segunda-feira, 28 de julho de 2014

Um Episódio na Vida de Um Catador de Ferro-Velho


Discriminação Social

Baseado em fato verídico estampado nas páginas de um jornal da Bósnia-Herzegovina, que causou comoção, indignação e constrangimento na comunidade em que aconteceu o evento grotesco, foi o que levou o cineasta Danis Tanovic a filmar seu quarto longa Um Episódio na Vida de Um Catador de Ferro-Velho. Sua estreia se deu em Terra de Ninguém (2001), premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 2002, melhor diretor estreante na direção com o César e melhor roteiro no Festival de Cannes de 2001. É dele também 11 de Setembro (2002) e Inferno (2005).

A narrativa é um misto de documentário e drama na triste saga do casal de origem cigana Senada Alimanovic e Nazif Mujic. A mulher é uma esmerada dona de casa que passa roupas, lava, cozinha e cuida das duas filhinhas sapecas na faixa dos seis anos. O marido é um trabalhador obstinado que leva a vida como sucateiro em ferros-velhos, tem um carro antigo com problemas crônicos de bateria até ser desmanchado a machadadas para sobreviver, alguns fiéis amigos na vizinhança e um cão vira-lata. É caracterizada com precisão a via-crúcis de Senada, que aborta e carrega no ventre o feto de cinco meses por vários dias, embora devesse ser retirado imediatamente através de uma cirurgia para não causar uma infecção generalizada. Acontece que a mulher não possui plano de saúde e sequer algum tipo de seguro. Para realizar o procedimento, o médico do hospital da região cobra 980 euros, quantia indisponível por ela e o marido, sendo que o pagamento é à vista, sem parcelamento e de forma antecipada.

O diretor se debruça no drama que abalou a família e vai aumentando com o passar do tempo. Mesmo recorrendo à Assistência Social o problema não é resolvido. A situação é colocada como uma crítica ao poder econômico e a discriminação social e étnica dos excluídos, como se não houvesse outra alternativa: ou arruma o dinheiro ou morre sem dó e nem piedade. Num clímax de alta tensão que vai embrulhando o estômago, a história do casal desgraçado cresce e mergulha no desespero da perda iminente que se aproxima ao se encaminhar para um desfecho inesperado para todos.

Tanovic utiliza os recursos das imagens contrastando com o belo cenário da nevasca na periferia da Bósnia, num estilo próprio que lembra a estética dos dramas de idas e vindas do consagrado cineasta Abbas Kiarostami em Onde Fica a Casa de Meu Amigo? (1987) e Gosto de Cereja (1997). Também pelo tema da busca do dinheiro há similitude com Tempo de Embebedar Cavalos (2000), do iraniano Bahman Ghobadi, quando cinco crianças órfãs de mãe são responsabilizadas pela perda da mula de um contrabandista, deverão trabalhar num bazar, a fim de juntarem dinheiro para pagar a dívida.

O filme causa impacto e constrangimento nos compatriotas pelo visível segregamento apontado pelo diretor, diante da etnia cigana dos personagens e que levaram para o discernimento no sistema econômico dos menos favorecidos na pirâmide social, ferindo o princípio da igualdade ao fazer restrição de maneira explícita dos marginalizados. O conflito permanente é fruto de um sistema político instável que virou as costas para os pobres, deixando como saldo negativo a herança catastrófica de uma guerra que durou três anos (1992-1995).

O casal de protagonistas é representado pelos próprios envolvidos no fato escabroso ocorrido, rendendo a Mujic o Urso de Prata como melhor ator no Festival de Berlim de 2013, pela atuação comovedora de um ator amador. Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro levou ainda o Grande Prêmio do Júri no mesmo festival e passa pelo arrojado cineasta bósnio que lança um olhar crítico e reflexivo, através de tintas fortes e marcantes neste fabuloso docudrama sobre os desvalidos socialmente num mundo onde o dinheiro está acima da vida humana e continua com bastante contundência o injusto preconceito por determinadas raças. Retrata de maneira eloquente a falta de dignidade sob o prisma da hipocrisia repleta de nefastas manchas de uma conduta abjeta.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Heli


Traumas da Violência

A violência é abordada de maneira incisiva e arrebatadora, com requinte de crueldade para estômagos fortes, ao explorar os limites do ser humano no drama policial Heli, brilhantemente dirigido pelo espanhol Amat Escalante, que tem em sua filmografia outros dois longas pouco conhecidos: Sangre (2005) e Los Bastardos (2008). O longa representou o México no Oscar deste ano, ganhou o prêmio de Melhor Filme Estrangeiro no Festival Internacional de Munique no ano passado e de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2013.

A trama retrata a triste e dolorosa realidade do cartel mexicano, expondo as vísceras de uma situação caótica e traumática dos excluídos da sociedade, pelo prisma de um recruta do Exército que desvia pacotes de cocaína para arrecadar dinheiro e realizar o sonho de se casar com a pré-adolescente Estela (Andrea Vergara). Escalante vai fundo na questão do tráfico e suas consequências nefastas em consonância com a corrupção policial, numa narrativa crua e sem subterfúgios, indo ao encontro do ponto central das ilegalidades retratadas. Mesmo com poucos recursos, esta produção independente obtém um resultado primoroso, com imagens poderosas e aterradoras que falam mais que os próprios diálogos, como do cadáver pendurado num viaduto no prólogo, para no meio do drama vir a resposta definitiva: o tráfico não perdoa a traição. A cena macabra é antecedida por dois corpos em estado de miserabilidade pelas torturas medievais, acompanhadas por crianças que assistem como uma espécie de medida pedagógica, já prevendo seus futuros naquele mundo sórdido, implacável e sem fronteiras.

O protagonista que empresta o nome ao título do filme (Armando Espitia) é um rapaz honesto, trabalha numa montadora de automóveis com o pai (Ramón Alvarez), mora na pequena cidade de Guanajuato com a mulher (Linda González Hernández), o filho ainda bebê, o pai e a irmã Estela, uma garota de 12 anos que namora às escondidas o militar Beto (Juan Eduardo Palacios), pivô do inferno que envolverá todos os membros daquela família humilde. O recruta esconde na caixa d'água da casa da namorada as drogas desviadas por parte da corporação, numa flagrante corrupção que irá ter repercussões devastadoras a todos os envolvidos involuntariamente.

Os traumas sexuais que atingiram Heli e a irmãzinha que perde a fala são colocados ao lado dos efeitos psicológicos que devastam o núcleo familiar para sempre. Os efeitos maléficos do tráfico e da corrupção que campeia deixam cicatrizes como marcas definitivas das mazelas nos personagens bombardeados por uma nociva guerra suja entre poderosos. O diretor tem um atento olhar para o microcosmo de uma sociedade esfacelada e envolvida pela destruição de seus princípios éticos e morais por soluções burocráticas nada inovadoras, como observado nas investigações paupérrimas que levam a lugar nenhum.

Embora sem a mesma contundência, foi visto recentemente o drama familiar La Playa (2012), do estreante diretor colombiano Juan Andrés Arango Garcia, abordando um jovem que fugiu de sua aldeia, acaba perdido em Bogotá, sua saga começa com o irmão mais novo que some de casa em busca da liberdade para se drogar. Há um contexto humano naquele cenário de uma cidade violenta, num retrato sombrio de um país em ebulição, em que o tráfico também se faz presente.

Heli é um extraordinário filme de denúncia de um país envolvido num clima nebuloso e catastrófico do cartel, sob o ponto de vista do comércio ilegal e da corrupção ativa, em que o cineasta intencionalmente provoca mal-estar no espectador, decorrente da violência explícita no enredo ao longo da história. É impossível ficar alheio ao universo implacável e sem piedade, contrastando com a ilusão do casamento prometido e o sonho do conto de fadas. Mas a empolgação da garotinha encontrará uma destrutiva realidade dos adultos impiedosos. O drama reflete a vingança pela traição que não poupa crianças ou animais, através de um painel cruel de uma realidade dura, pesada, sem lei e corrompida. A brutalidade é precipitada pela desgraça severa do acaso e é apresentada num realismo cênico seco, mas no epílogo surge com o raiar do dia um sopro de esperança para aquelas vidas dilaceradas pelo equívoco do destino.

domingo, 13 de julho de 2014

Viva a Liberdade


Farsa Política

Vem da Itália mais uma poderosa e corrosiva crítica ao meio político dos discursos vazios e estereotipados para conquistar eleitores, estar sempre bem com correligionários e membros do partido, dentro de uma farsa magnificamente retratada pelo cineasta Roberto Andò, na comédia política Viva a Liberdade, baseada em seu próprio livro Il Trono Vuoto. O tema recorrente também teve bom ingrediente em O Palácio Francês (2013), longa escrachado que faz uma abordagem pontual e com um molho amargo nos corredores palacianos, pelo septuagenário Bertrand Tavernier. Mostrando a sujeira e os conchavos desmesurados de rituais desgastantes que sufocam e tiram o ar puro, numa retórica de opulência, também foi bem enfatizado em Tudo Pelo Poder (2011), de George Clooney. Nanni Moretti é outro diretor mordaz dos poderes italianos, como foi visto em O Crocodilo (2006), sobrou para o ex-primeiro- ministro Silvio Berlusconi, que teve sua imagem abalada sem perdão por ferozes críticas.

Andò foi assistente de Coppola, Michael Cimino, Fellini e Francesco Rosi, dirigiu peça teatral e lançou seu primeiro longa com boa acolhida dos críticos em Il Manoscritto del Principe (2000). Atinge agora um grau maior na sua filmografia, ao abordar de maneira clara e incisiva a mentira, vaidade e os bastidores apodrecidos da política. De forma simbólica mostra a candidatura do secretário principal de um partido opositor italiano, o senador Enrico Oliveri (Toni Servillo), que não convence os filiados como estava previsto pela cúpula diretiva, sofre críticas ácidas da população e da própria legenda, com muita gente descontente pelos discursos desmotivados. Mas numa noite qualquer, após um debate em que o candidato é tripudiado por uma mulher e ouve tudo que se poderia imaginar, acaba por desaparecer literalmente, indo refugiar-se em Paris, na casa de uma antiga admiradora e ex-namorada Danielle (Valeria Bruni Tedeschi). Seu assessor e fiel escudeiro Bottini (Valerio Mastandrea) dá início a um plano maquiavélico, para isto tem a anuência da esposa Eveline (Anna Bonaiuto), através da ideia para uma solução mais adequada do repentino sumiço. O plano prevê buscar o irmão gêmeo Giovanni, desembaraçado, meio amalucado, mas com conteúdo dos tempos outrora de professor de filosofia, que está internado numa clínica. Quando reaparece e age de forma oposta ao que era antes, causa um frisson pelas atitudes surpreendentes e revolucionárias que impactam o mundo político, faz a cotação oposicionista elevar-se como nunca.

A estética desenvolvida com a busca da liberdade introduzidas com eficácia pelo diretor, que tem como referência e possivelmente uma fonte de inspiração o excelente Habemus Papam (2011), de Nanni Moretti, que aborda sutilmente a angústia do Papa vacilante. Já Andò vai ao encontro do político farsante que desaba e busca na fuga seu refúgio libertário, assumindo o irmão como se fosse um genérico farsante que sai melhor que a encomenda para delírio da oposição claudicante. Haja loucuras em meio a uma burocracia desgastante e inócua de uma era fracassada pós-Berlosconi questionada com extrema e saborosa ironia, ao forçar uma situação inverossímil para demonstrar com lucidez um político frouxo substituído por um embusteiro insano. Um panorama dos dissabores para quem almeja o poder cheio de armadilhas, onde a resistência fraqueja e os valores são outros entre as mesquinharias e o ego inflado na grande sacada da comédia, diante de um roteiro abrangente, sendo contada uma inusitada e incrível história sobre a farsa.

Viva a Liberdade é uma comédia que brinda o espectador pela estupenda atuação de Servillo, que brilhou em A Grande Beleza (2013), após ter interpretado há seis anos um primeiro ministro no ótimo O Divo (2008), ambos de Paolo Sorrentino, volta a encarnar com vigor magistral um político italiano meio sem graça e chocho e, concomitantemente, o irmão. Abocanhou o Prêmio de Cinema Europeu como melhor ator nos dois filmes citados, ainda esteve atuando com desempenho elogiável no recente A Bela que Dorme (2012), de Marco Bellocchio. Se um é bom, imagina dois, com personagens construídos como opostos numa sequência de planos e contraplanos bem apanhados pela câmera, satirizados literalmente pelas incongruências daquele ambiente nefasto, que se distancia cada vez mais da aprovação civilizatória. Questiona os valores e a ética, traduz com dignidade o protagonista cansado daquele meio de um processo que se desenvolve, sem parecer entender a mecânica do jogo. Parece falso e vazio dentro de uma engrenagem antiética, mas que aos poucos vira uma contraditória verdade no discurso empolgado. São deflagrados ardis, tornando forte a consistência da tramoia involuntária estabelecida sem concessões, que reverte e muda as expectativas.

Um filme fabuloso pela crítica reflexiva ao empirismo político para alcançar o topo, diante do paradoxo da mentira para fazer valer o ideal almejado. Embora pareça óbvio, cumpre seu papel objetivo de apresentar as falcatruas das abjetas maquinações no jogo doentio dos homens públicos e seus envolvimentos com situações escabrosas de um homem falível e conflitado com um novo desafio pela frente, decide abandonar seus compromissos momentaneamente e foge em pânico para bem longe dali, na busca da meditação sem interferência externa num refúgio mais humano, na desesperada aflição existencial que o atinge como pessoa comum que anda pelas ruas, quer buscar caminhos para tirá-lo do labirinto de dúvidas e fragilidades, que sequer imaginava e o coloca de frente com uma realidade obscura e terrível de um futuro cheio de antagonismos e inaptidões para conduzir situações pragmáticas do arenoso cotidiano do poder.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

O Que os Homens Falam


Neuroses Doloridas

Vem da Espanha a bela comédia agridoce O Que os Homens Falam, do cineasta catalão Cesc Gay, com o deslumbrante cenário das tomadas externas de Barcelona, num tom cômico recheado de ironia, mas sem perder o intimismo profundo, ao abordar os relatos sinceros de oito homens na crise da meia-idade, todos na faixa de 40 a 60 anos, que são chamados nos episódios apenas por uma letra, como o personagem G. (Ricardo Darín) que abre seu coração e confessa ao amigo L. (Luis Tosar) sua desconfiança sobre a esposa e da iminência dela estar de caso com alguém, mostra-se muito preocupado, tendo em vista não estar preparado para uma eventual troca por outro parceiro, o que o leva pelo abalo a ser um dependente de remédios. Há uma faceta obscura neste relacionamento que o destino aprontou circunstancialmente.

Outro episódio notável é protagonizado por S. (Javier Cámara- atou em Fale com Ela), após dois anos do divórcio tenta reconciliar-se com a ex-esposa, mas escolhe um momento nada propício para declarar seu amor ainda nutrido pela mãe de seu filho. Também P. (Eduardo Noriega) que quer cometer adultério, tentará seduzir uma colega de trabalho com fama de namoradeira. O cineasta vai desfiando o novelo e expondo as mazelas advindas das neuroses masculinas decorrentes da crítica fase de transição. Não falta nem aquele que volta a morar na casa da mãe, tipificado no personagem E. (Eduardo Fernandez), que perdeu tudo o que tinha: mulher, emprego e autoestima. Nada dá certo na sua vida idealizada por velhos sonhos juvenis traçados como meta, encontra casualmente um velho amigo de infância J. (Eduardo Sbaraglia), que aparentemente conquistou tudo, mas irá perceber que este sofre por alguns problemas cotidianos.

Diante da existência e o seu sentido com as inerentes dificuldades, como a abordagem da velhice que se aproxima, mas mostrada com um elegante toque de classe, Gay faz uso do seu mosaico em A. (Alberto San Juan) e M. (Jordi Mollà) que terão seus segredos revelados pelas respectivas mulheres, diante de um quadro íntimo de situações inusitadas nada recomendáveis para os aparentes atletas que a sociedade estigmatiza como galãs e saudáveis no âmbito do universo feminino, jamais imaginados ou vistos com alguma suposta deficiência ou carência. Os bonitões e charmosos têm lindas mulheres, donos de carros esportivos último tipo, ícones do padrão bem-sucedidos, mas dentro de um castelo de areia que está prestes a ruir e desmoronar.

O Que os Homens Falam é um filme que satiriza a existência do chamado sexo forte soberano, ao apresentar suas dificuldades contemporâneas, mas que reflete sobre as fraquezas e os novos tempos do universo machista em extinção e falível, com um olhar feminista atento às transformações, dando toques irônicos dentro de uma abrangência de humor melancólico. Não é uma comédia sobre as façanhas masculinas, porém um mergulho no ocaso de uma era que expõe dúvidas. É uma pitada bem salgada nos alicerces que estremecem e vai ao encontro das fragilidades retiradas de dentro dos tabus e prontas para serem quebradas como cristais, através de diálogos inteligentes e sensíveis.

A comédia revela homens com problemas nos seus relacionamentos diários, que não conseguem se reerguer. Ou pelo dilema da separação, ou pela perda de emprego, ou do fantasma da disfunção erétil, além da substituição inesperada e dolorida. Há um cenário inóspito como terríveis obstáculos de reconstrução de uma nova família, enquanto que as mulheres são bem mais pragmáticas e em consonância com uma nova realidade. Um roteiro enxuto, com um elenco harmonioso numa excelente estrutura psicológica de personagens construídos com criatividade e equilíbrio exemplar de cada um deles. O diretor retrata uma evidente decadência do macho alfa com as fases novas que se apresentam dentro de um realismo cênico palatável. São crepusculares e em delírios frenéticos com o futuro, desnudam-se das pompas intransponíveis e se deixam levar para dentro dos seus dramas pessoais.

Gay faz relatos e aproximações dignas de uma nova realidade da existência masculina, diferente da comédia nacional E Aí... Comeu? (2012), onde há uma visível pasteurização e um tom jocoso e brega de situações típicas e redundantes. O Que os Homens Falam tem uma construção narrativa em alto nível e mergulha na fragilidade sem desfaçatez ou em subterfúgios comerciais, rindo de si mesmos. Vai ao fundo da questão com gestos e olhares sutis, inocula a alma e extrai a dor e a tênue fortaleza rechaçada pela corrosão, sem matizes os substratos estéreis. Não deixa dúvidas do ponto nevrálgico pretendido, com um sentimento de perda de valores profundos e intimistas das neuroses que invadem os pensamentos e as decisões de uma casta tida como muralha humana que desaba e dá sinais de sofreguidão. Eis um magnífico tratado sobre os homens, sem a atmosfera de predadores, com suas vicissitudes abaladas pelos tempos.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

O Grande Hotel Budapeste















Mundo sem Esperança

Wes Anderson é um diretor norte-americano de 45 anos, conhecido pelos excessos radicais e apaixonado por fábulas, adorado por uns e odiado por uma boa camada de críticos, embora faça significativo sucesso com o público alvo. Assim foi em Os Excêntricos Tennenbaums (2001) e Moonrise Kingdom (2012). Venceu o grande prêmio do júri deste ano em Berlim com O Grande Hotel Budapeste, que segue a filmografia controversa do cineasta afetado pelo estilo de linguagem barroca, com personagens estereotipados por uma estética bem peculiar. Admite ter como referência para o filme o cineasta alemão Ernest Lubitsch, autor dos clássicos farsescos Ladrão de Alcova (1932) e Ser ou Não Ser (1937).

O roteiro do longa é inspirado livremente nos livros do escritor judeu Stefan Zweig, nascido em1881, na Áustria, que se refugiou no Brasil e se suicidou no Rio de janeiro, em 1992, deixando uma carta-testamento de despedida e demonstrando desilusão pela amargura da desesperança com o novo mundo, diante da ascensão do nazismo, a intolerância e a perseguição implacável ocorrida na Europa. Já nas primeiras cenas do filme, há uma referência ao livro Coração Impaciente, de Zweig, quando o escritor (Tom Wilkinson) que narra a trajetória de Gustave H (Ralph Fiennes- de muito bom desempenho) diz que “a melhor parte de escrever como ofício é que ele não tem de se preocupar em ir atrás das histórias, pois elas vêm naturalmente até ele”.

Com um orçamento de US$31 milhões, considerado pequeno para os padrões de Hollywood, conseguiu reunir um elenco poucas vezes visto num filme. Além de Fiennes e Wilkinson, temos Jude Law (jovem escritor), Adrien Brody (o vilão Dmitri), Edward Norton (o militar Henckels), Bill Murray (Ivan, amigo de Gustave H), Tilda Swinton (a milionária octagenária Madame D), Toni Revolori (Zero, fiel escudeiro do concierge Gustave H- magnífica atuação), Saoirse Ronan (Agatha- a bela namorada de Zero), F. Murray Abraham (o proprietário Zero Mr. Moustafa- fase adulta), ainda integram a constelação Mathieu Amalric, Léa Seidoux, Harvey Keitel, Willem Dafoe e Owen Wilson. Também o roteiro é bem orquestrado, com uma bonita fotografia, um figurino de acordo com a época para caracterizar a Europa no século passado, num cenário bem planejado como uma antiga loja de departamentos na cidade alemã de Gorlitz, faz fronteira com a Polônia e a República Tcheca.

O diretor cria com muita inspiração a fictícia República de Zubrowka, na década de 30, no leste europeu e que abriga um hotel luxuoso no alpes montanhosos. Neste cenário aprazível é contada uma história quase que inverossímil pelos grandes acontecimentos no século 20, como a Belle Époque e as grandes transformações sociais e políticas como o surgimento do fascismo. Entre as duas guerras mundiais surge o famoso e excêntrico concierge Gustave H de um renomado hotel, que irá conhecer um jovem empregado de raízes árabes, e os dois se tornam amigos inseparáveis. O roteiro apresenta várias estripulias da dupla, como o furto de um raríssimo quadro renascentista, a batalha por uma fortuna de uma família e as mudanças que atingiriam a velha Europa na metade do século XX.

Embora os filmes de Anderson pareçam ser repetitivos esteticamente, ao procurar a forma mais adequada para fisgar seus espectadores, às vezes comete delírios desmedidos, porém com O Grande Hotel Budapeste atinge um misto de diversão pura da comédia com pitadas farsescas, cria-se propositalmente a metalinguagem para adicionar um suspense exagerado e desproporcional à trama com ingredientes de uma aventura com jogos de ação. O protagonista ama seu emprego e os hóspedes, envolve-se em tons melodramáticos com idosas milionárias, assim como o escritor que reconta sua passagem na juventude pelo já decadente hotel e ouve do proprietário um relato de 1932, quando estava no auge e o envolvimento do concierge com uma viúva rica e seus herdeiros.

O Grande Hotel Budapeste é uma obra que vai da comédia para o suspense e seus mistérios, transita pelo drama, mas é acolhida inevitavelmente como uma fábula retórica com seus segredos, passa pelos traumas da guerra e vai ao encontro de uma inusitada história de amor e as reviravoltas que emergem da trama. Há uma razoável reflexão sobre a memória permanente daquilo que a história registrou para não ser esquecido, como luzes sendo estendidas para provocar todo o encantamento do cinema como denúncia da intolerância e da perseguição numa época marcada pelo ódio racial do século passado que dá passagem para um novo mundo. Um filme com alguns excessos típicos de Anderson, que se não chega a empolgar, deixa uma contribuição significativa através de alguns personagens banalizados.

segunda-feira, 30 de junho de 2014

El Padre de Gardel


O Filho Bastardo

O diretor uruguaio Ricardo Casas lança novas luzes sobre a polêmica da origem do mitológico cantor e compositor Carlos Gardel, ao completar 79 anos do seu desaparecimento por um acidente aéreo em 1935, com o longa El Padre de Gardel, coproduzido com o Brasil através da Casa de Cinema de Porto Alegre, foi selecionado para o Festival de Gramado de 2013 e integrou a última Mostra de Cinema de São Paulo. É o segundo documentário biográfico do cineasta que, em 2004, estreou com Palabras Verdaderas, abordando a carreira do escritor conterrâneo Mario Benedetti (1920-2009).

Ao melhor estilo do veterano documentarista brasileiro Eduardo Coutinho, morto neste ano de forma trágica, Casas mostra-se hábil para extrair o substrato de cada entrevistado, numa trama que fixa como ponto culminante a vida pregressa do suposto pai do mito Carlos Escayola (1845-1915) e a construção de uma recheada história pontilhada pelo poder e pelos romances inusitados. O documentário centra a investigação entre 1860 e 1890, buscando em relatos e na pesquisa documental sobre a biografia conturbada de Escayola, um homem poderoso que dominou a política e a vida cultural da pequena cidade de Tacuarembó, interior do Uruguai. Foi fazendeiro, coronel e chefe político da localidade, parceiro do general Netto na Revolução Farroupilha e teria lutado na batalha sangrenta da tríplice aliança na Guerra do Paraguai, construiu um amplo e luxuoso teatro para apresentação das famosas peças europeias, conquistou muitas mulheres pela fama de sedutor, que lhe valeu uma das maiores polêmicas familiares registrada naquele lugarejo.

O mérito maior do diretor é saber selecionar da galeria de depoimentos aqueles mais consistentes e adequados ao tema, sob o ponto de vista humano e com a força das descrições contadas pela boca de personagens do povo e por historiadores sobre as origens da vida do artista, passando pela trajetória da família, mais especificamente de seu avô que migrou da região da Catalunha para o Uruguai e dali nunca mais saiu. Sem ser piegas ou definitivo, longe disto, pois sabe controlar e dar o tom na entrevista como um emérito perguntador, deixa as pessoas à vontade para falarem algo interessante ou até mesmo grandes devaneios sobre Escayola e os enigmas guardados com fervor e paixão pelos remanescentes daquela simpática cidadezinha encravada no pampa uruguaio com seus mistérios do passado.

O debate sobre a nacionalidade e o local correto onde nasceu o rei do tango que adotou a Argentina como sua pátria não terminará, pois haverá ainda muita discussão inflamada sobre os verdadeiros fatos contados na película contrários aos especialistas que defendem ter Gardel nascido em Toulouse, na França. Casas retrata o patriarca do famoso ídolo argentino como um déspota que teria se relacionado com três irmãs e a sogra, o que possibilitaria ser filho incestuoso de uma pré-adolescente, ao melhor estilo do craque brasileiro Mané Garrincha, também fruto da relação de uma irmã com o pai.

El Padre de Gardel é um documentário com uma grande dose investigativa para ser memorizado como uma boa contribuição histórica. Sobram problemas neste universo de vidas conflitadas, onde não faltam incesto, traição, pedofilia e a negativa da paternidade, com o abandono da criança bastarda e a simplória maneira da doação forçada para o país vizinho, como uma forma de livrar-se do estorvo, que mais tarde faria suas canções sobre a tragédia pessoal da rejeição familiar. Um filme sobre a falta de dignidade e os atropelos sob o prisma da hipocrisia para não ser ofuscado, numa tentativa tênue de evitar o escândalo na sociedade e a perda da fleuma de uma aristocracia repleta de nefastas e ignóbeis manchas de uma conduta de caráter vil, advindas de um contexto perverso e doentio.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Avanti Popolo

















Memória Resgatada

Radicado em São Paulo desde 2004, o diretor uruguaio-israelense Michael Wahrmann laureou-se com o prêmio de melhor direção, troféu da crítica de melhor filme e ator coadjuvante (Carlos Reichenbach- morto em 2012) no Festival de Brasília de 2013, com seu primeiro longa Avanti Popolo- título extraído de um hino comunista do século XX-, um misto de drama com documentário, numa abordagem sobre o passado pela visão de um pai à espera do filho mais velho desaparecido em dezembro de 1974.

A trama mostra o cineasta Reichenbach interpretando o papel de um patriarca recluso numa modesta casa protegida por uma simplória grade frontal, com um carro velho enferrujado na garagem, está sempre acompanhado de sua cadelinha Baleia, uma fiel escudeira que brinca com ele e o faz ir procurar uma bola que se esconde, ou desaparece, assim como o rapaz eclipsado num dia qualquer pelo regime militar discricionário que reinava no país. O filho caçula André (André Gatti) volta para casa após se separar da esposa, mas não consegue dialogar com o velho pai. Descobre em rolos antigos de Super-8 algumas passagens peculiares do cotidiano filmadas pelo próprio irmão, antes de sumir do mapa para sempre. Embora busque alternativas de conversas, não há reciprocidade nos diálogos, tendo em vista que o idoso não quer falar sobre o triste episódio que o marca há 30 anos, deixando-o com uma fisionomia em frangalhos, num tom melancólico e desesperador para quem aguarda um retorno impossível.

Wahrmann usa o artifício da narrativa pontilhada por flashbacks, um recurso usual e às vezes carregado de lugar-comum, embora tente fazer como um combustível para aquecer a história, o seguimento utilizado fraqueja e cai na mesmice, quase detonando sua obra. Faz dos personagens criaturas que se confundem com os atores em cena, mesclando realidade com ficção, obtém razoável resultado ao aproximar as características psicológicas e físicas dos intérpretes, embora adquira um tom sombrio resultante dos destroços da existência humana pelo tempo e pelas contingências políticas que afetaram o núcleo familiar de forma arrasadora e implacável.

Há uma referência direta do cineasta ao simpático movimento estético Dogma 95, criado por Thomas Vinterberg em parceria Lars von Trier, em março de 1995, em Copenhague, num manifesto cinematográfico internacional, com a publicação de dez regras de ética e valores, conhecidos como voto de castidade, tendo como o objetivo principal o resgate de um cinema mais realista e menos comercial. Foi a mais inventiva escola, depois da celebrizada Nouvelle Vague. Porém, o longa brasileiro peca na forma simples de uma câmera estática captando imagens, com excessos de planos-sequência longos sem um objetivo claro definido, exceto a dor ou a espera linear. Nisto o diretor malaio radicado na China Tsai Ming Lang dá uma aula no recente drama Cães Errantes (2013), como no prólogo e no epílogo há cenas em quadro estático, planos longos, escassos diálogos, como se vê na mãe ao se pentear observa o casal de filhos dormindo languidamente. Wahrmann se optasse por cortes e elipses, não causaria excessos desnecessários em várias cenas dos 72 minutos que se arrastam.

O filme foi realizado com recursos minguados para uma qualidade de imagens distantes e desbotadas que prejudicam o desenrolar da história e cortam o clímax. Mas há uma trilha sonora que salva em muitas situações, não deixando cair totalmente no marasmo, o que seria uma tendência para os diálogos e o cenário predominante no interior da casa antiga de mofos abundantes decorrentes do tempo, na periferia pobre estigmatizada dos paulistanos. Há similitude com A Memória que me Contam (2012), de Lúcia Murat, outro filme sobre a reflexão dos anos de chumbo pós-1964, abordando as utopias do passado de derrotas pessoais e relações doloridas entre familiares e o ciclo de amigos; bem como se aproxima do drama Hoje (2011), de Tata Amaral e seu olhar na sexualidade como uma forma agressiva para se defender do passado que atormenta o futuro; mas bem abaixo do excelente Elena (2012), de Petra Costa, que não deixa escapar a política brasileira nos anos 80 e sua geração que abandonou o país na ânsia da liberdade à procura de novas oportunidades.

Avanti Popolo é uma obra autoral com o propósito claro de mergulhar num ensaio cinematográfico, como um resgate da memória de tempos difíceis e aterradores dos desaparecidos de uma nação em crise política e de um governo sob o regime de exceção, deixa muitas lacunas e perdas de pessoas próximas, que aos poucos vai sendo lembrado e retirado dos estertores do esquecimento de seus arquivos implacáveis. É uma tênue tentativa de cicatrizar traumas e feridas abertas pelos estragos causados na coletividade, embora seja ainda por uma narrativa irregular numa construção genérica e de pouca profundidade, mas de uma significativa contribuição histórica ao cinema sobre os efeitos nefastos de um período antidemocrático, diante do estado de direito extirpado dos cidadãos. Faltou força para levar o tema até o fim, ao buscar soluções sobre um passado de fantasmas que se movem, mas não avança com solidez por um foco profundo de uma sociedade que sofreu os horrores e atrocidades do autoritarismo.

terça-feira, 17 de junho de 2014

O Palácio Francês

















Bastidores do Poder

O septuagenário diretor francês Bertrand Tavernier está de volta com um roteiro direcionado para uma narrativa para o espetáculo do velho e bom cinema, sem se afastar da corrosiva crítica aos políticos de discursos vazios e estereotipados para atingir seus eleitores e estar sempre de bem com os países amigos. Uma comédia escrachada com viés na política, assim é O Palácio Francês, que faz uma abordagem pontual e com um molho bem amargo, nada agridoce nos corredores do poder palaciano da França. O cineasta estava esquecido, após seu último longa que andou no circuito comercial As Margens de Um Crime (2009). É dele também o badalado Por Volta da Meia-Noite (1986); o sempre lembrado thriller policial A Isca (1995); o inesquecível e comovente, talvez sua obra plástica de maior esplendor Um Sonho de Domingo (1984).

O enredo é inspirado na novela gráfica Quai d’Orsay, escrita por Antonin Baudry, com pseudônimo de Abel Lanzac, baseado nas experiências pessoais de um ex-diplomata que escrevia discursos para o ministro Dominique de Villepin. Na trama fictícia a história é realçada no personagem Arthur Vlaminck (Raphaël Personnaz), um jovem recém-formado na Escola Nacional de Administração, chamado para trabalhar no Ministério das Relações Exteriores e está a serviço do excêntrico e temperamental ministro Alexandre Taillard (Thierry Lhermitte). Ao ter a incumbência árdua de elaborar os discursos no Ministério, acaba por ficar enroscado em meio a golpes políticos e vaidades pessoais que irão atrapalhar sua vida pessoal, especialmente com a linda namorada (Julie Gayet), o que torna sua relação extremamente difícil e complicada. Mas tem a compreensão do sereno, sensato e compenetrado chefe de gabinete (Niels Arestrup- de excelente atuação, rendendo-lhe o César de melhor ator coadjuvante), sempre com uma palavra confortável e animadora, não deixando que o mundo incendiasse pelas tropelias do indeciso Taillard.

As loucuras palacianas em meio a uma burocracia são questionadas por Tavernier, que força situações inusitadas para demonstrar com lucidez o gabinete ministerial como se fosse um hospício de insanos entre os assessores e o ministro tresloucado. Um panorama dos dissabores do poder, como intrigas e fofocas, afinal os bastidores do poder estão cheios de armadilhas, onde a resistência fraqueja e os valores são outros entre as mesquinharias e o ego inflado do todo poderoso mandatário na grande sacada da comédia, diante de um roteiro abrangente, sendo contada uma inusitada e incrível história sobre o histrionismo. Há uma similitude temática com Os Sabores do Palácio (2012), de Christian Vincent.

O filme se desenrola numa sequência de planos e contraplanos bem apanhados pela câmera, pois além dos acontecimentos no palácio pelas atividades inerentes, mescla-se com a ironia de Tavernier sobre o intelectualismo satirizado literalmente pelo chefe de gabinete e o assessor, numa clara alusão aos exageros do ministro que cita Heráclito quando se vê em apuros. Passa para o espectador as incongruências daquele ambiente poluído e nefasto, que se distancia cada vez mais da sensibilidade humana, ou seja, as trapalhadas são fisgadas com sutileza e uma demonstração de sinceridade autoral. De um lado há uma dose de reconhecimento de pureza do recém-formado contrapondo com o vazio e o distanciamento do governo aos seus súditos que viceja e polvilha como erva daninha. É um claro contraste com a solidariedade humanística que se perde pelos corredores infestados da sujeira e dos conchavos políticos da pompa reinante palaciana e desmesurada de rituais desgastantes que sufocam e tiram o ar puro, mais para um estranho no ninho dentro de uma retórica de opulência, como também foi bem retratado em Tudo Pelo Poder (2011), dirigido por George Clooney.

O Palácio Francês analisa e questiona os valores e a ética profissional, traduzindo com dignidade o protagonista no meio do turbilhão do processo que se desenvolve, sem parecer entender a mecânica do jogo. Tudo soa falso e vazio naquela engrenagem azeitada, mas aos poucos vai virando uma contraditória verdade no discurso empolgado, na busca obstinada pela manutenção sem rupturas do poder. São deflagrados ardis inescrupulosos, tornando forte a consistência dos personagens envolvidos na tramoia declarada sem concessões, reverte e muda as expectativas que poderiam se encaminhar. A apreciável comédia não é só uma reflexão ou crítica aos bastidores do poder, mas o paradoxo da mentira para fazer valer o ideal almejado. Embora pareça óbvio, cumpre seu papel objetivo de apresentar as falcatruas das abjetas maquinações no jogo da politicagem pela visão doentia dos homens públicos pelo poder e seus envolvimentos com situações escabrosas, dignas de maracutaias da melhor estirpe.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Filha Distante

















A Reaproximação

O cinema argentino tem uma característica muito peculiar nas suas abordagens: sutileza e sensibilidade estão presentes nos temas discutidos. Em muitas vezes o cenário fica em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e a sua eficácia como o objetivo a ser atingido. Diretores como Pablo Trapero com Família Rodante (2004), Nascido e Criado (2006), Leonera (2008) e Abutres (2010); Pablo José Meza de A Velha dos Fundos (2011); Daniel Burman com O Abraço Partido (2004) e As Leis de Família (2006); Lucrécia Martel com a obra-prima O Pântano (2001); Gustavo Taretto com o cultuado Medianeras (2011); Marcelo Piñeyro com o belíssimo Kamchatka (2002); Mariano Cohn e Gastón Duprat no instigante O Homem ao Lado (2009); Paula Hernández em Chuva (2008) aborda o encontro casual para a descoberta da ampliação dos valores, com a constatação das revelações das perdas e buscas. E ainda outros tantos cineastas comprometidos com o cotidiano e com as coisas simples e belas da vida, embora invadidas ou perturbadas por problemas familiares.

Carlos Sorín é outro expoente destes cineastas argentinos, que faz de uma pequena história uma reflexão magnífica sobre a existência, trazendo para a abordagem a morte, a velhice e o sentido da vida, sempre com um elegante toque de classe. Um confesso admirador de Ingmar Bergman, bem como de Jean-Luc Godard, François Truffaut e Joseph Losey. Anteriormente já havia dado esta importância para o roteiro e as conclusões filosóficas de vida e relações humanas tangenciadas pelo clima hostil ou pela solidariedade, como visto nas obras Histórias Mínimas (2002), O Cão (2004), O Desaparecimento do Gato (2011) e A Janela (2008), sendo que nesta fica evidente a influência do cineasta sueco, ao retratar a solidão, tempo e ocaso vivenciados pelo protagonista solitário à espera do filho que mora no exterior há mais de 40 anos. Nos derradeiros momentos da vida do ancião, este se prepara para o encontro derradeiro, deixando evidente a amargura e a dor de seus personagens bergmanianos.

O último filme de Sorín, Filha Distante, batizado em alguns países com o nome comercial de Dias de Pesca, é uma produção de 2012, que integrou a 9ª edição do Festival Internacional de Cinema do RS, numa iniciativa da produtora Panda Filmes, organizadora desta mostra desde 2004, antes levava o nome de Festival de Verão do RS de Cinema Internacional. O drama familiar argentino aborda Marco Tucci (Alejandro Awada), um típico turista, de 52 anos, ex-alcoólatra, que decide pescar tubarões em Puerto Deseado, na hospitaleira Patagônia com seus mistérios de forte magnetismo. O protagonista tem em mente que chegou o momento de mudar os caminhos de sua trajetória existencial, tendo como objetivo principal restabelecer os vínculos afetivos deteriorados com a filha Ana (Victoria Almeida), moradora naquela região, mas o pai não sabe o endereço e para isto terá de encontrá-la com muito esforço naquele lugar sem telefone e de rara comunicação.

Um filme sensível e de boa dose de emoção na luta incessante e incalculável para reparar um passado, reconstruir um reconfortante presente e estabelecer um definitivo elo familiar delineado pela ausência paterna rompida no cotidiano de dias entediantes e repetitivos de Marco. É a busca do sentido da existência marcado pelas perdas profundas oriundas do abandono da esposa e da filha, onde fissuras indeléveis ficaram como herança de erros de rota mal calculados pela inconsequência da trivialidade, que agora está mais difícil de ser reconectada. A mesma inabilidade para pescar com o morinete e o enjoo sofrido no mar soam como metáfora para lidar no microcosmo familiar que deixaram fendas latentes com feridas abertas para serem cicatrizadas, diante de questões mal resolvidas. O hobby para fisgar tubarões é uma situação criada para tentar soluções para sua saúde abalada e a permanência no hospital, onde o falso turismo dá espaço para a reaproximação com a filha e sua indiferença. O afeto esbarra e se escancara na distância entre eles. Há um espaço comovente de amor a ser preenchido, que ora está vazio e incompleto.

Filha Distante retrata cenas comovedoras, como da espera melancólica no restaurante e a tentativa da solidificação da ruptura, buscando sempre o equilíbrio de um roteiro enxuto, com um elenco harmonioso numa excelente estrutura dos personagens e uma elaboração criativa exemplar de cada um deles, através de uma fotografia radiante com imagens que falam e superam os diálogos. Um drama agridoce e suave, que vai aos poucos reaproximando pelos encontros fortuitos. O norte da solução é dado em doses homeopáticas ao espectador para descobrir o enigma proposto, o que acontecerá somente no epílogo. Uma película singular pela simplicidade, sem grandes pirotecnias, deixa um ótimo legado de conteúdo e complexidade humana.

quinta-feira, 5 de junho de 2014

La Playa


















Os Irmãos

O cinema da América do Sul cresceu muito nos últimos anos, tendo na Argentina seu polo principal como um dos melhores do mundo. É seguido de perto pelo Brasil, Uruguai, Chile e o Peru pela ordem de importância. Já a Colômbia surge como uma boa alternativa desde Maria Cheia de Graça (2004), de Joshua Marston, depois com o sensível e interessante Crônica do Fim do Mundo (2012), bem dirigido pelo estreante Mauricio Cuervo, e agora está presente novamente com La Playa, num razoável trabalho do estreante cineasta promissor Juan Andrés Arango Garcia, embora com um orçamento baixo, uma câmera na mão e pouco tempo para gravações, como manda o típico cinema independente, demonstra potencial para render melhores obras no futuro.

Também com poucos recursos, mas com resultados bem melhores, Mariana Rondón realizou o longa Pelo Malo (2013), numa abordagem fiel de um ambiente familiar degradado pela falta de opção de trabalho, visto com muita sutileza e reflexão sobre um momento delicado que vive os venezuelanos; assim como no recente e ótimo suspense 7 Caixas (2012), dos estreantes Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori, retrata a pobreza com dignidade, sem proselitismo e nem demagogia barata, colocam o lado humano de uma plêiade de personagens de carne e osso, com suas fraquezas e vicissitudes afloradas num contexto minado pelos tempos, a dupla deixa o Paraguai em evidência, como desbravadores de um mercado apagado e sem qualquer tradição de uma indústria completamente inexplorada, que registra apenas 25 obras produzidas em toda sua história.

Apesar das dificuldades inerentes foi escolhido para representar os colombianos na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. La Playa tem muita similitude estética com os brasileiros Querô (2007), de Carlos Cortez e com o festejado Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Kátia Lund, apesar do roteiro ser menos contundente e com sequências longas, excessos de contraplanos, há uma quebra do ritmo pela trêmula câmera filmando com ângulos sempre de trás, dando menos impacto e descontinuidade de clímax, o que faz tornar-se monótono por várias cenas de perseguição ou busca de um ponto obscuro e desnecessário. Perde-se em muito a sincronia de uma boa história que poderia ser desfiada com uma elaboração mais criativa e menos burocrática. O discurso fica pasteurizado com soluções simplórias e pouca objetivas, deixa de reforçar com vigor os valores da luta pela sobrevivência.

O drama familiar está centrado na figura de Tomás (Luis Carlos Guevara), um jovem afro-colombiano que fugiu de sua aldeia, no litoral do país, acaba perdido na bonita, mas nada acolhedora para ele cidade de Bogotá, diante do conservadorismo da predominante sociedade branca. Sua saga começa com o irmão mais novo Jairo (Andrés Murillo), um viciado que some de casa em busca da liberdade para se drogar. O protagonista pede ajuda ao irmão mais velho Chaco (Jamés Solís) na jornada inglória do reencontro pelas ruas desta metrópole. Mergulha numa luta para abrir seu espaço, por uma aventura traçada para encontrar o caminho de uma perspectiva de vida nesta fria cidade repleta de dúvidas e hostilidades para o futuro dos forasteiros.

Garcia retrata um painel nebuloso para os irmãos e suas contrariedades no seio familiar, em que Tomás rebela-se com a passividade da mãe e abandona a casa, diante da contrariedade do padrasto que não aceita a presença do irmão viciado. Fica ao lado de Jairo, como se tentasse protegê-lo do mundo inóspito que se desenha. O que era para ser uma parceria entre os dois, vira uma ruptura, diante da tendência em não mudar do irmão caçula que desaparece misteriosamente pelo medo dos traficantes, com quem tem uma dívida quase que impagável. Mesmo com o apoio quase que logístico do malandro e egoísta Chaco, dá a impressão que não anda o roteiro e trunca no desenrolar da trama, por falta de uma consistência na elaboração inadequada da trajetória do enredo. Um dos personagens está atolado em dívidas e no vício; o outro quer salvá-lo, mas sem saber o que quer realmente, deixa tudo muito vago num espaço vazio; já o terceiro sonha com o retorno às praias do mar, de onde tiveram que fugir há alguns anos, tendo em vista os conflitos das guerrilhas armadas naquela região.

La Playa é uma boa proposta sobre os combalidos vínculos familiares orquestrada pela figura materna, sem voz ativa e de pouca eficiência no contexto humano naquele cenário de uma cidade violenta. Fica evidente que os irmãos estão tomando cada um suas decisões, equivocadas ou não, o protagonista tem pouco a contribuir com seu comovente esforço. Tem a convicção de querer salvá-los, mas sozinho e sem apoio é mais difícil. Ao tomar um rumo próprio protetivo, verá que está dentro de uma selva de pedra implacável. Porém, não resta outra alternativa, senão ter que trabalhar e opta em ser cabeleireiro. Dedica-se nos estilos práticos dos suburbanos rapazes afrodescendentes, com desenhos imaginativos e diferenciados na arte feita na cabeça e voltada para as conquistas do cotidiano e as aspirações da difícil realidade financeira das classes em geral pelo desemprego. O filme é um retrato sombrio de um país em ebulição, mesmo que não empolgue traz uma contribuição interessante para o cinema latino.