quinta-feira, 12 de março de 2026

Sirât

 

A Saga

O longa-metragem Sirât venceu o Prêmio do Júri no Festival de Cannes 2025, foi o filme de abertura da 49ª. edição da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo de 2025, indicado pela Espanha ao Oscar deste ano nas categorias de Melhor Filme Internacional e Melhor Som, e ainda laureado com seis prêmios técnicos no Goya 2026: Som, Fotografia, Montagem, Música Original, Direção de Arte e Direção de Produção. O título tem origem em uma palavra árabe que significa "caminho" e dialoga com as temáticas evidenciadas nesta coprodução com a França. A direção é de Óliver Laxe, que tem em sua filmografia os longas O Que Arde (2019), premiado na mostra Um Certo Olhar em Cannes, Mimosas (2016) e Todos Vós Sodes Capitáns (2010). Embora o prólogo sugira uma contemplação de outrora, nada disso se confirma. O que deveria ser um mergulho no interior de cada personagem com uma infinita imensidão de sensações abaladas, que deveria ser uma saga até o paraíso, acaba se tornando uma verdadeira viagem ao inferno. Por consequência, é o destino traiçoeiro daqueles sentimentos frustrantes de uma sociedade opressora e egoísta.

A trama gira em torno de um pai, Luis (Sergi López), e o filho caçula, Estebán (Bruno Núñez), que viajam acompanhados pela cadelinha Pipa até o Marrocos para tentarem encontrar Marina, filha e irmã, respectivamente. O destino da dupla é uma festiva rave no meio das áridas montanhas em pleno deserto do Saara com experiências inesquecíveis. Distribuem a foto da jovem procurada para os participantes do evento que se divertem ao som da estrondosa música eletrônica pulsando na busca da liberdade. Há uma esperança de quem nunca desiste. Expulsos do local pela polícia, os dois seguem um grupo que decide ir em outra festa que acontecerá próximo dali, trajeto ainda mais perigoso pelas circunstâncias do terreno inóspito, tudo em nome da transcendência espiritual embalada pela trilha sonora assinada por Kangding Ray, numa experiência sensorial desorientadora. A jornada é um verdadeiro caos que obriga testar os próprios limites de sobrevivência por causa das adversidades climáticas e geográficas. O diretor busca nos gestos transformadores na dança em forma de transe como confissões significativas para revelar as obscuras dúvidas e a melancolia incrustada nos seres humanos. Carregam emoções reprimidas que assombram e reduzem a capacidade de lucidez. Elementos intrínsecos não faltam para a construção psicológica e suas complexidades de solidão implacável pelas decepções e sofrimentos existenciais naquelas paisagens desérticas.

O desenrolar do enxuto roteiro de Santiago Fillol apresenta minuciosamente os cinco animados amigos com muito boa empatia e solidariedade interpretados por atores amadores: Steff (Stefania Gadda), Jade (Jade Oukid), Tonin (Tonin Janvier), Bigui (Richard "Bigui" Bellamy) e Josh (Joshua Liam Herderson). Tentam convencer o pai e o filho a desistirem devido às dificuldades severas que irão encontrar, mas eles insistem, acabam se unindo e formando um forte vínculo afetivo. Compartilham suas tristes histórias de vida e obstáculos pelo caminho até o lugar imaginário que querem alcançar como objetivos, através das fascinantes imagens captadas pelas lentes do fotógrafo Mauro Herce. A jornada se torna aterrorizante para todos em meio a combates brutais e desconfortáveis que acontecem concomitantemente. Em uma cena comovente, um dos personagens questiona se "é assim que parece o fim do mundo?", enquanto um outro responde laconicamente: "Já faz tempo que é o fim do mundo". O campo minado da guerra é um prenúncio da catástrofe que explode e começa a ceifar vidas, como uma rotina constante da dura realidade retratada como um abismo no deserto naquele caminho tortuoso e sufocante com indícios de claustrofobia a céu aberto, embora pareça ser paradoxal. Provocativo e zen numa imersão sensorial com tintas de sadismo para flertar com o masoquismo, com tragédias se sucedendo, pela condução do cineasta nos movimentos da câmera.

A abordagem política e social na construção de um panorama denso com muito realismo para contar uma história, como na indicação apropriada de uma possível Terceira Guerra Mundial, fica em segundo plano, sem avançar com esmero e profundidade. O trem lotado de pessoas pelo deserto, no desfecho, fica à deriva pela inércia de uma contundente reflexão, embora as imagens tentem mostrar o drama de cada personagem sobrevivente. Tudo meio vago e dispersivo. Alguns críticos compararam com O Comboio do Medo (1977), dirigido por William Friedkin, outros com Mad Max: Estrada da Fúria (2014), de George Miller, num mundo pós-apocalíptico, mas Laxe propõe mesmo é o desconforto como finalidade de uma jornada física, metafísica e emocional familiar. Desemboca num emaranhado de situações arbitrárias cruéis vazias ao insistir nas abundantes mortes acidentais. Porém, sua inspiração mesma é decorrente de clássicos que o influenciou, tais como Dennis Hopper em Sem Destino (1969), os mestres Michelangelo Antonioni com Zabriskie Point (1970) e Wim Wenders na obra-prima Paris, Texas (1984). É uma tentativa de dialogar com estes monstros sagrados, admitida pelo diretor em conversa por vídeo com o crítico Ticiano Osório do jornal Zero Hora, em fevereiro passado. Viraram mesmo uma cópia bem menor em Sirât, ainda que haja alguns méritos na obra festejada por boa parte da crítica.

As mortes violentas explodem no epílogo deste drama denso e sombrio com crueldade nos pequenos detalhes, sem se afastar da imersão pelo ritmo lento da tensão pelo silêncio constante. Depois de muita música e dança, leva para um grau sugestivo de imprevisibilidade permanente ao conduzir para surpresas que estão por acontecer a qualquer momento, algumas já esperadas, mas não chega a contagiar o lado nebuloso de um certo mistério no bojo da narrativa. Um road movie beirando ao catártico, mas com o viés de uma luz significativa para a sobrevivência num aceno de que as armadilhas do destino estão presentes e impostas como consequências da interferência metafísica para diagnosticar o fim dos tempos na transcendência espiritual. Os personagens condenados emergem do purgatório, confrontando corpos mutilados aflitos com a desumanidade visceral, sem sutilezas ou alegorias atenuadas. Laxe utiliza o método de choques abundantes, tendo como resultado uma confusão pela pouca finesse com o aprofundamento de uma obra maior. Incomodar, perturbar dentro de uma estrutura narrativa coerente contraria a violência pela violência gratuita e esvazia uma ideia interessante. O colapso do mundo exterior se distancia da dramaticidade intimista dos personagens corroídos pela dor física e emocional. Ficam as sequelas como ruídos de tempos difíceis do transtorno particular de cada personagem como instrumentos de flagelo para a destruição total, mas sem uma convincente densidade filosófica existencial.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

A Voz de Hind Rajab

 

Noite de Agonia

A Voz de Hind Rajab representa a Tunísia, em coprodução com a França, na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar deste ano e vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2025, sendo aplaudido por ininterruptos 22 minutos. Um surpreendente docudrama com tintas contidas de suspense psicológico, embora com duração de 89 minutos que passa rápido, mas parece durar uma eternidade pela agonia que a obra passa para o espectador. Tem uma invejável produção executiva com nomes renomados, entre os quais estão os atores Brad Pitt, Joaquin Phoenix e Spike Lee, a atriz Rooney Mara e os diretores Jonathan Glazer e Alfonso Cuarón. Dirigido por Kaouther Ben Hania, uma cineasta e roteirista tunisiana de 48 anos. Indicada ao Oscar na edição de 2021 pelo filme O Homem Que Vendeu Sua Pele (2020), tendo em sua filmografia O Agressor de Túnis (2014), A Bela e Os Cães (2017) e As 4 Filhas de Olfa (2023), vencedor do prêmio Golden Eye de Documentário no Festival de Cannes, e ainda disputou o Oscar 2024 na categoria de melhor documentário em longa-metragem.

Na trama do filme, apenas é usada a voz da menininha Hind Rajab de 6 anos pelas ligações de áudio originais feitas para o serviço de emergência palestino, sem a presença de uma atriz para interpretá-la, para dar maior autenticidade e uma respeitosa ética à vitima, que só é mostrada por uma foto. Construído em um painel angustiante de tirar o fôlego por meio do pedido de socorro, metáfora de um povo encurralado. Primeiro de um familiar, depois pelo clamor suplicante e desesperado com sons ao fundo de rajadas de metralhadora vindos pelo celular. Ambientado na guerra ocorrida em Gaza, há uma tentativa de fuga do local da garotinha escondida dentro do carro de um tio, presa após o veículo começar a pegar fogo, diante do massacre efetuado pelos soldados israelenses a civis desprotegidos. A saga trágica durou três horas no telefone com os voluntários do Crescente Vermelho, uma organização humanitária que atua na Cisjordânia, na Jerusalém Oriental e na Faixa de Gaza: Omar (Motaz Malhees), o mais indignado e sanguíneo de todos, quer o resgate dos paramédicos a qualquer preço; Rana (Saja Kilani) é uma supervisora doce e emotiva que nunca perde a esperança, entre soluços e lágrimas; Nisreen (Clara Khoury) é a terapeuta centrada com palavras de consolo; Mahdi (Amer Hlehel) é o chefe da equipe, cauteloso e por vezes até demais, parece frio, mas nunca usa o coração, sempre a razão.

O longa faz uma dramatização dos acontecimentos com a súplica por socorro, bem como reporta as frustradas tentativas da ajuda humanitária para retirar a criança do meio daquele caos de ataques iminentes. Diante de uma enxurrada de denúncias, o tema é abordado ao chocar o mundo, principalmente pela falta de acesso das ambulâncias que poderiam ter salvado milhares de vidas nesta iluminada obra de humanismo e delicadeza, que questiona os elementos de moral, justiça e ética nos campos de batalhas. Não são raras as burocracias inerentes ao sistema de ajuda, o que fica claro pela controversa atuação do chefe com os representantes de Israel. Ele tem que resolver tudo sem sair do local em que está instalado. Há algumas lacunas preenchidas apenas pela imaginação com decisões que poderão ser precipitadas, por falta de maior informação da zona conflitada, que devem ser solucionados em questão de minutos para o deslocamento até o local, tendo em vista que a noite surge e aterroriza ainda mais a personagem central fragilizada. São encontradas resistências pela respectiva área de competência e atuação em razão dos limites para se evitar que haja ainda mais inocentes mortos, como os próprios paramédicos.

O docudrama dá vazão para o imaginário do espectador, tendo em vista os efeitos sensoriais causados pela narrativa com o viés dos diálogos tensos e arrebatadores. Há um pedido entrecortado por ligações desligadas abruptamente entre os voluntários com a menina acuada pela emboscada das tropas israelenses sedentas em matar. Tudo é muito rápido e a situação de risco para descobrir onde ela está exatamente é iminente diante da corrida contra o tempo que voa. A grande mobilização da resistente equipe de voluntários para salvá-la e evitar a tragédia anunciada, tira o espectador da zona de conforto, deixando-o atônito para acompanhar em alta dose de expectativa o desenlace da história, na tentativa de desvendar os caminhos para o resgate em tempo real fragmentadas pela ruptura da dor de todos que assistem e torcem. Desencadeia num episódio como elemento profundo de uma situação caótica marcada pela violência da guerra, através da sonoridade impactante dos tiros sem imagens, para soluções reveladoras do sofrimento pelos enigmas da responsabilidade de povos conflitados pela precipitação e a punição de inocentes com traumas psicológicos mentais arrasadores.

O limite estabelecido pela diretora é perceptível pelas ligações entre os atendentes e a garota em crise naquele cenário único e claustrofóbico do interior do veículo em chamas, com a capacidade de sugerir imagens sem mostrá-las numa realização minimalista, embora repetitivo não é tedioso por ser bem explorado os diversos ângulos da narrativa de ritmo beirando o alucinante pelos diálogos com repetições e incertezas da linguagem oral, concomitante com os ruídos de explosões, mapas no computador apontando as setas de localização. Em meio a tudo isto, o chefe parece ou simula estar completamente distante e alheio da aflição exterior que está fervendo nos ouvidos dos colegas e dos espectadores. O filme de Hania tem aproximação com o suspense Culpa (2018), do estreante sueco Gustav Möller, que retratava um painel curioso de tirar o fôlego pelos relatos de vozes desesperadas de pessoas pedindo socorro por telefone, no qual há trotes enviados à central de atendimentos de urgência, até surgir um pedido verdadeiro de uma mulher em prantos tentando comunicar o seu sequestro. Tem também similitudes com Chaga de Fogo (1951), de William Wyler e Uma Vida em Suspense (1965), de Sidney Pollak.

Eis uma realização densa, em que há o clímax do desfecho de raiva, dor e derrota pelas circunstâncias da irracionalidade, já prenunciada em cenas anteriores com a imposição das injustiças cometidas pelo sistema arcaico que prima pela falta de reuniões elucidativas. Há um duelo de poderes a serem decifrados entre a truculência do primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu, que assumiu o cargo em dezembro de 2022, em seu sexto mandato, e o grupo terrorista palestino Hamas em confronto permanente e doentio dos envolvidos, principalmente de que tem o maior poder bélico do Oriente Médio. Um filme com todos os requintes para transitar do tom dramático ao suspense sensitivo da sutileza magistral no epílogo de um silêncio sepulcral. Osmar quer sair para a rua, pegar uma ambulância e libertar a Hind, mas as ordens superiores são contrárias para tal atitude, que simboliza a injustiça refletindo na materialização pelas consequências nefastas que remanescem com tintas de uma violência pontual. A falta da valorização de diálogos num contexto sombrio de um cotidiano desumano em mais um episódio de uma das maiores crises humanitárias das últimas décadas, também mostrada no documentário Sem Chão (2024), pelo olhar de um coletivo dos cineastas e ativistas palestinos-israelenses Basel Adra, Yuval Abraham, Hamdan Ballal e Rachel Szor. Ainda que haja ausência do gênero melodrama apelativo no enredo para escapar das armadilhas do maniqueísmo, fica difícil segurar a lágrima que escorre pelo rosto neste comovente e histórico relato baseado em um fato real, na interminável disputa pela Faixa de Gaza, negada ao povo da Palestina.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Valor Sentimental

 

Relações Familiares

O diretor e roteirista dinamarquês-norueguês Joachim Trier é conhecido por seus dramas intimistas, com meditações sobre identidade, memória e família, na trilogia Reprise (2006), Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021). Primo distante do cultuado cineasta dinamarquês Lars von Trier. Está de volta com um dos filmes mais exaltados nos últimos anos, seu mais recente longa-metragem, Valor Sentimental, uma coprodução da Noruega com França, Dinamarca, Suécia e Alemanha, tendo escrito o roteiro em parceria com Eskil Vogt, disponível para os assinantes da plataforma MUBI. Aclamado pela crítica e o público, foi destaque no Globo de Ouro deste ano, com o ator Stellan Skarsgärd, ganhador do prêmio de Melhor Ator Coadjuvante, por sua atuação extremamente versátil, que entrega com méritos, tanto mocinhos, quanto personagens de caráter duvidosos, mas principalmente vilões, como em Millleniun- Os Homens Que Não Amavam As Mulheres (2011), de David Fincher. Recebeu nove indicações ao Oscar 2026: Melhor Filme, Filme Internacional (representante da Noruega), Direção, Atriz (Renate Reinsve), Ator Coadjuvante (Stellan Skarsgärd), Atriz Coadjuvante (Inga Ibsdotter Lilleaas), Roteiro Original e Montagem. Conquistou seis prêmios no mês passado, na 38ª. edição do European Film Awards em Berlim: Melhor Filme, Direção, Atriz (Renate Reinsve), Ator (Stellan Skarsgård), Roteiro e Trilha Sonora. Ganhou ainda o Grand Prix no Festival de Cannes de 2025, sendo ovacionado por quase vinte minutos em aplausos.

A trama retrata a reconexão de um veterano cineasta com suas filhas em um microcosmo completamente desintegrado por conflitos internos, que acaba sendo transformado ao passar por uma rotina pouco habitual na qual viviam. Um drama familiar na pura essência cinematográfica, passando pelos problemas de relacionamentos advindos de um passado oculto e nada revelador. Intenso, sutil, dolorido, com tintas fortes de melancolia e feridas abertas complexas que se estendem por anos de uma relação nebulosa. Capta a grande solidão de seus membros como elementos propulsores de uma sociedade moderna sem rumo, pelo deleite do realizador bergmaniano na narrativa em atmosfera densa, que tem sua marca registrada na qualidade estética e estrutural. Mostra personagens perdidos na selva humana que tentam fugir dos seus demônios. O relacionamento conturbado entre o carismático pai, Gustav (Stellan Skarsgärd), sem ser vilão, que tenta uma aproximação com as filhas Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas). O laço paternal é frágil pelo distanciamento do renomado diretor de cinema com sua prole, que decide retornar aos holofotes com um projeto pessoal ousado e valioso para sua próxima, e possivelmente, a mais importante realização de sua vida.

Trier aborda as cicatrizes pretéritas se abrindo, quando o pai oferece à filha Nora o papel principal da trama, uma atriz de teatro com talento indiscutível, apesar de suas inseguranças psicológicas vindas da infância e dos traumas pela perda da mãe muito cedo, e da ausência paternal constante. Ao se recusar interpretar a personagem principal oferecida diante da péssima relação entre eles, o pai busca alternativa numa jovem estrela em ascensão de Hollywood. O clima hostil se estabelece, rapidamente Rachel Kemp (Elle Fanning) percebe que entrou numa fria, fora e dentro das telas. Enquanto isto, as irmãs lidam com seus artifícios próprios, mas a relação permanece mais complicada com Gustav, que demonstra já estar com a saúde debilitada, e tendo a atriz substituta naquele eixo dinâmico na complexa situação familiar e profissional disfuncional. Enfrenta o próprio colapso enquanto lida com os problemas inerentes do dia a dia. Os personagens possuem vidas distintas e estão divorciados da vivência em comum, sem interesse no que cada um faz, numa relação individualista, de raro afeto. Aos poucos vão revelando suas emoções subtraídas, deixando as verdades da infância e da adolescência virem à tona. Há uma busca para uma nova fase para aqueles indivíduos desunidos e perdidos em suas existências, mas que gradativamente vai mudando a forma de entender e ver o presente.

A obra é intimista sobre as fragilidades e a presença invisível das relações fraturadas no contexto da desintegração silenciosa de um pai esgotado com algumas soluções para se reconectar com as filhas, tendo em vista o abismo da solidão e do minguado vínculo emocional. As jovens distantes flutuam numa rotina sem carinho, dedicação e amor paterno. A perspectiva de seu novo e derradeiro filme surge com uma luz pequena no fim do túnel para uma reaproximação de personagens à deriva numa rotina comprometida na conexão com um mundo marcado pelo distanciamento sombrio, quase sem saída, como se estivessem paradoxalmente todos presos dentro de um ambiente claustrofóbico a céu aberto. Um retrato estonteante do comportamento humano dos familiares que são estranhos entre si e se encontram fortuitamente. Descobrem aleatoriamente afinidades como a vida dos isolados numa antiga casa suntuosa que aponta ausências, saudades e medos nas buscas interpessoais e seus desejos complexos. A obra impressiona tanto pela abordagem familiar desestruturada como pela mudança do roteiro que perpassa do cinema convencional para entrar no realismo de uma ficção que está sendo criada no novo filme para mexer no imaginário de mentes e corações. Tanto dos personagens como do espectador, quando os fantasmas recorrentes do suicídio retornam como lembranças sensoriais marcantes até a última cena. Brota como uma grande redenção e um suspiro de alívio no set de filmagem, quando a avó e o neto se abraçam.

A desconfiança da realidade emerge e ilumina não apenas nos espaços das filmagens, mas nos pensamentos que se tornaram confortáveis através de uma história precisa pelos elementos psicológicos construídos no enredo que aponta uma amargura familiar. Há uma inspiração genuína para as vidas dos seres humanos dentro de uma engrenagem tristonha e exausta. Como um discípulo fiel de Ingmar Bergman, pelas inquietações do cineasta da alma que mergulhava profundamente na angústia, solidão, velhice e morte, Trier reverencia com passagens valiosas seu longa ao buscar inspiração na inesgotável fonte do mestre, como Morangos Silvestres (1957), Persona (1966), Gritos e Sussurros (1972) e A Flauta Mágica (1974), clássicos memoráveis sobre o existencialismo. Eis a materialização da distância entre o núcleo familiar com a criação do universo da ficção, distante da realidade, simbolizado pelo convite feito a uma atriz estrangeira intrusa. Porém a reconstituição para dar uma forma autêntica é exaltada no desfecho que humaniza e celebra o amor fraternal e impositivo de um cinema permanente nesta obra-prima que dignifica a sétima arte inventada pelos irmãos vanguardista Lumière e, sem esquecer, o sonhador e ilusionista George Méliès, que lançou as bases para a ficção com truques, da montagem e do corte. Há outra clara declaração de amor ao cinema e à arte no epílogo, que remete ao inesquecível drama A Noite Americana (1973), do genial François Truffaut. Trier pensa no cinema como mecanismo de magia do mundo, o que é louvável. Exuberante nas imagens e na interpretação para todas as evidências lançadas como provocação. Deixa fluir a história para reflexão que irá se incrustando aos poucos em nossa alma, coração e espírito. Propõe uma meditação vigorosa do existencialismo e seus reflexos sutis com o olhar humanista que transcende e exorbita para o universo da fantasia. Valor Sentimental fascina como soluções que perturbam nossa realidade. Sobra sensibilidade para um mergulho sobre o sentido da vida e as questões dentro de uma relação de circunstâncias que acompanham os fatos com surpreendente equilíbrio emocional.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Sonhos de Trem

 

A Ferrovia

O cineasta norte-americano Clint Bentley era pouco conhecido, embora tenha em sua filmografia o longa de estreia Jockey (2021), além de corroteirista em Sing Sing (2023). Com Sonhos de Trem, disponível para os assinantes da plataforma Netflix, foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Som, Melhor Canção Original e pela a fascinante Melhor Fotografia, com belas imagens captadas com muita delicadeza pelas lentes do brasileiro Adolpho Veloso, como uma poesia de encantos. O diretor assinou o roteiro em parceria com Greg Kwedar, baseado na novela de Denis Johnson, um dos finalistas do Prêmio Pulitzer de 2011. O enredo aborda o lenhador Robert Grainier (Joel Edgerton), um dos muitos trabalhadores responsáveis em construir e expandir ferrovias pelos Estados Unidos, no início do século XX. O protagonista ficou órfão muito jovem, cresceu entre as florestas imponentes do Noroeste do Pacífico, num mundo transformador cada vez mais rápido e dinâmico. Preso a um passado, onde as amarras parecem não poder libertá-lo, e por consequência fazer entender de vez o futuro diante das tormentas daqueles sentimentos doloridos que surgem e permanecem como fantasmas da noite.

Um filme sobre as viagens para o interior de cada personagem com uma imensidão infinita de sentimentos abalados, como na execução de um homem por uma desavença sobre racismo, bem como o assassinato covarde de um chinês jogado de uma ponte por circunstâncias obscuras, e ainda as peripécias do especialista em explosivos (William H. Macy). Poucos gestos ou confissões, mas significativos, para revelar as complexas dúvidas e a melancolia incrustada naqueles seres humanos que carregam emoções reprimidas que assombram e reduzem a capacidade da felicidade. Elementos intrínsecos não faltam para a construção psicológica e as complexidades dos personagens focados numa saga sobre perdas, danos, culpas, e arrependimentos. Um magnífico drama que dialoga com um melodrama contido sobre os desajustes do amor até a solidão implacável pelas decepções e sofrimentos existenciais, diante da tragédia familiar do personagem central ao perder os grandes amores de sua vida. O árduo trabalho desempenhado por Robert, que passava longos períodos afastados de casa e de quem mais amava: sua esposa luminosa Gladys (Felicity Jones) e a pequena filha. Aceitar a derrota ou se esforçar cada vez mais com forças vindas da resiliência humana para continuar vivendo e relembrar os laços únicos de uma jornada pretérita inesquecível de prazer, amor e desgraça familiar na traiçoeira armadilha do destino, são temas em questão.

Provocativo sobre a preservação da natureza num meio ambiente invadido, tudo em nome do progresso advindo do capitalismo selvagem, diante da derrubada de árvores centenárias pelas motosserras, sem limites. Já no prólogo o espectador é colocado no meio da floresta em contato direto com a mata, as brechas entre galhos que caem e causam vítimas, folhagens, o chão, e a natureza deslumbrante pelos movimentos da câmera. Uma crítica política e social metaforicamente colocada na construção de uma ferrovia num panorama denso com muito realismo para contar sobre um projeto de ameaças na região. Vai de encontro à defesa ferrenha do ecossistema, onde os incêndios florestais se alastram de maneira perigosa, tornando o local cada vez mais inóspito para a família do protagonista cortando árvores com um machado, vivendo numa casinha simples na aldeia, e levando sua vida pacata e tranquila, mesmo com os conflitos de interesses flagrantes. O que pode ser bom para o empreendimento, acaba sendo um pesadelo para quem mora ali, afetando diretamente suas vidas. Remete com alguma similitude e astúcia para a temática abordada no badalado filme Eo (2022), do veterano diretor polonês Jerzy Skolimowski, e se aproxima ainda mais do drama O Mal Não Existe (2023), de Ryüsuke Hamaguchi, um dos cineastas mais importantes do Japão, sobre a convivência complicada com as mudanças pela ruptura no relacionamento da simbiose do ecossistema natural com o homem.

Uma narrativa com muita leveza, com cenas de bons momentos no lugar devastado pelo incêndio, mas de mordaz ironia, como na cena em que o lenhador está no observatório a convite da nova funcionária, reflete de um plano superior, embora a sensação de desconforto seja evidente em um cenário de lembranças trágicas, além de mortes violentas. Aqueles dias idílicos na residência daquele homem em frangalhos dentro da floresta harmonizada com a natureza se foram, até os desaparecimentos dos membros de seu microcosmo familiar. Restaram fantasmas que aparecem no meio da noite, como uma culpa involuntária nesta obra existencial, denso e sombrio com crueldades nos pequenos detalhes, sem se afastar da contemplação e do alerta geral para o olhar no futuro de queimadas sem controle e derrubada de florestas inteiras. O ritmo lento da tensão pelo silêncio constante leva para um grau de imprevisibilidade permanente ao conduzir de forma contagiante para os devaneios com a lucidez se esvaindo. O realizador aponta e mergulha no realismo sem concessões, às vezes perturbadores, e em outros com uma certa licença poética ao longo da imensa jornada num cenário transformado em algozes e vítimas, embalado pela cativante trilha sonora exemplar, nunca invasiva.

Sonhos de Trem traz na sua essência o lado nebuloso da história, com um viés redentor e significativo de quem sofreu enormemente naquele conjunto de elementos do mundo natural vindos dos campos, árvores e animais num ambiente vilipendiado. Um aceno de que a natureza sempre acusa o golpe das armadilhas que foram impostas numa reflexão sobre as consequências diante da interferência da civilização humana invasora. Mas há algo universal, tanto na agonia do duro trabalho diário naquela atmosfera melancólica, porque ficar vivo ali era uma benesse dúbia de uma experiência sensorial de sons e imagens, tanto para uma tênue alegria da beleza dos pequenos momentos, como para uma imensa tristeza permanente neste mundo moderno. São aspectos que atraem os sentimentos como fragmentos humanos indignos, através de cenas mostradas em planos e contraplanos para captar o silêncio e a vida do cotidiano num lugar cercado por frondosas árvores de uma natureza enigmática e seus segredos que despertam curiosidades. O voo no desfecho é uma síntese das alterações do lugar e os novos tempos do mundo em desequilíbrio de um futuro rumo ao progresso, ainda que haja equívocos. Mostra as imperfeições de um universo com suas deformações crônicas manchadas por uma violência voraz como se fosse um cataclismo verossímil do enredo de ambição e arrogância, em detrimento da harmonia impactada pela perda da lucidez vinda da dor destrutiva e suas imagens significativas deste admirável drama.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sorry, Baby

 

Resquícios do Abuso

A promissora diretora, roteirista e atriz Eva Victor nascida em Paris, em 1994, atualmente residindo em Los Angeles, estreia em grande estilo e um enorme sucesso com seu primeiro longa-metragem de ficção, Sorry, Baby. Antes, atuou na série de televisão Billions, de 2020 a 2023. Começou a se destacar no universo da comédia com vídeos virais e textos publicados em revistas como The New Yorker. Com um elenco harmônico, retrata com lucidez, sensibilidade, apurado humor e forte contundência, uma temática que vem ocorrendo com frequência: o abuso sexual de quem detém o poder de mando. Um filme denso, que tem arrancado elogios em festivais estrangeiros, como de críticos que o descrevem como uma abordagem urgente, genuína, visceral, honesto e tecnicamente primoroso. Já conquistou o prêmio de melhor roteiro da seção U.S Dramatic do Festival de Sundance, e também foi exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes. O tema define a arte e a resistência de continuar vivendo, embora a jornada seja árdua, dolorosa e traumática, diante da superação, ou uma suposta aceitação, de um passado que deixou cicatrizes abertas. Um mergulho relevante nas questões abusivas com a consequente finalidade.

A história é muito atual destes crimes que tiveram repercussão, os abusos cada vez mais vêm à tona. Mostra a impiedade de um evento traumático, quando Agnes (a bela e talentosa atriz Eva Victor tem uma interpretação antológica) fica sozinha remoendo suas amarguras, enquanto todos ao seu redor seguem em frente. A personagem central é uma professora cursando em seu último ano literatura e inglês na universidade em Fairpoint, uma faculdade de artes no Estado de Nova Inglaterra, região geográfica e cultural no nordeste dos EUA. Isolada numa casa no campo junto com sua gata adotada após ser abandonada na rua, encontra companheirismo naquele animalzinho que sofrera muito. O motivo da tristeza, mesclada com cenas de bom humor, vai avançando de forma coordenada para a relevância do acontecimento. Como um novelo que vai se desenrolando gradativamente num ritmo de contemplação, silêncio e revelações atordoantes, sendo reconstituído por dosagens de estilhaços marcantes na trajetória da personagem resiliente que sente na carne suas idealizações e sonhos ruírem ao ficar refém em um ambiente abusivo e negligente. Ao perceber que o futuro ainda pode reservar muitas opções, confronta a tosca engrenagem severa que rege o machismo predominante em uma sociedade caolha que censura, ignora ou finge solidariedade às mulheres abusadas.

A narrativa em capítulos retrata uma vida atormentada por um fato traumatizante que é contado de maneira fiel, sem exageros ou melodramas apelativos, para inserir numa estupenda criação cinematográfica através de quadros apresentados sem seguir a linha do tempo. No desenrolar da trama, surge Lydie (Naomi Ackie) que resolve visitar a amiga, vindo de Nova Iorque para compartilhar a gravidez. Um reencontro que traz de volta memórias e momentos de um passado a ser esquecido devido aos golpes de outrora, como a época em que ambas eram pós-graduandas com sonhos e ambições na faculdade. Algo ruim aconteceu com Agnes, mas a vida continua, e a criança, filha da melhor confidente em sua nova visita, soa como um sopro de luz como esperança e um exorcismo dos acontecimentos pretéritos. A presença constante do vizinho Gavin (Lucas Hedges) torna uma amizade com boa leveza da alma, a purificação do presente, para expulsar o estigma da figura masculina tóxica, contrapondo com o sofrimento da nefasta noite que teve com seu orientador violador Decker (Louis Cancelmi), mas que apesar de tudo não a deixou reduzida, pois é comovedora sua luta para se tornar uma brilhante educadora.

Tratar o tema com profundidade e ao mesmo tempo expor a perversidade desse tipo de crime, sem maniqueísmos, é meritório. Uma dura realidade que precisa ser debatida com mais vigor sobre as constantes transgressões. A realizadora realça que o silêncio não é ficar neutro, mas uma cumplicidade, tendo em vista que a violência sexual é um dos crimes universais mais frequentes ocorridos, sendo marcados pela dor e o sofrimento psicológico. Há méritos quando aborda sem apelar para cenas explícitas, optando por sugestões que intensificam ainda com mais fervor, sutilezas admiráveis para demonstrar a implícita importunação sexual imposta. Algo estranho que não é retratado nos diálogos, mas que a atmosfera criada indica elementos do que teria acontecido, de maneira correta. A própria solidão é um fator indicativo no cenário da noite e do medo oculto do terror que estão presentes na vida da vítima cercada por fantasmas de um passado, mas que se isola de um mundo caótico decorrente dos instintos de agressividade. No epílogo, a cineasta registra com notável inspiração aquele rosto com olhar patético sobre a condição feminina submetida a traumas recorrentes de um evento pusilânime, ainda que esteja resistente, diante das brutalidades propiciadas por atitudes selvagens de homens aparentemente normais, mas monstruosos na essência humana para saciarem seus desejos libidinosos.

Sorry, Baby é um extraordinário drama familiar e existencial com um enredo aparentemente simples, mas com uma narrativa consistente e profunda, sem deixar de ser: às vezes, contemplativo, no desenrolar com grande vigor; em outras, melancólica, que remete ao trauma como resquício torturante num intenso clímax de agonia e solidão. A protagonista não perde sua identidade, bem como enfatiza o pedido de desculpas para aquela bebê como menciona o título do filme. A irracionalidade está na cultura repleta de pessoas doentias, de personalidades carregadas de instintos animalescos brutais ao ultrapassar o marco da civilidade por uma série de delitos do agressor que testam a dignidade. Eis uma reflexão de um painel repetitivo advindo do medo pela estupidez que torna o enredo amplamente complexo na essência do cinema. Pontua com amplitude as relações dos fragmentos da dura realidade das mulheres violentadas, que sente pânico e medo ao pensar no que vivenciaram, mas que permanecem como seres humanos sensíveis e sonhadores, ainda que vilipendiados pela estupidez criminosa. Uma realização com surpreendente equilíbrio emocional de uma inesquecível mulher ferida no seu âmago, que lança uma nova maneira para driblar as rasteiras do destino, sem perder a classe e a elegância. Mesmo que as circunstâncias estejam em outro sentido, a proposta ressoa pela sobrevivência gradual, o que torna a obra ainda maior, admirável, ressonante, para se tornar edificante.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Lumière! A Aventura Continua

 

Legado Histórico

Com A Invenção de Hugo Cabret (2011), o cineasta norte-americano Martin Scorsese prestou seu júbilo aos pais da primeira filmadora e máquina de projeção, os irmãos Lumière com flasbacks de 1895, no filme mudo de 50 segundos A Chegada de Um Trem na Estação. Mostrava a entrada de um comboio puxado por uma locomotiva a vapor em uma estação de trem na cidade costeira francesa de La Ciotat. Uma homenagem baseada no livro homônimo infantojuvenil de ficção de Brian Selznick (2007), que visava especialmente o carinho justo ao cineasta esquecido e relegado, na pele de um anônimo proprietário de uma loja de brinquedos na estação, o sonhador do cinema e grande ilusionista George Méliès (1861- 1938), que lançou as bases para a ficção com truques, da montagem e do corte, interpretado por Ben Kingsley. Ilustrou com a cena do garotinho ao lado de seu robô que tentava reconstruir, tendo as imagens do filme Viagem à Lua (1902), de Méliès, inaugurando a era do cinema, através de imagens fantásticas para os primórdios daqueles tempos difíceis. Depois chegou a vez do cineasta, roteirista e montador Thierry Frémaux, também diretor geral do Festival de Cannes e do Instituto Lumière, prestar uma reverência com tintas eminentemente instrutivas, que prefere não ser visto como o diretor do cultuado documentário Lumière! A Aventura Começa (2016), seu primeiro longa-metragem, mas como um crítico e pesquisador desta obra inestimável. Para ele, os verdadeiros autores são os irmãos Auguste e Louis Lumière.

Frémaux dá sequência com Lumière! A Aventura Continua, optando por prosseguir na investigação que reúne 120 curtas dos pioneiros da sétima arte, sendo que Louis era o mais arrojado dos irmãos na direção. As cópias restauradas foram cuidadosamente organizadas, como se as imagens fossem recentes diante da precisão em blocos temáticos para uma visão mais ampla e acurada pelo espectador atento, cinéfilo ou não. Narrado em off, explora com uma análise extremamente profunda da história da invenção do cinema, demonstrando todo seu amor, paixão e reconhecimento pela dupla precursora. Os curtas proporcionam um cotidiano da vida no começo do século passado e uma visão das origens de uma forma de expressão inovadora. Cada imagem retrata a variedade de figuras, composições, narrativas e sentimentos que viriam fazer posteriormente da gramática usual e conhecida do cinema. Uma produção que mergulha numa jornada deslumbrante pelo universo dos fundadores do cinema, de maneira meticulosa. São as primeiras históricas cenas em movimento restauradas pelo olhar único da França e do mundo da Era Moderna, através de filmes compilados e resgatados da indústria de produção dos verdadeiros iniciadores desta magia de sonhos, que é mostrada em breves 50 segundos cada um na tela, de forma sucessível. Devidamente montadas para celebrar o legado da dupla, de 1895, data da primeira sessão em espaço público de cinema, até 1905, quando o cinema se tornaria mundial e um fenômeno de público no planeta.

Muitos planos são admiráveis e impressionam pela perfeição dos enquadramentos e pela maneira com que colocam peças realistas, abrindo caminho para maior função do cinema, com inspiração nos quadros de Van Gogh, Renoir e Monet. Profundidade, angulações para grandes ou pequenos grupos de pessoas, bem como a continuidade da pintura, e arte visual, que predominam no século 19. Também é visível os movimentos reiterados de câmera na segunda metade do século 20, no qual o aparelho de projeção fica em cima de trens ou barcos, como na cena de Veneza para os passeios lúdicos da máquina. Fica registrado ainda outro momento histórico, quando Abbas Kiarostami e Federico Fellini, também com câmeras do século 19 fazem suas reverências ao início da era cinematográfica. São relíquias históricas do marco de gravação do cinematógrafo dos irmãos Lumière, que Frémaux parte para visitar o volumoso catálogo. Outra joia rara é O Regador Regado, com o banho de mangueira proposital no rapaz que apronta uma travessura. Passa ainda por cenas que influenciaram velhos mestres como Orson Welles, Murnau, Alfred Hitchcock, Elia Kazam, Yasujiro Ozu, Fritz Lang, e principalmente John Ford, um grande discípulo para os enquadramentos em plano aberto das câmeras nas planícies e grandes paisagens dos seus faroestes mitológicos. Até o clássico Encouraçado Potemkim (1925), de Serguei Eisenstein, bebe nas águas de um curta sobre os marinheiros. São pequenas preciosidades de filmes originais muito bem restaurados desta coletânea, trazendo plena nitidez às imagens originais singulares de mais de 100 anos, com as fascinantes peças musicais de Gabriel Fauré escolhidas para acompanhar os comentários do realizador.

Lumière! A Aventura Continua tem muito mais ao longo dos rápidos 104 minutos desta seleção organizada em capítulos, como se fossem diamantes brutos que viriam a ser lapidados, criando uma estrutura instigante. Há cenas inesquecíveis como da cavalaria que se aproxima da câmera, o imenso barco encalhado; o curta A Saída da Fábrica; e a criança caminhando que tropeça espontaneamente. O mundo se estreitava e as distâncias inimagináveis davam lugar para a o início da globalização pelas telonas. Tudo começava a ficar próximo e os tabus iriam de dissipando. Os irmãos Lumière e sua equipe de operadores não deixaram de registrar os franceses trabalhando e se divertindo numa época de poucas opções de lazer. Lyon, cidade natal dos pioneiros, e berço do cinema, foi o cenário para os primeiros curtas do cotidiano. Somente depois eles iriam para Paris filmar as pessoas andando pelas ruas de bicicleta em meio às charretes puxadas por cavalos, com a Catedral de Notre-Dame, o rio Sena, a Torre Eiffel e outros pontos turísticos como locações referenciais de imagens preciosas. Uma aula de cinema e cultura geral contada didaticamente por Frémaux sobre os planos abertos nas grandes locações, bem como os fechados em lugares exíguos. O desfecho é marcante com Francis Ford Coppola dirigindo a cena do primeiro filme exibido, utilizando o mesmo método dos irmãos vanguardistas em documentários com puro realismo. Em toda narrativa há uma exatidão cronológica correta sobre os temas abordados para serem guardados na memória advindos deste tributo arrebatador de imagens artesanais históricas, de forma tenra, em preto e branco e sem truques, protegidas para a posteridade.