segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Francofonia- Louvre Sob Ocupação


Poder da Arte

O cultuado cineasta Aleksandr Sokurov, discípulo do genial compatriota e amigo Andrei Tarkowsky, fazia cinco anos que estava devendo um novo filme para seus fãs, depois da construção magnífica de Fausto (2011), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, baseado livremente no famoso livro filosófico de Goethe, considerado símbolo cultural da modernidade e de proporções épicas que relata a tragédia do médico e estudioso da astrologia desiludido que faz um pacto com o demônio e recebe as endiabradas energias insufladoras da paixão. Embora houvesse alguma resistência em vê-lo como uma realização dentro do contexto dos déspotas, tendo em vista que os longas da trilogia, até então, eram baseadas em homens políticos de carne e osso, tais como: Hitler em Moloch (1999), Lênin em Taurus (2001) e Hirohito em O Sol (2005), os argumentos contrários e apressados aos poucos se renderam ao diretor russo nas suas incursões criativas para fechar sua tetralogia com chave de ouro, ao apresentar Satanás como seu tirano maior e pai de todos.

Depois da sequência de filmes sobre os opressores que fizeram a humanidade padecer, principalmente com as inúmeras atrocidades dentro de seus respectivos países e a dissecação de um corpo humano para estômagos menos sensíveis, o inventivo realizador volta demonstrando toda sua capacidade inspirada de criação com o cinema na melhor tradição europeia com inegável qualidade em Francofonia, com o subtítulo recebido no Brasil de Louvre Sob Ocupação, deriva de uma narrativa para mesclar docudrama com um ensaio histórico para romper padrões clássicos na abordagem com desenvoltura e iluminar a relação da arte com o poder dos usurpadores, através da sedução pela bela caminhada no Museu do Louvre, o singular templo edificante da civilização na preservação da história. Retorna ao estilo da obra-prima Arca Russa (2002), embora menos glamouroso, onde havia uma simbiose de cinema, história e artes plásticas filmado no antológico plano-sequência único de 99 minutos, sem cortes, atravessando as salas do Museu do Hermitage, em São Petersburgo, ex- Leningrado, transformando a tela num quadro vivo por onde desfilavam personagens da história da Rússia: Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.

O cenário de Francofonia é o museu mais famoso do mundo, em Paris, pelo seu acervo representativo, inaugurado em 1793, em que Sokurov ressalta como mola propulsora do período em que a França esteve ocupada pelos nazistas na II Guerra Mundial, em 1940, apontando com ironia e até um certo desprezo para o assumido colaboracionismo de autoridades francesas simpatizantes da causa alemã. Com brilhantismo e ousadia na provocação estética de sobreposição de imagens, vai se aprofundando de forma alegórica para refletir sobre a humanidade e seus valores, embrenhando-se pelas alas e atravessando fronteiras como na visita à Guernica, de Pablo Picasso e Mona Lisa, de Leonardo Da Vinci. No centro da trama estão duas figuras importantes: Jacques Jaujard (1895-1967), o diretor do Louvre, à época, é um símbolo da resistência, indignado com o governo e seus conchavos com Hitler, e Wolf Metternich (1893-1978), oficial alemão designado para fazer uma espécie de inventário dos monumentos, esculturas e pinturas relevantes na França. A amizade que brotará entre os dois soa como uma resposta à barbárie na busca dos quadros escondidos fora do museu, pois desta união para evitar a danificação da coleção está um alento de civilidade e que nem todos estavam enlouquecidos, havia suspiros de lucidez, tendo em vista que o militar nazista, um aristocrata amante da arte, dificultava ao máximo a remessa para Berlim do acervo listado.

Sokurov é o narrador principal do filme sobre a paixão pela cultura francesa e demonstra seu desconforto no mundo contemporâneo. Está coadjuvado por Marianne que representa o lema basilar da Revolução Francesa de 1789: “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, e pelo fantasma de Napoleão Bonaparte (1769-1821) perambulando à procura de quadros de identificação com sua trajetória absolutista que o exaltam no poder, simboliza o antagonismo da beleza daquele museu com obras expropriadas por ele nas suas andanças de colonialismo por países pequenos, um autêntico paradoxo da civilização. Mas ali está um espaço vivo da cultura e da memória dos povos, por isto a narrativa exemplar em várias línguas, não só o francês, para fugir da obviedade e dar universalidade ao tema.

O encontro do diretor com o comandante do navio carregado de obras, por videoconferência, dentro do museu, é a sugestiva interação e a aproximação para diminuir as distâncias no conjunto de aspectos peculiares, artísticos, morais e materiais de épocas dos países e das sociedades em seus ditos picos evolucionistas. Mas a tempestade em alto-mar que quase afunda a embarcação tem como ingrediente metafórico as dificuldades de manter intacto o patrimônio artístico histórico da humanidade para futuras gerações, ou seja, distante do Terceiro Reich. Francofonia renova e não deixa margem para dúvidas no seu libelo contra a opressão ditatorial com um visual arrebatador da preservação da história pela exaltação à arte como forma de sairmos da escuridão pelos caminhos mostrados como irreversíveis no passeio cultural no museu biografado.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

De Longe Te Observo


Relações Complexas

É inquestionável que o cinema latino-americano vem se consolidando nos grandes festivais internacionais da Europa. A Venezuela é um bom exemplo ao abrir espaços com produções bem realizadas. Assim foi com a diretora Mariana Rondon com Pelo Malo (2013), ao abocanhar vários prêmios, entre eles o de melhor longa no Concha de Ouro do Festival de San Sebastián, na Espanha. Agora é a vez do estreante Lorenzo Vigas Castes com De Longe Te Observo, ao arrebatar o Leão de Ouro no Festival de Veneza no ano passado, láurea concedida pela primeira vez para uma produção da América Latina. Os dois longas foram sucessos de público e crítica na Mostra de Cinema de São Paulo, nos anos de 2013 e 2015, respectivamente. Vem provar que existe vida inteligente também lá e não apenas na Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia e Chile que são polos respeitáveis em nosso continente.

O roteiro enxuto e seco é assinado pelo cineasta venezuelano em companhia do festejado roteirista mexicano Guillermo Arriaga, autor da história original que inspirou o enredo da trama, o mesmo das parcerias dos longas bem-sucedidos com o conterrâneo Alejandro González Iñárritu, consagrado diretor de Amores Brutos (2000), 21 Gramas (2003) e Babel (2006). O cenário é a cidade de Caracas, pobre e caindo aos pedaços, com níveis altíssimos de desemprego. O ator chileno Alfredo Castro, conhecido pelos papéis em Tony Manero (2008), No (2012) e O Clube (2015), todos de Pablo Larraín, interpreta admiravelmente o protagonista Armando, um sorumbático homem de meia-idade que é dono de um laboratório de próteses dentárias e tem por hábito espreitar rapazes em pontos de ônibus, levando-os para sua casa com recompensas de bom dinheiro para se masturbar e observá-los seminus, sem que haja aproximação carnal, num autêntico voyeurismo beirando a um patologismo mórbido.

Numa mescla de crítica social com suspense, Vigas Castes constrói um painel de um drama familiar de alta tensão psicológica, diante da obstinação desmesurada do personagem central em seguir obsessivamente seu pai, um empresário do alto escalão da sociedade, que retorna à capital venezuelana para seguir sua vida voltada para uma casta da sociedade que renega seus pares. Há o ressentimento explícito escancarado no filho pela incômoda ausência paterna pelos vínculos rompidos no passado, como se deduz pelo desenrolar da história que levará ao conturbado encontro com Elder (Luis Silva- ator estreante de ótima atuação que lhe rendeu premiação nos festivais de Biarritz e San Sebastián), que lidera uma gangue juvenil local, demonstra ser homofóbico, desconfiado e violento. Em um dos encontros, agride e rouba o dinheiro e um adorno da residência de Armando.

O filme retrata um complexo relacionamento entre os dois num contexto de mágoas e carências afetivas, com confissões íntimas e a revelação da prisão do pai do garoto num drama intimista que surpreende pelo ingrediente político encravado numa Venezuela envolvida numa crise social imensurável e caótica. Já no início do longa, observa-se cartazes da campanha presidencial de Nicolás Maduro contrastando com o desleixo e o submundo que a população habita pelo descaso do governo. O conservadorismo e o modo emblemático autoritário de Elder estão simbolizados no convívio com Armando e sua delirante patologia doentia, exprimem os dois personagens como metáforas do país no cenário atual de pouca perspectiva para o futuro. É um retrato típico do medo e da vingança embutidos nas entrelinhas da narrativa, porém é abordada como subterfúgios das circunstâncias que apresentam como indicativas da situação que desenha a cegueira dominante dos fatos e dos elementos intrínsecos de uma sociedade enferma. A sexualidade reprimida e a liberação dos sentimentos estão na falta do carinho, atenção e amor para o rapaz que busca referência masculina no enigmático amigo que se aproxima com segundas intenções para uma vingança sem culpa, mas que também sofre das mesmas carências afetivas, tanto da paterna como do Estado em decomposição sócio-econômica para seus filhos.

De Longe Te Observo tem um componente político forte e é realizado com muita sensibilidade pela eficiência, domínio de elenco para um neófito diretor que habilmente sabe usar as elipses precisas, mantendo consistência e coesão em uma performance acima da média na criação de personagens sólidos e psicologicamente bem construídos. Há uma descrição fiel num ambiente degradado pela falta de opção de trabalho, visto com muita sutileza e reflexão sobre um momento delicado que vive os venezuelanos neste manifesto da indignação de um sistema envelhecido pelo caudilhismo ultrapassado, pela amostragem de uma classe pobre sofrida e desamparada pela falta de condições básicas sociais numa realidade injusta com seu povo pela instabilidade anômala, diante da magnífica visão deste drama metafórico construído com pujante vigor sobre os vínculos afetivos corroídos, cuja câmera na mão percorre em um ritmo lento, mas necessário, assume uma posição de observadora dos fatos focados como se estivesse escondida na perseguição do seu objetivo de denúncia contundente no jogo estabelecido de desafios e enigmas para o desfecho inusitado.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Mãe Só Há Uma


Conflito de Identidade

A diretora paulista Ana Muylaert deixou muito boa impressão com Durval Discos (2002) e É Proibido Fumar (2009), depois arrebatou o público e a crítica com Que Horas Ela Volta? (2015), causando furor e ótima repercussão no admirável longa que representou o Brasil no Oscar de 2016. Está de volta em menos de um ano com o sensível drama familiar Mãe Só Há Uma, revisitando o rumoroso caso Pedrinho de Goiânia que tomou conta do noticiário dos jornais impressos e televisivos brasileiros no ano de 2002. Tanto na realidade como na ficção, um jovem de 17 anos se surpreende ao descobrir que a mãe que o criou o havia sequestrado ainda bebê de uma maternidade. Uma bomba de efeito moral e psicológico que devastou diversas vidas e destinos por muitos anos, deixando rastros indeléveis que jamais poderiam ser esquecidos.

O roteiro foi assinado pela cineasta, com a colaboração de Marcelo Caetano, para criar uma trama consistente e de fácil elaboração pelo espectador. O jovem Pierre é protagonizado pelo estreante Naomi Nero- sobrinho do ator Alexandre Nero-, em bom desempenho, um garoto que está longe do politicamente correto, foge das convenções tradicionais do gênero hétero, toca guitarra numa banda, pinta as unhas e os lábios, transa com meninas e meninos, usa lingerie, mas não é gay, embora todos o confundem. Sua vida desaba ao ver sua mãe, intitulada como biológica, ser presa e ir para a cadeia. Naquele momento, estático e perturbado, as revelações de um passado começam a emergir, pois foi subtraído de forma ilegal do hospital, tão logo nasceu. Seus novos parentes verdadeiros logo surgirão, e a verdadeira identidade é revelada como Felipe para uma nova realidade.

O mesmo caso já havia sido abordado pelo competente Caetano Gotardo em O Que se Move (2013), em um dos três episódios das tragédias familiares. A busca da reconstrução do vínculo no restaurante é a mesma enfocada por Gotardo, em que um almoço programado terá consequências desastrosas. O filme de Muylaert inova com relatos sinceros e emociona quando o protagonista diz: “Fui roubado duas vezes. A primeira, na maternidade; a segunda vez, agora por vocês”. É o desabafo de um adolescente que entra em conflito existencial quando descobre que aquela mulher, por quem nutre carinho materno, o raptou, assim como também fizera com sua irmã menor. Ou seja, ambos tiveram o mesmo destino de uma infância roubada. Eis o retrato de um filme pujante da temática da maternidade imposta a qualquer preço. Os conflitos com a nova família, principalmente quanto a sua sexualidade, em que o pai biológico (Matheus Nachtergaele) surta e vê como uma agressão o modo pelo qual o menino se veste de mulher, não gosta de futebol e nega-se a jogar boliche. As descobertas e as opções do garoto em crise com a identidade e seu novo lar, pelo qual sente-se invadido e sem privacidade, diante das intromissões no quarto pela real genitora (Dani Nefussi interpreta as duas mães), além de seus paparicos na tentativa de conquistá-lo.

A diretora enfatiza a dor e a angústia daquela criatura que parece um estranho no ninho, mas todos sofrem, até o novo irmão caçula com seu olhar de tristeza e distanciamento daquele vendaval ali instalado, diante de uma situação complexa que explodiu muitos anos depois do nascimento pela procura obstinada do filho sumido. A realizadora não tem o interesse em tomar partido por ninguém, retrata com isenção um quadro que se desenhou por um crime do passado, colocando ingredientes novos para reflexão. As causas não são enfrentadas e sequer o motivo que levou ao crime, sem que haja culpados diretamente. O espectador faz sua conclusão das consequências nefastas ali apresentadas e deixadas como feridas abertas que ainda não cicatrizaram. É um longo processo de adaptação, tanto dos pais biológicos, como do irmão ao novo integrante do microcosmo familiar, sendo este a maior vítima do imbróglio armado irresponsavelmente. Além de ter que se encaixar no novo contexto, terá que resolver situações do cotidiano que incomodam terceiros.

Um filme que cativa pela consternação e mexe com princípios e paradigmas normativos de uma sociedade conservadora, bem explorado pela cineasta no seu drama anterior. Traz à baila discussões sobre a ética dos princípios que norteiam a família, pouco se importando com a tristeza de quem vê tudo desabar no feliz mundo restrito que vivia com amigos através do som da guitarra ainda retumbando nos ouvidos. A humilde casa de madeira tinha um afeto mais próximo, sem simbolismos. A busca do silêncio do quarto para entender a guinada dos rumos que o destino lhe aprontou de Pierre para Felipe é uma realidade insofismável que afloram sentimentos e desejos neste belo drama sobre o destino e as arapucas que a vida apronta com doses excessivas de maldade num mundo de egoísmos e aparências.

Mãe Só Há Uma tem méritos na abordagem sobre o comportamento pelas sutilezas sugeridas na sintonia de uma questão contemporânea da juventude atual ao retratar com neutralidade uma sexualidade libertária na fase típica das incertezas das descobertas. São elementos bem caracterizadores e envolventes que marcam com qualidade este retrato intimista para um desfecho abrupto sem redenção, com a tensão nos contraplanos suaves, dando leveza na proposta, sem se importar com diálogos prolixos ou estéreis. Os sentimentos são captados e a proposta vai ao encontro da plateia com harmonia e deixa marcas perturbadoras com lucidez. Há elementos psicológicos bem caracterizadores e envolventes registrados com rara qualidade.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Julieta


Tragédia Grega

O cultuado diretor espanhol Pedro Almodóvar está de volta no seu clássico estilo de filmar os melodramas profundos de outrora, embora sem se reinventar, mantém a fidelidade que o consagrou. Apresentado no 69º Festival de Cannes de 2016, Julieta é baseado nos três contos Acaso, Logo e Destino da escritora canadense Alice Munro, do livro Fugitiva, publicado em 2004, mas que chegou no Brasil somente em 2006. Eis uma dobradinha apontada por muitos críticos como improvável, tendo em vista a sobriedade e a lentidão das tramas sombrias da autora nos cenários gelados de seu país, escolhida Nobel da Literatura em 2013, que poderia ofuscar ou contrapor com a irreverência do realizador. Porém, o resultado foi bem absorvido por esta fusão de extremos, ao associar elementos de mistério com os anseios femininos para reflexão no cinema.

O longa apresenta um bom domínio estético da narrativa no formato de uma tragédia grega, já indicado na capa do livro da protagonista em sua leitura no trem. O roteiro tem dois tempos distintos: o presente na meia idade e o passado da vida na juventude em flashbacks demorados. O filme é contado na primeira pessoa, através de diários retirados das gavetas que apresentam comportamentos de ações e reações para elucidar o mistério que registra didaticamente a transformação da personagem-título (a belíssima Adriana Ugarte quando jovem e Emma Suárez na meia-idade) que busca a origem do segredo como mola condutora do enredo. Ela leciona mitologia clássica e está prestes a se mudar de Madri para Portugal, para acompanhar o namorado Lorenzo (Dario Grandinetti), mas os rumos da viagem mudarão repentinamente graças a um encontro casual na rua com Beatriz (Michelle Jenner), uma antiga amiga de sua filha Antía (Blanca Parés) que lhe fará desenterrar os enigmas do passado.

A fórmula do cineasta apresenta a desconfiança pelo ciúme que abala o relacionamento com o companheiro intrigado com a desistência abrupta de Julieta, ainda mais quando ela resolve se mudar para o antigo prédio em que vivia em Madri, sem maiores explicações. Lá irá refletir o tempo que passou, escrevendo uma carta para a filha, relembrando tudo o que aconteceu entre as duas. Almodóvar cria um cenário elegante e aprazível com a casa com vista para o mar, embora um local trágico pela tempestade metafórica que irá marcar sua vida. Traz também requintes de suspense quando explora com força as cores fortes, mas harmônicas, com predominância do vermelho nos listrados e xadrezes sem ser gritantes ou com agressão visual, sempre presentes. A personagem central dos anos de 1980 é moderna e veste-se com roupas da época, tem os cabelos loiros fashion; já na fase da maturidade é uma mulher sóbria e com olhar distante pela dor da ausência e das desgraças que aconteceram em sequência, dando um semblante de tristeza e desesperança.

Num contexto típico e revelador dentro de um cenário almodovariano, com um enredo pontilhado por traições, revelações e atitudes cruéis, como o desaparecimento inusitado de Antía por 12 anos sem nenhuma justificativa aparente como uma peça surpreendente na atmosfera de dúvidas. Há uma razoável lucidez aflorada na revolta da filha para atingir o sentimento oriundo da maternidade exposta pela suposta culpa da mãe pelos acontecimentos trágicos shakesperianos que se desenrolam paradoxalmente na vingança como estopim da morte paterna. Ainda assim, não conquista plenamente o espectador, ao se estabelecer a relação com realizações anteriores arrebatadoras como A Pele que Habito (2011); o brilho e eloquência inerente em Abraços Partidos (2009); o sempre lembrado Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988); o notável Fale com Ela (2002); Má Educação (2004); Volver (2006) é a ode máxima ao feminismo; assim como em Ata-me (1990); De Salto Alto (1991), Carne Trêmula (1997) e Tudo Sobre Minha Mãe (1999).

Habilmente o diretor conduz o espectador por caminhos pouco óbvios. O filme remete para questionamentos de ciúmes e culpa de Julieta com Xoan (Daniel Grao), pai da filha que conheceu no trem de forma fortuita, ao trocar de banco por desconfiar da maneira nada sutil de um estranho passageiro, a primeira morte entre outras na sua saga de desgraças. Também é enfatizada a relação conturbada com o pai da protagonista, diante das circunstâncias do novo relacionamento com a cuidadora de sua mãe. O triângulo amoroso pouco convencional, às vezes com conotação de traição, se faz presente em três casos na história, em todas há a morte como fuga de escape de um ingrediente indigesto para reflexão do complexo de culpa, do arrependimento fugaz no tema do coma terminal das vítimas, da consciência abalada pelos fantasmas que emergem. Retrata com dignidade a criação dos personagens na trajetória como peças que vão se encaixando no tabuleiro hostil da vida.

Julieta não empolga, mas não chega a decepcionar, fica num plano intermediário, embora mantenha o rigor formal característico de seus melodramas familiares, sendo este com sabor déjà vu. Dá para dizer que é mais uma obra com a grife Almodóvar, onde focaliza personagens combalidos pelas suas confissões mostradas como se fossem purificar a própria alma com um viés de um suposto pedido de perdão pelos pecados praticados nas sucessões de acontecimentos que vão desfilando pela tela. Há os grandes dramas pessoais absorvidos pelas fraquezas e as vicissitudes fragilizadas como decorrências do ser humano, numa trama que se delineia com verossimilhança no desfecho. Tudo vai no embalo da bonita trilha sonora para revisitar uma extensa filmografia peculiar, através de um olhar nos sentimentos das mulheres atormentadas pelas transformações emocionais na construção psicológica do sofrimento feminino.

terça-feira, 5 de julho de 2016

As Montanhas se Separam


Identidade Perdida

O festejado cineasta chinês Jia Zhang-ke tem em seus filmes uma preocupação recorrente com a globalização e por consequência a perda das raízes de seu povo. Assim foi com Em Busca da Vida (2006), Memórias de Xangai (2010) e com Um Toque de Pecado (2013) chega ao ápice com este drama social sobre a eclosão violenta como o estopim de uma sociedade amordaçada por muitos anos e ainda convivendo com um poder ditatorial, como a referência induzida na estátua do líder revolucionário Mao Tsé-Tung. É dele também o instigante Plataforma (2000), uma abordagem dos efeitos da abertura capitalista na fechada sociedade chinesa, em que a migração interna parece ser a única alternativa para toda uma geração, como da trupe de atores que assume outros empregos. Já em Prazeres Desconhecidos (2002), tratava dos efeitos dessa abertura nos adolescentes, perdidos entre a cultura de seu país e o ocidente. O primeiro longa do diretor foi o premiado Pickpocket (1997).

Com sua última realização, As Montanhas se Separam, conta uma história em três tempos sobre a era da globalização no mundo capitalista, ao abordar o relacionamento de três amigos em comum nos anos de 1999, 2014 e 2025. Começa com a comemoração da entrada do ano novo para acompanhar a trajetória de Tao (Tao Zhao), uma vendedora de uma pequena loja de eletrônicos na província de Shanxi, que está quase engrenando um namoro com o amigo Liangzi (Jing Dong Liang), rapaz humilde que trabalha como mineiro e apaixonado pela bonita moça que será disputada com um antigo amigo de infância da dupla, Jinsheng (Yi Zhang), um típico deslumbrado por ser um novo riquinho dizendo que “não para de contar dinheiro” de seu posto de gasolina que herdou. Esnoba o carrão novo último tipo, sujeito prepotente que se sente o novo dono do mundo. Logo, a relação de amizade do trio entra em choque, pois o abastado pede para o pretendente da moça que se afaste dela. Diante da negativa, acaba comprando a mina de carvão que trabalha o operário para ameaçá-lo e despedi-lo como represália. Naquela disputa tudo vale e não há limites e nem espaço para os três estarem juntos, até conseguir se casar, afastar em definitivo o concorrente, como na velha máxima de Maquiavel: “Os fins justificam os meios”.

O drama dá um salto no segundo ato para 2014, momento crucial para a trama, pois o casal aparecerá divorciado. Ele em Xangai com a guarda do filho menor; ela permanecerá na sua província remoendo a perda da criança. Surge Liangzi, seu velho amor do passado, casado e com um bebê recém-nascido, porém gravemente enfermo. O filme toma outros contornos com a morte do patriarca da personagem central e a aproximação de Dollar (Zijian Dong), o filho com o nome sugestivo dado pelo pai, que também troca sua identidade para Peter. O diretor coloca então as diferenças entre a mãe e o filho que estão afastados há anos e chegou para o funeral do avô. As raízes e as tradições desmoronam numa China flertando com o capitalismo, além dos vínculos estremecidos e a cultura esbofeteada no terceiro ato, em 2025, num cenário doloroso, em que Dollar para se comunicar com o próprio pai, agora ambos residindo na Austrália, terá que contratar uma intérprete chinesa, uma espécie de segunda mãe que terá uma participação importante para suprir a carência afetiva confundida com o complexo da relação edipiana do garoto já com 18 anos. Emerge do contexto e dói na alma a vida solitária, sem carinho e com rompimento tanto de vínculo maternal como paternal.

As Montanhas se Separam é um filme metafórico da desraização do povo chinês, em que um jovem adolescente demonstra toda sua infelicidade e a extrema solidão com a perda da identidade num contexto melancólico com extraordinário senso narrativo da complexidade neste emblemático drama universal apontado pelo diretor como causa dos efeitos devastadores da globalização pela ocidentalização nas aldeias, enfatizados com um profundo amargor. Além de abordar a violência implícita das perdas morais e éticas que destroem uma comunidade, através da magnífica construção dos personagens entediados aos poucos se revelam na tela, evolui para uma crise de valores e como decorrência da história individual de cada um deles que será abalada pelas atitudes coletivas em iminente desintegração pela depravação do ser humano diante da complacência e a falta de indignação.

A juventude está presente no último episódio, Zhang-ke retrata com dignidade os anseios do rapaz por um resultado mais compensador, embora a ganância pela omissão paterna esteja bem simbolizada no materialismo obsessivo pelo fluxo intermitente de uma nação em efervescente transição cultural e econômica dá o tom dos problemas sociais. Elogiável o elenco, bem como a bela trilha sonora adequada por ser correta e sem interferir nos diálogos, acompanha Dollar na sua trajetória de mudanças e reaproximações. Um filme arrebatador na essência que deixa uma ponta de esperança na bela imagem da mãe dançando no epílogo como uma reflexão dos tempos de um país corrompido.

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Paulina


O Estupro

Santiago Mitre foi o roteirista dos filmes Leonera (2008), Abutres (2010) e Elefante Branco (2012), todos realizados por Pablo Trapero, fez sua estreia como diretor em O Estudante (2011), ano marcado por convulsões sociais nos EUA, Chile e na Europa. Abocanhou mais de 20 prêmios em festivais pelo mundo. Em seu segundo longa, Paulina, baseado no filme homônimo La Patota, de Daniel Tinayre, produção de 1961, o sucesso continua para este cineasta de apenas 35 anos, obtendo premiações em San Sebastián, Lima, Turim, Biarritz e Chicago, mas a principal láurea veio ao ganhar o troféu principal da Semana da Crítica em Cannes. É uma coprodução da Argentina, Brasil e a França, que vem num momento de comoção nacional para os brasileiros, diante do estupro de uma jovem no Rio de janeiro.

O drama social retrata a temática da violência contra a mulher de uma maneira pouco convencional, sem ser sensacionalista, busca contextualizar a trama e dar luzes à história em uma reflexão mais profunda, tendo como subtema a justiça a serviço dos interesses pessoais de poderosos. Dolores Fonzi (atriz de Truman e O Crítico) interpreta com esmero a personagem-título, de 28 anos, que largou uma promissora carreira na advocacia após estudar e se formar em Direito, em Buenos Aires, para ser professora com suas convicções de ensino sobre política na província de Misiones, em uma escola rural no norte do país, na divisa com o Paraguai, considerada problemática e de alto risco pelas circunstâncias inerentes da região.

Mitre, que assina o roteiro com Mariano Llinás, não conta uma história linear, há idas e vindas, não segue uma cronologia precisa, pois aos poucos o enredo vai se desanuviando para ir ao encontro do imbróglio e suas nuances decorrentes do crime em que é vítima por engano, ao ser confundida com outra mulher. A protagonista que aparece no prólogo do filme discutindo seu futuro com o pai (Oscar Martinez), um poderoso juiz conservador e pouco ético na sua ortodoxia profissional, quer que ela siga seus passos na magistratura e desista de seu projeto de dar aulas no interior, sob o argumento de que qualquer outra pessoa de escolarização de nível médio poderia fazer o que é sua convicção de lecionar. Sustenta que como uma profissional na área do Direito poderá contribuir muito mais para a sociedade do que na carreira do magistério para alunos pouco qualificados. Sequer o namorado conseguirá desmotivá-la de seu objetivo traçado.

O filme apresenta uma complexidade bem maior do que parece, pois uma jovem que sofreu abuso sexual de um tio, resultando no nascimento de um filho, será o pivô involuntário por causa de um desacerto com o companheiro e apontado como o principal suspeito do estupro. O realizador coloca na tela um prato indigesto de uma situação dolorosa para que a personagem central vá buscar forças na crença da justiça e resolver sozinha o fato inusitado, pois ela quer conduzir uma investigação imparcial para saber dos motivos que levaram o acusado de uma gangue de jovens que falam guarani, entre eles alunos seus, a praticarem tamanho desatino de violência sexual contra uma pessoa indefesa com sentimentos humanitários e ideais de botar o mundo nos trilhos. Mas com a entrada do pai novamente em cena, a relação estremece, diante do propósito de buscar justiça pelas próprias mãos, através de uma vingança barata com elementos de força pela truculência policial. O choque pelas atitudes extremadas fragilizará a relação com o vínculo paterno ora em xeque, diante de sua crença pelo senso de justiça, ao afirmar num diálogo: “Quando os envolvidos são pessoas pobres o Judiciário não procura justiça, mas sim culpados”.

Outro componente importante do drama será a insistência do namorado em realizar o exame de DNA para saber se é ele o pai da criança prestes a nascer. Desmorona a relação e o amor entre eles perderá consistência. Para a protagonista, filho do estupro ou não, pouco importa na atual situação. A questão do aborto é tratada sutilmente no enredo, pois o objetivo não é fazer ou não simplesmente o abortamento. O que o diretor busca são os métodos legítimos e éticos da justiça, sem que haja apologia da vingança pelo crime cometido pelos infratores. Outro elemento importante lançado para reflexão pela psicóloga é a vítima no estado de Síndome de Estocolmo, quando passa a ter simpatia e sentimento de amor ou amizade perante o seu agressor, mas rechaçada com fortes argumentos pela violentada, ao invocar que as pessoas de poucos recursos não teriam o direito da ampla defesa, como demonstrado pelo aspecto físico dos abusadores. A cena da delegacia fica evidente e o reconhecimento fica prejudicado pela aberração imposta no contexto traumático é visível, mas que não irá abalar a convicção da professora, que antes fora perguntada por um agente machista representante do Estado, sobre o tipo de roupa que vestia ao ser atacada.

O cineasta não tem a pretensão de dar soluções definitivas, apenas questiona os métodos utilizados pelo ressentimento vingativo no ato do estupro. Eis um drama recorrente que deixa margens de dúvidas para o debate sobre a complexidade das circunstâncias que resultaram no delito, neste sintomático filme que causará muita polêmica sobre os desdobramentos entre vítima e estuprador, pois às vezes o espectador irá entender os gestos da moça que não quer dar simplesmente o perdão; já em outras decisões, não. Porém no fundo Mitre quer enfatizar e passar para a plateia as soluçõs antiéticas do poder representado pelo magistrado para se chegar ao desfecho pessoal com uma punição exemplar, desmedida até, mas sem examinar e dar seguimento com inteira justiça ou legitimidade ao fato no todo. Paulina é um filme perturbador por ser imparcial, isento e questionador da sociedade por colocar o dedo na ferida, por isto é notável na sua conjuntura temática das causas e efeitos.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

O Botão de Pérola


Segredos do Mar

O cineasta chileno radicado na França Patricio Guzmán é um dos mais badalados documentaristas em atividade no cinema mundial. Dirigiu o fabuloso A Batalha do Chile (1975-1979), dividido em três partes, no qual passa a limpo o processo político-social anterior ao golpe militar de 1973 de seu país, bem como as nefastas consequências posteriores. É dele o invejável Nostalgia da Luz (2010), melhor documentário do European Film Awards, numa reflexão poderosa e profunda sobre os restos humanos encontrados no Deserto de Atacama, em uma grande mancha marrom da terra mais seca do planeta vista do espaço que funciona como uma porta de um triste passado.

O mais recente filme, O Botão de Pérola (2015), foi um dos premiados no Festival de Berlim no ano passado como melhor roteiro e Prêmio do Júri Ecumênico. É uma espécie de sequência por uma amostragem fiel de uma estrutura semelhante ao filme anterior, dando continuidade na abordagem do Golpe de Estado no Chile, sob o comando de Augusto Pinochet que destituiu Salvador Allende, em 11 de Setembro de 1973. Retrata com discernimento pela notável analogia da existência da espécie humana e suas origens relacionadas com a religião, a política e a ciência do infinito que se fundem pela filosofia, a arqueologia e a antropologia para propor uma metáfora vigorosa deste período nebuloso para os chilenos decorrentes de um inventário macabro. O realizador sutilmente troca de cenário, sai do Deserto de Atacama com o olhar para a terra e o céu e vai para o mar da Patagônia com os rochedos de pedra como paredões sinistros que se encontram com a Cordilheira os Andes.

O documentário começa explicando didática e professoralmente sobre a população indígena que habitou aquele lugar com quatro tipos de tribos; o poder e a importância da água no corpo humano e na terra, em que predomina majoritariamente, mas pouco se fala de sua importância. As entrevistas com alguns moradores da região entremeados com o depoimento de um poeta e os efeitos nefastos na ingenuidade do índio que foi para a Inglaterra num navio, voltou de lá e nunca mais foi o mesmo, sendo aculturado de maneira perversa, concluindo com a perda da identidade dele e dos nativos dali, ainda colaborou involuntariamente com os colonizadores na dizimação de seu povo. Com brilho poético, o cineasta demonstra toda sua sensibilidade para um mergulho sobre a existência humana e as questões dentro de uma relação de circunstâncias que acompanham os fatos e situações da política e as consequências sociais que faz abrir um debate contextualizado.

Na recente premiação em Berlim, em entrevista coletiva para a imprensa, Guzmán denota sua preocupação com o passado político, o que já fizera em Nostalgia da Luz, ao afirmar que: “Me interessa muito a geografia chilena e creio que se podem fazer metáforas por meio desses elementos. O que mais me interessa é a memória. Me interessa lutar contra a amnésia do Chile.” Por essa razão, faz toda uma construção pela geografia do país, o passado colonial com mortes e estupros de índios, para chegar até a ditadura imposta em 1973, que teve milhares de vítimas jogadas no mar, amarradas e empacotadas literalmente, com a intenção de não deixar vestígios das atrocidades. Mas o crime nunca é perfeito, como diz a velha máxima das investigações policiais, pois há a devolução de um corpo feminino desfigurado, que resultará em pesquisas e buscas no fundo do oceano com a descoberta de indicativos da truculência dos algozes que dominavam o poder. O desfecho do longa sinaliza para o título como o símbolo da aproximação, pois o objeto é marcante na barra de ferro presa no fundo do mar.

O mérito maior do documentarista é saber selecionar da série de depoimentos aqueles mais consistentes e adequados ao tema, sob o ponto de vista humano e com a força das descrições contadas pela boca de personagens do povo e por um intelectual sobre as marcas indeléveis colocadas na temática. Guzmán não é movido pelo discurso panfletário maniqueísta, longe disto, seu cinema busca o equilíbrio e a racionalidade do tema do tempo e da memória para um resgate histórico, pois sabe controlar e dar o tom na entrevista como um emérito questionador, ao deixar as pessoas à vontade para falarem algo interessante e os enigmas guardados com fervor e paixão pelos remanescentes que procuram manter suas vidas e dos seus familiares encravados naquela região com seus mistérios do passado. Um grande exemplo da narrativa sóbria é da velha índia que diz que eles não precisam de Deus e nem de polícia naquele lugar, falam com o coração e buscam soluções para as dúvidas mencionadas. Às vezes, em comoventes devaneios para continuar lutando com as forças que ainda restaram.

O Botão de Pérola tem a essência do cinema, diante das poderosas imagens captadas num cenário distante para dar cores fortes de uma realidade que existiu e deixou marcas por cicatrizes incuráveis que as informações desfilam na tela para o espectador refletir sobre uma brutalidade advinda de um processo deformado que atinge em cheio vidas que ficaram pelos caminhos tortuosos de um poder ilegítimo. Eis um espetacular registro sobre a história, através de uma narrativa em off descrita pelo próprio diretor, com uma fotografia fascinante para um estonteante cenário que serviu de palco para as barbáries covardes praticadas aos cidadãos contrários ao regime militar, que eram jogados dos aviões como se fossem objetos descartáveis. Mas sobram pistas oriundas do genocídio de opositores à tirania. Ali eram despejados para desaparecerem para sempre nas profundezas das águas salgadas apresentadas como um cemitério escondido para colocar presos políticos descontentes. Um ótimo documentário que possivelmente terá o terceiro ato para fechar a trilogia. Quem sabe no Estádio Nacional transformado em um campo de concentração do horror para 20.000 pessoas durante dois meses em Santiago?

terça-feira, 14 de junho de 2016

Festival Varilux Cinema Francês (Chocolate)


O Racismo

O aguardado filme que não decepcionou no Festival Varilux de Cinema Francês foi este drama biográfico Chocolate, dirigido por Roschdy Zem, um realizador que já tem três filmes em sua filmografia: Mauvaise Foi (2006), Omar M’a Tuer (2010) e Bodybuilder (2013), todos inéditos no circuito comercial no Brasil. O cineasta foi ao encontro de uma história baseada em fatos reais, ou seja, a ascensão do circo para o teatro do palhaço Chocolat, primeiro artista circense negro com sucesso na França. Do anonimato à glória, a incrível trajetória e a surpreendente queda desta famosa estrela que alcançou um estrondoso sucesso popular na festejada Paris da Belle Époque.

A trama centra a narrativa na dupla inédita formada por Chocolat -interpretado por Omar Sy, que migrou há mais de 10 anos do Senegal, o primeiro afro a ganhar o troféu César (o Oscar francês) de melhor ator por Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, que viriam formar dobradinha novamente em Samba (2014)- que leva chutes no traseiro de Footit (estrelado pelo neto de Chaplin, James Thiérrée) e patrocinam uma impagável dupla que diverte a conservadora aristocracia francesa, diante das circunstâncias favoráveis para o prazer da imbecilidade. Enquanto o negro apanha do branco sem se rebelar, é considerado burro e quase que irracional, razão pela qual leva ao delírio uma plateia dissociada da dignidade. Mas a ascensão vertiginosa do artista o leva ao ápice da carreira pela fama, com dinheiro entrando fácil, muita jogatina no cassino, mulheres em profusão a escolher, bebedeiras homéricas, até surgir as discriminações diante da insistência do personagem central tentar ingressar no teatro para encarnar Otelo, de William Shakespeare, acarretando um desgaste na amizade dos parceiros inseparáveis para fulminar a carreira de ambos como um míssil.

Zem conta a triste história com detalhes didáticos, através de uma narrativa linear a vida do jovem negro Rafael Padilha, nascido em Cuba no ano de 1868, e vendido quando ainda era adolescente. Irresignado com a situação do escravagismo que imperava em meados dos anos de 1900, conseguiu com um esforço incomum, anos depois, fugir para trabalhar nas docas portuárias ladeada de muros e o cais. É descoberto por acaso por Footit para tornar-se um palhaço que irá contracenar com seu criador artístico numa pequena cidade interiorana no Norte da França. Como Padilha não soava à altura do esperado, ganhou o batismo artístico de Chocolat, que empresta o nome ao título do filme, virou uma celebridade no final do século XIX, terá problemas de documentação e será considerado ilegal no país até ser preso. Mas o caprichoso destino determina o encontro fortuito com a enfermeira viúva Marie (Clotilde Hesme) que cuida de crianças em um hospital infantil, será uma companheira de todas as horas, sofrendo humilhações por se relacionar com um homem de cor diferente, independente de ele estar no auge ou na miséria com tuberculose, morando em situação deplorável, resistirá como uma autêntica mulher de fibra. Um destino cruel é o castigo por não ser branco, embora sempre à procura de subsistência no mercado dos sonhos, terá uma nova realidade, quase sempre decepcionante, triste e trágica, como no epílogo da melancólica alegoria do céu estrelado que irá aos poucos se apagando.

Chocolate retrata um momento difícil para a raça negra na época da aristocracia francesa, que nutria repugnância de quem não fosse branco. Toledano e Nakache abordaram em Intocáveis um tema universal que é o reingresso na sociedade de um ex-apenado, tendo agravada a situação por ser um negro naturalizado, oriundo de um país africano e ex-colônia francesa; já em Samba o tom é mais leve e provocativo concomitantemente, sendo a inclusão social para um trabalho digno de um imigrante o foco da trama. O filme de Zem é simples na estética, deixando as metáforas afastadas do enredo, indo direto ao cerne do conflito pelo choque racial na Cidade Luz da Belle Époque. Não há grandes rodeios ou simbologias pelas desgraças sociais com a perda objetiva da identidade de um imigrante refugiado que é visto como um parasita. As piadas são razoáveis, às vezes beira a tênue linha divisória do pastelão para uma sutileza mais apropriada, sem estigmatizar pela rudeza, mas no contexto funciona como um elemento de descontração e bom humor para analisar um triste e doloroso contexto enfrentado pelos oriundos da raça afro.

O longa tem um toque de humor cáustico na busca pela igualdade, mas não tem a profundidade de um filme como O Porto (2011), do finlandês Aki Karismäki, que aborda o sofrimento e a ojeriza de uma casta que vira as costas, fruto da xenofobia racial, com um olhar de misericórdia e esperança; nem de Claire Denis no instigante Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Cachê (2003), de Michael Haneke. Chocolate tem méritos inegáveis ao abordar a história do primeiro palhaço negro em Paris, contracenando com um branco, numa relação de duas pessoas opostas que se conhecem fortuitamente. Embora o tema racial seja o principal da abordagem, a inclusão social para um trabalho digno de um imigrante também está no mesmo plano. Resta um bom resultado reflexivo pela superação e do conflito existente, que repele dogmas normativos pela visão crítica da falência das instituições e pela arrogância fleumática de uma sociedade conservadora, ao mostrar o desequilíbrio diante do preconceito racial que faz emergir o ódio e o repúdio aos não nativos que buscam se estabelecer em solo francês.

Festival Varilux Cinema Francês (A Viagem de Meu Pai)


O Nefasto Alzheimer

Outro dos aguardados lançamentos neste Festival Varilux de Cinema Francês era a comédia dramática Flórida, batizada no Brasil como A Viagem de Meu Pai, dirigida com sobriedade e sensibilidade pelo competente Philippe Le Guay, que tem outros dois filmes de boas passagens pelos nossos cinemas: As Mulheres do Sexto Andar (2011) e o festejado Pedalando com Molière (2013). Seu último longa é uma viagem ao imaginário de um idoso que começa a perder a lucidez e mergulhar no mundo da fantasia, distanciando-se do cotidiano para oscilar entre a triste realidade e o sonho de um mundo de outrora e de reminiscências de um passado bem longínquo, mas que irá causar desconforto e perplexidade entre os mais próximos, como seus parentes atordoados com uma situação delicada num ambiente no qual se questiona pela dúvida lançada sem o ingrediente da zombaria.

A história é aparentemente simples, mas a complexidade do enredo está mais para uma reflexão dolorida do que para as diabruras do velhinho Claude Lherminier (Jean Rochefort- boa atuação) que aos 80 anos ainda conserva sua imponência de um lorde, apesar dos constantes ataques de confusão e esquecimento mental, mas que se recusa terminantemente a admitir. Já não é mais o famoso industrial respeitado pela credibilidade, foi obrigado a se aposentar por força da saúde dando mostras de um estágio debilitado. Como uma bomba que cai no colo, a filha Carole (Sandrine Kiberlain- impecável na interpretação com doação) travará uma batalha diária inglória e desgastante para cuidar do pai e evitar maiores dissabores com acidentes domésticos, pois ele não consegue viver sem a ajuda de enfermeiras, mas mesmo assim insiste em morar sozinho em sua bela mansão com suas obsessões e manias adquiridas, botando a correr todas suas zelosas cuidadoras, exceto a romena (Anamaria Marinca) que dará o pulo do gato.

Le Guay constrói um universo perverso advindo do tempo que passa, mas não deixa cair no melodrama fácil, deixando o bom humor e a sensibilidade das situações cômicas ingressarem como um doce amargor decorrente de uma acidez involuntária de uma vida que se esvai lentamente. Assim é o avanço da idade e os cuidados especiais que requerem, com a sugestão implícita do acometimento do nefasto Mal de Alzheimer através dos ocorrentes lapsos incuráveis de memória que se agravam ao longo do tempo, mas pode e deve ser tratado. O desenrolar do drama vivenciado pelo idoso através de sua visão, dará um ângulo correto pela distorção da enfermidade, criando fantasias como a viagem aos EUA para encontrar a filha caçula que morreu há mais de 10 anos; ou quando se arruma de maneira impecável para passar em revista sua antiga fábrica, sentando-se na mesa em que fora por muitos anos o dirigente máximo ali.

Como um novelo que se desenrola, o diretor vai lançando as situações diárias típicas de conflitos com as empregadas, o choque de frente com a filha e o atual namorado agredido várias vezes, tanto no psicológico como pelas vias de fato. O filme tem o viés da reflexão sobre a terceira idade e as peraltices causadas pela vítima da doença que aflora sem piedade e não como um elemento agressivo de quem tem as faculdades mentais sadias. Como referências de subsídios foram realizados dois outros notáveis filmes similares: Nebraska (2013), do independente diretor norte-americano Alexander Payne que brilhou ao contar uma peripécia semelhante, em que um idoso alcoólatra está convicto de que recebeu um bilhete premiado com prazo limitado para resgatar a fortuna, já com as ideias embaralhadas dando sinais de demência; o outro filme, bem mais próximo de Flórida, vem do Uruguai pelas mãos de Álvaro Brechner, o perturbador Sr. Kaplan (2012), com a leveza e a suavidade característica do autocrítico humor judaico, retrata com finesse cômica um senil ancião que acredita que há um alemão foragido nas praias uruguaias, vendendo refrigerante e peixes para a população. Mas há também outros cineastas preocupados com questões relacionadas à velhice, como nos magníficos longas argentinos Elsa & Fed (2005), de Marcos Carnevale, e Dois Irmãos (2009), de Daniel Burman.

A temática da perda da memória quase sempre tem um bom velhinho com atitudes mirabolantes, mas paradoxalmente por trás há uma doença devastadora que começa a atacar e destruir o cérebro, por consequência a razão, minando a consciência de forma inapelável para mergulhar no vazio existencial que acomete os idosos, principalmente os preconceitos na sociedade repressora de quem já não é mais jovem.  A Viagem de Meu Pai é primorosa nos detalhes das sutilezas do olhar desorientado e o corpo já debilitado pela idade, ficando acentuado o estrago pelo avanço da moléstia no protagonista, ao deixar a filha em maus lençóis, pois esta terá que tomar uma decisão: mantê-lo em casa e abdicar de viver com dignidade mínima, ou interná-lo num asilo especial para este tipo de doença. Eis uma realização dolorosa que traz uma insustentável leveza com sutileza na eficiente narrativa desta estupenda comédia agridoce, mas em que está embutida uma melancolia que arrebata o espectador com a crítica situação dentro de um contexto chocante e com os malefícios inerentes que irão fluir na tela de maneira inexorável pela reconstrução familiar buscada nos pequenos detalhes para uma amostragem que ganha tons de uma paranoia obsessiva. Há uma atmosfera equilibrada dos contrastes da liberdade e o medo da morte pela jornada de aventuras com uma magia peculiar.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Festival Varilux Cinema Francês (Meu Rei)


Segundas Oportunidades

Uma das grandes promessas do Festival Varilux era o aguardado Meu Rei, da jovem e promissora cineasta francesa Maïwenn, na abordagem de um drama familiar sobre segundas oportunidades com bons argumentos de pessoas magoadas, em especial uma mulher atingida pelo destino da vida que lhe aplicou golpes baixos nas andanças do dia a dia. Mas a superação e a amizade estão presentes na ajuda mútua para continuar vivendo com dignidade e superar os traumas no isolamento que se encontra para ingressar novamente na sociedade competitiva, tanto profissional como nas relações amorosas decorrentes do meio social. A realizadora é conhecida no Brasil por O Baile das Atrizes (2007) e o cultuado Polissia (2011).

A trama é contada em flashbacks, a partir do momento do grave acidente de esqui em que Tony (Emmanuelle Bercot- ótima no papel que lhe deu a premiação de melhor atriz em Cannes, dividindo a láurea com Rooney Mara) quase perdeu a vida e acaba internada numa clínica de reabilitação, com intermináveis sessões de fisioterapia pra adquirir massa muscular e voltar a caminhar normalmente como qualquer mortal. Está numa posição desconfortável de dependência médica, se relaciona bem com os outros pacientes negros e muçulmanos, sem que haja um aprofundamento do tema do preconceito e da xenofobia, porém há uma contribuição útil. Diante do atual quadro, aproveita o vazio do tempo para refletir sobre seu turbulento relacionamento com as histórias do passado que envolvem o pai do seu filho, Georgio (Vincent Cassel- numa atuação impecável), principal foco de uma relação apaixonada e ao mesmo tempo doentia na essência. O casal viveu com intensidade um amor sufocante que lhe custou caro, inclusive ferindo com chamas explosivas e devastadores sua dignidade de mulher. Uma questão é colocada em xeque: o que fazer para se libertar desse imbróglio sentimental dolorido com sobras de marcantes fissuras? As feridas teimam em não cicatrizar à medida que a protagonista recupera-se fisicamente, mas há uma luta interna difícil para arranjar forças e pôr fim nos sentimentos emocionais abalados de muitos anos de um vínculo destrutivo e sem perspectiva de se restabelecer pelas fraturas deixadas pelo caminho.

Meu Rei é um drama familiar típico de uma grande história de amor e desamor neurotizado concomitantemente, advindo de uma entrega amorosa que começa aos solavancos num encontro fortuito numa danceteria, e a tendência é ir afundando cada vez mais. A diretora arma a trama com delicadeza e um olhar feminino com momentos de bom humor e graça para alimentar uma trajetória espinhosa. Parte do namoro, passa pelo casamento, separação e o filho que nasce pela súplica do marido apaixonado e bom pai, um Don Juan em alguns momentos críticos, carinhoso, estranho e envolvido fundamentalmente com seu círculo de amizade da juventude. Como um adolescente eterno que não amadureceu e, para atritar ainda mais, tem uma ex-namorada de quem não desgruda, sob alegação pífia de se suicidar, embora não demonstre sinais para tal desatino. Logo surgirão as hipóteses do vício de drogas no seio familiar como suposto pretexto para evadir-se e desaparecer momentaneamente. A protagonista é uma advogada criminalista que parece perder a noção e a sensatez, deixando de lado o aspecto da lucidez pela pura emoção tomando conta e destruindo seu equilíbrio para provocar-lhe danos materiais e psicológicos, que conta com a solidariedade do irmão (Louis Garrel). Os poucos momentos de felicidade são suplantados pela infelicidade num ciclo desgastante do casal desatinado.

O filme foge em parte dos clichês habituais que pululam nossas salas de cinema, embora simples na estética, deixa as metáforas afastadas do enredo e vai direto ao ponto. Não há vítimas, nem réus, embora a tendência da vilania recaia sutilmente sobre Georgio, num enredo sem grandes surpresas, diante da imparcial narrativa construída por personagens de carne e osso não robotizados e bem elaborados no aspecto psicológico, para deixar ao espectador fazer sua avaliação neste drama de muita loucura, confusão, idas e vindas, num atritado romance doentio de um matrimônio em vias de rompimento iminente. A diretora aborda não apenas a violência física do marido possessivo, mas em especial o aspecto emocional, diante da teimosia da esposa e mãe em manter a relação para não prejudicar o futuro do filho, numa alegação um tanto estapafúrdia para os dias de hoje. O desfecho dará mostras da árdua luta, bem como a condução em final aberto, que amplia para uma solução pessimista neste bom drama desta temática recorrente, mas sempre com novos recheios dos ingredientes para uma reflexão sobre as relações estremecidas dos casais e suas idiossincrasias que surgem durante o itinerário dos anos.