segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Sonhos de Trem

 

A Ferrovia

O cineasta norte-americano Clint Bentley era pouco conhecido, embora tenha em sua filmografia o longa de estreia Jockey (2021), além de corroteirista em Sing Sing (2023). Com Sonhos de Trem, disponível para os assinantes da plataforma Netflix, foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Som, Melhor Canção Original e pela a fascinante Melhor Fotografia, com belas imagens captadas com muita delicadeza pelas lentes do brasileiro Adolpho Veloso, como uma poesia de encantos. O diretor assinou o roteiro em parceria com Greg Kwedar, baseado na novela de Denis Johnson, um dos finalistas do Prêmio Pulitzer de 2011. O enredo aborda o lenhador Robert Grainier (Joel Edgerton), um dos muitos trabalhadores responsáveis em construir e expandir ferrovias pelos Estados Unidos, no início do século XX. O protagonista ficou órfão muito jovem, cresceu entre as florestas imponentes do Noroeste do Pacífico, num mundo transformador cada vez mais rápido e dinâmico. Preso a um passado, onde as amarras parecem não poder libertá-lo, e por consequência fazer entender de vez o futuro diante das tormentas daqueles sentimentos doloridos que surgem e permanecem como fantasmas da noite.

Um filme sobre as viagens para o interior de cada personagem com uma imensidão infinita de sentimentos abalados, como na execução de um homem por uma desavença sobre racismo, bem como o assassinato covarde de um chinês jogado de uma ponte por circunstâncias obscuras, e ainda as peripécias do especialista em explosivos (William H. Macy). Poucos gestos ou confissões, mas significativos, para revelar as complexas dúvidas e a melancolia incrustada naqueles seres humanos que carregam emoções reprimidas que assombram e reduz a capacidade da felicidade. Elementos intrínsecos não faltam para a construção psicológica e suas complexidades dos personagens focados numa saga sobre perdas, danos, culpas, e arrependimentos. Um magnífico drama que dialoga com um melodrama contido sobre os desajustes do amor até a solidão implacável pelas decepções e sofrimentos existenciais, diante da tragédia familiar do personagem central ao perder os grandes amores de sua vida. O árduo trabalho desempenhado por Robert, que passava longos períodos afastados de casa e de quem mais amava: sua esposa luminosa Gladys (Felicity Jones) e a pequena filha. Aceitar a derrota ou se esforçar cada vez mais com forças vindas da resiliência humana para continuar vivendo e relembrar os laços únicos de uma jornada pretérita inesquecível de prazer, amor e desgraça familiar na traiçoeira armadilha do destino, são temas em questão.

Provocativo sobre a preservação da natureza num meio ambiente invadido, tudo em nome do progresso advindo do Capitalismo selvagem, diante da derrubada árvores centenárias pelas motosserras, sem limites. Já no prólogo o espectador é colocado no meio da floresta em contato direto com a mata, as brechas entre galhos que caem e causam vítimas, folhagens, o chão, e a natureza deslumbrante pelos movimentos da câmera. Uma crítica política e social metaforicamente colocada na construção de uma ferrovia num panorama denso com muito realismo para contar sobre um projeto de ameaças na região. Vai de encontro à defesa ferrenha do ecossistema, onde os incêndios florestais se alastram de maneira perigosa, tornando o local cada vez mais inóspito para a família do protagonista cortando árvores com um machado, vivendo numa casinha simples na aldeia, e levando sua vida pacata e tranquila, mesmo com os conflitos de interesses flagrantes. O que pode ser bom para o empreendimento, acaba sendo um pesadelo para quem mora ali, afetando diretamente suas vidas. Remete com alguma similitude e astúcia para a temática abordada no badalado filme Eo (2022), do veterano diretor polonês Jerzy Skolimowski, e se aproxima ainda mais do drama O Mal Não Existe (2023), de Ryüsuke Hamaguchi, um dos cineastas mais importantes do Japão, sobre a convivência complicada com as mudanças pela ruptura no relacionamento da simbiose do ecossistema natural com o homem.

Uma narrativa com muita leveza, com cenas de bons momentos no lugar devastado pelo incêndio, mas de mordaz ironia, como na cena em que o lenhador está no observatório a convite da nova funcionária, reflete de um plano superior, embora a sensação de desconforto seja evidente em um cenário de lembranças trágicas, além de mortes violentas. Aqueles dias idílicos na residência daquele homem em frangalhos dentro da floresta harmonizada com a natureza se foram, até os desaparecimentos dos membros de seus microcosmo familiar. Restaram fantasmas que aparecem no meio da noite, como uma culpa involuntária nesta obra existencial, denso e sombrio com crueldades nos pequenos detalhes, sem se afastar da contemplatividade e do alerta geral para o olhar no futuro de queimadas sem controle e derrubada de florestas inteiras. O ritmo lento da tensão pelo silêncio constante leva para um grau de imprevisibilidade permanente ao conduzir de forma contagiante para os devaneios com a lucidez se esvaindo. O realizador aponta e mergulha no realismo sem concessões, às vezes perturbadores, e em outros com uma certa licença poética ao longo da imensa jornada num cenário transformado em algozes e vítimas, embalado pela cativante trilha sonora exemplar, nunca invasiva.

Sonhos de Trem traz na sua essência o lado nebuloso da história, com um viés redentor e significativo de quem sofreu enormemente naquele conjunto de elementos do mundo natural vindos dos campos, árvores e animais num ambiente vilipendiado. Um aceno de que a natureza sempre acusa o golpe das armadilhas que foram impostas numa reflexão sobre as consequências diante da interferência da civilização humana invasora. Mas há algo universal, tanto na agonia do duro trabalho diário naquela atmosfera melancólica, porque ficar vivo ali era uma benesse dúbia de uma experiência sensorial de sons e imagens, tanto para uma tênue alegria da beleza dos pequenos momentos, como para uma imensa tristeza permanente neste mundo moderno. São aspectos que atraem os sentimentos como fragmentos humanos indignos, através de cenas mostradas em planos e contraplanos para captar o silêncio e a vida do cotidiano num lugar cercado por frondosas árvores de uma natureza enigmática e seus segredos que despertam curiosidades. O voo no desfecho é uma síntese das alterações do lugar e os novos tempos do mundo em desequilíbrio de um futuro rumo ao progresso, ainda que haja equívocos. Mostra as imperfeições de um universo com suas deformações crônicas manchadas por uma violência voraz como se fosse um cataclismo verossímil do enredo de ambição e arrogância, em detrimento da harmonia impactada pela perda da lucidez vinda da dor destrutiva e suas imagens significativas deste admirável drama.

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