domingo, 12 de junho de 2016

Festival Varilux Cinema Francês (Agnus Dei)


Religião e Estupro

Uma das surpresas positivas deste Festival Varilux de Cinema Francês é Agnus Dei (tradução literal Cordeiro de Deus), com o título original de Les Innocentes, dirigido por Anne Fontaine, reconhecida pela crítica internacional por Coco Antes de Chanel (2008), depois se solidificou com Meu Pior Pesadelo (2011), Amor Sem Pecado (2013) e Gemma Bovery- A Vida Imita Arte (2014). A nova musa da França Lou de Laâge, desde que fez a garota moderninha Respire (2014), de Mélanie Laurent, está soberba no papel da jovem médica francesa Mathilde Beaulieu, uma ateia comunista que namora Samuel (Vincent Macaigne), um médico judeu e atento para os passos da companheira. Eles estão numa missão pela Cruz Vermelha em um hospital, em plena II Guerra Mundial, com cenário na Polônia, em 1945, invadida pelos russos e alemães, servindo o conflito como pano de fundo para as abordagens dos conflitos decorrentes da Igreja Católica.

A diretora foca seu longa-metragem no estupro das freiras num convento durante a guerra. A médica é encarregada de tratar sobreviventes franceses antes de serem repatriados, ao ser chamada para socorrer uma freira polonesa, descobre que há muito mais a fazer pela causa. Embora relute inicialmente, concorda em prestar atendimento para trinta freiras Beneditinas que estão isoladas do mundo exterior, literalmente enclausuradas entre os altos muros de proteção. Alguns segredos irão se decifrando com o andar dos dias, entre eles o mais arrebatador: várias freiras engravidaram dos soldados russos que ocuparam o convento e lá ficaram alguns dias aterrorizando em circunstâncias dramáticas as religiosas. O cotidiano se inverte e agora as noviças estão na iminência de dar à luz. Um elo surge entre Mathilde e a cúpula da comunidade católica, a irmã Maria (Agata Buzek), que faz a transição aos poucos, para tentar quebrar as regras da vocação religiosa, tendo em vista que vidas correm perigo de serem ceifadas, diante das relações complexas aguçadas pelo perigo que farão delas cúmplices para um novo propósito de uma abertura da visão oculta e oblíqua que foram determinadas pelos ferrenhos dogmas religiosos, causando uma cegueira geral dentro do misticismo ofuscante para a liberação das ideias mais amplas.

O drama de Fontaine segue uma linha crítica encontrada também no magnífico enfoque dado pelo seu conterrâneo Bruno Dumont, em O Pecado de Hadewijch (2009), ao retratar uma jovem da classe alta que deseja ser freira e tem um envolvimento com dois irmãos muçulmanos que moram na periferia de Paris. A moça é uma católica que tem vocação, mas entra em conflito existencial ao descobrir outras religiões, percebe a fé e os conceitos de devoção contrários ao catolicismo pragmático que conhece e testa sua fervorosa e ardente obsessão, tendo como lema sua obstinação pela igreja. A cineasta francesa revela-se uma estudiosa da paixão mística, ao abordar com grande sensibilidade o extremismo religioso, com um olhar crítico avassalador. No centro do longa está uma devoção pelo catolicismo como fé inabalável, em que a vergonha e o medo da repercussão do escândalo na casa sagrada fazem com que a madre superiora também cometa atrocidades contra os recém-nascidos jogados nas intempéries da natureza, em que irão ao encontro da barbárie praticada pelos soldados desalmados quase na mesma proporção dos atos repugnantes e drásticos da irracionalidade mostrados na tela.

O filme flui por uma dramaticidade de forma autêntica, ao retratar o inevitável choque de ideias dogmáticas de uma ardente religião contrastando com a ciência médica representada por uma ateia, como símbolo civilizatório das vítimas estupradas em estado de penúria e fragilidade, com pouca opção de escolha para seus filhos no futuro. Outro drama que também mostra a religião em xeque foi abordado de forma notável em Ida (2013), de Pawel Pawlikowski, em que a trama é centrada numa jovem noviça que está pronta para prestar seu voto de castidade e tornar-se freira. Porém, antes do evento religioso, ela é instada pela madre superiora para visitar uma única pessoa restante de seus laços de família. Fontaine mostra os porões dos conventos e a inabalável fé cristã sendo corroída em seus alicerces pelos desatinos de selvagens homens que atacam mulheres como feras humanas num cenário sombrio de uma guerra sem precedentes éticos e morais. Pawlikowski retrata a religião fora do convento e o registro da invasão nazista durante a Segunda Guerra Mundial com o extermínio macabro de três milhões de judeus poloneses com a colaboração de antissemitas em detrimento do patriotismo, bem como o período stalinista de perseguição aos comunistas no governo de Varsóvia, além da importância fundamental de reconstrução do país pela Igreja Católica.

Agnus Dei tem um desfecho um tanto quanto discutível pela solução fácil e com requintes de melodrama com final feliz, embora não invalide o todo da realização, o filme questiona com uma boa reflexão os efeitos do estupro, a religião fervorosa para seus fiéis e seguidores voluntários ou induzidos, a guerra antiética e sem limites de mínima dignidade, o suicídio para pôr fim ao desespero do martírio da dor com a razão perdida e o bom senso que ficou pelo caminho evidenciado de um mundo de permanente busca, em que há contrariedades religiosas nos seus preconceitos, contradições e radicalismo. Ou optando por se fechar dentro dos muros como faz o catolicismo, sendo espreitado pela presença marcante da morte e da tristeza pelo olhar forte e uma posição firme da diretora sobre os dogmas religiosos e suas aberrações ultrapassadas de proselitismos e epifanias, com o uso inadequado dos seus adeptos pelo radicalismo exacerbado explorado com dignidade e elegância neste fascinante drama.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Ponto Zero


Adolescente em Crise

José Pedro Goulart é um cineasta gaúcho atento e sensível às circunstâncias e os preconceitos da civilização no cotidiano da vida. Assim foi com seus dois curtas-metragens que realizou em parceria com Jorge Furtado: Temporal (1984) e O Dia em que Dorival Encarou a Guarda (1986). Ponto Zero está sendo bem recebido pela crítica e pelo público, embora seja possível afirmar que tenha perdido uma grande oportunidade de marcar época com este drama familiar mesclado com elementos de thriller policial, com algumas incursões pelo sobrenatural, através dos pesadelos do protagonista em sua fase de transição da adolescência para o mundo dos adultos. Mas há méritos inegáveis no retorno ao cinema, pois voltou 30 anos depois de uma ausência dedicada para escrever livros, fez carreira em publicidade, alguns trabalhos para a TV, e elaborar sem pressa o roteiro deste seu primeiro longa para apresentar no Festival de Gramado de 2015, ganhando merecidamente os prêmios de melhor som e montagem.

Antes que o Mundo Acabe (2009), da também gaúcha Ana Luiza Azevedo, e As Melhores Coisas do Mundo (2010), da paulista Laís Bodanzky, apenas para citar duas referências na temática, foram fundo na questão dos prazeres e desprazeres da adolescência, suas dúvidas e os caminhos que procuram em suas vidas, além do questionamento da infância que fica para trás como um marco para o futuro. Laís coloca o fato de o pai assumir a homossexualidade que serve de gancho para os problemas encontrados no seio do colégio e com desdobramentos nas amizades que desenvolve um personagem complexo e frágil. Já Ana Luiza reflete com uma beleza melancólica, tendo como mote o triângulo amoroso dos amigos e colegas de aula, as enormes confusões no ambiente escolar, para um mergulho no universo juvenil das grandes paixões, os relacionamentos com as namoradinhas, os traumas da garotada, sem deixar de abordar a ausência do pai.

Goulart não foge muito do tema, ao pintar com tintas de tormentas e dos percalços que causam o medo e a tensão psicológica no dia a dia como um pesadelo quase que rotineiro. Ênio (Sandro Aliprandini) é um jovem tímido de 14 anos que precisa lidar com as mudanças inerentes da idade para a troca de fase que se aproxima para buscar a maturidade. Esconde-se atrás da vasta cabeleira como se estivesse dentro de um casulo resistente de proteção da carapaça intransponível. O garoto tenta superar os traumas e fantasmas decorrentes de uma adolescência repleta de turbilhões, entre elas ser vítima de bullying na escola. Mas tem seus momentos lúdicos ao andar de bicicleta, porém age como uma ponte no confronto entre sua mãe (Patrícia Selonk), uma mulher sofrida e humilhada pelo marido (Eucir de Souza), um radialista sensacionalista, demagogo e popular na emissora que trabalha, com uma atitude grosseira e fria dentro de casa, sempre distante dos dois, vive num mundo à parte.

Ponto Zero não é um filme perfeito, oscila entre o drama do microcosmo familiar e as alucinações fantasmagóricas delirantes, principalmente após o acidente que Ênio se envolveu, depois de pegar escondido o carro do pai e ir para a Avenida Farrapos, um ponto tradicional de prostituição de mulheres e travestis, em Porto Alegre, decorrentes das dificuldades com a chegada da puberdade e o interesse repentino pela sexualidade, sem saber como lidar com a situação. O fato inusitado trará consequências dolorosas para o rapaz maroto, como uma espécie de punição para a rebeldia pela traquinagem desastrada pela indisciplina que tenta vencer o medo. Beira um certo conservadorismo pelo politicamente correto. Há uma flagrante quebra do clímax da narrativa que vinha sendo bem estruturada, diante do desvio de rota da trama, deixando fluir mais as imagens num tom desvairado, porém magnificamente contrastada com a chuva caindo torrencialmente, para dar um ar mais poético, quase que um lirismo às avessas, o que torna impactante do ponto de vista visual num filme silencioso de poucos diálogos.

Ponto Zero avança e ao mesmo tempo se retrai no vazio existencial do pai, da mãe e do filho que busca a autoafirmação e uma identidade ainda debilitada dentro de uma cidade em que os carros andam para trás, como a inversão da vida. A construção dramática do protagonista fica a desejar pela falta de densidade no roteiro que sofre alguns contratempos pela falta de ritmo, supridas pela abordagem sem estereótipos, apesar dos anseios à flor da pele. O personagem central cai na piscina, após algumas vozes vindas de um espaço sideral, na cena do prólogo e repetidas no epílogo, parecem soltas e sem função, exceto como imagens para serem apreciadas. A trilha sonora de Leo Henkin se encaixa com naturalidade e não interfere nos efeitos sonoros da produção, bem como há se destacar a bela fotografia de Rodrigo Graciosa pelos planos-sequência, entre os quais o do menino correndo à noite pela rua no meio do aguaceiro interminável. Goulart já é um diretor maduro que deverá evoluir muito, pois deu mostras de um bom grau de conhecimento, apesar de alguns equívocos, neste simpático e diferente longa-metragem de estreia.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Demon


Festa Bizarra

Vem da Polônia em coprodução com Israel o magnífico thriller sobrenatural Demon, última realização do jovem promissor Marcin Wrona, 42 anos, que tem em sua filmografia o longa Batismo (2010). O cineasta foi encontrado morto em setembro de 2015, por enforcamento, no quarto do hotel que estava hospedado, tendo o inquérito policial concluído que houve suicídio. O fato ocorreu em meio ao badalado Festival de Gdynia, na Polônia, quando seria lançado pelo diretor este fabuloso terror psicológico mesclado com uma crítica social contundente, numa combinação bizarra de histórias de possessão com comédias durante a inusitada festa de casamento. Foi laureado como melhor filme no festival de cinema fantástico de Austin, nos EUA, além da calorosa recepção no Festival de Toronto.

A história é muito bem construída com subsídios exemplares num cenário propício de dias chuvosos acarretando um lodaçal e uma enorme retroescavadeira com alegóricos tentáculos assustadores para criar um clímax aterrorizante. É aberto um buraco enorme com uma ossada humana que dará sustentação para a trama fluir com uma desenvoltura digna dos clássicos do gênero, mas sem os sustos corriqueiros, os efeitos sonoros óbvios e as conclusões explicativas dos velhos clichês. Tudo começa quando o jovem inglês Piotr (Itay Tiran- excelente atuação do ator israelense) está prestes a se casar com a polonesa Zaneta (Agnieszka Zulewska), que conhece há pouco tempo. No dia da celebração do matrimônio, descobre em sua futura casa herdada do avô da noiva um esqueleto humano enterrado no terreno, que será coberto novamente. O protagonista passará a ter sensações estranhas e verá na festa uma segunda noiva, Hanna (Maria Debska), pela qual irá corporificar a figura da assombração tétrica, terá convulsões que serão confundidas com a sua bebedeira etílica. Falará em iídiche no transe da possessão, o que deixará os convidados estupefatos.

Demon faz um resgate dos fantasmas do passado e busca desenterrar e colocar em xeque até que ponto vai a responsabilidade da Polônia sobre os extermínio dos judeus, questionando o silêncio em forma de alegoria como uma maneira execrável de enterrar as atrocidades do Holocausto ocorrido na II Guerra Mundial. O discurso do sogro (Andrzej Grabowski) é revelador sobre como colocar na berlinda as causas e consequências decorrentes de um país que serviu de cenário para o maior genocídio da história da humanidade: “Vamos esquecer tudo aquilo que não vimos hoje”. Um médico divaga e tenta explicar os espasmos do noivo como patologias clínicas, já o padre descarta falar em exorcismo. Ambos negam a possibilidade de uma intromissão espiritual. A inverossimilhança do comportamento do rapaz faz do filme um contexto complexo bem além do que é sugerido entre a fé e razão através de uma narrativa com humor para atingir o horror que ali existiu.

Fica evidente a prática da consciência induzida de um povo para não querer o comprometimento, pois a ordem é esquecer e não revirar os cadáveres nas covas abertas. Esconder e amarrar o noivo no porão da casa, enquanto a música segue no celeiro contíguo à residência festiva para alegrar os convivas, sob o pretexto de não causar pânico, mas a histeria causada beirando a explosão da catarse coletiva é abafada flagrantemente, embora desmistificadora nas almas das vítimas que pululam e clamam para serem admitidas, tendo em vista que elas voltaram para cobrar uma posição e um comportamento de reconhecimento das lacunas pelas feridas abertas que continuam sufocadas pelo tempo.

Um filme que aprofunda questões com imagens elegantes e paradoxalmente repletas de mistério. A casa vazia serve de cenário para enquadramentos de suspense, como na cena dos noivos fazendo sexo na cama com a janela aberta e a presença dos intrusos convidados desfilando, bem como as crianças correndo pelos corredores em forma de labirintos, numa referência ao celebrizado O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick, ou ainda, da inesquecível possessão em O Exorcista (1973), de William Friedkin, Não é por acaso que Wrona foi buscar o compositor Krzysztof Penderecki, responsável pelas trilhas sonoras dos dois referidos clássicos para assinar a trilha de sua derradeira realização deixada como legado.

A narrativa visceral é um notável exemplo de uma história bem contada, numa trama com ingredientes para todos os gostos. Impressiona, perturba e instiga pela ousadia na mescla de gêneros, principalmente pela maneira como são colocados os fatos em consonância com os usos, costumes e a tradição dos poloneses, realçando-se as imagens na fascinante fotografia em tom pastel esmaecido para dar uma visão menos glamourizada dos acontecimentos. Não é um filme que aborda diretamente o genocídio judeu dos porões com as câmaras de gás e cadáveres, como visto recentemente em O Filho de Saul (2015), de László Nemes; ou pela virulência de Phoenix (2014), de Christian Petzold, sobre a história da sobrevivente judia desfigurada; ou ainda de Ida (2013), de Pawel Pawlikowski, no registro de uma defesa intransigente para uma verdade não tão absoluta passada pelas gerações. Demon tem uma trama que coloca o personagem central num delírio ancestral, faz o espectador ter uma visão aberta sobre uma triste época que não é para ser esquecida, através de metáforas, ao deixar fluir a parcialidade da nação em questão, visando elaborar uma posição mais crítica e menos escassa da realidade, mas que faz brotar o instinto de busca num alucinante mergulho de um passado brutal.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Décimo Homem


O Reencontro

O festejado diretor argentino Daniel Burman construiu uma filmografia própria, indo do drama para as comédias dramáticas, como foram suas duas últimas realizações A Sorte em Suas Mãos (2012) e O Mistério da Felicidade (2014). Retorna às origens neste seu último longa-metragem, O Décimo Homem, numa narrativa sobre as relações familiares e os vínculos cortados, na tentativa da reaproximação entre um homem solitário que carrega os traumas da conexão paternal estremecida, mas que busca um estreitamento através do reencontro e acaba inserido na realidade da tradição da cultura judaica no bairro popular de Once, na periferia de Buenos Aires, um lugar habitado por judeus, no qual vivera sua infância. Seu pai é uma espécie de rei, por ser famoso e detém o comando de uma fundação assistencial de caridade aos necessitados, como sugere o título original El Rey del Once.

Burman é um cineasta jovem, mas tarimbado, que deixa fluir seu olhar para as intercorrências oriundas do microcosmo familiar, como já o fizera antes na trilogia dos problemas inerentes aos laços afetivos sobre os seus conflitos dentro do universo judaico como pano de fundo, nos usos e costumes, a tradição e a religião, mantendo uma coerência bem demonstrada em Esperando Messias (2000), O Abraço Partido (2004) e completando com o melhor dos três e mais maduro As Leis de Família (2006). Surpreendeu positivamente com o ótimo Ninho Vazio (2008), pela abordagem do casal que se reinventa, falando da morte após a partida dos filhos de casa para seguirem suas vidas e dar continuidade aos seus futuros, diante do tédio do lar com a ausência dos descendentes, refletindo sobre o existencialismo e o sentido da vida, em sequências bem dolorosas. Posteriormente vem o bom drama Dois Irmãos (2009), sobre a terceira idade e seus dissabores pertinentes.

O Décimo Homem é o reencontro do realizador com seu alter ego, o personagem central Ariel presente em outros filmes, sempre interpretado por Daniel Hendler, porém agora dá lugar para o ator Alan Sabbagh. O protagonista é um rapaz que se tornou um bem-sucedido economista em Nova Iorque, após evadir-se de seu país para os EUA. Ao ser convidado para voltar ao lar para uma festividade religiosa, recebe uma tarefa estranha, pois terá que comprar um sapato sem cadarço para um jovem doente, depois terá que resolver uma pendenga com o bronco açougueiro. A surpresa se estabelecerá com as diferenças de sua cômoda vida atual com as antigas tradições dos parentes e da comunidade, diante do subtema habilmente lançado por Burman, ou seja, o cenário de uma Argentina pós-crise dos anos de 2000, em que faltam os gêneros de primeira necessidade, tais como a carne, o leite, o vestuário e os remédios, além do caos da saúde refletida nos hospitais públicos.

Nesta trama de reencontro e rancores do passado, o pai não se faz presente, continua à distância, mas a história gira pelos telefonemas de celular do idoso ausente que nunca aparece fisicamente, dando ordens ao filho para executar atividades em prol da ONG. A relação continua fria no enredo proposto pelo cineasta, com o protagonista andando solitário de um lugar para outro como um zumbi perdido na sua cidade natal. Ainda assim segue a trajetória obstinada, sem perder o interesse, tem como sua fiel escudeira a religiosa ortodoxa Eva (Julieta Zylberberg), uma moça que se mantém num silêncio sepulcral premeditado. Ariel aguarda as definições aleatórias naquele alegre, porém contraditoriamente um triste bairro empobrecido, recheado de assaltantes que furtam celulares nas ruas, impedindo inclusive de continuar mantendo contato com a namorada e seus problemas profissionais. Ali os habitantes flutuam naquele alarido, dizem algumas banalidades, às vezes dialogam carinhosamente, retratando as personalidades diversas de olhares perdidos, por vezes hesitantes, que irão ao encontro de uma cultura típica de um povo religioso e benevolente, numa base de improvisos permanentes para continuar vivendo com dignidade.

Com uma fotografia apreciável e um roteiro linear enxuto, O Décimo Homem é um drama razoável para os padrões de Burman, que já dirigiu outros filmes bem superiores, embora seja de boa qualidade na abordagem das relações familiares com a presença da solidão, os costumes e as tradições. É interessante num contexto bem equilibrado na defesa da religião e dos valores afetivos interpessoais que transformarão o filho para guindá-lo ao posto máximo do pai, depreendido do encontro casual deles. O desfecho é de certa forma previsível diante da ciranda de circunstâncias do cotidiano, pelo otimismo lançado sobre um fiel retrato na filosofia do modo de vida daquele povo com suas regras e rituais próprios advindos de uma cultura milenar, esculpido em personagens de carne e osso que funcionam como elementos essenciais, despidos com sensibilidade, ironia e um humor refinado numa Buenos Aires cosmopolita, pela visão deste realizador portenho atento às mudanças comportamentais em sua aldeia, através de reflexões com a leveza contumaz sobre o universo familiar.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Ave, César!


Hollywood Revisitada

Os irmãos Ethan e Joel Coen têm um estilo e uma elegância para filmar inerentes e personificados como poucos cineastas na atualidade. Assim foi com o extraordinário Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), inegavelmente a melhor realização deles, abocanhou os prêmios do Oscar de melhor filme, direção e roteiro adaptado; os instigantes Gosto de Sangue (1984) e O Homem que Não Estava Lá (2001); o imprevisível e estonteante Fargo (1996); o remake de Bravura Indômita (2010), longa em que John Wayne obteve seu único Oscar como melhor ator, na versão original de 1969, dirigido pelo mestre Henry Hathaway; a penúltima ficção foi o sombrio drama Inside Llewyn Davis- Balada de Um Homem  Comum (2013), que acompanha a trajetória de uma semana na vida de um jovem cantor folk em 1961. Os diretores já se aventuraram no gênero musical em E aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000). Pode-se discutir se eram grandes filmes ou não, mas jamais seus dotes refinados de fartas sutilezas.

Agora chega aos cinemas Ave, César!, o 17º. longa-metragem da dupla, uma viagem para embarcar na glamourosa Hollywood, dos anos de 1950. Edward Mannix (Josh Brolin) é o protetor das estrelas para evitar polêmicas no famoso estúdio Capitol Pictures. Sua tarefa de executivo é intensa, desde fazer com que os artistas cumpram seus compromissos e contratos profissionais assumidos até abafar eventuais escândalos, vive momentos conturbados quando Baird Whitlock (George Clooney), astro principal da superprodução Hail, Caesar!, é sequestrado no meio das filmagens por uma organização chamada "Futuro", em que terá que trazê-lo de volta de maneira incólume. A proposta é uma sátira divertida à indústria do pós-guerra que se passa em um dia, com elementos e subsídios extraídos de alguns filmes que marcaram época naquele período nebuloso de um clima paranoico sustentado nos pilares do anticomunismo.

Nesta farsa elaborada pelos irmãos Coen, um típico filme dentro de outro, conta com um bom elenco, entre os quais Scarlett Johansson representa uma estrela doidona; Channing Tatum convence como um vaidoso galã; Tilda Swinton está em papel duplo, encarnando as jornalistas gêmeas ambiciosas; Alden Ehrenreich faz um herói abobado que é promovido para atuar como um ator sério de faroeste; Ralph Finnes mergulha na pele de um diretor fino da Europa; Jonah Hill é uma espécie de um “laranja” descontextualizado; Christopher Lambert se sai bem como o cineasta oportunista; Frances McDormand está bem como a montadora desorganizada e desconectada. O objetivo é rechear o enredo com situações simbólicas, com interpretações suaves, marcantes, verossímeis e bem caricatas na essência, durante os 106 minutos de projeção. Uns se saem bem, outros ficam pelo meio do caminho, diante da falta de aprofundamento deste mosaico estabelecido para encaixar num roteiro de altos e baixos que esvazia a narrativa central. O resultado nem sempre atinge o clímax, muitas vezes se dilui por ser picotado demais.

Ave, César! tem méritos no figurino e cenário apropriados, esbanja na reconstrução de época, que embasa com sobras a proposta irônica dos realizadores, na abordagem de um período significativo para o cinema e os reflexos de uma economia e de uma política em tempos áureos ostentados pelo charme hollywoodiano. Está abaixo de outras realizações mais emblemáticas da dupla de realizadores, aproxima-se mais de filmes intermediários de humor mais leve como Arizona Nunca Mais (1987) e Queime Depois de Ler (2008), sem a dose nonsense de Fargo e Onde os Fracos Não Têm Vez. O escracho é contido e por vezes dúbio, como no retrato do capitalismo a serviço do cinema e o eterno embate com o comunismo, representado pelos escritores/roteiristas no evento do sequestro e com a consequente encenação do episódio do submarino russo emergindo das águas e o dinheiro na mala indo parar no fundo mar, o ponto alto da trama.

O lado obscuro de Hollywood sempre foi um tema retratado dentro do próprio cinema. O exercício satírico e crítico já rendeu filmes memoráveis de diretores geniais como Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, Assim Estava Escrito (1953), de Vincente Minnelli e O Jogador (1992), de Robert Altman. Os mais recentes que fizeram alusão ou alguma crítica velada foram Acima das Nuvens (2014) de Olivier Assayas e o festejado vencedor do Oscar Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância (2014), de Alejandro González Iñarritu e o magnífico Mapas para as Estrelas (2014, de David Cronenberg. Já Ethan e Joel Coen criaram um bom programa não só pelo puro divertimento das homenagens trazidas para o grande público, realizadas com lucidez pelos momentos hilários, como o tributo ao sapateado no musical dos marinheiros na cena do bar, em alusão a Gene Kelly. Cabe ressaltar a crítica à imprensa fútil protagonizadas pelas colunistas ávidas de intrigas e fofocas, como marca positiva da mordacidade em relação a mais famosa indústria norte-americana de entretenimento do mundo revisitada nas suas engrenagens.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Truman


Relações de Amizades

O cineasta catalão Cesc Gay é conhecido no Brasil pela instigante comédia agridoce O Que os Homens Falam (2012), através de um deslumbrante cenário das tomadas externas de Barcelona, num tom cômico recheado de ironia, mas sem perder o intimismo profundo, ao abordar os relatos sinceros de oito homens na crise da meia-idade, todos na faixa de 40 a 60 anos. Satirizava a existência do chamado sexo forte, ao apresentar suas dificuldades contemporâneas, mas que reflete sobre as fraquezas e os novos tempos do universo machista em extinção. Ricardo Darín e Javier Cámara foram destaques no filme anterior e novamente fazem parceria com o diretor espanhol, desta vez em Truman, uma coprodução entre Espanha e Argentina, numa abordagem sensível sobre dois amigos de infância separados há anos, que se encontram por um motivo especial: a iminência da morte de um deles por um câncer terminal.

Premiado no Festival e Goya, o mais importante do cinema hispano-americano, Truman obteve as láureas de melhor filme, direção, ator (Darín), ator coadjuvante (Cámara) e roteiro original. Também teve reconhecido o trabalho dos dois atores com premiação no Festival de San Sebastián. O diretor e Tomas Aragay assinaram o roteiro linear, porém perturbador de uma história com contornos dramáticos pela delicadeza da temática e suas armadilhas, mas que jamais cai no melodrama corriqueiro de outras realizações similares. Ganha força narrativa por Darín, em atuação estupenda como Julián, um argentino radicado em Madrid que atua em teatro e recebe a visita de Tomás, pelo excelente Cámara, no papel de um amigo de infância que mora no Canadá, deixando lá esposa e filhos para tentar dissuadi-lo da decisão de interromper o tratamento quimioterápico. Para isto conta com a ajuda da prima do convalescente, Paula (Dolores Fonzi), um amor antigo da juventude. A alegação do enfermo é de que a metástase invadiu outros órgãos de seu corpo para “fazer turismo”, de que nada valeria o esforço para ganhar mais alguns dias de sobrevida, pois dá mais importância para um final com uma qualidade de vida sem os estragos dos efeitos colaterais.

Cesc Gay sabe dar o ponto certo neste sombrio drama com irônico tom cômico, ao lançar para o debate como subtema uma espécie de eutanásia voluntária. O longa invoca uma notável reflexão sobre a morte, que apresenta um desfecho da existência que dilacera dentro de um contexto de grande amizade com seu velhinho fiel cão da raça Bulmastife, Truman, que empresta o nome ao título (na vida real tinha o nome de Troilo e faleceu em meados de 2015). Julián parece estar mais preocupado com o futuro do animal do que consigo mesmo. Para isto, os dois inseparáveis amigos passam quatro dias juntos, lembram e compartilham momentos emocionantes e cômicos dos velhos tempos e a grande vinculação que se manteve com os anos, um fortíssimo elo de franqueza daquela amizade masculina ao discutirem suas fragilidades, assim como o diretor fizera na realização anterior. Não é somente o reencontro do último adeus, ali está inserido o destino a ser dado ao inseparável cachorro grandalhão já alquebrado pelo tempo, mas a intuição da separação iminente aguardada da forte relação com seu dono. É dolorido ver uma pessoa pensando no fim, embora esteja ainda com as rédeas nas mãos para retirar os véus dos bons costumes, tentando dar um tapa na cara da morte no confronto com a vida, diante das emoções existenciais sobre o progressivo epílogo do ser humano.

O cineasta aduz com clareza que seu longa “é um olhar sobre a forma como reagimos ao inesperado, à dor e ao desconhecido. E é também um filme sobre a amizade”. A solidariedade se faz presente na realização, como da ex-esposa e do filho que mora em Amsterdã para estudos. O reencontro com o rapaz e sua namorada em um bar para uma refeição é comovente e significativo para ambos. Ninguém quer tocar no assunto pela dificuldade para encontrar as palavras adequadas para aquele momento único. Ao fugirem do assunto, que será revelado depois de forma circunstancial, fica evidente o quanto é delicado e terrível tratar com lucidez o tabu do perecimento. É oferecido com equilíbrio uma experiência tocante ao espectador, porém sem perder a graça dos bons momentos que são proporcionados durante a trajetória do nascimento até o crepúsculo, sempre bem acompanhado da bela trilha sonora, do cenário fascinante da fotografia eficiente de Madrid e Amsterdã.

Diante da realidade existencial e o seu sentido com as inerentes dificuldades, como a abordagem da morte, amizade e solidariedade, mas mostrada com um elegante toque de classe, graça e ternura, o drama de tintas cômicas mescladas com o desfecho inusitado, lança pitadas de soluções para uma abordagem vigorosa sobre um tema mórbido, mas necessário e indispensável para reflexão no cinema. Uma construção narrativa soberba, com clímax e anticlímax certeiros para um mergulho nos subterfúgios da vida, com diálogos e olhares inoculadores até a alma para extrair da dor e da angústia, alguns subsídios tênues da corrosão do tempo implacável. Truman não deixa dúvidas do ponto nevrálgico pretendido, ao apontar para o sentimento da melancólica perda inevitável. Eis um magnífico retrato do fenecimento numa atmosfera densa, mas humana pela solidariedade acima de tudo.

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A Juventude


Resgates Existenciais

O diretor Paolo Sorrentino obteve reconhecimento internacional com Le conseguenze dell'amore (2004), ao vencer diversos prêmios e concorrer à Palma de Ouro, porém ficou mais conhecido por Il Divo (2008), uma apreciável cinebiografia do ex-primeiro-ministro italiano Giulio Andreotti (1919- 2013). Com A Grande Beleza (2013) foi eleito melhor filme europeu do ano de sua produção e vencedor do Globo de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro. O cineasta teve sua realização cultuada pela crítica e pelo público, decorrente do magnífico drama de tributo à beleza estonteante e os encantos de amor e gratidão à Itália, com a Roma eterna, sagrada e profana já mostrada em Roma de Fellini (1972) e A Doce Vida (1960), ambos de Federico Fellini, sendo este último que serviu de inspiração para a elaboração do protagonista e por consequência o formato com a riqueza para realizar um passeio cultural pelos museus, estátuas e o rio com a famosa ponte nesta viagem com o glamour ao melhor estilo do mestre inspirador.

Neste seu último longa, A Juventude, o realizador busca a construção de seu personagem central Fred (Michael Caine) resgatado no universo felliniano do clássico Oito e Meio (1963), na caracterização com o visual de Marcello Mastroianni. Com o personagem Mick (Harvey Keitel), há o encontro de dois velhos companheiros octagenários. Eles estão passando as férias em um luxuoso hotel no Alpes suíços. Fred é um compositor e maestro aposentado, discípulo na juventude do genial Igor Stravinsky, que se recusa a reger a Orquestra da BBC, em um concerto para a rainha da Inglaterra com a popular obra Simple Song. Ele convive com a filha, Lena ( Rachel Weisz) conflitada e em fase de separação do marido, filho do grande amigo Mick, um cineasta em atividade, mas em crise de inspiração para criar algo novo para o cinema, que pretende realizar seu último longa, uma espécie de testamento de sua filmografia. Porém, encontrará forte resistência para convencer a lendária atriz Brenda Morel (Jane Fonda- irreconhecível pela maquiagem), sua predileta para o papel, que está comprometida em realizar um seriado para televisão em detrimento da sétima arte. O barulhento encontro dos dois gerará humilhação dela para o veterano diretor que a tirou do anonimato para o estrelato.

Sorrentino é hábil ao colocar os dois amigos juntos para relembrar um passado de glória marcado por grandes paixões da infância e juventude. Keitel humaniza com vigor seu personagem Mick na luta para finalizar o roteiro daquele que seria seu último grande filme; já o melancólico Fred, em atuação exemplar do extraordinário Caine, não tem a mínima vontade de voltar à música, aproxima-se da filha carente pelo tempo de ausência do pai na família, quando só se dedicava à musica, distante da mãe, agora uma mulher em estado vegetativo. As relações íntimas deles são expostas para uma reflexão do passado e o que reserva o futuro, porém falta profundidade na temática. O roteiro apresenta soluções um tanto quanto artificiais, fragilizando o enredo para uma conclusão mais óbvia e menos apurada de situações elencadas no desenrolar da trama, como o estereotipado ex-atleta argentino Maradona com a tatuagem de Karl Marx nas costas; bem como o personagem de Adolf Kitler pensando nas maldades cometidas, mas de maneira fugaz e solta pelo equívoco na trama; além da presença da Miss Universo que flutua nua como uma sereia pelas águas da piscina, deixando em polvorosa os hóspedes.

Novamente, Sorrentino, assim como já fizera em A Grande Beleza, traça aspectos significativos e lança para a temática a futilidade, o choque da beleza jovem esculpida contrastando com a velhice e suas aludidas doenças tormentosas do maestro, como a fixação na próstata, embora tenha uma “saúde de cavalo”, asseverado pelo próprio médico. Também são enaltecidos como pano de fundo a solidão em todas as faixas etárias, a vaidade, o consumismo num entrechoque com a cultura e a arte cinematográfica e musical. O passado de glórias e incertezas que virão, logo encontrarão respaldo na morte iminente que chegará para separar uma trajetória de décadas. Uma reflexão sincera sobre o avanço da idade com leveza sutil, diante dos percalços que o tempo traz com o passar dos anos e as incertezas do amanhã pela decadência humana e suas infelicidades pertinentes de redenção arrebatadora no aspecto psicológico construído para expurgar as angústias.

Escolhido em Berlim como o melhor filme europeu do ano, em 2015, também obteve seu realizador a láurea de melhor na categoria pela Academia Europeia de Cinema. Ainda assim, A Juventude é um filme menor que o anterior de Sorrentino, mas tem mais virtudes que defeitos, como a fotografia esplendorosa de Luca Bigazzi e uma trilha sonora impecável e vibrante de David Lang. O epílogo traz um clímax de apoteose, com a presença da soprano coreana Sumi Jo para dar guarida ao amor em êxtase, apontando para o fim da existência e reportando-se para a juventude, numa didática referência ao título do drama, consequente da suavidade da canção para um tributo ao personagem do cineasta e a esposa definhando. Provoca estímulos pela emoção e a crença de que a vulnerabilidade de seus realizadores não irá sucumbir, no binômio música e cinema em flagrante resistência para manter-se com a chama acesa pela efervescência inesgotável cultural da arte, embora o artista passe, sua obra permanecerá como legado.

quinta-feira, 24 de março de 2016

A Terra e a Sombra


Natureza e Progresso

A Colômbia representou a América do Sul na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro com o drama O Abraço da Serpente (2015), do diretor Ciro Guerra, retratando a busca da ancestralidade para uma descoberta do início ao fim da existência, sem ter a pretensão de ser definitivo, num choque clássico de civilizações entre o homem branco com os usos e costumes das tribos indígenas na natureza invadida. A cinematografia deste país é imensa e apresenta uma qualidade inquestionável em nosso continente, com produções poderosas e temas profundos com uma história nitidamente regional que ganha espaço no cenário internacional, como no magnífico A Terra e a Sombra, do roteirista e cineasta César Augusto Acevedo, vencedor do prêmio Caméra D’Or no Festival de Cannes do ano passado, na categoria de diretores estreantes, superando o oscarizado filme húngaro O Filho de Saul (2015), de László Nemes.

O longa foi coproduzido por mais quatro países, entre os quais o Brasil, com a presença marcante de Fátima Toledo na preparação de atores num elenco formado essencialmente por amadores como o protagonista Alfonso (Haimer Leal, era zelador num teatro em Cali) e o personagem do filho doente Gerardo (Edison Raigosa), exceto Hilda Ruiz (no papel da ex-esposa Alicia) e Marleyda Soto (interpretando a nora Esperanza). O enredo acompanha uma família humilde próxima à plantação de cana-de-açúcar na região do oeste colombiano de Valle del Cauca. Alfonso volta para casa após 17 anos de ausência para acompanhar a grave doença pulmonar do filho Gerardo, que mal consegue sair do quarto, tamanha sua fraqueza, casado com Esperanza, pai de Manuel (José Felipe Cardenas). A nora e a ex-mulher assumiram o trabalho no corte de canas para o sustento num trabalho escravo, sem mínimas condições aos empregados. Não há salário fixo, recebe pelo que produz, caso não termine a tarefa deixa de auferir ganhos e acaba despedido sem qualquer direito trabalhista. Em caso de afastamento por moléstia, como do homem doente que agoniza na cama, não recebe auxílio-doença, nem assistência médica pelo explorador daquele lugar.

Um drama doloroso sobre a relação do homem com a natureza, em que o labor pelo progresso que avança de forma invasiva, terá desdobramentos na abordagem dos vínculos familiares se corroendo, numa amostragem com humanismo sobre o patriarca de volta ao lar. Embora recebido em tom amistoso pela nora, terá que lidar com o ressentimento da ex-companheira, mas terá no neto a cumplicidade e o respeito de um ídolo que não encontra na figura paterna, decorrente do estado terminal do enfermo pelo distanciamento involuntário. Ao conquistar o carinho do garotinho que gosta de jogar pedras nos passarinhos, mas que irá aprender os ensinamentos do avô, logo passará a cortejar e assobiar, imitando-os com doçura para aproximá-los, em cenas comoventes da interação com a natureza desprotegida e violentada, que está sendo engolida por gigantescas queimadas impactantes de poderosos sem escrúpulos éticos e profissionais, que não mostram a verdadeira identidade.

A Terra e a Sombra tem como símbolo da resistência a velha senhora, bem retratado no epílogo refletindo a solidão contemplativa daquele lugar já sem futuro para ela e seus membros familiares em debandada. Restam as lembranças de um passado em que todos conviviam harmoniosamente, antes das perdas como do abandono e da morte iminente da doença que ronda aquele lugar exposto como um cenário sombrio pela melancolia. Ali já não se pode mais abrir as janelas para evitar a presença indesejada da fumaça e da poeira no interior da residência sem sol e às escuras, explorada pelas sombras constantes dentro da casa, contrastando-as com a luminosidade reinante fora dela. Fica a sensação claustrofóbica de uma prisão domiciliar, sem direito de contemplar o mundo ou respirar um ar sem fuligem pela poluição.

Eis um sensível e silencioso drama familiar que enaltece a vida com seus percalços e os contrastes da defesa lançada para salvar, mesmo de maneira pífia e saudosista, uma natureza e seus horizontes perdidos da luz e da vida. Através da bonita fotografia de Mateo Guzmán, captando imagens com fuligens cinzentas em confronto com o verde, o cineasta constrói um panorama contundente para ressaltar as precariedades rurais dos postos de saúde e o desamparo às famílias pobres pela distância com o mundo civilizado, em que tanto a dor física como a emocional emergem como denúncia reveladora de um sistema obsoleto.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Nossa Irmã Mais Nova














As Irmãs

O Festival de Cannes do ano passado teve a presença do Japão, que foi muito bem representado pelo festejado cineasta Hirokasu Kore-eda com Nossa Irmã Mais Nova. Embora aclamado pela crítica e pelo público, saiu de mãos vazias. Foi obter a recompensa pelo seu belo trabalho no Festival de Yokohama, ao ser agraciado com a premiação de melhor filme, e ainda foi laureado com o prêmio de público no Festival de San Sebastián. O multipremiado diretor nipônico já havia concorrido, sem êxito, à Palma de Ouro em outras duas vezes com Distance (2002) e Ninguém Pode Saber (2004). Também é dele os longas Depois da Vida (1998), Seguindo em Frente (2008), Air Doll (2009) e Pais e Filhos (2013).

Com uma temática voltada para as perdas, enigmas da vida e por consequência a morte, Kore-eda tem um olhar voltado para seu país e as transformações das gerações, numa abordagem humana e profunda sobre o microcosmo das relações familiares, o cotidiano das simples coisas que irão ao encontro de situações complexas e modificações relevantes. Herdou a sutileza mesclada com sensibilidade dos inspirados diretores conterrâneos como Yusujiro Ozu em Era Uma Vez em Tóquio (1953), Mikio Naruse por Midareru (1964), e o criador do cinema de animação Hayao Miyazaki com temas recorrentes da relação da humanidade com a natureza. Segue a trajetória do questionamento primoroso dos velhos mestres para mergulhar no universo peculiar das tradições da cultura japonesa. No longa Ninguém Pode Saber havia a temática da mãe ausente dos filhos e a contundente falta de afeto aos mesmos. Na sua realização anterior, Pais e Filhos retratava um drama que discutia a troca de bebês e os efeitos futuros das crianças trocadas no berçário com as revelações recebidas, num clima de tensão instalado diante do amor pelo filho de outros pais e a intolerância de um deles.

Nossa Irmã Mais Nova mostra a dolorosa distância de três filhas do pai. Elas vivem isoladas na pequena e aconchegante casa da avó na cidade litorânea de Kamakura. A mãe foi embora após a separação e aparece de vez em quando. Não há vínculo com os pais, somente entre elas. Sachi (Haruka Ayase), Yoshino (Masami Nagasawa) e Chika (Kaho) são as irmãs que não veem o pai há 15 anos, mas ao saberem da morte dele, resolvem ir ao seu enterro. Lá irão conhecer a adolescente Suzu Asano (Suzu Hirose), a tímida meia-irmã, fruto de um dos casamentos do patriarca que originou a ruptura do matrimônio da mãe delas. Convidam a pré-adolescente de 13 anos para morar junto, ensinam a menina a fazer o saboroso licor de ameixa para uma confraternização inicial. A partir da convivência entre as quatro, na qual se apegam muito rápido, aprendem e descobrem pontos sensíveis e comuns de alegrias e tristezas do relacionamento que não tiveram com a figura paterna.

O diretor traça a história com doçura, sem ser piegas, ao deixar emergir fatos que trarão conflitos sentimentais que envolvem pais ausentes. Porém, as personagens terão que lidar com adversidades repentinas, pois precisam tocar suas vidas e resolverem as encrencas do cotidiano, como na bela cena da irmã mais velha, magnificamente interpretada por Haruka Ayase, que terá de optar em seguir o destino para realizar uma especialização em medicina no exterior com o namorado, um homem casado que não consegue definir bem o que quer no futuro; ou ficar cuidando das manas, como uma típica mãezona, Uma decisão difícil que colocará o coração conflitado com a razão. Outra abordagem significativa está n relação com as cerejeiras em flor, uma festa típica da tradição no Japão, celebrada com orgulho e amor, está diretamente ligada às delícias da vida e o sonho de morrer, mas depois de contemplar o belo espetáculo visual poético, como nos episódio contado por Suzu sobre o pai, bem como da proprietária do restaurante com uma moléstia terminal.

O drama é estruturado num roteiro enxuto, com uma trilha sonora equilibrada, sendo ambientado em belas paisagens bucólicas de uma fotografia fascinante. O clímax da narrativa linear está no ponto certo, emociona sem ser intenso, embora haja alguns críticos que reclamassem da falta de conflitos mais fortes, mas o tensionamento e a complexidade da relação entre as irmãs está implícito no passado e no presente, sendo desnecessário um exposição mais visceral, pois cairia na mesmice de melodramas de clichês. Kore-eda acompanha o cotidiano das personagens com leveza, delicadeza e bom humor, como as referências aos ídolos mundiais Neymar e Zidane, para colocar no contexto Suzu, que é talentosa no futebol de seu time da escola. Alterna passagens com os novos e velhos amores, a perda de amigos e o ressurgimento esporádico de parentes próximos. Uma reflexão madura sobre as dúvidas, anseios, o amor fraterno com sua força inerente, para alicerçar as ruínas sendo reconstruídas com exemplar magnetismo de beleza lírica nas relações de afetividade, diante da morte e suas profundas sequelas deixadas silenciosamente.

quarta-feira, 2 de março de 2016

O Abraço da Serpente


Choque de Civilizações

Vem da Colômbia o drama O Abraço da Serpente, único filme da América do Sul na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro na Academia de Hollywood. Não ganhou, perdeu para o húngaro O Filho de Saul, de László Nemes, mas o fato de estar presente na festa foi motivo de regozijo para o diretor Ciro Guerra.O roteiro do longa foi estruturado em dois períodos históricos, intercalados no desenrolar da história, assinado pelo cineasta e por Jacques Toulemonde Vidal. Como proposta estética sem o colorido natural, optou para desglamourizar o contexto pela inusitada fotografia em preto e branco, de David Gallego, como um ingrediente eficaz de sustentação da trama, deixando que houvesse alguns breves contrastes da discreta utilização de cores em algumas sequências.

A primeira parte é ambientada em meados do século XX, ao fazer uma abordagem do pesquisador alemão Theo (Jan Bijvoet), já bastante debilitado em sua saúde na jornada febril, dando sinais de falência física, está à procura de uma cura advinda das crenças indígenas e suas poções milagrosas de uma lendária flor. Tem como um aliado fiel o índio Manduca (Yauenkü Migue) e do xamã Karamakate (Nilbio Torres), na inexpugnável selva amazônica, no território colombiano. A segunda parte é recriada na década de 1940, quarenta anos depois, seguida pelo etnobotânico americano Evan (Brionne Davis), outro explorador que tenta convencer Karamakate a ajudá-lo, coloca a plateia diante de outra saga, no reencontro com o selvagem bem mais velho (Antonio Bolivar), que passará a percorrer a floresta procurando a yakruna, a mística planta famosa que cura moléstias tidas como impossíveis, pela sustentação de Theo.

 O filme propõe os vínculos de Karamakate com os dois exploradores que caminham em busca da ancestralidade na sua plenitude no universo cósmico, para uma descoberta do início ao fim da existência, sem ter a pretensão de ser definitivo, que remete para uma comparação com o badalado Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), de Apichatpong Weerasethakul, pela visão de vidas, num lugar feérico que seria a origem de tudo. Em ambos estão inseridas as reflexões da transcendentalidade na esfera espiritual como sugere e deixa transparecer seus realizadores. Guerra mostra um quadro atípico sobre as pessoas apegadas aos bens materiais coletados no decorrer das expedições, mas que para alcançar um nível superior são pressionados pelos nativos para abandoná-los. Tudo gira em torno do despojamento dos próprios pertences que estará vinculado para uma percepção típica do fato com efeito transformador para se chegar até as experiências buscadas como redenção e se impõe o descarte dos objetos nitidamente materiais.

Há um choque clássico de civilizações entre o homem branco com os usos e costumes das tribos indígenas. O drama, em tom documental, não fica limitado a fornecer apenas observações sobre culturas opostas, vai além, como mostra a religiosidade obsessiva levando a extremos de intolerância numa doutrina excessiva na selva, em que há espaço até para um falso Jesus e seus seguidores, bem como o jesuíta que açoita um indiozinho no tronco da árvore, como nos tempos da escravatura da raça negra. Há uma boa amplitude para os temas serem desenvolvidos no enxuto roteiro assinado pelo cineasta e por Jacques Toulemonde Vidal, baseado nos diários de fundo científico do alemão Theodor Koch-Grünberg (1872-1924) e o americano Richard Schultes (1915-2001). O fanatismo, tanto dos exploradores em busca da fórmula mágica, como dos falsos religiosos, estão inseridos com sutileza na trama e remete para o monumental Fitzcarraldo (1982), de Werner Herzog, em que um homem possui o devaneio de construir uma casa de ópera no meio da floresta amazônica, decide explorar a borracha para angariar fundos, mas para transportar o produto teria que atravessar morros e matas com um barco empurrado manualmente.

O Abraço da Serpente tem uma narrativa pouco convencional, ousada de certa forma, entre o passado e o presente, com a força de imagens nas crenças e descobertas. Afasta-se daquele didatismo chato encontrado em outras realizações, pela ausência temporal de elementos para diferenciar as respectivas épocas. A floresta incólume funciona como fator de protagonismo permanente para auxiliar nos contrastes perceptivos, tendo em vista que a passagem é sugerida e perceptível ao espectador para transitar índios e brancos flutuando nas suas entranhas assustadoras, tanto para os habitantes temporários como para os oriundos dali. O diretor propõe não só o estudo antropológico num mergulho com coragem e ardor, mas a valorização da natureza e o respeito pela cultura silvícola invadida por forasteiros em busca da extração da borracha e plantas medicinais, além do catequismo em missões do povo indígena por falsos messias e líderes religiosos mercenários cruéis. Um filme que defende uma causa legítima e justa, através de uma aventura quase épica, na trilha do aculturamento por desbravações das matas virgens e inóspitas, por um rio condutor dos segredos e as arapucas escondidas.