quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Sorry, Baby

 

Resquícios do Abuso

A promissora diretora, roteirista e atriz Eva Victor nascida em Paris, em 1994, atualmente residindo em Los Angeles, estreia em grande estilo e um enorme sucesso com seu primeiro longa-metragem de ficção, Sorry, Baby. Antes, atuou na série de televisão Billions, de 2020 a 2023. Começou a se destacar no universo da comédia com vídeos virais e textos publicados em revistas como The New Yorker. Com um elenco harmônico, retrata com lucidez, sensibilidade, apurado humor e forte contundência, uma temática que vem ocorrendo com frequência: o abuso sexual de quem detém o poder de mando. Um filme denso, que tem arrancado elogios em festivais estrangeiros, como de críticos que o descrevem como uma abordagem urgente, genuína, visceral, honesto e tecnicamente primoroso. Já conquistou o prêmio de melhor roteiro da seção U.S Dramatic do Festival de Sundance, e também foi exibido na Quinzena dos Cineastas do Festival de Cannes. O tema define a arte e a resistência de continuar vivendo, embora a jornada seja árdua, dolorosa e traumática, diante da superação, ou uma suposta aceitação, de um passado que deixou cicatrizes abertas. Um mergulho relevante nas questões abusivas com a consequente finalidade.

A história é muito atual destes crimes que tiveram repercussão, os abusos cada vez mais vêm à tona. Mostra a impiedade de um evento traumático, quando Agnes (a bela e talentosa atriz Eva Victor tem uma interpretação antológica) fica sozinha remoendo suas amarguras, enquanto todos ao seu redor seguem em frente. A personagem central é uma professora cursando em seu último ano literatura e inglês na universidade em Fairpoint, uma faculdade de artes no Estado de Nova Inglaterra, região geográfica e cultural no nordeste dos EUA. Isolada numa casa no campo junto com sua gata adotada após ser abandonada na rua, encontra companheirismo naquele animalzinho que sofrera muito. O motivo da tristeza, mesclada com cenas de bom humor, vai avançando de forma coordenada para a relevância do acontecimento. Como um novelo que vai se desenrolando gradativamente num ritmo de contemplação, silêncio e revelações atordoantes, sendo reconstituído por dosagens de estilhaços marcantes na trajetória da personagem resiliente que sente na carne suas idealizações e sonhos ruírem ao ficar refém em um ambiente abusivo e negligente. Ao perceber que o futuro ainda pode reservar muitas opções, confronta a tosca engrenagem severa que rege o machismo predominante em uma sociedade caolha que censura, ignora ou finge solidariedade às mulheres abusadas.

A narrativa em capítulos retrata uma vida atormentada por um fato traumatizante que é contado de maneira fiel, sem exageros ou melodramas apelativos, para inserir numa estupenda criação cinematográfica através de quadros apresentados sem seguir a linha do tempo. No desenrolar da trama, surge Lydie (Naomi Ackie) que resolve visitar a amiga, vindo de Nova Iorque para compartilhar a gravidez. Um reencontro que traz de volta memórias e momentos de um passado a ser esquecido devido aos golpes de outrora, como a época em que ambas eram pós-graduandas com sonhos e ambições na faculdade. Algo ruim aconteceu com Agnes, mas a vida continua, e a criança, filha da melhor confidente em sua nova visita, soa como um sopro de luz como esperança e um exorcismo dos acontecimentos pretéritos. A presença constante do vizinho Gavin (Lucas Hedges) torna uma amizade com boa leveza da alma, a purificação do presente, para expulsar o estigma da figura masculina tóxica, contrapondo com o sofrimento da nefasta noite que teve com seu orientador violador Decker (Louis Cancelmi), mas que apesar de tudo não a deixou reduzida, pois é comovedora sua luta para se tornar uma brilhante educadora.

Tratar o tema com profundidade e ao mesmo tempo expor a perversidade desse tipo de crime, sem maniqueísmos, é meritório. Uma dura realidade que precisa ser debatida com mais vigor sobre as constantes transgressões. A realizadora realça que o silêncio não é ficar neutro, mas uma cumplicidade, tendo em vista que a violência sexual é um dos crimes universais mais frequentes ocorridos, sendo marcados pela dor e o sofrimento psicológico. Há méritos quando aborda sem apelar para cenas explícitas, optando por sugestões que intensificam ainda com mais fervor, sutilezas admiráveis para demonstrar a implícita importunação sexual imposta. Algo estranho que não é retratado nos diálogos, mas que a atmosfera criada indica elementos do que teria acontecido, de maneira correta. A própria solidão é um fator indicativo no cenário da noite e do medo oculto do terror que estão presentes na vida da vítima cercada por fantasmas de um passado, mas que se isola de um mundo caótico decorrente dos instintos de agressividade. No epílogo, a cineasta registra com notável inspiração aquele rosto com olhar patético sobre a condição feminina submetida a traumas recorrentes de um evento pusilânime, ainda que esteja resistente, diante das brutalidades propiciadas por atitudes selvagens de homens aparentemente normais, mas monstruosos na essência humana para saciarem seus desejos libidinosos.

Sorry, Baby é um extraordinário drama familiar e existencial com um enredo aparentemente simples, mas com uma narrativa consistente e profunda, sem deixar de ser: às vezes, contemplativo, no desenrolar com grande vigor; em outras, melancólica, que remete ao trauma como resquício torturante num intenso clímax de agonia e solidão. A protagonista não perde sua identidade, bem como enfatiza o pedido de desculpas para aquela bebê como menciona o título do filme. A irracionalidade está na cultura repleta de pessoas doentias, de personalidades carregadas de instintos animalescos brutais ao ultrapassar o marco da civilidade por uma série de delitos do agressor que testam a dignidade. Eis uma reflexão de um painel repetitivo advindo do medo pela estupidez que torna o enredo amplamente complexo na essência do cinema. Pontua com amplitude as relações dos fragmentos da dura realidade das mulheres violentadas, que sente pânico e medo ao pensar no que vivenciaram, mas que permanecem como seres humanos sensíveis e sonhadores, ainda que vilipendiados pela estupidez criminosa. Uma realização com surpreendente equilíbrio emocional de uma inesquecível mulher ferida no seu âmago, que lança uma nova maneira para driblar as rasteiras do destino, sem perder a classe e a elegância. Mesmo que as circunstâncias estejam em outro sentido, a proposta ressoa pela sobrevivência gradual, o que torna a obra ainda maior, admirável, ressonante, para se tornar edificante.

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