segunda-feira, 13 de julho de 2026

Uma Infância Alemã

 

Efeitos da Guerra

O diretor, roteirista e produtor alemão de ascendência turca Fatih Akin é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo da Alemanha. Tem brilho próprio, assim como seu conterrâneo Christian Petzold, nos elogiados Barbara (2012), Phoenix (2014), Em Trânsito (2018) e Afire (2023). O cineasta tem em sua filmografia realizações rigorosamente instigantes sobre imigração. Com o notável Contra a Parede (2004), ganhador do Urso de Ouro em Berlim; foi sucesso de público e crítica com o deslumbrante documentário musical Atravessando a Ponte- O Som de Istambul (2005); com o admirável Do Outro Lado (2007), obteve o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes; na elogiável comédia dramática escrachada Soul Kitchen (2009), abocanhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza; obteve a láurea de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro com Em Pedaços (2017), que retratou a morte por explosão de um ex-traficante e seu filho depois de cumprir pena e tem na arrasada mãe e ex-companheira a busca incessante de justiça para os crimes de seus familiares; já no extraordinário O Bar Luva Dourada (2019), talvez sua obra máxima, sobre os seres humanos destroçados pelo tempo, em uma exemplar reflexão sobre a irracionalidade bestial num painel arrebatador pelo olhar questionador sobre as fragilidades humanas. Contextualizado dentro de um clímax embrutecido por um panorama sombrio oriundo desde o pós-guerra, em que a selvageria impacta e devasta pela solidão com lembranças pretéritas nefandas.

Depois de demonstrar toda sua sensibilidade e vigor estético inovador em suas realizações anteriores, Akin retorna com o estupendo Uma Infância Alemã para se aprofundar nas mazelas decorrentes das feridas abertas de uma sociedade ainda traumatizada pelos efeitos do Nazismo. Envolve o espectador com este drama de guerra perturbador mesclado com fábula moderna adulta. O roteiro começou a ser escrito e foi baseada no livro de memórias do ator, roteirista, diretor, dramaturgo, romancista e professor de estudos cinematográficos, Hark Bohm, que se destacou por sua longa colaboração com o cultuado realizador Rainer Werner Fassbinder. Logo ficou enfermo, tendo Akin colaborado com seu amigo e mentor na conclusão. Bohm faleceu dois meses após a exibição do filme no Festival de Toronto. Filho de oficial nazista- seu pai ingressou na SS em 1933, alcançando o posto de SS-Obersturmführer. A deslumbrante fotografia pelas lentes do competente Karl Walter Lindenlaub acompanha a vida de um menino de 12 anos chamado Nanning (Jasper Billerbeck, numa atuação magnética), que se passa nas últimas semanas da Segunda Guerra Mundial, na paradisíaca ilha alemã Amrum, que faz parte do arquipélago das Ilhas Frísias do Norte, perto da costa da Dinamarca, conhecida por suas extensas praias de areias e dunas.

A trama foca nos dias do protagonista que presencia a rotina dos exilados no local, enquanto luta para alimentar a família, trabalha numa fazenda ao redor de casa em que passam as férias para ajudar sua mãe grávida, Tessa (Diane Kruger), uma fervorosa defensora do regime de Hitler, a irmã Hile (Laura Tonke) e uma tia contrária ao regime opressor. Sente a falta do pai, enviado ao campo de batalha para defender o país. Vivem esperando notícias que indiquem o fim da batalha mundial. Os familiares oriundos de Hamburgo, por isto são chamados de continentais, apesar de terem raízes no local. Boa parte da comunidade demonstra ojeriza pelo Nazismo. Há um choque com a cultura ancestral dos frísios que migraram da Escandinávia. A arrogância retumbante da mãe afeta a atmosfera e as relações do próprio filho. Mesmo com o fim da guerra, a paz não reina e as dificuldades aumentam. O personagem central quer desvendar um devastador segredo familiar, do motivo principal pelo qual o tio foi embora para Nova Iorque. Não por livre espontânea vontade, mas por delação ideológica de parentes bem próximos, com um resultado irreversível para sua namorada judia, enviada para um campo de concentração. A Alemanha está dividida entre seus compatriotas, contra ou a favor de Hitler, com os efeitos nefastos sendo revelados, demonstra que o inimigo está dentro de casa. Feridas abertas por traumas ideológicos que passam de geração para geração impactam uma cultura esfacelada por um celerado no poder. O menino se sente perdido, tendo em vista que o patriarca luta pelas forças repressoras governistas. Na perda da inocência com passagem à fase lúcida dos adultos, questiona no seu subconsciente se os pais estariam certos ou errados, pois foi criado para acreditar que o Führer fazia o melhor para a nação.

Até hoje, uma temática difícil para os alemães diante da derrota na guerra, seus desdobramentos e a marca indelével do Nazismo se fazendo presente nas gerações seguintes. Uma narrativa sem subterfúgios e emblemática sobre o dia a dia simples de pessoas sem destinos e reclusas na bela ilha. As famílias dali estão sob o jugo de uma opressão ideológica, que levou a um projeto radical. O mundo a partir do olhar de uma criança não dispõe, em princípio, das obsessões de violência habitada no imaginário adulto que observa destruições, fomes, assassinatos e suicídios. Com um realismo contundente, em um tom de fábula, com artimanhas adequadas, retrata um painel do flagelo humano decorrente das angústias políticas de um universo de dúvidas e aflições constantes. Há lamúrias de personagens desencontrados e sofridos, como a mutilação do padeiro que perdeu um braço e, especialmente, a mãe autoritária que se recusa a comer sem o pão branco, metáfora da supremacia branca. Manteiga, mel, farinha de trigo e ovos, ingredientes estes completamente estão escassos para seu deleite. Fica desnutrida para alimentar o recém-nascido em meio à notícia traumática do suicídio de Hitler. O filho, ao ver o sofrimento materno, segue uma saga de busca dos alimentos desejados. A narrativa tem similitude com o filme representante do Iraque no Oscar de 2026, O Bolo do Presidente (2025), de Hasan Hadi, na obstinada buscas da menininha de poucos recursos, com medo de ser punida, embarca em uma jornada culinária numa cidade próxima de seu povoado para encontrar ingredientes como ovos, farinha de trigo, fermento e açúcar, para fazer um bolo de aniversário para o ditador Saddam Hussein.

Uma Infância Alemã não cai na caricatura fácil e nem no maniqueísmo contumaz de algumas realizações pouco consistentes. Causa algum desconforto diante da intensidade do aprendizado do protagonista em matar coelhos e atrair as focas para serem abatidas com tiros à queima-roupa, embora fossem para sobrevivência. As construções de personagens psicologicamente fanatizados por um regime de exceção para uma guerra cruel aos derrotados em situações que beira o abismo da perda da autoestima, como a simbólica mãe, estão bem alicerçadas por uma direção autoral, através de uma forte complexidade dos detalhes. As dores carregadas de traumas do bullying que sofreu a criança pelos adolescentes como forma de rejeição ao prazer, diante da perda da dignidade e da piedade são elementos que afloram pelos impulsos sem freios. A redenção no epílogo, como a retribuição de afeto e amor do menino sofrido ao presentear o amigo nativo com o clássico Moby Dick, romance épico de 1851, pelo escritor Herman Melville. Fica consolidado no olhar da jovem que teve a solidariedade num momento difícil para salvar uma vida no mar revolto. Situações de pura magia e emoção, com manifestações redentoras, como um sopro de luz no fim do túnel para a humanidade em frangalhos convivendo com o poder sem limites reinante pela perspectiva impregnada do ódio, da ganância, da arrogância e da intolerância. Um grito contra a tirania pela beleza da arte cinematográfica inserida nestas circunstâncias da simplicidade realizada com méritos maiores, na qual o desfecho registra com um poder de cena magistral. Deverá estar entre os 10 melhores filmes no final do ano.