quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Cosmópolis

Derrocada do Capitalismo

O canadense David Cronenberg chega novamente ao cinema com mais um filme experimental na sua longa carreira. É um diretor dinâmico em sua brilhante trajetória cinematográfica. Realizou filmes de terror como A Mosca (1986), embora assustador, mas ao mesmo tempo extremamente cativante e romântico; ou em Gêmeos-Mórbida Semelhança (1988), sobre irmãos idênticos de temperamentos opostos; mas nos ótimos dramas Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), busca um cinema voltado para a denúncia social, a corrupção e o medo como temas mais palatáveis, embora realizados com bastante crueza. Já em Um Método Perigoso (2011) se aprofunda e vai ao encontro das mazelas e perturbações psíquicas e neuróticas inerentes dos mortais e insatisfeitos seres humanos, num excelente drama reflexivo da psicanálise e suas teorias divergentes de um cinema autoral.

Cosmópolis é um retorno ao passado do diretor, quando dirigia filmes vanguardas, às vezes beirando o grotesco como A Mosca. Porém dá uma derrapada ao adaptar para as telas o livro homônimo do americano de Don DeLillo, embora haja fidelidade nos diálogos, aborda na trama um jovem de ouro bilionário e egocêntrico que detém o poder no mundo das finanças. Eric Packer (Robert Pattinson) se vê acima dos mortais trancafiado dentro de sua limusine branca blindada, uma espécie de bunker, mas começa a mudar ao perceber seu universo desmoronando, sendo iminente o esfacelamento falimentar de seu meio aristocrata, diante da bolha financeira que acarreta prejuízos astronômicos pela desvalorização e o degringolar da moeda yuan na China.

Os temas centrais do longa são o Capitalismo em derrocada e os valores mundiais com o embate árduo entre o poder e a culpa. Há o questionamento das bolsas despencando no mercado financeiro e a bancarrota se instalando, que resulta em protestos de anticapitalistas ferrenhos pela passagem nas ruas do presidente dos EUA, enquanto isso a limusine passeia pelas ruas silenciosa, tentando levar o indiferente Packer ao barbeiro até o outro lado da cidade, sofre avaria por pichamentos. É um obcecado por cortar o cabelo quase que diariamente, momento raro quando deixa seu refúgio para uma busca implícita da liberdade, sempre com um bom aparato de segurança para se manter distante dos manifestantes.

Packer se mostra frio e insensível com o mundo que se esboroa aos seus pés. Fazer sexo não tem emoção e matar torna-se um ato normal para sua sobrevivência. A morte não lhe perturba, tanto faz viver ou morrer. Ter um relacionamento profundo com vínculo lhe soa algo sem razão maior e distante da emocionalidade. O mundo das finanças está explodindo, mas ainda ele recebe visitas momentâneas no seu esconderijo fortificado, como a transa fugaz com uma mulher (Juliette Binoche- desperdiçada em seu papel).

Cronenberg erra feio a mão, ao convidar para o papel principal o ator Robert Pattinson, da saga Crepúsculo, rodando dentro de seu veículo como se fosse uma instalação impenetrável, reflexo do poder desmesurado do Capitalismo selvagem que se esvai, contestado freneticamente pelo cineasta através do manifestante (Mathieu Amalric- também é desperdiçado numa aparição relâmpago). Num elenco de primeira qualidade, tendo ainda no epílogo o eficiente e correto Paul Giamatti, outro que foi pouco aproveitado, é incompreensível que ótimos atores surjam em aparições meteóricas, para que o protagonista interpretado pelo inexpressivo Pattinson esbanje sua péssima performance. Como ilustração, neste ano em Cannes, em entrevista coletiva, ao falar sobre o convite de Cronenerg, assim se manifestou: “sou um covarde e um merda”.

O roteiro do drama traz uma boa proposta, mas o diretor faz um mosaico que  resulta numa indigesta salada de fruta, ao misturar violência, capitalismo, fobia urbana, sociologia e uma filosofia barata, mesclados numa crítica com ilações inverossímeis ao mundo virtual e cibernético desproporcional, jogando fora um elenco de luxo para dar um aparato insustentável a um ator medíocre, mais afeito a papéis como um vampiro esdrúxulo e inconsistente, distante do personagem andrógino e robotizado que se imagina no contexto.

Cosmópolis não alcança uma abordagem eloquente e sequer razoável para a incomunicabilidade do protagonista com o mundo real. Não chega a aprofundar a relação do dinheiro para construir um universo imaginário e claustrofóbico, onde o Capitalismo ingressa num processo de falência, mas explorado de maneira rasa num filme sonolento, onde as ações de violência parecem gratuitas e evasivas, sucumbindo uma magnífica obra, pelos sucessivos erros de uma direção equivocada num paradoxal formalismo excessivo e experimental.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Intocáveis













Solidariedade Pragmática

Eric Toledano e Olivier Nakache adaptaram para o cinema uma história real de uma inesperada amizade genuína, entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante de uma joalheria, um imigrante do Senegal que busca seu reingresso social na França dos brancos. O filme Intocáveis tem um toque de humor cáustico na busca pela igualdade entre duas pessoas opostas social e intelectualmente.

A comédia retrata o aristocrata Phillippe Pozzo di Borgo (François Cluzet- de atuação sóbria), autor do livro O Segundo Suspiro, onde conta ter sofrido um acidente num parapente que lhe causa uma moléstia irreversível e o faz andar de cadeira de rodas, com uma vida beirando à vegetativa. É um homem culto e de bom gosto musical, ouve Vivaldi Johann Bach, Chopin. É rico e tem vários carros potentes de último tipo na garagem. Do outro lado está Driss (interpretado magistralmente pelo ator Omar Sy, sendo o primeiro negro a ganhar o César, o Oscar francês), um jovem negro espirituoso de porte atlético, de hábitos rudes e com passagem pela polícia por assalto, mora num pequeno apartamento com seu irmão, um rapaz com problemas de conduta e com atividades ilícitas. Às vezes chega a ser um brutamonte, usa da violência física para colocar ordem na casa e na vizinhança, mas tem uma índole bondosa, é romântico e sedutor, não pode ver um rabo de saia que se derrete e vai atrás. Driss tem uma alma iluminada pelo alto astral, pois nunca deixa a peteca cair, indo sempre ao encontro das belezas encantadoras da vida. É contratado pelo ricaço como cuidador-enfermeiro, logo o casamento torna-se perfeito com Phillippe, pois levanta o astral do patrão, como numa leitura motivacional de autoestima pela sabedoria da escola da vida mesclada com pitadas de autoajuda.

Intocáveis aborda um tema universal que é o reingresso na sociedade de um ex-apenado, tendo agravada a situação por ser um imigrante naturalizado, oriundo de um país africano e ex-colônia francesa. As piadas são razoáveis, às vezes beira a grosseria e rudeza, mas no contexto funciona como um elemento de descontração e bom humor. O filme é simples na sua estética, deixando as metáforas afastadas do enredo, indo direto ao ponto como o choque cultural, sem grandes rodeios ou simbologias das desgraças sociais.

Porém há uma clara intenção dos diretores de usar no roteiro alegoricamente as clássicas frases da Revolução Francesa, de 1789. A começar pela fraternidade, clara e expressa entre os protagonistas; a igualdade entre pessoas diferentes de classes sociais e culturais, sendo atraídas pela solidariedade de uma amizade pura; e finalmente a liberdade como símbolo da união entre aqueles dois seres distintos que saem para voar num parapente, como se fosse uma volta ao passado que vitimou o aristocrata, bem como andar em alta velocidade pelas ruas de uma perplexa Paris, diante do elo selado entre os dois amigos advindo de uma relação de trabalho inverossímil. Para o empregado há o complemento do vigor daquela fortaleza física, também sua humanidade e do modo extrovertido de levar a vida, curtindo suas benesses patrocinadas pelo seu chefe; já para o paraplégico existe a compensação retribuída pelo dinheiro, poder e a relação com a arte das pinturas de Goya e Dali e a ópera ofertada para Driss, numa interação complementar da relação sadia, bem como de sua solidariedade fraternal que causa o estreitamento e a aproximação para a atitude de amor e carinho, ao aproximar Phillippe de sua grande paixão platônica, através da grande qualidade do cuidador, que é o pragmatismo para tudo no cotidiano. Ensina que deve ser deixado de lado as frases requintadas e rebuscadas de efeitos vazios lançadas nas correspondências virtuais ou por cartinhas, onde o resultado é pífio.

O longa não tem a profundidade de um filme como O Porto (2011), do finlandês Aki Karismäki, que aborda o sofrimento e a ojeriza de uma casta que vira as costas, fruto da xenofobia racial, com um olhar de misericórdia e esperança, nem de Claire Denis no instigante Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Cachê (2003), de Michael Haneke.

Eis um filme que recebeu nove prêmios César e é fenômeno de público e já alcançou mais de 20 milhões de espectadores na França, sendo a segunda maior bilheteria de todos os tempos em seu país, ficando atrás somente de A Riviera Não é Aqui (2010), de Dany Boon, que ultrapassou os 21 milhões. Há méritos inegáveis ao abordar uma relação solidária de duas pessoas opostas que se conhecem por acaso e que são amigas até hoje. Embora a reinclusão social seja um dos temas, não há uma profundidade acentuada, longe de um resultado reflexivo além do razoável como lição de vida, gratidão e superação, nesta obra que se afasta do politicamente correto e acena num mergulho superficial nas licenciosidades e extravagâncias para buscar-se a alegria de viver numa amizade louca, cômica e faiscante, tida pelos dogmas normativos como improvável.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Las Acácias















Solidão na Boleia

Las Acácias é mais um filme intimista vindo do Prata com tema da solidão e subtema o desemprego, muito bem dirigido pelo neófito Pablo Giorgelli. Foi destaque no 1º. Festival de Cinema Argentino realizado em Porto Alegre. Participou da 35ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ano de 2011, e ganhou o Prêmio Câmera de Ouro de 2011, uma distinção do Festival de Cannes ao melhor longa-metragem de um diretor estreante. Abocanhou o prêmio de melhor roteiro no 29º. Festival de Havana e ainda o de melhor filme e montagem na 60º. Edição de Cóndor de Prata.

Em outras produções, este tema tão recorrente e universal da solidão também esteve presente, como nos longas A Velha dos Fundos (2010), de Pablo José Meza; no instigante A Chuva (2008), de Paula Hernández; em O Homem ao Lado (2009), de Mariano Cohn e Gastón Duprat, numa reflexão magistral da privacidade e das relações em sociedade de duas famílias envolvidas pela complexidade dos seres humanos; na comovente comédia romântica contemporânea Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, com uma temática sobre os solitários em Buenos Aires na era do amor virtual; no fascinante Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola, retratando dois personagens sozinhos o tempo todo, sofrendo com o fuso horário em Tóquio; mas nada se compara com o inesquecível episódio Shaking Tokio, dentro do longa Tóquio (2008), dirigido pelo coreano Bong Joon-ho, num dos mais melancólicos e devastadores relatos de isolamento humano no cinema.

A trama tem no caminhoneiro Rubén (Germán da Silva- de atuação irrepreensível e convincente) que transporta toras de madeira acácia do Paraguai para a Argentina. Numa das constantes viagens, há um pedido expresso do dono da carga para dar carona à filha de sua empregada, Jacinta (Hebe Duarte) é uma mãe com a uma filha de 5 meses, de pai desconhecido, em busca de emprego na Capital dos portenhos e ficará hospedada na casa de uma prima.

Giorgelli segura firme o drama que se desenvolve quase todo dentro da boleia de um caminhão. O trajeto é longo e as durezas da viagem começam a incomodar o motorista, deixando-o claramente irritado, diante das pequenas paradas do veículo para que a mãe troque a criança e lhe dê de mamar, pelos simbólicos pedidos através de choros compulsivos. Porém, aos poucos o gelo vai se quebrando com os olhares cativantes da menininha servindo de elo para dobrar a sisudez daquele homem rude e durão, sempre fumando e bebendo água mineral, vez por outra sorve um mate, econômico nas palavras, de gestos discretos, logo começa a sentir uma afeição quase que paternal pela criança e uma atração reprimida pela mulher. Nunca arrisca muito e com o passar do tempo pelas estradas poeirentas e rodovias asfaltadas, as relações parecem ficar mais difíceis e angustiantes para quem transporta madeira e enxerga naquelas criaturas ao seu lado como se fossem dois objetos de uma carga pesada, no sentido metafórico.

Um filme com elenco consistente, de personagens construídos com um vigor sólido invejável num roteiro enxuto e sem grandes pirotecnias, prevalecendo a eficiência na direção que busca nos closes passar os sentimentos doloridos e angustiantes dos protagonistas, sem exagerar nas tomadas de planos. Não há trilha sonora, pois é substituída pelo ronco do motor e pelas trocas de marchas, num filme seco e sem grandes requintes ou paparicos do diretor, onde as expressões faciais são fortes e falam mais que os diálogos escassos.

Ao contrário do desastrado longa nacional À Beira do Caminho (2011), de Breno Silveira, que buscou um sentimentalismo barato e melodramático voltado para um resultado mais comercial. Já o cineasta argentino foge das armadilhas e da previsibilidade com muita elegância e alguma sutileza ao deixar em aberto o epílogo, mostra não só a reflexão da longínqua trajetória, como a busca pelo carinho dentro de pequenos gestos, onde a solidão de um homem em sua cabine de caminhão como uma casa rodando pelo asfalto, embora torne o personagem grosseiro, mas também deixa irradiar o lado humanista e a carência afetiva de uma alma à deriva.

Las Acácias é uma película road movie sem muitos diálogos, prevalecendo o silêncio sintomático dos desesperançados à procura de um foco iminente de objetivo de vida. É lançado um olhar fraternal pela universalidade das situações dos indivíduos solitários, num contraponto entre o caminhão com a intimidade de seus personagens individuais, dentro dos movimentos e dificuldades coletivas. Há rara interação entre estas pessoas atônitas de uma instigante relevância social que ficam à mercê de um convívio melhor neste sensível e belo drama que alcança um resultado plenamente satisfatório pelo seu encantamento emocional com o espectador, diante do instigante tema da solidão e como acessório o desemprego.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

À Beira do Caminho

















Caminhos do Destino

Breno Silveira não conseguiu repetir o ótimo e cultuado filme de estreia 2 Filhos de Francisco (2005), sobre a história da vida e obra de Zezé di Camargo e Luciano, visto por mais de 5,3 milhões de pessoas. Neste seu último longa À Beira do Caminho, título inspirado no clássico Sentado à Beira do Caminho, de Roberto Carlos, rodado nas estradas, dentro de uma boleia de caminhão como uma casa no asfalto, com o som inspirador das canções do Rei. Um projeto da jornalista Lea Penteado e roteirizado por Patrícia Andrade. Vencedor do 16º. Festival de Pernambuco como melhor filme, roteiro, ator (João Miguel) e ator coadjuvante (Vinícius Nascimento).

A trama gira em torno de dois personagens centrais, que procuram seus destinos marcados por um passado atormentado de desprazeres da vida. João (João Miguel- magnífico como sempre em seu papel) é um caminhoneiro que encontra dentro de seu veículo o refugiado garoto Duda (Vinícius Nascimento- de 10 anos,selecionado entre 800 concorrentes, arrasa na sua interpretação) que acabara de perder a mãe e agora tenta encontrar o pai em São Paulo, munido de uma foto com o endereço, é oriundo de Petrolina (PE). João vive um drama conjugal que o atormenta e o faz carregar um sentimento de culpa pela tragédia ocorrida com a amada. No meio de sua viagem sem fim, reencontra Rosa (Dira Paes- bela e impecável na sua meteórica aparição), um amor antigo e pivô de sua crise existencial, um tanto quanto novelesco como as produções globais.

No desenrolar do longa, sempre intercalado por músicas liberadas por Roberto Carlos- O Portão, Você Foi, Amigo e Na Distância- que vão explicando os fatos ocorridos e sinalizando o epílogo, numa espécie de legenda de cada cena como se fosse um filme mudo, subestimando a capacidade intuitiva do espectador. Chega a beirar o ridículo cinematográfico e liquida literalmente a obra como uma proposta séria. Nem o trio de atores em ótima performance, que interpretam os protagonistas principais, conseguem salvar a película do desastre. A montagem é adequada, a fotografia é bonita dentro de um roteiro pobre, sem imaginação e previsível, ao deixar frases ingênuas de para-choques de caminhões poluírem o enredo e, um constante abuso de sentimentalismos baratos, com o intuito de provocar no espectador emotividades nada sutis, bem carregadas como nos dramalhões televisivos. O final torna-se previsível e aborrecedor, diante do gratuito apelo emocional.

A tentativa frustrada de uma realização que viesse complementar satisfatoriamente a filmografia de Silveira, em muito se deve pela precariedade de ambição de uma proposta melhor elaborada, onde o passado com seus fantasmas nos flashbacks em gotas homeopáticas não são resgatados apropriadamente, deixando beirar para uma pieguice descomedida. Detona com o melodrama e nada deixa de reflexão, além de uma amizade entre um garoto órfão e um homem com a síndrome da culpa, frutos de uma afinidade de cumplicidade pela necessidade circunstancial.

À Beira do Caminho não tem a temática palatável e digna construída em Vou Rifar Meu Coração (2011), de Ana Rieper; nem o carinho sutil proporcional de Patrícia Pilar em Waldick, Sempre no meu Coração (2008); onde as músicas desfilavam num universo de vidas conflitadas e amargas, sem perder a luz da esperança com as canções entoadas, num imaginário de afetividade e simbologia de um espaço temporal perdido ou que ainda remanesce.

Silveira havia demonstrado bons conhecimentos de cinema e se impôs como um diretor refinado ao estrear; e depois no segundo longa Era Uma Vez..., inspirado na peça Romeu e Julieta, de Shakespeare. Marcou com elipses na hora certa e cortes necessários. Mas agora seu filme torna-se um melodrama apelativo e o resultado é lamentável, decepcionando àqueles que foram em busca de uma proposta mais audaciosa e menos comercial.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Vou Rifar Meu Coração



















Brega com Dignidade

Ana Rieper que estreou com Na Veia do Rio (2002), tem seu segundo longa-metragem voltado para a música brega, na qual ela se diz uma apaixonada. Questiona seus entrevistados com linearidade, deixando-os falar seus sentimentos e sonhos com plena liberdade neste Vou Rifar Meu Coração. Um painel de relatos contados pela boca de personagens do povo, que tiveram dificuldades no passado, desde a grande paixão arrebatadora e inesquecível até o pessimista contumaz.

Um filme que se debruça nas músicas românticas, tendo como reflexão as mágoas, os desejos, as traições, a solidão de pessoas humildes, a fidelidade, as angústias e tristezas mescladas com os amores fundidos em felicidades e recordações amargas ou gostosas, assim como fizera Eduardo Coutinho em As Canções (2011), que teve o mérito maior saber selecionar da galeria de depoimentos aqueles mais consistentes e emocionantes sob o ponto de vista humano e com força de um pensamento positivo de esperança.

Embora não seguisse a mesma estrutura de Coutinho, que buscou num palco com uma cadeira seu cenário, pois a cineasta foi às ruas em diversos lugares, como cabarés, bares e restaurantes de frequência duvidosa, para ouvir aquelas simplórias criaturas relatarem suas dores e decepções, ou ainda os esperançosos com o amor. Uns já desesperançados do romantismo, outros crentes no grande amor. Histórias pitorescas como do prefeito de uma pequena cidade que vive com duas mulheres e filhos, mas ensina que: “as duas piores coisas do mundo são perder a eleição e ter duas famílias”. Assevera que as duas esposas não são totalmente felizes, vivem pela metade, mas nenhuma desiste do inusitado. A diretora é hábil e extrai o substrato de cada entrevistado, fazendo-os cantarolar ou falar das canções tidas como bregas, mas inesquecíveis para os protagonistas. Há homens machistas na maioria e mulheres submissas que soltam a língua. Há emoção contida como se fosse uma sessão de terapia. Tanto nos desamores lembrados como nas grandes recordações amorosas cultivadas e expressadas com dor, diante de vidas marcadas.

O documentário de 76 minutos tem locações em Pernambuco e Sergipe, com uma fotografia adequada para o cenário rústico e paupérrimo por vezes. Ao sair de um ambiente degradante, vai mostrando os caminhos tortuosos pelas mazelas e aspirações daqueles que nutrem algum fio de esperança no amor. São intercaladamente ouvidos artistas que cultuam a breguice, que teve seu auge nos anos 60 e 70, como Odair José, Wando, Nelson Ned, Amado Batista, Agnaldo Timóteo e Lindomar Castilhos, sendo que este empresta o título de uma de suas canções para o filme. Refutam o estigma sob o argumento de que a música Negue interpretada por Nelson Gonçalves vira artigo de luxo quando Maria Bethânia grava. Ou ainda, como afirma Timóteo “Minha música é brega? Por que não foi composta por Chico Buarque de Holanda, oriundo de família nobre?”

Vou Rifar Meu Coração é bem palatável, realizado com dignidade e carinho pela documentarista, na mesma proporção que Patrícia Pilar realizou Waldick, Sempre no meu Coração (2008). As músicas desfilam num universo de vidas conflitadas e amargas, porém sem perder a luz da esperança com as canções entoadas sem refinamento e tidas por muitos como de mau gosto, por serem excessivamente populares, num imaginário romântico, com muita afetividade e erotismo desbragado. No olhar atento e sem preconceito da cineasta, temos o casal de gays que dança ao som de Deslizes, por Fagner e da prostituta que foi retirada da zona do meretrício para se casar e constituir família com um fã apaixonado.

Rieper demonstra conhecimento estético sem grandes arroubos e se impõe como diretora, com elipses sempre na hora certa. Não há bruscas interrupções, conduz com sensibilidade o documentário, que se insere como daqueles de boa aceitação pelo grande público, pois faz por merecer, diante da suavidade como conduz. O resultado se não é dos melhores, está longe da decepção, sendo bem razoável pela simplicidade, desapego e leveza.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Velha dos Fundos
















Gerações Solitárias

Vem da Argentina em coprodução com o Brasil, o drama contemporâneo A Velha dos Fundos, escrito e dirigido por Pablo José Meza, com uma temática sobre a solidão na cosmopolita Buenos Aires, que abocanhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Huelva de 2010; melhor roteiro e ator no Festival de Gramado de 2010; seleção oficial nos festivais de Mar del Prata, Cairo e São Paulo, inserindo-se como um promissor cineasta, após deixar boa impressão na estreia atrás das câmeras com Buenos Aires 100 km (2004).

A trama retrata o isolamento vivenciado em duas gerações distintas: uma é a de Marcelo (Martín Piroyansky), um jovem estudante de medicina, sem dinheiro para pagar o aluguel, pois recebe míseros trocados entregando panfletos na rua, não tem amigos, oriundo de La Pampa no interior da Argentina, de pais pobres que trabalham nas terras de uma pessoa importante, como relata o rapaz. Tem como musa uma garota enigmática que trabalha com a mãe como secretária num escritório de advocacia. Na outra ponta está a vizinha Rosa (Adriana Aizemberg), uma senhora de 81 anos que mora sozinha, ranzinza, mal-humorada, nunca abre as cortinas do apartamento para não ser vista por ninguém da rua e sobrevive de uma pequena pensão. Após ter viuvado, apenas nutre um amor platônico pelo vendedor de flores, admirando-o por muitas horas.

O cenário é uma Buenos Aires cosmopolita e decadente, já tendo perdido muito de seu charme pela crise econômica que assola o país, onde dois vizinhos do mesmo andar de um prédio antigo se encontram por acaso no obsoleto e barulhento elevador, com seus crônicos problemas de manutenção. Os personagens são muito parecidos com os do longa Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, onde também duas criaturas desconhecidas que moram no mesmo edifício e são sós, numa profunda abordagem do vazio existencial de dois jovens.

O rapaz ao se dispor morar com a idosa não tem outra saída para seus problemas financeiros. Nada lhe é pedido em troca, exceto que converse todos os dias antes de dormir. A anciã não tem parentes e sequer amizades. Se antes não trocavam nenhuma palavra nos encontros fortuitos, agora terá que dar uma atenção especial para a velhinha, como recompensa pelo alojamento e assim suprir sua solidão, com assuntos que nem lhe interessa muito, mas tendo na companhia do estudante uma maneira de afastar-lhe do tédio, dando-lhe novo alento para quem tinha apenas um pássaro estressado na gaiola dentro do humilde apartamento.

Um filme que aborda o intimismo de duas pessoas opostas de gerações, mas próximas e universais no aspecto de melancolia que os assola. Num contexto de vidas aparentemente diferentes na essência, tanto pelos gostos, usos e costumes que converge dois seres excluídos e à beira da ruína. Marcelo não quer voltar para o interior sem realizar as provas finais na faculdade e a generosa Rosa precisa da presença humana daquele que simboliza a juventude e a esperança. O braço engessado é uma alegoria dos enigmas da vida e serve como uma alusão à situação caótica que ambos passam, quando liberta-se das amarras, numa sugestão de que a vida segue. A solidão também é muito bem abordada no comovente filme portenho Chuva (2008), de Paula Hernández; bem como no fascinante Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola, retratando dois personagens sozinhos o tempo todo, sofrendo com o fuso horário em Tóquio. Porém, nada se compara com o inesquecível episódio Shaking Tokio, dentro do longa Tóquio (2008), dirigido pelo coreano Bong Joon-ho, num dos mais melancólicos e devastadores relatos de isolamento humano no cinema.

Um filme com elenco consistente, destacando-se a atriz Adriana Aizemberg, numa atuação impecável e comovedora, faz jus à sua fama de estrela no teatro da Argentina por 40 anos. Teve outros grandes papéis como em O Abraço Partido (2004) e As Leis de Família (2006), ambos e Daniel Burman. Meza tem o domínio exato e certeiro da elipses, dando um clímax correto e profundo nas cenas que se sucedem, com uma perfeita visão de estrutura, deixa fluir seus longas num roteiro enxuto, o que torna-os bem distante da mesmice e de cenas chatas ou prolongadas que caem no vazio, como visto recentemente em Na Estrada (2012), de Walter Salles. Um diretor com estilo próprio e que espera-se outras obras no mesmo nível.

A Velha dos Fundos é uma película sem muitos diálogos, prevalecendo o silêncio sintomático dos desesperançados à procura de um foco de vida. O cineasta lança um olhar universal para as situações dos indivíduos solitários. Filma o contraponto do urbanismo com a intimidade de seus personagens individuais, dentro de seus movimentos e suas dificuldades no coletivo, onde pessoas atônitas e excluídas de uma instigante relevância social ficam à mercê de um convívio salutar, deixando o pessimismo tomar corpo e erguer-se como uma espada na cabeça neste sensível e belo drama.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Violeta Foi para o Céu















A Mulher e o Mito

Andrés Wood é um diretor bem conceituado no Chile. Seus filmes mais recentes no Brasil são A Febre do Louco (2001) e o cultuado Machuca (2004), com o qual obteve sucesso internacional. Com Violeta Foi para o Céu, uma coprodução entre Chile, Argentina e o Brasil, teve indicação para o Oscar deste ano pelo Chile; venceu o Festival de Sundance, nos EUA, com os prêmios do público e do júri internacional; melhor atriz em Guadalajara, prêmio do júri em Miami; e ainda um dos finalistas do prêmio Goya, na categoria de produção ibero-americana. Foi sucesso total e campeão de público chileno em 2011, sendo assistido por mais de 400.000 pessoas.

Wood conta a trajetória da vida de Violeta Parra, baseado no livro homônimo escrito por um de seus filhos, Ángel Parra. O longa começa com a infância humilde na Província de Nuble, na região das Cordilheiras dos Andes, acompanhava o pai tocando pelos bares e passa pelo interior de seu país. A narrativa foge do linear e vai traçando um painel diversificado da protagonista, intercalando-se com trechos de uma entrevista concedida para um canal de televisão nos anos 60. O que lembra como mote Chico Xavier- O Filme (2010), de Daniel Filho. Com uma fotografia primorosa do rústico cenário, sendo complementado por uma trilha sonora soberba, mas tendo no ponto mais alto a antológica interpretação da atriz Francisca Gavilán na pele de Parra, canta e não dubla as canções, dando uma dimensão natural e singular.

A cinebiografia é recheada de cenas marcantes e com uma dramaticidade em alto estilo, sem ser piegas ou cometer excessos ou devaneios inconsequentes. Há o relacionamento conturbado com o suíço Gilbert Favre e os percalços de relacionamentos, como o primeiro marido, de quem quer esquecer e jamais lembrar, pela suposta omissão na morte do filho ainda bebê, quando estava em turnê e atinge a consagração na Europa (Polônia e França). Violeta Parra foi uma artista completa, pois além de cantora, era compositora, folclorista, poetisa, pintora, escultora, ceramista e uma grande guardiã das tradições de seu país. Continua sendo um ícone da cultura no Chile, grande amiga de Pablo Neruda, ambos eram comunistas. Esteve sempre muito próxima da outra notável cancioneira argentina Mercedes Sosa (La Negra), que lhe prestou tributo após sua morte, gravando suas canções, como Gracias a la Vida-paradoxalmente acaba com a vida em 1967, ao se suicidar-, Volver a los diecisiete, também com a companhia nas homenagens de Milton Nascimento. Já Victor Jara celebrizou a canção Arriba Quemando el Sol, no movimento contra o truculento Pinochet, que lhe custou a própria vida por fuzilamento no Estádio Nacional. Estas composições viraram verdadeiros hinos da música latino-america.

O filme emociona na cena do avô negando-se em nunca mais cantar, após a perda do neto, mas que abre uma exceção para Parra, ao saber da dor daquela mãe que perde seu filho precocemente. Outra cena simbólica é a do pai tendo um surto e quebra o violão, após perder seu patrimônio em jogos de azar, deixa como legado para a filha ainda criança, um outro violão sinalizando com as composições que falam de pássaros. Com este gesto está alavancando a carreira da extraordinária intérprete de voz clara e poderosa, que sufoca as mágoas e as tristezas pelos caminhos tortuosos da vida defendendo a arte, como deixa transparecer num desabafo e assevera que sua vida é marcada em 40 anos por lutas sustentadas por uma grande fibra, mas que aos 50 anos sucumbe, ao pôr fim na sua trajetória.

O longa omite alguns momentos históricos da passagem da artista, como seu envolvimento com a política, sem comprometer mas fluindo os relatos ao mostrar uma mulher que deixa para trás os filhos na ânsia de buscar a carreira, mas logo os reencontra, mostrando-se uma mãe amorosa. Sua exposição de algumas obras de arte no Museu de Louvre, em Paris, é apresentada como uma meta atingida, pois consegue algo que parecia impossível. Nunca se dá por vencida, por ter um temperamento sanguíneo e quase temperamental dentro de uma aparência desleixada quando lhe convém, mas é vaidosa quando está amando. Tem uma vida marcada pela solidão com os desprazeres amorosos. É pouco reconhecida em Santiago, ao montar uma espécie de galpão cultural, vê fracassar sua iniciativa pela falta de público.

Violeta Foi para o Céu retrata o crepúsculo de uma artista e de uma mulher fascinante, de bom gosto musical, senso crítico apurado, determinada e que nunca se submete aos caprichos dos que pretendem lhe tirar alguma vantagem. É o símbolo da cancioneira latino-americana que cantou as dores e as tristezas dos amores equivocados. Magnífica a cena da alegoria do gavião e da galinha, simbolizando a luta do capitalismo embrutecido contra o trabalhador inferiorizado. Perturba por ser contundente nas recordações retratadas neste fabuloso filme sobre os desdobramentos da vida, seus ensinamentos reflexivos, as emoções existenciais de uma mulher à frente de seu tempo, que despreza as convenções sociais para ser ela mesma.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Na Estrada

















Geração Perdida

O best-seller de Jack Kerouac On The Road, de 1957, é levado pela primeira vez às telas do cinema pelo festejado diretor brasileiro Walter Salles, numa produção dos EUA, França e Grã-Bretanha, através do cineasta e produtor Francis Ford Copolla, que em 1979, adquiriu os direitos legais para realizar a adaptação. Salles recriou de forma elegante a saga da contracultura dos jovens perdidos no mundo do pós-guerra, deixando nítidos os reflexos violentos do período da Grande Depressão americana de 1929.

O manifesto de Kerouac escrito de 1947 a 1951, tomou forma e acabou por ser publicado em 1957, sobre a trajetória vivida pelo autor com seus amigos Neal Cassady, Allen Ginsberg e William S. Burroughs, conhecidos posteriormente como figuras exponenciais e inventores do movimento literário beat. Suas experiências foram levadas para a literatura e transformadas em livro que virou um clássico da juventude, principalmente dos jovens à procura de seus destinos e de um sentido para a vida, ainda que, como enfocado pelo cineasta, redunda num processo de desintegração pelo excesso de álcool, droga e fumo. Deixa-os completamente hipnotizados pela amargura e pelo desejo de liberdade, através de uma rebeldia que beira quase aos sem causa. Os relatos são bem mais profundos e complexos nos seus modus operandis intrínsecos de vidas perdidas e sem nexos existenciais.

Na Estrada tem presenças marcantes como de Marylou (Kristen Stewart), surpreende ao aparecer nua e participa de um ménage à trois, bem oposta de sua personagem em Crepúsculo (2008); mas para contracenar com a musa do filme, apresentam-se os viajantes Dean Moriarty- o ex-marido- (Garret Hedlund) e Sal Paradise- alter ego do autor do livro- (Sam Riley) que dão consistência e embasamento para o drama e o desenvolvimento sobre as angústias e os dissabores da vida, como do protagonista que procura seu pai junto aos mendigos de rua. Logo se vê os reflexos em sua personalidade, ao largar mulher e filhos para uma vida sem objetivos e completamente vazia para um adulto, largando o pé pelo mundo à procura de aventuras bissexuais.

O cineasta brasileiro já havia realizado um filme similar de estrada em Diários de Motocicleta (2004), sobre a vida Che Guevara, agora atinge um resultado acima do razoável, longe de uma obra maravilhosa e bem distante da obra-prima de Dennis Hopper Sem Destino (1969), marco histórico da rebeldia de dois amigos que saem em uma jornada desenfreada de sexo, drogas e liberdade pelas estradas poeirentas do Sul dos EUA; mas está próximo de Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott; ou ainda de Antes Só do Que Mal Acompanhado (1987), de John Hughes.

O diretor busca a fidelidade nos relatos, dando autenticidade ao livro que se embasou. Desveste o clássico para uma linguagem cinematográfica, destacando-se a figura singular criada em Dean, na realidade Neal Cassidy, um irlandês órfão de mãe e pai alcoólatra que perambula pelas ruas como um excluído social. Ou na melancolia devastadora de Sal, logo após a morte do genitor, que o fez se lançar como um itinerante pelas estradas da vida de diversas cidades dos EUA e por fim no México.

Salles conduz a trama com segurança até mais da metade do filme, deixando transparecer falta de fôlego para os restantes 40 minutos, embora tivesse uma boa estrutura para o longa, peca pela pouca dramaticidade e investe mais no tecnicismo, mas evita bem os arroubos de grandes cenários, com um domínio muito bom dos planos e contraplanos de cenas. Mas o grande equívoco desta produção é a montagem precária, que acarreta sequências longas e sonolentas, especialmente na parte final, tornando extenuado para o espectador. Fica a indagação do por que não deixar mais enxuto e dinâmico, pois seria bem mais palatável a película.

O filme centraliza seus personagens numa viagem existencial improvável, de rumos irrefreados a cada parada, sem um norte, ou apenas tendo como lema a inspiração para viver bem longe de um universo incerto pelos dogmas e normas. Tudo é buscado com voracidade e sem um regramento preocupado com os ditames estabelecidos pela sociedade de consumo. Eis um satisfatório drama que aborda os prazeres de viver muito em tão pouco tempo, como se o mundo fosse acabar no outro dia, com cores de doloridas e tristes, apesar dos excessos e repetições de cenas.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Fausto

















Profundezas do Inferno

Alexander Sokurov encerra sua tetralogia com Fausto, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, baseado livremente no famoso livro filosófico do festejado Goethe, considerado símbolo cultural da modernidade e de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, um médico e estudioso da astrologia desiludido que faz um pacto com o demônio e recebe as endiabradas energias insufladoras da paixão. Foi levado ao cinema pela primeira vez pelo cineasta alemão F. W. Murnau, em 1926, consagrando-se como um autêntico filme do cinema mudo. Embora haja alguma resistência em vê-la como uma obra dentro do contexto, tendo em vista que os longas da trilogia, até então, eram baseadas em homens políticos de carne e osso, tais como: Hitler em Moloch(1999), Lênin em Taurus (2001) e Hirohito em O Sol (2005). São vazias as argumentações contrárias, numa visão caolha apressada, provavelmente.

O cineasta russo demonstra no filme toda sua capacidade inventiva de criação e de sedução com o cinema na melhor tradição europeia expressionista, ao abordar com desenvoltura um clássico da literatura alemã. Coloca-o dentro de uma sequência de filmes sobre os tiranos que fizeram a humanidade padecer, principalmente com as inúmeras atrocidades dentro de seus respectivos países, como na forte cena inicial da dissecação de um corpo humano para estômagos menos sensíveis. Ali, já se afasta do tom glamouroso da obra-prima Arca Russa (2002), onde havia uma simbiose de cinema, história e artes plásticas, filmado em um único plano-sequência de 97 minutos, sem cortes, atravessando as salas do museu e transformando a tela num quadro vivo por onde desfilam personagens da história da Rússia: Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.

A trama enfatiza o Dr. Fausto (Johannes Zeiler), uma pessoa materialista à procura de uma linda mulher, ou seja, Margarida (Isolda Dychauk) e muito dinheiro, que perde a dignidade ao vender a alma para o diabo Mefistófeles (Anton Adasinsky), um sujeito manipulador e horrendo, de corpo deformado, traiçoeiro, fedorento ao extremo, que anda num cenário da Idade Média, onde há muita fome e miséria num lugarejo alemão, por reflexos da corrupção que ali campeia solta. Ao submeter-se como um dependente físico e espiritual do mentor diabólico, o médico acaba por cometer um crime, refletindo em abalos profundos na sua existência, levando-a conhecer as profundezas e os horrores inóspitos do inferno. Num duelo entre o bem e o mal, Sokurov mostra que nada resta após a dignidade ter sido negociada de maneira irreversível com as forças satânicas do além.

Sokurov é um discípulo de seu compatriota e amigo Andrei Tarkowsky, outro genial cineasta russo, e ao concluir a tetralogia apresenta como seu tirano maior e pai de todos o Satanás, buscando inspiração no clássico de Goethe, para de forma alegórica e fulminante refletir se existe salvação ainda para o ser humano, numa colocação brilhante, não deixa pedra sobre pedra, vai embrenhando-se pelas cavernas que começam na Terra e atravessam fronteiras. Faz uma alusão a Ingmar Bergman, como no funeral e a pompa lúgubre dos que partem para o infinito, marcados pela dolorida perda entre seus próximos, lembra o drama Morangos Silvestres (1957), no temor da morte que se aproxima e nas lembranças que estão presentes ao encontrar diversas pessoas pela estrada; ou ainda nos reflexos do rosto petrificado pelas sombras e dúvidas de Margarida, como uma típica figura bergmaniana.

Há algumas cenas marcantes, como na do vinho jorrando das paredes, servindo como mote induzido para o grande blefe; ou na morte involuntária do jovem, mas que bem poderia ter sido premeditada pelo símbolo da violência e da loucura, que tem a condução e as soluções da caminhada inglória. Logo adiante há o reencontro entre os protagonistas do ato, sendo que a vítima ainda sofre e vive como uma alma penada no purgatório. O diretor russo não deixa margem para dúvidas no seu libelo contra a opressão e das lutas sem sentido patrocinadas pelos ditadores, como na cena dos soldados vindos da guerra, cruzam com Fausto e Mefistófeles, todos eles têm na morte suas lembranças maiores que ficaram para trás, num ambiente sombrio e horripilante, com um visual arrebatador e dolorido. É o indivíduo perdido na escuridão da eternidade e sua luta tenaz pela volta.

O cineasta segura firme o longa-metragem, num cenário estupendo e alicerçado por um figurino impecável de época, abordando com coragem e contundência a repressão tão contestada em seu país, para dar luzes mórbidas num clima de desespero pela volta ao estado anterior do médico, aonde os enigmas vão se desanuviando numa implícita alegoria aos expurgados dissidentes inconformados de um regime autoritário. Os caminhos são mostrados como irreversíveis neste fabuloso Fausto, um filme sobre a dignidade humana perdida dentro de um contexto formado pela tirania de falsos líderes.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Para Roma, com Amor















Tributo à Italiana

No seu 42º longa-metragem, Woody Allen, além de diretor, acumulou as funções de roteirista e ator em Para Roma, com Amor, contando quatro histórias na Capital italiana, baseadas em Decamerão de Bocaccio, porém ficou bem aquém de sua capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações angustiantes do dia a dia. Evidente que poucos filmes se comparam com Zelig (2003), uma das obras-primas do cineasta; ou o inesquecível longa, talvez o maior filme do velho mestre, A Rosa Púrpura do Cairo (1985), naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película, para fugir do martírio de sua vida cotidiana na época da Grande Depressão dos EUA.

Depois que começou sua fase europeia, ao filmar em lugares distantes de sua querida Nova Iorque, iniciando por Londres com Ponto Final- Match Point (2005), um dos melhores dos últimos anos; Scoop- O Grande Furo (2006); e O Sonho de Cassandra (2007). Seguiu como turista com sua câmera na mão e ancorou na Espanha com Vicky Cristina Barcelona (2008). Passou pelos EUA de regresso e assinou Tudo Pode Dar Certo (2009), onde escolhe com perfeição seu alter ego como Boris (Larry David), no papel do velho rabugento e neurótico. Retorna para a Inglaterra e realiza Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010); passando pela França dirige Meia-Noite em Paris (2011), possivelmente sua melhor obra nos últimos anos, tanto pela grandeza artística como pela ótima recepção de público e crítica, num filme singular e magnífico, ao transpor as barreiras da ficção pragmática, mergulha na fantasia e nos sonhos, deixa a realidade como fator secundário, não sem antes dar algumas alfinetadas nos americanos estereotipados e engajados com o consumismo e com as guerras frias.

Para Roma, com Amor  tem como ponto de referência um casal americano que vai conhecer os familiares ricos do marido Antônio (Alessandro Tiberi), que acaba de apresentar numa farsa a prostituta (Penélope Cruz) e não a mulher verdadeira (Alessandra Mastronardi- de beleza marcante e grande revelação no elenco), causando situações embaraçosas e desconcertantes. Outra figura estranha é Leopoldo (Roberto Begnini), que acorda de manhã famoso, sendo perseguido pelos paparazzis ensandecidos na procura de alguém para a fama instantânea, numa abordagem sobre a transitoriedade de pessoas do povo para a glória repentina, em prol de notícias de notoriedades fabricadas, como se vê na sequência com outro ilustre desconhecido. A película tem fatos inusitados como do arquiteto John (Alec Baldwin) sendo abordado pelo jovem Jack (Jesse Eisenberg- cada vez mais o alter ego do diretor), que se apaixona por Mônica (Ellen Page), a melhor amiga da namorada e no desenrolar da trama revive momentos tristes da trajetória de sua vida. John circula por Roma e surge como um anjo da guarda e voz presente para Jack, dando-lhe conselhos e tornando os personagens num só.

Mas as grandes tiradas se concentram em Jerry (Allen), um músico de orquestra aposentado que descobre um grande talento cantando no banheiro. Nada mais, nada menos, do que o sogro de sua filha. Sofre, entretanto, a oposição de seu genro, um comunista ferrenho, que não quer ver o pai deixar a profissão de dono de uma funerária para tentar ser tenor ao melhor estilo de Caruso. Os fatos se sucedem e a montagem da ópera do Pagliacci, de Leoncavallo, acaba por ser uma realidade magnífica numa solução encontrada para o desfecho insólito e arrebatador, dentro do contexto criativo para aproveitar-se o potencial artístico da revelação musical.

Allen se debruçara em imagens bem conhecidas no longa Meia-Noite em Paris, como a Torre Eiffel, o rio Sena com seus barcos e o Arco do Triunfo; agora já na abertura desta última produção, mostra o carrossel da Piazza del Pappolo, com um guarda se descuidando de seus afazeres provocando um acidente de trânsito. A comédia é divertida, mas contida, e o humor sarcástico está presente mesclado com um surrealismo em quase todas as cenas, como se Fellini estivesse ali com seus notáveis A Doce Vida (1960) ou em Abismo de um Sonho (1952), no episódio da mulher casada perdida na cidade; ou ainda na homenagem à ópera, como na bela cena do epílogo.

O cineasta tem fôlego e monta uma verdadeira associação de seres diferentes dentro da mesma espécie, como nas inter-relações íntimas de traições, como se fosse uma simbiose. Enfoca Roma e o painel ali existente de várias castas da sociedade, inclusive sem deixar de mostrar a evolução de uma era primitiva para os novos tempos, estando no meio das ruínas o simbólico Coliseu, como uma metáfora civilizatória para a modernidade. Aborda com relativo interesse as neuroses e os relacionamentos despudorados, bem como as traições voluntárias ou induzidas, com métodos de sedução nada convencionais para libertar e expulsar os fantasmas como numa terapia nada ortodoxa, neste filme mediano de encontros e desencontros e situações surreais de expurgos das angústias atormentadoras.