quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Nosso Segredo

 

Luto Familiar

Nosso Segredo é uma interessante surpresa das produções brasileiras recentes, tanto de recepção pelo público como de boas referências da maioria dos críticos. Estreou mundialmente na mostra Perspectivas, dedicada a primeiros filmes de ficção, no Festival de Berlim ocorrido em fevereiro passado. Ganhou três Kikitos no 54º. Festival de Gramado deste ano com Melhor Filme, Fotografia, assinada por Wilssa Esser, e Direção de Arte, sob a responsabilidade de Lucas Osório. A atriz mineira Grace Passô, de 46 anos, indicada quatro vezes como intérprete na Academia Brasileira de Cinema, obteve o prêmio de melhor curta na direção de República (2021), tendo vencido como atriz por três vezes nos festivais de Brasília com Temporada (2018), e no Rio com Praça Paris (2017) e O Dia Que Te Conheci (2023). Agora faz sua estreia como diretora de longa-metragem com admirável sensibilidade, tendo um futuro promissor por trás das câmeras. Também assinou o roteiro baseado na peça teatral Amores Surdos, que estreou em março de 2006 no palco do Guairão, em Curitiba (PR).

Passô retrata uma família negra que vive com dificuldades financeiras sérias na periferia de Belo Horizonte, tentando contornar a morte recente do pai, o esteio daquele microcosmo, composto pela mãe (Ju Colombo), quatro filhos, uma tia, além da presença incômoda de uma vizinha, símbolo da supremacia branca. Era a segurança e a base de apoio de todos os membros componentes que residiam juntos, para retornar ao cotidiano em meio a uma amargura profunda, marcada pelo silêncio e a ausência sentida. Diante dos embaraços de expressar os sentimentos, acabam ampliando as distâncias, deixando o isolamento entre eles reinar diariamente. No centro da história está o filho caçula sensitivo de nove anos, Tutu (Efraim Santos- em exitosa atuação), que se faz de doente para não ir à escola, guarda um segredo a sete chaves para transformar a forma como todos enxergam a perda marcante. O tempo que passa instiga sentimentos reprimidos e feridas pretéritas que ressurgem mansamente nos diálogos com elipses abundantes e com demasiadas lacunas na narrativa que não avança, perde densidade e a intensidade se dilui. Tudo gira e vai ao encontro de um novo caminho para seguir no futuro em meio ao luto presente.

A temática aproxima-se de Marte Um (2022), drama do cineasta mineiro Gabriel Martins, que retratou uma família classe média baixa, formada por pessoas negras que vivem às margens de uma cidade da Grande Belo Horizonte, dentro de um país sob o prisma do contexto impregnado pelo racismo estrutural. Abordava um garotinho que pretende ser um astrofísico e participar da missão espacial que parece inalcançável, mas o pai sonhava e depositava todas as esperanças que o filho se tornasse um grande jogador de futebol de seu time do coração, o Cruzeiro, em uma auspiciosa carreira. Havia eloquência e bom humor, ternura e amor para alcançar um efeito raro a ser encontrado. Já Passô busca na dor cotidiana criar um ambiente que vai da tristeza, passa pelo humor, dialoga com a tragédia e culmina com o absurdo pela estranheza dos acontecimentos que se sucedem, como o muco que escorre pela parede. Ninguém fala ou toca na situação escabrosa, até se tornar insustentável e transformar o desfecho num banho de água lamacenta, que faz alusão à tragédia de Brumadinho, e a revelação do segredo na aparição advinda do imponderável.

No prólogo, o filho mais velho, Gilson (Robert Frank), motorista de aplicativo, recebe do passageiro (Matheus Aleluia) um CD com músicas gravadas que coloca para tocar, e um enigma: "o que você tem esquecido na rua?", tem pesadelos estranhos quando relaxa para dormir. Sorri com ternura para os garis no caminhão atravessado na rua, sob o som da bela canção Caravana, de Gerando Azevedo e Alceu Valença, componente da linda trilha sonora do pianista Amaro Freitas, principalmente quando entra o seu toque musical para suavizar o clímax nas cenas tensas. Já o adolescente Guto (Flip), vive nas baladas e se diverte pichando muros, além de Grazi (Jéssica Gaspar), que trabalha mergulhada no computador, ouve músicas e não leva a sério o namorado. O roteiro fragmentado com pontas soltas sem que todos os enigmas sejam resolvidos, equívocos que não chegam a invalidar a obra, mas falta consistência e aflora artificialismos, empobrecendo a narrativa. Ainda assim, reflete os sentidos da saudade advindos do enlutamento, das memórias autoinstrutivas contidas no CD como um gesto afetuoso de quem partiu e deixa um legado para a viúva e os filhos. As histórias de cada personagem com seus sentimentos fragilizados fazem uma fusão da pouca vida remanescente na casa, ficando as vozes num plano secundário. O olhar da criança sensorial conduz para o surrealismo que está por vir das micro-histórias dentro da temática principal com suas fantasias e a realidade ali exposta com os segredos mantidos hermeticamente mantidos um do outro, embora lógicos.

As memórias rondam aquela residência sombria com ares de claustrofobia e bizarrices vindas do barulho do andar superior flertando com o realismo fantástico. São elementos complexos para estreitar os laços familiares diante das corrosivas adversidades inerentes. Há méritos da cineasta na construção deste drama familiar e social que realça o poder de sobrevivência de pessoas numa sociedade dominada essencialmente por brancos conservadores, como a vizinha enxerida, sem fazer discursos panfletários, diante de uma saga com seus dilemas intrínsecos e extrínsecos. Sequer cai em armadilhas quixotescas ou discursos vazios e enfadonhos. Não há outra alternativa, senão em deixar a vida conduzir com dignidade e altruísmo trazidas de berço, e relembrados para a continuação da vida no futuro de sonhos e realizações, por ora, abafados pela perda. Eis uma família planificada com sentimentos puros, às vezes ingênuos, mas com instinto inalienável do afeto, embora o surrealismo pulse de forma desproporcional. Cada personagem enfrenta com dificuldade as vicissitudes apresentadas pelos tombos do dia a dia. Uma espécie de corrente de apoio para manter viva a alma como elemento inspirador de coragem para vencer os percalços que afligem os mais desprotegidos. Embora a pobreza salte aos olhos, há garra, dignidade e muita dor no coração, pelo silêncio ecoante em sintonia com os familiares, que vai do realismo puro para mergulhar na atmosfera da inverossimilhança, registrada na cena final.

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