terça-feira, 26 de junho de 2018

O Amante Duplo



A Bela e os Gêmeos

O prolífero cineasta francês François Ozon, nome constante em festivais como Cannes, Berlim e Veneza nos últimos anos, está de volta com O Amante Duplo, uma adaptação do livro Lives of the Twins, de Joyce Carol Oates. Um dos filmes mais badalados no último Festival Varilux, com sucesso de público e visto com algum entusiasmo pela crítica internacional. Eis um suspense psicológico com boas pretensões estilísticas com o ingrediente eficiente de uma narrativa voltada para causar um certo desconforto na plateia. É provocativo na câmera que viaja pelo interior da vagina da personagem central no prólogo, com a elipse certeira que remete para os olhos, o corte radical dos longos cabelos, para só depois ir revelando sua vida na terapia, utilizando espelhos com imagens para focar a ideia principal do duplo na trajetória da vida da paciente.

Depois dos longas O Refúgio (2009), Potiche-Esposa Troféu (2010), Dentro de Casa (2012), Jovem e Bela (2013) e o premiado Frantz (2016), drama histórico que recebeu onze indicações ao Prêmio César, o Oscar da França, abocanhando a láurea de melhor fotografia, além da premiação de melhor jovem atriz no Festival de Veneza de 2016 para a bela Paula Beer. Agora o diretor constrói um painel psicológico para contar a amarga história de Chloé (Marina Vacht- a estonteante atriz que também foi a protagonista em Jovem e Bela), uma mulher reprimida sexualmente, que oscila entre a esterilidade até a histeria, e constantemente sente dores na altura do ventre. Irá buscar ajuda para resolver seu problema em sessões com o psicoterapeuta Paul (Jérémie Renier), um psicólogo especialista nas questões que lhe afligem. Ao contar seus dilemas, transfere suas angústias na ânsia de soluções, mas a perturbada moça acaba por se envolver emocionalmente com o profissional, logo se apaixonam e vão morar juntos.

Diante da inusitada situação, é encerrada a terapia e Paul indica uma colega para dar continuidade ao tratamento, mas a companheira decide ir a outro de sua livre escolha, quando descobre alguns segredos do namorado, sendo que um deles é a existência de um irmão gêmeo, também terapeuta, de nome Louis, com quem passa a ter um caso. O realizador conduz o enredo com distanciamento ao mergulhar nas intrincadas relações familiares, apresenta os irmãos com personalidades visceralmente distintas. O companheiro é um homem pacato, ético, carinhoso, compreensivo, adora leituras e se mantém como um personagem clássico e pouco inventivo na intimidade. Já o outro irmão é complexo, antiético, liberal nas relações sexuais, diametralmente oposto no trato e na profissão, de poucos escrúpulos, tem na rotina de momentos prazerosos pontilhados pela libido sem fronteiras. São situações criadas com razoável esmero pelo diretor na sua versatilidade temática e o ingresso em questões conflitantes numa trama urdida sobre as reminiscências que pairam da loucura originária dos conflitos interpessoais.

Ozon se utiliza de recursos para elaborar um cenário convincente, simbolizado no olhar atônito da protagonista e seu medo na viagem em busca da verdade e das revelações que lhe aguardam, bem como as causas e efeitos que proliferam para os limites da ficção imaginária com a realidade que a acompanha na irracionalidade. Um filme construído pelo olhar do diretor que surpreende em seu desenlace diante dos traumas decorrentes na perversão da sexualidade e suas alternâncias com a dignidade questionada como um fardo insustentável e pesado que tomam grandes dimensões dos relacionamentos anteriores, com o gosto implícito das distorções pela representação pouco realista dos fatos. O vazio e a alusão de uma desorientação sexual estão soltas e sem uma atmosfera consistente, pela falta de uma melhor construção psicológica de Chloé. Embora haja algumas comparações, apenas lembra o cultuado e melhor inspirado suspense do gênero Gêmeos- Mórbida Semelhança (1988), de David Crobemberg, este sim, bem mais profundo.

O Amante Duplo é um thiller psicológico que tem no formato a simbiose de situações para confundir o espectador. Este é o intuito do roteiro complexo para ludibriar sobre a inexistência de locais frequentados pela personagem e a negativa do namorado sobre a existência de um irmão gêmeo. São colocadas variantes sobre quem está mentindo para que as alucinações sejam expostas como a descoberta do enigma na construção do enredo, como nas cenas que envolvem um gato de estimação que desaparece na casa de uma vizinha, o presente com o coração de um felino e uma suposta moça em estado vegetativo numa cama. Até onde é real ou entra a fantasia numa atmosfera de pesadelos, bem como quem é o manipulador do relacionamento da união, são questionamentos lançados. As sugestões visuais são bem elaboradas, mas as conclusões sobre placenta e os cromossomos que fertilizam os gêmeos são cansativas e desnecessárias, quando a trama é direcionada para as explicações didáticas e rasas, como se fosse uma aula de genética numa premissa falsa e redundante.

Os delírios e conflitos estão distribuídos num clímax de ambiguidades do estado mental da jovem. A galeria de arte é o espaço em que o realizador se utiliza para representar os quadros com cópias e falsificações, numa alegoria da vida levada pela paciente e sua insanidade. Tudo é duplo, nada é único. Apesar de irregular o longa, o mérito maior está em não deixar a plateia indiferente, embora a realidade seja controversa, ao apresentar as neuroses constantes. Em outro suspense similar, Carnívoras (2018), dos cineastas belgas Jérémie e Yannick Renier, há uma retrato bem mais convincente sobre os efeitos traumáticos pretéritos que são conduzidos com melhor desenvoltura num desfecho pouco convencional, mas com as evidências de um presente constituído por conjunções psicológicas carregadas em um tom da falsa justificativa dentro de um mosaico pontilhado por amarguras e situações emblemáticas que faz surgir um redemoinho assustador alucinatório que povoa o consciente de uma mulher obsessiva e frustrada, na farsa do carinho que nutre pela irmã bem-sucedida. O Amante Duplo traz uma reflexão menor sobre a condição humana e fantasmas existenciais da rivalidade fraterna que desemboca em soluções mais pragmáticas sobre gêmeos, repletas de duplicidade e exageros na pretensão de uma obra mais profunda.

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Festival Varilux Cinema Francês (Marvin)



Os Preconceitos

Outro aguardado lançamento neste Festival Varilux de Cinema Francês foi Marvin, com direção da francesa Anne Fontaine. A cineasta, que depois de atuar em algumas comédias, dirigiu seu primeiro filme, Les Histoires d´amour finissent mal…en general (1993), ganhador do Prêmio Jean Vigo, sendo dela também o elogiado Lavagem a Seco (1997), premiado na Mostra de Veneza; o drama psicológico Nathalie X (2003); A Garota de Mônaco (2008); o festejado Coco Antes de Chanel (2009), Meu Pior Pesadelo (2011); Amor Sem Pecado (2013) e Gemma Bovery (2014). Retorna agora com o lançamento deste multifacetado drama familiar, abordando bullying, homofobia, xenofobia, racismo, preconceito e problemas de imigração. Talvez aí esteja seu grande pecado, ao retratar vários temas, acaba não se aprofundando especificamente em nenhum.

A trama tem como protagonista Marvin Bijou (Jules Porier como o pré-adolescente e Finnegan Oldfield quando jovem) que está fugindo de tudo, ou seja, da aldeia de Vosges, próximo de Nancy, onde mora; depois da família, da tirania do pai (Grégory Gadebois), da renúncia da indiferente mãe e por último da intolerância, rejeição e humilhações as quais era exposto por tudo que faziam dele uma pessoa diferente aos padrões comportamentais moralistas daquele vilarejo, exceto a bondosa diretora (Catherine Mouchet). A infância e adolescência do personagem central é sofrida e triste, não só por ser filho de uma família operária pobre, mas principalmente por ser gay e sofrer constantes ultrajes no colégio, com o frequente bullying dos colegas de aula, naquele lugar infestado pela homofobia intolerante pelo conservadorismo presente nos gestos e atitudes de incompreensão hostil para quem ousar bater de frente ou contrastar as ideias ali encravadas e pouco solidárias com o politicamente correto estabelecido por um expressivo contingente de uma sociedade deformada pelo preconceito da realidade sombria para o desenvolvimento de mudança de usos e costumes.

O filme é uma adaptação do romance autobiográfico En finir avec Eddy Bellegueule, escrito por Edward Louis, no qual a obra original narra a infância e adolescência do escritor, como filho de uma família muito pobre na Picardia, teve rejeição e humilhação num local tomado pela homofobia. O roteiro escrito pela diretora e Pierre Trividic para o cinema faz um painel das vítimas neste contexto de violência numa região do interior fortemente marcada com tintas remanescentes de um racismo, xenofobia e aversão à diversidade sexual repugnantes e persistentes. As intolerâncias não são somente quanto à distinção de raças, mas também pela discriminação sexual aos homossexuais e o rancor destilado aos imigrantes. Há um tangenciamento da pouca generosidade com toques de raro humor e a ira latente do pai, dos colegas e moradores dali.

Fora daquele lugar preconceituoso, o rapaz descobre em Paris o teatro e pessoas aliadas que, finalmente, vão permitir que sua história seja contada por ele mesmo, onde a realidade vira ficção, recebendo o apoio de Isabelle Huppert, que interpreta ela mesma, e de um amigo rico (Charles Berling), que o ajuda financeiramente, bem como do gentil e intelectual gay, Alex (Vincent Macaigne), que é uma espécie de mentor e orientador para todos os momentos. É um retrato fragmentado que comove e consegue ir além do espelho para uma busca de um futuro promissor. São representados alegoricamente os insultos homofóbicos nos corredores da escola, as surras dos colegas, as cuspidas no rosto e o sexo oral, as agressões do pai, a fragilidade com a indiferença da mãe e os irmãos num contexto de revolta numa situação de miserabilidade e pouca esperança para um sofrimento intenso. São agressões diluídas em uma vida marcada pelo constrangimento real à sexualidade, que trazem um peso forte da escolha da representação extremada da violência que transforma o protagonista num sofredor daquele calvário, mas com estereótipos redundantes das pessoas ao seu redor na narrativa pulverizada sobre a família perversa.

Marvin é uma busca para encontrar os elementos de um mundo complexo e desprovido de carinho, onde prevalece as ideias homofóbicas da tradição e da religião com o constante medo de um olhar afetivo, que irá sugerir o rancor, ao invés de boas maneiras civilizadas de lidar com os problemas inerentes dos que pensam diferente e tem suas opções fora daquele contexto. São expostas as cicatrizes emocionais que deixaram o rapaz que rebatizou seu nome, possivelmente para se livrar dos fantasmas do passado. Fontaine conduz para uma reflexão de que o tempo dará os arranjos de forma natural, numa clara contradição do mecanismo incrustado da homofobia e da redenção patriarcal no desfecho, ao insinuar de que também o pai é um enrustido homossexual. O drama vira uma espécie de torre de babel de pouca eficiência e aprofundamento em questões lançadas como subtemas da imigração, do preconceito racial e da xenofobia. Desnecessárias estas pinceladas afoitas no roteiro estéril por ser multitemático, que acabam tirando o foco da homofobia e do bullying, dando um valor menor da transformação na vida do protagonista para as artes e sua realização no teatro, ao dialogar com os acontecimentos do passado, repassando ao público uma realidade que ficou para trás de costumes e do moralismo abordados com rasa profundidade.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Festival Varilux Cinema Francês (Carnívoras)



As Irmãs

Um dos aguardados lançamentos neste Festival Varilux de Cinema Francês era o drama familiar com requintadas pitadas de suspense psicológico Carnívoras, dirigido com sobriedade e sutileza pelos competentes atores belgas Jérémie e Yannick Renier, no primeiro longa-metragem como diretores, também responsáveis pelo roteiro. O filme tem traços autobiográficos dos irmãos cineastas que remetem para uma história instigante de duas irmãs atrizes. É construído um universo perverso advindo do tempo que passa, mas não deixa cair no melodrama fácil, deixando a sensibilidade das situações intrincadas ingressarem como um amargor decorrente de uma acidez voluntária de duas vidas que se intercalam lentamente, com a exposição visceral da ambição e da inveja como elementos propulsores do enredo, num clímax bem engendrado pelos realizadores neófitos, porém deixam suas marca como promissores na carreira.

Como um novelo que se desenrola, a dupla de diretores vai lançando as situações diárias típicas de conflitos familiares inerentes. A trama centraliza em Mona (Leïla Bekhti), a irmã mais velha de 29 anos, que tenta decolar como atriz, após terminar seu curso de artes dramáticas. O tempo vai passando e ela não consegue um papel marcante na carreira, exceto onde ela contracena num teste com um cavalo, interpretado por um figurante, ao terminar a cena a insegurança se expressa no rosto decepcionado. Com poucos recursos, vai morar com Sam (Zita Hanrot), sua irmã mais nova, também atriz, que está em meio às gravações de um filme com pretensões maiores. Ela vive com Manuel (Bastien Bouillon) e o filho menor do casal (Octave Bossuet). Mona tem um olhar sombrio sobre a vida, cobiça como prioridade o lugar da mana, seu marido, a criança, e a posição social que leva, pois lhe falta o sucesso profissional, conjugal e financeiro. Sam é despojada e tem uma visão colorida do cotidiano, embora sua realidade seja controversa, ao apresentar algumas neuroses da infância, que são bem exploradas pela irmã antiética e manipuladora ao extremo.

O thriller tem o viés da reflexão sobre o conflito com tensões arrebatadoras do relacionamento e o vínculo no microcosmo familiar causados pela disputa de espaço, a terrível baixo estima da pseudovítima do sistema, no qual aflora sem piedade e funciona como um fator agressivo e perigoso de quem tem as faculdades mentais duvidosas e distante da lucidez, aparentemente. A temática é bem estruturada sobre a inveja, o ciúme, e a ambição é bem explorada e mostrada com alguma crueldade, como elementos de uma retórica de perda e rejeição pelo sangue frio da protagonista vazia e artificial. Eis uma mulher que tem na gélida relação da adversária por ela escolhida, que chega a enganar até a própria mãe (Hiam Abbass), que a vê como a filha certinha e por isto é a queridinha numa embalagem bonita, mas sem conteúdo e com um espantoso senso de manipulação, que conduz para o desenfreado artifício maquiavélico dos fins que justificam os meios.

A dupla de diretores cria uma realização dolorosa que traz uma insustentável leveza com sutileza pela intensidade de uma narrativa pela ótica da investigação psicológica, para mesclar situações presentes com perversidade, para retornar e compreender as razões do passado deste magnífico filme, mas em que está embutida uma melancolia que fisga o espectador com a crítica situação dentro de um contexto chocante e com os malefícios inerentes que irão fluir na tela de maneira inexorável pela reconstrução familiar buscada nos pequenos detalhes para uma amostragem que ganha tons de uma paranoia obsessiva. Há uma atmosfera equilibrada dos contrastes da liberdade e o medo da insignificância profissional pela jornada de aventuras de conquistas a qualquer preço com uma magia peculiar. Retrata com imparcialidade as fragilidades femininas e suas confusas idealizações e utopias indefinidas. Tudo contribui para a crise no processo fragmentado do esvaziamento amoroso e profissional. A essência da vida e a existência estigmatizada estão presentes, ainda que num momento de ilusória harmonia entre irmãs na busca da precária felicidade. A protagonista tenta superar as adversidades pela força da maldade e uma capacidade emocional que se esvai e se desequilibra, tendo em vista que por dentro está angustiada pelos transtornos diante da iminência do rompimento e a perda.

Carnívoras tem uma influência concreta e inarredável da temática profunda da família abordada pelo irmãos belgas Luc e Jean-Pierre Dardenne, não é à toa que são os coprodutores do longa. Os efeitos traumáticos pretéritos são conduzidos com grande desenvoltura pelos realizadores que direcionam para um desfecho pouco convencional, mas com as evidências de um presente constituído por conjunções psicológicas carregadas em sua saga, porém dá um tom da falsa justificativa dentro de um mosaico neste painel pontilhado por amarguras e situações emblemáticas que faz surgir um redemoinho assustador alucinatório que povoa o consciente de uma mulher obsessiva e frustrada, na farsa do carinho que nutre pela irmã bem-sucedida. Uma reflexão magistral sobre a condição humana e seus traumas existenciais da rivalidade fraterna que mergulha no sofrimento de uma inveja tresloucada, na solidão, e se escancara como resultado no desfecho desta perturbadora realização que desemboca em rupturas de insuperáveis hostilidades na catarse da tragicidade pela doentia mente subconsciente.

terça-feira, 22 de maio de 2018

À Sombra de Duas Mulheres



Relações Amorosas

O veterano cineasta francês Philippe Garrel, discípulo da Nouvelle Vague, no qual ingressou bem depois de fundado, para dar continuidade com o inerente naturalismo da proposta do movimento que revolucionou o cinema. Tem em seu currículo o longa de estreia Marie Pour Mémoire, ganhador do Grande Prêmio do Festival du Jeune Cinéma de Hyères, em 1969, também abocanhou o Leão de Prata no Festival de Veneza de 1992 com J'Entends Plus la Guitare, prêmio que voltaria a receber por Amantes Constantes, em 2005. É detentor de uma filmografia elogiável como A Fronteira da Alvorada (2008); Um Verão Escaldante (2011); o autobiográfico O Ciúme (2013), que dirigiu seu filho Louis Garrel; e a última realização, Amante Por Um Dia (2017), outro belo e sensível drama familiar que estreou este ano no Brasil.

Chega somente agora ao circuito comercial brasileiro seu penúltimo filme, À Sombra de Duas Mulheres, realizado em 2015. Novamente se debruça sobre a temática da fidelidade e as consequências dos amores com ciúmes e traições como um ingrediente de molho para apimentar uma relação esfriada pelo tempo de uma convivência de muitos anos que cai na rotina do cotidiano implacável. Neste seu drama atual, segue a mesma senda e não decepciona seu público fiel das inequívocas circunstâncias da alma e do coração. Não falta o amor com ardor e dor, a angústia e o prazer entrelaçados, que são criados através de momentos de pura beleza e poesia, como na cena do epílogo. Tudo está encaixado dentro de uma proposta aparentemente simples, na qual está presente o objeto fundamental do estado emocional complexo envolvente de um sentimento provocado em relação ao medo da perda pela traição (mais que a própria morte) da pessoa amada.

Pierre (Stanislas Merhar) é um aborrecido cineasta de documentários independente, de poucos recursos, que busca uma linha autoral, é casado com Manon (Clotilde Courau), uma roteirista e produtora. Eles sobrevivem realizando trabalhos temporários para ter suporte nas produções mais arrojadas que pretendem no futuro. Estão em meio às filmagens de um casal de anciões, símbolos da resistência da França durante a ocupação da Alemanha nazista na II Guerra Mundial, porém o desfecho revelará a verdadeira posição dos seus heróis. Há um viés político na trama, mas seu foco principal está na investigação com acuidade das relações do microcosmo familiar e as paixões enlouquecidas da instantaneidade em rota de colisão com os amores duradouros de seus personagens fragilizados pelo tempo. Apesar de amar Manon, Pierre acaba conhecendo Elizabeth (Lena Paugam), uma estagiária de História, que conheceu numa cinemateca. A relação com a amante, as escapadas e o desejo em manter o affair, entra em rota de colisão com a companheira. Pretende manter as duas mulheres, mas algo está complicando a situação. O inesperado acontece como uma surpresa e o sentimento de culpa e perda estarão colocados em xeque pelo realizador, como uma proposta madura para uma abordagem consistente e sem fricotes ou subterfúgios, num roteiro conciso, enxuto e direto ao ponto, escrito por Jean- Claude Carrière, Arlette Langmann, Caroline Deruas-Garrel (esposa do diretor) e o próprio cineasta.

Importante destacar a primorosa fotografia em preto e branco, num tom melancólico e sem glamorização das relações, dá o equilíbrio exato nesta trama bem urdida da história retratada. O cineasta disseca por uma lúcida reflexão os atritos das relações surgidas no cotidiano do amor em toda sua extensão com os prazeres sexuais e os vínculos afetivos decorrentes pelas traições, numa obra que relembra com charme, além de provocar e instigar, através da consagrada estrutura da Nouvelle Vague. A solidão, o abandono, a iminência da perda e a traição conflitando com a fidelidade estão presentes nos personagens envolvidos que representam os papéis da vida no dia a dia da ficção e da dúvida sempre entrelaçados no realismo lançado dentro de uma verdade inafastável e onipresente na vida daquelas criaturas sofridas pela incerteza do amanhã, como simbologia da existência e a reconquista como um saboroso elemento constitutivo poético e infinito.

O genial Alain Resnais, um dos expoentes do famoso movimento da nova onda, foi insuperável ao criar uma atmosfera de amor e tristeza de uma existência que se torna ficcional no cenário das interpretações pela estética apurada com consistência e rigor no equilíbrio em Amar, Beber e Cantar (2014), um drama de sutilezas numa narrativa leve e ao mesmo tempo profunda, bem como em Vocês Ainda Não Viram Nada! (2011). Garrel tem uma admiração pelo velho mestre já falecido, por isso se esmera como um bom seguidor na essência do amor, do ciúme, a fidelidade e a traição. No filme O Ciúme, a relação da dúvida sobre a lealdade é visível e encaixa com precisão no enredo de um ator de teatro que vive em um modesto apartamento com uma atriz e levam uma vida normal de dois apaixonados, embora com sérias dificuldades financeiras. Já no drama Amante Por Um Dia, a temática das relações atormentadas está presente outra vez, em que a filha de um professor e a namorada dele se aturam, mas uma desconfia da outra, até que ambas acabam se aproximando e ficando amigas, mas irão deixando rastros pelo caminho que levam para o rompimento.

À Sombra de Duas Mulheres é uma abordagem mais elaborada e com mais verossimilhança na proposição da reconciliação de dois seres em litígio, porém eles têm algo em comum. São personagens mergulhados na solidão do cotidiano, além das idas e vindas conturbadas, há uma simplicidade de rara profundidade nos romances desfeitos e refeitos, o que dá realismo e alma ao longa. Não há culpados dentro das escolhas livres, ou induzidas, diante das consequências que o casal irá assumir. A iminente perda de uma grande paixão, a infidelidade fugaz no prazer sexual sem vinculação afetiva, como pessoas maduras pelas atitudes tomadas livremente, além do desconforto do flagrante e da traição que são contextualizados para uma reflexão sem preconceitos tacanhos pelo falso moralismo. O realizador cria belas imagens para uma escolha amoral num preto e branco estristecido propositalmente, como nas sequências que indicam a felicidade sendo tragada pela decepção sombria nas andanças pelas ruas do bairro, e no desfecho de exorcismo de fantasmas. Ao desenvolver a narrativa com a reconstrução, desenvolve essencialmente um filme sobre a tristeza do ser humano e sua proximidade com a vida angustiada do grande amor incondicional e suas virtudes, que deixará fluir pela ternura, mas dentro de um vazio da realidade dolorida e prazerosa, paradoxalmente, neste admirável drama intimista.

terça-feira, 15 de maio de 2018

Os Fantasmas de Ismael



Triângulo Amoroso

O drama psicológico Os Fantasmas de Ismael é uma realização que tem como principal atração o festejado trio de intérpretes da primeira linha do cinema francês: Mathieu Amalric, Marion Cotillard e Charlotte Gainsbourg. Na direção, está Arnaud Desplechin que tem uma trajetória razoável e nunca chegou a despontar como um cineasta inquestionável, sem marcar com uma obra arrebatadora, diante de sua diversidade de temas e subtemas dentro de seus filmes. Raramente se aprofunda, razão pela qual não empolga sua filmografia de resultados apenas discretos. É conhecido do público cinéfilo pelas obras Reis e Rainhas (2004), Um Conto de Natal (2008), Terapia Intensiva (2013) e Três Lembranças de Minha Juventude (2014).

O longa atual do realizador é mais um destes condensados que mistura ficção com realidade, com um filme dentro do outro, ausência de coesão, com uma sugestão de uma metalinguagem rasa, que pouco atrai a atenção do espectador mais exigente e atento à proposta principal. A narrativa é inconsistente, tanto para o que se vê na tela como uma suposta inovação, bem como para o que está sendo filmado dentro do drama proposto propriamente dito das relações conturbadas dos personagens em conflitos amorosos e existenciais. O enredo segue uma ciranda de amores rompidos bruscamente, reaparições do nada e o envolvimento de uma terceira pessoa que fica no olho do furacão, mas que apesar da paciência, cansa, vai embora, e retorna no vaivém segmentado de forma artificial pelo resultado de um roteiro com oscilações de altos e baixos, assinado pelo diretor em parceria com Léa Mysius e Julie Peyr.

Desplechin cria um clássico romance dividido num amor a três. O cineasta Ismael (Mathieu Amalric) está traumatizado pelo desaparecimento abrupto da ex-mulher, Carlotta (Marion Cotillard), com quem se casou quando ela tinha 20 anos. Simplesmente a mulher sumiu, teve uma vida promíscua e por último um relacionamento sério finalizado na Índia. Retorna ao lar num belo dia, após 21 anos, 8 meses e 6 dias, tempo este contabilizado com exatidão pelo marido abandonado. Ela encontra o ex-parceiro numa relação aparentemente duradoura e fortalecida com a astrofísica Sylvia (Charlotte Gainsbourg), uma pessoa que pensa no infinito e em ter filhos com ele. Entretanto, a repentina reaparição irá causar fissuras com uma flagrante desestabilização do casal apaixonado que acarretará num conflito psicológico de abalos sísmicos que tomam conta daquele radiante cenário da região costeira litorânea, captado pelas lentes da bela fotografia de Irina Lubtchansky.

O atormentado personagem central está em meio às filmagens de seu novo filme sobre a vida do irmão bem-sucedido, Ivan (Louis Garrel). Logo, entra em um processo de estresse, larga tudo e refugia-se na casa que morava na infância. Mas o produtor irá buscá-lo no seu retiro espiritual, agora dedicado a cuidar de galinhas. Desplechin não aprofunda nem o tema principal e sequer a subtrama, com elipses sendo realizadas a bel-prazer. Carlotta custa a se reaproximar do pai (Hippolyte Girardot), mas quando decide, há um choque no ancião com uma situação que irá desencadear no triste e derradeiro episódio da emoção desmedida fatal. As relações conflitadas são fragmentadas como indicativo de possível causa para a fuga como elemento de mote construído numa mescla de alguma rejeição, antes do desenlace. Os diálogos pouco elucidam e convergem para um acontecimento que estava desenhado como pouco improvável de uma rotina estabelecida pela amargura da pouca idade ao contrair matrimônio, embora sem uma motivação eloquente, deixa alguns resquícios da projeção de liberdade para sair de Paris e ganhar o mundo. Eis um núcleo em processo de dissolução dos vínculos ainda restantes do casamento, mas com uma reflexão reduzida dos fatores que motivaram as situações demonstradas.

O experiente Amalric sucumbe como um caricato diretor em crise; além de Cotillard estar insossa e pouco expressiva, numa atuação equivocada; já Charlotte se salva com uma performance muito boa, ilumina a tela em suas aparições para dar vida e segurar a trama como pode nos vínculos de fratura nas típicas relações familiares em rupturas de amarras de uma realidade ambientada numa mescla ficcional com um drama de frágil consistência com características particulares. Não engrena pela ausência de harmonia nas sequências de tempo de tela com as episódicas alternâncias de peculiaridades distintas e pelo roteiro confuso e sem força. Ou pela perda da dramaticidade envolvendo casais que buscam curar cicatrizes e fantasmas do passado, ou ainda pela comicidade pouco sutil com hilárias representações de um filme dentro de outro filme. Os Fantasmas de Ismael é estruturalmente uma espécie de continuação com situações evidentes de uma repaginação da realização anterior, Três Lembranças de Minha Juventude. Os planos de continuidade com personagens sendo colocados à margem, deixam o drama sem um clímax de uma narrativa satisfatória pela falta de foco, com a desmesurada incongruência que o torna desinteressante no desenrolar da história, para um epílogo novelesco convencional e previsível.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Baseado em Fatos Reais



Crise da Criação

Roman Polanski, aos 84 anos, está em boa forma e é um dos mais competentes cineastas em atividade, embora sua conturbada vida pessoal atrapalhe seu destino no território dos EUA e países que façam extradição para lá. Seus problemas pessoais e sua suposta dívida para com a justiça não impedem e nem devem servir de obstáculo para atenuar os efeitos de sua meritória trajetória na sétima arte. Em 2010, preso na Suíça, não pôde receber o Urso de Prata de direção, em Berlim, por O Escritor Fantasma (2010). Voltou a participar do Festival de Cannes com A Pele de Vênus (2013), penúltima realização, baseada na peça Venus in Fur, do norte-americano David Ives, que por sua vez inspirou-se no romance de Leopold von Sacher-Masoch, publicado em 1870, que viria tornar-se célebre definidor da fábula clássica da dominação sexual nas relações por perversão, advindo dele a terminologia masoquismo.

Já o excelente longa O Escritor Fantasma, adaptado do romance do jornalista e escritor Robert Harris, retrata um ex-ministro inglês chamado ficticiamente de Adam Lang, casado com Ruth, vivia em semi-exílio numa ilha do estado de Maine, nos Estados Unidos, que na realidade nada mais é que as memórias do primeiro-ministro britânico Tony Blair e suas incursões desastradas e subservientes ao governo americano de George W. Bush. É criticado asperamente por uma imprensa livre, por ter autorizado a prisão e tortura de suspeitos de terrorismo, em conluio com o governo americano, exatamente como aconteceu entre Blair e Bush. Trabalha sua autobiografia, pela qual recebeu US$ 10 milhões antes de escrevê-la. Contratado pela editora como ghost writer, McCrea morre misteriosamente. Logo tem seu substituto, passando então a realizar suas pesquisas para terminar o livro de memórias de Lang/Blair. Havia similitudes com Budapeste (2009), de Walter Carvalho, baseado na obra de Chico Buarque de Holanda, onde um homem separado por dois continentes e dividido por duas mulheres, tem na fascinante viagem a descoberta da capital da Hungria, com suas peculiaridades e as situações políticas controversas e ricas de um passado sempre presente de ditadores como estátuas descendo dentro de um barco enferrujado e decadente, pelo Rio Danúbio, numa metáfora do ocaso do comunismo, contadas por um escritor anônimo.

Agora em sua última realização, Baseado em Fatos Reais, Polanski retoma a temática e dá uma espécie de continuidade ao filme O Escritor Fantasma, ao adaptar para a telona o livro de Delphine de Vigan, em parceria com o realizador francês Oliver Assayas. O roteiro é inspirado não por acaso em Acima das Nuvens (2014), de Assayas, que retrata a relação desarrazoada de sentimentos entre duas mulheres, ponto nevrálgico daquela produção francesa. Porém, em sua nova realização, o diretor polonês se afasta da política e vai fundo na perseguição de uma admiradora em uma sessão de autógrafos de uma escritora famosa para abordar a invasão de privacidade como uma neurose obsessiva, valorizar o realismo e lançar a tênue divisória entre a fronteira da realidade com a ficção, através de uma narrativa sobre a vida alheia, as redes sociais e as cartas anônimas endereçadas à protagonista em crise de criação e acusada de apropriar-se de dramas dos outros, tema também visto recentemente na ótima coprodução da Argentina com a Espanha O Cidadão Ilustre (2016), da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat.

O thriller psicológico, gênero em que o diretor é mestre, como no tensionamento sinistro e apavorante de O Bebê de Rosemary (1968), obra-prima do terror; o instigamento de O Inquilino (1976), um verdadeiro achado de suspense e que está presente em Baseados em Fatos Reais, como nas aparições por trás das janelas da fã endiabrada. O cenário da obra atual é o lançamento do mais novo best-seller de Delphine (Emmanuelle Seigner- casada há mais de 20 anos com o cineasta polonês), baseado na história de sua própria mãe, que conhecerá por acaso Elle (Eva Green), uma de suas admiradoras, que lhe pede para autografar um exemplar e se diz escritora, com trabalhos de ghost writer em biografias de celebridades. Aos poucos as duas se aproximam, a moça se torna cada vez mais íntima e presente na vida da autora consagrada. Cria-se um vínculo estreito e quase que insuperável, porém por mais que se sinta incomodada com a onipresença da nova amiga, Delphine permite a aproximação devido à sua fragilidade emocional, por sentir-se solitária, vulnerável com a ausência dos filhos que saíram de casa e a distância do marido (Vincent Perez) sempre envolvido com o trabalho na TV, onde é apresentador de um programa literário. Acaba sendo dopada de remédios pela amiga imaginária ou não, eis a grande questão lançada, que cuidará de sua agenda pessoal e a isolará do mundo num lugar distante para escrever o próximo livro, diante da crise do poder criativo ausente pela falta de novas ideias.

Polanski imprime consistência num aparente mote simples, embora haja complexidade humana que toma vulto e persista nas relações dolorosas e instigantes da intelectual submissa com a dominação tresloucada da personagem usurpadora, que dará durante a trajetória algumas pistas para o espectador optar pela ficção imaginária ou pelo realismo duro e doentio, diante da sucessão de fatos que acontecem até o desfecho pouco convencional, que irá desfazendo o quebra-cabeça, numa verdadeira ciranda de situações inusitadas que se avolumam com o desenrolar da história, marca registrada do cineasta que nunca passa indiferente e seus filmes sempre causam reações na plateia, por sua verve sarcástica inerente. São as relações intrincadas com submissões quase que humilhantes, num desdobramento que segue um ritmo fervoroso até o epílogo, por ser complexo e provocativo, pois consegue fazer de um encontro de amizade e solidariedade numa sessão de autógrafos, para uma transformação do cotidiano da vida numa prisão de almas amarguradas e ressentidas em busca da libertação de seus fantasmas. O resultado de Baseado em Fatos Reais é um suspense psicológico equilibrado e envolvente para uma sensível reflexão sobre as relações de sedução, obsessão, submissão, malícia, perversidade e o delírio catártico, com impacto que só o cinema propicia.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Três Anúncios Para Um Crime



Rastros de Intolerância

Vencedor de quatro prêmios no Globo de Ouro, entre eles o de Melhor Filme drama e forte candidato ao Oscar, concorrendo em seis categorias, Três Anúncios Para Um Crime tem a competente direção do britânico Martin McDonagh, que também escreveu o dinâmico roteiro. É reconhecido por Na Mira do Chefe (2008) e Sete Psicoptas e Um Shih Tzu (2012), realizações que tiveram boa repercussão no meio cinematográfico. O cineasta está de volta com este vigoroso drama mesclado com faroeste contemporâneo. Trata-se de um filme consistente, com uma abordagem bem mais profunda que as produções anteriores, enfatizando temas como a vingança, a culpa, a hipocrisia, o trauma e as injustiças sociais na pequena e pacata cidade de Ebbing, no estado de Missouri, no Sul dos EUA.

Talvez seja a obra mais madura de McDonagh, que monta um painel distinto para contar uma história que não tem vilões, heróis e nem vítimas determinadas neste contexto de violência numa região fortemente marcada com tintas remanescentes de um racismo ignóbil e persistente. As intolerâncias não são somente quanto à distinção de raças: branco e negro, mas também pela discriminação sexual aos homossexuais e o rancor destilado aos imigrantes, principalmente os cubanos, como no personagem retratado pela perseguição. O filme é tangenciado por certa generosidade com toques de humor, embora em escala bem menor, e a ira latente. O conservadorismo está presente nos sulistas norte-americanos e a intolerância é uma das apresentações hostis para quem ousar bater de frente ou contrastar aquelas ideias ali encravadas e pouco solidárias com o politicamente correto estabelecido por um expressivo contingente de uma sociedade doentia e deformada pelo preconceito da realidade sombria para o desenvolvimento de uma pacificação.

O mote do enredo do longa está centrado no inconformismo de uma mãe pela ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal estupro sucedido pelo assassinato de sua filha com requintes de crueldade. Mildred Hayes (Frances McDormand- estupenda atuação), ao ver três outdoors abandonados na beira de uma estrada secundária, decide chamar a atenção para o crime insolúvel ocorrido sete meses atrás e sem mostras de uma investigação eficaz. Tem a ideia de alugá-los e fazer uma cobrança direta pedindo explicações ao xerife da cidade, Willoughby (Woody Harrelson), que está agonizando em silêncio de uma doença grave e terminal. A inesperada atitude repercute e terá consequências trágicas com a explosão de uma onda de violência beirando a uma atmosfera catártica, com incêndios, morte, lesões graves por queimaduras, numa devastação que toma contornos surreais afetando parte da população. É a simbolização de desencanto que sofre uma comunidade de pouca lucidez numa iminente desagregação que deixa rastros de ódios e resultados pouco convencionais. A fragilidade da paz entra em choque com os distúrbios ocorridos simultaneamente confrontando com a esperança da solução pragmática esfacelada.

As relações conturbadas são fragmentadas pela dura ruptura de um ordenamento ineficaz pelo fracasso das apurações policiais, que desencadeiam de um episódio para a perda de controle como elementos magníficos retratados de uma realidade cruel e selvagem, bem construída pelo realizador. Mostra a cobertura midiática televisiva que busca dar o tom parcial pela espetacularização do caso, diante dos desdobramentos e as ligações do fato com a morte inesperada. Mas as cartas deixadas irão dar luzes e afastar as referências maldosas e tendenciosas, tanto da imprensa afoita em dar show, bem como de alguns personagens sequiosos por culpar o possível responsável pelo desatino circunstancial, inclusive o padre entra em cena para opinar com um discurso demagógico. Ao colocar lado a lado, o grotesco, violento e perverso policial Jason Dixon (Sam Rockwell) com a protagonista para irem atrás de um improvável suspeito, o realizador escapa com boa imparcialidade dos maniqueísmos que rodeiam e poderiam aflorar para um desenlace reduzido da obra. Ali fica estampado que a heroína está bem longe da justiça propriamente dita, pois seu lema é a vingança pela velha lei de talião: “olho por olho, dente por dente”. Por isto, confunde-se com a própria polícia inoperante pela lerdeza de investigar, o que caracteriza o fracasso do sistema, porém com desdobramentos que transbordam da civilidade. Um dos méritos do filme é deixar para o espectador escolher o melhor resultado para o epílogo em aberto, ao abandonar a clássica simplificação caolha, facilmente encontrada em produções menores de qualidade pífia.

Três Anúncios Para Um Crime é uma realização exemplar pelo seu coeso elenco, em que todos brilham, especialmente Frances McDormand na pele da protagonista pouco óbvia, ao encarnar uma mulher fria e calculista com obstinação implacável, às vezes até esboça lampejos de algum carinho e seus diálogos fluem naturalmente assustando pelo sentimento arraigado de cólera vingativa. Deverá levar a estatueta pela sua imposição e facilidade de comunicação expressiva. Sam Rockwell e Woody Harrelson disputam o Oscar de ator coadjuvante e ambos têm chances, especialmente o primeiro pelo inesquecível personagem truculento, às vezes forte e arrogante e em outras fragilizado como o macho alfa. A trilha sonora é fascinante em seu todo, por não ser invasiva e entrar no momento oportuno sem atravessar a narrativa. Destaque para a composição irlandesa no prólogo do drama, a canção A Última Rosa do Verão, de autoria de Thomas Moore, belissimamente interpretada pela soprano americana Renée Fleming. São componentes de uma realização de humor cáustico, intercalado com algum lirismo em cenas marcantes pela violência de um conservadorismo arcaico, através de um crime hediondo como pano de fundo para reflexão da intolerância sexual e das crônicas questões de cunho racial, além da raiva, da vingança e do ódio aplastantes numa região conflagrada.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O Insulto



Julgamento de Ódios

A aguardada produção que representa a primeira realização do Líbano na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, O Insulto, dirigido pelo libanês Ziad Doueiri, o mesmo dos premiados Zeit Beirut (1998) e o polêmico O Atentado (2012), corresponde bem a expectativa depositada. O longa foi premiado no Festival de Veneza com a láurea de melhor ator para o veterano Kamel El Basha, no papel do palestino refugiado mestre de obras Yasser Salameh. As autoridades do país natal do diretor impuseram que fosse colocado o aviso: “o filme não representa a visão do governo libanês.” O realizador não é benquisto pelos governantes. Chegou a ser preso após a premiação do filme anterior na Itália, tendo em vista que gravou as cenas em Israel, mas logo foi solto. Já a realização atual tem como cenário a capital Beirute.

A forma é alegórica da trama para enfatizar as desavenças pelos ódios raciais e religiosos na conflitada região do Oriente Médio que vive permanentemente em alta tensão, principalmente no campo político. Logo já se observa quando no prólogo do enredo, o libanês Toni Hanna (Adel Karam) entra em confronto por uma situação banal. É um adepto fervoroso do Partido Cristão da extrema-direita, admirador confesso e fiel do líder nacionalista Bashir Gemayel, mecânico de profissão, ele tem uma oficina de automóveis num bairro populoso na Capital, na qual sustenta a família. Sua esposa, Shirini (Rita Hayek), está grávida e prestes a dar à luz ao primeiro filho do casal. Mas num dia qualquer, Toni que sempre rega as plantas de sua varanda, acidentalmente, acaba molhando por uma calha estragada o palestino. Este vai até o pequeno apartamento e se oferece para realizar o conserto, mas não há guarida do proprietário. Mesmo assim, tenta com sua equipe de trabalhadores fazer o reparo pelo lado externo sem a permissão expressa do libanês, que ao perceber a atividade profissional, acaba por rebentar a marretadas o novo cano ali instalado. Yasser não deixa por menos e responde com um impropério ultrajante, mas Toni responde asperamente que teria sido bom que o ex-primeiro-ministro israelense Ariel Sharon tivesse dizimado todos os palestinos.

Diante do conflito exposto como metáfora dos desatinos raciais e religiosos, começa uma intensa batalha verbal com desdobramentos que ultrapassam as matizes do bom senso e da civilidade. Toni quer uma retratação formal e não deixa por menos, exige desculpas do acusado. Depois de algumas tentativas de acordo, partem para as vias de fato e o caso vai parar no tribunal, com contornos políticos e repercussão nacional. Um advogado renomado das causas do Partido Cristão se oferece para defender o pseudo-herói da resistência libanesa contra uma experiente advogada das causas palestinas, por coincidência filha do veterano bacharel, que assume a defesa do muçulmano agressor pelas grosserias verberadas. Simbolizado como um palestino refugiado à procura de um lugar seguro para residir e trabalhar dignamente, mas que enfrenta ações extremadas.

O roteiro eclético do diretor em parceria com Joëlle Touma conduz para um estrondoso julgamento com ampla cobertura midiática, num tom circense de espetacularização em uma estrutura de melodrama. O drama social de uma pendenga pessoal de dois cidadãos vai ao encontro dos conflitos recorrentes por questões de âmbito racial, religioso e político, numa mescla que explode numa quase catarse pelas manifestações nas ruas em defesa de suas causas propriamente ditas do mundo árabe. Eis um cotidiano que é abordado através de uma história aparentemente singela, mas complexa na essência, ao adquirir grande amplitude no desenrolar da trama. O intimismo dos personagens em foco é esmiuçado pelo diretor em vários momentos distintos pela importância da história no contexto, com revelações pretéritas que deixaram feridas abertas da guerra civil no Líbano entre 1975 e 1990. As raízes do conflito afloram do passado com marcas tingidas pelo sangue, através da memória das lutas contra Israel, os massacres constantes nas aldeias e o revide de facções do povo da Palestina e sua luta por mais terras com o aumento geográfico de seu território.

A narrativa segue a descrição dos debates jurídicos de filmes hollywoodianos, com as reviravoltas de expectativas do binômio: do bem e do mal, para um desfecho ambíguo a todos os envolvidos. Não há vítimas e réus distintos, todos podem assumir qualquer papel no enredo, sem que haja discordância ou heroísmos. A fragilidade da paz entra em choque com os distúrbios sociais confrontando com a esperança em formato de quimera. O tribunal está ali com seus julgadores e uma imprensa sensacionalista sequiosa por noticiar mais um descalabro de um evento transformado num gigantismo desproporcional à causa da origem. Uma realidade sombria para o desenvolvimento bem urdido do roteiro proposto para uma eficiente alegoria. Não propõe mostrar inocentes neste painel de erros, culpas e nenhum arrependimento, onde todos estão interligados numa babel de confrontos e acusações. Todavia, nem mesmo o que há como elementos fortes de ligação justificam as atitudes que ficam à deriva como consequência de uma crise institucional desde o passado pelos seus fantasmas, sem grandes esperanças no futuro. Repete-se neste aspecto pelo olhar realista para um país de discutíveis atitudes certas ou erradas, bem longe do maniqueísmo de alguns realizadores, mas que mantém com força significativa, sem simplificar, o conteúdo contextualizado de um clímax com direcionamento para descobrir se há um verdadeiro culpado.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Sem Amor



Desagregação Familiar

Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2017 e forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, Sem Amor é o digno representante da Rússia, com a excelente direção de Andrey Zvyagintsev, que dividiu o enxuto roteiro com Oleg Negin. A fascinante fotografia é assinada pelo competente Mikhail Krichman. O cineasta tem em seu currículo o cultuado longa-metragem Leviatã (2014), também finalista do Oscar daquele ano, que retrata na península do Mar de Barents, no Ártico, um pai de família lutando contra os desmandos e falcatruas de um prefeito corrupto que quer se manter no poder. Porém, para enfrentar o político desonesto que o coage para tentar desalojá-lo, ele recorre a um colega influente de Moscou. É dele também O Retorno (2003), premiado no Leão de Ouro no Festival de Veneza.

O mote do enredo do longa de Zvyagintsev está centrado numa família em processo de divórcio já encaminhado pelos protagonistas da dissolução dos vínculos ainda restantes do casamento. Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão concluindo a divisão da partilha dos bens materiais deles, com a venda do apartamento, único patrimônio que os mantêm precariamente próximos através de diálogos ríspidos e rancorosos, repletos de mágoas e ressentimentos. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas paralelas em curso repletas de esperanças. Ele com sua nova namorada (Varvara Shmykova), que já está grávida e cobra constantemente uma participação mais efetiva durante a gestação. Ela com seu parceiro milionário (Andris Keiss), um homem já separado e que tem uma aparência distante pelo olhar perdido no universo, de vez em quando faz contato com a filha pela internet. É a simbolização de desencanto que sofre a sociedade russa numa iminente desagregação pela melancólica alegoria apresentada.

Diante das preocupações futuras, o casal pouco liga para o bem-estar do filho, Alyosha (Matvey Novikov), um menino de 12 anos que acaba desaparecendo misteriosamente, logo após uma discussão dos pais e a rejeição explícita a ele sobre a respectiva guarda. Sente-se um verdadeiro estorvo, chora copiosamente e resolve por conta própria sumir da vida deles, diante da negligência familiar estampada para o fato consumado, após o clímax daquele ambiente sem saída. Aflora a falta de amor, o carinho e a desatenção. As metáforas políticas envolvendo o país natal do realizador são evidentes, através do tom seco e os relacionamentos mal resolvidos como características presentes na sua filmografia. Sem Amor é daquelas produções típicas da escola soviética, com uma bem elaborada história, numa narrativa seca, direta e sem subterfúgios pirotécnicos. Mostra uma triste realidade construída a partir de um imenso vazio naquele microcosmo familiar entre os pais e o filho num cenário gelado pelas nevascas, para abordar metaforicamente uma falsa aparente simples separação. Aprofunda-se quando deixa transparecer nas entrelinhas as relações de rompimentos da Rússia com os países que almejam a independência, como no caso específico do noticiário da TV sobre a Ucrânia no epílogo, dividida pela linguagem, pelo histórico social de divisão e por fatores políticos.

As relações conturbadas são fragmentadas pela ruptura, que desencadeiam num episódio de fuga como elemento magnífico da alegoria bem construída pelo diretor. A rejeição, na verdade, se dá bem no início, antes do desenlace inusitado. Os diálogos da mãe, explicitando a opção pelo aborto, soam como um acontecimento que estava desenhado. Há uma série de fatores para o desfecho, como o retorno à noite para casa, após o encontro com o atual namorado, sem sequer ir ao quarto do filho. O pai que está dividido entre a atual namorada e o filho que logo nascerá, além dos trâmites da separação, afasta-se completamente daquela criança abandonada, que se veste, pega a mochila, vai para o colégio, retorna, dorme, acorda, numa rotina sem o acompanhamento de nenhum deles.

Na procura incessante pelo menino desaparecido, surge a figura da avó materna, que vive num lugar distante, escondida entre muros, explicita-se a péssima relação com a filha. Chamada simbolicamente de stalinista, pela sua conduta de durona, cruel e ditatorial, tendo em vista pelos conceitos em relação aos conterrâneos que não são de seu agrado ou pensam contrariamente. Enclausurada num contexto amargo e com atitudes pouco amigáveis aos parentes, inclusive ao neto e à filha. Eis um retrato não só do casal em litígio, mas ao país e o seu contexto social em ebulição antidemocrática sob o comando de Vladimir Putin. O sumiço sem vestígios focado do garoto é o mesmo do opositor que desaparece sob o regime vigente, em uma alusão desde Josef Stalin até os tempos atuais. É a metáfora de um povo e sua desintegração pela desinformação de um sistema antiquado e distante da população sofrida, pela ausência de uma união por laços de amizade, carinho e afetuosidade.

Sem Amor é estruturalmente uma realização que lembra o iraniano Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), de Abbas Kiarostami, pela retratação similar da trama. Há algumas semelhanças com A Floresta (2017), do compatriota Roman Zhigalov, na abordagem das relações de família e a interação com a vizinhança e seu cotidiano inerente, além do avanço acelerado do capitalismo e da ganância diante da crise de valores. Mas aproxima-se bem mais de A Separação (2010), outra produção iraniana, dirigida por Asghar Farhadi, monumental metáfora que separa o estado de direito democrático, simbolizado pela esposa; do outro lado está um regime ditatorial, de pouco ou quase nada de direitos, representado pelo marido, um defensor até por ali da situação caótica em que vive em seu país. São obras com temáticas que vão ao encontro do regime dissociado com os vínculos da integração, pelo estado de fratura, assim como nas típicas relações familiares em rupturas. As alegorias são emblemáticas e indicam uma dolorosa realidade, como se depreende deste singular drama familiar, ambientado com consistência na burocracia de uma polícia inoperante para investigar, ao deixar a responsabilidade para os voluntários realizarem as buscas, o que torna um fracasso do sistema.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

No Intenso Agora



Memórias da História

João Moreira Salles é um especialista em documentários como mostra sua filmografia. Dirigiu dois extraordinários filmes do gênero que ficaram na retina do espectador acostumado com obras marcantes. Primeiro foi Nelson Freire (2003), sobre a carreira e a vida do mestre do piano, retratando através de vários blocos a rotina do pianista e sua contagiante música em concertos e recitais. Depois brindou seu público com Santiago (2007), abordando a vida do mordomo que faleceu logo após as filmagens, além da carta filmada endereçada aos irmãos, num compartilhamento das memórias familiares de rara sensibilidade poética. Houve interrupções por alguns anos na conclusão deste filme, tendo em vista algumas dificuldades logísticas. É dele também Entreatos (2004), sobre os bastidores da campanha política de Lula em 2002.

Dez anos após a última realização, o cineasta retorna com todo fôlego para dirigir com muita sutileza e delicadeza o emblemático No Intenso Agora, além de escrever o roteiro e o texto de apresentação na primeira pessoa. A revista Variety fez rasgados elogios e o apontou como uma das melhores produções exibidas no último Festival de Berlim. E ainda foi escolhido como o melhor filme brasileiro pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS). Os primeiros trechos deste longa-metragem revelam uma família alegre se divertindo, e o diretor aparece ainda como uma criança. O ponto de partida está nos filmes caseiros resgatados dos pertences particulares oriundos das viagens da mãe do cineasta, verdadeiras raridades num achado fascinante destas preciosas joias, retratando as imagens com registros históricos sobre a passagem pela China, em 1966, sob o regime de Mao Tsé-Tung, nesta experiência vivenciada na época da Revolução Cultural.

O mote familiar é o pretexto para retratar com extrema habilidade os inesquecíveis confrontos de maio de 1968, que brotaram como uma força avassaladora das ruas de Paris, sob a égide revolucionária pelos protestos estudantis pelas mudanças sociais. Porém estes logo se aliaram com os operários em greve, parando literalmente a França, para desespero do presidente Charles De Gaulle, o general e estadista que liderou as Forças Francesas Livres durante a Segunda Guerra Mundial. Com seus discursos inflamados em tom paternal, toma medidas drásticas de repressão, pede paz, ordem e disciplina. O documentário é preciso ao focar a burguesia aliada com a classe média, com as passeatas contrárias ao movimento cultural. Surge a marcha patriótica no Champs-Élysées decorrente de uma acentuada camada da sociedade conservadora, defensora da moral e dos bons costumes, reagindo aos avanços das classes proletárias e estudantis. Mas a violência se espalha ainda mais por todos os cantos da cidade. Um jovem acuado morre afogado ao se jogar no rio Sena; já um policial é prensado numa ponte pela multidão, também não resiste.

Novamente Salles busca interagir com a plateia através deste belo filme-ensaio, assim como fora em Santiago, justapõe, através de imagens de arquivo, uma série de acontecimentos diferentes da década de 1960, para marcar com retumbância este vigoroso painel relevante da Revolução Cultural que se espalhou por países europeus, chegando até a América do Sul. Eis uma rebeldia indomável que tomava conta de jovens ativistas insatisfeitos que bradavam por uma causa libertária, sem amarras e preconceitos, através de uma entusiasta onda mágica dos sonhos decantados. Queriam mudanças, apesar de não terem exatamente um objetivo definido, como se constata no encontro com o cultuado filósofo do existencialismo Jean-Paul Sartre. O cenário era de substanciais transformações comportamentais, lideradas pelos estudantes. Porém o encontro com os sindicalistas engajados no Partido Comunista que selou um acordo sobre as condições de trabalho, horas extras e espaços dignos nas fábricas, acabou por jogar um balde de água fria neste movimento muito maior que as relações de trabalho entre sindicatos e empregados, tendo em vista a frustração de centenas de milhares de simpatizantes pelo sentimento de perda da ilusão pela realidade cruel.

O realizador mostra com clareza os desdobramentos na antiga Tchecoslováquia, com os tanques da União Soviética invadindo e tomando conta das ruas no famoso episódio denominado de Primavera de Praga. Morre inexplicavelmente uma liderança estudantil, o que acarreta na imolação de um outro ativista político, que ao fenecer queimado chama a atenção dos compatriotas inebriados pela letargia. Milhares de pessoas acompanham o cortejo fúnebre num silêncio dolorido, mas com indignação nos olhos daquela população esmagada moralmente pelos russos. Houve respingos no Brasil em plena ditadura militar, com o assassinato do estudante paraense Edson Luís Souto, de apenas 17 anos, quando jantava no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, diante da invasão da polícia militar. Com o desfecho trágico, uma multidão acompanha o enterro e protesta pelas ruas com cenas de violência pela repressão do regime. Enquanto na Europa havia a contrariedade ao domínio comunista; na China, as crianças decoravam os ensinamentos do Livro Vermelho ditado pela URSS, maltratando professores e intelectuais.

Salles coloca com exatidão o material de arquivo organizado em capítulos desta seleção minuciosa, através de uma narrativa de boa cronologia dos fatos sobre os temas abordados. Devem ser guardados na memória pelas imagens históricas capturadas deste acervo cultural pesquisado. Está bem focalizado o líder da revolta, Daniel Cohn-Bendit, atualmente faz parte do governo de Emmanuel Macron, presidente de centro de direita. Há reveladoras cenas de dramaticidade com a intensidade dos manifestantes, ora calados e sombrios; ora correndo e se expondo nos conflitos efervescentes das ruas. O diretor tem méritos inquestionáveis por se afastar da fórmula recorrente já gasta dos grandes dramas épicos sobre aqueles anos conturbados, porém quase que esgotados. É proposta uma análise a partir de elementos pesquisados, sem desprezar a interação do movimento com o espectador. Deixa evidente a ideia de que os estudantes eram vistos tão somente como anarquistas que iriam contra os interesses de Moscou. Fica marcada a falta de abertura para as mulheres, negros, imigrantes e homossexuais, todos sem voz naqueles duros anos de 1960, abrindo espaços para as conquistas que viriam muito tempo depois. No Intenso Agora é uma magistral obra de registro que simboliza a liberdade de expressão, hoje tão vilipendiada pelo conservadorismo reacionário.