Amarga Existência
François Ozon é um dos mais célebres e prolíficos cineastas franceses de sua geração, por ser nome constante em festivais como Cannes, Berlim e Veneza. Assim como Woody Allen, alcança a marca de quase uma produção por ano. Sua filmografia, entre curtas e longas, chega à marca de 48 títulos de realizações com temáticas diversas, tais como: O Refúgio (2009); Potiche-Esposa Troféu (2010); Dentro de Casa (2012); Jovem e Bela (2013); o premiado Frantz (2016), drama histórico que recebeu onze indicações ao Prêmio César, abocanhando a láurea de melhor fotografia, além da premiação de melhor jovem atriz no Festival de Veneza de 2016 para a linda e competente Paula Beer; o ótimo O Amante Duplo (2017); o polêmico Graças a Deus (2019), baseado em fatos reais ocorridos em Lyon, na França, no qual retratou de forma imparcial, nua e crua, a pedofilia velada na Igreja Católica, com denúncia de requintes psicológicos nefasto, mesmo sem grandes pretensões estilísticas; no controvertido Está Tudo Bem (2021), constrói um painel doloroso para contar uma amarga história de um industrial idoso semiparalisado, numa temática polêmica por retratar o suicídio assistido; fez releituras para o cinema de referência com Peter von Kant (2022), assim como já o fizera com Frantz; e o penúltimo longa, Quando Chega o Outono (2024).
Em 1942, o franco-argelino Albert Camus (1913-1960), ganhador do Nobel da Literatura de 1957, estreou na literatura com o romance O Estrangeiro que virou best-seller ao abordar temas filosóficos e psicológicos dentro de um contexto existencial mesclado com o absurdo. Seguidor do escritor Jean-Paul Sartre (1905-1980), conhecido como o maior representante do existencialismo. Um dos livros mais vendidos no mundo, considerado uma obra-prima, lido com entusiasmo arrebatador pelos francófonos, eleito em 1999 como o mais importante do século XX, tornando-se um fenômeno literário internacional até os dias de hoje. A história segue e pontua um jovem francês de origem argelina, funcionário público de baixo escalão, que sente uma apatia descomunal diante de tudo que o cerca ao considerar a realidade algo insensato. Um típico “estrangeiro” em seu próprio ambiente, seguindo a máxima de que não há maior solidão do que a de se sentir sozinho rodeado de pessoas. A questão migratória é um fato insofismável de considerar-se um alienígena na própria cidade em que se nasce, como um sentimento nefasto e devastador. O mestre Luchino Visconti adaptou para a telona em 1967, tendo no papel do protagonista Marcelo Mastroianni. Nem o diretor, nem à viúva de Camus ficaram satisfeitos com o resultado. Houve também divergência da crítica pela opção do ator italiano para interpretar as delicadezas da narrativa que visava o contrassenso da existência, tendo como segundo plano o crime propriamente dito.
Ozon dá uma aula de cinema com seu estilo formal marcante ao construir um painel dolorido e mergulhar no sofrimento do enigmático Meursault (Benjamin Voisin, numa estupenda atuação), um dos personagens mais impenetráveis construídos pela literatura. O roteiro escrito pelo diretor segue fielmente o clássico de Camus. Um retrato magnífico da essência da vida com seus aspectos de tristeza e de melancolia, tendo a existência e a finitude abordadas com profundidade no desenrolar do enredo contada com elegância e sem artifícios da comiseração alheia. O personagem central no longa é indiferente, apático e sombrio, demonstra uma completa aversão pela vida e seu sentido. Vive em Argel, no pós- Segunda Guerra Mundial, capital da Argélia que foi ocupada em 4 de junho de 1830 pelos França, adquirindo sua independência somente em 5 de julho de 1962. O cineasta, de forma admirável, não cai em armadilhas fáceis para fisgar o espectador com situações lacrimejantes. Afasta-se das tentações de pieguismos apelativos, mas que poderia pelas circunstâncias ser induzido a conduzir a trama para um filme menor com demagogias baratas. Faz uma narrativa hábil com um propósito sério para uma realização madura, provocativa e reveladora. Reflexivo sobre métodos de solidão num drama silencioso, com ternura e uma defesa paradoxal do amor sem expressão pela namorada Marie (Rebeca Marder, em contagiante interpretação), retirando os véus da tradição e dos bons costumes. A rotina monótona de Meursault é interrompida por seu vizinho que o arrasta para uma série de negociações obscuras e uma tragédia ocorre na praia, que o leva a ser preso ao matar um homem sem motivo relevante, que é reverenciado no epílogo com seu nome na lápide, dando voz ao povo árabe.
O realizador mostra o protagonista sendo preso, julgado e condenado à morte, por contrariar em tudo a sociedade conservadora, num ato de indiferença no julgamento do crime eivado de mesquinharias. A pena máxima se deveu menos pelo assassinato, e mais pelo seu caráter e sua desconexão emocional, por não ter chorado ou se emocionado com lágrimas no velório da mãe, e ter demonstrado mais sentimentos com a perda acidental do cão do vizinho idoso. Culmina por engatar um namoro e ter ido ao cinema no dia seguinte do funeral, sob os acordes da contagiante trilha sonora em uma harmonia exemplar, assinada por Fatima Al Qadiri. Ressalte-se a primorosa fotografia em preto e branco de Manu Dacosse, principalmente da onipresença do sol como na cena memorável refletindo na lâmina da faca com poderes sensoriais, desorientando o protagonista pelo calor sufocante ao disparar vários tiros contra o agressor, no qual dois homens ficam frente a frente, como num duelo de faroeste. A ausência do colorido fotográfico desglamouriza pelos efeitos melancólicos de um filme maior pelo realismo cênico em um desfecho improvável da realidade e cativa pela condução sem espalhafato. Fustiga pela sua essência direta da indiferença rasgando a alma do espectador numa amostragem sobre as consequências dos vínculos e relações decorrentes da vida do anti-herói repleta de contratempos e decepções. Amarguras silenciosas e uma solidão hipnótica estão presentes em uma decisão tomada pela falta de perspectiva para aquele ser humano vazio, aparentemente. Embora não expresse sentimentos, a narrativa sutilmente demonstra ser ele sensível ao mar, ao sol e a injustiça social, como um observador nato das circunstâncias da vida e seu fascínio inerente. O Estrangeiro é um filme imperdível, que certamente estará entre os 10 melhores no fim do ano.
