terça-feira, 23 de outubro de 2012

Mostra de Cinema São Paulo (Tabu)






















Tabu

Surgiu um outro forte candidatíssimo ao melhor filme da 36ª. Mostra de Cinema de São Paulo deste ano, o extraordinário longa-metragem português Tabu, dirigido pelo já considerado jovem experiente diretor Miguel Gomes, de apenas 40 anos. Obteve os prêmios da Federação Internacional da Imprensa Cinematográfica e da inovação (Prêmio Alfred Bauer) no Festival Internacional de Berlim, em fevereiro de 2012. Tem na sua filmografia cinco curtas-metragens e outros dois longas elogiados, como A Cara que Mereces (2004) e a obra-prima Aquele Querido Mês de Agosto (2008), que gira em torno dos acasos e das situações genéricas e peculiares de uma região, com seus belos fados portugueses e suas idiossincrasias regionais, deixando-se levar pelos truques surpreendentes e absorver este filme lusitano de uma remodelada forma de fazer cinema, com sua tradição e os conflitos pessoais surgidos no enredo.

Ao se falar em cinema de Portugal, logo se pensa em Manoel Oliveira, o maior diretor da história daquele país. Porém, há outras cabeças pensantes e com grande imaginação cinematográfica, como por exemplo Miguel Gomes, antes de tudo um cineasta competente e autoral, de alto grau de criatividade estética. Em seu último filme tem como trama uma idosa temperamental, a empregada oriunda de Cabo Verde e uma vizinha dedicada para as causas solidárias e sociais. O cenário inicial é um andar de um prédio em Lisboa. Tão logo morre a senhora, as outras duas protagonistas passam a conhecer melhor o passado da misteriosa vizinha falecida e um episódio sobre uma história de um grande romance e um crime passional numa África repleta de aventuras e desavenças.

O longa é dividido em duas partes, sendo que a primeira segue uma linha de apresentação das personagens propriamente dita, onde a idosa dá sinais evidentes de bipolaridade e um discreto delírio persecutório, invocando rituais e feitiços teoricamente feitos pela empregada negra, o que se revelará na segunda parte todas as acusações alucinatórias, pelo passado que se remete para a África, onde morava no Monte Tabu. Era filha de uma família aristocrata, mas com problemas terríveis de relacionamentos e com suicídio de um membro familiar, uma moça mimada, paparicada e com gostos duvidosos, com a obsessão por crocodilos.

O filme é em preto e branco, o que dá uma beleza controvertida e cria um clima de tensão na segunda parte, com a narração firme na primeira pessoa do grande pivô do amor proibido e causador de estragos irremediáveis na aldeia, desencadeando uma guerrilha entre as raças ali existentes, onde os africanos estavam em maioria e aos poucos dão mostras do que querem e podem como fica caracterizado nas entrelinhas do drama. Gomes demonstra ser um artesão na captação de sons e as belas imagens da região das savanas com seus locais pitorescos e bucólicos. É bem ilustrado na cena da piscina rudimentar, onde o triângulo amoroso está prestes a eclodir numa desesperada saída pela fuga, embora as circunstâncias sejam todas desfavoráveis e contrárias a grande paixão proibida, já revela sua intenção metafórica da invasão de desconhecidos e predadores a um universo aparentemente calmo e inofensivo.

O diretor busca na banda sonora a sua essência para afastar os fantasmas que teimam em permanecer, demonstrando com clareza a refutação do indivíduo invasor nas canções, pois o som não é dependente da imagem, busca a pessoalidade e não o experimentalismo da suposta amizade entre rivais, embora haja e esteja implícita a renovação e o desagregamento familiar. A efetivação do grupo musical e suas meteóricas apresentações surgem como por acaso num inusitado triângulo das relações afetivas, assim como houvera no longa anterior Aquele Querido Mês de Agosto, onde havia um clima de dor e morte no ar entre um pai, sua filha e o primo da menina, integrantes de uma banda folclórica portuguesa. Gomes usa musicalidade para se comunicar e estabelecer um elo de relação e construção de personagens doloridos e vítimas do tempo e das paixões irrefreadas no mais absoluto formalismo estético.

Tabu é antes mais anda uma elaboração sequencial de planos com elipses perfeitas dos desatinos na busca da elucidação dos segredos do passado construídos pela grande decepção amorosa decorrente de uma retórica proibitiva em sintonia com as mazelas de uma aldeia africana, com sua pobreza e a luta para emancipar-se. Um filme fabuloso de personagens fortes em sua construção, embora fragilizados pelas circunstâncias que dão consistência para este imperdível drama traumático familiar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Mostra de Cinema São Paulo (Os Selvagens)














Os Selvagens

Outro filme que decepciona 36ª. Mostra de Cinema de São Paulo é Os Selvagens, também exibido na Semana da Crítica no Festival de Cannes deste ano. Vem da Argentina em formato de um misto de faroeste com drama rural, tendo na direção o estreante em longas Alejandro Fadel, que já dirigiu três curtas e foi corroteirista de Pablo Trapero em Leonera (2008), Abutres (2011) e o inédito Elefante Branco (2012).

A trama gira em torno de cinco adolescentes que fogem de um reformatório de uma província na Argentina. O diretor centra nos quatro rapazes e uma moça sempre drogados na busca da almejada liberdade para dar continuidade às suas vidas marcadas por crimes, roubos e assassinatos de familiares. Fadel não consegue manter a intensidade da dramaticidade como no longa iraniano O Caçador (2010), de Rafi Pitts, onde o protagonista tem como passatempo se embrenhar na floresta e caçar para aliviar as tensões do trabalho e o estresse da vida cotidiana e monótona para buscar a paz entre as árvores e a caça como entretenimento e refúgio de dias passados atrás das grades e uma tragédia que se prenuncia.

Os Selvagens começa com bastante fôlego na peregrinação dos garotos por dentro de uma floresta com mais de cem quilômetros. Eles buscam uma saída andando a pé, demonstrando fatiga e divergências de lideranças dentro do grupo. Caçam porcos do mato, também conhecidos como javalis, comem galinhas, entram em casas antigas para roubar e matar a sangue frio, sem dó e nem piedade, sempre sob o efeito de drogas potentes como a cocaína. Mas o cineasta erra a mão e torna este longa, que tinha tudo para ser um bom filme, em apenas uma realização razoável diante de seus enormes defeitos estruturais e frágeis, embora tivesse uma proposta abrangente de seres atormentados e em fuga pela liberdade na busca de um espaço. Ao mesclar a coragem com buscas espirituais e alguns rituais que se tornam enfadonhos, tentando acreditar em mudanças sobrenaturais. Surge ainda a patética figura do homem eremita com a bandeira surrada da Argentina hasteada em sua casa fincada no meio do matagal, apenas balbucia que matou uma jovem que perguntava demais. Fica como uma peça solta da engrenagem à deriva de um roteiro esfacelado.

Não houve uma reflexão e sequer uma análise mais profunda das causas e efeitos daqueles jovens que passaram a conviver como silvícolas, exceto algumas insinuações pueris. Ou na construção psicológica do abrutalhamento de seres animalescos, embora juvenis, ainda que demonstrando ligeira doçura nas relações sexuais. O drama peca do meio para o final, quando o roteiro perde harmonia e contundência naquela viagem progressiva rumo ao desconhecido ou um imaginário criado pelos personagens para tentar manterem-se com esperanças. Mas a monotonia começa a tomar conta do enredo e a mesmice se torna completa, deixando traços de insatisfação nos espectadores e a perda completa do controle do filme, que desce ladeira abaixo nos minutos finais.

O longa perde o sentido e o rumo do objetivo principal que é manter-se para uma nova vida. Porém, os resultados estéticos e reflexivos ficaram longe do desejado, reduzindo um bom projeto para uma obra menor e precária.

Mostra de Cinema São Paulo (Na Sua Ausência)
















Na Sua Ausência

Surge um candidato forte ao melhor filme da 36ª. Mostra de Cinema de São Paulo deste ano, o magnífico longa-metragem francês Na Sua Ausência, dirigido pela outrora ótima atriz e agora estreando atrás das câmeras Sandrine Bonnaire. Mostra-se uma diretora competente e seu primeiro filme já dá sinais de ser plenamente autoral.

A trama começa com Jacques (William Hurt- de desempenho exemplar) retornando dos EUA para a França, depois de dez anos de ausência de seu país natal, para cuidar do funeral de seu pai, que estava separado de sua mãe, uma americana que vivia com ele na América do Norte. Deixara seu país após a morte e seu filho de apenas sete anos, decorrente de um acidente de carro. Ao retornar encontra a ex-mulher Mado (Alexandra Lamy) já casada e com um filho da mesma idade do morto, de aspecto feliz e aparenta ter esquecido o passado trágico. Bonnaire mostra o tenso e comovente reencontro de Mado com Jacques, onde as aparências do passado surgem e se confundem com um presente fragilizado pelos fantasmas que querem retornar. O retorno à casa da ex-mulher e sua instalação secreta no porão é o começo da degradação e do desespero que irá ir ao encontro da família hostilizada pelo passado.

O longa mostra uma tentativa desesperada de reaproximação com o filho de Mado. Tudo é feito por Jacques para resgatar e recriar a relação existente entre pai e filho até o fato trágico. A culpa e o sentimento que assolam aquele pai transtornado, em vias de perder a estabilidade emocional, são bem retratados pela diretora e atinge um clímax de alta tensão, embalados pela adequada e bela trilha sonora. A cineasta lança mão de um expediente perigoso, mas acaba por se dar muito bem, ao desenvolver com dramaticidade em alta tensão a morte de uma criança inocente e jogar a culpa aparente para que o pai assuma inteiramente, levando até as últimas consequências, inclusive desfazendo-se de seu patrimônio para tentar beneficiar um terceiro e apagar de sua consciência aquele sentimento latejante e dolorido da culpa que o corrói.

Este é um tema frequente no cinema, mas o filme mais contundente dos últimos anos é o extraordinário Anticristo (2009), de Lars Von Trier, abordando um casal devastado com morte do único filho muda-se para uma casa no meio da floresta para superar o episódio, tentando supera a dor do luto e o desespero da mãe, desencadeia-se uma gama de acontecimentos misteriosos e assustadores. Na Sua Ausência é um filme que já se insere como um grande observador pela reflexão da culpa vista como excesso e do sentimento que lateja na alma do suposto culpado que começa a perder a lucidez e a afundar-se num terrível destroçamento humano e a desconstituição de uma pessoa traumatizada pela perda.

O filme é uma sequência de desatinos da sedução e em busca de uma paternidade construída pela fobia da morte. Ao mostrar a distorção comportamental de um protagonista em total decomposição, como um farrapo humano, a diretora lança um olhar de compaixão ao perdoá-lo no epílogo, dando um rumo de destino duro, mas dentro de uma realidade verossímil, através da ação enérgica de atitude do outro pai vitimizado pelo contexto e do imbróglio de circunstâncias alheias aspiradas. Um longa de personagens fortes em sua construção, embora fragilizados pelas circunstâncias que dão consistência para este fabuloso suspense psicológico familiar.

Mostra de Cinema São Paulo (A Colônia)

















A Colônia

Entre tantas retrospectiva da 36ª. Mostra de Cinema de São Paulo deste ano, está sendo apresentados diversos filmes na homenagem merecida a Sergei Loznitsa, e entre eles o documentário humano, sensível e profundamente abrangente A Colônia (2001).

A trama se passa em apenas um dia na vida de uma colônia de doentes mentais na Rússia, onde pessoas com sérios problemas de coordenação motora são enxotadas do convívio social e vão parar naquele bucólico lugarejo de deficientes, com uma bela paisagem, aparentemente bem tranqüila e sonorizada pelo canto dos pássaro, transmitindo a imagem de uma aldeia de seres puros e felizes, onde pessoas vivem para trabalhar juntas e unidas, demonstrando uma completa harmonia e com valores próprios inarredáveis.

O longa ao se desenvolver em seus 79 minutos deixa transparecer a crescente e inexplicável sensação de um sentimento de ansiedade de seus personagens, beirando com bastante eficácia a desesperança, como no bater com raiva na madeira compactada até rachá-la, ou no andar lento dos personagens com foices e ferramentas para catar o feno para os animais alimentarem-se. A Colônia é uma fabulosa alegoria que coloca personagens doentes da própria sociedade russa, uns ainda trajando uniformes em frangalhos do Exército de seu país, onde o cenário retratado nada mais é do que uma comunidade em franca subserviência ao regime comunista, que já dá sinais evidentes de decomposição. E sob os olhos dos enfermos vê-se um país de pessoas que andam e se movem bovinamente, tais quais os animais ali existentes.

A película está fortemente concentrada nas entrelinhas e mostra uma aldeia quase que imersa numa tranquilidade falsa. Porém nada mais é do que um engodo dos governantes para manter um sistema falido e em vias de extinção, através de gestos e atos daquelas criaturas ditas humanas, porém extremamente robotizadas como animais domesticados, simbolizados pelo touro que se move, muge, mas aparenta ser cordato e não agressivo, distante de rebelar-se. O documentário enfoca tanto o animal como os doentes vivendo seu dia a dia placidamente, esperando a morte chegar, sem se opor. Também o feno é movido de um lugar para outro sem grandes mudanças geográficas ou que ferisse as circunstâncias da aldeia. Tudo é feito no mais profundo silêncio, onde os diálogos inexistem e dão lugar para um cenário em preto e branco, através de uma fotografia bem caracterizada pela falta de cores e que demonstram a tristeza e a desolação nos semblantes dos protagonistas.

O longa vai fundo e mostra o surgimento de um futuro sinistro e sem ambições, de poucas esperanças, pelas lentes de Loznitsa, como bem apanhado na estupenda cena final, onde os rostos sulcados pela marca do tempo que passou são jogados na tela em closes. Este é um filme com harmonia numa estética simples, onde a incomunicabilidade pode estar querendo se apresentar num primeiro momento, mas logo a comunicação entre os personagens se faz presente e seus grunhidos são perfeitamente perceptíveis como numa metalinguagem de dramaticidade sutil, mas em que a abordagem foca na desesperança e no mais absoluto pessimismo neste agoniado documentário alegórico nada alvissareiro para os seres humanos.

domingo, 21 de outubro de 2012

Mostra de Cinema São Paulo (Indignados)














Indignados

A trajetória do misto de documentário com ficção de Indignados é basicamente centrada na figura da africana Betty (Mamebetthy Honoré Diallo) e seu périplo por países europeus. Uma jovem imigrante que foge de seu país, para aventurar-se pela Grécia, França Turquia e Espanha, num momento difícil destes povos que estão em iminente efervescência de uma crise econômica inimaginável.

Indignados aborda um tema universal que é a ilegalidade dos imigrantes e seus ingressos na sociedade, oriundos da África e Ásia na sua maioria. O filme é muito simples na sua estética, um documentário aparentemente realizado para um canal de televisão ou propaganda eleitoral de algum partido, onde o choque cultural da africana é mostrado em longos planos de sequência, cansativos e enfadonhos, causando enormes bocejos na platéia. As manifestações de ruas são vazias e os gritos de revolta da população estão sempre acompanhados do forte componente do panfleto demagógico, sem grandes rodeios ou simbologias das desgraças sociais.

O longa não tem a profundidade de um filme como O Porto (2011), do finlandês Aki Karismäki, que aborda o sofrimento e a ojeriza de uma casta que vira as costas, fruto da xenofobia racial, com um olhar de misericórdia e esperança, nem de Claire Denis no instigante Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Cachê (2003), de Michael Haneke; ou do recente campeão de bilheteria Intocáveis (2012), de Eric Toledano e Olivier Nakache, sobre uma história real de uma inesperada amizade genuína, entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante de uma joalheria, um imigrante do Senegal que busca seu reingresso social na França dos brancos.

O diretor Tony Gatlif exagera nas simbologias, como da latinha descendo ladeira abaixo ao som de uma trilha sonora enervante; ou ainda das laranjas indo parar dentro do barco, esta sim uma metáfora inteligente sobre a vida e os sem rumos que se encontram todos no mesmo lugar. Peca com os excessos de planos de ruas ou na interminável apresentação teatral. Arroubos infanto-juvenil são passados como se fossem um protesto edificante, longe de Cosmópolis (2012), que se debruça sobre a derrocada do Capitalismo, dirigido pelo canadense David Cronenberg, em mais um filme experimental de sua cinebiografia.

O cineasta se deixa levar pelos impulsos e ojerizas contra tudo e contra todos, como num manifesto de rebeldes sem causa, embora tivesse um bom conteúdo como do Movimento Ocupe que se espalhou pela Europa, onde homens e mulheres lutavam contra os poderosos, vistos pelo olhar da moça negra ao confrontar uma dura realidade de uma implosão social que aos poucos vai encontrando pessoas pelo caminho, juntando-se como um ato de solidariedade, buscando colocar valores humanísticos no centro do sistema em decomposição.

Eis um longa-metragem pretensioso, porém é jogado fora este bom tema por Gatlif, por escassez de harmonia e por não saber conter a ansiedade do contraditório. Erra feio a mão por exceder na linguagem e deixar em falta a dramaticidade numa trama que tinha tudo para dar certo. Faltou talento e sobrou revanchismo numa abordagem que se tornou tola e beirando a idiotice, diante da babaquice do cineasta. Lamentável e quem puder fuja de Indignados na 36ª. Mostra de Cinema de São Paulo deste ano.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Elles














Tormentas que Perturbam

A eficiente diretora polonesa Malgorzata Szumowska é conhecida por Happy Man (2000), O Desconhecido (2004) e 33 Scenes from Life (2008). Agora encanta com seu poder de sutileza e brutalidade mesclados no bom drama Elles, abordando duas prostitutas que concedem uma entrevista para uma jornalista da revista feminina Elle. Anne é interpretada por Juliette Binoche, em mais uma grande atuação desta magnífica e talentosa diva francesa, esbanjando como sempre sua beleza, sensualidade e carisma. Foi vista recentemente no longa francês A Vida de Outra Mulher (2012), da estreante Sylvie Testud.

A trama é bem conduzida pela cineasta que mostra com vigor o paralelo entre a jornalista em seu cotidiano com uma dupla jornada como mãe de dois adolescentes, um marido distante (Louis-Do de Lenquesaing) num casamento instável, em jornada laboral desabrocha como mulher de fantasias sexuais reprimidas. É incumbida pela pauta para entrevistar duas garotas de programa, logo busca em duas universitárias que vendem o corpo para sobreviver e pagar os estudos. Ao se jogar na pauta encomendada para publicar a reportagem, procura entrevistar não apenas duas prostitutas comuns, mas jovens aparentemente diferentes e com problemas pessoais intrínsecos do ser humano, como a meiga e doce Charlotte, nome de guerra Lola (Anais Demostier) e a polonesa Alicja (Joanna Kulig) recém-chegada a Paris.

Elles é um drama que não cai na caricatura fácil e nem no melodrama, pois Binoche atua com vida e constrói um repórter sensível de carne e osso, sendo frágil e forte paradoxalmente. Num primeiro momento busca a distância, sendo objetiva nas perguntas de uma tarefa quase que ingrata pelo enormes preconceitos na sociedade. Aparenta ser bem-casada e não demonstra quaisquer dificuldades financeiras ou problemas amorosos, sequer de relacionamento com o núcleo familiar, embora haja nos filhos sintomas de rebeldia e uma perda de vínculo, deixando o afeto num segundo plano por contingência profissional.

O filme enfoca um tabu já derrubado há muito tempo no cinema por grandes diretores, sobre a vergonha, o prazer, a humilhação e o sexo pago sem fronteiras misturam-se num erotismo com cenas picantes, porém longe de serem gratuitas. Sem fazer sensacionalismo como ocorreu no controvertido Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci e no polêmico O Império dos Sentidos (1976), de Nagisa Oshima, que incendiaram grandes debates destas obras-primas, o longa deixa sua contribuição valiosa para o tema. Szumowska cria uma trama para causar um verdadeiro furor de turbulência na vida da jornalista, com o propósito de abordar com bastante proficiência os dogmas da repressão, através de um enredo criativo onde há cenas reveladoras como no jantar com o marido recebendo os convidados, Anne vê, imaginariamente, sentados à mesa, aqueles homens infiéis em busca do prazer remunerado de uma aventura. Ao abandonar o cerimonial, lança-se como uma pessoa travada atrás da liberdade e da realização das fantasias sufocadas, busca como numa forma mágica em desbloqueá-las numa parceria com o companheiro reprimido.

O drama nos remete para a turbulência passando suavemente, após as arestas serem aparadas para o processo de restabelecimento da vida e o seu reencontro familiar no café da manhã, na bela cena do epílogo. Outra cena marcante é do abraço fraternal da repórter na prostituta, simbolizando o retorno da garota para o seio da família como se fosse alegoricamente o afago naquela mãe desconfiada das atitudes da filha em Paris, mas que busca a verdade mesmo que venha doer.

Eis um filme longe de ser catalogado como moralista, mas adequado como um tema que flui pela sinceridade de uma diretora, ao mostrar com honestidade para os espectadores sua posição definida, abordando os personagens de forma clara e vigorosos na construção, diante de uma proposta libertária e até perigosa, para expulsar os fantasmas escondidos e viabilizar um universo de iguais, através de uma linguagem sem artifícios rebuscados com piruetagens ou invenções desmedidas, num belo drama que se impõe para quem gosta de um cinema sem tabus, ao melhor estilo da velha escola francesa.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Tropicália


























Resistência pela Liberdade

Além de uma análise importante, é bem contado o contestado movimento musical homônimo no documentário Tropicália, que revelou como lideranças Caetano Veloso e Gilberto Gil, a partir de 1967. O diretor Marcelo Machado resgata uma fase cultural quase esquecida na história do Brasil, onde fervilhavam os festivais de músicas populares, com predominância os da TV Record, famosos por revelarem talentos numa época difícil na vida dos brasileiros que viviam amordaçados pelo regime ditatorial implantado em 1964. Em outubro de 1968, as garantias constitucionais foram cassadas com o fechamento do Congresso Nacional, uma subtração escandalosa dos estado de direito dos cidadãos, diante da edição do famigerado AI-5, um ato para calar quem era contra o Regime Militar.

O longa mostra Caetano e Gil sendo exilados do país, com destino involuntário de Londres, pois suas canções incomodavam, apesar de serem muitos sutis ao usarem metáforas, como se depreende com músicas aparentemente ingênuas, como a Baby, cantada por Gal Costa, ao pronunciar “da margarina”, “da gasolina”, dentro de um contexto de insatisfação. Caetano não era visto com muita simpatia ao cantar Alegria, Alegria, mencionando a Coca-Cola, Brigite Bardot e bombas, embora sem maiores conotações políticas. Ou ainda a magnífica “É proibido proibir”. O compositor em entrevista para uma TV de Lisboa com seu companheiro Gil, entendia que o movimento deixara de existir com o exílio. Há ainda uma passagem pelo Festival de Ilha Weight, na Inglaterra, com a canção “Shoot me dead”, numa bela passagem cantando com o escritor Antônio Bivar tocando violão.

O documentário que levou cinco anos para ser produzido, avalia os efeitos do furacão e o impacto do Tropicalismo  na música como choque cultural nos brasileiros, causados por ídolos ainda em atividade, como os próprios protagonistas, Gal Costa, Maria Bethânia e os Mutantes de Rita Lee e Arnaldo Batista, fortemente influenciados pelos Beatles, onde se realçava as roupas coloridas e diferentes das que ditavam a moda na época. Havia uma resistência muito grande pela introdução da guitarra elétrica, logo associada ao rock and roll dos EUA e Inglaterra, inclusive com passeatas de movimentos contrários. Mas ao mesmo tempo enfatiza o acerto da mescla deste instrumento elétrico com sons pífaros do Nordeste.

O Tropicalismo tinha que derrubar enormes barreiras, pois era visto como um movimento regional de cantores baianos não reconhecidos pelos grandes astros como o Rei Roberto Carlos e Chico Buarque. Era uma ideologização pela busca de um novo movimento, como aconteceu equivocadamente com a Tropicália, conflitada por equívocos dos defensores intransigentes da MPB, Bossa Nova e a Jovem Guarda. Havia uma grande efervescência musical contrapondo timidamente com o ápice da ditadura militar e os tempos duros que não poupavam ninguém, mas os festivais pululavam e incendiavam a juventude nas grandes noitadas na televisão como uma histeria nacional, através de gritos, urros e vaias, para quem não caía nas graças da plateia, dentro de um confronto de ideologias, arrebatando audiências fantásticas no embalo musical, pois as novelas não tinham o poder de persuasão e contundência dos dias de hoje, como bem retrata o excelente documentário Uma Noite em 67 (2010), de Renato Terra e Ricardo Calil.

Tropicália mostra uma juventude bradando pelo antiamericanismo e o nacionalismo sendo o grito de guerra em forma de protesto contra a ditadura. O inconformismo de uma geração amordaçada estava por todos os lados. Os festivais eram como uma válvula de escape, assim como foi a extraordinária manifestação de cem mil pessoas no enterro do estudante secundarista Édson Luís, que morreu no Rio de Janeiro, em março de 1968, assassinado pela Polícia Militar durante uma manifestação estudantil no Restaurante Calabouço, no centro da cidade.

O longa mostra que os artistas musicais eram muito visados, como também eram os cineastas como Glauber Rocha, idealizador do Cinema Novo e simpático ao Tropicalismo, com referência no Terra em Transe (1968), ao retratar metaforicamente o país fictício Eldorado por um jornalista e poeta, que oscila entre diversas forças políticas em luta pelo poder. Machado não deixa dúvidas ao associar a música Tropicália de Caetano, composta para uma peça teatral de José Celso Martinez, uma montagem transgressora para “O rei da vela”, de Oswald de Andrade, sendo o artista plástico Hélio Oiticica o autor do nome Tropicália, título de uma instalação no Museu de Artes do Rio de Janeiro.

Um filme para todas as gerações, tendo como marco histórico a música servindo de fresta para a libertação das amarras de uma juventude anestesiada por uma tirania antidemocrática que assolou todos os brasileiros naqueles anos, ficando na tela como reflexão mais aprofundada a evolução musical do Tropicalismo, apesar da confusão estabelecida contra suas ideias tidas como contraditórias, mostra o realismo e a nitidez do retrato de tempos antagônicos culturalmente, com a imposição de uma censura não só dos militares como dos próprios artistas de outras matizes, que não entendiam o que estava acontecendo, mas que deixou raízes e veio para ficar, abrir cabeças fechadas e vislumbrar novos horizontes neste fabuloso Tropicália.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A Vida de Outra Mulher



















Bendita Amnésia

A indústria cinematográfica da França não atravessa uma boa fase definitivamente. Parece dar mostras de um cansaço ou esgotamento de ideias novas para realizar grandes filmes. Apresenta uma fadiga que inocula os diretores atualmente, resultando em obras menores e discutíveis. O último Festival de Cinema Varilux realizado no Brasil em nada contribuiu e sequer inovou ou deixou grandes recordações, exceto o badalado Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache. Outro longa aclamado pelo público francês, mas sem grande repercussão no Brasil foi A Riviera Não é Aqui (2010), de Dany Boon. Há ainda no circuito comercial filmes como Bem Amadas (2011), de Christophe Honoré e Os Infiéis (2011), de Jean Dujardin e Gilles Lellouche, produções apenas intermediárias e discutíveis se for observado o aspecto de uma proposta convincente com um resultado excelente. Estão distantes de uma obra qualificada e definitiva. Mas há as exceções como O Artista (2011), de Michel Hazanavicius; ou arrasador O Segredo do Grão (2007), de Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Cachê (2003), de Michael Haneke.

Diante desta miséria que grassa no mercado dos cinéfilos, surge um outro longa-metragem que padece de uma estrutura mais consistente, o sofrível A Vida de Outra Mulher (2012), tendo na direção a estreante Sylvie Testud, que se inspira no romance de Frédérique Deghelt. A cineasta demonstra poucos recursos técnicos para dar uma obra convincente e manter com segurança o clímax do enredo até o fim. A trama tem Marie (Juliette Binoche) que em “boa hora” perde a memória ao se levantar num belo dia ensolarado, quando completaria 41 anos, tema bastante recorrente no cinema. Acorda como uma mulher de 25 anos e sua memória apaga nos últimos 15 anos em que viveu casada e com um filho menor, o cotidiano e as particularidades inerentes de um casal. A protagonista não lembra do que aconteceu com o pai doente, sua relação deteriorada com a mãe e sequer que é uma executiva de negócios bem-sucedida.

O longa descamba para o melodrama choroso e piegas, com bonitas tomadas das ruas de Paris e um lindo passeio pelo rio Sena num Bateau Mouche navegando pelas águas da cidade das luzes, onde Marie, a empresária e autoritária, esposa egoísta que despreza o marido (Mathieu Kassovitz), está em busca constante do passado e quer recuperá-lo, além de uma mãe sem tempo para o filho. Busca a reconquista de seu amor outrora e a retomada do que aconteceu no período de esquecimento, que beira em situações cômicas e constrangedoras, tanto com o filho como com o marido e o processo de divórcio.

Um dos grandes problemas de A Vida de Outra Mulher é a previsibilidade do desenlace, não há uma construção de personagens fortes ou uma abordagem psicológica dos mesmos, que estão à deriva e soa como criaturas perdidas no enredo. Nem a musa do cinema francês Juliette Binoche que dá vida própria para a protagonista, não consegue salvar o filme, embora esteja excelente em seu papel, clássica e talentosa, esbanjando como sempre sua beleza e sensualidade.

Eis um filme que não escapa do rótulo de descartável por ser irregular, diante do vazio e da superficialidade que aborda o tema de forma linear, beirando para o apelativo, decepciona àqueles que foram em busca de uma proposta mais audaciosa e menos comercial. Resta uma película primordialmente para fazer chorar, na mesma linha de outras realizações análogas americanas como os melodramáticos Para Sempre (2012), de Michael Sucsy e Como se Fosse a Primeira Vez (2004), de Peter Segal.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Cosmópolis

Derrocada do Capitalismo

O canadense David Cronenberg chega novamente ao cinema com mais um filme experimental na sua longa carreira. É um diretor dinâmico em sua brilhante trajetória cinematográfica. Realizou filmes de terror como A Mosca (1986), embora assustador, mas ao mesmo tempo extremamente cativante e romântico; ou em Gêmeos-Mórbida Semelhança (1988), sobre irmãos idênticos de temperamentos opostos; mas nos ótimos dramas Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), busca um cinema voltado para a denúncia social, a corrupção e o medo como temas mais palatáveis, embora realizados com bastante crueza. Já em Um Método Perigoso (2011) se aprofunda e vai ao encontro das mazelas e perturbações psíquicas e neuróticas inerentes dos mortais e insatisfeitos seres humanos, num excelente drama reflexivo da psicanálise e suas teorias divergentes de um cinema autoral.

Cosmópolis é um retorno ao passado do diretor, quando dirigia filmes vanguardas, às vezes beirando o grotesco como A Mosca. Porém dá uma derrapada ao adaptar para as telas o livro homônimo do americano de Don DeLillo, embora haja fidelidade nos diálogos, aborda na trama um jovem de ouro bilionário e egocêntrico que detém o poder no mundo das finanças. Eric Packer (Robert Pattinson) se vê acima dos mortais trancafiado dentro de sua limusine branca blindada, uma espécie de bunker, mas começa a mudar ao perceber seu universo desmoronando, sendo iminente o esfacelamento falimentar de seu meio aristocrata, diante da bolha financeira que acarreta prejuízos astronômicos pela desvalorização e o degringolar da moeda yuan na China.

Os temas centrais do longa são o Capitalismo em derrocada e os valores mundiais com o embate árduo entre o poder e a culpa. Há o questionamento das bolsas despencando no mercado financeiro e a bancarrota se instalando, que resulta em protestos de anticapitalistas ferrenhos pela passagem nas ruas do presidente dos EUA, enquanto isso a limusine passeia pelas ruas silenciosa, tentando levar o indiferente Packer ao barbeiro até o outro lado da cidade, sofre avaria por pichamentos. É um obcecado por cortar o cabelo quase que diariamente, momento raro quando deixa seu refúgio para uma busca implícita da liberdade, sempre com um bom aparato de segurança para se manter distante dos manifestantes.

Packer se mostra frio e insensível com o mundo que se esboroa aos seus pés. Fazer sexo não tem emoção e matar torna-se um ato normal para sua sobrevivência. A morte não lhe perturba, tanto faz viver ou morrer. Ter um relacionamento profundo com vínculo lhe soa algo sem razão maior e distante da emocionalidade. O mundo das finanças está explodindo, mas ainda ele recebe visitas momentâneas no seu esconderijo fortificado, como a transa fugaz com uma mulher (Juliette Binoche- desperdiçada em seu papel).

Cronenberg erra feio a mão, ao convidar para o papel principal o ator Robert Pattinson, da saga Crepúsculo, rodando dentro de seu veículo como se fosse uma instalação impenetrável, reflexo do poder desmesurado do Capitalismo selvagem que se esvai, contestado freneticamente pelo cineasta através do manifestante (Mathieu Amalric- também é desperdiçado numa aparição relâmpago). Num elenco de primeira qualidade, tendo ainda no epílogo o eficiente e correto Paul Giamatti, outro que foi pouco aproveitado, é incompreensível que ótimos atores surjam em aparições meteóricas, para que o protagonista interpretado pelo inexpressivo Pattinson esbanje sua péssima performance. Como ilustração, neste ano em Cannes, em entrevista coletiva, ao falar sobre o convite de Cronenerg, assim se manifestou: “sou um covarde e um merda”.

O roteiro do drama traz uma boa proposta, mas o diretor faz um mosaico que  resulta numa indigesta salada de fruta, ao misturar violência, capitalismo, fobia urbana, sociologia e uma filosofia barata, mesclados numa crítica com ilações inverossímeis ao mundo virtual e cibernético desproporcional, jogando fora um elenco de luxo para dar um aparato insustentável a um ator medíocre, mais afeito a papéis como um vampiro esdrúxulo e inconsistente, distante do personagem andrógino e robotizado que se imagina no contexto.

Cosmópolis não alcança uma abordagem eloquente e sequer razoável para a incomunicabilidade do protagonista com o mundo real. Não chega a aprofundar a relação do dinheiro para construir um universo imaginário e claustrofóbico, onde o Capitalismo ingressa num processo de falência, mas explorado de maneira rasa num filme sonolento, onde as ações de violência parecem gratuitas e evasivas, sucumbindo uma magnífica obra, pelos sucessivos erros de uma direção equivocada num paradoxal formalismo excessivo e experimental.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Intocáveis













Solidariedade Pragmática

Eric Toledano e Olivier Nakache adaptaram para o cinema uma história real de uma inesperada amizade genuína, entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante de uma joalheria, um imigrante do Senegal que busca seu reingresso social na França dos brancos. O filme Intocáveis tem um toque de humor cáustico na busca pela igualdade entre duas pessoas opostas social e intelectualmente.

A comédia retrata o aristocrata Phillippe Pozzo di Borgo (François Cluzet- de atuação sóbria), autor do livro O Segundo Suspiro, onde conta ter sofrido um acidente num parapente que lhe causa uma moléstia irreversível e o faz andar de cadeira de rodas, com uma vida beirando à vegetativa. É um homem culto e de bom gosto musical, ouve Vivaldi Johann Bach, Chopin. É rico e tem vários carros potentes de último tipo na garagem. Do outro lado está Driss (interpretado magistralmente pelo ator Omar Sy, sendo o primeiro negro a ganhar o César, o Oscar francês), um jovem negro espirituoso de porte atlético, de hábitos rudes e com passagem pela polícia por assalto, mora num pequeno apartamento com seu irmão, um rapaz com problemas de conduta e com atividades ilícitas. Às vezes chega a ser um brutamonte, usa da violência física para colocar ordem na casa e na vizinhança, mas tem uma índole bondosa, é romântico e sedutor, não pode ver um rabo de saia que se derrete e vai atrás. Driss tem uma alma iluminada pelo alto astral, pois nunca deixa a peteca cair, indo sempre ao encontro das belezas encantadoras da vida. É contratado pelo ricaço como cuidador-enfermeiro, logo o casamento torna-se perfeito com Phillippe, pois levanta o astral do patrão, como numa leitura motivacional de autoestima pela sabedoria da escola da vida mesclada com pitadas de autoajuda.

Intocáveis aborda um tema universal que é o reingresso na sociedade de um ex-apenado, tendo agravada a situação por ser um imigrante naturalizado, oriundo de um país africano e ex-colônia francesa. As piadas são razoáveis, às vezes beira a grosseria e rudeza, mas no contexto funciona como um elemento de descontração e bom humor. O filme é simples na sua estética, deixando as metáforas afastadas do enredo, indo direto ao ponto como o choque cultural, sem grandes rodeios ou simbologias das desgraças sociais.

Porém há uma clara intenção dos diretores de usar no roteiro alegoricamente as clássicas frases da Revolução Francesa, de 1789. A começar pela fraternidade, clara e expressa entre os protagonistas; a igualdade entre pessoas diferentes de classes sociais e culturais, sendo atraídas pela solidariedade de uma amizade pura; e finalmente a liberdade como símbolo da união entre aqueles dois seres distintos que saem para voar num parapente, como se fosse uma volta ao passado que vitimou o aristocrata, bem como andar em alta velocidade pelas ruas de uma perplexa Paris, diante do elo selado entre os dois amigos advindo de uma relação de trabalho inverossímil. Para o empregado há o complemento do vigor daquela fortaleza física, também sua humanidade e do modo extrovertido de levar a vida, curtindo suas benesses patrocinadas pelo seu chefe; já para o paraplégico existe a compensação retribuída pelo dinheiro, poder e a relação com a arte das pinturas de Goya e Dali e a ópera ofertada para Driss, numa interação complementar da relação sadia, bem como de sua solidariedade fraternal que causa o estreitamento e a aproximação para a atitude de amor e carinho, ao aproximar Phillippe de sua grande paixão platônica, através da grande qualidade do cuidador, que é o pragmatismo para tudo no cotidiano. Ensina que deve ser deixado de lado as frases requintadas e rebuscadas de efeitos vazios lançadas nas correspondências virtuais ou por cartinhas, onde o resultado é pífio.

O longa não tem a profundidade de um filme como O Porto (2011), do finlandês Aki Karismäki, que aborda o sofrimento e a ojeriza de uma casta que vira as costas, fruto da xenofobia racial, com um olhar de misericórdia e esperança, nem de Claire Denis no instigante Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Cachê (2003), de Michael Haneke.

Eis um filme que recebeu nove prêmios César e é fenômeno de público e já alcançou mais de 20 milhões de espectadores na França, sendo a segunda maior bilheteria de todos os tempos em seu país, ficando atrás somente de A Riviera Não é Aqui (2010), de Dany Boon, que ultrapassou os 21 milhões. Há méritos inegáveis ao abordar uma relação solidária de duas pessoas opostas que se conhecem por acaso e que são amigas até hoje. Embora a reinclusão social seja um dos temas, não há uma profundidade acentuada, longe de um resultado reflexivo além do razoável como lição de vida, gratidão e superação, nesta obra que se afasta do politicamente correto e acena num mergulho superficial nas licenciosidades e extravagâncias para buscar-se a alegria de viver numa amizade louca, cômica e faiscante, tida pelos dogmas normativos como improvável.