terça-feira, 30 de abril de 2019

Vidas Duplas













Conturbadas Transformações

Vem da França um filme com temas aparentemente simples, mas até certo ponto enganosos, diante da reflexão da privacidade e as relações em sociedade pelas suas mudanças comportamentais de leitura sobre os novos lançamentos dos livros, o que faz desta obra instigante aos cinéfilos atentos. Embora deixe o enredo correr para um desfecho com um viés de ranço moral machista, o que poderia sucumbir à boa proposta do cultuado diretor Olivier Assayas, tendo em vista a complexidade dos seres humanos pelo paradoxo da harmonia com o conflito e os valores que são dados às vidas, aos interesses particulares e às amizades. Mas estamos diante do genuíno cinema francês na sua forma cômica e elegante em abordar situações diversas, com muitos diálogos sociológicos e filosóficos entre algumas confusões e dissabores dos casais personagens envolvidos. Vidas Duplas é uma mescla de comédia de costumes, dramática e romântica, ao melhor estilo do mestre Woody Allen, com alguma conotação da dupla argentina Mariano Cohn e Gastón Duprat, em O Cidadão Ilustre (2016), no que se refere à autoficção literária como inspiração.

O cineasta francês tem uma filmografia digna de um grande realizador no marcante Horas de Verão (2008), ao retratar magnificamente as relações familiares e as transformações no século 20, com o início da globalização, abordou profundamente o fim de uma era de ouro, onde a cultura e a economia eram fatores sólidos e essenciais da velha Europa e a França fazendo parte como um sustentáculo consolidado. É responsável pelo épico Carlos (2010), enfocando a história da vida de Ilich Ramirez Sanchez, de codinome "Carlos" o Chacal, tendo por ídolo "Che" Guevara, com formação marxista, mostra-se um revolucionário que defende a causa da Palestina. Depois, debruça-se sobre os reflexos e as consequências danosas e utópicas da juventude sonhadora do pós-maio de 1968 em Depois de Maio (2012), nos anseios pela manutenção da integridade e do núcleo derrotados por uma expressa vontade dos anos que sucederam aquela efervescência e os desfazimentos dos sonhos por bens materiais que ainda afloram, visando um futuro longe da cultura revolucionária almejada e dos valores plantados num país em derrocada. É dele também o notável drama Acima das Nuvens (2014), ao abordar o passado num presente atual, com deformações do tempo que passou. Lança um olhar repleto de inovações para uma candente crítica ao mundo da indústria cinematográfica mais poderosa do mundo: Hollywood e seus intrincados acontecimentos sui generis, voltado para o momento atual e reflexões sobre uma esfera bem próxima das imperfeições do ser humano e o envelhecimento que não perdoa as grandes divas que perderam o glamour pelos anos que ficaram para trás definitivamente.

Assayas constrói com bom vigor uma comédia ácida para dissecar algumas transformações iminentes no mundo literário, tendo como pano de fundo as relações amorosas com traições, amores e ciúmes em um complexo painel de jogo de palavras e algumas situações do cotidiano. O famoso editor Alain (Guillaume Canet) é casado com a popular atriz Selena (Juliette Binoche), mas tem um caso com uma jovem assistente de marketing, a bela Laure (Christa Théret), porém sua mulher o trai com um escritor de autoficções, o tenso Léonard (Vincet Macaigne), que por sua vez namora Valérie (Nora Hamzawi). Vidas Duplas é uma espécie de retorno para uma nova fase de abordagens, desta vez sobre o futuro do livro. O editor e o escritor são amigos de longa data, mas a amizade estremece diante da recusa do primeiro em publicar o novo romance por ser repetitivo (sequer desconfia do affair contado na obra) e pelas circunstâncias de aceitação do mercado diante da crise na indústria literária. Eles estão passando por problemas de relacionamentos pessoais com suas respectivas parceiras e os inerentes entrelaçamentos. Selena é uma atriz que quer se livrar do papel de investigadora de crimes em um seriado de televisão, mas teme enfrentar novos desafios por perder a juventude, tópico este abordado em Acima das Nuvens com um bom repertório de diálogos, cenários deslumbrantes e uma crítica corrosiva ao descarte pela idade avançada. Ela demonstra uma admiração surpreendente pelo novo livro de Leonard, o que causa desconfiança no marido, diante da temática bem conhecida e pessoal do amigo, que também sofre pressão sobre fidelidade de sua atual companheira.

Vidas Duplas é uma comédia de afiados diálogos sustentados por com um elenco coeso de atores na melhor forma de interpretar. Não falta humor para expor as hipocrisias humanas decorrentes dos casais e as suas ideias sobre as questões presentes. Sem apresentar soluções definitivas, deixa para o espectador tirar suas conclusões sobre a revolução tecnológica envolvendo os novos hábitos de leitura da transformação dos livros físicos de papel vegetal para a digitalização em e-book com um custo bem menor. Há acaloradas teses para refletir sobre a diminuição da leitura de jornais e o acesso cada vez maior aos blogs como fontes de informação, além da facilidade pelo Facebook, Twitter e Instagram entre outros. É inegável a crítica feita com mordacidade aos costumes no eclético roteiro, ao fazer analogias entre as verdades do cotidiano com a mera ficção e o direito à liberdade de livre expressão para relatar histórias de pessoas próximas, temática esta bem dissecada em O Cidadão Ilustre.

O realizador encontra um espaço fértil para os debates intelectuais sem que haja uma posição definida, passando por alusões a Star Wars: O Despertar da Força (2015), A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, e O Leopardo (1963), de Luchino Visconti ("mudar tudo para continuar tudo como está"). Mas ainda há as fantasias e os sonhos contrapondo-se em um contexto amargo, mas com uma brecha para se buscar a dignidade no conflito de fatores como ironias finas sem rancores, e no embate do efêmero tempo marcado pelas mudanças urgentes que afloram com velocidade intensa de um novo público leitor oposto ao passado que se esvai de maneira melancólica. A harmonia é apenas paradoxal na essência do transcorrer da trama sobre os relacionamentos amorosos, principalmente na felicidade rompida do sonho pela trajetória traiçoeira do destino. Nesta mescla de ficção e realidade, sem grandes surpresas no enredo, embora haja muitas discussões, citações em abundância, algumas traições, as reconquistas e as superações, nas quais irão qualificar esta admirável realização quase tragicômica de Assayas, em que o público absorve com ingredientes requintados para uma saudável reflexão filosófica.

quarta-feira, 17 de abril de 2019

Em Trânsito



Fugas Angustiantes

O cineasta e roteirista Christian Petzold é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo alemão. Ele está de volta com mais uma obra instigante, Em Trânsito, último filme da trilogia Amor em Tempos de Sistemas Opressivos. Iniciou com Barbara (2012), quando recebeu o prêmio Urso de Prata por melhor direção no Festival de Berlim, ambientado nos anos de 1980, num bucólico vilarejo, ao Leste de Berlim, em pleno regime comunista instalado na Alemanha Oriental, numa análise sobre a divisão de seu país antes de cair o muro, no constrangimento da protagonista em ser vigiada e passar por humilhantes revistas íntimas no seu local de trabalho no autoritário regime sem liberdade de expressão, onde a reunificação era completamente descartada. No segundo longa da trilogia, Phoenix (2014), centralizou a história na judia desfigurada enquanto esteve presa num campo de concentração em Auschwitz, que retorna à sua cidade natal em escombros na busca de um cirurgião plástico para recuperar a imagem deformada, mesmo que o passado lhe traga perseguições. Nesta jornada difícil, reencontra o marido e recebe a ajuda de uma militante solidária com seus compatriotas, orientando-os para viajarem em definitivo ao recém-criado Estado de Israel.

Baseado no romance de 1944 da escritora alemã Anna Seghers, Em Trânsito é uma realização ao melhor estilo da escola de seu país, com um roteiro dinâmico, com cortes certeiros e precisos, concessões moderadas para o espectador, num tom seco e direto com artimanhas adequadas, retrata um painel do flagelo humano decorrente das angústias políticas contemporâneas em um mundo de dúvidas e aflições constantes. Neste ambiente melancólico está Georg (Franz Rogowski), um homem com remotas esperanças mantido na clandestinidade e pretendendo fugir do inferno da ocupação de uma França tomada pelos nazistas. Conhece outras pessoas desatinadas nas ruas em busca do visto para deixar o território francês. Para isto, acaba furtando os manuscritos e documentos de um escritor falecido, assumindo literalmente sua identidade. O protagonista sente-se preso em Marselha, foge da polícia com medo de ser descoberto, mas por pura coincidência irá conhecer Marie (Paula Beer), a esposa do autor morto, que está numa incessante e obstinada procura de seu marido desaparecido, mas acabou por se envolver com um médico (Godehard Giese) numa situação recorrente aos demais, que também quer ir embora dali.

O drama não cai na caricatura fácil e nem no maniqueísmo contumaz de algumas realizações pouco consistentes. Há tensão, amor e intensidade elaborados sem exageros, com cenas de construções de personagens fortes, mas psicologicamente fragilizados, bem alicerçados por uma direção autoral magnífica, através de uma amostragem pela beleza dos detalhes na essência, com o personagem central conduzindo a trama pelo marcante olhar revelador, segurando até o desfecho inusitado de um enredo recheado de realismo de um cinema perturbador. Boa parte da crítica comparou com Casablanca (1942), de Michael Curtiz, diante das semelhanças amorosas e a situação política efervescente numa cidade totalmente sitiada na caça de fugitivos anônimos, em especial com a troca física do passageiro no porto para ingressar no navio com o disputado visto no passaporte. Ainda há uma similitude estrutural mais acentuada no prólogo da trama com Os Carrascos Também Morrem (1943), do conterrâneo Fritz Lang, em uma abordagem crucial sobre o papel abjeto das forças nazistas em território invadido. Em Trânsito tem vida própria pela contundência na busca da liberdade e na reflexão sobre os estragos deixados pelo proscrito regime de Hitler, com a alternância do roteiro às famílias de imigrantes ilegais recentes por todos os lados prestes a serem banidas.

Tanto no drama anterior como no atual, há uma densidade fascinante sobre uma época manchada por um sistema opressor, em que a reconstrução da vida pela perda da identidade decorre do devastador estigma do nefando holocausto que deixou registradas as cicatrizes do passado no rosto e na alma, diante da tentativa de construir uma identificação alternativa em busca da aproximação do grande amor que foi sacrificado. Um foi deportado para a Polônia, o outro foge para o México. Petzold é um artesão imparcial, sensível e sutil, que deixa para o desfecho toda a dor e o fantasma da mulher amada entrando no restaurante portuário, como uma real vítima das circunstâncias no teatro armado fictício, para mostrar ao espectador a tragédia do destino modificado ir ao encontro da angústia dilacerante do sobrevivente, como metáfora das atrocidades da humanidade criadas por um déspota ensandecido em uma causa infame. Inova ao conceber uma França atual invadida pela Alemanha, ou seja, a Segunda Guerra Mundial estaria acontecendo nos dias de hoje, num cenário com pichações, carros modernos, ruas e avenidas com indicativos atualizados, numa mescla de pura licença poética cinematográfica.

Narrado em off pelo proprietário do estabelecimento gastronômico dos encontros e desencontros idílicos, que relata em tempo certo as reações do destroçado protagonista afogado nas suas amarguras amorosas e as lembranças que o atormentam pelas aparições que remetem aos acontecimentos pretéritos, como soluções indicadoras daquelas feridas abertas de uma situação aterradora que revelarão a grande estupidez montada num cenário tenso para uma pausa reflexiva sobre a crueldade tirânica. Contextualizado dentro de um clímax equilibrado e coerente, através de uma história contada com suavidade contraditória, porém embrutecida por um panorama claustrofóbico oriundo desde os primórdios da guerra até a perseguição implacável aos refugiados contemporâneos. Permeia pela selvageria intercalando com momentos líricos, embora doloridos, neste impactante drama profundamente humanista sobre a civilização devastada pela intolerância discriminatória. Um filme de imagens e diálogos com força de grande expressividade pelos rostos e olhares na aprazível cidade de Marselha transformada num sombrio hospício alegórico.

quarta-feira, 20 de março de 2019

Um Amor Inesperado



Síndrome do Ninho Vazio

A indústria cinematográfica da Argentina não é a mais recomendável no gênero comédias, tendo nos dramas seu forte, principalmente quando há conotações sociais ou abordagens sobre as relações humanas, os contrastes do amor e o existencialismo como temáticas aprofundadas e sem artificialismos limitadores. O longa-metragem Um Amor Inesperado não foge à regra da comédia de costumes, com ingredientes de romantismo em alta dosagem sobre as convivências amorosas e a perspectiva de um casal de meia-idade já sem o fogo da paixão. A perspectiva de conhecerem novas experiências poderia ser a combustão para dar o clique e acender a luz alta da separação sem grandes motivos aparentes. Eles resolvem dissolver o casamento de 25 anos quando estão literalmente sozinhos e passam a questionar se devem continuar juntos. A crise conjugal se estabelece logo após a partida do único filho para estudos na Espanha, na busca de conhecimentos para qual futuro profissional deseja seguir. Eles irão mergulhar em aventuras para satisfazerem fantasias e fetiches abafados pelo tempo de uma convivência pragmática.

Cria-se uma atmosfera pouco imaginativa para propiciar a satisfação de desejos em tom de drama conjugal em bonitos cenários, no qual os devaneios e indecisões vêm à tona e dialogam com o espectador durante o desenrolar da história. Diante da chamada “Síndrome do Ninho Vazio”, o foco será as dúvidas do marido e da esposa que, embora estejam aparentemente felizes por se darem muito bem, decidem buscar, em caminhos distintos, a velha chama apagada pelo tempo decorrente do abismo matrimonial tranquilo. Sem o apimentado desejo de outrora, tendo em vista o tédio reinante do trabalho, não conseguem escapar da tentação carnal dando asas à concepção inventiva exacerbada com o ingrediente corroído da rotina. Com direção e roteiro de Juan Vera, em seu filme estreia, depois de passar muitos anos escrevendo roteiros cômicos para cineastas conterrâneos, entre eles Diego Kaplan em 2 Mais 2 (2012) e Ariel Winograd em Mamãe Saiu de Férias (2017); também foi produtor dos renomados Pablo Trapero no drama Leonera (2008), Lucrécia Martel na saga histórica Zama (2017) e Juan Jose Campanella no comovente O Filho da Noiva (2001).

O neófito realizador reúne no elenco a dupla central inquestionável: Ricardo Darín e Mercedes Morán, em interpretações sem reparos e dignificantes nos papéis de Marcos e Ana. O relacionamento do casal, que acabará redundando em dois solitários solteiros no mercado, não era mais como antes, diante das dificuldades do gradual deterioramento. Acentua-se quando o único filho vai embora em busca de sua liberdade e eles estão numa festa de amigos, no embalo da trilha sonora com a canção Fogo e Paixão, do cantor brasileiro Wando, morto em 2012. Vera aborda a temática no início de sua obra com o mesmo viés do conterrâneo Daniel Burman, no ótimo drama Ninho Vazio (2008), em que os pais precisavam lidar com a saída de casa dos filhos. Ela resolve retornar à faculdade e à vida social intensa, enquanto que ele, um escritor renomado fica cada vez mais introspectivo, num contraste em que fará se estabelecer uma crise existencial com desdobramentos relevantes e doloridos. Porém, com o desenrolar da trama, Um Amor Inesperado descamba definitivamente para uma adocicada comédia romântica tradicional, com alguma ironia dos personagens centrais, ao melhor estilo portenho. Há nos diálogos sarcásticos sobre a nova vida com seus novos parceiros uma ponta de ciúme com amargura: “Vocês estão bem?”, pergunta Ana, no que responde Marcos: “Estáveis”, no que ela retruca: “Como o dólar”, numa alusão à crise financeira do país.

Há referência às redes sociais de namoro, especialmente o Tinder, em que pessoas solteiras buscam relacionamentos instantâneos, sem estabelecer vínculos afetivos, com troca de nomes verdadeiros por pseudônimos. Ao buscarem encontros fortuitos que irão redundar em decepções e frustrações, ambos terão grandes recaídas e as lembranças do passado retornam com mais força. O apartamento à venda e o inventário dos bens são motivos relevantes para que se encontrem, discutam e acabem alimentando um previsível retorno. Vera é um admirador do cinema americano voltado para o puro entretenimento, como afirma em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo: “Gostaria que esse fosse aquilo que os norte-americanos chamam de feel good. Um filme para tornar as pessoas felizes”. Mas o prazer sem amor é pouco explorado numa proposta rasa e simples, na qual está presente o objeto fundamental do estado emocional complexo envolvente de um sentimento provocado em relação ao medo iminente da perda da companhia. Evidencia-se a ausência de uma construção sólida dos personagens, quando remete para uma solução conservadora e de cunho moralista, como se depreende do desfecho equivocado e afastado da criatividade enriquecedora do cinema na sua essência.

Um Amor Inesperado é uma realização que estava se desenrolando de forma aceitável até esboroar-se no epílogo. Faltou ao diretor mais aprofundamento qualitativo e menos ambição na bilheteria, que torna sua obra descartável para um espectador mais exigente, embora satisfaça um público que busca apenas uma retórica açucarada e vazia com o viés da moral e dos bons costumes. Afasta-se da elaboração de uma obra meritória que poderia contribuir para uma arte voltada para investigar as complexidades individuais num todo, com o intuito de agradar esta barulhenta parcela minoritária acostumada com futilidades de seriados e realizações televisivas. Deixa de abordar as conotações sobre a solidão pelas fragilidades humanas e suas fantasias, divorciando-se da sutileza e do bom alcance da sensibilidade, sem dissecar por uma lúcida reflexão os atritos das relações no cotidiano amoroso em toda sua extensão pelos vínculos afetivos decorrentes. Além de ignorar os descompassos que levam à procura do sentido do amor e seus princípios subjetivos, tropeça na natureza do prazer instintivo ludibriado. Eis uma comédia romântica com seu convencionalismo pela narrativa de cunho rasteiro pelo medo de perder a posse no fim de uma relação com margem para retrocessos. Mas o filme tem os estelares Ricardo Darín e Mercedes Morán como salvação de um naufrágio maior.

quinta-feira, 14 de março de 2019

Cafarnaum



Filhos e Pais

Em coprodução com os EUA e a França, vem do Líbano o aceitável drama familiar Cafarnaum, representante deste país na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar de 2019. Este é o terceiro longa-metragem provocante de Nadine Labaki, onde também atua como a advogada do menino protagonista (embora em uma participação meteórica, dá para perceber sua beleza estonteante de grandes olhos verdes e cabelos negros compridos). Ela já havia encantado com a comédia dramática Caramelo (2007), filme de estreia atrás das câmeras sobre os problemas pessoais de cinco mulheres que tinham por referência seus trabalhos e encontros assíduos num salão de beleza, em um aconchegante bairro de Beirute, onde conversam francamente. No segundo longa-metragem, E Agora, Aonde Vamos? (2011), em que venceu o Prêmio do Público no Festival de Cinema de Toronto, abordou seu país devastado pelas constantes guerras como pano de fundo para a reconstrução, sob o abrigo do fanatismo religioso e os conflitos entre cristãos e muçulmanos que desencadeiam situações de beligerância frequente. Lá existia um grupo de mulheres numa aldeia isolada e perigosa que se uniram para pacificar os homens se matando como bestas humanas disfarçados de idiotas guerreiros.

Sempre com uma temática voltada para o Líbano, Labaki é a responsável pelo dinâmico roteiro escrito em parceria com Khaled Mouzanar neste seu terceiro longa-metragem, sobre os perigosos desatinos pelas rupturas dos laços que unem os respectivos membros familiares, além de mostrar os problemas de imigração e o descontrole da natalidade. A trama enfatiza o personagem central Zain (Zain Al Rafeea- de interpretação estupenda, carrega o drama quase que sozinho), um menino de doze anos que leva nos ombros uma gama de responsabilidades. Além de trabalhar numa mercearia, ele cuida de vários irmãos menores no deplorável cortiço em que convive com os pais sempre ausentes. O filme adquire um clímax de beligerância e tristeza, tão logo a irmã dele, uma garotinha de onze anos é vendida pelo pai em troca de algumas galinhas para um pequeno comerciante da região periférica de Beirute. Não há escolha, apesar de todos os esforços do irmão para salvá-la daquele crime brutal, ela é forçada a se casar com aquele asqueroso homem bem mais velho. O menino de temperamento forte e maturidade precoce para a idade não se conforma, esbraveja, explode de raiva, briga com os pais e abandona o núcleo familiar deteriorado pela miséria e da falta de dignidade mínima.

A cineasta libanesa retoma sutilmente a temática feminista, ao retratar a mãe que nada pode fazer para defender a filha menor, por ser totalmente submissa naquele lugar extremamente machista e com ausência de voz à mulher, numa cena comovente e arrebatadora sob o ponto de vista do olhar feminino, características marcantes da realizadora. Tema pelo qual foi enfatizado de maneira mais branda no primeiro ficcional Caramelo. Sem perder o foco do enredo, que é a fuga do garotinho e sua trajetória amarga pelas ruas junto aos refugiados com problemas de documentação e outras crianças que também sofrem, porém por outras contingências, como dos pais que são presos, ficam à mercê perambulando com fome numa caótica situação sem uma luz no futuro. O destino ainda irá colocar um bebê em seu caminho, em que o fará cuidar sozinho dele, tendo em vista o desaparecimento da mãe, uma imigrante ilegal da Etiópia. Na realização anterior, E Agora, Aonde Vamos?, a tragédia libanesa era vista de uma forma não menos cruel, com conflitos permanentes sobre a intolerância viciada dogmática como algo abjeto e inconsequente. Assim como no filme de estreia, as personagens flutuavam e lançavam as conversas sem preconceitos ou mentiras para um questionamento amargo, em que buscavam o sentido do cotidiano da vida num contexto dominado pelos homens.

O ritmo ágil e nervoso da câmera com alguns excessos no prólogo, a fotografia bem caracterizada com a aproximação da câmera nos rostos durante a grande maioria das cenas, fechando as imagens, retrata os espaços adequados e angustiantes da dor, da tristeza e do inconformismo pelo olhar das crianças em maioria na trama. Opta-se por planos curtos e entrelaçados, reforçando a dinâmica da narrativa. Embora haja algumas derrapadas para o melodrama piegas na fase inicial do drama, logo a diretora se recupera e conduz com boa imparcialidade, afastando os proselitismos que rondam. Segue uma linha narrativa que lembra pelas semelhanças, embora bem aquém e distante do genial François Truffaut na obra-prima Os Incompreendidos (1959) sobre as relações familiares de um menino expulso de casa e levado pelo padrasto até um Centro de Correção de Menores. Ou ainda do magnífico O Pequeno Nicolau (2009), de Laurent Tirard, sem esquecer o próprio Truffaut que viria mais tarde com outra obra-prima Na Idade da Inocência (1976). Já antes Ives Robert, com sua memorável comédia dramática explorou com acidez, através do longa Guerra dos Botões (1962), mas foi Jean Vigo que celebrizou a rebeldia com o extraordinário Zero de Conduta (1933), possivelmente o primeiro a tratar com toda a veemência a transgressão e a opressão infantil.

Cafarnaum tem no enredo as imigrações clandestinas sendo apresentadas como uma mazela do caos social de poucas soluções práticas. Um painel de personagens em estado de penúria para uma constatação de miséria, sem que haja algum representante da classe mais abastada neste universo composto de crianças famintas e abandonadas, onde os refugiados não escapam da polícia e são presos aos magotes, além de uma boa parcela de comerciantes traficarem de tudo, inclusive bebês, numa retórica que irá esbarrar na fronteira do maniqueísmo. Apesar de algumas irregularidades, não deixa de ser um drama apreciável pela sensibilidade em retratar a ausência do carinho nos diálogos reveladores, ou o amor esquecido, bem como a ternura minguada, em uma evidente crítica ao sistema e aos métodos machistas superados de uma sociedade. Vislumbram-se as maneiras pouco éticas pela falta de diálogos familiares como elementos básicos e frágeis apontados. É marcante a cena do filho no tribunal se defendendo pelo desatino praticado em nome da dignidade humana. Mas ele não perderá a oportunidade de fazer a denúncia que incriminará os pais pela falta de controle da natalidade. Um desfecho pouco convencional, com boas doses de pieguismos e manifestações positivas, que irão ao encontro dos anseios do espectador sedento por justiça social.

terça-feira, 12 de março de 2019

Raiva



A Vingança

O paulistano Sérgio Tréfaut faz carreira em Portugal, onde está há muitos anos. Foi ex-assistente de vários diretores lusitanos, estreou com o curta Alcibiades (1991), realizou os documentários Fleurette (2002), Lisboetas (2004) e A Cidade dos Mortos (2009), tendo no longa-metragem Viagem a Portugal (2011) a primeira experiência na ficção. Voltou para o gênero documental com Alentejo, Alentejo (2014), quando foi devidamente reconhecido internacionalmente ao retratar com dignidade dezenas de grupos amadores que se reuniam regularmente na região que dá nome ao filme, ao sul do Rio Tejo. Ali, ensaiavam antigos cantos polifônicos para improvisar modinhas contemporâneas, numa bela viagem musical por um modo peculiar de expressão e paixão dos seus intérpretes. Divulgou o “cante” que nasceu nas tabernas e nos campos, entre camponeses e mineiros, repassado ao longo de várias gerações como um criativo e real lamento choroso das canções. Nas últimas décadas, novos grupos apareceram na periferia de Lisboa e em diversos países para onde os alentejanos emigraram. Miguel Gomes realizou o excelente similar Aquele Querido Mês de Agosto (2008), com filmagens em Argamil, na região central, próximo de Coimbra.

Tréfaut retoma à ficção depois da única tentativa com Viagem a Portugal para construir este instigante drama familiar social Raiva, ambientado em 1950, nos remotos campos do Baixo Alentejo, no Sul do país português, pelas lentes de Acacio de Almeida na fascinante fotografia em preto e branco com contrastes no tom acinzentado. Inspirou-se no livro Seara do Vento, lançado em 1958, de autoria do escritor Manuel da Fonseca. O longa acompanha a saga de uma família extremamente pobre na área rural, no qual os campos estão maltratados pelos ventos e a seca, em uma desoladora miséria de fome e humilhação que assolam aquela comunidade em frangalhos. A violência brota pelos conflitos entre camponeses e os poderosos donos da terra. O prólogo, que já antecipa o epílogo e afasta a expectativa sobre o desfecho, é uma exposição arrebatadora com dois violentos assassinatos em apenas uma noite de brutal descarga emocional após uma grande injustiça social decorrente de outra inusitada morte.

O mistério que se espalha pelo lugarejo é quanto à origem do crime que toma conta daquele inóspito lugar de repressão. A vingança não é gratuita, logo o enredo começa a desenrolar o grande novelo do enigma. Diz o narrador: “nas terras mortas onde não há pão, os pobres nascem pobres e os ricos nascem ricos”, que até poderia ser um resumo da narrativa da proposta sobre o realismo cru desta trama arrebatadora. No centro da família patriarcal de camponeses, sem trabalho e sem alimentos, está Palma (Hugo Bentes), um homem taciturno e com boa autoestima, acaba por envolver-se em pequenos contrabandos para dar sustento à família. É um inconformado com as injustiças e as perseguições ali existentes, principalmente contra ele. Por isto anda sempre com uma espingarda para se defender, já sua mulher (Leonor Silveira) sofre com o filho deficiente físico e mental, além das incursões da filha (Catarina Wallenstein), uma ativista sindical em busca de condições melhores para a criação de trabalhos, diante dos infortúnios que se espalham pelos lares de desempregados em confronto aberto às oligarquias representativas do poder.

Uma obra que tem o mérito de obter algum lirismo, porém sem cair na armadilha melodramática, com harmonia de equilíbrio na difícil construção sem pieguismos baratos. Em ritmo de faroeste contido enfatiza as autoridades sendo manipuladas pelo ricaço e vilão da história, Reis (Diogo Dória), o pivô das desavenças com amplo domínio e influência na região pela sua posição socioeconômica abastada. Responsável pelo cerco ao protagonista contestador que irá deteriorar as relações e tornar iminente a luta de classes naquela região. Nos diálogos secos e diretos, com alguns rastros nos cânticos da trilha sonora, percebe-se o ardor com muita dor, ao falar das necessidades prementes para matar a fome e escapar da morte que se aproxima, sempre com as imagens pelos olhares perdidos no horizonte à procura de quimeras no universo. Manoel de Oliveira também fazia pequenas elucubrações pela cantoria folclórica como se vê no longa O Estranho Caso de Angélica (2010), em que a música era cantada em forma de fado pelo capataz para os lavradores num trabalho subalterno e arcaico. Determinados em aplainar as terras dos vinhedos com as foices para carpir e ceifar vidas, estampadas nas fotografias que emolduravam o painel, através do canto melódico e triste por uma melancolia prenunciando o instinto da partida definitiva. Tréfaut segue o mestre inspirador ao criar um clima hostil e pouco saudável, misturando o realismo com o imaginário, num exercício mental delicioso dos limites propostos da ficção para um tensionado e abrangente drama social.

O abutre destroçando o coelho e a tentativa de proteção do roedor pelo cunhado alcoólatra soa como uma antecipação alegórica da tragédia anunciada prestes a explodir. São sinalizações indicadas ao espectador numa linguagem quase que teatral para os grandes espaços ornamentados de raros objetos e móveis, exceto os pequenos tocos de madeira representando cadeiras e uma frigideira para elaboração das poucas refeições. Raiva é um filme preocupado com o povo que sofre com o desemprego torturante que reina naquela região em estado de penúria ultrajante. Num formato clássico e austero, ao melhor estilo de Manoel Oliveira, com planos fixos e simétricos, além de usar minimamente os recursos da trilha, com o intuito de não induzir na reflexão da plateia mais atenta e comprometida com o bom cinema, exceto em momentos propícios e pontuais da narrativa que focou na vingança. Há os questionamentos nas entrelinhas sobre as muitas terras improdutivas que poderiam dar o pão advindo do solo, ressaltado os cânticos tradicionais enaltecedores de uma situação caótica, através de uma crítica ao sistema de governo desumano implantado sem dar alternativas às crises recentes na Europa, embora o cenário seja dos anos de 1950, o tema é atual. Esta é uma realização de resultados plenamente satisfatórios e acima da média que contribui neste registro admirável sobre os descalabros sociais da história dos alentejanos. Capta as belas imagens e os poucos diálogos dos locais que giram em torno dos desmandos e das situações peculiares regionais lusitanas de um povo sofrido e injustiçado pelas paupérrimas condições de sobrevivência.

segunda-feira, 11 de março de 2019

Yomeddine- Em Busca de um Lar



Preconceitos Arrasadores

Vem do Egito em coprodução com a Austrália e o EUA o fabuloso e perturbador drama Yomeddinne- Em Busca de um Lar, do roteirista e diretor estreante Abu Bakr Shawky. Foi o digno representante egípcio na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar deste ano. Um filme road movie com a dinâmica narrativa inspirada nos cineastas iranianos Abbas Kiarostami de Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e O Vento nos Levará (1999), bem como de Mohsen Makhmalbaf com o admirável A Caminho de Kandahar (2001), em que os detalhes são fundamentais de um realismo puro que reflete uma sociedade atrasada e completamente arcaica de pensamentos e comportamentos retrógrados. Eis um retrato cruel que persiste de uma doença degenerativa que ainda leva os familiares a internar em uma colônia as vítimas de hanseníase, mais conhecida no popular como lepra, uma doença infecciosa causada por uma bactéria chamada mycobacterium leprae ou bacilo de Hansen.

A trama gira em torno de um homem pobre, Beshay (Rady Gamal- o ator foi portador da doença na infância, mas ficou curado), um catador de lixo que decide sair pela primeira vez do confinamento da colônia de leprosos de uma comunidade isolada onde foi abandonado quando criança, logo após o falecimento de sua esposa em um hospital. Já restabelecido da moléstia, abandona aquela comunidade de más lembranças para embarcar numa jornada pelo Egito, até sua cidade natal, à procura da família e saber o motivo pelo qual seu pai nunca cumpriu a promessa de voltar para buscá-lo. Irá na companhia de um jumento e do menino órfão Obama (Ahmed Abdelhafiz), um fiel escudeiro que faz de tudo para não ficar para trás sem seu grande amigo do lixão e companheiro de todas as horas, praticamente um pai adotivo. A dupla enfrentará os problemas existentes no mundo real e desconhecido, unidos pela amizade fraternal de dois seres excluídos pelo destino implacável. Ao longo da peregrinação há várias passagens, entre elas as supostas pirâmides milenares do Egito e seus encantos misteriosos. Mas o que mais incomoda mesmo o protagonista é o preconceito que se acentua por onde passa, ao ser hostilizado com deboches e grosserias que calam fundo naquele ser humano, que num grito de desabafo pedirá um mínimo de respeito e dignidade em uma cena comovedora.

O promissor Bakr Shawky retrata com sensibilidade a cena da morte, diante da indagação do garoto se haveria um julgamento final do jegue, com uma resposta simples e lacônica, porém profunda na reflexão de um homem humilde, ao afirmar que os animais vão direto para o paraíso, numa alusão de decepção, mágoa e pessimismo quanto aos compatriotas ditos humanos. Mas o reencontro com o pai e as revelações deste irão trazer novas luzes no que o fará repensar quanto à ideia de voltar às origens. O descalabro e a vergonha são fatores que permanecem incrustados naquela inusitada figura humana pelo físico deformado pelas circunstâncias de uma moléstia aniquiladora. Restam marcas indeléveis pelo corpo mutilado de uma doença terrível, com seus efeitos nefastos e devastadores, resultantes de uma reflexão pontual, faz com que as cenas que desfilam tenham o caráter da dor daquela criatura humilhada sem piedade.

Yomeddinne- Em Busca de um Lar não faz concessões e aponta com clarividência a pessoa atingida pelo mal que o estigmatizará como a própria morte em vida decretada pela sociedade ou pelos ancestrais da família da vítima. Um filme doloroso, mas com uma realização sensível, sutil e profunda sobre os efeitos do preconceito e a degradação imposta ao doente, exceto pelos demais excluídos. É alentadora a bela cena em que os mendigos deixam aflorar seus sentimentos humanitários e revelam as causas relevantes que os levaram às ruas para sobreviverem de esmolas e ajudas espontâneas. Um drama com efeitos sociais que impacta pela abundante falta de solidariedade no geral mesclada com o riso debochado e arrogante, através de atitudes deploráveis a pessoas realmente vitimizadas pelo infortúnio do destino. Eis um relato cru e fascinante de uma manifestação pelo cinema que rasga o coração, abala a alma e revela o caráter dizimante de uma casta de pessoas com medo de ser contagiada, importando-se muito pouco com os doentes próximos. Além da paupérrima vida do protagonista, tem ainda que conviver com a segregação devido à lepra da infância curada. Um filme magnífico e chocante, digno e eloquente pela sua grandeza de abordar e retirar o véu de um tabu ainda enraizado no seio de uma sociedade preconceituosa de um tema universal.

Dogman



Irracionalidade Humana

O filme Dogman tem como destaque o prêmio de melhor ator no Festival de Cannes do ano passado para Marcello Fonte, ao ser o protagonista também batizado de Marcello, em uma atuação antológica. Ele é o filme, embora o bom elenco seja coeso. É a volta do respeitado diretor italiano Matteo Garrone, que se consagrou internacionalmente com o inesquecível Gomorra (2008), vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2008. Baseado em reportagens que acabaram na publicação de um livro de Roberto Saviano, o diretor construiu um poderoso e contundente longa-metragem sobre os meandros que levaram à violência e à corrupção promovidas pela temida máfia de Nápoles, através de um relato brutal e perturbador, de uma das mais lucrativas fontes de renda da Itália. Mostrou como o crime organizado consegue se infiltrar em todos os aspectos na vida de uma cidade e espalhar o pânico pelo medo. Pungente, destruidor e acachapante foram os adjetivos elogiosos mais brandos para aclamar o destemido realizador, pela sua coragem, sua audácia, e uma garra ímpar ao expor com realismo as mazelas de uma sociedade deformada e acostumada com os banhos de sangue num cotidiano de drogas e seu comércio ilegal, porém sempre presente.

Esta última realização de Garrone é espetacular ao mostrar um cineasta ainda mais maduro e imparcial na concepção de uma trama aparentemente simples, foi o responsável pelo roteiro em parceria com Ugo Chiti e Massimo Gaudioso, mas que no desenrolar se mostra profunda, poética, dolorosa, sentimental e aponta para os relacionamentos éticos e a repulsa aos antiéticos, ainda que dentro da criminalidade. Vai da racionalidade à irracionalidade de um homem simplório, de sorriso fácil, ombros caídos pela introspecção, sendo cercado de cães em seu pet shop num lugarejo abandonado, sujo e corroído de uma periferia não identificada, muito bem reforçada pela fotografia em tom frio acinzentado. Lá, ele cuida das unhas dos animais, lava e seca seus pelos com um secador canino, serve ração, trata todos com imenso carinho e dedicação. Além disso, é um pai amoroso à filha menor com quem pratica mergulhos contemplativos na cidade litorânea de Castel Voturno, na região da Campânia. Uma figura estimada pelos vizinhos com quem joga futebol num modesto campinho próximo ao seu trabalho, e harmonicamente convive com ternura tanto com marginais e trabalhadores, até envolver-se com o ex-boxeador Simone (Edoardo Pesce), um brutamonte viciado em cocaína que age por instinto e resolve tudo na base do soco na cara e pé na porta de quem atravessa seu caminho. Um legítimo brucutu, odiado e temido pela vizinhança, espanca e pode matar sem ter um pingo de remorso ou alguma piedade. Marcello é evolvido num ardiloso plano de roubo, que por medo ou por não ter capacidade de dizer não, acaba por participar e entra para o mundo do crime, embora já estivesse vendendo pequenas porções de drogas em seu estabelecimento comercial.

A prisão e a condenação que o levam para a cadeia são ingredientes que fazem do protagonista um homem transformado num verdadeiro animal irracional, que perde a lucidez dos misericordiosos por contingência do tempo em que ficou enclausurado. Dominado por um sentimento de vingança incontrolável, ele decidiu torturar, durante horas, seu desafeto, até então um amigo de todas as horas, mas que atormenta todos os moradores daquela comunidade, e que levou o personagem principal para o precipício. Baseado em um fato real policial dos anos de 1980, depois de 12 anos lapidado pela produção, Garrone conduz o enredo, atenuando de certa maneira a brutalidade explícita encontrada na realização anterior, deixando fluir a tortura psicológica que remeterá para um dos piores crimes registrados na história da Itália. Aquele homem bonachão de atitudes convencionais, mas que tem por característica a desenvoltura com cães de todos os tipos e tamanhos, incluindo os maiores e mais ferozes, irá se revelar numa fera humana para explodir numa purgação de sentimentos raivosos, rancor e vingança. Porém, o animal mais bruto que precisa domar é seu comparsa de poucos recursos de inteligência que será submetido em uma encenação de um duro realismo social pela experiência agonizante de perversão impactante induzida por ele mesmo, com reflexos devastadores para um desfecho inusitado de devaneios por alucinações sombrias pela alteração de humor com a perda parcial de um mínimo de consciência lúcida. É a simbolização da psicopatologia que provocará um comportamento impulsivo numa iminente deterioração comportamental advindas de rastros de ódio para resultados pouco convencionais pela fragilidade da paz confrontada com a esperança de uma solução pragmática de uma iminente sociedade em ruínas. Neste diapasão, Garrone aproxima a câmera aos rostos para dar mais nitidez e o espectador perceber com naturalidade as angústias dilacerantes que brotam e se espalham pelos olhares desnorteados dos personagens.

Dogman tem um contexto narrativo exemplar e fundamental para criar um clímax de horror psicológico pela barbárie, que torna a dramaticidade amplamente complexa na essência do cinema propriamente dito, em que os velhos amigos da vizinhança, a filha, e o espectador, todos chocados com as circunstâncias, serão surpreendidos no epílogo que resgatará a dignidade ultrajada pela humilhação inominável de um homem puro, no qual os efeitos catárticos de libertação irão ao encontro da contemplação reveladora com a chegada do anti-herói com seu troféu emblemático, ao melhor estilo dos velhos westerns. Uma realização com amplitude maior pela sutileza da abordagem com eficácia nas relações constrangedoras dos fragmentos da dura ruptura social que desencadeiam em episódios violentos e perversos sobre a perda do controle como elementos opressores retratados de uma realidade cruel e selvagem. É bem construída pelo realizador que escapa dos maniqueísmos que poderiam aflorar no desenlace estampado sem heroísmo, mas pela transformação que traz reflexos nas mudanças comportamentais de um ser humano sensível, romântico, vilipendiado e em mutação. O carismático personagem fragilizado é alegoricamente um representante dos oprimidos que irá reconstruir-se numa metamorfose para tornar-se uma fortaleza de uma sociedade degradada pelos desdobramentos que transbordam da civilidade. Eis uma magnífica reflexão sobre a estupidez humana até a irracionalidade bestial neste drama imperdível para quem aprecia singularidades com ênfase neste painel arrebatador, que se insere na listagem dos dez melhores de 2019.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Todos Já Sabem



Verdades e Mentiras

O cultuado cineasta iraniano Asghar Farhadi se notabilizou por realizações voltadas para seus conterrâneos, através de crônicas em que aborda os conflitos sociais do dia a dia, os aspectos morais da sociedade conservadora, as imposições religiosas, além de lançar um olhar sobre as gerações futuras e as relações com as do passado. Assim foi com o inesquecível, talvez o melhor filme do diretor, A Separação (2011), em que é o primeiro iraniano a ganhar o Oscar estrangeiro, Globo de Ouro e Urso de Ouro em Berlim. Depois viria conquistar novamente o Oscar em língua estrangeira com o admirável O Apartamento (2016), vencendo ainda em melhor roteiro e melhor ator no Festival de Cannes. Sua primeira produção fora do Irã foi com O Passado (2013), com rodagem na França, testou suas habilidades em outra cultura, com um resultado bem acima da média. Mostrou-se um realizador voltado essencialmente para as coisas do cotidiano conflitado de seu país, embora bem distante de seu povo, não se afastou das relações intrincadas e apresentadas com a tradicional naturalidade.

Todos Já Sabem é o último longa-metragem de Farhadi, agora em língua espanhola, reitera sua universalidade depois da experiência exitosa em francês. Um misto de drama familiar com thriller policial. Pela primeira vez deixa de lado os problemas inerentes dos seus compatriotas para mergulhar em conflitos relacionados com famílias de outra cultura. Deu mais um passo à frente e se ocidentalizou circunstancialmente, com uma narrativa sobre um drama tipicamente alusivo aos espanhóis e argentinos, num painel bem formatado em um roteiro escrito pelo próprio realizador, com reviravoltas sobre os mistérios que cercam o rapto e o enigma que irá transformar aquele cenário. É bem coadjuvado pela primorosa fotografia de José Luis Alcaine, contumaz fotógrafo e parceiro de Pedro Almodóvar, como em Mulheres à Beira De Um Ataque de Nervos (1988), Má Educação (2004), Volver (2006) e A Pele Que Habito (2011), e apontado como um dos responsáveis por definir o estilo do cinema da Espanha a partir da década de 1980, por utilizar e inovar com cores exuberantes e de fortes contrastes.

Com um elenco recheado de estrelas bem contidas e sem espaços para histrionismos, a trama retrata a bela e estonteante Laura (Penélope Cruz), que retorna à Espanha depois de muitos anos para assistir a cerimônia de casamento da irmã caçula. Casada com o argentino Alejandro (Ricardo Darín), impossibilitado momentaneamente por alegados motivos de trabalho não pôde acompanhá-la, fazendo com que ela viajasse somente com um filho pequeno e a serelepe filha adolescente, Ana (Inma Cuesta). Chegando à sua cidade natal, reencontra o ex-namorado que não via há muito tempo, Paco (Javier Bardem), casado com Bea (Bárbara Lennie), o tio Fernando (Eduard Fernández), a mãe Mariana (Elvira Minguez) e a prima Rocio (Sara Sálamo). Durante a festa, uma tragédia acontece com o desaparecimento de um dos convidados, que viria suceder em um inusitado sequestro do núcleo familiar. Todos se mobilizam diante de um crime de grandes proporções e a pedida de um resgate milionário logo começa a ser enviada para os celulares. Há questionamentos e acusações sobre os possíveis culpados estarem presentes entre os participantes do evento festivo. Surge um detetive em busca do algoz, onde todos são suspeitos e o clima fica tensionado.

Seguindo uma trajetória narrativa semelhante ao frenético e acolhedor À Procura de Elly (2009), vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim, Farhadi gira o foco para o suspense, depois de apresentar todos os personagens filmados no matrimônio, numa estrutura clássica de um filme policial. Cria-se um enredo propício para um mosaico do presente com resquícios do passado, no qual se prolifera os muitos segredos de verdades e mentiras que serão revelados de forma homeopática. As possíveis soluções são buscadas dentro de um contexto de personagens fragilizados pelas feridas abertas, dando margens para os fantasmas se locomoverem de um lado para outro neste jogo de xadrez, em que o passado de cada um é colocado em xeque daqueles adultos cujas vidas estão entrecruzadas e ainda guardam fragmentos rancorosos sobre amor, dinheiro, frustrações, ética, manipulações e ganância. Eis uma moralidade repressora por costumes indesejáveis e corrompidos de um microcosmo de vínculos rompidos de uma família pequeno-burguesa em decomposição pelas ruínas do tempo e das situações afloradas pela inveja a um ex-empregado com o poder financeiro em ascensão, como do vitivinicultor visto como aproveitador de um momento delicado da fustigante crise econômica. Mas ninguém é esquecido pela câmera numa estética pragmática de despiste, sem que a imagem abandone todos os personagens teoricamente envolvidos.

O drama dos personagens em foco é esmiuçado pelo cineasta em momentos distintos pela importância da história no contexto. O desenvolvimento do enredo bem urdido até o desenlace acompanha a rotina dos parentes próximos naquele lugarejo de encantos pitorescos, passando pelas insinuações sobre os empregados dos parreirais de uva e o direcionamento aos protagonistas Pablo e Alejandro, este em falência profissional na Argentina, até uma grande revelação um tanto quanto convencional no epílogo. O fracasso das investigações pelas autoridades irá de encontro com a desconfiança e a perspicácia da mãe com seu faro feminino. O mistério não está tão distante dos olhos aguçados de quem tem alguma sensibilidade de observação, pois o crime nunca é perfeito, são recados do realizador. Todos Já Sabem toma contornos de um clímax de suspense até revelar-se quem é o (a) verdadeiro (a) culpado (a), nos ótimos diálogos e na construção psicológica dos personagens em uma narrativa complexa. As revelações do passado não são julgadas e apontadas diretamente, deixando ao espectador tirar suas conclusões neste interessante e acessível suspense de boa tensão, embora não esteja num patamar superior, ainda assim suplanta as muitas realizações medíocres que invadem as salas de cinema, ao reconstruir o gênero policial dentro de um drama intimista com elegância e sutileza.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Guerra Fria



Corações Destroçados

Pawel Pawlikowski é um diretor autoral que busca nos pequenos detalhes uma amostragem da essência cinematográfica. Um autêntico artesão da sétima arte. Nascido há 61 anos em Varsóvia, foi criado desde a infância na Inglaterra com a família, ao fugir do sólido regime comunista implantado em seu país. Ida (2013) foi o primeiro filme rodado em sua terra natal e falado na língua polonesa, com o qual ganhou aproximadamente 70 prêmios internacionais, entre eles os de melhor filme, roteiro, direção e fotografia no European Film Awards de 2014, além de arrebatar o Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, levando pela primeira vez a estatueta para a Polônia, nacionalidade dos já consagrados diretores Roman Polanski, Andrzej Wajda e Krzysztof Kieslowski. Antes filmara em inglês os longas Last Resort (2000) e Meu Amor de Verão (2004), também é dele Estranha Obsessão (2011) e o ainda inédito Limonov (2018).

Novamente o cineasta teve sua última obra, Guerra Fria, indicada ao Oscar para competir na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, diretor e fotografia, com ótimas chances de levar outra vez a estatueta; também teve boa acolhida no Festival de Cannes, em 2018, esta realização polonesa em coprodução com a França e o Reino Unido, ao ser laureado em melhor direção; arrebatou ainda o prêmio Goya de melhor filme europeu do ano passado. A trama é centrada durante o engajamento da Polônia stalinista que integrava com as repúblicas da Alemanha Oriental, da Tchecoslováquia, da Hungria, da Bulgária e da Romênia, a famosa Cortina de Ferro que separava a Europa Oriental da Europa Ocidental. Eram países que alicerçavam a divisão no leste europeu, sustentados pela então enérgica União Soviética, hoje já dissolvida, que tinha o estrito controle político e econômico. As diferenças de um casal pelas contradições são expostas durante o desenrolar do enredo, entre um mundo ultrapassado e a renovação da esperança futura. Não é uma reconstrução do romantismo tradicional, mas de entraves políticos circunstanciais que se sucedem na vida dos dois, sob uma narrativa que foca na relação visceral dolorosa entrecortada por silêncios e apresentações musicais decorrentes de uma solidão imensurável. Eles enfrentam o problema com maturidade e seus olhares acusam o sofrimento profundo e dilacerante, agasalhados pelo grande amor de sentimentos com ternura, doçura e conformismo.

O arrebatador longa-metragem é baseado em traços biográficos de fatos reais ocorridos com familiares do cineasta, inspirado na saga de seus pais que viveram 40 anos de idas e vindas de encontros e desencontros, teve emprestado seus nomes aos personagens principais da trama. Ambos faleceram em 1989, antes da queda do Muro de Berlim. A história começa em Varsóvia, em 1949, logo após o fim da II Guerra Mundial, e se estende até 1964, por quinze anos no qual Wiktor (Tomasz Kot), um músico experiente que é maestro e pianista, com seus segredos íntimos, amante da liberdade e defensor das prerrogativas do direito de ir e vir, diretor da companhia estatal Mazurka de dança e música folclórica dos camponeses da Polônia. Neste ínterim, ele conhece Zula (Joanna Kulig), uma jovem talentosa cantora extrovertida e acusada de matar o pai, com suas façanhas e de um temperamento completamente diferente do músico. O casal reprimido quer viver, amar e respirar novos ares, embora a relação e o vínculo afetivo sejam ingredientes agridoces de um amor improvável pelas construções sociopolíticas da impossibilidade do contexto da Guerra Fria do país deles.

Pawlikowski acentua com sutileza e sensibilidade a tristeza e a pouca felicidade, em cenas inesquecíveis como da protagonista dançando rock num clube, depois de seu retorno de Palermo, quando se casou com um italiano para adquirir a dupla cidadania, para reencontrar Wiktor, que havia se refugiado em Paris. Ainda que o pianista também tivesse um affair com uma compositora de quem ele gravava algumas trilhas para o cinema, eles entram em conflito outra vez. Zula quer retornar para Varsóvia, pois não se adaptara ao lado ocidental, mas o companheiro respira liberdade e é contrário ao regresso. Os diálogos são curtos em tom direto, no enxuto roteiro em parceria de Janusz Glowacki com o próprio diretor, com cortes certeiros em elipses apropriadas. Lukasz Zal é o responsável pela fascinante fotografia em preto e branco- também usou deste recurso em Ida- que explora o contraste com tons acinzentados, e pelas lentes são mostrados rostos e olhares de perplexidades mesclados de surpresa e indignação da angustiante política adotada pelo país dos personagens, na qual é retratada nos pequenos espaços, através da resolução de um formato quadrado de 4:3, ao estilo dos filmes antigos dos cinemas até os anos de 1950, fechando a imagem num formato adequado e angustiante da melancolia repassada. Embora o cenário seja, por muitas vezes, a efervescente, cultural e boêmia Cidade Luz dos anos de 1950. Ou ainda, quando o realizador foca na turnê da companhia de danças pela Alemanha Oriental (Berlim) e Iugoslávia, entre alguns dos países colaboradores dos soviéticos, entoando canções de propaganda de cunho do regime autoritário.

Entre pequenos gestos de carinho, há os encontros forjados pelo medo da represália das autoridades comunistas, demonstrando o imenso afeto e a união entre eles, tornando o vínculo forte e verossímil num relacionamento sem obviedades e com enorme força interior daqueles seres humanos vitimizados pelos horrores da brutalidade política antidemocrática que despedaça seus corações fragilizados. Guerra Fria é um drama intenso de um amor sublimado da grande paixão com os destroços remanescentes da amargura oriunda do coração e da alma aflorados de uma relação turbulenta de dois amantes de muita química, deixando que as imagens marcantes e os poucos diálogos exprimam os sentimentos do casal, numa obra simplesmente fabulosa e de uma reflexão profunda. Faz uma abordagem imparcial dos traumas da história ocorridos no século XX, através dos choques nefastos registrados por uma trajetória sem vencedores ou vencidos, através de uma realidade de embates pós-guerra pelos efeitos psicológicos e com lembranças de um passado repleto de fantasmas que impactam, com humanismo, melancolia e poesia bem representados no desfecho redentor.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Green Book - O Guia



Preconceito e Intolerância

Vencedor de três prêmios no Globo de Ouro: melhor filme de comédia, roteiro e ator coadjuvante (Mahershala Ali), Green Book- O Guia insere-se como um dos fortes candidatos ao Oscar deste ano, ao concorrer em cinco categorias; também venceu o Grande Festival de Toronto na indicação de melhor filme. A direção é do promissor norte-americano Peter Farrely, em seu longa-metragem de estreia solo, antes dirigiu em parceria com o irmão Bobby as comédias Debi & Lóide- Dois Idiotas em Apuros (1994), Quem Vai Ficar Com Mary (1998) e Eu, Eu Mesmo & Irene (2000). Conhecido por realizações anteriores menores, nas quais predominavam o riso fácil, sem um grande foco. Agora deixa de lado estas obras de pouca relevância para atingir um patamar mais elevado e consistente, com uma abordagem para uma crítica social agradável e leve num contexto bem explorado, sem deixar de ser enfático sobre o racismo e a hipocrisia da injustiça social no Sul dos EUA, através do enxuto roteiro escrito por Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e pelo próprio cineasta.

Eis uma comédia dramática baseada em uma história real, na qual o título faz referência a um livro que apontava os hotéis, pousadas, restaurantes e alguns locais que poderiam aceitar negros, em pleno ano de 1962. A trama retrata Tony Lip “Bocudo” (Viggo Mortensen- de atuação soberba), um homem branco, fanfarrão, o típico brucutu ítalo-americano que leva a vida com pequenos serviços em Nova Iorque. Precisa achar um trabalho, logo após a discoteca em que trabalhava como segurança ter as portas fechadas por culpa dele mesmo, tendo em vista ser uma pessoa violenta e que resolve tudo na base do soco na cara do freguês. Fica sabendo de uma vaga para motorista de um renomado músico, acaba conhecendo Don Shirley (Mahershala Ali- de impecável interpretação), um conceituado e virtuose pianista afrodescendente. A vaga parece cair do céu, pois o artista necessita fazer uma turnê numa região conflagrada pela segregação, no Sul do país, onde as diferenças étnicas ainda são fortemente marcadas pela violência com tintas remanescentes de um racismo ignóbil e persistente. As intolerâncias não são somente quanto à distinção de raças: branco e negro, mas também pela discriminação aos homossexuais e o rancor destilado aos assumidamente não heterossexuais.

O filme avança com sutileza e sensibilidade entre empregado e empregador. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam juntos e as diferenças injustas brotam por onde passam. É montado um painel distinto para contar uma história que apresenta os vilões nos grandes salões com tapetes vermelhos para uma grande festa, o anti-herói branco em defesa da vítima marginalizada pela cor e a opção sexual num contexto de pura hipocrisia. A realização é tangenciada por certa generosidade com toques de humor, embora em escala bem menor diante da ira latente que vai crescendo. O conservadorismo está presente nos sulistas norte-americanos e a intransigência é uma das apresentações hostis para quem ousa bater de frente ou contraditar aquelas ideias ali encravadas e pouco solidárias com o politicamente correto estabelecido por um expressivo contingente de uma realidade sombria para o desenvolvimento de uma pacificação. É a simbolização da pouca lucidez numa iminente desagregação que deixa rastros de ódio para resultados pouco convencionais na fragilidade da paz em confronto com a esperança de uma solução pragmática esfacelada pelo preconceito de uma sociedade deformada.

Farrely segue uma linha narrativa que lembra pelas semelhanças Conduzindo Miss Daisy (1989), de Bruce Beresford, em que havia a premissa sobre uma idosa branca conservadora que era obrigada a se adaptar a um motorista negro subordinado, mas de personalidade forte; ou ainda na badalada produção francesa Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, sobre uma relação improvável de uma história real de uma inesperada amizade genuína, entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante, o imigrante do Senegal que busca seu reingresso social na França dos brancos, com um toque de humor cáustico na busca pela igualdade entre duas pessoas opostas social e intelectualmente. Green Book- O Guia tem a dinâmica invertida, porque agora é o artista afro famoso contratando um homem branco de origem italiana com o viés totalmente racista para trabalhar como seu empregado. A inovação está exatamente na troca de papéis, por ser fundamental para criar um clímax de horror e brutalidade, que torna a dramaticidade contextualizada e amplamente complexa na sua essência, inclusive para os familiares e amigos do motorista, todos avessos a tal circunstância, porém o desfecho será redentor e revelador com a chegada da comemoração do Natal.

Uma obra com amplitude maior pela sutileza, acima das banalidades que proliferam em filmes redundantes sobre a temática racial. Um road movie que aborda com eficácia as relações conturbadas e fragmentadas pela dura ruptura social que desencadeiam em episódios grotescos, violentos e perversos sobre a perda do controle como elementos opressores retratados de uma realidade cruel e selvagem, bem construída pelo realizador que escapa com imparcialidade dos maniqueísmos que rodeiam e poderiam aflorar para um epílogo reduzido da comédia. Ali fica estampado que não há heroísmo barato, mas uma tomada de consciência pela transformação que traz reflexos nas mudanças comportamentais de um ser humano boçal em mutação, em que o inesquecível personagem truculento e apaixonado pela esposa, mas sensível e romântico, às vezes forte e arrogante, em outras fragilizado como o macho alfa. Mas a dura realidade que presenciou o torna flexível para ter um olhar mais crítico sobre uma sociedade enferma pelos desdobramentos que transbordam da civilidade. São componentes de uma realização de humor sarcástico, intercalado com algum lirismo, embora haja o preconceito vil de um conservadorismo arcaico, para deixar registrada a reflexão da intolerância sexual e das crônicas questões de cunho racial e do ódio aplastante numa região inflamada pela estupidez.