quarta-feira, 29 de julho de 2026

Franz

  

Vida e Obra de Kafka

A diretora polonesa Agnieszka Holland tem em sua filmografia filmes como Zona de Exclusão (2023), O Charlatão (2020), A Sombra de Stalin (2019) e Rastros (2017). Com Franz, uma cinebiografia sobre a vida e a obra de Franz Kafka (1883-1924), um dos mais importantes escritores do século 20, foi indicado para representar a Polônia no Oscar deste ano na categoria de melhor filme internacional. A trama acompanha sua infância em Praga e segue até a morte na Áustria após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Conhecido por criações literárias perturbadoras, tais como: A Metamorfose, O Processo, O Castelo, Carta ao Pai, e os contos Na Colônia Penal e Um Artista da Fome. Uma interessante história contada com eficiente elaboração ao fazer registros do cinebiografado nesta trajetória de um autor dos mais lidos mundialmente. Interpretado com intensidade e boa dramaturgia pelo convincente ator tcheco Idan Weiss. Não é fácil encarnar o icônico e emblemático romancista em uma construção intimista e psicológica em ritmo moderado, misturando passado e futuro com tons oníricos e marcados pelos absurdos através de uma personalidade bem peculiar.

Com um roteiro multifacetado escrito pela realizadora em parceria com Marek Epstein, narra com algum virtuosismo o conturbado relacionamento do escritor com seu pai (Peter Kurth), autoritário e exigente em uma infância marcada pelo conflito entre os dois, contrapondo com a bondosa, mas subserviente mãe (Sandra Korzeniak). Remete à cinebiografia brasileira Homem com H (2025), de Esmir Filho, não pela estética, mas pela relação paterna com o filho. A rotina de trabalho num escritório de seguros e a forte amizade com seu editor Max Brod (Sebastian Schwarz) e os complicados romances com Felice Bauer (Carol Schuler) e Milena Jesenká (Jenovéfa Boková) são abordagens retratadas com imparcialidade numa atmosfera de dúvidas. Um jovem que ansiava por uma vida comum, com pouca dedicação para dirigir os negócios da família, é a simbologia da angústia que mostra o sofrimento pela repressão. Porém, sua imaginação deriva para escrever suas ansiedades e seus propósitos através de grandes histórias como uma terapia do cotidiano sufocante pela opressão do genitor pelos conteúdos emocionais e o microcosmo familiar sendo expostos ao espectador com boa dosagem de emoção. Pontua o escritor na essência como artista e ser humano, quase que um documentário, buscando uma fidelidade, embora haja idas e vindas no roteiro, sem seguir uma cronologia.

O cineasta Steven Soderbergh já havia adaptado para a telona o filme Kafka (1991) ao colocar o romancista como protagonista numa trama de suspense psicológico. Abordou as paranoias e obsessões num lugar controlado por senhores misteriosos num castelo de Praga, em 1919, mostrando um burocrata do serviço público que escreve nas horas vagas. Já Holland retrata a desarmonia familiar, as neuroses e a inquietação do escritor com imparcialidade nesta sua realização atual. Passou em revista com alguma sutileza a vida pessoal, artística e a todos os caminhos trilhados do renomado protagonista. Logo se percebe a desenvoltura e o senso crítico desde a infância em Praga até a morte em Viena, decorrente da tuberculose, como uma característica atrelada na personalidade forte e rebelde de jamais se subordinar ao sistema autoritário, metáfora de um mundo em crise advinda da Primeira Guerra Mundial. A começar pelo pai opressor símbolo de uma época machista beirando à tirania de um paternalismo sufocante; próximo da irmã caçula (Katharina Stark); e do amigo e editor que o incentiva categoricamente ao afirmar: "Franz, só você consegue fazer o lixo parecer bonito". As sequências que envolvem o escritor que não se deixa dobrar mostram sua disposição e a vontade expressa de buscar novos rumos sem amarras, como escrever suas aflições dilacerantes. Um filme que busca a humanização nos momentos difíceis pela árdua superação que resulta no profundo desabrochar pela metamorfose em direção ao renascimento de um escritor até a publicação de suas obras, reconhecidas posteriormente. A celebração pelos visitantes de várias cidades do mundo transforma cada sequência, multiplicado em ganchos para a entrada da vida e da obra de Kafka, sem ser linear no roteiro, com cenas contemporâneas no museu, discutem o legado literário pós- morte num ícone pop como atração turística.

A literatura servia de fresta para a libertação do indivíduo anestesiado em trabalhos burocráticos de extrema monotonia como um burocrata de uma seguradora e seu furor para soltar seus fantasmas escrevendo. Sombrio e com dificuldades para o amor pleno como um homem preso às suas idiossincrasias que quer se libertar de uma sociedade hipócrita e anômala por decorrência de um sistema caolho como visão universal imaginária, pelo seu ponto de vista, para atingir o coletivo. Como na leitura pública do conto Na Colônia Penal, o personagem central intercala o desconforto daquela plateia burguesa com a dramatização cruel da história sádica sobre uma máquina do tempo que leva horas gravando a sentença na pele de um condenado sendo martirizado por um sofrimento físico e moral como êxtase da punição pelos seus algozes. São passagens que simbolizam as amarguras na vida do cinebiografado com situações de pouca delicadeza e uma beleza constrangedora vinda da dor dilacerante de uma obra com estrutura narrativa fragmentada, não linear e cheia de perspectivas que se cruzam, na qual são criados paralelos entre o homem e o escritor, repleto de instintos selvagens, sem se afastar da realidade.

Franz transmite uma reflexão para se entender e compreender este escritor tão relevante e autêntico, que quebra regras e paradigmas sociais obsoletas e preconceituosas ao criar as suas para uma vida própria com dignidade, quando luta com resiliência contra os obstáculos. Ousado para ter a tão obsessiva soberania de escrever para soltar suas ilusões adormecidas e valorizar o espírito libertário de uma alma sem aprisionamento. Uma realização que poderia ser melhor explorada diante da notável biografia significativa do personagem central e sua literatura. O resultado poderia ser melhor para deleite do espectador nesta imersão que beira pelos caminhos das tensões oriundas de um período de guerra em que se passava de iminente ameaça. A história contada faz estes registros na turbulência de um período em sincronia com os eventos de turbulência mundial. Um passeio pela trajetória de fatos verídicos que marcaram uma existência entre prós e contras, poucas alegrias e mais dissabores, sem os estereótipos vistos em várias realizações, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar uma história recheada de futilidades das celebridades. Há méritos por não se ater e explorar pieguismos baratos. Uma narrativa que poderia ser mais profunda e arrebatadora deste importante legado literário, caso a diretora estivesse melhor inspirada.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Uma Infância Alemã

 

Efeitos da Guerra

O diretor, roteirista e produtor alemão de ascendência turca Fatih Akin é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo da Alemanha. Tem brilho próprio, assim como seu conterrâneo Christian Petzold, nos elogiados Barbara (2012), Phoenix (2014), Em Trânsito (2018) e Afire (2023). O cineasta tem em sua filmografia realizações rigorosamente instigantes sobre imigração. Com o notável Contra a Parede (2004), ganhador do Urso de Ouro em Berlim; foi sucesso de público e crítica com o deslumbrante documentário musical Atravessando a Ponte- O Som de Istambul (2005); com o admirável Do Outro Lado (2007), obteve o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes; na elogiável comédia dramática escrachada Soul Kitchen (2009), abocanhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza; obteve a láurea de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro com Em Pedaços (2017), que retratou a morte por explosão de um ex-traficante e seu filho depois de cumprir pena e tem na arrasada mãe e ex-companheira a busca incessante de justiça para os crimes de seus familiares; já no extraordinário O Bar Luva Dourada (2019), talvez sua obra máxima, sobre os seres humanos destroçados pelo tempo, em uma exemplar reflexão sobre a irracionalidade bestial num painel arrebatador pelo olhar questionador sobre as fragilidades humanas. Contextualizado dentro de um clímax embrutecido por um panorama sombrio oriundo desde o pós-guerra, em que a selvageria impacta e devasta pela solidão com lembranças pretéritas nefandas.

Depois de demonstrar toda sua sensibilidade e vigor estético inovador em suas realizações anteriores, Akin retorna com o estupendo Uma Infância Alemã para se aprofundar nas mazelas decorrentes das feridas abertas de uma sociedade ainda traumatizada pelos efeitos do nazismo. Envolve o espectador com este drama de guerra perturbador mesclado com fábula moderna adulta. O roteiro começou a ser escrito e foi baseado no livro de memórias do ator, roteirista, diretor, dramaturgo, romancista e professor de estudos cinematográficos, Hark Bohm, que se destacou por sua longa colaboração com o cultuado realizador Rainer Werner Fassbinder. Logo ficou enfermo, tendo Akin colaborado com seu amigo e mentor na conclusão. Bohm faleceu dois meses após a exibição do filme no Festival de Toronto. Filho de oficial nazista- seu pai ingressou na SS em 1933, alcançando o posto de SS-Obersturmführer. A deslumbrante fotografia pelas lentes do competente Karl Walter Lindenlaub acompanha a vida de um menino de 12 anos chamado Nanning (Jasper Billerbeck, numa atuação magnética), que se passa nas últimas semanas da Segunda Guerra Mundial, na paradisíaca ilha alemã Amrum, que faz parte do arquipélago das Ilhas Frísias do Norte, perto da costa da Dinamarca, conhecida por suas extensas praias de areias e dunas.

A trama foca nos dias do protagonista que presencia a rotina dos exilados no local, enquanto luta para alimentar a família, trabalha numa fazenda ao redor de casa em que passam as férias para ajudar sua mãe grávida, Tessa (Diane Kruger), uma fervorosa defensora do regime de Hitler, a irmã Hile (Laura Tonke) e uma tia contrária ao regime opressor. Sente a falta do pai, enviado ao campo de batalha para defender o país. Vivem esperando notícias que indiquem o fim da batalha mundial. Os familiares oriundos de Hamburgo, por isto são chamados de continentais, apesar de terem raízes no local. Boa parte da comunidade demonstra ojeriza pelo nazismo. Há um choque com a cultura ancestral dos frísios que migraram da Escandinávia. A arrogância retumbante da mãe afeta a atmosfera e as relações do próprio filho. Mesmo com o fim da guerra, a paz não reina e as dificuldades aumentam. O personagem central quer desvendar um devastador segredo familiar, do motivo principal pelo qual o tio foi embora para Nova Iorque. Não por livre espontânea vontade, mas por delação ideológica de parentes bem próximos, com um resultado irreversível para sua namorada judia, enviada para um campo de concentração. A Alemanha está dividida entre seus compatriotas, contra ou a favor de Hitler, com os efeitos nefastos sendo revelados, demonstra que o inimigo está dentro de casa. Feridas abertas por traumas ideológicos que passam de geração para geração impactam uma cultura esfacelada por um celerado no poder. O menino se sente perdido, tendo em vista que o patriarca luta pelas forças repressoras governistas. Na perda da inocência com passagem à fase lúcida dos adultos, questiona no seu subconsciente se os pais estariam certos ou errados, pois foi criado para acreditar que o Führer fazia o melhor para a nação.

Até hoje, uma temática difícil para os alemães diante da derrota na guerra, seus desdobramentos e a marca indelével do nazismo se fazendo presente nas gerações seguintes. Uma narrativa sem subterfúgios e emblemática sobre o dia a dia simples de pessoas sem destinos e reclusas na bela ilha. As famílias dali estão sob o jugo de uma opressão ideológica, que levou a um projeto radical. O mundo a partir do olhar de uma criança não dispõe, em princípio, das obsessões de violência habitada no imaginário adulto que observa destruições, fomes, assassinatos e suicídios. Com um realismo contundente, em um tom de fábula, com artimanhas adequadas, retrata um painel do flagelo humano decorrente das angústias políticas de um universo de dúvidas e aflições constantes. Há lamúrias de personagens desencontrados e sofridos, como a mutilação do padeiro que perdeu um braço e, especialmente, a mãe autoritária que se recusa a comer sem o pão branco, metáfora da supremacia branca. Manteiga, mel, farinha de trigo e ovos, ingredientes estes completamente estão escassos para seu deleite. Fica desnutrida para alimentar o recém-nascido em meio à notícia traumática do suicídio de Hitler. O filho, ao ver o sofrimento materno, segue uma saga de busca dos alimentos desejados. A narrativa tem similitude com o filme representante do Iraque no Oscar de 2026, O Bolo do Presidente (2025), de Hasan Hadi, na obstinada busca da menininha de poucos recursos, com medo de ser punida, embarca em uma jornada culinária numa cidade próxima de seu povoado para encontrar ingredientes como ovos, farinha de trigo, fermento e açúcar, para fazer um bolo de aniversário para o ditador Saddam Hussein.

Uma Infância Alemã não cai na caricatura fácil e nem no maniqueísmo contumaz de algumas realizações pouco consistentes. Causa algum desconforto diante da intensidade do aprendizado do protagonista em matar coelhos e atrair as focas para serem abatidas com tiros à queima-roupa, embora fossem para sobrevivência. As construções de personagens psicologicamente fanatizados por um regime de exceção para uma guerra cruel aos derrotados em situações que beiram o abismo da perda da autoestima, como a simbólica mãe, estão bem alicerçadas por uma direção autoral, através de uma forte complexidade dos detalhes. As dores carregadas de traumas do bullying que sofreu a criança pelos adolescentes como forma de rejeição ao prazer, diante da perda da dignidade e da piedade são elementos que afloram pelos impulsos sem freios. A redenção no epílogo, como a retribuição de afeto e amor do menino sofrido ao presentear o amigo nativo com o clássico Moby Dick, romance épico de 1851, pelo escritor Herman Melville. Fica consolidado no olhar da jovem que teve a solidariedade num momento difícil para salvar uma vida no mar revolto. Situações de pura magia e emoção, com manifestações redentoras, como um sopro de luz no fim do túnel para a humanidade em frangalhos convivendo com o poder sem limites reinante pela perspectiva impregnada do ódio, da ganância, da arrogância e da intolerância. Um grito contra a tirania pela beleza da arte cinematográfica inserida nestas circunstâncias da simplicidade realizada com méritos maiores, na qual o desfecho registra com um poder de cena magistral. Deverá estar entre os 10 melhores filmes no final do ano.