segunda-feira, 21 de abril de 2014

Festival Varilux Cinema Francês (O Passado)
















O Passado

Outro aguardado filme que não decepcionou no Festival Varilux de Cinema Francês foi o drama O Passado, dirigido impecavelmente por Asghar Farhadi, que tem na sua filmografia o ótimo À Procura de Elly (2009), no qual abocanhou o prêmio Urso de Prata no Festival de Berlim daquele ano. Com A Separação (2010) ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2012, Globo de Ouro e Urso de Ouro em Berlim, demonstrando muita simplicidade, reflexão religiosa, filosófica, cultural e política nesta extraordinária metáfora do regime ditatorial, de poucos ou quase nenhum direito, representado simbolicamente pelo marido bancário, através do olhar desencantado pelas lentes deste incrível cineasta iraniano.

Farhadi novamente mostra em seu sexto longa-metragem, que é um diretor voltado essencialmente paras as coisas do cotidiano de seu país, embora tenha filmado na França, bem distante de seu povo, não se afasta das relações intrincadas e apresentadas com a tradicional naturalidade. Em A Separação tinha a câmara na mão e muito barulho, nada de silêncio e reflexões demoradas, típicas do dia a dia de Teerã. Não faz parte dos conterrâneos do cinema que tinham como cenário o interior do Irã, predominando o chão batido de terras poeirentas, onde se consagraram: Abbas Kiarostami com Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), a obra-prima Gosto de Cereja (1997), e ainda O Vento nos Levará (1999); notabilizou Mohsen Makhmalbaf com A Caminho de Kandahar (2001); bem como Jafar Panahi em O Balão Branco (1995) e O Círculo (2000).

Neste filme a dramaticidade decorrente de uma crise conjugal volta a ser explorada com muito talento e sensibilidade. Outra vez a ruína da relação entre o marido iraniano Ahmad (Ali Mosaffa) e sua esposa francesa Marie (Bérénice Bejo- ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes 2013), o que o leva a retornar à Paris quatro depois de separados para assinar o divórcio. Ao voltar depara-se com a mulher em um novo relacionamento, Samir (Tahar Rahi- protagonista de O Profeta) é um homem parecido com ele em quase tudo, até na paciência para lidar com as situações críticas apresentadas pela destrambelhada Marie, embora tenha um confronto direto com a filha dela Luci (Pauline Burlet).

A tensão estabelecida entre a filha com a mãe está ligada diretamente ao novo romance desta pela reprovação da relação. O conflito instalado trará muitas revelações do passado e feridas abertas sem cicatrização serão removidas com crueza e uma sucessão de mal-entendidos serão colocados em xeque para os personagens conviverem e discutirem as nuances marcadas pelo tempo. A chegada de Ahmad irá aflorar alguns segredos guardados e jogados para baixo do tapete, diante da maneira controvertida da mãe em conduzir os fatos inusitados que vêm à tona. Há um grande imbróglio e trocas de acusações, principalmente pela falta iminente de paternidade para as duas filhas de pais diferentes daquela mulher perdida em seus sentimentos de poucos escrúpulos e com um vazio existencial latente.

Há um olhar de interrogação e dúvida do esposo em vias de separação sobre o futuro e as dificuldades que o levaram para romper o vínculo matrimonial e voltar para seu país, bem ao contrário no cenário encontrado na obra anterior, quando a esposa queria fugir do Irã, um lugar de liberdade limitada ao extremo, em que as mulheres não passam de meras coadjuvantes e de restritos direitos, porém de enormes obrigações, mas que a vontade maior era levar para o exterior a filha adolescente. Nos dois filmes há uma grande semelhança conceitual com a figura do marido que quer permanecer no Irã. A observação é pela visão feminina, pois há entre os homens o sentimento arraigado de permanecer em seu país para defender o sistema, enquanto isto as mulheres querem ficar bem longe na busca da liberdade como forma de independência.

O drama retrata um presente muito atual com verdades irrecuperáveis para uma reflexão sobre a culpa que está registrada em cada personagem, bem como o que não foi e poderia ser realizado com dignidade, diante da interação estabelecida com o espectador. O diretor lança as dúvidas e não radicaliza com nenhum personagem. É proposital quando ele muda o foco de Ahmad para Marie, desta para Luci, repassando para Samir, depois para a empregada. A emoção é bem contida com um tom derivando de uma situação peculiar como o divórcio para a complexidade do enredo e dos personagens que se alinham em conflitos insolúveis aparentemente.

O Passado é decorrência de A Separação e há muitos personagens em comum. Não visa mostrar inocentes neste painel de erros, culpas e arrependimentos, onde todos estão interligados nesta babel de confrontos e acusações. Todavia, nem mesmo o que há como elementos fortes de ligação justificam as atitudes que ficam à deriva como consequência de um regime totalitário implantado como forma de subtrair ideias e manifestações livres e com as angústias que os acompanham. A temática é consistente aos planos intimistas do cineasta que se detém mais na abordagem moral e ética familiar do que cultural neste confronto de questões. Assim, como também no filme anterior que desenvolvia um argumento que dava importância às palavras nos diálogos numa forma bem estruturada, neste repete-se o olhar realista para um mundo em ruínas, inexistindo atitudes certas ou erradas, bem longe do maniqueísmo, através de uma segura direção com um elenco impecável que dá brilho nesta obra significativa no conteúdo e magnífica no contexto.

domingo, 20 de abril de 2014

Festival Varilux Cinema Francês (Antes do Inverno)


Antes do Inverno

Mais uma surpresa positiva, talvez o melhor filme do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano, num misto de drama familiar com suspense psicológico originou o instigante Antes do Inverno, dirigido e roteirizado pelo promissor cineasta Philippe Claudel, que tem em sua filmografia dois longas anteriores: Silêncio do Amor (2010) e o cult badaladíssimo Há Tanto Tempo Que Te Amo (2008). Há um olhar amargo e ao mesmo tempo transparece uma certa doçura sobre o microcosmo familiar, sem deixar de alfinetar com boa clareza e sem subterfúgios as hipocrisias decorrentes das relações deterioradas pelo tempo, caindo as máscaras sem muito rodeio, dentro de um clima criado de dúvidas e uma acidez típica do cinema francês comprometido em mostrar uma realidade falsa de uma sociedade que vive num terreno minado.

A trama aborda Paul (Daniel Auteuil- de ótima atuação), um neurocirurgião de sessenta anos, casado com Lucie (Kristin Scott Thomas- de Há Tanto Tempo Que Te Amo, O Paciente Inglês e Quatro Casamentos e um Funeral- está maravilhosamente impecável), com quem sempre teve uma vida feliz e plena, apesar do estranho e sombrio triângulo amoroso deles com o amigo e colega psicólogo Gérard (Richard Berry). Até que num belo dia começam a chegar na casa do casal e no hospital lindos buquês de rosas, deixados anonimamente. Neste mesmo momento Lou (Leila Bekhti), uma moça de vinte anos, começa a cruzar os caminhos do médico e, aos poucos, a suposta paciente na infância torna-se uma implacável perseguidora, mantendo-o escravo e vítima de um imbróglio neste outono, a estação em que se passa a história está bem presente no seu coração e na relação com a mulher.

Como se fosse um jogo de xadrez, surgem os simulacros e logo começam a ser despidas as imagens pseudofortalecidas dos personagens que parecem embebidos por circunstâncias do passado. O diretor questiona com maturidade sobre o que eles são realmente. E a grande indagação flui sobre o que pretendem realizar nesta fase de suas vidas: manter as aparências ou cortar o vínculo da hipocrisia disfarçada de vaidades movediças? A vida do casal parecia um mar de rosas diante da alegoria das flores remetida para eles como forma de observação pelo estremecimento da relação cambaleante que se apresenta. O cineasta sinaliza para a realidade equivocada de uma ideia sonhada e em choque com a civilização e suas normas rígidas de embrutecimento, diante da iminência da inexorável velhice que se aproxima, ou do inverno, dos três representantes da farsa. Não há certeza sobre o momento adequado para revelar os segredos entre eles, mas o tempo passa e as circunstâncias se avizinham com dureza e a amizade está cada vez mais enfraquecida. Ainda haveria tempo para ousar e revelar os segredos, propõe Claudel com o seu cinismo e a ironia de um talentoso artesão.

O drama reflete o conflitado relacionamento por um interesse de Paul por Lou e revela aspectos de delírios dentro da tênue personalidade da jovem, com sua complicada e malograda infância. O suposto uso de flores e alguns sinais de uma presença constante são elementos que corroboram para uma característica doentia e vingativa, mas que em outras situações se passa por coitadinha e como mais uma vítima do sistema. Jamais negou ou confirmou a autoria dos eventos e das dissimulações ocorridas na trajetória do longa. De outra forma há a perspectiva do esquecimento e da passagem do presente na memória de Paul, indicando num futuro bem próximo a chegada da morte. A falta de solidez do casamento parece se esboroar e o que era certo cambaleia com a presença de Lou e o conflito com Lucie, reforçado pela suposição da perda inadmitida para o amigo e pretendente confesso.

Antes do Inverno busca com sensibilidade e alguma sutileza retratar a fase da maturidade sob um ângulo paradoxal do triângulo de um relacionamento de pessoas próximas que não pretendem romper um vínculo existente por décadas. Porém, com a proximidade da finitude, as fachadas de aparências vão perdendo a forma e desabando, diante da indigesta falsidade que enraizou. Há um profundo mergulho na realidade dissimulada de uma tendência para o enigma e a reflexão no epílogo como um trunfo na conclusão da trama, com os elementos imaginários de um simbolismo que substitui com sugestões e imaginações diversas o óbvio constante em filmes menores que inundam os cinemas.

Cada espectador faz seu final e exercita o fascínio das colocações e do desenlace dúbio e para memorizar e carregar as imagens e os diálogos, diante da bela canção que está presente no epílogo do drama. Tudo são sugestões sem definições, mas que instigam e perturbam os acomodados com filmes estruturados convencionalmente. O filme flui por uma dramaticidade autêntica e demolidora de conceitos equivocados nas complexas relações familiares.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Festival Varilux Cinema Francês (Uma Relação Delicada)


Uma Relação Delicada

Uma das surpresas positivas do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano é Uma Relação Delicada (título original Abus de Faiblesse), vencedor de melhor filme do Festival de Londres, dirigido pela veterana cineasta francesa Catherine Breillat, uma das mais importantes da França atualmente. Tem em sua filmografia 15 longas-metragens, numa carreira de quase 40 anos, entre os quais Sexo é Uma Comédia (2001), A Última Amante (2007), Barba Azul (2009) e o mais famoso é Romance (1999), ao celebrar a moda de incluir cenas de sexo explícito picantes em filmes de arte, utiliza inclusive um ator pornô para contracenar. Faz algo semelhante agora com o cantor de rap Kool Shen para contracenar com Isabelle Huppert.

Neste seu último longa, em que também assina o roteiro, de certa forma é um filme autobiográfico, diante da trama esquematizada, pois Huppert interpreta Maud, uma cineasta que sofre AVC e fica comprometida em seus movimentos físicos corporais. Tem uma atuação antológica por encarnar com humanismo e garra uma protagonista sequelada e retorcida nas mãos, pés e boca. Caminha com extrema dificuldade e está completamente desglamourizada, reforçada por uma construção dramática invejável ao passar para o espectador um realismo cênico admirável e singular.

O drama aborda a escolha de Maud por Vilko (Shen tem carisma e um desempenho impecável), um trapaceiro de celebridades na vida real e que conta na televisão as diversas bravatas sem arrependimento. Ela acredita cegamente que descobriu o ator ideal para seu próximo filme, já com um roteiro embrionário na cabeça. A diretora constrói uma relação inverossímil entre os dois, deixando que o empréstimo de dinheiro servisse apenas como um mote da trama. A ausência de sexo sem qualquer aproximação física representa o platonismo existente entre eles, o que remete para uma semelhança com Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, na comovente adaptação para o cinema de uma história real de uma inesperada amizade genuína, entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante de uma joalheria, um imigrante do Senegal.

A improbabilidade da vinculação logo se caracteriza e se esboroa, através de um personagem hipnotizador, que faz a ficção tornar-se realidade. Na comédia de Toledano e Nakache há um componente otimista, o que não ocorre no drama de Breillat, diante do instinto predador de Vilko que começa a tirar dinheiro da protagonista, num típico relacionamento sadomasoquista. A afetividade não passa de uma loucura, que logo dá lugar para o descontrole emocional pela perda iminente da lucidez, tendo em vista que a razão soçobrou, ao desgovernar e descer ladeira abaixo. Há aparências torcidas com desdobramentos para vários horizontes nesta bancarrota, embora Maud sofra muito pela dor física da paralisia, mas seus sentimentos de ser humano também são alvos de abalos e choques, sem ceder à emoção barata.

Uma Relação Delicada retrata com dignidade a solidão inexorável que deixa vulnerável a protagonista presa à cama, mas determinada a levar adiante seu projeto cinematográfico de qualquer maneira. Não pode contar muito com os filhos distantes, com suas vidas já adultas e direcionadas pela independência, quando a procuram querem interná-la numa clínica de repouso para sua revolta e indignação. Era inevitável o desenlace daquele destino que traçou com aquele embusteiro de gente famosa, trocando o patrimônio por falsas e frágeis alegrias.

Eis uma narrativa que procura partir da premissa de personagens contundentes e em torno deles erguer uma história com realismo sobre lucidez e loucura, razão e emoção, sobre um processo de reconstrução pela perda. Há uma estrutura de imagens e diálogos adequados e sólidos para um quadro definitivo no final. É demonstrada com isenção a ideia de que certas alternativas nem sempre encontram guaridas pelo comportamento rotulado e inaceitável pela corrompida civilização. Há evidências de desprendimentos e a refutação de quaisquer tipos de ressentimentos, com notáveis cenas emotivas flutuando entre os espectadores, pelo olhar atento da cineasta que flerta com a sensibilidade e a compaixão, através de uma luz lançada na humanidade pelos méritos inegáveis ao mostrar uma relação paradoxal de duas pessoas, além da gratidão e superação, nesta obra magnífica que se afasta do politicamente correto para buscar a alegria de viver sem tédio.

terça-feira, 15 de abril de 2014

Festival Varilux Cinema Francês (Um Amor em Paris)


Um Amor em Paris

Uma das grandes promessas do Festival Varilux deveria ser o aguardado Um Amor em Paris, do promissor diretor Marc Fitoussi, festejado pela bela comédia dramática Copacabana (2010) e do ainda inédito Pauline, A Detetive (2011). O terceiro longa que não empolga, decepciona, é uma comédia romântica sobre um casal de fazendeiros da Normandia, interior da França, desgastados no casamento, diante do cotidiano entre o gado Charolles e o dia a dia do campo. A história não tem ingrediente novo e é muito surrada entre os folhetins.

A trama gira em torno dos cinquentenários Brigitte (Isabelle Huppert) e Xavier (Jean-Pierre Darroussin), casados há anos, criam bovinos, mas há uma grande mudança de rota depois que seus filhos saem de casa. A mulher começa a sentir-se presa pela rotina cada vez mais pesada, parece esperar um novo acontecimento em sua vida, busca um algo mais e dá mostras de querer o resgate da liberdade sonhada. Num belo dia, há uma festa de jovens parisienses na casa vizinha, o que vem botar fogo e acelerar a crise iminente, ao conhecer um rapaz e seus encantos.

O diretor dá uma pequena guinada no roteiro e aproveita a doença de pele da protagonista, que está deixando seu humor e autoestima visivelmente prejudicados, para levá-la à Paris em uma consulta médica. O marido desconfia de que está sendo traído e vai ao seu encalço, como se buscasse uma saída para seus desatinos. É um elemento que o atormenta e gera uma grande desconfiança, mas não falta o conselho pueril do empregado e o alerta sobre o passado nada recomendável do patrão. Apesar de demonstrar alguma animação, não deixa de explodir sua raiva no restaurante, irresignando-se com o tipo de carne servida, entendendo como mais um blefe em sua vida circunstancialmente abalada.

Um filme sem profundidade nas relações matrimoniais e de previsível final, assim como no irregular e tedioso Os Belos Dias (2013), de Marion Vernoux. Fitoussi também se utiliza do estratagema da viagem pós-desavença para fortalecer os vínculos amorosos ainda existentes, que não passa de um recurso velho e ultrapassado entre os cineastas menos experientes. É um clichê já manjado e démodé pouco utilizado para os mais criativos, que se afastam do politicamente correto happy end.

Falta o clímax e a construção dramática mínima para a desenvoltura do longa, mas sobra piadas sem graça e recorrentes, numa trajetória nada animadora. Mas de bom há as interpretações sóbrias e convincentes de Huppert e Daroussin, dois exponenciais astros do cinema francês, que fazem de tudo para segurar e manter um ritmo satisfatório, porém o filme sucumbe pela falta de criatividade diante de situações sem consistência, como a tentativa do flerte de Brigitte com o jovem vendedor que conheceu na festa, que não passa de um espertalhão e mau-caráter; ou a bondade com o pobre indiano que tem suas quinquilharias recolhidas pela polícia; ou ainda o encontro com o sedutor dentista dinamarquês.

Faltou cinema para Um Amor em Paris e sobrou mesmice, numa previsível comédia com a sensação de déjà vu, pouco acrescenta pelas fragilidades contextualizadas que deixa o filme entrar em compasso de desaceleração. Sobra um falso lirismo inócuo no epílogo, beirando a singeleza e sem maiores cobranças do casal, tudo muito simplório e desproporcional que não passa de um painel burocrático sobre o estremecimento do casamento e a busca da independência feminina, embalado por uma invasiva trilha sonora e uma bonita fotografia, num roteiro pouco inspirado e com um olhar feminista engajado, sem maiores pretensões para uma análise reflexiva. Não chega a ser desprezível, pois tem como objetivo a busca constante da liberdade, embora sem instigar e sequer se aprofunda no tema, deixa como resultado uma proposta rasa.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Crônica do Fim do Mundo















Vínculos Afetivos

O cinema tem na Argentina seu polo principal como o melhor da América do Sul e um dos melhores do mundo. Na sequência, possivelmente seja Brasil e Uruguai, pela ordem de importância. O Chile vem fazendo bons filmes como o magnífico Machuca (2004), de Andrés Wood; Tony Manero (2008), de Pablo Larraín; Os Mistérios de Lisboa (2010), de Raoul Ruiz. Já o Peru não tem tradição de uma boa filmografia e Claudia Llosa surpreendeu positivamente com A Teta Assustada (2008). Desde Maria Cheia de Graça (2004), de Joshua Marston, a Colômbia não revelava nada que chamasse a atenção como uma boa produtora, agora surge com este sensível e interessante Crônica do Fim do Mundo, bem dirigido pelo estreante Mauricio Cuervo, que também é o responsável pela produção e montagem, através de um orçamento baixo e com poucos dias de gravações, como manda e pode arcar o típico cinema independente. Levou o prêmio de melhor filme colombiano no Festival de Bogotá.

Cuervo constrói uma trama com pequenos acontecimentos do cotidiano e obtém um resultado apreciável de seus personagens do povo. O mote é a profecia do fim do mundo, segundo o calendário Maia, que ocorreria em dezembro de 2012. Diante da previsão apocalíptica, surgem diversas reações causadas por ela que servirão como pano de fundo para a história bem contada, ao deixar que o medo torne-se transparente e afete o convívio familiar na bela Bogotá, às vésperas da virada do ano, onde Pablo Bernal (Victor Hugo Morant- exuberante e digna interpretação), um catedrático aposentado de 70 anos, que vive enclausurado e solitário no seu apartamento desde a morte da esposa há cerca de 20 anos, segredo que será revelado no epílogo, o que lembra o recente longa Uma Estranha Amizade (2012), de Sean Baker. Raramente sai de casa e recebe apenas as visitas do filho Felipe (Jimmy Vasquez), que acaba de ter um bebê e passa por estremecimento na relação com a esposa Claudia (Claudia Aguirre- responsável também pelo roteiro enxuto), que não aceita ficar tomando conta sozinha da criança e ainda ter que dividir o marido com o amigo Ramiro (Juan Carlos Ortega), abandonado pela mulher. Os dois passam as noites bebendo nos bares, falando de suas dificuldades financeiras e o projeto para colocar em prática as filmagens de um documentário que não sai do papel.

Assim como em A Velha dos Fundos (2011), de Pablo José Meza, que retratava o isolamento de um jovem estudante de medicina e da vizinha de 81 anos, que morava sozinha, nunca abria as cortinas do apartamento para não ser vista por ninguém da rua, Cuervo retrata com sensibilidade o vínculo e a aproximação entre o pai e o filho que torna-se a única conexão para o mundo externo. Felipe mostra em seu celular vídeos das ruas da capital colombiana para Pablo, que teima em manter uma rotina monótona na velha biblioteca, além de cultivar o horário britânico para ingerir os remédios e realizar ligações para cancelar assinatura de revista por causal banal. Embora com seu humor sarcástico diga que o fim acontecerá para algumas pessoas e não para todas, como reza os mandamentos divinos e que poderá acabar em 2020. Por que não? Numa clara ironia e desdém com as previsões que se sucedem a cada ano. Porém, aproveita-se da situação emblemática da iminência do mundo acabar mesmo, para usar o telefone e xingar seus desafetos de anos. Alguns já morreram; outros não mais o reconhecem.

O diretor se utiliza das recordações do passado para que o protagonista de verve abundante destile veneno, como se estivesse numa grande lavanderia de roupas sujas, até encontrar um psicopata, invertendo-se os papéis. Passa a ser hostilizado e ameaçado, habilmente é colocado em xeque o medo da morte pelo ser humano, não só pelo fim dos dias, mas quando se vê acuado. O temor dos personagens podem colocá-los em várias situações, sendo que uma delas é sentir-se numa selva de pedra, em que o caçador está entrincheirado e parte para o ataque, mas circunstancialmente poderá virar a paranoia da caça. O filme, ainda que tenha consistência do meio para o final, mantém um bom clímax sem perder o controle dramático, através do excelente som direto de Andrés Duret e haja cenas apanhadas em closes adequados. Afasta a câmera para personagens enigmáticos, como o rapaz que toca a campainha insistentemente, deixando pairar o suspense, como se o mundo estivesse em ruínas e prestes a desabar, numa bonita alegoria.

Crônica do Fim do Mundo é um bom filme sobre os medos inerentes do ser humano, bem como as dificuldades financeiras da classe média em geral pelo desemprego e as agruras para manter uma vida confortável como uma grande incógnita, como se vê nos amigos e a desconstrução de suas vidas e famílias. Um retrato sombrio de um país em ebulição como metáfora da extinção da humanidade e a civilização em derrocada. Um longa bem elaborado e com vigor sobre os vínculos afetivos. Mantém o fôlego até o epílogo, mesmo que não empolgue traz uma contribuição significativa para o cinema sobre a perda decorrente da morte e a preocupação avassaladora com o futuro, numa boa reflexão do vazio.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Uma Estranha Amizade


Gerações Solitárias

Sean Baker tem em sua filmografia a comédia dramática Four Letter Words (2000); com Shih-Ching Tsou codirigiu Take Out (2004), arrebatando o prêmio de melhor filme no Nasville Film Festival; o último longa foi Prince of Broadway (2008). Ao dirigir seu quarto longa-metragem Uma Estranha Amizade, que também é o produtor e o roteirista juntamente com Chis Bergoch, dá um grande salto de qualidade e mostra-se um cineasta firmado no cinema independente dos EUA, demonstrando uma rara habilidade cênica com um ótimo domínio de elenco, num filme em que a sensibilidade aflora já nas primeiras imagens, secundada por uma esplendorosa fotografia.

O drama intimista retrata com fôlego a inusitada relação de amizade nascida entre Jane (Dree Hemingway- a promissora e formosa atriz e bisneta do escritor Ernest Hemingway), uma garota de 21 anos de idade, que também usa o nome Tess para seu trabalho em gravações artísticas. Sadie (Besedka Johnson- a atriz morreu logo apos as filmagens) é uma viúva de 85 anos de idade, rabugenta e reclusa em sua casa, que num domingo qualquer faz uma venda de garagem de pertences usados no estilo de um bricabraque. Como passatempo joga bingo para atenuar a solidão em meio à desconfiança das incertezas da vida. Na cena inicial a jovem decide comprar objetos no estabelecimento e, ao chegar em casa, descobre uma grande quantidade de dólares escondidos numa garrafa térmica para ser usada como um vaso decorativo de seu quarto do apartamento que divide com um casal de amigos Melissa (Stella Maeve) e Mikey (James Rausone).

A protagonista é uma pessoa solitária que vive endividada no Vale San Fernando, em Los Angeles e tem a mãe à distância, embora seus esforços para tê-la próxima. Tem uma rotina sem muita perspectiva, fuma maconha e joga videogames com os amigos e mantém o segredo do dinheiro encontrado por acaso. Seu grande parceiro e amigo é seu cãozinho Starlet- título original do longa-, um fiel escudeiro que foi batizado com o nome feminino, por ela gostar independente de sexo, torna-se um personagem marcante nas cenas em que aparece. É com ele que divide as atenções e o enfeita como uma criança, simbolizando o vazio da existência humana da dona na tentativa do preenchimento de um espaço em aberto.

Ao abordar as diferentes gerações e as solidões inerentes que decorrem do tempo, bem como a ocupação involuntária do papel de mãe buscado em Sadie por Jane, que lhe dá afeto e a substitui no coração da idosa a filha que deixou uma ferida aberta e o silêncio guardado como pesadelo. Baker busca elementos verossímeis e universais ainda existentes como valores agregadores do ser humano. Um filme que aborda o intimismo de duas pessoas opostas, mas próximas no aspecto da carência num contexto de vidas aparentemente distantes na essência, tanto pelos gostos, usos e costumes que converge dois seres. Embora o contraste entre juventude e terceira idade surja como empecilho inicialmente, a superação e o mote inusitado da aproximação pelo sentimento de culpa fará com que se rompa o obstáculo.

O tema solidão é inesgotável e já deu excelentes reflexões como no drama argentino A Velha dos Fundos (2011), de Pablo José Meza, com uma temática similar na cosmopolita Buenos Aires, retratando o isolamento vivenciado em duas gerações distintas: uma é a de um jovem estudante de medicina, sem dinheiro para pagar o aluguel; na outra ponta está a vizinha, uma senhora de 81 anos que mora sozinha, ranzinza, mal-humorada, nunca abre as cortinas do apartamento para não ser vista por ninguém da rua e sobrevive de uma pequena pensão. São personagens muito parecidos com os do longa Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, onde também duas criaturas desconhecidas que moram no mesmo edifício e são sós, numa profunda abordagem do vazio existencial. Ou ainda no clássico Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola, tendo dois personagens sozinhos todo o tempo em Tóquio, não conseguem dormir e se encontram por acaso no bar de um hotel de luxo.

O cineasta busca na improbabilidade em Uma Estranha Amizade o elo para estreitar os laços afetivos distantes e decorrentes da abissal lacuna das diferenças de gerações, mas que as circunstâncias deixam aflorar um vínculo na trajetória das duas mulheres, como se vê no epílogo a grande revelação mantida em segredo até ali. Lança um olhar universal para as situações dos indivíduos solitários, abordando o contraponto do urbanismo com a intimidade de seus personagens individuais, dentro de seus movimentos e suas dificuldades no coletivo, onde pessoas atônitas e excluídas socialmente ficam à mercê de uma digna convivência, como retratado neste sensível e pungente drama.

sexta-feira, 28 de março de 2014

Prenda-me


Violência Doméstica

Depois de fazer relativo sucesso no Festival Varilux de Cinema Francês na edição de 2013, só agora estreia Prenda-me em Porto Alegre, com exclusividade na alternativa Sala Norberto Lubisco da Casa de Cultura Mário Quintana. Tem na direção o pouco conhecido Jean-Paul Lilienfeld, embora conste em sua filmografia um curta e cinco longas, tendo em O Dia da Saia (2008) a mesma estrutura fechada num ambiente com diálogos fortes. Também assina o enxuto roteiro, que se baseou no livro "Les Lois de la Gravité", de Jean Teulé, mostra méritos em torno da expectativa criada da acusada e as reviravoltas da trama para um apreciável clima de suspense psicológico.

A abordagem de Prenda-me enfatiza a abnegada inversão de papéis e os valores questionados numa noite na delegacia de polícia, quando uma mulher que trabalha como carteira (Sophie Marceau) decide ir lá e dizer que, contrariamente ao laudo policial, está fazendo dez anos que matou o marido Jimmy (Marc Barbé), e que no dia seguinte haverá a prescrição da pena. Ou seja, não houve suicídio, mas ela o teria empurrado da janela do oitavo andar, por isso quer ser presa. Diante da confissão inesperada a inspetora de plantão Pontoise (Miou-Miou) coloca em dúvidas o suposto crime assumido.

O cineasta se utiliza da atípica confissão para investigar o caso com cautela, começando um jogo de poder e manipulação entre as personagens. A policial logo descobre que, na realidade, a carteira é vítima e não ré, diante dos frequentes abusos físicos e psicológicos que sofria do marido, inclusive era estuprada e achava normal o fato. No embate travado, Pontoise, que em tese, deveria usar a lei fria do papel, tenta convencer e mostra minuciosamente todos os dissabores da cadeia, um lugar em que as pessoas deveriam passar bem longe, por ser inóspito e nada hospitaleiro.

Há um cenário retratado com perspicácia pelo diretor, em que também a plantonista sofreu muito com a violência doméstica, pois seu pai espancava a mãe barbaramente. As imagens em flashbacks são fortes e ela ainda menininha nunca esqueceu as atrocidades presenciadas nos dias e noites de terror. Mesmo que sua atitude caracterize uma grave infração e cometa prevaricação, porque não cumpre disposição expressa em lei, ou seja, prender aquela mulher que lhe suplica e implora para ser encarcerada para reparar uma culpa que lhe aflige e traz um sofrimento por todo este período, diante dos fantasmas do passado que a atormentam e não a deixam em paz.

É nítida a preocupação no resgate da dignidade pela culpada, ao autoproclarmar-se uma assassina confessa. Ela acha que ao conhecer seu companheiro, ele não era assim, por isto acredita ser a responsável por tudo, até mesmo na agressividade dos anos de convivência. A cena com seu filho é reveladora e vai ao encontro do perdão daquele jovem que adora o pai e a odeia, numa situação emblemática pelo constrangimento familiar, na dura luta travada com os princípios morais e éticos que a norteiam. No calor dos argumentos, a inspetora tenta achar uma solução diplomática, tenta até mesmo caracterizar a legítima defesa no caso concreto, diante das constantes agressões que eram causadas à esposa, com dor e ultrajes físicos no trabalho. É tentada exaustivamente uma forma para legitimar a saída da delegacia e abandonar de vez a obsessiva culpa em pagar pelo crime.

O suspense tem uma estrutura dramática magnífica, com as excelentes interpretações de Miou-Miou e Sophie Marceau nas cenas vividas nessa inesperada e interminável jornada noite adentro. A abordagem indica uma justiça cega, diante da impunidade recorrente que leva à violência exacerbada dos maridos que espancam sem dó e nem piedade suas companheiras do dia a dia. Os sentimentos que rasgam a inocência da vítima vão ao encontro do perdão da plantonista, como simbologia do Estado que admite a culpa e deixa de punir; ou da mulher travestida em autoridade que busca uma vingança sofrida na infância e os efeitos psicológicos devastadores que a atordoam e a faz carregar uma carga emocional com dolorida amargura. A bela cena do cemitério e da tormenta que cai e lava sua alma é sugerida como metáfora da purificação pela água de um segredo que guardava por incomodá-la até o encontro noturno que a libertará, depois do duelo de palavras e atitudes na penumbra entre duas sofredoras que se encontram por acaso.

Prenda-me é daqueles ditos filmes de denúncia que traz no seu bojo uma reflexão sobre a violência diária nos lares ou em qualquer lugar ermo. Soa como um brado de socorro da mulher humilhada que quer pagar sua dívida com a sociedade, por se achar devedora, embora seja a vítima, para recuperar a sanidade mental e a dignidade num clímax da perda momentânea da lucidez. A outra mulher quer a redenção das reminiscências hipnotizadas pelo tempo e busca as verdades escondidas. São as sombras daquelas duas criaturas vistas num cenário quase que de guerra. Um drama singular pela comovedora cruzada contra a violência num contexto machista ainda bem marcante num cenário mundial, com questionamentos lançados pelo cineasta, que busca uma cumplicidade do espectador para o desfecho instigante.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Trem Noturno para Lisboa


A Viagem

O diretor dinamarquês Bille August em nada lembra seu conterrâneo Lars von Trier, sempre envolvido em uma boa polêmica, com filmes instigantes e arrebatadores. Prefere as tramas açucaradas e sem contundência, com início, meio e fim. Está bem longe de grandes arroubos ou incursões por movimentos de vanguarda como o Dogma 95, criado por Von Trier em parceria com Thomas Vinterberg, no mês de março de 1995, na Dinamarca. A filmografia de August é recheada de filmes razoáveis e poucos expressivos, como vemos em Mistério na Neve (1996), Os Miseráveis (1998), Mandela- A Luta pela Liberdade (2007), sendo o mais conhecido e de melhor repercussão A Casa dos Espíritos (1993), numa abordagem rasa da história do Chile da década de 20 aos anos 70, contada através da saga familiar dos Trueba, que começa pela união de um homem simples que fica rico, com uma jovem paranormal. Esta família é atingida pela revolução, que no início da década de 70 derrubou o presidente Salvador Allende.

O último filme de August é Trem Noturno para Lisboa, numa trama envolta de mistérios e recheada de reminiscências do passado, contada em flashbacks a trajetória do pacato professor suíço de latim de ensino médio Raimund Gregorius (Jeremy Irons- de boa performance), que abandona suas palestras e sua vida conservadora para embarcar numa aventura de trem que o levará a uma jornada cansativa de Berna até Lisboa e concluída na Espanha, com pouca inspiração e muita repetição de cenas. É uma coprodução alemã, suíça e portuguesa, falada em inglês, com locações em Portugal e um roteiro burocrático assinado por Greg Latter e Ulrich Herrmann.

O drama é uma adaptação do best-seller homônimo de Pascal Mercier, partindo do encontro inusitado do protagonista com uma jovem de casaco vermelho que pretende jogar-se da ponte de Kirchenfeld. É salva e levada por ele para a sala de aula, mas lá foge e deixa como pista um livro escrito pelo médico Amadeu de Prado (Jack Huston) e uma passagem de trem. Raimund larga tudo, inclusive seus alunos em plena aula, e vai atrás do autor do misterioso e filosófico romance deixado para trás, como uma forma de renascer para a vida. Ao chegar na capital portuguesa, descobre por Adriana (Charlotte Rampling), irmã de Amadeu, que há muitos enigmas a serem decifrados e que o livro faz menções a situações relacionadas com a resistência ao fascismo implantado por Salazar em Portugal, de 1889 a 1970.

O filme não avança com solidez ou determinação de um foco profundo. Enfatiza um professor cansado da vida em seu país, que se autodenomina de chato, tendo em vista que a ex-mulher o largou pela sua rotina desgastada, pois gosta mesmo é de jogar xadrez e dar aulas, como suas únicas atividades. Nas andanças por Lisboa descobre que o médico escritor é uma pessoa humanista e revolucionária, envolvido num triângulo amoroso no grupo de resistência ao salazarismo, que se apaixona por Estefânia (a bela Mélanie Laurent quando jovem e Lena Olin já mais velha), sendo ela a namorada do líder Jorge (August Diehl jovem e Bruno Ganz velho). Tudo é contado por João (Tom Courtenay), amigo dos personagens envolvidos no romance, que tem como sobrinha Mariana (Martina Gedeck), que está muito interessada no professor e o leva de um lado para outro. Dentro desta miscelânea do roteiro, surge novamente na história a suicida e seu parentesco com Mendes, O Carniceiro de Lisboa. As revelações não causam impacto e sequer grandes surpresas, diante de um cenário de confissões aguardadas e repletas de estereótipos manjados como recursos para fisgar o espectador pela simploriedade das armações arranjadas, com diálogos pasteurizados e dignos de um típico novelão.

Trem Noturno para Lisboa carece de consistência e há uma mesmice enfadonha para uma boa construção psicológica, esboroando-se por uma trama sem força, com ausência de autenticidade para Amadeu e os demais personagens. O longa perde o glamour inicial e descamba para uma narrativa sonolenta, que se torna óbvia e previsível. O protagonista tenta salvar o tedioso enredo com sua obstinação pela busca do passado na viagem para elucidar o misterioso livro e fio condutor da trama genérica e de pouca profundidade, mas também não resiste e sucumbe na adocicada adaptação de August com pouca inspiração. Deixa escapar um bom tema de reflexão sobre os anos tensos da ditadura salazarista em Portugal, insistindo numa abordagem de utopias de derrotas e confrontos pessoais no ciclo de amigos e pouco esclarecedoras. Sobrou um esmaecimento fragilizado de uma situação que existiu, mas que cai na abordagem tênue de um idealismo questionado com resultados minguados e pouco satisfatórios pela irregularidade da obra.

terça-feira, 18 de março de 2014

Ninfomaníaca- Volume 2


Terapia Sexual

Lars von Trier apostou no marketing com cartazes de apelos sexuais em rostos de atores simulando orgasmos e a promessa de um filme forte para Ninfomaníaca- Volume 1. Afastou-se do erotismo puro, para abordar a sexualidade sem prazer, com a perversão sendo apontada como a causa e a culpa um ingrediente de uma resposta à vida de Joe (Charlotte Gainsborg) que faz um relato a Seligman (Stellan Skarsgard), um homem com jeito de pastor, uma espécie de terapeuta momentâneo que busca na matemática e na música polifônica as respostas para os desatinos da jovem que encontrou desmaiada no meio da rua. Há uma construção com vigor numa narrativa em flashbacks, desde os 02 anos de idade, passando pela fase da juventude, após o encontro casual, com revelações e explicações para uma situação atípica.

Em Ninfomaníaca- Volume 2 há mais densidade dramática e menos sexo, sendo dividido em capítulos, tais como: As Igrejas Oriental e Ocidental (O Pato Silencioso), O Espelho e A Arma, que formam nos dois volumes oito capítulos, para um desfecho inusitado com uma surpreendente cena sem imagem e com prevalência do som entre a protagonista e seu interlocutor. Ele tudo ouve e tenta fazer com que a sua eventual hóspede expulse os fantasmas sexuais do passado, para que as feridas abertas entrem num processo de cicatrização, numa narrativa que mantém a mesma dinâmica entre os dois personagens. Um conta suas experiências com vários homens, relembra as passagens com o pai e a indicação da árvore da vida demonstrada com ênfase e que todos devem escolher em suas trajetórias; o outro ouve, aconselha e expõe sua assexualidade. O cineasta faz uma espécie de jogo de xadrez com o espectador e em várias cenas são expostas as fragilidades de Joe, que é instigada por Seligman que a compara com Messalina, mulher do imperador romano Cláudio, como se estivesse num divã em uma sessão de terapia.

Diante da contundência de algumas cenas cruas, faz com que muitos dos espectadores abandonem a sala como um ato de protesto, tendo em vista que nem todos estão preparados para o ensaio sexual de Von Trier, ao apresentar em sequência as mazelas de sua protagonista com requintes perversos. O filme não pode ser visto como uma ode ao sadomasoquismo em cenas não esperadas pela plateia. Tudo faz parte de uma grande encenação na busca do resultado final, como das 40 chibatadas– uma a mais que Cristo levou na cruz- é a perseguição consciente daquela mulher pela libertação de sua sexualidade para atingir o clímax do prazer, bem como as bofetadas no rosto e a livre escolha por dois africanos para um ménage à trois. São cenas que não podem ser vistas como requintes de crueldade, como no recente drama épico “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen, onde os negros eram açoitados pelo senhor branco como forma de punir e reprimir barbaramente pela ótica do racismo, em situações de desespero para criar o inferno na terra e toda a angústia em planos detalhados, aproximando a câmera dos corpos esfolados.

Neste segundo volume, Von Trier tem por objetivo ir ao encontro da explicação para a falta da satisfação e do deleite, onde o vício é abordado como uma doença séria e leva a protagonista a torna-se uma escrava do sexo, tendo no masoquismo a passagem tortuosa que serve de ligação para tornar sua vida mais prazerosa e menos dependente, brilhantemente interpretada por Gainsborg, a atriz-fetiche do diretor. Tudo é feito para encontrar na razão o caminho da causa, embora o efeito seja devastador para ela, pois perde o marido Jerôme (Shia LaBeouf) e o filho que vão embora, a própria enteada P (Mia Goth) que também é usada na engrenagem com o profissional L (Willem Dafoe) e o metódico chicoteador K (Jamie Bell). O perigo e o sofrimento estão presentes novamente, como vistos em O Anticristo (2009), em ambos os longas do cineasta uma criança se dirige para o abismo e a protagonista sofre e pratica mutilações. Sua abordagem é diametralmente oposta de Steve McQueen em Shame (2011), onde um nova-iorquino bem-sucedido que não gostava de manter vínculos afetivos com as mulheres, praticava o sexo compulsivo na busca de resolver problemas e frustrações, num ensaio sobre os doentes sexuais.

Ninfomaníaca- Volume 2 retrata o prazer físico como o condutor da história, porém o emocional é aprofundado com nitidez e absorve o contexto da trama com harmonia e equilíbrio demonstrado pelo cineasta, o que o torna menos artificial do que o primeiro volume. A mulher que apanha sem dó e nem piedade do açoitador causa impacto e consternação na plateia, porém ao deixar as emoções de lado e refutar os panfletos feministas, o diretor vai fundo e se aproxima do realismo cênico distante do grotesco e próximo da busca de soluções sem hipocrisia, mandando o politicamente correto para bem longe, embora a conduta arrojada possa ser vista de forma deturpada, mas as questões cruciais são lançadas para que haja realmente debate com muita polêmica.

O drama erótico sobre a sexualidade e a doença de Joe, admitida por ela mesma, são elementos de reflexão e discussão, como Von Trier gosta e não foge da controvérsia, aproxima-se muito de Pasolini em Decameron (1970) e Saló (1975), ao não passar sem ser discutido com fervor. Ainda que o marketing tenha sugerido para uma pornografia, logo se vê que não é, após a conclusão da obra neste segundo volume. Há uma incursão nos desejos obscuros e enigmáticos, sem ser moralista ou conservador, dando uma estupenda contribuição na abordagem do calvário da protagonista e sua libido insatisfeita, sangrando algumas vezes, e em outras há a blasfema como o orgasmo e sua mística, num cinema perturbador pela proposta grandiloquente.

terça-feira, 11 de março de 2014

12 Anos de Escravidão


Racismo Venenoso

Steve McQueen é um bom diretor afro-britânico (não confundir com o ator de Papillon (1973) e Inferno da Torre (1974), morto em 1980), que realizou o intenso Fome (2008), seu primeiro longa-metragem sobre a solidão e a liberdade, com interpretação de Michael Fassbender no papel de um soldado guerrilheiro do IRA preso e em greve de fome na cadeia. Causou uma impressão alentadora com Shame (2011), segundo longa do cineasta e vencedor do Prêmio da Crítica do Festival de Veneza, com Fassbender protagonizando um nova-iorquino bem-sucedido que não gostava de manter vínculos afetivos com as mulheres, praticava o sexo compulsivo na busca de resolver problemas e frustrações, num apreciável ensaio sobre os viciados e doentes sexuais.

Ao vencer o Oscar deste ano como melhor filme, McQueen corta fundo na carne dos negros açoitados para demonstrar a execrável violência da escravidão de uma raça depauperada brutalmente em 12 Anos de Escravidão. Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor interpreta com eficiência) os fatos reais ocorridos de 1841 a 1853, no Norte dos Estados Unidos, onde um escravo liberto toca violino, é respeitado como músico e vive em paz ao lado da esposa com os filhos. Num dia qualquer aceita tocar seu instrumento que o levará para o Sul do país, numa trapaça dos parceiros do trabalho, é sequestrado, acorrentado e vendido como se fosse um não alforriado. O diretor mostra com realismo as humilhações físicas e psicológicas que o protagonista sofrerá para sobreviver na saga dos intermináveis doze anos. Passa por dois senhores: o religioso de bom coração e frouxo nas atitudes Ford (Benedict Cumberbatch); e o déspota cruel e mulherengo Edwin Epps (Michael Fassbender- de grande atuação na terceira parceria com o diretor), que o submete a todas as privações e rompimentos com a dignidade mínima de um ser humano. A dureza cênica vira o estômago e lembra A Paixão de Cristo (2004), beirando o sadismo de Mel Gibson.

Os Estados Unidos aboliram a escravidão em 1863, num processo conflituoso que gerou uma guerra e dividiu o país. Embora faça tanto tempo, o racismo ainda é um problema presente em nossa sociedade, mesmo com a eleição de um negro para presidente dos norte-americanos, há ainda insultos bem presentes como nos campos de futebol, com injúrias ofensivas e preconceituosas pipocando ali e acolá. Recentemente um negro foi agredido, despido e acorrentado em um poste no Rio. As amostras corroboram para a atualidade do enredo de McQueen, que fez um filme tão político como o drama épico histórico Lincoln (2012), de Steven Spielberg, embora sem contar com o extraordinário ator Daniel Day-Lewis, abandona a fotografia gris que representava a personalidade doentia do personagem de Fassbender em Shame, para mergulhar em tomadas mais reais do clima proposto dos sulistas nos EUA. Vai fundo nas situações de desespero do protagonista para criar o inferno na terra, tendo no fotógrafo Sean Bobbitt, uma parceria certa para demonstrar toda a angústia em planos detalhados, aproximando a câmera dos corpos esfolados. A violência é atenuada na cena em que Solomon toca seu violino e acentuada em outra pelo impacto das chibatadas recebidas, crescendo com o escravo sendo enforcado numa árvore rangendo, sobrevive por arrastar bravamente os pés no chão, já com a respiração abafada.

O drama épico foge do maniqueísmo das duas cores antagônicas, mas resvala na abordagem do homem branco do Norte como símbolo do progresso, religioso e até atencioso por vezes, contrastando com o sulista caricaturado como símbolo diabólico. A solução apresentada pode ser vista como uma singela tentativa de escapar do clichê, diante do senhor dos escravos Ford, dando a impressão de ser acolhedor e menos repressor, porém de presença questionadora, pois embora não torture seus escravos, não deixa de tratar o protagonista como mera mercadoria e acaba por revendê-lo ao facínora Edwin, o enlouquecido de desejo e possessão pela escrava Patsey (Lupita Nyong'o- excelente atuação que lhe valeu o Oscar de atriz coadjuvante). Acerta a mão com o enviado anjo bom (Brad Pitt), em convincente surgimento para a liberdade.

O diretor, paradoxalmente, dá mais vida ao brutamonte de personalidade doentia, que faz os escravos acordarem na noite para dançar para ele, do que ao senhor dito bonzinho. Demonstra possuir sentimentos, ainda que deturpados pelos desvios de personalidade pela jovem escrava. McQueen constrói uma criatura autêntica, mas vacila e se deixa levar para os sentimentos exagerados e descamba para o melodrama, como no epílogo desnecessário e com sinais de panfleto, que nos remete para A Cor Púrpura (1985), também de Spielberg. Acerta ao se afastar dos closes e frases de efeito moralista, optando por cenas cruas de realismo intenso, mas quase esbarra novamente nos excessos que sucumbiram Gibson em A Paixão de Cristo. Reabilita-se nas cenas de sexo: o estupro de uma escrava por seu dono e a ideia de propriedade; a outra é entre dois escravos sem sentir desejo, ressaltando apenas a evidência de um mero preenchimento de tempo para aguardar o dia seguinte e as torturas da odisseia.

Inferior tecnicamente na comparação inevitável com Django Livre (2012), de Quentin Tarantino, que arrasa ao reescrever a saga no efervescente e bem original longa que dá oportunidade aos escravos sulistas dos EUA, dois anos antes da sanguinolenta guerra civil (1861-1865), em mandar para os ares os opressores, numa magnífica vingança no Velho Oeste protagonizada pelo escravo com brasa nos olhos (Jamie Foxx- impecável interpretação), não faltaram os negros chicoteados e esfolados de forma exposta visceralmente pelos seus senhores, ou ainda a tétrica cena dos cachorros estraçalhando o fugitivo. 12 Anos de Escravidão é um admirável filme de denúncia e retrata os horrores da escravatura para não ser esquecidos, onde a barbárie aniquila uma civilização representada por um homem simples e em paz com a família, mas que seu crime foi ter nascido de pele negra no século XIX, num país que ainda não tinha abolido a segregação racial. É uma abordagem marcante pelo olhar de um cineasta que queria sanar uma lacuna na sua filmografia sobre o tema e as injustiças de uma raça humilhada, mas que busca a redenção e a dignidade esfacelada no tempo.