segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Champagne- Uma Viagem de Pai e Filho

 

Viagem Afetiva

O cineasta holandês Tim Kamps tem uma filmografia pouco conhecida, ou quase nada, no mercado brasileiro, com os filmes Missie Aarde (2015), De Verschrikkelije Jaren Tachtig (2022) e Bodem (2024). Em Champagne- Uma Viagem de Pai e Filho ganha alguma notoriedade no mundo cinematográfico com esta comédia dramática que aborda o diagnóstico de um câncer repentino, em estágio avançado, no qual reúne membros de uma família classe média e amigos próximos como oportunidade de companheirismo para um recomeço de luta contra a enfermidade. Uma delicada maneira de reatar laços de parentes distantes e trazer de volta uma rotina dos velhos tempos de outrora com a iminente morte rondando e contrastando com os bons momentos da existência. O roteiro é assinado por Rik van den Bos e Leo Alkemade, que vive o papel do filho, inspirando-se nas suas experiências com seu próprio pai para mesclar a comicidade com drama contido, sem apelar para clichês de comiseração. Embora seja uma história recorrente, há razoáveis méritos nas pinceladas sobre aproximações, despedidas, conhecimentos e a propalada segunda chance vista somente na situação de uma moléstia devastadora com a finitude se insinuando ardilosamente.

A trama gira em torno de Maarten (Alkemade, sem convencimento no papel do filho), um executivo que vive para o trabalho numa empresa de tecnologia, enfrenta alguma dificuldade em fazer uma reunião on-line para pedir o afastamento de suas atividades laborais. Tem dois filhos menores e uma esposa (Jennifer Hoffman) aparentemente dedicada, e a zelosa mãe (Beppie Melissen). Decide levar Hans (Huub Stapel- boa atuação), o pai em uma provável última viagem à região de Champagne, no nordeste da França, a cerca de 150 km de Paris, famosa no mundo por produzir o vinho espumante legítimo que leva o seu nome, que guardam grandes vinícolas e muita história, após descobrir que ele está fragilizado por uma doença grave. O idoso é descolado, surpreende ao sair na rua com a face cheia de lama, brinca com os netos de se esconder dentro um armário, apesar das dores crônicas nos joelhos e quadris. Procura manter o bom humor, mesmo quando revela estar com um câncer, mas brinca com os resultados dos exames de rotina: “A boa notícia é que eu não tenho apneia”. Os dois rumam para aquela aventura no confortável carro do filho. O silêncio profundo acompanha os dois até que as interrogações e dificuldades para expressar sentimentos vêm à tona para romper o gelo reinante.

Há uma similitude temática, embora bem menor o resultado, com Sr. Kaplan (2012), uma comédia leve e com a suavidade característica do humor judaico autocrítico, num enredo aparentemente simples para um roteiro instigante e delicioso, escrito e dirigido por Álvaro Brechner. Retrata como personagem principal um ancião de 76 anos, que se sente entediado e cansado da rotina. Ansioso em fazer algo para a comunidade e preocupado com os destinos de Israel, quer deixar sua marca para a eternidade, quando por acaso sua neta lhe segreda que conhece um senhor que vive em uma praia distante, que tem o apelido de nazista. Pede ajuda a um amigo ex-policial, fundamentalmente uma espécie de reconstrução buscada nos pequenos detalhes para uma amostragem da essência cinematográfica. Assemelha-se ainda mais com Nebraska (2013), de Alexander Payne, um filme sutil e cativante desde o início, que comove pelo vínculo familiar, especialmente pelo filho mais novo com o pai, um idoso que parece estar rasgando a tênue barreira da senilidade, alcoólatra inveterado desde a juventude, suas ideias estão cada vez mais embaralhadas, dando sinais de ter contraído Alzheimer. Ele recebe pelo correio uma carta de propaganda prometendo um prêmio milionário, está convicto de que tem um bilhete premiado, tendo um prazo limitado para resgatar a fortuna, e ninguém lhe tira da cabeça seu intuito.

Kamps opta por uma narrativa linear sem inovação e pouca profundidade, com comedimento, sem intensidade, evita os martírios tradicionais da moléstia e suas contingências de padecimento com um aceitável equilíbrio de resiliência. Não há lamúrias, sequer pedidos de perdão ou verborragias de discursos de valoração da vida, com ausência de choros de piedade, perdão e tampouco se redimirem de infortúnios que poderiam estar atormentando supostas mágoas marcantes pretéritas. Comer bem e beber champanhe fazem parte do roteiro como uma boa desculpa para estarem juntos, deixando a enfermidade num plano secundário. O enredo pontua as paradas em restaurantes convencionais com almoços e jantares simples, além de estadias em hotéis nada luxuosos, exceto no desfecho já bem previsível, mas que elimina lágrimas, manipulações melodramáticas e sentimentos de culpa. Fazem compras impulsivas de várias garrafas de champanhe pelo prazer da ótima bebida admirada pelo velho pai, ainda que numa atitude de senso de desprendimento, acabam ofertando a terceiros. O fortalecimento dos vínculos se estabelece dentro de uma atmosfera satisfatória de liberdade naquela jornada intimista e peculiar. Sem pressa para retornar, deixam o cotidiano do microcosmo familiar ficar em segundo plano, sem ligações para suas residências com saudades imensas, exceto o idoso em uma única ligação para sua esposa.

Champagne- Uma Viagem de Pai e Filho é uma comédia, tendo o drama familiar como seu propósito temático neste road movie, onde o diretor coloca os personagens na estrada para um entendimento, na qual percorrem muitos quilômetros. O filho demonstra paciência e faz tudo o que o velho pai quer. Uma espécie de reconstrução do passado através dos diálogos e atitudes para conviveram harmonicamente, sempre buscando na quebra do silêncio encontrar novas formas de celebração dos momentos presentes da vida, sem as repetitivas lições do manual do politicamente correto. Há química entre os dois nesta viagem existencial para descobrir fatos ainda guardados em segredo, com revelações surgidas diante das belas imagens, mas sem sentimentalismos baratos. Porém, o longa-metragem peca quando busca reiterados motivos cômicos em quase todas as cenas, para mostrar uma felicidade antinatural, como do episódio do creme vaginal, da avaliação de um restaurante ruim pela diferença entre um filé e uma lagosta, em longas situações desnecessários para um riso forçado, bem como a improvável negativa no teste do bafômetro do personagem que bebeu muito. Também soa falsa a amizade instantânea com o casal em lua de mel na piscina do hotel e as dezenas de champagnes sendo abertas com o método da espada. Ainda assim, os equívocos do roteiro não chegam a invalidar a palatável obra, mas faltou consistência e menos artificialismo.

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