domingo, 20 de outubro de 2013

Mostra de Cinema São Paulo (O Lobo Atrás da Porta)



O Lobo Atrás da Porta

A aguardada promessa O Lobo Atrás da Porta, do cineasta paulista estreante Fernando Coimbra, surpreendeu de maneira agradável na 37ª. Mostra de Cinema de São Paulo. O clássico triângulo amoroso já rendeu vários bons filmes pelas mãos de diversos cineastas pelo mundo, entre os quais os brasileiros Beto Brant e Renato Ciasca, no recente e denso Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios (2011), com Camila Pitanga arrasando. Coimbra incursiona também pela paixão entre três seres distintos neste instigante e desmistificante misto de suspense policial com drama familiar, que lhe rendeu o prêmio de melhor filme do Festival do Rio de Janeiro deste ano, dividindo a premiação com De Menor (2012), da neófita Caru Alves de Souza.

A trama tem no vértice a sensual e competente Leandra Leal, que encarna de forma despudorada a amante jovem instável de belo corpo Rosa. Nos outros extremos estão Sylvia (Fabíula Nascimento), no papel da esposa traída e vitimizada pela dor da perda; e o marido Bernardo (Milhem Cortaz- em grande forma, está num crescendo no cenário cinematográfico), encarnando o traidor do cotidiano e sem grandes compromissos amorosos, praticando apenas uma rápida escapadinha, como afirma para o delegado (Juliano Cazarré- ainda que num papel secundário, está impecável).

Aproveitando mote do romance proibido, o diretor busca desmistificar e lançar um olhar de imparcialidade para “A Fera da Penha”, personagem da década dos anos 60, ao mostrar as duas versões recorrentes sobre o rapto da filha do casal, em que o caso rumoroso do Rio de Janeiro lhe serviu de inspiração e não como uma adaptação simples do fato real, como afirmou no bate-papo após a apresentação do longa. Os depoimentos na delegacia são desencontrados dos pais da criança e não há verossimilhança plausível com as alegações da principal suspeita Rosa. Surge uma outra personagem na história, onde há uma suposta traição da mãe da garotinha, ao tenta-se inviabilizar cada vez mais o direcionamento das investigações policiais.

Coimbra não se debruça especificamente pelo ângulo do suspense policial e aos poucos a trama direciona seu foco para as versões e busca elementos intrigantes nas relações atribuladas da protagonista na sua paixão avassaladora pelo homem casado. Cria uma inusitada amizade insólita com a esposa traída e faz uma encenação que a coloca dentro da residência do casal. Simula situações estranhas e vai tomando conta e se adonando das peculiaridades da arquirrival e de sua filha na creche. Ao assumir a identidade de Sylvia, a lucidez começa a se esvair e a loucura vai se incrustando lentamente até atingir um grau máximo de descontrole e desatinos próprios de uma mulher desprezada.

O filme mostra aspetos típicos de um outro Rio de Janeiro, o lado menos conhecido e estigmatizado das estações de trens na zona norte suburbana. Foi lá que Rosa conheceu Bernardo e as mentiras se sucederam, desde o primeiro encontro, sob a alegação de não perdê-la e as invenções da amante para se aproximar de Sylvia. Há uma boa dose de densidade aos personagens evidenciados em cada cena que avança até o epílogo, fluindo em belas imagens de uma fotografia esplendorosa que fecha em algumas tomadas e abre em outras de dias ensolarados, nublados e chuvosos para acompanhar a transformação do romance. Estão bem secundados pelo som e a trilha sonora compatíveis e adequados ao clímax, entrecortadas por cenas apimentadas de sexo com um erotismo de muita sensualidade apanhadas por uma câmera estática à espera do amor, paixão e da loucura.

O drama familiar passa a ser o foco principal e vai crescendo aos poucos, numa clara premonição metafórica pela tempestade decorrente de um grande temporal com raios que desaba numa noite de amor entre as duas criaturas inseguras com o futuro. Soa como um final com tendência de tragicidade. O diretor inclina-se pela abordagem sem culpa específica e com um olhar de entendimento ao ser humano em confusão e com perda dos sentidos lúcido numa narrativa em flashbacks bem explorado. Mas há o fator do aborto a incomodar e cutucar a protagonista e sua visão de perda e insatisfação com uma realidade pessimista e sem perspectiva.

O Loba Atrás da Porta é um filme pungente e de bastante intensidade no seu desenrolar. Aborda o cotidiano de sons de batidas, gritos, o apito e o barulho dos trens entrando pela janela no encontro da amante e da esposa com magnífica discrição, sem causar medo da perda, diante da impossibilidade pelo desconhecimento da situação criada patologicamente para a reviravolta que o futuro reserva aos fantasmas que estão rondando. É criado um realismo cênico para dar um clima adequado na atmosfera de dor e revolta neste magistral drama angustiante de reflexão realizado por um cineasta promissor, que faz pensar e tentar entender o universo humano.

Debate em São Paulo

Após a exibição do filme, o diretor Fernando Coimbra e os atores Milhem Cortaz e Leandra Leal participaram de um bate-papo com o público. Durante a conversa, o cineasta falou que o caso real chamado de “A Fera da Penha”, nos anos 60, Rio de Janeiro, apenas serviu de inspiração e não adaptação para seu longa-metragem; quanto ao aborto não houve uma investigação profunda e apenas indícios de depoimentos, tendo em vista que houve muita pressão da imprensa e da sociedade para condenar a amante; achou na zona norte do Rio para um cenário de realismo com estação de trens; buscou um cenário diverso com sol, nuvens, chuva e sons do cotidiano para dar uma atmosfera consistente da transformação do caso; a trilha sonora e o som estavam harmonizados com o desenrolar da trama; entende que seu filme é mais um drama do que um suspense policial. Já a dupla de atores, Milhem e Leandra, reforçaram que o roteiro é muito maduro e que seguiram o que o diretor determinou, sem grandes invenções espontâneas, principalmente nas tórridas cenas de sexo.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Gravidade


















À Deriva

Não há os urros do gorila com o osso na boca atirado ao ar pelos homens das cavernas até as imagens futurísticas que metamorfoseiam uma nave para a reflexão do isolamento espacial, na antológica cena ao som da valsa espacial Assim Falou Zaratustra, de Richard Strauss, na obra-prima de ficção científica 2001- Uma Odisseia no Espaço (1968), dirigida espetacularmente por Stanley Kublick, para um saboroso mergulho no futuro da humanidade. Não havia na época os recursos sofisticados do 3D que dão suporte ao filme Gravidade, do diretor mexicano Alfonso Cuarón, reconhecido pelas obras E Sua Mãe Também (2001) e os hollywoodianos Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e Filhos da Esperança (2006), seu filme anterior.

Embora seja uma trama simples, Gravidade é um forte concorrente ao Oscar de 2014 e Hollywood aposta todas as fichas nesta obra ficcional muito superior a Avatar (2009), de James Cameron, mas bem aquém de Alien, O Oitavo Passageiro (1979), de Ridley Scott; Solaris (1972), de Andrei Tarkovsky; Guerra nas Estrelas (1977), de George Lucas, bem como não está nem próximo de 2001.., de Kublick. O filme tem como roteiristas o próprio Cuarón e seu filho Jonás, para uma produção orçada em US$80 milhões assinada por David Heyman. Mesmo que não comprometendo no todo, há demasias por alguns equívocos que refogem da livre licença poética criativa e vão de encontro ao bom senso, tornando-se em absurdos espetaculosos memoráveis como a queda livre do espaço até o mar, com a pronta e intacta recuperação da personagem transformada em heroína, após uma odisseia pelo espaço sideral flutuando no universo de estrelas, planetas e meteoritos em transformações desencontradas.

A trama tem bons momentos cinematográficos e é um filme realizado para ser visto especialmente em 3D. Conta a história de uma dupla de astronautas numa operação rotineira no lado externo da nave mãe, onde os personagens trabalham e ao mesmo tempo se divertem muito, com boas tiradas irônicas e sutis nos diálogos do veterano, já prestes a se aposentar, Matt Kowalsky (George Clooney) com a neófita, ainda em fase de adaptação, doutora Ryan Stone (Sandra Bullock- na melhor interpretação de sua carreira). Porém, um grave incidente é provocado pelos russos e coloca o ônibus espacial à deriva, deixando a dupla atônita, através de um clima sufocante e com uma agonia quase sem fim transmitida ao espectador no desenrolar do longa-metragem. Há méritos inegáveis nesta fase indefinida da obra ficcional, provocando ansiedade e expectativa quanto ao futuro do casal completamente perdido na imensidão do espaço.

Um filme que busca reforçar a luta pela sobrevivência, como uma ode de valoração à vida, coloca o espectador dentro da nave em algumas cenas tensas, já em outras é visto fora e flutua na estratosfera cósmica, mas em outras acompanha o drama dos personagens pela visão lateral do capacete, com movimentos horizontais e verticais da câmara para causar vertigens. Fica assim evidente o ar rarefeito e seus efeitos que causam uma respiração ofegante em Stone, que repassa para a plateia angustiada e sufocada pela falta de oxigênio, afastando a mera contemplação.

Cuarón é um diretor que não abusa da pirotecnia, embora pudesse fazer uso desmedido da técnica tridimensional, está contido e busca o equilíbrio sem ser omisso, estando aí uma das grandes virtudes como realizador. Usa os efeitos especiais adequados dentro de uma atmosfera num universo planetário a ser fustigado pelo homem que quer descobrir o enigma das galáxias. Um filme onde o silêncio é quebrado apenas pela música de fundo vinda de muito longe, diante da sutil e comovente cena da protagonista ouvindo latidos de cachorros e crianças sendo embaladas por cânticos de ninar na plataforma chinesa, que surge como símbolo da salvação e da solidariedade aos americanos, contrastando com a perversidade dos eternos inimigos russos.

Eis um filme de ficção científica com reconhecidos méritos, mas que contém algumas cenas previsíveis como da ciência inabalável e indestrutível, diante da fé ardorosa de um povo que nasceu para vencer. Obviamente que não falta o heroísmo desbragado pela paixão nacionalista sem limites, numa louvação de enaltecimento desproporcional do patriotismo salvador para um encerramento decorrente de uma situação inverossímil que se torna realidade e base de esperança, principalmente para os estúdios de Hollywood e sua vocação para o vitimismo inicial e os atos heroicos espetaculares no epílogo, ressalvando-se o clímax narrativo aprimorado. Talvez aí o mérito maior de Cuarón com a tensão sendo mantida, intercalada com algum humor para descontrair, mostrando uma realidade falsa advinda da ficção.

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Uma Primavera com Minha Mãe

















Vida e Morte

Stéphane Brizé surpreendeu muito bem com o exercício sobre a existência no cotidiano, ao abordar os conflitos familiares e as perspectivas na vida de um metódico pedreiro e uma professora no ótimo filme Mademoiselle Chambon (2009). Faz uma reflexão sobre a rotina que embrutece e a sombria amargura que toma conta do corpo do protagonista absorvido pela fantasia de uma derrotista visão inalcançável. O cineasta francês novamente retoma o tema, acrescenta a reinserção social e a eutanásia como subtemas, lançando um olhar pessimista sobre o ser humano e sua trajetória dilacerada por marcas de um passado neste fabuloso Uma Primavera com Minha Mãe, num retrato dolorido de profundas mágoas entre mãe e o filho na busca do perdão para o reconciliamento, dentro de um clima de desordem de relacionamento entre duas pessoas maduras, mas que beira a requintes de adolescentes conflitados e extasiados com a vida, numa atmosfera pouco alentadora de um futuro promissor.

Alain Evrard (Vincet Lindon- excelente no papel, não poderia ser outro para transmitir os sentimentos apenas pelo olhar; já brilhara em Bem-Vindo (2009), de Philippe Lioret e em Mademoiselle Chambon) é um ex-apenado que cumpriu 18 meses de prisão, que busca sua ressocialização e o reingresso no mercado de trabalho. Há enormes dissabores nesta fase e consegue apenas, por períodos curtos, serviços na reciclagem do lixo; e nos remete para o ex-assaltante e imigrante senegalês no longa Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache. O retorno à casa da mãe (Hèléne Vincent) é mais um desconforto, logo azedando as relações interpessoais na conturbada relação familiar. Surgem algumas mágoas da infância e o conflito estremece ainda mais com a descoberta por acaso do tumor maligno e com metástase nos exames da genitora, bem como sua ideia obstinada de abreviar a vida na Suíça, por livre e espontânea vontade.

A eutanásia é colocada no filme de forma direta e incisiva, sobre o direito de morrer e a escolha para não sofrer, discussão então vista às avessas no extraordinário O Amor (20012), de Michael Haneke; também recentemente no drama A Bela que Dorme (2012), do veterano Marco Bellocchio; e ainda no melhor de todos que é Mar Adentro (2004), de Alejandro Amenábar, ao abordar de forma direta um homem que luta para pôr fim à sua vida. É um tema polêmico e sempre há barreiras intransponíveis encontradas na sociedade, família e em especial pela igreja.

No drama francês não se discute tais situações e os ingredientes são outros e bem apimentados. Há uma passividade acachapante no filho pela sua frieza com o desenrolar dos acontecimentos, do prólogo até o epílogo, exceto na cena em que surta, como poucas vezes vista no cinema. Alain é um homem de poucas luzes e está num mundo diferente daquele vivido na infância, diante das circunstâncias decorrentes dos caminhos da vida. Encontra-se num beco sem saída com sua condição de ex-prisioneiro e a relação com as mulheres também lhe causa indignação pelo passado atormentador e desconfortável, como a mulher (Emmanuelle Seigner) que o ama e não consegue entender o que se passa, diante dos solavancos do estremecido affaire que vai sendo minado e afeta a continuidade, muito mais pela vergonha do protagonista do que da pretendente.

Uma Primavera com Minha Mãe é comovente e arrebatador com cenas magníficas, como o reencontro de mãe e filho para salvar o animal de estimação; ou na cena da janela, em que a velha senhora trava uma luta diária incansável pela dignidade de morrer, é observada com o carinho maternal reprimido e sufocado. Um filme dilacerante pelo realismo cênico de um desfecho que embrulha o estômago e dá uma sensação de impotência diante da doença terminal como a narrativa dramática para a reflexão sobre toda a agonia do ocaso sem volta. Instiga pelas relações sofridas entre dois seres desesperançados, emociona pela condução sem arroubos ou pieguismos baratos, num roteiro enxuto que destrói dogmas existentes dos defensores da vida a qualquer preço. Perturba pela sua essência direta rasgando a alma do espectador numa profunda amostragem sobre a morte e as consequências de seus vínculos e relações decorrentes de uma vida repleta de contratempos e solidão para uma decisão tomada com lucidez neste drama intimista e sem perspectiva para o ser humano. Eis um filme que se insere entre as melhores produções de 2013.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O Capital














Ascensão Inescrupulosa

O diretor grego naturalizado francês Constantin Costa-Gavras está de volta ao cinema com O Capital, demonstrando grande e calibrado poder de fogo, afiado e em boa forma para um cineasta octogenário, mestre do cinema de denúncia política, entre os quais os extraordinários Z (1968), Desaparecido- Um Grande Mistério (1982) e do bom Amém (2002).

O drama tem o roteiro baseado na obra de Stéphane Osmont, um executivo que passou por várias instituições financeiras fortes e dominadoras da Europa. É dele os relatos instigantes sobre os movimentos bancários e os jogos de poder e fama beirando a inverossimilhança, mas que são reais e cruéis. Doa a quem doer. São armações políticas abjetas e nefastas, tendo no protagonista Marc Torneuil, interpretado magnificamente pelo ator marroquino Gad Elmaleh, conhecido por atuar em Meia Noite em Paris (2011), de Woody Allen e A Espuma dos Dias (2013), de Michel Gondry. É uma espécie de continuação do tema abordado no filme O Corte (2005), onde um executivo demitido de um emprego estável, decide matar todos os concorrentes à uma vaga que lhe surge como opção viável ao trabalho.

Marc é um homem talentoso e braço forte do presidente do fictício banco francês Phenix, seu método de trabalho é autoritário e domina como poucos as artimanhas financeiras, fazendo-o ascender à presidência com o intuito de conduzir a instituição ao primeiro lugar no cenário mundial. Não tem escrúpulo e o jantar com a família e parentes próximos, ao ser interpelado pelo tio, que não se conforma e demonstra insatisfação com os métodos de demissão em massa de funcionários, sob o amparo de alavancar o poderio da empresa que dirige, torna a cena reveladora por tirar a máscara do sobrinho. Deixa-o perplexo com a ousadia sincera e humana de uma pessoa humilde que não pensa somente em dinheiro e mantém arraigados valores éticos. Chega a ser constrangedor o modo como se afasta e vai embora daquele aprazível lugar íntimo, com afeto e de extrema franqueza.

O filme retrata o mergulho do protagonista no mundo voraz de um capitalismo selvagem e desenfreado, ao alcançar o topo do banco com saúde financeira debilitada, diante da grave enfermidade do então presidente, que viria o escolher para sucedê-lo. Logo é implementado uma ciranda de negócios e trapaças para despencar a bolsa de valores, com olhos na aquisição de um banco japonês falido, depois de algumas tratativas em Miami, com um deslumbrante cenário de iates e lindas mulheres, tudo regado com champanhes e iguarias nos banquetes de festas fascinantes. Marc faz uso do símbolo capitalista no passeio pelas ruas, inspirado no longa Cosmópolis (2012), de David Cronenberg, ao se colocar acima dos mortais trancafiado dentro de sua limusine blindada, uma espécie de bunker.

Costa-Gavras mostra uma criatura que se eleva por meios malvistos e começa a perder seus valores éticos e morais. Entra em choque direto com diretores, conselho e acionistas minoritários, mas procura minimizar seus atos. O corte na carne é inevitável e as demissões se avolumam com consequências inimagináveis, causando visões alucinantes de pessoas com graves dificuldades de sobrevivência que se confundem com uma realidade de corrupção decorrente de um fundo de investimento nos EUA. É um panorama do que acontece não só em bancos, mas que também pode ser estendido a grandes empresas de várias atividades com suas negociatas, bem como numa abordagem sobre a concorrência desleal, onde executivos são treinados para dirigir de maneira fria, impessoal e insensível para um mundo que se esboroa, num embate árduo entre o poder e a culpa.

O Capital é uma referência ao best-seller homônimo de Karl Marx e a irônica política revolucionária de Mao Tsé-Tung na China, sendo o filme conduzido com sarcasmo arrebatador, com tintas de lesão grave ao humanismo e suas perdas, sem deixar de abordar e enfocar com energia o comportamento dúbio do protagonista ao ascender profissionalmente. Há impagáveis tiradas com requintes perversos dentro de uma ironia devastadora como “roubar dos pobres e dar aos ricos”. Mas é fulminante e vai ao cerne da questão, ao observar uma diretoria e um conselho extasiados com o ápice do banco, solta a pérola derradeira “continuam a se divertir como crianças, até que tudo se exploda”, com a providencial elipse da cena, entrando um futuro em preto e branco como resultado de uma catástrofe metafórica. Um drama fabuloso do genial cineasta em retorno retumbante com o consagrado formalismo típico e necessário para uma obra singular.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

O Tempo e o Vento



















Epopeia Gaúcha

Jayme Monjardim estreou no cinema como diretor do razoável drama biográfico Olga (2004). Antes, sua carreira é marcada por dirigir novelas: Pantanal (1990), Viver a Vida (2009) e minisséries para a televisão: Chiquinha Gonzaga (1999), A Casa das Sete Mulheres (2003). Está de volta à sétima arte com a nova adaptação de O Tempo e o Vento, uma superprodução orçada em R$13 milhões, com locações em Bagé, no RS. Um filme com belas imagens do pampa gaúcho, semelhantes aos faroestes clássicos de Hollywood, numa esplendorosa fotografia de Afonso Beato, captando cenas de beleza plástica radiante como pinturas impressionistas da natureza e suas paisagens sensoriais.

O cineasta aborda superficialmente a epopeia farroupilha, quando o Rio Grande do Sul entrou em conflito com o resto do país, buscando a separação para tornar-se independente. É criada a República Riograndense no período de 1835 a 1845. Na época o Brasil era governado pelo Regente Feijó e a Guerra dos Farrapos explodiu como uma revolta épica, embora com consequências trágicas, com um saldo de milhares de mortos, onde não houve vencedores, somente vencidos. Eram tempos difíceis pelas graves crises econômicas do centro do país com reflexos no Sul no século XIX.

Monjardim se baseou no livro O Continente, da trilogia de O Tempo e o Vento, de Erico Veríssimo, com roteiro da dupla de escritores Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski, sem demonstrar os ideais ou causas da revolução gaúcha, esquecidos voluntariamente, embalados pela trilha sonora assinada por Alexandre Guerra, para contar o romance entre Rodrigo Cambará (Thiago Lacerda) e Bibiana Terra (Fernanda Montenegro faz a idosa e Marjorie Estiano a jovem). A mocinha do longa-metragem é neta da fogosa Ana Terra (CléoPires) e do índio Pedro Missioneiro (Martin Rodriguez). Bibiana vai relembrando em sua aguçada memória a trajetória da família Terra e particularmente seu grande amor por Rodrigo, um jovem festeiro, contumaz jogador de carteado, que gostava de uma boa briga, pai ausente e mulherengo ao extremo e seu litígio com o patriarca Ricardo Amaral (José de Abreu), bem como o tirano coronel Amaral Neto (Paulo Goulart). A presença espiritual do rapaz não lhe é incômoda e em flashbacks vai rememorando todo o passado de amor, guerra, rivalidade política, traições e duelos memoráveis pela honra com adagas, dentro da fictícia cidade de Santa Fé, criada como símbolo dos grandes embates no clássico literário por Veríssimo, numa ideia de demonstração de como foi criado o Estado gaúcho.

O filme peca pelos excessos de explicações didáticas sobre o romance do casal central de protagonistas e as decorrências que resultaram na Revolução dos Federalistas no Rio Grande do Sul, no fim do século XIX, sendo contado de maneira burocrática todos os acontecimentos. É uma forma já manjada e nada criativa, foi também usada no longa Colegas (2012), de Marcelo Galvão, ao esbarrar no equívoco de narrar na primeira pessoa, através do jardineiro (Lima Duarte). Monjardim se utiliza de Fernanda Montenegro para discorrer sobre o óbvio, que em nada acrescenta, ou melhor, mais atrapalha e obscurece o clímax, ao dizer aquilo que o espectador está vendo na tela, como em filmes infantis ou uma narração de futebol pela TV.

O épico gaúcho é conduzido para uma mescla de dramalhão com novelão global. Os acontecimentos históricos ficam num plano secundário e a história da Revolução Farroupilha não é aprofundada. Há ênfase exagerada no romance do casal de protagonistas, acompanhando o relacionamento e a trajetória dos Terra Cambará por 150 anos, com passagens rápidas pela Revolução Federalista de 1893. Tudo é contado com simplicidade, sem esforços maiores, deixando para as metáforas pragmáticas as soluções ou explicações: utiliza o pôr do sol para dar passagem ao tempo; ou os ventos que trarão as lembranças de mortes que se prenunciam.

O Tempo e o Vento é um filme com defeitos de estrutura e continuidade, ao abusar dos corriqueiros e exaustivos flashbacks das recordações inconsistentes de Bibiana, dividindo com o amado ao seu lado, mas em formato ainda como soldado juvenil que, como um bom fantasma, apenas escuta e se diverte. Uma epopeia que se torna enfadonha e sem perspectiva de uma elaboração burilada, ou ainda com um resultado que não fosse trivial e previsível como o epílogo de happy end novelesco; ou de faroestes inexpressivos, sem uma direção de mão firme, contrastando com as imagens pampeanas inesquecíveis. Muito espetáculo e pouco conteúdo de força narrativa é o que fica como legado deste irregular épico da mitológica saga dos farrapos.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

A Sorte em Suas Mãos
















O Reencontro

Foi promissora a estreia como ator no longa-metragem A Sorte em Suas Mãos, com direção do consagrado Daniel Burman, do cantor e compositor uruguaio Jorge Dexler, mais conhecido por vencer o Oscar na categoria de melhor canção Al otro lado del río, no filme Diários de Motocicleta (2003), de Walter Salles. Ao interpretar o papel do personagem Uriel, numa construção exemplar de um homem recém-divorciado que passa boa parte de sua vida jogando pôquer nos cassinos, um vício que não consegue se livrar facilmente. Divide o tempo com suas duas filhas pré-adolescentes e não gosta do emprego que herdou do pai: uma financeira, a qual está no comando, porém diz aos desconhecidos que é um produtor musical de grandes shows.

Valeria Bertuccelli interpreta Glória, o grande amor do protagonista, numa atuação soberba desta atriz que está num mesmo nível de importância a Ricardo Darín na Argentina, pelo grau e conjunto de suas irrepreensíveis atuações em vários longas, tais como: Clube da Lua (2004), de Juan José Campanella; XXY (2007), de Lucia Puenzo; Chuva (2008), de Paula Hernández e Viúvas (2011), de Marcos Carnevalle. Há inclusive um tributo ao famoso ator, sendo reverenciado com cartazes anunciando um de seus filmes.

A mentira está inerente nesta bela comédia romântica com tons de equilibrada e sutil dramaticidade. Nem a namorada, uma paixão da juventude que reencontra por acaso em Rosário, escapa do sonho neurótico e perturbador de Uriel, enredado com a opção de realizar uma vasectomia para não engravidar uma de suas tantas conquistas fortuitas, mas na realidade, seu drama é ter que recomeçar e ser pai novamente. Glória também vem de um fim de relacionamento com um homem esquisito e pouco sensível, como demonstra no funeral do pai da jovem. A reaproximação dos dois seres culmina com o envolvimento emocional e o que eles mais querem nesta nova fase é namorar tão somente, sem sexo, ir ao cinema, andar de mãos dadas e abraçados pelas ruas, dar e receber flores e chocolates, para fortificar este vínculo no atual estágio do romance.

Burman é um diretor tarimbado e deixa fluir seu talento novamente, como já o fizera antes na trilogia dos problemas inerentes aos laços familiares e o microcosmo sobre os seus conflitos dentro do universo judeu como pano de fundo, usos e costumes, tradição e religião, mantendo um coerência bem demonstrada em Esperando Messias (2000), O Abraço Partido (2004) e completando com o melhor dos três e mais maduro As Leis de Família (2006). Surpreendeu positivamente com o ótimo Ninho Vazio (2008), pela abordagem do casal que se reinventa, falando da morte após a partida dos filhos de casa para seguirem suas vidas e darem continuidade aos seus futuros, diante do tédio do lar com a ausência dos filhos, refletindo sobre o existencialismo e o sentido da vida, em sequências bem dolorosas. Posteriormente vem o bom drama Dois Irmãos (2009), sobre a terceira idade e seus dissabores pertinentes.

O estilo do cineasta argentino é próprio de um diretor tipicamente de ator, embora haja muito de inspiração nas comédias de Woody Allen, onde estão presentes as neuroses, a solidão e as perdas na vida. A Sorte em Suas Mãos mantém uma narrativa consistente e amplamente convincente no aspecto emocional e estrutural de personagens sólidos na criação psicológica, demonstrando as fraquezas do ser humano, porém são pessoas que buscam uma nova chance com fibra. Como se vê na importante e significativa figura materna interpretada por Norma Aleandro, que nos remete para os dramas de Pedro Almodóvar, numa personificação soberba de uma mãe veterana independente como mulher e seu novo amor. Está impagável na cena em que revela ter o ex-marido, pai de sua filha, pouco a acrescentar no futuro como homem, embora lamente sua morte. Dói, mas diz com pouca ternura e com olhos brilhando no horizonte.

Um filme com personagens de carne e osso que funcionam como elementos essenciais e são despidos com sensibilidade, apresentando suas dores e medos futuros numa Buenos Aires cada vez mais cosmopolita. A solidão está presente e soma-se às perdas que ficaram pela trajetória da vida, nesta comovente comédia deste cineasta atento e com um olhar às mudanças comportamentais em sua aldeia, através de reflexões com a leveza contumaz das suas obras sobre o universo familiar.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Eu, Anna



Relação Misteriosa

Vem do estreante cineasta inglês Barnaby Southcombe o suspense Eu, Anna, rodado em Londres, com toques e reviravoltas ao estilo consagrado do mestre Alfred Hitchcock. Deixa o espectador confuso das ideias e muitas vezes se vê conduzido para uma solução aparentemente simples, porém logo é revista e o envolvimento é superado por outra hipótese ainda mais imaginária. Há méritos em torno da expectativa criada ao suposto acusado e as mudanças da trama sugerem um tom investigativo de dados de confiabilidade duvidosa como nos bons policiais.

A história do filme é complexa, gira e dá boas guinadas no roteiro, mas já no prólogo apresenta um casal que se cruza e troca olhares lânguidos num elevador. Os personagens vivem situações bem diversas em suas andanças antagônicas. O inspetor-chefe Bernie (Gabriel Byrne- de convincente interpretação) investiga um crime misterioso e de difícil solução, tendo em vista que a vítima é poderosa e pode estar ligada à rede de tráfico e com muitas pessoas dentro de um esquema forte de distribuição de drogas. Tenta desvendar o enigma, embora exista um forte suspeito do assassinato, há dissimulações no roteiro que causam dúvidas. E não falta o surrado interrogatório policial com acusações, revides e juras de vingança.

Do outro lado da trama está Anna (Charlotte Rampling- de atuação marcante e de notável performance física e dramática), no papel de uma vendedora de uma loja de móveis, com mais de 50 anos, bonita, charmosa e divorciada.Mora com a filha e a neta num apartamento de classe média. Seu passatempo é frequentar um clube de solteiros, com a esperança de refazer sua vida mergulhada numa imensa solidão e com um trauma do passado que lhe atormenta e corrói seus pensamentos com um instigante sentimento de culpa. Os fantasmas da mulher são decorrentes de uma situação inusitada de um destes encontros fortuitos e sem vínculo emocional afetivo, com consequências trágicas do acaso.

Do encontro inusual de Anna e Bernie com algumas saídas, logo cresce e atinge um amadurecimento dentro de uma relação afetiva e romântica, com telefonemas e suspiros próprios de dois adolescentes. A investigação fica prejudicada e o clima de tensão evolui com as descobertas e revelações bem hitchcockianas, num filme com boa construção e o suspense num contexto de emoção contida e acertada, sem se afastar do ponto certo de um equilíbrio mesurado. A trilha sonora é adequada e não chega a interferir no clímax exato do desenrolar da trama. Porém é difícil imaginar o filme sem Charlotte e sua atuação esplendorosa, uma diva ao melhor estilo do bom cinema, que emociona ao falar com os olhos e dá o ritmo positivo com seu andar de estrela.

Eu, Anna surpreende pelo conjunto da produção equilibrada deste diretor novato, mas que deixa um indicativo de ser promissor, num filme bom e bem realizado, com surpresas sem exageros ou excessos, eficiente por contagiar o espectador, deixando aflorar sutilmente as circunstâncias que poderão ser reveladas, em face da abordagem com domínio amplo sobre o que demonstra.

Eis um longa-metragem de suspense policial mesclado com um drama existencial, que faz refletir sobre a culpa e o passado, diante da iminência da perda do domínio do poder. São retratadas nas cenas que mergulham em situações complexas do envolvimento dos protagonistas pelo esvaimento da lucidez e com uma suposta ausência de imparcialidade na investigação. O abalo emocional destrói a razão que é jogada num plano secundário.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Boa Sorte, Meu Amor















Amargo Romance

A cinematografia pernambucana é um polo fortíssimo de produzir e a safra inesgotável traz mais uma obra, desta vez com a assinatura do estreante Daniel Aragão, realizado em 2012, Boa Sorte, Meu Amor foi ganhador do prêmio de melhor filme do júri jovem do Word Cinema Amsterdam. É uma abordagem sobre o presente e um passado bem próximo do urbano contrastando com a zona rural que aparentemente ficou para trás. Um relato em três atos sequenciais, com alguns exageros técnicos sobre duas vidas oriundas do Sertão de Pernambuco que se encontram por acaso na noite da badalada Recife. A cidade sofre com suas construções desenfreadas, passando por cima de um plano diretor inexistente e sem planejamento imobiliário que acena para um novo perfil com arranha-céus majestosos.

O drama enfoca uma jovem apaixonada pela música e que tem no piano sua válvula de escape para lutar pela vida, tal qual Frances adorava a dança e pretendia ser bailarina profissional na comédia Frances Ha (2012), de Noah Baubach. Maria (Christiana Ubach) encontra numa noite qualquer o playboy Dirceu (Vinicius Zinn), um aristocrata em plena decadência financeira que trabalha numa empresa de construção. Aragão mostra os dois assistindo a transformação predatória da Capital dos pernambucanos, como uma mudança iminente de um cenário do futuro. Estão complacentes com tudo o que veem, tal qual um espelho que reflete nas águas e muda os destinos de toda uma população inebriada.

O longa começa contando a história dos horrores que o barão, tetravô de Dirceu, praticava com as indiazinhas, exceto uma que sobreviveu e assumiu o lugar da tetravó ao morrer. Mostra como uma mulher inteligente usa de suas astúcias na cama para conquistar um homem, numa época de senhores usineiros donos de terras que tinham o poder absoluto e incontestável, repassado aos descendentes que carregam no sangue e nas costas uma culpa ancestral.

O terceiro e último ato busca dar uma solução para o relacionamento tortuoso do casal em Recife, advindo de uma relação às avessas, decorrente de uma errante paixão que beira a inverossimilhança. Onde está Maria? O playboy tira a máscara e vai tentar encontrar a amada na zona rural, numa espécie de busca das raízes no Sertão que ficaram para trás. Um mergulho no passado e o encontro com pessoas pobres e desesperançadas numa casa humilde dos familiares da moça. Prevalece a pouca conversa e sem respostas para as perguntas, como um ato de redenção e culpa. Uma busca quixotesca e com passagens simbólicas como: o cavalo que morre no meio da rua; ou do garoto que some dentro d’água num lago; e ainda a senhora que não enxerga por estar com a visão tapada.

Eis um filme que está longe do fabuloso O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, que lhe rendeu o prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, na Holanda, o Kikito em Gramado de melhor direção de 2012 e o título de melhor filme no Festival do Rio, ou do bom e instigante Na Quadrada das Águas Perdidas (2011), de Wagner Miranda e Marcos Carvalho; bem como de Árido Movie (2005), de Lírio Ferreira; Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Era uma Vez Eu, Verônica (2012), ambos de Marcelo Gomes; Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011), de Cláudio Assis.

A fotografia em preto e branco está se tornando rotineira novamente. Vários são os filmes que usam desta técnica como desculpa para o realismo cênico, embora nem sempre o resultado seja o esperado, como neste Boa Sorte, Meu Amor, com imagens completamente desfiguradas e sem nitidez. Porém, muitos filmes foram exitosos e se justificou a falta de colorido, entre eles Branca de Neve (2012), do espanhol Pablo Berger; ou no oscarizado O Artista (2011), do francês Michel Hazanavicius; e ainda no fabuloso Tabu (2012), do português Miguel Gomes, e por último a comédia Frances Ha. Para corroborar com os desacertos da produção, uma escolha de elenco decepcionante, pois tanto Chistiana como Vinicius estão frágeis em suas interpretações do casal amargurado. Ambos estão fora de sintonia com o drama, sem expressão dramática razoável, estando mais para dois zumbis flutuando pelo cenário.

O cineasta perde-se em alegorias, simbologias metafóricas e a utilização da não-narrativa de várias formas em encontros e desencontros na Capital, para ir até o Sertão. Glauber Rocha demonstrara bem em seu inventivo cinema novo com metáforas soberbas sobre a seca e a aridez das caatingas e a morte dos animais por falta de água. Há uma falta de fluidez do drama com soluções estéreis e confusas, passando longe do pragmatismo que pudesse levar a conclusões lógicas. Optou por um apuro técnico e a inclusão de planos e contraplanos excessivos, onde até o silêncio extrapola o bom senso e ao invés de uma reflexão sobre os contrastes de poder e a sobrevivência, acaba por soçobrar diante de um enfadonho experimentalismo que leva a lugar nenhum. Faltou cinema e principalmente emoção no existencialismo sonolento de uma nostalgia ultrapassada.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Na Quadrada das Águas Perdidas














Um Homem Só

A produção pernambucana Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, foi o grande vencedor do Festival de Gramado deste ano, por melhor filme, ator e trilha sonora. Pernambuco está num grande momento atualmente no cinema, tendo produzido Árido Movie (2005), de Lírio Ferreira; Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Era uma Vez Eu, Verônica (2012), ambos de Marcelo Gomes; Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011), todos de Cláudio Assis; além do badalado O Som ao Redor (2012), do ex-crítico de cinema e diretor Kleber Mendonça Filho, que lhe rendeu o prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, na Holanda, o Kikito em Gramado de melhor direção de 2012 e o título de melhor filme no Festival do Rio.

Vem deste Estado que mais produz cinema nos dias atuais o filme Na Quadrada das Águas Perdidas, dos diretores estreantes Wagner Miranda e Marcos Carvalho, uma produção de 2011 que recebeu mais de 15 prêmios no Brasil e Exterior, com o título retirado de um disco de Eleomar Figueira de Melo, de 1978, traz uma reflexão sobre a solidão no árido Sertão nordestino. Com um único ator na história, num longa sem diálogos, captando apenas os sons da mata e dos animais de Olegário, vivido esplendidamente o monólogo por Matheus Nachtergaele, num desempenho impecável.

A trama é um misto de drama com aventura, mas prepondera mesmo é o tom documental para salientar ternura nas agruras da saga do protagonista que abandona sua choupana de barro coberta de palha. Embrenha-se na Caatinga dentro de uma destroçada carroça puxada por um jegue esquálido; dois bodes subnutridos que pretende trocar por mantimentos, mas com o imprevisto na sua andança, resta apenas um; e o cachorro vira-lata como seu fiel escudeiro; além da figura invasiva acompanhada de maus agouros, está sempre presente o indesejado urubu e seu olhar de carniceiro, como se fosse uma assombração espreitando a próxima vítima. Há ainda outras perdas pelo caminho e a caravana da miséria vai aos poucos se deteriorando para o sertanejo.

Um filme sobre a solidão e a forma de manter-se vivo no interior daquele lugar inóspito, numa metáfora sobre a sobrevivência que vai surgindo e levando nosso anti-herói para seu objetivo inicial de buscar iguarias básicas para alimentar-se. Bebe água das folhas de cactos, come caça, mel da mata, folhas e o que aparecer para o sustento, onde o exotismo de alguns animais selvagens contrastam com os dóceis acompanhantes do indivíduo sobrevivente, numa bonita fotografia e com o embalo da bonita trilha sonora assinada pelo Grupo Matingueiros, Geraldo Azevedo e Eleomar Figueira de Melo na trajetória de Olegário pelo Sertão desprovido de vida na sua essência, exceto o reino animal que se reproduz e encanta pela sua natureza pródiga.

Na Quadrada das Águas Perdidas é rodado num cenário tipicamente rural, longe da civilização urbana, como se fosse uma homenagem aos filmes de Glauber Rocha e seu inventivo cinema sobre a seca e a aridez das caatingas e a morte dos animais por falta de água. A odisseia de um homem solitário que não se cansa da vida e suas dificuldades apresentadas, que sonha em ser rei, se vê montado num cavalo reluzente e altaneiro.

Não há necessidade da fala, pois os devaneios das noites mal dormidas em qualquer canto lhe dão esperança em se manter vivo. Um bravo homem e sua luta com uma garra impressionante, quando solta gritos como silvos de serventes em forma de protesto dentro de uma fauna e flora que lhe são intimas. São sustentadas por imagens desprovidas de uma linguagem convencional, nesta apreciável obra de reflexão do processo evolutivo, no espaço e no tempo, vista com sensibilidade sensorial, num drama que reflete a preocupação do cinema autoral e fundamentalmente um filme silencioso que capta os barulhos externos.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Frances Ha















A Bailarina

Em seu último longa-metragem Francis Ha, Noah Baubach dirige e é coautor do roteiro com a sua atual namorada, a promissora atriz Greta Gerwig, que surgiu com força pelas mãos de Woody Allen, em Para Roma, com Amor (2012). O cineasta ficou conhecido pelas comédias dramáticas A Lula e a Baleia (2005), indicado ao Oscar na época pelo roteiro original, e O Casamento de Margot (2007), um gênero que desenvolve com classe e retorna novamente em ótimo estilo. Tem na protagonista que dá nome ao filme a interpretação irretocável e soberba de Greta no papel de uma jovem de 27 anos, moradora de um subúrbio de Nova Iorque que sonha em ser bailarina profissional, uma meta difícil pela sua idade já considerada avançada para uma aluna de uma companhia, tendo em vista que ainda não desabrochou e sequer teve o reconhecimento esperado pela professora coreógrafa.

A trajetória gira em torno do dia a dia de Frances, que mora praticamente de favores de amigos, por não ter imóvel, numa vida ainda sem uma definição profissional, embora tenha uma meta na cabeça dentro de um sonho juvenil na busca do sucesso, num devaneio típico de quem busca alcançar um objetivo quase que impossível. Tem na melhor amiga Sophie (Mickey Summer) a pessoa ideal para ouvir seus lamentos e frustrações decorrentes dos conflitos do cotidiano, ou ainda estar presente nos momentos de alegria intensa quase rara, ou na maioria das vezes nas tristezas que se revelam com o passar do tempo, advindos de fracassos pela ambição brecada e sem evolução. Há uma tonalidade melancólica e até um pessimismo na trama, embora sem excessos melodramáticos que são bem contidos com vigor de equilíbrio elogiável.

Um filme apreciável e surpreendente pela qualidade de um resultado com autonomia pela busca da dignidade e da delicadeza da personagem em seu conteúdo que retrata a redenção das desventuras e uma afetividade sutil de uma jovem perdida, que encontra um mundo adverso do idealizado. E o diretor acerta em cheio ao filmar em preto e branco nesta tendência de obras recentes como Branca de Neve (2012), do espanhol Pablo Berger; ou no oscarizado O Artista (2011), do francês Michel Hazanavicius; e ainda no fabuloso Tabu (2012), do português Miguel Gomes. Há o realismo cênico marcante de origem na escola francesa nouvelle vague e o seguimento magnífico difundido por Woody Allen, como no notável Manhatann (1979), quando um escritor divorciado é constrangido pela ex-mulher que decide viver com uma amiga e publicar um livro, no qual revela assuntos particulares do relacionamento deles.

Os diversos locais que passou a protagonista vão encaixando-se na comédia. Começa no bairro Tribeca de Nova Iorque e chega a Paris, um sonho que traz desde criança, bem como na expectativa de conhecer Tóquio, por onde passou Sophie e o amado. Há um lirismo bem dosado e com uma trilha sonora fascinante de Georges Delerue e especialmente a canção Modern Love, de David Bowie, que também esteve presente no longa Sangue Ruim (1986), de Leon Carax, num tributo ao cineasta francês. Deixa de certa forma a comédia mais leve, menos densa e coloca o espectador dentro da história como um parceiro do drama pessoal da aspirante ao profissionalismo e sua obstinação pela dança e o sonho do estrelato.

Frances Ha é uma comédia de linguagem simples, mas eficiente e que tem os ingredientes necessários para torná-la dramática e não frustrar os cinéfilos mais ambiciosos. Um filme sobre os sonhos a serem realizados e a amizade de duas mulheres, onde a protagonista revela toda sua fraqueza psicológica e, ao mesmo tempo, cresce em outras cenas, como nas peripécias solitárias pelo mundo. Uma instigante realização deste cineasta que se firma no cenário internacional como um diretor autoral, que demonstra intimidade com a câmera e possibilita um elenco leve, deixando o filme fluir através da espontaneidade dos atores. Lança um olhar para o mundo globalizado que cada vez mais tem menos espaço para a juventude, embora não tão pessimista, ao deixar metaforicamente na revelação do nome de Frances uma saída, como se estivesse abrindo uma janela para o futuro.