quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Naza

 

Massacre em Gaza

O surpreendente docudrama A Voz de Hind Rajab (2025) representou a Tunísia, em coprodução com a França, na categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar e foi vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2025, sendo aplaudido por 22 minutos. Dirigido por Kaouther Ben Hania, uma cineasta e roteirista tunisiana de 48 anos. Com tintas contidas de suspense psicológico, passa rápidos os 89 minutos, mas parece durar uma eternidade pela agonia que a obra transmite para o espectador. Ainda que houvesse ausência do gênero melodrama apelativo no enredo para escapar das armadilhas do maniqueísmo, ficou difícil segurar as lágrimas neste comovente e histórico relato baseado em um fato real, na qual era usada a voz de Hind Rajab de 6 anos através das ligações de áudios originais feitas para o serviço de emergência palestino. Foi dispensada a presença de uma atriz para interpretar a menininha, para dar maior autenticidade e uma demonstração ética respeitosa à vitima, que só é mostrada por uma foto. Construído em um painel angustiante de tirar o fôlego por meio do pedido de socorro, metáfora de um povo encurralado na interminável disputa pela Faixa de Gaza, negada ao povo da Palestina.

Agora estamos diante de outra denúncia contundente sobre o massacre na Faixa de Gaza dos palestinos pelos soldados israelenses através do instigante documentário Naza- uma abreviação militar derivada do termo hebraico nezek agavi-, usada pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) para indicar o número de civis a serem mortos nos ataques aéreos como dano colateral. Teve sua estreia mundial no Festival de Veneza deste ano, quando venceu o Prêmio Especial do Júri, com 25 minutos de aplausos de pé, um recorde absoluto. Os diretores israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor são os mesmos que codirigiram com os palestinos Basel Adra e Hamdan Ballal o filme Sem Chão (2024), que venceu o Oscar de melhor documentário no ano passado, retratando ataques de colonos, com apoio das forças israelenses, a vilarejos na Cisjordânia. O longa atual aborda depoimentos de 24 militares da inteligência de Israel, cujas identidades são cuidadosamente ocultadas e as vozes alteradas pela IA, encarregados de monitorar e matar à distância palestinos em Gaza. Totalmente filmado à noite, nos telhados de Tel Aviv, foca nas vítimas civis pelas operações israelenses. Surgem imagens feitas na penumbra das janelas de apartamentos na cidade com cenas rotineiras triviais de uma paz enganodora, completamente opostas das vividas pelos habitantes de Gaza, numa distância de 60 quilômetros. Revelam como a inteligência artificial e a tolerância para efeitos dos famigerados danos colaterais transformaram a FDI em uma potência para dizimar civis, terroristas ou não, com um saldo de 74 mil palestinos mortos desde o início da guerra.

Tudo acontece sob o comando do sanguinário primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que assumiu o cargo em dezembro de 2022, em seu sexto mandato, contra o grupo terrorista Hamas no conflito desencadeado pelos atentados de 7 de outubro de 2023, quando membros da facção extremista mataram 1.200 israelenses e sequestraram 251 pessoas. Um confronto permanente e doentio dos envolvidos, principalmente de quem tem o maior poder bélico do Oriente Médio. “Estamos fazendo tudo para evitar mortes de civis, mas o nosso inimigo se esconde utilizando civis como escudos humanos", afirma Netanyahu em uma das cenas do documentário. Versão esta que desmorona diante dos horrores admitidos pelos agentes que revelam os métodos macabros usados na hecatombe, que se esfarela na farsa tese utilizada. Esta coprodução do Reino Unido com os EUA traz vários pontos polêmicos, como o uso de sistemas de Inteligência Artificial na seleção de alvos inocentes de bombardeios com números de vítimas, baseado em reportagens dos veículos de comunicação. As entrevistas também descrevem o que já era de conhecimento geral, com publicações nas mídias israelenses +972 Magazine e o Local Call, veículos de jornalismo independente e sem fins lucrativos que cobrem a política e os direitos humanos, e principalmente no respeitado jornal britânico The Guardian, fundado em Manchester em 1821, que está entre os produtores da realização. Em determinado momento do filme, um dos entrevistados se questiona: “eu acho que os nazistas são maus, então o que eu sou?”. Os relatos mencionam explicitamente que os celulares de Gaza são monitorados pela inteligência israelense com acesso às conversas, mensagens e localização, como afirma um agente: “de repente, começamos a derrubar prédios inteiros, sem qualquer problema”. Já um outro depoente diz que “marcado o telefone, podíamos bombardear”. Porém, o sistema não é infalível, tendo em vista que havia uma taxa de acerto de 85%. Com o alvo na mira, os danos colaterais de civis inocentes mortos eram considerados aceitáveis. “Dizemos 15 naza, não dizemos 15 pessoas morrerão, muito menos 15 mulheres e crianças morrerão”, menciona sem o menor pudor um militar, que se orgulha de estar cumprindo uma “missão” a serviço do “sistema”.

O filme caiu como uma bomba no clima tenso da campanha eleitoral em Israel, sendo condenado por membros do governo e a FDI, que negaram as alegações feitas na obra. O ministro da Cultura, Miki Zohar, pediu a revogação da cidadania dos cineastas, acusando-os de cometerem traição. Netanyahu descreveu a reação ao filme como “chocante”, lamentando a recepção positiva no Festival de Veneza como “um convite antissemita global”, devendo apresentar um projeto de lei para revogar a cidadania israelita dos diretores e iniciar processos por difamação. O chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, levantou a possibilidade de medidas legais contra os realizadores, criticando o filme por ser difamatório e por fazer “acusações graves e falsas contra soldados e comandantes das FDI”. Houve manifesto na frente da casa dos pais da diretora Szor, pedindo a execução sumária dos dois cineastas. Ainda que os depoimentos contrariem o governo truculento israelense, como confessa um militar: “vamos bombardear os alvos à noite, com toda a família junto, ou quando eles estão se reunindo? O consenso foi que deveríamos bombardear à noite, teríamos mais chances de êxito”. Já outro agente afirma: “o objetivo era quantidade, não qualidade” e na sequência dissimula: “Minha função é técnica. Eu não devo externar posições morais ou princípios”. Em outro depoimento cruel, o mecanismo é chamado de “onde está o papai?”, quando um suposto membro alvo se dirigia para a casa, morreram 13 familiares, mas o alvo não estava em casa, no momento do ataque.

Naza retrata de maneira nua e crua os depoimentos sem um mínimo de sentimento de humanidade, raros demonstram algum arrependimento, a maioria conta com satisfação, quando um deles diz que o maior “naza” que obteve foi 500 em um ataque aéreo para cumprir a missão. Confessam sem pejo algum que “as forças estão destruindo tudo, para que as pessoas não tenham para onde voltar”. Descrevem com detalhes que civis desarmados na busca de alimentos eram alvejados sem direito de defesa. Outro fala que os cachorros comiam os mortos espalhados pelas ruas, os idosos e deficientes físicos que ficassem nas casas ao serem alertados para se deslocarem de uma região para outra, só restava dizer após o bombardeio: “boa sorte”. Parentes de vítimas eram perseguidos e mortos para não buscarem seus direitos na justiça internacional. Nesta obra extraordinária, o depoimento dos diretores traz para a reflexão o genocídio ali acontecendo: “Existem muitas diferenças, é claro, entre o Holocausto e o que está acontecendo em Gaza, mas uma coisa consistente nesses casos é a questão da responsabilização e da justiça, que é fundamental para avançarmos. O que é certo é que os padrões de desumanização são semelhantes”. Eis um documentário melancólico, denso e revelador, que embrulha o estômago, sobre a maquiavélica limpeza étnica arrasadora em Gaza. Fica um clímax de dor e derrota pelas circunstâncias da irracionalidade num contexto sombrio e perverso de uma das maiores crises humanitárias da história mundial. Certamente estará nas listas dos 10 melhores filmes do ano.

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