terça-feira, 14 de junho de 2016

Festival Varilux Cinema Francês (Chocolate)


O Racismo

O aguardado filme que não decepcionou no Festival Varilux de Cinema Francês foi este drama biográfico Chocolate, dirigido por Roschdy Zem, um realizador que já tem três filmes em sua filmografia: Mauvaise Foi (2006), Omar M’a Tuer (2010) e Bodybuilder (2013), todos inéditos no circuito comercial no Brasil. O cineasta foi ao encontro de uma história baseada em fatos reais, ou seja, a ascensão do circo para o teatro do palhaço Chocolat, primeiro artista circense negro com sucesso na França. Do anonimato à glória, a incrível trajetória e a surpreendente queda desta famosa estrela que alcançou um estrondoso sucesso popular na festejada Paris da Belle Époque.

A trama centra a narrativa na dupla inédita formada por Chocolat -interpretado por Omar Sy, que migrou há mais de 10 anos do Senegal, o primeiro afro a ganhar o troféu César (o Oscar francês) de melhor ator por Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, que viriam formar dobradinha novamente em Samba (2014)- que leva chutes no traseiro de Footit (estrelado pelo neto de Chaplin, James Thiérrée) e patrocinam uma impagável dupla que diverte a conservadora aristocracia francesa, diante das circunstâncias favoráveis para o prazer da imbecilidade. Enquanto o negro apanha do branco sem se rebelar, é considerado burro e quase que irracional, razão pela qual leva ao delírio uma plateia dissociada da dignidade. Mas a ascensão vertiginosa do artista o leva ao ápice da carreira pela fama, com dinheiro entrando fácil, muita jogatina no cassino, mulheres em profusão a escolher, bebedeiras homéricas, até surgir as discriminações diante da insistência do personagem central tentar ingressar no teatro para encarnar Otelo, de William Shakespeare, acarretando um desgaste na amizade dos parceiros inseparáveis para fulminar a carreira de ambos como um míssil.

Zem conta a triste história com detalhes didáticos, através de uma narrativa linear a vida do jovem negro Rafael Padilha, nascido em Cuba no ano de 1868, e vendido quando ainda era adolescente. Irresignado com a situação do escravagismo que imperava em meados dos anos de 1900, conseguiu com um esforço incomum, anos depois, fugir para trabalhar nas docas portuárias ladeada de muros e o cais. É descoberto por acaso por Footit para tornar-se um palhaço que irá contracenar com seu criador artístico numa pequena cidade interiorana no Norte da França. Como Padilha não soava à altura do esperado, ganhou o batismo artístico de Chocolat, que empresta o nome ao título do filme, virou uma celebridade no final do século XIX, terá problemas de documentação e será considerado ilegal no país até ser preso. Mas o caprichoso destino determina o encontro fortuito com a enfermeira viúva Marie (Clotilde Hesme) que cuida de crianças em um hospital infantil, será uma companheira de todas as horas, sofrendo humilhações por se relacionar com um homem de cor diferente, independente de ele estar no auge ou na miséria com tuberculose, morando em situação deplorável, resistirá como uma autêntica mulher de fibra. Um destino cruel é o castigo por não ser branco, embora sempre à procura de subsistência no mercado dos sonhos, terá uma nova realidade, quase sempre decepcionante, triste e trágica, como no epílogo da melancólica alegoria do céu estrelado que irá aos poucos se apagando.

Chocolate retrata um momento difícil para a raça negra na época da aristocracia francesa, que nutria repugnância de quem não fosse branco. Toledano e Nakache abordaram em Intocáveis um tema universal que é o reingresso na sociedade de um ex-apenado, tendo agravada a situação por ser um negro naturalizado, oriundo de um país africano e ex-colônia francesa; já em Samba o tom é mais leve e provocativo concomitantemente, sendo a inclusão social para um trabalho digno de um imigrante o foco da trama. O filme de Zem é simples na estética, deixando as metáforas afastadas do enredo, indo direto ao cerne do conflito pelo choque racial na Cidade Luz da Belle Époque. Não há grandes rodeios ou simbologias pelas desgraças sociais com a perda objetiva da identidade de um imigrante refugiado que é visto como um parasita. As piadas são razoáveis, às vezes beira a tênue linha divisória do pastelão para uma sutileza mais apropriada, sem estigmatizar pela rudeza, mas no contexto funciona como um elemento de descontração e bom humor para analisar um triste e doloroso contexto enfrentado pelos oriundos da raça afro.

O longa tem um toque de humor cáustico na busca pela igualdade, mas não tem a profundidade de um filme como O Porto (2011), do finlandês Aki Karismäki, que aborda o sofrimento e a ojeriza de uma casta que vira as costas, fruto da xenofobia racial, com um olhar de misericórdia e esperança; nem de Claire Denis no instigante Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Cachê (2003), de Michael Haneke. Chocolate tem méritos inegáveis ao abordar a história do primeiro palhaço negro em Paris, contracenando com um branco, numa relação de duas pessoas opostas que se conhecem fortuitamente. Embora o tema racial seja o principal da abordagem, a inclusão social para um trabalho digno de um imigrante também está no mesmo plano. Resta um bom resultado reflexivo pela superação e do conflito existente, que repele dogmas normativos pela visão crítica da falência das instituições e pela arrogância fleumática de uma sociedade conservadora, ao mostrar o desequilíbrio diante do preconceito racial que faz emergir o ódio e o repúdio aos não nativos que buscam se estabelecer em solo francês.

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