sexta-feira, 19 de maio de 2017

O Cidadão Ilustre


A Discórdia

Novamente vem da Argentina, desta vez em coprodução com a Espanha, um filme com uma temática aparentemente simples, mas enganosa, diante da boa reflexão da privacidade e das relações em sociedade, que faz desta obra quase uma obrigação aos cinéfilos em assisti-la, deixando o enredo correr, para um desfecho inusitado que chegará à proposta dos seus realizadores, tendo em vista a complexidade dos seres humanos pelo paradoxo da harmonia com o conflito e os valores que são dados às vidas, aos interesses particulares e às amizades. A dupla de diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat, a mesma do excelente O Homem ao Lado (2009), retorna com uma outra instigante comédia dramática, O Cidadão Ilustre, digno representante da Argentina na disputa por uma vaga no Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, trouxe ainda o prêmio Goya de melhor filme ibero-americano, láurea máxima da indústria cinematográfica espanhola.

Já se tornaram triviais as produções do país vizinho terem características muito peculiares nas suas abordagens como a sutileza e a sensibilidade, com abordagens discutidas buscando como mote a simplicidade, deixando os grandes cenários em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e as conclusões filosóficas de vida e das relações humanas tangenciadas pelo clima hostil ou pela solidariedade, como visto nas realizações de Carlos Sorín em Histórias Mínimas (2002), O Cão (2004) e A Janela (2008); Pablo Trapero com Família Rodante (2004) Nascido e Criado (2006) e Abutres (2008); Lucrécia Martel com a obra-prima O Pântano (2001); Marcelo Piñeyro no belíssimo Kamchatka (2002); Paula Hernández no comovente Chuva (2008), e outros tantos cineastas comprometidos com o cotidiano singelo, muitas vezes invadido ou perturbado por problemas familiares, ou pela crise econômica que ainda perdura.

O Cidadão Ilustre é mais uma dessas produções marcantes na essência que chega às telas brasileiras, numa trama em que Daniel Mantovani é um escritor argentino que vence o Prêmio Nobel da Literatura, bem-sucedido na Europa, vive há 40 anos em Barcelona. Logo que a mãe faleceu, o jovem de apenas 20 anos deixou a província de Salas, distante mais de 700 quilômetros de Buenos Aires. O retorno do intelectual se dá pelo convite da prefeitura da tacanha cidade natal, que fará várias homenagens ao seu filho famoso, entre elas uma medalha e uma estátua na praça. Vencedor do último Festival de Veneza de melhor ator, o eclético Oscar Martinez que brilhou em Ninho Vazio (2008), Relatos Selvagens (2014) e Paulina (2015), interpreta magistralmente o personagem central que passará uma semana de prazeres e alguns inconvenientes, como dissabores bem hostis, uma boa dose de violência e muitos ressentimentos de seus conterrâneos, que o veem paradoxalmente em um traidor que se utiliza de figuras folclóricas dali para inspirar seus personagens fictícios nos livros para adquirir fama e dinheiro.

Cohn e Duprat retratam com um certo cinismo mesclado de humor os rancores, os ciúmes e uma pitada de amargura na volta do consagrado romancista vaidoso avesso às bajulações que deu asas à imaginação ao residir no exterior, criando best-sellers com fatos pitorescos de Salas. Por tudo isto é visto como um estranho no ninho pela maioria dos habitantes daquele lugarejo distante que parou no tempo. Escrever bem longe era sua meta que deu certo, porém não tinha noção dos contratempos que poderia encontrar, como ser usado pelo prefeito para angariar simpatia e votos nas próximas eleições, tem que desfilar ao lado rainha da cidade num carro de bombeiros seguido por um cortejo de veículos. Recebe inúmeros presentes, convites para almoços e jantares, participa como jurado de uma Mostra de Pintura de artistas locais, e até um pedido de uma cadeira de rodas especial, de um pai para um filho paraplégico. Ganha desafetos em meio às homenagens, como de um velho amigo que casou com sua ex-namorada, além de envolver-se com uma garota que jamais pensara de quem era filha. São encrencas diárias que terá que saber lidar neste retrato panorâmico sobre os infortúnios de uma celebridade que terá novos subsídios para escrever seu inspirado romance definitivo, que dá nome ao título do longa no epílogo redentor.

A comédia apresenta de forma direta com um tempero agridoce e sem rodeios a rotina dos dias da viagem de Mantovani, ao observar a paisagem que se revela ouvindo fragmentos de situações excêntricos que o rodeiam. Era para ser um passeio de reminiscências, virou um dilema nefasto no enxuto e demolidor roteiro de Andrés Duprat, ao reviver emoções de velhos fantasmas escondidos nas fraquezas das amizades e dos amores pretéritos que ficaram submersos por décadas. Porém o jovem recepcionista do acanhado hotel em que se hospeda, no gesto de alcançar os manuscritos literários ao seu ídolo, simboliza a continuação e a esperança de quem poderá também chegar ao estrelato, por coincidência tem a mesma idade do escritor quando deixou a província. Uma sutil analogia sarcástica à sociedade dividida entre o menosprezo à sofisticação pomposa europeia com um entusiasmo excessivo pelo arcaico nacionalismo rudimentar com repúdio ao estrangeirismo nesta narrativa linear e emblemática sobre o cotidiano nesta realização imperdível pela singularidade, não só pelas fantasias e sonhos contrapondo-se com um contexto amargo, mas com uma brecha para se buscar a dignidade no conflito de fatores como o rancor, e no embate de duas civilizações opostas neste tema universal.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Argentina


Riqueza de Tradições

Um filme argentino em coprodução com a Espanha e a França sem diálogos e que não tem tango, porém envolve a plateia com a riqueza das tradições musicais e do estonteante folclore com sua gênese arrebatadora do país vizinho. O documentário passa em revista os movimentos culturais e artísticos diferentes encontrados ali, com muita emoção e um deslumbrante apelo visual. Argentina é uma apresentação mesclada de relatos e encenações com interpretações de várias canções que povoam uma trajetória de leveza e fascínio numa deliciosa viagem. Dirigido com a competência peculiar pelo octogenário cineasta espanhol Carlos Saura, que tem em sua filmografia obras políticas memoráveis como Ana e os Lobos (1973) e Cría Cuervos (1976), além de musicais inesquecíveis como Bodas de Sangue (1981), Carmen (1983) e Amor Bruxo (1986), que formaram a trilogia flamenca, em parceria com o famoso bailarino Antonio Gades, morto em 2004.

Saura desenvolve um tipo de cinema singular nos tempos atuais, ao se afastar de sua narrativa profunda e demolidora para aderir e explorar com eficiência exibições de espetáculos de dança, com o intuito de fazer sentir a música, carrega na coreografia com um figurino todo especial no diversificado folclore dos hermanos, como agora em Argentina. Na mesma esteira, já havia se inclinado anteriormente com Tango (1998), Salomé (2002) e Fados (2007). Com seu novo documentário, novamente visita os ritmos e a cultura dos argentinos. O tango foi subtraído propositalmente, até porque já foi homenageado numa produção específica em 1998. Ao garimpar os ritmos musicais, apresenta para o grande público novos e velhos talentos, como cantores e grupos regionais que representam com todo ardor e paixão o chamamé, malambo, chacarera, zamba, copla, a bela cueca na colheita de uva, e carnavalito, esta a mais fraca entre elas. Todas trazem uma abundância na forma como são utilizados os instrumentos de cordas, bumbo, violão violoncelo e o piano, bem como os variados estilos e a maneira como são dramatizadas, através de expressões corporais que remete para uma sensualidade na dança com corpos em movimentos que se aproxima de uma sugestiva e delicada erotização sutil pelos rituais e um colorido harmônico com rara sensibilidade.

A realização se esmera na imagem das típicas boleadeiras num balé intenso de batidas no chão deste apetrecho que exige habilidade e ritmo, que não poderia ficar de fora desta representação quase que teatral; a chula com seus sapateados; além dos cantos da relação do homem com a mulher e seus sentimentos de dor, amor e perda. Fica a sensação da influência explícita sobre as músicas regionais, o folclore e as tradições do Rio Grande do Sul pela proximidade das fronteiras, como bem enfatiza uma das canções que fala do amor a Tucumán e os gauchos daquele lugar. O subsídio que penetrou com força no interior deste Estado limítrofe, traz no chimarrão, no churrasco, e nas pilchas características dos gaúchos e suas prendas, que irão ao encontro dos habitantes dos campos com seus gados, numa clara similitude pelos usos e costumes.

Há de se ressaltar os comovente tributos póstumos a duas celebridades do mundo artístico latino-americano engajados nas lutas sociais e políticas: Mercedes Sosa (1935- 2009) e Atahualpa Yutanqui (1908- 1992), além do desfile de artistas consagrados do folclore, tais como: a grande diva nativista Liliana Herrero, Soledad Pastoruti, Juan Falú, Pedro Aznar, Horacio Lavandera, Jaime Torres, El Chaqueño Palavecino, Luis Salinas e o grupo Metabombo. Argentina pode não possuir o mesmo impacto de trabalhos anteriores do veterano diretor que realiza sua obra mais preguiçosa, numa estética singela de poucos cortes, com lacunas informativas e históricas sobre dados da temática, mas que não economiza na magia da cor, da música, da dança e do folclore.

Eis um prazeroso, interessante e digno musical documentado no galpão do La Boca, em Buenos Aires, com painéis e espelhos para captar os movimentos coreográficos autênticos de vários ângulos para exibir imagens contrastando com as sombras dos astros da música e dos ecléticos dançarinos. Uma contribuição valiosa que faz a o espectador sair mais leve e flutuando da sala de cinema. Para ser visto por todos os apreciadores de música e suas tradições típicas diferentes e de qualidade, sem gritos e histerias, apelações ou baixarias, que ao assistir poderão ter a chance de mudar alguns preconceitos equivocados, lembrar e sorver com sensibilidade as sutilezas, deixando os ombros bem mais leves nesta inspirada abordagem cultural. Uma amostragem com nitidez retratada pelos próprios artistas de matizes diversas, mas que deixa raízes para permanecer na memória e vislumbrar novos horizontes musicais como alternativa.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

A Morte de Luís XIV


Ocaso Agonizante

O cultuado cineasta catalão Albert Serra desenvolve com elegância e sensibilidade o processo intenso da agonia dos últimos dias de Luís XIV (Jean-Pierre Léaud, em antológica atuação deste virtuoso ator revelado por François Truffaut e com interpretações destacadas também com Jean-Luc Godard), o mais famoso monarca francês e com mais tempo de reinado no mundo ocidental. Governou por 54 anos a França, após a morte do pai, Luís XIII, em 1643, sem contar o período de criança que herdou a coroa. O drama se passa em agosto de 1715, vindo a falecer em setembro, aos 77 anos, deixando um legado histórico de realizações erguidas como o Palácio de Versalhes, além do apogeu econômico, político, cultural e militar, tudo sob suas ordens sempre reverenciadas pelos súditos e o povo na maioria. Idolatrado e nominado como o Rei Sol, simbolizava o absolutismo pelo brilho que emanava com decisões veneradas em prol de seu país, causava orgulho pela paixão à nação, por isto era pouco contestado. Foi sucedido pelo bisneto Luís XV, com apenas cinco anos de idade, que até alcançar a maioridade em 1723, seu reino foi comandado pelo tio-avô Filipe II.

A Morte de Luís XIV retrata o cotidiano da majestade com seus vassalos fiéis e médicos da Corte, diante da grave doença que lhe abateu, decorrente de um ferimento na perna esquerda que gangrenou e resultou em consequências nefastas que o impossibilitou de comparecer nas reuniões com os ministros para tomar as decisões governamentais do dia a dia. Embora continuasse a exercer suas funções, passou a ter sonos intranquilos, além de problemas com alimentação e febre, que o deixa completamente fragilizado pela decrepitude que vai minando sua lucidez de uma vida minimamente saudável. Há cenas memoráveis como os cachorros no recinto para matar a saudade do protagonista no desenrolar da trama, eis um belo achado; assim como o biscoito sendo mastigado é aplaudido pelo séquito de subordinados; o vinho sendo sorvido como uma esperança de recuperação; e o mirabolante elixir com vários ingredientes receitado por um charlatão como tentativa da cura milagrosa, porém com a frustração do resultado levará o impostor para a pena máxima na prisão da Bastilha, sem direito da ampla defesa. Somente um grande artesão como Serra para não deixar a história cair na monotonia da convalescença até o óbito.

O longa-metragem apresenta com equilibrado zelo a dor e a desintegração de um homem forte, que reclama do fedor do ambiente, ou seja, ele está apodrecendo, como se depreende de sua necrosada perna que deveria ser amputada, mas por uma falha médica, só é constatada no epílogo, depois de eviscerado o corpo no próprio leito para ser retirado o coração e o baço com infecção generalizada. Conclui-se pela negligência de uma época em que a medicina era atrasada e a as pesquisas científicas ainda engatinhavam, mas a metáfora está lançada. O realizador mostra os caprichos e a ostentação de uma monarquia em fase de decadência e decomposição, que viria a ser culminada com a queda da Bastilha em 1789, através da Revolução Francesa. A exigência da água em copo de cristal, renegando o vidro, bem como as atribuídas decisões absurdas do rei em pré-coma, já com pouca consciência cognitiva, são fatores preponderantes de um ciclo obscuro, onde tudo passava pelo todo poderoso, mesmo sem ter um mínimo de lucidez e clarividência. Ali está uma nação paralisada pela moléstia de seu chefe maior, que nos remete por analogia para o fim das vidas dos ditadores Fidel Castro em Cuba e do generalíssimo Francisco Franco na Espanha.

O figurino pomposo de época com as vastas cabeleiras artificiais retrata com fidelidade este drama sombrio com um estilo bem peculiar nas tomadas de cena. Já a temática da morte, a solidão da alcova, a velhice iminente e o formalismo estético lembram em muito Ingmar Bergman, na obra-prima Gritos e Sussurros (1972), num ambiente soturno com eloquência soberba da melancolia pela bela fotografia em meios-tons que capta o aconchegante leito num quarto lúgubre dentro do Palácio de Versalhes como cenário mórbido e claustrofóbico em que é rodado todo o filme, com a iluminação de velas nos candelabros tem o cheiro do perecimento para dar o tom certeiro da narrativa no contexto de seu clímax de dramaticidade. Uma luta ferrenha pela sobrevivência e a tentativa desesperada de segurar aqui entre os mortais um celebridade endeusada e colocada como imortal e indispensável para a engrenagem do poder.

Embora não seja um produto fácil e de rápida digestão, mesmo não sendo complexo, há um falso hiato entre uma produção palatável na relação com o grande público. Porém seu nível de empoderamento promovido com os adeptos da cinefilia é magnífico pela concisão e o grau de narrativa até o alcance invejável no âmago que se propõe como objetivo na crítica temporal ali estabelecida no diálogo entre o espectador e o realizador. É elogiável pela consciência coletiva e a reflexão profunda da proposta política, social e o fim da existência. Um achado ímpar inquestionável nesta realização estupenda em tempos de escassez de obras comprometidas com a cinematografia e seus objetivos de desalienação como meio de expressão e comunicação. Um filmaço imperdível para quem aprecia singularidades com ênfase na essência pura colocadas neste painel arrebatador, que se insere na listagem dos dez melhores filmes de 2017.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Central


Calabouço do Inferno

Um filme que dialoga com a plateia pelos vários depoimentos esclarecedores, dando luz para um problema insolúvel aparentemente, afasta-se dos cansativos e chatos relatos de pouca objetividade, com o intuito de preencher espaços com histórias sem profundidade em filmes similares de pouca expressão. A diretora Tatiana Sager estreia no longa-metragem Central, em codireção com o repórter e colunista policial Renato Dorneles, autor do livro-reportagem Falange Gaúcha (2008), que originou o curta-metragem O Poder Entre as Grades (2014). A cineasta amplia a história e disserta com raro esmero o crime organizado no Rio Grande do Sul, passando pelo episódio da perseguição e da rendição dos perigosos assaltantes de banco e carro-forte Melara e Fernandinho, em 1994, responsáveis pelo histórico motim no Presídio Central, com o desfecho num grande hotel de Porto Alegre, obteve grande repercussão nacional pelo inusitado, com tiroteio e correria de carros pelas principais ruas da Capital gaúcha.

A realização passa em revista e traz para o debate reflexivo o processo difícil da busca da ressocialização de apenados que deverão sair da cadeira. Para isto conta com relatos de detentos e depoimentos fortes de ex-diretores do presídio, jornalista especializado, teólogo, sociólogo, promotor de justiça e o juiz titular da Vara de Execuções Criminais. Um mergulho no calabouço daquela penitenciária infernal infestada de baratas e ratos desfilando pelas dependências, lixo espalhado pelo pátio, esgoto a céu aberto e a superlotação da pior casa prisional do Brasil, apontada pela CPI no Congresso, em 2008, com capacidade para 1.905 chegou a ter 4.500 detentos. As estatísticas são arrasadoras e retratam um universo majoritário de negros e pobres numa região em que a raça negra é minoritária. Não há ricos e os brancos são poucos que vivem naquele lugar. São causas evidentes e incontestáveis neste real cenário imundo, pior que uma pocilga, habitado por seres humanos que estão cumprindo suas penas pelos crimes cometidos.

Os realizadores mostram com eficiência o crime organizado comandado por grupos bem representativos que comercializam armas, celulares e drogas. A corrupção é inquestionável, embora a Brigada Militar seja responsável por todo o complexo prisional desde o inesquecível motim, e diga que faz "o possível" diante de tamanha precariedade estrutural. O que era para ser provisório tornou-se definitivo. O filme escancara com contundência toda a engrenagem montada pelos líderes de seis facções que detêm um governo paralelo ao oficial, obtendo lucros fabulosos na cantina, uma espécie de armazém do crime, com acesso apenas para parte dos presidiários que aderiram ao sistema ali imposto, tendo em vista que as refeições são melhores e não se compara com a alimentação fornecida pelo Estado que administra até a entrada das galerias. Lá dentro o comando é dos presos e suas lideranças, com disputas entre as gangues rivais. Com isto evitou-se uma quantidade enorme de mortes pelos assassinatos no seu interior, mas após a progressão do regime, ao passar para o semiaberto e aberto, a coisa muda de figura, liberando-se na rua os acertos de contas com crimes por encomenda e as pendengas pessoais, além das dívidas contraídas no regime fechado.

Central vai ao cerne da questão e expõe as feridas putrefatas de um sistema corrompido e sem evidências de recuperação a curto prazo. As facções dependem de dinheiro para pagar seus defensores, precisam de soluções para a saúde e auxiliar as famílias de seus integrantes no sustento do dia a dia. Como enfatiza o juiz e o promotor, quando o Estado fracassa ao não assistir na progressão de regime e a consequente reinserção social para quem quer volta ao convívio da sociedade e afastar-se do mundo da criminalidade, deixa uma brecha gigantesca que é preenchida pelos bandos transgressores aparelhados. Tudo está inserido na pirâmide social com seus tentáculos e o crescimento geométrico da ilegalidade. Se falta  dinheiro e ajuda, aí então entra o paraestado das falanges atraindo um grande contingente de necessitados socioeconômicos para suas fileiras que  monitoram o tráfico, roubos, latrocínios e a prostituição nas ruas de PortoAlegre, bem como poderia ser de qualquer outra cidade cosmopolita em território nacional.

O roteiro instigante da dupla de diretores capta imagens realizadas pelos próprios presos- recurso no cinema usado no longa O Prisioneiro da Grade de Ferro (2003), de Paulo Sacramento-, ao mostrar o cotidiano de suas incursões nas galerias sem celas, cubículos minúsculos que foram derrubados para abrir espaços maiores. Ainda assim insuficiente para se ter uma mínima dignidade, com camas sendo divididas por mais de uma pessoa, outros deitados no chão, amontoados como animais na selva de pedras, impossibilitando a passagem à noite para quem quer ir até a fétida latrina chamada de banheiro, em condições degradantes e inimagináveis. Cantos de rap são entoados como uma ameaça de uma guerra silenciosa, num clima tenso 24 horas, como relata uma ex-liderança. A droga rola solta para acalmar e aliviar as tensões naquele barril de pólvora prestes a explodir. Um verdadeiro faz de conta de quem tem que zelar, por ser uma inarredável função estatal, mas que vira as costas para uma situação catastrófica que assola a população carcerária.

O documentário faz seu papel de apresentar o problema com crueza, sem dourar a pílula, que aflige a todos. Não adianta jogar lá dentro pessoas sem uma estrutura de readaptação. A inércia pela falta de uma política nacional de segurança política é acachapante e perigosa que culmina na falência do Estado. Quanto mais presos forem depositados nas casas prisionais, mais lucros as facções bem constituídas obterão, e o crime crescerá verticalmente. O filme é um alerta através da denúncia sobre o sistema carcerário corroído pela omissão governamental em forma de renúncia admitida, que deflagra uma crise institucional sem precedentes, como se reflete das imagens assustadoras e os diálogos ameaçadores e potentes desta impactante realização gaúcha que expõe as vísceras de uma dolorosa realidade da universidade do crime por organizações sustentáveis e planejadas como sólidas empresas à margem da sociedade.

segunda-feira, 27 de março de 2017

O Filho de Joseph


Vingança Familiar

Eugène Green é considerado um dos grandes cineastas americanos, com obras abrangentes e muitas reflexões com críticas ácidas à sociedade hipócrita. Suas inquietações artísticas se mesclam com sua posição nas discussões filosóficas com um certo amargor sobre as frustrações acadêmicas e existenciais, satirizando a intelectualidade francesa. Assim foi em O Mundo Vivente (2003), A Ponte das Artes (2004), e o badalado La Sapienza (2014), premiado como melhor filme no Festival de Sevilha. Retorna agora com O Filho de Joseph, um drama franco-belga de sutilezas e recheado de ironia e humor cáustico, numa narrativa leve e ao mesmo tempo profunda contada com base em cinco passagens da Bíblia, entre elas O Sacrifício de Abraão, O Bezerro de Ouro e O Carpinteiro. A produção é dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne, realizadores de A Criança (2004), O Silêncio de Lorna (2008), e O Garoto da Bicicleta (2011), entre tantos títulos inesquecíveis.

A trama foca a busca do amor e o encontro com a serenidade movida pelo ódio do inquieto jovem adolescente Vincent (Victor Ezenfis), de 15 anos, criado em Paris com a proteção angelical da amorosa mãe, Marie (Natacha Régnier), uma dedicada enfermeira que reluta em revelar a paternidade ao filho. Ele sente-se rejeitado e busca saber os reais motivos pelos quais este segredo é guardado a sete chaves. Mas nem sempre o pai verdadeiro é o biológico, ao encontrar Joseph (Fabrizio Rongione), um homem sensível que tem problemas com esta sociedade de aparências voltada para os prazeres da futilidade e o consumismo. O encontro inusitado se deu no dia em que planejara se vingar do pai, Oscar Pormenor (Mathieu Amalric), o egoísta editor de livros, uma figura abjeta, arrogante, que faz questão de frisar que não tem tempo para se preocupar com a família e sequer sabe quantos filhos têm de suas relações promíscuas e sem laços afetivos. Vive num mundo à parte, numa realidade construída de trivialidades e falsidades, em que a crítica literária Violette (Maria de Medeiros) é o símbolo daquele ambiente da fogueira das vaidades e bizarrices.

O diretor habilmente coloca o sentido da existência que tanto o garoto procura para atenuar seu sofrimento e sua dor intensa que remói para desvendar o passado que será aos poucos descortinado, para que sinta-se como um expoente da vida e até almejar a felicidade que tanto idealiza. A celebração se dará na igreja, na comovente cena da linda peça interpretada pelo grupo Le Poème Harmonique, do compositor Domenico Mazzocchi. Antes, Vincent e Joseph fizeram o passeio cultural revelador pelo Museu do Louvre, quando admiram com estonteante prazer o quadro O Sacrifício de Isaac, de Caravaggio. São situações que darão a alegria de continuar vivendo, a amizade solidificada entre eles e um indício promissor de que a vingança faz parte daquele ambiente tão repudiado pela dupla, ou seja, o desprezível e inócuo mundinho vazio de ostentações sem profundidade no prazer e na essência da vida.

O cineasta, herdeiro de Robert Bresson, em entrevista coletiva recente, foi perguntado o que pensa de ser tachado de formalista? Foi direto ao ponto: “Arte é forma, senão, não é arte”. O Filho de Joseph é um mosaico familiar com sustentação de passagens bíblicas e uma contundente crítica social retratada num roteiro enxuto com uma dinâmica de formalidade estrutural cênica impecável. Neste redemoinho, está encaixado o filho bastardo que nutre uma agressividade interior contra a própria mãe, deixando transparecer algum desprezo em suas atitudes.

Mas os contornos pacificadores aos poucos irão se estabelecer nas relações entre os dois, com as revelações maduras sobre os fantasmas do passado, em que ele está aprisionado. Seu fascínio pelas algemas soa metaforicamente dando o sentido de seu enclausuramento psicológico, diante do fato pretérito causador de sua amargura e imensa tristeza. O concerto da igreja e suas incursões pelo museu irão amolecendo seu coração dolorido. “Onde está Deus?”, a pergunta fulminante ao seu amigo ecoa como uma desesperança e um pedido de socorro. “Deus está dentro de nós”, é a resposta emblemática da cena comovedora, dita com simplicidade ao questionamento. Porém, profunda pelo contexto do momento em que a raiva e a perda da lucidez tomam contornos inimagináveis para uma desforra que disseminou o desolado protagonista que vive um verdadeiro inferno astral. O filme não prega a religião, pelo contrário, busca alternativas pragmáticas para lidar com as dificuldades advindas do cotidiano, através de opções apresentadas como fórmula do bálsamo da convivência civilizada.

Um drama atual e exemplar, no qual a teatralidade da narrativa está bem inserida na linguagem do cinema em toda sua extensão que não cai na mesmice de roteiros complexos e confusos vistos em muitas realizações estéreis, ao dar vazão para um mergulho no imaginário do espectador. Green conduz o enredo com uma sincera imparcialidade, ainda que a aproximação de Joseph com Marie seja previsível de certa forma, remete de maneira alusiva para o princípio da era do Cristianismo, no qual José e Maria lutam para esconder o filho da forças do mal e da perseguição, nesta bela e convincente alegoria. Para isto é dado o tom certo do clímax que desencadeará no epílogo junto ao mar, com o jumento sendo a testemunha de uma situação insólita, após a perseguição ostensiva pelo sistema repressor policial ser lançado com toda pompa para prender um delinquente de alta periculosidade. Uma farsa total e inconsequente para uma situação meramente equivocada. O desfecho trará luz para um futuro difícil, mas com um sabor de otimismo nesta magnífica obra de valores profundos e marcantes numa atmosfera de amor e tristeza de uma realidade tão presente.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A Qualquer Custo


Herança Nefasta

David Mackenzie é um diretor escocês que admira o western e o thriller policial, fórmulas clássicas do cinema norte-americano que tanto sucesso fizeram estes dois estilos exponenciais. Tem em sua filmografia Sentidos do Amor (2011) e Encarcerado (2013). Ao fundir os dois gêneros, obteve um excelente resultado através deste magnífico faroeste contemporâneo A Qualquer Custo, em que há celulares e câmeras de vídeos no instigante roteiro de Taylor Sheridan, o mesmo do excelente Sicário (2015), revela a família desestruturada por dívidas financeiras dos dois assaltantes nos bancos por eles saqueados, com o viés de explicar (mas não justificar) os crimes dos bandoleiros, numa narrativa densa e recheada com muito humor negro, para demonstrar a pretensa superioridade branca vista pelos norte-americanos em relação aos imigrantes de diversas raças, como temática bem presente enfatizada pelo atual presidente Donald Trump. Concorre a quatro estatuetas no Oscar: melhor filme, montagem, roteiro original e ator coadjuvante (Bridges).

A trama do longa é ambientada no interior do Texas, nos Estados Unidos. Pressionados pela proximidade do vencimento da hipoteca da fazenda da família, o que ameaçaria a perda das terras e o futuro dos descendentes remanescentes, num lugar em que ainda o petróleo é visto como uma salvação para todos naquele cenário inóspito, em que seus habitantes estão perdendo tudo, desde seus ranchos, o gado e as terras já pouco produtivas. Os irmãos Toby (Chris Pine) e Tanner (Ben Foster) resolvem assaltar, levando notas pequenas para obter a quantia necessária para quitar a dívida financeira, roubam apenas as agências do próprio banco em que estão endividados e sem perspectivas. Mas para isto eles terão que enfrentar dois oficiais destacados pela Texas Rangers, uma força policial civil e florestal para resolver o caso que está abalando aquela região, espalhando medo e pavor nos moradores dali. A dupla dos agentes da lei tem o veterano policial prestes a se aposentar, que terá esta missão como a derradeira na carreira, Marcus (Jeff Bridges, impecável no papel inspirado no xerife de Bravura Indômita, que interpretou em 2010) e Alberto (Gil Birmingham), um descendente indígena mexicano, que sofre com as piadas racistas do colega. Num interrogatório Marcus pergunta para a vítima sobre a cor dos bandidos, não se contém e lasca a pergunta discriminatória: “Cor da pele ou cor da alma?”.

Uma história contada com sobras de sensibilidade para retratar com contundência um país com muitos dilemas que passa por um sectarismo enraizado, onde desbravadores terão de enfrentar as condições mais hostis em seu próprio território, entre eles estão os índios numa luta para buscar os seus domínios, bem como estabelecer sua própria cultura renegada e pouco reconhecida, tão logo os EUA adquiriram e se fizeram uma superpotência mundial, ampliando os lucros num capitalismo selvagem. É uma abordagem com o olhar da dualidade, no qual o homem da lei mais parece o vilão nas suas sórdidas referências ao companheiro de farda, um representante de uma civilização ofendida. Uma versão moderna, em que os elementos repressores são colocados no mesmo lado dos reprimidos numa realidade devastadora. A dupla de assaltantes acaba se confundindo e dá evidências de que bandido e mocinho poderiam estar de lados opostos na escala de valores e humanismo, basta tirar a carapuça do politicamente correto e da moral e dos bons costumes.

O filme é feito para confundir e perturbar mentes conservadoras, abrindo espaços para uma visão menos caolha e mais abrangente, sem a censura prévia e o maniqueísmo da torcida tradicional entre o bem e o mal, o certo e o errado. Toby é o mais racional e traz no histórico uma pendência com a ex-mulher e os filhos; já Tanner é um ex-prisioneiro violento e de pavio curto, que só sensibiliza-se com a morte da mãe e seus últimos dias de vida informados pelo irmão. Em contrapartida, o xerife é um típico homem cansado do trabalho, tem um raciocínio rápido e é ardiloso na investigação, mas é traído pela discriminação e uma conduta contrária aos padrões de civilidade que prega a igualdade, por isto é abominável em seus gestos e atitudes que beiram ao nazi-fascismo. Os irmãos anti-heróis são símbolos de um passado sem perspectiva de futuro que enfrentam um presente pessimista contextualizado. Agem sem ética e com a vingança entre os dentes e o brilhos nos olhos, numa narrativa carregada de situações de uma realidade do que ainda restou do cenário imaginário do Velho Oeste americano. Coerentemente, o diretor explora a crueza e a brutalidade conflitada daquela sociedade simbolizada pelo representante do Estado em seus diálogos preconceituosos com a rebeldia dos injustiçados.

A Qualquer Custo é uma realização imparcial, bem assessorada pela fascinante trilha sonora country assinada por Nick Cave e Warren Elly, com uma fotografia que encanta pelos planos-sequência abertos de paisagens típicas do deserto explorada na sua amplitude por Giles Nuttgens. Mackenzie tem um estilo preciso e uma elegância para filmar inerentes e personificados como poucos cineastas na atualidade. Remete para outros filmes do gênero como de Joel e Ethan Coen, em Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e Bravura Indômita (2010), por não se afastar do tom e da dinâmica cinematográfica que embalou muitos anos aficionados do cinema deste gênero. Cada detalhe, movimento da câmera, luz, fotografia, as tabernas, as construções de bancos e ranchos rústicos em consonância com o figurino harmonicamente distribuídos com primazia e colocados em seus lugares exatos, pontuais e com fidelidade. Não há cavalos, as perseguições são de carros; sem tiroteios forçados ou balas perdidas por tudo quanto é canto e lugares inimagináveis. Eis uma proposta que atinge a exuberância de um brilho exemplar e vai ao encontro do melhor dos grandes clássicos, como o inesquecível Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, onde encontramos uma gama de mocinhos velhos, decadentes, sendo que um deles com apenas um olho, também cumprirá a última missão. A reflexão no epílogo é marcante pela decorrência da morte, dos percalços da vida, da vingança e da intolerância racial. Restam reminiscências e uma melancolia comovente num grande desenlace com emoção e digno de um faroeste moderno espetacular.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Toni Erdmann


A Reaproximação

Vem da Alemanha em coprodução com a Áustria a excelente comédia dramática Toni Erdmann, terceiro longa-metragem da produtora, roteirista e diretora alemã Maren Ade, merecidamente ostentando o favoritismo para ganhar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Traz na bagagem o prêmio do júri do Festival de Cannes do ano passado, esta abordagem com sensibilidade para uma fascinante reaproximação improvável de uma filha com o pai, uma figura patética travestida num ogro humanista, mas com um coração enorme, embora seja invasivo nas atividades profissionais e particulares dela, preocupa-se com seu destino. Já no início das conversas faz duas perguntas perturbadoras que darão verossimilhança para a trama: “Você está feliz?” e “O que é a vida?”. Balança e desarma completamente a mulher, porém cria-se um elo de proximidade para recuperar a relação estremecida e distante pelo tempo entre os dois.

Uma mescla de drama familiar com uma comédia essencialmente agridoce, com tintas fortes e marcantes sobre a solidão, o vazio e o sentido sartriano da existência. Winfried (Peter Simonischek- estupenda atuação) é um homem grandalhão que tem bom humor e fina ironia, às vezes descamba para o escatológico, porém logo supera suas fraquezas humanas, acaba encarnando o bizarro personagem-título que faz de tudo para conquistar e ficar por perto de Ines (Sandra Hüller- impecável no papel) e recuperar o tempo teoricamente perdido. Para isto, irá visitá-la sem aviso prévio em Bucareste, onde a filha trabalha numa renomada empresa multinacional com um cargo importante. Deixa a vida pacata na Alemanha, após a morte de velho cãozinho de estimação, logo percebe a instabilidade emocional e o conflito profissional que aflige a executiva num encontro casual na casa da ex-esposa. Vai inteirando-se das dúvidas galopantes de Ines no processo de demissão em massa que ela terá que realizar, ou seja, uma tarefa árdua e dolorosa que traz angústia e sofrimento para quem deve se acostumar com decisões radicais e inadiáveis no cotidiano de metas empresariais.

A cineasta traz à baila a brutalização de uma mulher que se vê mergulhada em coisas materiais e se distancia da realidade do povo romeno que sofre com as mudanças pela globalização, ferindo no âmago a cultura de pessoas dóceis e humildes. O calor humano e a ética são corrompidos pelo poder de uma potência de outro país que ali se instala e vai devastando o que vem pela frente. Mas a instigante cena da festa de aniversário é o mote para a improvisação e a opção do nudismo para comemorar mais um ano na vida dela que se passa. Envolvida com drogas e amizades promíscuas e interesseiras, depois da confusão com seu vestido novo apertado, metáfora para a libertação e retirar as amarras. Ali as pessoas ficam embasbacadas com a surpresa e se revelam todas as fragilidades humanas, como um recado nas entrelinhas para mudar o status quo. O pai vestido de gorila novamente tenta dar a mão e indicar o caminho da liberdade, como fizera antes com suas máscaras, a dentadura postiça horrorosa e a emblemática peruca. São situações que mesmo criando constrangimento para eficiente e ambiciosa filha, irão ao encontro da reflexão para uma nova vida, sem os ternos e as roupas de grifes despojadas dos corpos de pessoas hipócritas e com sentimentos violentados num universo sombrio e competitivo ao extremo e sem ética.

Toni Erdmann enfatiza com cores lancinantes a figura paterna assumindo outra personalidade para afastar-se daquele idoso professor de música em sua aldeia para submeter-se ao ridículo, em nome de uma causa justa e magnânima diante da desestruturação familiar. A máscara que assume gradativamente para se fantasiar é a mesma que corrói e inunda um mundo pouco civilizado no sentido lato sensu. A dupla personalidade é a essência das relações humanas conflitadas, mas que para isto terá de desmascarar uma triste realidade, entre as quais está a filha que ele pouco conhece, mas que retoma situações da infância, como reminiscências de um passado longínquo, para também lhe tirar o disfarce pesado da intransigência que carrega por anos, sob o manto do sucesso a qualquer preço. Surtirá como um bálsamo de luz patriarcal, mesmo sendo folclórico, mas tudo girará pela dignidade resgatada.

Pode-se apontar na temática uma semelhança com o drama argentino Filha Distante (2012), batizado em alguns países com o nome comercial de Dias de Pesca, de Carlos Sorín, quando aborda a relação de um homem de 52 anos, ex-alcoólatra, que decide pescar tubarões na Patagônia, tem em mente na sua trajetória existencial restabelecer os vínculos afetivos deteriorados com a filha. Toni Erdmann é também a busca do sentido da vida e o regozijo da existência e suas nuances como resposta dos questionamentos no prólogo desta realização espetacular de 162 minutos que passam voando, mas que trará no desfecho uma reflexiva ideia de leveza e o sentido de satisfação para continuar vivendo. Um filme com a magia do cinema, além da boa dose de emoção na luta incessante e incalculável para reparar um passado, reconstruir um reconfortante presente e estabelecer um definitivo vínculo delineado pela ausência rompida no cotidiano de dias entediantes e repetitivos dos dois. O afeto esbarra e se escancara na distância entre eles, mas há um espaço comovente de amor a ser preenchido naquele imenso vazio nos encontros fortuitos, deixando um legado imensurável para se entender a complexidade humana.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Manchester à Beira-Mar


Dor Infinita

Indicado a seis estatuetas no Oscar deste ano, Manchester à Beira-Mar é um vigoroso drama familiar que aborda os desdobramentos da dor imensurável e os resquícios da culpa ilimitada, sem que haja um alento para atenuar o sofrimento que arde como uma ferida aberta latejante. A direção exemplar é de Kenneth Lonergan, que havia dirigido anteriormente Conte Comigo (2000) e Margaret (2011). O longa rendeu merecidamente o prêmio de melhor ator no Globo de Ouro para Casey Affleck- irmão do astro Ben Affleck- pela soberba aula de interpretação contida como Lee Chandler, um homem solitário e sorumbático que precisa lidar com os mistérios pessoais que guarda calado. Em 2008, Casey foi indicado ao Globo de Ouro e ao Oscar para ator coadjuvante em O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007); tem também na carreira os papéis discretos em Gênio Indomável (1997) e Onze Homens e Um Segredo (2001).

O filme é apresentado em flashbacks que mistura a fase pretérita com ingredientes do presente, na triste trajetória do protagonista, que é surpreendido com a morte súbita do irmão mais velho, Joe Chandler (Kyle Chandler), restando-lhe cuidar e tutelar o sobrinho adolescente, Patrick (Lucas Hedges), um jovem de 16 anos, que tem duas namoradas, teima em ficar com a posse do barco pesqueiro, joga hóquei, toca rock numa banda de porão e não quer se afastar da cidade litorânea de Manchester, no Estado de Massachusetts, nos EUA. O fatídico imprevisto fará com que o silencioso Lee retorne de Boston, onde trabalha de zelador, realizando pequenos serviços de consertos em prédios, tais como: manutenção de torneiras, troca de lâmpadas, remoção de gelo nas ruas e desentupir vasos sanitários. A humilhação que ouve de conversas entrecortadas é como uma salvaguarda às avessas que encara como um resgate pelo castigo que entende merecer.

Ao retornar para a cidade natal, o personagem central terá de enfrentar finalmente um passado trágico do qual fugiu. Mas antes há algumas encrencas que devem ser resolvidas de imediato: os trâmites do velório do irmão, as dificuldades de realizar o enterro pelas circunstâncias climáticas da forte nevasca e as peraltices inerentes da juventude do tutelado que arruma pelas estradas da vida. No meio deste turbilhão de problemas que povoa sua cabeça, terá de harmonizar a consciência e relembrar os motivos nefastos e as lembranças perturbadoras que causaram seu afastamento dali. Os encontros fortuitos com a ex-mulher (Michelle Williams) lhe trará um combustível inflamável para o forte impacto emocional que desestruturou sua razão de viver para eternizar um profundo remorso. O abalo sísmico familiar irá dissipando os enigmas com revelações devastadoras para sua renúncia à felicidade, através do tom agressivo e violento com pessoas que cruzam pelo seu caminho. Por pouca coisa explode de raiva e o ódio desmesurado aflora decorrentes da dor intensa e do isolamento progressivo.

Lonergan vai lançando em doses homeopáticas mostras para o entendimento de uma situação caótica. A memória traz à tona os fantasmas do dia do infortúnio que o deixa em luto permanente, diante de uma agonia lancinante que o derruba emocionalmente, através de transtornos psicológicos que o marcaram definitivamente. As lembranças anuviadas do alcoolismo e do uso de drogas com amigos em festas homéricas são imagens que povoam seu cérebro em reconstrução da instransponível amargura, pela derrocada do equilíbrio que assombra Lee, por espectros que ainda rondam e remoem seus pensamentos atormentados. A compaixão entre ele e o sobrinho, uma espécie de filho, por isto estão presentes nos dilemas das relações familiares os sacrifícios indesejados que soam como elementos punitivos pela redenção de uma alma destroçada pela dor dilacerante. A frieza acompanha o protagonista, uma pessoa sombria numa iminente situação autodestrutiva, sem perspectiva de mudança numa narrativa magistral sobre as causas e efeitos da melancolia na pura essência doentia. Distante dos clichês que infestam os melodramas fáceis, faz com que os 137 minutos passem voando num drama de anti-heróis, sem forçar sentimentalismos piegas, bem alicerçado por uma trilha sonora fascinante e no tom certo, que jamais torna-se invasiva ou descambe para as facilidades abomináveis em realizações sentimentaloides encontradas em obras menores.

Manchester à Beira-Mar é um retrato cruel com ênfase de um fantasma humano pelo descompasso do estado físico com o psicológico, que vai aniquilando a lucidez com fortes tintas uma pessoa na sua dignidade como força singular na decrepitude, com voos rasantes desgovernados, principalmente no remorso que carrega sem demonstrar qualquer emoção, exceto quando perde a razão e parte para a agressão explícita. Não há lágrimas, mas esboços de virilidade excessiva. Mas ali está o cotidiano do mar e sua profundidade atravessando o horizonte perdido, como o olhar sem fronteiras à procura de uma explicação para purificar pela água o que ficou para trás. Há uma dura realidade a ser encarada para a construção dos elos perdidos na estarrecedora situação irremediável naquele abismo sem concessões. O desfecho sintetiza o encontro do protegido que perdeu o pai abruptamente e foi abandonado pela mãe ausente, em consonância com o vínculo do protetor carregando seu fardo insustentável e pesado que tomam dimensões estratosféricas neste painel de frustrações que não passam. Eis um filmaço que mereceria o Oscar, se não houvesse premiações para realizações politicamente corretas e com interesses comerciais. Desde já se insere na listagem dos dez melhores filmes de 2017.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

La La Land: Cantando Estações


Ode ao Romantismo

O jovem diretor Damien Chazelle, tinha 29 anos, e já demonstrava grandes virtudes em seu longa-metragem de estreia Whiplash- Em Busca da Perfeição (2014), na abordagem seca e profunda do duelo titânico na tela entre o mestre tirano com o aluno obstinado, com muita emoção num tom dramático em alta voltagem dentro de um conservatório para alunos de música, no qual um rapaz ambiciona galgar um posto de destaque na carreira de baterista profissional, mas encontra no encolerizado regente um método selvagem de lidar com seus pupilos, dentro de um rigorismo excessivo em que age com assustadora violência física e psicológica, desferindo tapas e bofetões, com cadeiras voando nas aulas. Entende que assim criará gênios como Louis Armstrong e Charles "Bird" Parker. O resultado é fabuloso num filme elogiado pela crítica diante da intensidade dos personagens bem estruturados psicologicamente, com G. K. Simmons no soberbo papel do professor enlouquecido pela técnica perfeita para descobrir novos talentos do jazz.

Em seu segundo longa, La La Land: Cantando Estações, Chazelle retoma sua admiração pelo jazz, mas desta vez num clima de romantismo exacerbado e um banho de nostalgia em um tributo aos velhos clássicos musicais das décadas de 1950 e 1960, com longos números de canto e dança de poucos cortes. Sua inspiração é explícita em Sinfonia de Paris (1951, de Vincente Minnelli, Cantando na Chuva (1952), de Gene Kelly e Stanley Donen, e Os Guarda-Chuvas do Amor (1964), de Jacques Demy. Faz também algumas referências aos cenários que rodaram os inesquecíveis Juventude Transviada (1955) e Casablanca (1942). No plano-sequência do prólogo no engarrafamento na autoestrada, quase manda a plateia para casa pela fragilidade da cena. Após um gesto obsceno de um rapaz para uma moça no carro, está dada a senha para o grande romance que virá no desenrolar da trama. Primeiro desdenha e depois tenta conquistar, como nos velhos enredos de Hollywood à moda antiga. Ao chegar a Los Angeles o pianista jazzístico Sebastian (Ryan Gosling) reconhecerá Mia (Emma Stone), uma atendente de uma cafeteria dentro de um grande estúdio que luta para ser atriz. Ele é despedido de uma apresentação pelo proprietário do estabelecimento, coincidentemente interpretado pelo ator G. K. Simmons, que encarnou o irascível mestre na realização anterior; ela segue a saga de rejeições de aspirante ao estrelato.

La La Land é o grande favorito ao Oscar, dificilmente deixará de abocanhar as estatuetas principais. Está respaldado pelas 14 indicações, empatando o recorde histórico da premiação atingida por A Malvada (1950) e Titanic (1997). Disputará em várias categorias, entre as quais: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Canção Original. No Globo de Ouro ganhou sete troféus, inclusive de melhor filme musical ou comédia. O cineasta é um confesso admirador dos musicais antigos e repele os contemporâneos. Dividiu o filme nas estações do ano, buscando a forma mais pragmática na elaboração de sua obra ao focar no sentimentalismo meloso. Constrói um clímax propício, como as idas e vindas para o previsível casal se apaixonar perdidamente. O roteiro direciona para oportunidades que suas carreiras apresentam paradoxalmente com carros e celulares que remetem para os dias de hoje. Surgem alguns entraves e contratempos de difícil manutenção na competitiva cidade, mas eles tentam fazer o relacionamento dar certo de qualquer maneira, enquanto os personagens centrais perseguem a fama, o sucesso e a paixão desenfreada. Um não existe sem o outro, eis o combustível perfeito para uma trajetória espinhosa.

Os sonhos desfeitos e as tentativas para ingressar no mundo hollywoodiano no apogeu dos anos dourados, como da protagonista que tenta várias vezes a carreira de atriz. Uma fábula adulta sobre a impossibilidade da felicidade desfeita de um sonho pela ganância do dinheiro diante das circunstâncias periféricas que rondam destinos do universo de estrelas distantes do cotidiano, magnificamente explorado em Café Society (2016), de Woody Allen. Chazelle não aprofunda como Allen, pelo contrário, seu musical é raso e despretensioso como reflexão ou algo mais sólido, pois se esboroa como areia movediça em termos de construção maior e significativa para um cinema como instrumento da arte superior para reflexão. Debruça-se no mundo que produz beleza externa pirotécnica para fazer brilhar os olhos. O desfecho é o encontro revelador naquele céu estrelado luminoso e singular com uma fotografia primorosa num cenário estonteante para um público menos exigente e especialmente no apelo sentimental. Tecnicamente o filme é bem feito, isto é inquestionável na produção, na montagem, na fotografia, na trilha sonora convencional, no figurino e na iluminação beirando ao neon.

O espectador descompromissado sente-se cativado pela magia do cinemão filmado em Cinesmascope, utilizada para o widescreen, mais um presente aos saudosistas da tecnologia e projeção de Hollywood nos tempos áureos da indústria americana. Pouco importa a previsibilidade do desfecho no seu desenrolar e as armadilhas melodramáticas que descambam para a pieguice barata. Um filme explorado para atingir corações carentes por este cineasta promissor, mesmo que se afaste de uma realização contundente e profunda na essência como a anterior, demonstra equilíbrio cênico num ritmo linear bem popular, quase demagógico, para colher os frutos da bilheteria. Distante de temáticas polêmicas, dentro de uma proposta de fácil digestão, flerta com a atmosfera fantasiosa de números musicais na velha fórmula de fabricar sonhos românticos sem fronteiras distantes de uma realidade. Um musical nostálgico pelos objetivos claros de riquezas em homenagens, mas pobre em conteúdo. Porém, irá trazer lembranças de um passado bem longe, ainda que seu resultado seja meramente transitório, ao passar o fervor da premiação e do apelativo marketing do Oscar.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A Criada


Relações Ambíguas

Vem do consagrado cineasta sul-coreano Park Chan-wook o bonito drama erótico de época A Criada, exibido pela primeira vez no Festival de Cannes de 2016. O realizador e também autor do roteiro adaptou de forma livre do livro Falsas Aparências, que serviu de inspiração para uma minissérie na BBC de Londres, em 2005, em uma locação típica da Inglaterra na era vitoriana. No longa, a ambientação é na Coreia do Sul, nos duros anos de 1930, durante a ocupação japonesa no país vizinho, quando a jovem vigarista Sookee (Kim Tae-ri) é contratada pelo falso conde Fujiwara (Ha Jung-woo) para trabalhar como serviçal na casa de uma herdeira nipônica, Lady Hideko (Kim Min-hee), que leva uma vida pacata e sem graça ao lado do autoritário tio Kouzuki (Cho Jing-woong). Há um plano macabro para seduzir a ricaça ingênua, roubar sua fortuna e trancafiá-la em um sanatório, que serve como mote para a trama, porém há motivações guardadas em segredo que aos poucos se revelam.

O habilidoso diretor opta por um filme em três atos, em que é contada a mesma história de forma diferente, porém somente no epílogo se saberá qual a verdadeira identidade do enredo. A narrativa é complexa e não se afasta do rigor formal peculiar das obras anteriores de Chan-wook, quase sempre em cumplicidade com a plateia, tais como: Mr. Vingança (2002), Oldboy (2003), Lady Vingança (2005) e Sede de Sangue (2009). Desta feita, cria-se um clímax de suspense e o espectador fica na dúvida para entender o que está acontecendo realmente. Os personagens, como se fossem colocados ardilosamente num tabuleiro de xadrez, estão sempre aprontando e enganando propositalmente a atenta plateia como numa mágica de engenharia cinematográfica. Às vezes, cansa pelas repetições e diálogos enfadonhos, mas logo dá um salto no roteiro eclético e segue a trajetória transitando entre o Japão e a Coreia.

O drama é bem formatado esteticamente, com uma fotografia deslumbrante numa construção invejável. Mas falta alma para a realização, que por vezes desliza em situações rasas, porém é criado um imaginário bem intenso pelo movimento da câmera para conseguir resultados apreciáveis ao explorar o estilo gótico, numa combinação singular de adereços com a instigante trilha sonora. Há uma mescla de erotismo das amantes fazendo sexo explícito com o iminente perigo em várias cenas. Tudo é verdadeiro num ato como poderá ser desmanchado no outro. O prazer sexual na essência é apresentado como aparência refinada, mas emerge a dúvida, a raiva, o ódio e a vingança. Há uma mistura em cenas tórridas eróticas filmadas como se fosse um poema inesgotável de sutilezas e sensibilidade à flor da pele. Eis uma aventura empírica num jogo perigoso para um mergulho numa imersão de luxúria proposta com algum fôlego.

O filme é uma relação conturbada e ambígua entre os personagens no seu cotidiano de uma bem arquitetada tramoia para roubar joias, roupas e uma fortuna imensurável. Mas como todo crime que nunca é perfeito, haverá o enfeitiçamento da empregada transgressora pela patroa bela e sedutora. Num primeiro momento pensa em protegê-la do conde de araque, fica penalizada com a triste saga da jovem herdeira que é obrigada a ler livros pornográficos falsificados pelo tio devasso para homens sedentos de lascividade, devidamente trajada como uma dama da sociedade. O plano começa a se esboroar com a aproximação e o vínculo estreito entre as mulheres envolvidas emocionalmente, acirrando os ânimos ao extremo com o cenário romântico. Soa como uma libertação para ambas, um corte das amarras do preconceito enraizado numa sociedade aristocrática com suas futilidades inerentes daqueles tempos. A felicidade aparente de sorrisos e olhares reveladores está inserida num mundo imaginário de desilusões de vidas fracassadas por um conceito residual estereotipado no gesto autêntico da escolha ousada. Basicamente, é a difícil realidade de dois seres humanos que optaram por uma relação proibida na sociedade conservadora. A solução encontrada para dar guarida e prosseguimento ao idílio é a camuflagem dos encontros.

Um parâmetro da temática de relacionamento homossexual feminino é o drama familiar Carol (2015), de Todd Haynes, embora pegue leve nas cenas de sexo, flutua pelos caminhos da sugestão e as carícias sutis das preliminares; outro seria o longa Flores Raras (2013), de Bruno Barreto, numa abordagem sobre uma relação intrincada no Rio de Janeiro, em 1956. Não tem o fervor do polêmico drama francês Azul é a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche, que impactou com uma cena tórrida de sexo num plano-sequência de intensidade e realismo em seis minutos, que causou furor e escandalizou críticos e o púbico mais conservador em Cannes. Já o realizador sul-coreano lança um olhar feminista sobre A Criada, embora esteja mais contido no banho de sangue, deixa para o desfecho o violento acerto de contas com mãos e dedos decepados. Seu longa carrega no erotismo, no qual se sai muito bem e surpreende pela ousadia. Não se trata de uma obra sobre duas mulheres que transam o tempo todo, porque não é um filme panfletário, ainda que a voltagem seja alta. Há um bom mecanismo psicológico das personagens que é apresentado com imparcialidade as fragilidades reveladas. Não se acena com facilidades demagógicas para resolver problemas complexos, mas ainda que um tanto repetitivo, é um interessante filme de pequenos detalhes pela lente da ternura.