terça-feira, 17 de julho de 2012

Fausto

















Profundezas do Inferno

Alexander Sokurov encerra sua tetralogia com Fausto, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, baseado livremente no famoso livro filosófico do festejado Goethe, considerado símbolo cultural da modernidade e de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, um médico e estudioso da astrologia desiludido que faz um pacto com o demônio e recebe as endiabradas energias insufladoras da paixão. Foi levado ao cinema pela primeira vez pelo cineasta alemão F. W. Murnau, em 1926, consagrando-se como um autêntico filme do cinema mudo. Embora haja alguma resistência em vê-la como uma obra dentro do contexto, tendo em vista que os longas da trilogia, até então, eram baseadas em homens políticos de carne e osso, tais como: Hitler em Moloch(1999), Lênin em Taurus (2001) e Hirohito em O Sol (2005). São vazias as argumentações contrárias, numa visão caolha apressada, provavelmente.

O cineasta russo demonstra no filme toda sua capacidade inventiva de criação e de sedução com o cinema na melhor tradição europeia expressionista, ao abordar com desenvoltura um clássico da literatura alemã. Coloca-o dentro de uma sequência de filmes sobre os tiranos que fizeram a humanidade padecer, principalmente com as inúmeras atrocidades dentro de seus respectivos países, como na forte cena inicial da dissecação de um corpo humano para estômagos menos sensíveis. Ali, já se afasta do tom glamouroso da obra-prima Arca Russa (2002), onde havia uma simbiose de cinema, história e artes plásticas, filmado em um único plano-sequência de 97 minutos, sem cortes, atravessando as salas do museu e transformando a tela num quadro vivo por onde desfilam personagens da história da Rússia: Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.

A trama enfatiza o Dr. Fausto (Johannes Zeiler), uma pessoa materialista à procura de uma linda mulher, ou seja, Margarida (Isolda Dychauk) e muito dinheiro, que perde a dignidade ao vender a alma para o diabo Mefistófeles (Anton Adasinsky), um sujeito manipulador e horrendo, de corpo deformado, traiçoeiro, fedorento ao extremo, que anda num cenário da Idade Média, onde há muita fome e miséria num lugarejo alemão, por reflexos da corrupção que ali campeia solta. Ao submeter-se como um dependente físico e espiritual do mentor diabólico, o médico acaba por cometer um crime, refletindo em abalos profundos na sua existência, levando-a conhecer as profundezas e os horrores inóspitos do inferno. Num duelo entre o bem e o mal, Sokurov mostra que nada resta após a dignidade ter sido negociada de maneira irreversível com as forças satânicas do além.

Sokurov é um discípulo de seu compatriota e amigo Andrei Tarkowsky, outro genial cineasta russo, e ao concluir a tetralogia apresenta como seu tirano maior e pai de todos o Satanás, buscando inspiração no clássico de Goethe, para de forma alegórica e fulminante refletir se existe salvação ainda para o ser humano, numa colocação brilhante, não deixa pedra sobre pedra, vai embrenhando-se pelas cavernas que começam na Terra e atravessam fronteiras. Faz uma alusão a Ingmar Bergman, como no funeral e a pompa lúgubre dos que partem para o infinito, marcados pela dolorida perda entre seus próximos, lembra o drama Morangos Silvestres (1957), no temor da morte que se aproxima e nas lembranças que estão presentes ao encontrar diversas pessoas pela estrada; ou ainda nos reflexos do rosto petrificado pelas sombras e dúvidas de Margarida, como uma típica figura bergmaniana.

Há algumas cenas marcantes, como na do vinho jorrando das paredes, servindo como mote induzido para o grande blefe; ou na morte involuntária do jovem, mas que bem poderia ter sido premeditada pelo símbolo da violência e da loucura, que tem a condução e as soluções da caminhada inglória. Logo adiante há o reencontro entre os protagonistas do ato, sendo que a vítima ainda sofre e vive como uma alma penada no purgatório. O diretor russo não deixa margem para dúvidas no seu libelo contra a opressão e das lutas sem sentido patrocinadas pelos ditadores, como na cena dos soldados vindos da guerra, cruzam com Fausto e Mefistófeles, todos eles têm na morte suas lembranças maiores que ficaram para trás, num ambiente sombrio e horripilante, com um visual arrebatador e dolorido. É o indivíduo perdido na escuridão da eternidade e sua luta tenaz pela volta.

O cineasta segura firme o longa-metragem, num cenário estupendo e alicerçado por um figurino impecável de época, abordando com coragem e contundência a repressão tão contestada em seu país, para dar luzes mórbidas num clima de desespero pela volta ao estado anterior do médico, aonde os enigmas vão se desanuviando numa implícita alegoria aos expurgados dissidentes inconformados de um regime autoritário. Os caminhos são mostrados como irreversíveis neste fabuloso Fausto, um filme sobre a dignidade humana perdida dentro de um contexto formado pela tirania de falsos líderes.

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