terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Lumière! A Aventura Continua

 

Legado Histórico

Com A Invenção de Hugo Cabret (2011), o cineasta norte-americano Martin Scorsese prestou seu júbilo aos pais da primeira filmadora e máquina de projeção, os irmãos Lumière com flasbacks de 1895, no filme mudo de 50 segundos A Chegada de Um Trem na Estação. Mostrava a entrada de um comboio puxado por uma locomotiva a vapor em uma estação de trem na cidade costeira francesa de La Ciotat. Uma homenagem baseada no livro homônimo infantojuvenil de ficção de Brian Selznick (2007), que visava especialmente o carinho justo ao cineasta esquecido e relegado, na pele de um anônimo proprietário de uma loja de brinquedos na estação, o sonhador do cinema e grande ilusionista George Méliès (1861- 1938), que lançou as bases para a ficção com truques, da montagem e do corte, interpretado por Ben Kingsley. Ilustrou com a cena do garotinho ao lado de seu robô que tentava reconstruir, tendo as imagens do filme Viagem à Lua (1902), de Méliès, inaugurando a era do cinema, através de imagens fantásticas para os primórdios daqueles tempos difíceis. Depois chegou a vez do cineasta, roteirista e montador Thierry Frémaux, também diretor geral do Festival de Cannes e do Instituto Lumière, prestar uma reverência com tintas eminentemente instrutivas, que prefere não ser visto como o diretor do cultuado documentário Lumière! A Aventura Começa (2016), seu primeiro longa-metragem, mas como um crítico e pesquisador desta obra inestimável. Para ele, os verdadeiros autores são os irmãos Auguste e Louis Lumière.

Frémaux dá sequência com Lumière! A Aventura Continua, optando por prosseguir na investigação que reúne 120 curtas dos pioneiros da sétima arte, sendo que Louis era o mais arrojado dos irmãos na direção. As cópias restauradas foram cuidadosamente organizadas, como se as imagens fossem recentes diante da precisão em blocos temáticos para uma visão mais ampla e acurada pelo espectador atento, cinéfilo ou não. Narrado em off, explora com uma análise extremamente profunda da história da invenção do cinema, demonstrando todo seu amor, paixão e reconhecimento pela dupla precursora. Os curtas proporcionam um cotidiano da vida no começo do século passado e uma visão das origens de uma forma de expressão inovadora. Cada imagem retrata a variedade de figuras, composições, narrativas e sentimentos que viriam fazer posteriormente da gramática usual e conhecida do cinema. Uma produção que mergulha numa jornada deslumbrante pelo universo dos fundadores do cinema, de maneira meticulosa. São as primeiras históricas cenas em movimento restauradas pelo olhar único da França e do mundo da Era Moderna, através de filmes compilados e resgatados da indústria de produção dos verdadeiros iniciadores desta magia de sonhos, que é mostrada em breves 50 segundos cada um na tela, de forma sucessível. Devidamente montadas para celebrar o legado da dupla, de 1895, data da primeira sessão em espaço público de cinema, até 1905, quando o cinema se tornaria mundial e um fenômeno de público no planeta.

Muitos planos são admiráveis e impressionam pela perfeição dos enquadramentos e pela maneira com que colocam peças realistas, abrindo caminho para maior função do cinema, com inspiração nos quadros de Van Gogh, Renoir e Monet. Profundidade, angulações para grandes ou pequenos grupos de pessoas, bem como a continuidade da pintura, e arte visual, que predominam no século 19. Também é visível os movimentos reiterados de câmera na segunda metade do século 20, no qual o aparelho de projeção fica em cima de trens ou barcos, como na cena de Veneza para os passeios lúdicos da máquina. Fica registrado ainda outro momento histórico, quando Abbas Kiarostami e Federico Fellini, também com câmeras do século 19 fazem suas reverências ao início da era cinematográfica. São relíquias históricas do marco de gravação do cinematógrafo dos irmãos Lumière, que Frémaux parte para visitar o volumoso catálogo. Outro joia rara é O Regador Regado, com o banho de mangueira proposital no rapaz que apronta uma travessura. Passa ainda por cenas que influenciaram velhos mestres como Orson Welles, Murnau, Alfred Hitchcock, Elia Kazam, Yasujiro Ozu, Fritz Lang, e principalmente John Ford, um grande discípulo para os enquadramentos em plano aberto das câmeras nas planícies e grandes paisagens dos seus faroestes mitológicos. Até o clássico Encouraçado Potemkim (1925), de Serguei Eisenstein, bebe nas águas de um curta sobre os marinheiros. São pequenas preciosidades de filmes originais muito bem restaurados desta coletânea, trazendo plena nitidez às imagens originais singulares de mais de 100 anos, com as fascinantes peças musicais de Gabriel Fauré escolhidas para acompanhar os comentários do realizador.

Lumière! A Aventura Continua tem muito mais ao longo dos rápidos 104 minutos desta seleção organizada em capítulos, como se fossem diamantes brutos que viriam a ser lapidados, criando uma estrutura instigante. Há cenas inesquecíveis como da cavalaria que se aproxima da câmera, o imenso barco encalhado; o curta A Saída da Fábrica; e a criança caminhando que tropeça espontaneamente. O mundo se estreitava e as distâncias inimagináveis davam lugar para a o início da globalização pelas telonas. Tudo começava a ficar próximo e os tabus iriam de dissipando. Os irmãos Lumière e sua equipe de operadores não deixaram de registrar os franceses trabalhando e se divertindo numa época de poucas opções de lazer. Lyon, cidade natal dos pioneiros, e berço do cinema, foi o cenário para os primeiros curtas do cotidiano. Somente depois eles iriam para Paris filmar as pessoas andando pelas ruas de bicicleta em meio das charretes puxadas por cavalos, com a Catedral de Notre-Dame, o rio Sena, a Torre Eiffel e outros pontos turísticos como locações referenciais de imagens preciosas. Uma aula de cinema e cultura geral contada didaticamente por Frémaux sobre os planos abertos nas grandes locações, bem como os fechados em lugares exíguos. O desfecho é marcante com Francis Ford Coppola dirigindo a cena do primeiro filme exibido, utilizando o mesmo método dos irmãos vanguardistas em documentários com puro realismo. Em toda narrativa há uma exatidão cronológica correta sobre os temas abordados para serem guardados na memória advindos deste tributo arrebatador de imagens artesanais históricas, de forma tenra, em preto e branco e sem truques, protegidas para a posteridade.

Nenhum comentário: