quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O Convite

 

Casamento em Crise

O filme O Convite foi roteirizado por Rashida Jones e Will McCormack na nova versão em inglês do longa-metragem espanhol Sentimental (2020), de Cesc Gay. Olivia Wilde, diretora de Fora de Série (2019) e Não Se Preocupe, Querida (2022), dá uma nova roupagem para esta comédia dramática que transita pelas relações familiares com pitadas hilárias, para uma obra com tons de um erotismo contido repleto de desejos sexuais reprimidos. Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde) formam um casal preso à rotina da relação sem tempero de um cotidiano enfadonho, que está à beira de colapsar. Prestes a mudar o infortúnio, marido e mulher aproveitam a ausência da filha adolescente para convidar o bombeiro Hawk (Edward Norton) e a sexóloga Piña (Penélope Cruz), casal de vizinhos do andar superior, para um jantar com taças de vinho sugerindo uma expectativa repleta de erotismo entre os quatro, que tem tudo para chegar ao auge, quando os anfitriões descobrem que eles organizam orgias sexuais. São festas sem preconceitos ou tabus, livre das amarras de uma sociedade que cultua padrões rígidos de comportamentos ditos como regrados, ou por motivos religiosos, ou pelo conservadorismo ortodoxo.

A trama gira em torno de Angela, uma dona de casa aparentemente certinha e controladora, obcecada por decoração, que tem por hábito passar nua pela janela para chamar a atenção de terceiros. Casada com Joe, um frustrado professor de música, carrega o fracasso de sua antiga banda, que se refugia na maconha. Desleixado pela ótica da esposa, paradoxal em seu comportamento ao reclamar do barulho intenso vindo das noitadas dos vizinhos, mas não deixa de paquerar os seios de Piña quando se encontram no elevador. Os episódios se sucedem na comédia, porém o enredo é menos sobre sexo e mais sobre o esgotamento das relações matrimoniais. Tudo se transforma no roteiro, e o que era pra ser uma noite tranquila e prazerosa com os objetivos a serem alcançados, se consolida em um evento repleto de reviravoltas inesperadas pelas descobertas da intimidade do misterioso casal convidado e as sexualidades pouco exploradas pelos anfitriões reprimidos. A história é contada sobre restar ainda algo a ser salvo numa conturbada relação onde os vínculos estão estremecidos, com uma dissecação sobre um casamento que respira pelos tubos e se decompõe ao mesmo tempo, a cada dia que se passa. Há uma similitude da temática explorada no drama familiar Cão Morto (2025), dirigido por Sarah Francis, do Líbano, em coprodução com a França, Catar e Arábia Saudita.

A cineasta foca inicialmente nas alfinetadas constantes do casal de meia-idade com seus problemas peculiares de monotonia com sinais claros de que nada está bem. Já os vizinhos perturbadores parecem um casal perfeito, inclusive na intimidade, atiçando ainda mais a inveja dos donos daquele apartamento, cenário de desilusões e de uma mesmice atroz. Há uma infinidade de diálogos dúbios que se tornam tensos pelo clima do jogo de xadrez com sugestões lascivas, mas entrecortadas pelo: tomou, levou. Angela tenta puxar assuntos diversos para atenuar as provocações hostis dos dois homens naquele ambiente pouco amistoso dos quatro personagens envolvidos numa ciranda de situações pouco agradáveis. Um jantar de pouca sintonia, nada de harmonia, e muita lavagem de roupa suja como se fosse uma grande lavanderia. O enredo vai dissecando arestas até colocar um clímax mais sensual, porém a situação deriva para a comicidade com trapalhadas em ritmo pastelão, desnecessárias e inócuas. Quando a narrativa vai para a dramaticidade e alguns personagens admitem seus ressentimentos, angústias, descontentamento e frustrações, o resultado apresenta méritos admiráveis como uma proposta salutar, inclusive sobre a sexualidade refreada. "Criamos a partir da comédia de erros, que é como um trem descarrilhado. Queríamos que o espectador se sentisse tão fora de controle quanto os personagens, para depois ser levado a um lugar calmo", diz a diretora, numa entrevista coletiva de jornalistas.

As peculiaridades inusitadas refletem em questões delicadas, como as confissões dos sacrifícios em nome de uma estabilidade que vai ao encontro dos desejos e as dificuldades trancando a felicidade. As discussões da relação na tentativa de encontrar respostas, com visível desconforto, os dramas e os segredos que vêm à tona de um matrimônio corroído são jogados na mesa no qual deveria ser para um jantar aprazível, mas que fica tumultuado pelas revelações que fluem naturalmente. Não é uma experiência serena, embora cada um tente compreender as questões um do outro com alguma dose de importância. Há uma busca para entender a dinâmica desse companheirismo afetado pela maneira pragmática, que esconde a verdade e se prende a uma antiga vida familiar que já não é mais a mesma pelos contratempos ocorridos. A temática era interessante para a realizadora explorar os motivos mais profundos dos vínculos de rompimento iminente e a tentativa de reconciliação que esbarra em indícios de traições subjetivas por atitudes de desejos incontidos, embora não expressas. Os dissabores como elementos próprios de transformação são inequívocos pelas circunstâncias da alma e do coração através das fantasias sexuais reprimidas, que não fluem pela narrativa pouco inspirada, diante da falta de contundência e maior aprofundamento.

O Convite retrata o casamento dando sinais de fadiga e a decomposição se tornando insustentável. Não há mais aquele desejo de uma libido exaurida pelo tempo, embora o desfecho induza para uma redenção poética, após uma terapia de casal momentânea às avessas. Os diálogos apresentam alguns gatilhos acionados para uma recomposição pela aproximação através do toque de piano no epílogo, ainda que sem o fogo da paixão e a ausência de combustão para dar o clique explosivo da retomada, abafado pelo tempo de uma convivência desmotivada e sem o apimentado desejo em tempos idos, tendo em vista o tédio reinante instalado. A luz no fim do túnel no final da história é o indicativo primordial de que nunca é tarde para tentar de novo, como manda o tradicional manual de reconstrução. Wilde tenta fazer uma reflexão das relações surgidas no cotidiano em sua extensão com os vínculos afetivos decorrentes adormecidos. Coloca dentro de uma proposta racional, na qual está presente o objeto fundamental do estado emocional complexo envolvente de um sentimento provocado em relação ao tênue laço matrimonial, que ruma para a extinção. Falta eficácia sobre a solidão, como as situações pouco esclarecidas na representação dos papéis dos personagens no dia a dia, entrelaçados dentro de uma verdade inafastável e onipresente na vida daquele casal carente com todas as incertezas que os rodeiam. Sobra uma simbologia inconsistente da existência pelo rompimento, e a reconciliação na incerteza do sucesso na relação através de uma simplificação dos relacionamentos amorosos neste bom filme sobre o cotidiano matrimonial.