudo não passa de uma falsa encenação que resultará num grande arquivo de frágeis memórias históricas para pesquisa dos colonizados e suas origens pelos fantasmas do passado que povoam aqueles lugares. Contextualiza e coloca para reflexão as relações de poder em conluio com os interesses particulares com pouca ética e ausência de humanismo. Retrata com contundência os abusos oriundos da violência em relação aos aborígenes diante da tirania opressora denunciada em relação à cultura dos povos subjugados e humilhados dentro de seu território. Atinge um resultado magnífico ao mostrar a importância do cinema para desnudar, perturbar e retratar os crimes da humanidade e o extermínio de um povo indefeso. Eis um novo olhar para aqueles faroestes estereotipados, preconceituosos e reducionistas, por serem avessos aos índios colonizados e dizimados pelos governos. A desconstrução se faz necessária para o promissor cineasta Gálvez Haberle, que pontua uma crítica ao materialismo do homem branco ganancioso, nefando, e sem limites pelo descontrole abissal de seus interesses, que desvendam segredos e mostram as verdades mantidas ocultas.

quarta-feira, 17 de abril de 2024

Descanse em Paz

 

Sem Saída

O cinema argentino tem uma característica muito peculiar nas suas abordagens sutis e sensíveis nos temas discutidos, embora muitas vezes o cenário fique em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e a sua eficácia numa temática aparentemente simples, mas sempre de uma boa reflexão como meta a ser atingida. Diretores como Carlos Sorín em Histórias Mínimas (2002), O Cachorro (2004) e A Janela (2008); Pablo Trapero com Família Rodante (2004), Nascido e Criado (2006) e Abutres (2008); Lucrécia Martel com a obra-prima O Pântano (2001); Marcelo Piñeyro com o belíssimo Kamchatka (2002); Mariano Cohn e Gastón Duprat em O Homem ao Lado (2009), e outros tantos que se podem dizer como realizadores comprometidos com o cotidiano e com as coisas simples e belas da vida. Muitas vezes invadidas ou perturbadas por problemas familiares e sociais. Recentemente a dupla María Alché e Benjamín Naishtat nos brindou com a magnífica comédia dramática Puan (2023), em uma temática de boa reflexão da privacidade e das relações filosóficas com a sociedade, que fez uma obra interessante, deixando o enredo correr para um desfecho inusitado que chegará à proposta dos seus autores, tendo em vista a complexidade dos seres humanos pelo paradoxo da harmonia com o conflito e os valores que são dados às vidas, aos interesses particulares e algumas amizades.

O cineasta Sebastián Borensztein tem em sua filmografia duas realizações sem bons retrospectos: La Suerte Está Echada (2005) e Sin Memoria (2010). Atingiu grande repercussão e amadurecimento, com uma direção de elegância e sutilezas, a partir da bela comédia de costumes Um Conto Chinês (2011), que teve projeção internacional e o tornou conhecido, levando mais de um milhão de espectadores somente em seu país. Depois vieram Kóblic (2016), sobre um integrante da força aérea que havia participado dos chamados voos da morte, quando opositores da ditadura eram drogados e jogados ao mar, e A Odisseia dos Tontos (2019), postulante da Argentina indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro de 2020, todos os três protagonizados pelo astro Ricardo Darín. Agora vem do país vizinho o drama Descanse em Paz, em cartaz com exclusividade na plataforma da Netflix, último filme do diretor que também assina o roteiro em parceria com Marcos Osório Vidal, numa adaptação de um romance com o mesmo título escrito por Martín Baintrub, entrelaçando elementos de eventos históricos e incidentes da história argentina.

A trama retrata Sergio (Joaquín Furriel), um homem voltado para a família, mas com dívidas imensas, além de alguns problemas de saúde, que se aproveita de uma circunstância improvável para desaparecer sob uma identidade falsa e fugir para o Paraguai, com a intenção de salvar seus parentes próximos dessa ruína. O diretor reconstitui habilmente o atentado antissemita à Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em 18 de julho de 1994, que ceifou 85 vítimas fatais, e deixou centenas de feridos, inclusive pessoas que estavam na rua aleatoriamente. Só foi superado pelo de 7 de outubro passado em Israel, numa ação semelhante pela brutalidade. Após muitos anos longe de seu país, uma descoberta casual na rede social vem à tona, fazendo com que a tentação e a curiosidade de saber como estão sua esposa, Estela (Griselda Siciliani) e seus dois filhos, agora já adultos, que ele deixou para trás. Foram reivindicados os benefícios de seguro de vida para quitar a inadimplência financeira pessoal do protagonista, que devia uma fortuna para um agiota poderoso, Hugo (Gabriel Goity) e alguns amigos. Este é o ponto de partida decorrente da crise enfrentada pela economia nas últimas décadas. O presente que o pai quer dar à filha aniversariante em meio à pobreza exposta nas ruas são reveladores de um momento patético e sem saída, como uma metáfora da nação mergulhada numa infração de mais de três dígitos, além do déficit impagável ao FMI.

O acontecimento é um elemento exterior que irá dar luzes ao personagem central como uma oportunidade de criar uma nova personalidade com uma identidade falsa para tentar salvar o microcosmo familiar em perigo pelas consequências de seu passivo devedor insolúvel que enfrenta. No exterior, tem apenas uma cadela como amizade fiel, o desenho na parede do filho, e uma nova companheira de ocasião, Ilu (Lali González), como estímulos de vida para buscar a redenção. A realização traz uma boa reflexão sobre o papel do dinheiro em nossa sociedade, como as mudanças que irão advir no epílogo com tintas trágicas, como se evidencia na cena final, além do amor incondicional e aqueles que tentam ajudar na cura da solidão diante da racionalidade fragilizada e exposta à humilhação. O paradoxo desarmônico da comunicação interrompida está em conflito nas imagens captadas na internet, em que os valores dados às vidas e às amizades são exaltados como artificialidades, deixando em situação frágil a ética e a solidariedade, sem desprezar a mordaz ironia da crítica social como reflexo deste hospício chamado mundo.

Borensztein aponta a magia das relações humanas estilhaçadas que prevalece e dita o filme pela sutileza e os rumos que são destinados aos personagens. Descarta as muitas obviedades e tempera o gelo do relacionamento do improvável casal aparentemente feliz, que o surpreende, tornando ácida as críticas fundamentadas, numa prazerosa meditação sobre os desiguais financeiramente e os esquivos seres que chegam aos seus destinos e encontram seus novos vínculos fraternos. O protagonista representa não apenas sua transformação de empresário a empregado. A questão pretérita não foi bem resolvida pelo suposto gesto de dignidade entrelaçada com uma coragem, talvez discutível, embora fosse a maneira única, quem sabe, de um anti-herói para salvar uma tragédia ainda maior. Não é uma solução fácil a ser resolvida diante do beco sem saída. A cena da cerimônia da festa invadida por um fantasma do passado é comovedora e ressalta o impasse da situação buscada como resgate, embora o ritual festivo não fosse suficiente para colocar um fim na crise. Os novos horizontes com os rumos de uma paz atingida por tiros como nos antigos duelos soçobrarão como sequelas. Ficam as reflexões para os espectadores tirarem suas deduções que confrontam as complexidades morais e as repercussões das situações criadas pelo protagonista em suas emoções para resolver o cotidiano em circunstâncias desesperadoras. Há elementos caracterizadores e envolventes que refletem com méritos este instigante filme sobre a injustiça pela justiça da redenção através da fantasiosa missão pela recuperação da dignidade.

quinta-feira, 7 de março de 2024

Eu, Capitão

 

A Odisseia

O respeitado cineasta italiano Matteo Garrone tem em sua cinebiografia dois filmes extraordinários. Consagrou-se internacionalmente com o inesquecível Gomorra (2008), vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes. Baseado em reportagens que resultaram na publicação de um livro de Roberto Saviano, o diretor construiu um poderoso e contundente longa-metragem sobre os meandros que levaram à violência e à corrupção promovidas pela temida máfia de Nápoles, através de um relato brutal e perturbador, de uma das mais lucrativas fontes de renda da Itália. Mostrou como o crime organizado consegue se infiltrar em todos os aspectos na vida de uma cidade e espalhar o pânico pelo temor. Pungente, destruidor e acachapante foram os adjetivos elogiosos mais brandos para aclamar o destemido realizador, pela sua audácia e uma garra ímpar ao expor com realismo cru as mazelas de uma sociedade deformada e acostumada com os banhos de sangue num cotidiano de drogas e seu comércio ilegal, porém sempre presente. Já Dogman (2018) obteve o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes para Marcello Fonte, ao ser o protagonista em uma atuação antológica. Ele é o filme. Uma realização magistral de um enredo aparentemente simples, mas que no desenrolar se mostra profunda, poética, dolorosa, sentimental e aponta para os relacionamentos éticos e a repulsa aos antiéticos, ainda que dentro da criminalidade. Vai da racionalidade à irracionalidade de um homem simplório, de sorriso fácil, ombros caídos pela introspecção, sendo cercado de cães em seu pet shop num lugarejo abandonado, sujo e corroído de uma periferia.

Depois de assinar uma obra menor como Pinóquio (2022), retorna em grande estilo com Eu, Capitão, sua última realização que mostra estar ainda mais maduro e imparcial na concepção de uma trama em ritmo de epopeia, foi o responsável pelo roteiro em parceria com Massimo Gaudioso. Indicado para representar a Itália no Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano, já ganhou o Leão de Prata no Festival de Veneza de melhor direção e o Prêmio Marcello Mastroianni para melhor ator jovem a Seydou Sarr, decorrente de sua exuberante interpretação na pele do protagonista. O diretor recupera sua credibilidade ao abordar uma temática bem atual como a crise de refugiados da África para o exterior pelo olhar invertido, no qual há uma brutalidade bem objetiva com ingredientes de um realismo fantástico. A narrativa dramática retrata a jornada dos dois adolescentes primos Seydou (Sarr) e Moussa (Moustapha Fall), ambos com 16 anos, que anseiam por um futuro melhor. Os dois decidem deixar Dakar, no Senegal, e partir rumo à Europa mítica em uma aventura com tintas épicas. Enfrentarão uma série de desafios para testar a própria dignidade humana numa arriscada travessia do Mar Mediterrâneo a bordo de um barco precário superlotado, depois de ter enfrentado a hostilidade do deserto e a crueldade dos centros de detenção e sequestros de grupos terroristas na Líbia.

No drama Dogman, a prisão e a condenação levam para a cadeia o protagonista e mostram ingredientes que fazem dele um homem transformado num verdadeiro animal irracional, que perde a lucidez dos misericordiosos por contingência do tempo em que ficou enclausurado para se vingar. Já em Eu, Capitão, o personagem central ao sair daquela masmorra repleta de torturas e ameaças à vida, ainda tem forças para se submeter a um processo de trabalho escravo para se libertar e encontrar o parceiro que havia sumido. Quer dar continuidade para sua saga de percalços num caminho tortuoso e cruel até conseguir encontrar a realidade de seus sonhos e fantasias para um futuro edificante. São as fragilidades das amarguras e peripécias da odisseia confrontadas com a esperança de uma solução pragmática em uma sociedade doente em ruínas. Neste diapasão, Garrone aproxima a câmera aos rostos para dar mais nitidez e o espectador perceber com naturalidade as angústias dilacerantes que brotam e se espalham pelos olhares desnorteados dos presos sendo torturados no cárcere clandestino, bem como dos personagens dentro do atulhado barco quase à deriva em busca da liberdade e de um horizonte tênue, mas auspicioso, no porto da Sicília.

Eu, Capitão tem um contexto narrativo exemplar e fundamental para criar um clímax de medo da miséria recorrente e do terror psicológico pela barbárie, que torna a dramaticidade amplamente complexa na essência do cinema propriamente dito, em que os dois jovens e o espectador se chocam com as circunstâncias, embora surpreendidos no epílogo com elementos de fábula moderna adulta para resgatar a dignidade ultrajada pela humilhação dos imigrantes. Os efeitos de libertação irão ao encontro da contemplação reveladora com a chegada no destino almejado diante da destreza do herói negro com seu troféu emblemático, ao melhor estilo das grandes epopeias pela busca de uma civilização para trazer empregos e vida digna, pela ótica dos próprios africanos. Uma realização com amplitude maior na abordagem com eficácia nas relações constrangedoras dos fragmentos da dura ruptura social que desencadeiam em episódios violentos e perversos sobre a perda do controle como elementos opressores retratados de uma realidade selvagem pelas dificuldades, a corrupção, a violência e a solidão. Uma viagem marcada pela frase de Seydou para o primo: “Começamos a jornada juntos. Vamos terminá-la juntos”.

Cabe ressaltar as imagens fascinantes da paisagem desértica que os personagens enfrentam durante a maior parte da trama, pelas lentes do competente fotógrafo Paolo Carnera, em consonância com a bela trilha sonora. O filme é muito bem construído pelo realizador que escapa dos maniqueísmos que poderiam aflorar no desenlace estampado, embora pontue o heroísmo irônico no desfecho pela transformação que traz reflexos pelas mudanças comportamentais de seres humanos sensíveis e sonhadores, ainda que vilipendiados. O carismático protagonista não demonstra fragilidades, mesmo sendo alegoricamente um representante dos oprimidos que irá reconstruir-se numa metamorfose para tornar-se uma fortaleza de uma sociedade degradada pelos desdobramentos que transbordam da civilidade. Não é um simples relato sobre a jornada de dois garotos senegaleses que decidem imigrar em busca de uma vida melhor. É uma história com elementos humanos fortes na sua essência, que revela diversos aspectos sobre todos os seres humanos que decidem sair escondidos da pobreza do ambiente familiar pela coragem e resiliência diante do caos para seguir em frente. Eis uma magnífica reflexão sobre a estupidez humana da miséria até as irracionalidades bestiais de seus detratores ocultos neste épico espetacular para quem aprecia singularidades com ênfase neste painel arrebatador pela sobrevivência, que se insere na listagem dos melhores de 2024.

sexta-feira, 1 de março de 2024

Dias Perfeitos

 

Cotidiano Enfadonho

Desde a morte do genial Rainer Werner Fassbinder (1945 – 1982), um dos maiores nomes da cinematografia da Alemanha, existem alternativas para tentar não deixar cair em decadência o cinema alemão. A esperança se renovou em muito a partir dos anos 2000 com o diretor e roteirista Christian Petzold, considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo de seu país, o mais bem-sucedido da chamada Escola de Berlim, autor da trilogia Amor em Tempos de Sistemas Opressivos, que iniciou com Barbara (2012), passou por Phoenix (2014) e finalizou com Em Trânsito (2018); bem como surgiu a promissora Ângela Schnalec, realizadora de Marselha (2013) e Eu Estava em Casa, Mas (2021). Já o cineasta Wim Wenders tem dois momentos distintos em sua carreira. A primeira é voltada para dramas fortes e profundos no qual brilhou com a obra-prima Paris, Texas (1984), o inesquecível Asas do Desejo (1987) e o magnífico longa de ficção O Céu de Lisboa (1994). Fez documentários como o contagiante Buena Vista Social Club (1999) e a mini obra-prima Pina-3D (2011), voltado para o sensorial ao mostrar a leveza da alma e do espírito na arte clássica da dança.

Depois veio o segundo momento de Wenders, que apresenta um considerável declínio pela falta de inspiração e a contundência nas suas obras, com realizações menores a começar por Até o Fim do Mundo (1990), os constrangedores Medo e Obsessão (2004) e Estrela Solitária (2005), além dos descartáveis O Sal da Terra (2014), Tudo Vai Ficar Bem (2015) e Submersão (2017). O retorno parecia indicar que tivesse se recuperado com mais energia da fonte que o alimentava, para uma suposta redenção triunfal com Dias Perfeitos que, inexplicavelmente, representa o Japão no Oscar deste ano na categoria de Melhor Filme Internacional, tendo o excelente Koji Yakusho vencedor do prêmio de Melhor Ator no Festival de Cannes em 2023. Ledo engano. Embora tenha sido um realizador mais voltado para as feridas sociais e as angústias derrotistas de seus personagens, em dramas memoráveis, parece que perdeu definitivamente a inquietação e o foco. O tema da solidão sempre merece muito estímulo, o que faltou flagrantemente em Wenders e seu parceiroTakayuki Takuma, ao escreverem um roteiro burocrático e repetitivo com cenas recorrentes, tendo uma montagem desleixada.

A trama acompanha a história de Hirayama (Yakusho- tenta carregar o filme pelo seu talento desperdiçado), um homem de meia-idade muito reflexivo que vive sua vida de forma modesta como limpador de banheiros públicos em Tóquio. Sua rotina começa pela manhã ao abrir a janela e olhar o sol, fazer a barba, aparar o bigode, tomar café, apanhar as ferramentas e colocar no carro ou na bicicleta e se dirigir para o local de trabalho e realizar suas tarefas profissionais do dia a dia. Mora num modesto sobradinho em um arrabalde pobre, sem luxo, com uma cozinha-banheiro onde escova os dentes de manhã, tem uma escada estreita e uma luz neon rosa que ilumina o quarto no andar superior. Adora ler na salinha pequena onde guarda seus livros, que pode ser claustrofóbica ou aconchegante, depende do ponto de vista e da observação do espectador sobre a simplicidade no local exíguo. Seguidamente passa numa livraria e compra um novo exemplar. Tem um amor platônico pela dona de um bar nas redondezas, e por aí vai.

Uma rotina com algum encanto ao transitar pelos parques e praças para tirar fotografias, e frequentador contumaz de lanchonetes e lojas de discos. Estas cenas se repetem à exaustão, numa compulsão do diretor pela reiteração até cansar o espectador. A monotonia é a mola propulsora do drama, às vezes se salva, graças ao diretor de fotografia Franz Lustig, que busca por ângulos de câmera em novos horizontes para um olhar mais expressivo do dia a dia, através de imagens que retratam momentos silenciosos, mesmo com distância da emoção na abordagem da tristeza e da alegria do protagonista metódico. A aparição de uma sobrinha parece trazer um alento, mas logo tudo se dilui e se esfarela pelo surgimento da irmã do personagem central recheada de preconceitos, ainda que artificialmente, foi uma das raras cenas que trouxe equilíbrio e alguma lucidez do diretor. O passado sombrio ficou ali e não evoluiu, exceto os encontros inesperados com alguma sensibilidade.

Velvet Underground, Otis Redding e Lou Reed com o título da música Perfect Days, disco produzido por David Bowie e lançado em 1972, compõem a boa trilha sonora, com canções aprazíveis e sugestivas da internacionalização de Tóquio. Quase que uma ode sacral do cotidiano pelo repetitivo esforço de Hirayama em se manter vivo e aprender com situações novas diariamente, como do seu empregado apaixonado por quem lhe despreza; da mãe que perde a criança na praça; do surgimento do ex-marido da dona do bar, que pouco acrescenta e logo descamba para o melodrama apelativo junto às águas do rio. O longa transita por temas como a solidão, a rotina, e a fuga para o sentido na vida moderna. Mas quase nada funciona ou é abordado sem profundidade. Na oscilação entre ajustes e desajustes, constâncias e quebras, a narrativa se debruça na observação rasa da repetição, em que conflitos vêm e vão pela vida. Eis um paradoxo da previsibilidade da indignidade da rotina de revezes do protagonista em seu silêncio constante, mas que aprecia a paisagem e sua tranquilidade ao fazer seus passeios contemplativos para encontrar conexão com a vida e, quem sabe, acreditar em alguma coisa mais significativa, mesmo que resignado com a rotina. Caso o diretor não se entregasse à preguiça criativa e sonolenta, e o filme fosse melhor estruturado, poderia sair algo melhor nesta redundância da repetição.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Zona de Interesse

 

Agonia do Holocausto

Não é nada convencional em suas narrativas o cineasta Jonathan Glazer, de 58 anos, nascido em Londres numa família judia. Assim foi no elogiado Sob a Pele (2013), uma ficção científica existencialista sobre uma alienígena que chega à Terra e começa a percorrer estradas desertas e paisagens vazias em busca de presas humanas. A principal arma é sua sexualidade voraz, mas descobre uma inesperada porção de humanidade em si mesma. O polêmico e impactante Zona de Interesse, quarto longa-metragem do diretor que também escreveu o roteiro, foi laureado no Festival de Cannes com o Prêmio do Júri, indicado ao Oscar em cinco categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional - representa o Reino Unido-, Direção, Roteiro Adaptado e Som. É um drama histórico numa mescla com o gênero de guerra sobre o Holocausto que se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Aborda o horror do nazismo, a partir de uma perspectiva singular e perturbadora, numa adaptação do romance homônimo de Martin Amis, de 2014, para contar a triste história de uma família alemã na Polônia, com efeitos assombrosos na humanidade. O cenário é reconstruído ao lado do hoje Museu de Auschwitz, com passagem em uma das chocantes cenas, embora a casa antiga ainda exista, o realizador preferiu ambientar numa réplica nas proximidades.

No prólogo e na parte final do longa, simbolicamente as cinzas das chaminés enfumaçam a telona que fica por alguns minutos sem brilho ou cor. A trama acompanha Rudolf Höss (Christian Friedel- impecável atuação), o comandante do campo de extermínio em Auschwitz, casado com Hedwig (Sandra Hüller- sóbria e convincente). Eles possuem cinco filhos menores, mais a sogra do militar que chega de repente. Parecem bem felizes, fazem piqueniques na beira do rio, pescam descontraidamente, desfrutando uma vida comum naquele lugar bucólico. Moram num lindo casarão com um jardim de belas flores cultivadas com delicadeza, embora uma delas, vermelha com seu esplendor ao se abrir sugira o sangue abundante. Há uma enorme piscina, o som dos pássaros se mistura no silêncio familiar e no cachorro amigão de todos. Mas, por trás da aparente fachada de tranquilidade que eles vivem, está o campo de concentração do outro lado muro, com suas câmaras de gás letais e chuveiros químicos. O cotidiano destes personagens se desenrola entre os gritos e sussurros abafados de desespero, tiros ao longe, sirenes disparadas, os uivos dos trens chegando com milhares de judeus para trabalhos forçados, experiências médicas horripilantes, fome, doenças como tifo, até serem mortos e cremados nos fornos. Um genocídio em curso, do qual, eles também são diretamente responsáveis, inclusive as mulheres, tanto do comandante como dos soldados alemães, sabiam dos horrores. Comentavam com regozijos sobre o diamante dentro do tubo da pasta dental, o casaco de pele pequeno e os dentes dentro de uma pasta, retirados dos corpos das vítimas.

Com muita elegância e a classe britânica peculiar, o realizador mostra as crueldades expostas para chocar com sutilezas numa imersão sensorial através daquela família nazista. O protagonista não tinha empatia com ninguém, exceto com seu cavalo de estimação que expressa amor; bem como se entusiasma em um projeto para aumentar a produtividade de um novo crematório. Demonstra traços de uma psicopatia amoral em seu delírio. O filho mais velho prende o irmão dentro da estufa de flores, como um bom aprendiz dos pais, numa referência evidente à filósofa política alemã de origem judaica, uma das mais influentes do século XX, Hannah Arend, e seu conceito notável sobre a “banalidade do mal”, ainda hoje polêmico e incompreendido. O drama segue uma linha próxima de O Filho de Saul (2015), com direção de László Nemes, que retratava de forma seca os porões ainda não vistos do Holocausto, focando um integrante de uma espécie de brigada de judeus encarregada de limpar as câmaras de gás e carbonizar os cadáveres. O visceral e controvertido filme teve como cenário o ano de 1944, nos campos de concentração de Auschwitz, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial. Uma solução adotada como prática abjeta pelo nazismo, em como resolver e limpar os milhares de mortos advindos dos extermínios em massa. Já no documentário média-metragem Noites e Neblina, do mestre Alain Renais (1956), o cineasta soube com incrível fidelidade relatar os acontecimentos macabros 10 anos após o fim do Holocausto. Méritos para Glazer que não se deixou levar pela espetacularização e banalização da temática como retratados em A Lista de Schindler (1993), de Steven Spielberg e A Vida é Bela (1997), de Roberto Benigni.

Eis uma obra equilibrada ao mostrar o horror que estava impregnado nas entranhas do mal e o abuso de poder, em que as vítimas faziam parte da terrível paisagem propiciada por Adolf Hitler. A câmera mantém sempre distância no enquadramento para não glamourizar ou dar empatia aos bárbaros nazistas. O casal com diálogos mesquinhos sem que se sintam abalados ou afetados, passa perfeitamente essa desumanização pela total falta de empatia de seus personagens, mais preocupados com seus interesses particulares. Embrulha o estômago e causa náusea no espectador, mesmo que o filme não seja explícito. As sugestões sem imagens sensacionalistas soqueiam e levam à lona por nocaute com mais precisão do que uma cena grotesca sendo publicizada, como de Gillo Pontecorvo no longa Kapò (1959), em que uma prisioneira morre eletrocutada na cerca elétrica com o rosto retorcido sendo mostrado em detalhes nos closes. Glazer prefere sugerir pelo som extraordinário captado dos pequenos detalhes do cotidiano, no trabalho eficiente realizado por Johnnie Burn, através das câmeras espalhadas dentro da residência para o espectador vigiar e sentir as torturas psicológicas advindas de uma cruel bestialidade através de uma frieza fenomenal dos protagonistas. Em meio à tensão no que ocorre do lado de lá do muro, com as dificuldades do cotidiano hostil da morte rondando naquele ambiente sombrio e tétrico, imaginada pela plateia, o casal se diverte e faz planos para o futuro como se tudo fosse normal.

O diretor busca uma abordagem voltada para os efeitos da dignidade, da moral, da ética e da reflexão sobre as atrocidades cometidas. Dentro de um notável equilíbrio, através de uma história contada com uma leveza aterrorizante, embrutecida por um panorama deixado pelos gritos e sons emanados de possíveis vítimas ocultadas propositalmente pela lente. Evidente que há feridas abertas de difícil cicatrização, permeando a selvageria intercalada por momentos doloridos, o que faz desta realização um registro forte, sem cair no maniqueísmo ou na mesmice de alguns filmes didáticos e pouco convenientes, com pessoas amontoadas dentro de trens rumo à morte. Um filme silencioso de imagens, diálogos e sons poderosos com força de grande expressividade. São rostos, gestos e olhares marcados pela distância intencional da câmera que levam à perplexidade até o desfecho simbólico das mortes massificadas pelo escabroso genocídio. Não há corpos em evidência, mas se acompanha os ruídos, mesclados com vozes longínquas oriundas dos campos de extermínio daquela travessia do inferno. O cineasta poupa o espectador do realismo macabro ao se posicionar por algumas regras éticas neste tema recorrente, foca em uma experiência sonora vinda dos campos de concentração, sem precisar mostrar nada. Zona de Interesse é impactante sobre todos os aspectos daquilo que ouvimos, mas ignorado pelos personagens. Um filme fabuloso neste alucinante mergulho de um passado brutal que tirou a vida de mais de seis milhões de pessoas.

Em tempo: Faltou informar nos créditos finais que Rudolf foi encontrado em maio de 1946, após ter seu paradeiro delatado pela esposa. Em 1947, ele foi julgado e enforcado em Auschwitz, perto da casa onde morou com a família. A esposa morreu dormindo aos 90 anos de idade nos Estados Unidos.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Pobres Criaturas

 

Redenção Surrealista

Surgiu um movimento cinematográfico chamado O Novo Extremismo Francês, que tem como base principal o foco de realizações com o objetivo da transgressão com temáticas pesadas e com uma violência explícita e sangrenta como essência para desafiar o público e fazê-lo pensar sobre diversas situações de uma sociedade aparentemente acomodada. Esta definição foi cunhada pelo crítico James Quandt para classificar o cinema transgressivo francês que teve início na década de 1990 e se estende até os dias de hoje. É um contraponto aos filmes de terror produzidos em Hollywood. Marcados pelo estilo de produções polêmicas onde o grotesco e a bizarrice são a mola propulsora do conceito, tais como: Desejo e Obsessão (2001), de Claire Denis; Irreversível (2002) e Clímax (2018), ambos de Gaspar Noé; Alta Tensão (2003), de Alexandre Aja; A Invasora (2007), de Alexandre Bustillo e Julien Maury; Mártires (2008), de Pascal Laugier; Grave (2016), primeiro longa-metragem de Julia Ducournau ao retratar elementos violentos do canibalismo para mostrar o amadurecimento e as transformações de sua protagonista. Realizou em meio a muitas polêmicas Titane (2021), para vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes, e abraçar definitivamente este novo movimento, em que não há delicadezas para expor.

O cineasta grego Yorgos Lanthimos tem em sua filmografia A Favorita (2018), indicado ao Oscar, O Sacrifício do Cervo Sagrado (2017) e O Lagosta (2015). Retorna em Pobres Criaturas, com 11 indicações ao Oscar e vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, parece ter aderido definitivamente a este movimento com fundamentos nos estereótipos. Baseado no livro de Alasdair Gray, adaptado pelo roteirista Tony McNamara, tanto o livro como o filme são inspirados em Frankenstein ou o Prometeu Moderno, de Mary Shelley, publicado em 1816, famosa obra do gênero que se tornou um clássico que se passa na Era Vitoriana. Integra outros dois clássicos do gênero: Drácula, de Bram Stoker (1992) e O Médico e o Monstro (1886), de Robert Louis Stevenson. Após a clássica adaptação de 1931, estrelada por Boris Karloff e dirigida por James Whale, o personagem ficou famoso. A trama de Lanthimos acompanha uma visão surreal de emancipação feminina a partir Bella Baxter (interpretada brilhantemente por Emma Stone, que venceu o Oscar de melhor atriz em La La Land- Cantando Estações (2016), de Damien Chazelle), trazida de volta à vida, depois de ter se suicidado, tem o cérebro substituído pelo do filho que sobreviveu e que ainda não havia nascido. É difícil não associar com a lesão no crânio da protagonista em Titane, e por ser grave necessita de um implante de uma placa de titânio em sua cabeça, deixando sequelas visíveis e abaláveis psicologicamente que irão marcar para sempre seu futuro pelos efeitos colaterais.

O diretor mostra sem nenhum pecado ou culpa sua obra recheada de violência, sexualidade explícita corporal visceral, no qual ousa pela degradação e privação sem cerimônia com o viés autodestrutivo o experimento diabólico realizado pelo doutor Godwin Baxter (Willem Dafoe), um cientista maluco, mas engenhoso e bem distante da ortodoxia. Tudo conduz para uma espécie de releitura de Frankenstein e seu fiel escudeiro, o assistente Max (Ramy Youssef). Cria com um surrealismo grotesco invenções humanas que se misturam com algumas monstruosidades como porco com galinha, cachorro com pato, até chegar no cabrito com aquele homem tenebroso que come capim, o general marido de sua amada criatura que o idolatra. O resultado tem uma visão cruel da transformação civilizatória do humano num animal. A jovem que se tornara uma prisioneira de seu Deus, como ela o chama, acaba fugindo com o arrogante e inseguro advogado Duncan Wedderburn (Mark Ruffalo está magnífico no papel) para conhecer o mundo. Viajam para Lisboa, Atenas, Paris, mas ela retorna para Londres. Os ambientes são mostrados pela fotografia singular de Robbie Ryan com o design de Shona Heath e James Price, em uma estética futurista combinada com cenários reais. Livre dos preconceitos de sua época, se coloca firmemente em seu propósito de defender a igualdade e a libertação das amarras dos preconceitos e submissão da mulher. A sexualidade entra num processo de fusão com as intenções libertárias que dominam a mente, até a fuga para dar asas às suas imaginações naquele processo de independência, tanto do seu criador como posteriormente do responsável pela evasão. Desde sua descoberta até vivenciar livremente seus desejos, com passagens exóticas pela prostituição em Paris. Primeiro para sobreviver, depois para satisfazer sua libido, mostrada sem falso moralismo ou fetiche gratuito da protagonista.

Mesmo que haja exaltação ao grotesco, há boas contribuições do realizador, que lança um olhar feminino para mostrar as transposições com armações sinuosas de Bella, desde quando aprende coisas simples como uma criança que começa a andar, falar e comer, até partir em busca de seu objetivo maior e irrenunciável: a liberdade redentora. Na primeira parte, em preto e branco, são ressaltados os momentos iniciais de uma vida recém-criada com momentos de aprendizagem da vida, que vão do aprisionamento num cenário único dos experimentos, sem ter conhecimento do mundo exterior, onde era vigiada dia e noite. Após, vem a jornada de descobrimento, quando as cores brotam vivas e marcantes como um colírio para olhos secos de ânsia para viver nos diferentes lugares e a conquista de um sonho mágico das inúmeras experiências. A criança dá lugar para a mulher e suas descobertas de um mundo cínico e revelador, como no cruzeiro singrando o mar, que nos remete para Triângulo da Tristeza (2022), do sueco Ruben Östlund, tendo as idiossincrasias de relatos fúteis na escrachada crítica ao universo requintado da aristocracia, acentuada pelas imagens, e às vezes, recheada de ironias à sociedade elitizada. Até mesmo o óbvio sendo caracterizado, causa impacto pela repulsa, mas retrata com brilho ao eliminar os privilégios que perderam, especialmente quando negam a própria consciência.

Pobres Criaturas pode ser visto e entendido como uma odisseia excêntrica que traz no bojo um humor mórbido para criticar e satirizar a sociedade patriarcal e seus aspectos repulsivos. Há representantes de várias nuances nos personagens masculinos com a autoridade ditatorial reinando como uma necessidade abjeta e mesquinha de manter o controle sobre as mulheres num mundo distópico diante das desigualdades absurdas que soam como as lançadas pelo diretor em sua narrativa, embora bizarra, mas com uma lógica de uma visão que tem méritos. Porém, mesmo que tente impor o lado cômico em algumas cenas, sua criatividade carece da força necessária para atingir sutilezas e ironias finas em que predominam as situações kafkianas inverossímeis para lidar com problemas emocionais em meio ao caos. A estética mexe com o espectador e sua comodidade na zona de conforto para nunca ficar desatento, diante da desorientação da lucidez num cenário chocante que abalroa a plateia com imagens agressivas e pouco indicadas para estômagos mais fragilizados. Por isto afasta uma ideia sincronizada reflexiva na essência dentro da psique humana. Aflora fantasias de um universo que vai da fábula à ficção científica com tintas de desbloqueio para retratar o inconsciente humano, seus desejos e emoções dentro de uma psicologia bizarra, o que é discutível.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Anatomia de Uma Queda

Amor e Morte

A cineasta e roteirista Justine Triet, de 45 anos, é considerada uma das principais expoentes do cinema francês. Autora dos longas-metragens A Batalha de Solferino (2013), Na Cama com Victória (2017) e Sibyl (2021). Está de volta com a obra mais instigante e notável da sua carreira, Anatomia de Uma Queda, no qual dividiu com Arthur Harari o dinâmico roteiro com grandes reviravoltas, que acabou vencendo nesta categoria o Globo de Ouro. Também foi vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2023, e ainda representará a França no Oscar deste ano na categoria de Melhor Filme, embora não tenha sido indicado oficialmente para concorrer como Melhor Filme Internacional, tendo em vista as críticas da diretora ao governo do presidente Macron. Aborda um drama familiar mesclado com suspense e passagens pelo tribunal, nada a ver com aqueles tediosos filmes norte-americanos recheados de clichês burocráticos. Com um elenco coeso e harmônico em que o grande destaque é a atriz alemã Sandra Hüller no papel da protagonista, numa atuação magistral faz o espectador mergulhar em um julgamento com percepções e interpretações contraditórias até chegar no conflito do microcosmo da família. O grande questionamento da realização é se existe realmente uma verdade absoluta ou se todos são culpados e inocentes nas rasas versões apresentadas.

A realizadora não negou nas entrevistas que se inspirou em vários filmes de tribunais, antes de efetivar o seu. Porém, até pelo título é fácil verificar que sua grande influência foi o austríaco Otto Preminger (1906-1986), um dos queridinhos do Cahiers du Cinéma, tendo deixado sua contribuição ao gênero com Anatomia de Um Crime (1959). O personagem central era um advogado mergulhado na defesa de um militar acusado de assassinar o provável amante de sua mulher. Já Anatomia de Uma Queda tem diálogos marcantes com uma eloquência e profundidade primorosa. Um digno suspense que transita do drama em um rumoroso processo judicial na possível condenação de uma pessoa que atrai para si um fardo imensurável de uma mistura de realidade com ficção, e muita imaginação para os fatos apresentados. Estas impressões justificam uma geração atual acostumada a ter uma opinião formada sobre tudo e todos nas redes sociais. Recentemente foi visto em Monster (2023), do festejado cineasta japonês Hirokasu Kore-eda, muitas verdades e mentiras na reconstituição de um cotidiano para deixar os personagens darem suas versões pelos diversos ângulos de seus pontos de vista.

O espectador fazia parte do enredo em Monster, como uma suposta testemunha dos acontecimentos reconstituídos numa estrutura de mistério que é usada para apontar uma burocracia rígida com o viés das hipocrisias latentes e destruidoras de seres humanos para sufocar e humilhar num contexto de submissão de um universo contemporâneo doentio. Já Triet também chega para mostrar essas percepções e levantar interpretações, não apenas dos personagens pelos rostos e olhares humanos como grandes instrumentos reveladores da alma humana. Mas também o julgamento da plateia na sua história bem contada de Samuel (Samuel Theis), encontrado morto na neve próximo ao chalé isolado onde morava com sua esposa Sandra (Hüller), uma escritora alemã, que depois de viver na Inglaterra, fora de seu país de origem, agora mora na França, tendo dificuldades com o idioma local. A investigação policial conclui se tratar de uma "morte suspeita": A perícia tem dúvidas para apontar um caminho correto. Teria ele tirado sua própria vida ou fora assassinado? Obviamente que sobrou de imediato a responsabilização à viúva ao ser indiciada por um suposto crime praticado. No meio do conflito quem mais sofre é o filho menor deficiente visual de 11 anos, Daniel (Milo Machado-Graner), com um raciocínio superior ao dos adultos. Por uma aparente negligência do pai que não teria buscado o garoto na escola, acabou sofrendo um sério acidente com consequência de cegueira, com a acusação e o ressentimento da esposa. Seu melhor amigo é um cão-guia que o acompanha no cotidiano, enquanto os pais brigavam até o final trágico. O dilema estabelecido ao extremo coloca a criança como única testemunha e peça chave no julgamento e a relação familiar do casal com frequentes desavenças, deixando sequelas e dúvidas que pesam com marcas profundas. Fica improvável, quase impossível, saber ao certo se ele tirou a própria vida, se caiu acidentalmente ou se foi assassinado.

O prólogo tem Sandra recebendo uma jornalista em sua casa para falar sobre sua carreira, mas logo é atrapalhada pelo som musical alto e ensurdecedor que vem do sótão, onde seu marido se dedica à reforma do chalé. A entrevista é interrompida e adiada, a protagonista dorme, até ser despertada pelo filho que passeava com seu cão e encontra o corpo do pai na neve com manchas de sangue. A diretora do filme, casada com o cineasta e roteirista Arthur Harari, por coincidência ou não, os protagonistas formam um casal de escritores, por isto têm subsídios para explorar melhor as complexidades dos personagens no relacionamento matrimonial. Ela é uma autora famosa que aproveita passagens da vida, conhecida por misturar realidade e ficção em seu trabalho literário; ele carrega o estigma da frustração por não conseguir concluir seus livros, alega falta de tempo, razão para as brigas violentas e abusivas do casal, inclusive com registros em vídeos e áudios caseiros gravados clandestinamente. A investigação e a reconstituição do fato ocorrido são lentas e graduais, inicialmente. O julgamento da acusada suspeita do assassinato tem na defesa de sua inocência o advogado, Maître Vincent Renzi (Swann Arlaud), que nutre um amor antigo pela viúva. Como provar algo sem evidências irrefutáveis? Essa é a chave da trama, onde não temos uma verdade definitiva ou resposta pronta, mas uma apresentação de diferentes panoramas.

Méritos absolutos da diretora ao utilizar com eficácia as incertezas para prender o suspiro e causar agonia no espectador na escalada de buscas da verdade com respostas quase sempre imprecisas, como se fosse um jurado colhendo as informações para decidir. A firme narrativa avança e o enredo sombrio vira um imbróglio espetacular. Sem dar pistas, pelo contrário, cada vez mais as dúvidas persistem, servindo de base ambígua da trama, na qual os indícios e interpretações subjetivas contrastam com diferentes pontos de vista, e não são verdades objetivas, necessariamente. As violências psicológicas sofridas pela protagonista vão de encontro da peça acusatória na retórica machista do promotor narcisista pelo fato de ser uma mulher independente e empoderada. Ou seja, uma reputação colocada em xeque pela exposição da vida pessoal que transforma em fragmentos uma relação. Uma obra densa num convívio aparentemente comum numa família, embora alguma ameaça sombria esteja rondando naquele lugar bucólico. O escritor relutante tenta encerrar seu livro, sente a vida mais pesada como um fardo intransponível. Uma realização que não cai na caricatura e nem nas armadilhas fáceis do maniqueísmo contumaz de alguns filmes pouco consistentes. Há tensão, amor e intensidade elaborados sem exageros, com cenas de construções de personagens fortes, mas psicologicamente fragilizados. Estão bem alicerçados por uma direção autoral singular, que segura até o epílogo um enredo opulento de realismo de um cinema perturbador na essência como reflexão admirável desta fabulosa obra, através de uma fotografia de muita beleza e fascínio até chegar no comovente desfecho desta autêntica obra-prima, que possivelmente deverá ser escolhido como o melhor filme do ano.