quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Mostra de Cinema São Paulo (A Ilha do Milharal)


A Ilha do Milharal

A 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo tem no ótimo filme A Ilha do Milharal, o grande representante da Geórgia, no segundo longa-metragem de George Ovashvilli, que também assina o roteiro conjuntamente com Nuzgar Shataidze e Roelof-Jan Minneboo, tinha realizado anteriormente The Other Bank (2009). Venceu com seu último filme o prêmio desta categoria no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na RepúblicaTcheca. Aborda os conflitos de maneira criativa um fato triste entre duas nações em permanente disputa, tendo no meio dois seres vítimas do descalabro social.

A trama gira em torno de um velho camponês georgiano (Ilyas Salman), que se muda com a neta adolescente (Mariam Buturishvili) para uma pequena e deserta ilha no meio do Rio Enguri, cenário de sangrentas lutas, que forma a fronteira entre a Geórgia e a Abecásia, esta em ampla luta para separar-se da Rússia e buscar uma república independente. O clima é de tensão permanente na região em conflito entre as duas nações que se mantém desde a guerra de 1992 a 1993. Mas lá o velhinho constrói sua cabana paupérrima com cobertura de capim, paredes de madeira em mau estado, com um piso direto na terra. Os soldados estão espalhados por todos os lados e a menina é alvo de muitos deles, por olhares e sorrisos candentes. Até que numa noite qualquer aparece um deles ferido (Irakli Samushia), causando alguns transtornos e perseguição de grupos contrários. Mas era só o começo de uma situação incontrolável, porque o drama sobe com o tensionamento do clímax bem conduzido.

Avô e neta aram o solo e semeiam com carinho o milho na boa terra, que logo germina e proporciona uma colheita invejável. Aquele rio tem fama de destruir tudo o que nele é construído, devido ao seu ciclo natural das águas pelas enxurradas, mesmo alertado pelo policial-chefe da guarda costeira russa (Tamer Levent) sobre os perigos iminentes do local, ali instalados refutam sair e levam uma vida aparentemente tranquila. Toda primavera, o rio leva o solo fértil entre os países conflitados, criando pequenas ilhas, pequenas terras de ninguém, como determina o ciclo natural das águas daquela região. A garota se transforma em uma mulher, o milho amadurece e a enxurrada vem com fúria devastadora pela tempestade aguardada na paradisíaca ilha que sofre com a fúria incontrolável da natureza, diante dos fatores climáticos externos que colocam mais desgraça no seio familiar com danos trágicos.

Ovashvilli tem méritos inegáveis na construção magnífica deste drama social com deformações da guerra. Dá aos personagens vida e estrutura psicológica, traçando perfis condizentes daquele universo em luta constante. Há um cenário bucólico, mas paradoxalmente intrigante pelo ponto de vista do suspense sobre o dia inesperado do amanhã, quase que assustador, pois traz uma violência contida que brota das árvores e do silêncio sepulcral do rio, como um ataque iminente na espreita daquele lugar aprazível aparentemente. É deslumbrante as imagens captadas pela fotografia da competente Elemér Ragályi, pois solidifica o enxuto roteiro elaborado por um naturalismo de fascínio compensador pela artesanal edificação da casinha modesta, desde o lançamento da simbólica pedra fundamental com ternura e afeto, até a complementação da obra que se mistura na natureza.

A Ilha do Milharal é altamente interessante como contribuição significativa pelo cinema, com uma estética singular. O realizador busca elementos que indicam uma crise que dá rumo e destino após a procura da sobrevivência na ilha da esperança, mas o que está em jogo é uma guerra interminável vista como um despropósito aterrador que danifica e esmaga os sentimentos humanos de vidas inocentes sendo ceifadas. Os horrores das batalhas causam uma falta de comida imensurável para os povos devastados, resultante de governos belicistas pelo mundo, mais preocupados com interesses próprios.

O drama comovente retrata os efeitos de disputas encarniçadas sem vencedor, num cenário em que está presente o rigor militar brutalizado como besta humana, como na figura simbólica do soldado que comanda a pequena tropa no seu barco de combate. Uma bela metáfora da sociedade pelo olhar melancólico da garotinha e do desconfiado avô e seu sofrimento de dor pela solidão e a fome por falta de subsistência, que encontra guarida no milho. O filme fascina pelo movimento interessante da câmera em bons planos longos, com imagens de um neo-realismo de grandes filmes do cinema.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Mostra de Cinema São Paulo (Força Maior)

















Força Maior

Vem da Suécia a comédia dramática Força Maior, quarto longa-metragem de Ruben Östlund, também responsável pelo roteiro, que venceu o prêmio de melhor filme do júri da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2014. Está com boa acolhida de púbico na 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo, ao retratar a atitude falseada da verdade com efeitos desastrosos para o psicológico do ser humano, diante da gravidade das palavras sem noção de lógica e equilíbrio, predominando o destempero pela facilidade da verve acusatória sem medir as consequências quase que trágicas do âmbito familiar, embora distante e ausente dos personagens.

A premissa deste longa com intenções sérias é boa, mas pela falta de ritmo equilibrado da mescla de uma narrativa dramática com o senso de humor transforma numa babel, que perde o foco e a o objetivo proposto. Salva-se a estonteante fotografia de Fredrik Wenzel, com imagens dignificantes da estação de esqui e os gelos em flocos. O prólogo é a chave do desenrolar e o estopim da trama, com a avalanche que se aproxima de um grupo de turistas e desaba sobre a varanda de um restaurante nos Alpes franceses frequentado por esquiadores amadores. É lá que o casal de classe média alta Tomas (Johannes Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli) resolve passar suas férias com os dois filhos menores. A ideia é fugir do trabalho e da rotina, para se divertir e gozar as benesses daquele lugar paradisíaco para usufruir e esquecer tudo na vida.

No primeiro dia das férias, que serão grifadas como atos teatrais em uma semana, acontece um almoço que quase vira tragédia e causa pavor pela ameaça de serem todos soterrados vivos. Mas terá desdobramentos até o epílogo da história, com acusações inconsequentes, teses escabrosas e baratas, além de uma esquizofrênica terapia grupal desmedida e sem critério algum, em que o diretor solta de maneira desenfreada o elenco, com equívocos se sobrepondo, quase derivando para uma comédia pastelão.

Ebba afirma de pés juntos que protegeu os filhos e gritara por socorro para o marido, que teria fugido do local em desabalada corrida para bem longe do acidente, mais preocupado em salvar seu celular. Tudo é muito rápido e a dúvida persiste, méritos para o diretor neste aspecto pontual, que transmite a apreensão dos personagens pelo perigo iminente, deixando claro que o instinto de sobrevivência é mais forte, mesmo em determinados momentos na reação com o coletivo. A crise do casal explode e as situações que advirão nos demais dias serão um verdadeiro bate-boca e um flagelo em pleno lazer. Outros dois casais serão envolvidos na trama e darão suas opiniões em forma de escracho e pouca seriedade pelo cineasta que joga fora seu projeto arquitetado como reflexão do microcosmo familiar colocado em xeque por terceiros. Há desconforto para todos e as conversas íntimas confrontam o marido como um algoz condenado diante de pessoas estranhas, em situações que vão constranger e humilhar, de certa forma.

Não há rigor formal em Força Maior, embora a frieza das cenas sejam necessárias, mas o distanciamento crítico ao casal de protagonista é raso ou evapora pela falta de segurança e capacidade de manter um ritmo adequado, pouco se aproveita das mesquinharias ditas. Os personagens ficam à deriva e perambulam como fantasmas perdidos no turbilhão da parafernália desequilibrada imposta sem critérios na trama. Quando o humor involuntário surge, mais afunda a reflexão, a galhofa é irritante e soa como basbaquice desinteressante ditas excessivamente por uma grosseria distante da bem-vinda sutileza, o que faz beirar ao ridículo.

Östlund abusa das muitas concessões, bem que poderia ter se aprofundado no tema da depressão, por exemplo, tendo em vista que Tomas mostra-se cada vez mais envolvido com o sentimento de culpa e desaba diante do desprezo da mulher e dos filhos. A ideia no bojo do filme de provar para todos que não é um pusilânime, inclusive aos familiares, também não é suficientemente bem elaborado no psicologismo de plantão. Fica vago e solto, com poucas nuances marcantes de uma abordagem consistente. Sente-se coagido e julgado como se estivesse numa vara de audiência pública de um tribunal inquisidor para defender-se das acusações, mas falta também convencimento da frouxa direção. Descamba novamente para o escárnio, como na cena da tortura moral sofrida que desata num choro dramático do marido que provoca risos. A ausência do amor familiar é a reflexão que deveria ter deixado como contribuição, mas pelos equívocos cometidos ruíram pela falta de seriedade de uma análise mais profunda que ficou pelo caminho, talvez tragada pela avalanche.

Mostra de Cinema São Paulo (O Segredo das Águas)


O Segredo das Águas

Outro excelente filme se fez presente na 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o drama existencialista O Segredo das Águas, com direção e roteiro de Naomi Kawase, que venceu o Câmera de Ouro para estreantes em Cannes com o longa Suzaku (1997), foi indicada quatro vezes ao Palma de Ouro, mas levou o Prêmio da Crítica em 2007 com Floresta dos Lamentos. Este seu último longa tem toques autobiográficos da cineasta japonesa que foi criada pela avó, porém após a morte dela é sua primeira filmagem, baseada na descoberta de que a bisavó era uma nativa xamamista, uma pessoa chamada para suas tarefas espirituais reconhecidas pelos vizinhos da comunidade.

A religião está muito próxima e faz o elo de ligação entre vivos e mortos, pelo olhar de Naomi, que difunde nesta notável obra o aprendizado sobre o além, nesta trama centrada na costa marítima ao sul do Japão, na Ilha de Amami-Oshima, onde as tradições que envolvem a natureza são milenares. A degola de um cabrito na cena inicial, que será repetida com detalhes doloridos e aterrorizantes no meio do longa, é para explicar a subida para o infinito da alma que se desprende da matéria. Durante uma noite de danças tradicionais em agosto, Kaito (Nijiro Murakami), um garoto de 16 anos, descobre um cadáver flutuando no mar. A pretensa namorada dele, Kyoko (Jun Yoshinaga), vai tentar ajudá-lo a compreender essa misteriosa morte, que terá desdobramento pela doença terminal da mãe da menina (Miyuki Matsuda), embora ainda de meia-idade está prestes para partir e deixar seus ensinamentos e poderes mediúnicos sobre a eternidade e a transcendência pós-morte do corpo para a energia em forma de espírito que se manterá vivo, explicado pelo pai da jovem (Tetta Sugimoto).

Há uma grande dificuldade em Kaito tornar-se adulto e libertar-se da mãe, para experimentar as sutis relações entre vida, morte e amor. Chega a ter, inclusive, sua sexualidade posta em xeque de forma discreta pelo futuro sogro, diante da recusa contumaz em assumir o namoro de vez com Kyoko. Dá aos personagens vida e estrutura psicológica, traçando perfis diferentes num universo voltado para a reflexão. Mas a paradisíaca ilha tem seus mistérios e a fúria incontrolável da natureza, como o vento uivando vindo do mar como tempestade devastadora para pulsar as frondosas e centenárias árvores. São fatores climáticos externos que vêm corroborar ainda mais com as lendas e divagações religiosas amplamente difundidas, com teses e sugestões definitivas sobre o tema.

O cenário bucólico, mas paradoxalmente assustador, traz a violência que aflora entre as árvores e o silêncio do mar naquele lugar aprazível aparentemente. É deslumbrante nas imagens captadas pela fotografia de Yutaka Yamazaki, como elementos necessários e exponenciais para a solidificação do fascinante roteiro e seus intrincados desdobramentos, num clímax de tensão, ternura e afeto que se misturam com a raiva do garoto e sua obsessão pela integridade física dos pais, especialmente da mãe já separada e do pai que vive novo relacionamento em Tóquio. Ela é vista pelo olhar do filho como uma mulher casta e inatingível, contrariando a analogia do pai de Kyoko, ao explicar a natureza e sua força incontida, como alegoria dos desejos e instintos irrefreáveis daquela mulher, conduz de maneira adulta para libertar da obsessão que faz Kaito refém e prisioneiro do sexo, prejudicando sua própria atividade e interesse pela libido latente da adolescência em ebulição.

O drama não dispensa o depoimento do velho pescador visionário que afirma ter visto na garota a própria imagem de sua bisavó saindo mar. O surfista morto terá uma revelação no desabafo do menino, assim como haverá teorias sobre o surfe e a última onda do mar como sendo de igualdade, para estarem juntos na mesma plenitude, como filosofa alguém entendido na área. O Segredo das Águas reflete sobre a vida e seus prazeres sem dissociar os sentidos da existência com a morte depois da vida e o caminho da eternidade recheada de mistérios do além. Filosofia e razão estão acima dos instintos de perpetuação de espécie, mas são usadas como forma de cativar pelo lado religioso, acreditando ou não, eis um filme magnífico e altamente interessante como contribuição singular para aquecer almas e pessoas frias e distantes, como uma função edificante do cinema.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Mostra de Cinema São Paulo (Com Outros)


Com Outros

O Irã se faz presente na 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo através do pouco eficiente filme Com Outros, do jovem cineasta estreante em longas Nasser Zamiri. É uma abordagem intimista de pouco lirismo sobre maternidade e prisão num mundo em transformação cada vez mais violento e desregrado, ao expor a desonra numa família muçulmana com seus dogmas e tradições culturais, diante da gravidez inesperada da esposa do companheiro preso em Teerã, o que não é muito normal para uma mulher, em face da intransponível fé religiosa.

O ponto de partida está centrado no relacionamento de Arezoo (Leila Zare- a linda atriz iraniana) com o marido Amir-Hossein (Babak Hamidian). O casal entra em crise quando descobre que não pode ter filhos. Há uma obstinação desenfreada da jovem esposa em ter uma criança, custe o que custar, com o apoio explícito do esposo, porém sob a vigilância de sua mãe intrometida e sempre pronta para fustigar a relação. Só existe uma solução: uma barriga de aluguel, para isto convence Tahereh (Hengameh Ghaziani), amiga próxima e colega de trabalho de um hospital, que pode abrir um novo horizonte na vida deles. Mas quando Yaghoub, o ex-marido de Tahereh, sai esporadicamente da prisão, haverá uma complicação familiar insustentável.

Um filme que fala da obsessão e o amor incondicional pelo nascimento de um filho, uma contida ternura entre o casal e a dificuldades de tomar esta atitude mais ousada. Entre eles está o sogro e ao mesmo tempo tio da mãe de aluguel com seu carinho pela mulher que sustenta bravamente os dois filhos da relação, por culpa dele que aproximou e incentivou um casamento que está marcado pela separação, diante do desatino de Yaghoub que cumpre uma pena por um crime não revelado. Uma trama que parece ingênua, quase simbólica de primos apaixonados ou casados por circunstâncias.

É uma singela amostragem pouco satisfatória contra a opressão machista diante da posição da mulher num papel meramente secundário, sem nenhum poder de interferência ou tentativa de marcar posição na sociedade muçulmana dominada eminentemente pelos homens. A atitude do casal em busca do filho é consciente dos terríveis riscos que correm pela quebra dos tabus e regras sociais. Há um romantismo inconsistente entre os dois e tudo vai bem até a descoberta da gravidez e a recusa em esclarecer ou assumir a situação caótica proporcionada.

O clima de tensão é frouxo, o diretor estreante vacila e não avança, por isto nada acontece. Fica a sugestão de optar entre a honra da família para manter a preservação como se fosse uma instituição, ou o fato escondido sem muitas digressões com total ausência de profundidade, sem o efeito de romper a continuidade de uma farsa pela mudança do enredo tênue e vacilante para alternativas esclarecedoras naquela comunidade conservadora e obediente aos dogmas religiosos, além dos tradicionais usos e costumes preponderantes.

Um drama com uma linguagem simples e ineficiente, com um poder de fogo menor ainda, em que o cineasta reflete a condição feminina de forma precária. É dada pouca ênfase ao tema proposto, omite a voz da mulher que poderia ter sonhos e ilusões. Mesmo que esteja na condição de vítima diante da protagonista, uma pessoa egoísta, mas que age com dedicação e determinação dentro de uma sociedade conservadora pelos bons costumes na predominância de atitudes e decisões eminentemente dos homens, inexiste a contestação mais específica.

O filme Com Outros não está à altura das obras iranianas voltadas para uma análise social digna desta escola exemplar de cinema, tendo em vista uma trama com o olhar feminino sem partir para o confronto ou colocar a dualidade de choque de ideias e posições naquela sociedade estereotipada sobre a cultura e a violência diante da desonra familiar pela gravidez, não é uma proposta a ser discutida para romper a barreira da passividade feminina. É um equivocado relato sobre a mulher ameaçada constantemente de estar infringindo as leis machistas nesta obra de resultado pífio e sem autonomia pela busca da dignidade, incluindo-se nas realizações de formato experimental pela desconstrução estrutural de uma narrativa com grandes distorções.

Mostra de Cinema São Paulo (Winter Sleep)


Winter Sleep

Surge o melhor filme até agora da 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o monumental drama Winter Sleep faz uma reflexão magnífica sobre a existência e seu sentido na essência da vida, com a direção do brilhante e já consagrado turco Nuri Bilge Ceylan, que também assina o roteiro com Ebru Ceylan. Um filme de 196 minutos pode assustar no primeiro momento, mas surpreendentemente flui e anda como se fosse um média-metragem. Venceu o Palma de Ouro e o Prêmio da Crítica do Festival de Cannes deste ano. O cineasta realizou ainda Distante (2002), vencedor como melhor ator e Grande Prêmio do Júri de Cannes daquele ano. Com Climas (2006) levou o Prêmio da Crítica da 30ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Melhor diretor em Cannes pelo festejado Três Macacos (2008) e com Era Uma na Anatólia (2011) abocanhou novamente o Grande Prêmio do Júri em Cannes e Prêmio da Crítica da 35ª. Mostra de São Paulo.

Ceylan arrasou no estupendo Era Uma na Anatólia, uma mescla de filme policial noir com drama social numa aparente e singela investigação policial de um crime, durante uma noite inteira com o desfecho no outro dia, em que nada funciona, a começar pelos carros corroídos pelo tempo e completamente arcaicos. Solidificou-se como um diretor preocupado com as questões sociais e a falência do sistema turco, onde a burocracia está presente e marcante no caos que se instala nas improvisações que vão desde a polícia até a medicina, passando por um judiciário ultrapassado e inócuo para resolver um simplório crime numa aldeia rural encravada dentro de uma estepe rodeada de colinas. Para muitos o melhor de todos, mas com seu último longa já haverá controversa, diante do mergulho reflexivo do existencialismo.

A trama é complexa e repleta de filosofia sobre a vida e ensinamentos que se aprendem no dia a dia. Há um mergulho estupendo no âmago para criar personagens consistentes, fortes ou frágeis, vencedores ou vencidos, não importa. Mas todos com alma e coração sangrando. Aydin (Haluk Bilginer- interpretação antológica pela desenvoltura e convencimento), é um ator turco aposentado que comanda um hotel na região da Anatólia central, tem fama de dominador, é chamado de senhorio pelos inquilinos, bate de frente com Hidayet (Ayberk Pekan), o pai do garoto que apedreja seu carro na estrada. Mantém uma relação fria e distante com a mulher Nihal (Melisa Sözen- de beleza estonteante que gravita com seus olhos graúdos, tem atuação impecável e lembra a atriz argentina Martina Gusman), de quem ele se afastou emocionalmente, levam um casamento de aparências, mas nutre um ciúme forte por ela, principalmente pelo professor Ismail (Nejat Isler). Tenta controlá-la e mantê-la afastada de seu trabalho comunitário, o que irá gerar mais desavenças e crise no casal.

O protagonista vive às turras com a irmã Necla (Demet Akbag), que ainda sofre com seu divórcio recente. O inverno fará com que Aydin simule partir dali para Istambul, mas irá mesmo beber vinho e filosofar com o vizinho Suavi (Tamer Levent), um amigo de uma fazenda próxima. A noite é memorável e surpresas o aguardarão, inclusive o vômito como depuração e limpeza de um homem beirando a irracionalidade, em forma de alegoria como transposição à civilização.

Temas como a solidão, doença e velhice foram exploradas com méritos inegáveis pelo genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957); ou ainda em Viver (1952), de Akira Kurosawa; ou em Amor (2012), de Michael Haneke, este com um naturalismo exposto como vísceras da decadência humana intensa. Ceylan traz para a abordagem os mesmos temas, aprofunda-se nos diálogos doloridos com questionamentos implacáveis, pela sua maneira elegante com um toque de classe seco e direto, através do extremo realismo de cenas com som direto em longos planos sequenciais, ao melhor estilo do formalismo com rigor do mestre longevo português Manoel de Oliveira. Tem na forma alguma crueza direta e em nada comparável com a estética criativa e metafórica dos mestres inspiradores. O drama invoca uma facilidade na técnica para prender o espectador, retratando o cotidiano que dilacera num contexto de grande cinismo, vingança e domínio do poder sobre os menos favorecidos, derivando para o desemprego e a humilhação exacerbada, como na cena do garoto levado para beijar a mão do todo poderoso.

Winter Sleep retrata os efeitos do tédio e ressentimento de um homem em crise e com a sensação de perda da parceira, acompanhado da solidão e da velhice que aflora de forma iminente, num cenário instigante de nevasca por todos os lados, do cavalo selvagem capturado e símbolo da liberdade no epílogo metafórico. O filme fascina pelo movimento interessante de uma câmera em planos-sequência longos, às vezes em contraplanos mais curtos, captando as doloridas imagens de um neo-realismo de grandes filmes do cinema como Arca Russa (2002) em plano-sequência único e a famosa trilogia impactante de também realismo cênico em Moloch (1999), Taurus (2001) e O Sol (2005), todos de Alexander Sokurov. No melhor estilo do velho Cinemascope, no processo de filmagem baseado em lentes especiais que na projeção produz grandes dimensões, além de transmitir sensação de relevo, toma conta da tela. Um drama perturbador e reflexivo sobre a alma invadida, retirando os véus da lucidez perdida, partindo para o encontro com a vida e as emoções existenciais sobre o incômodo e progressivo fim que espera a humanidade. Um acerto estético elogiável e fabuloso para um desenrolar com raras elipses.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Mostra de Cinema São Paulo (Dois Dias, Uma Noite)


Dois Dias, Uma Noite

Outro ótimo filme se fez presente na 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o drama social Dois Dias, Uma Noite, dos diretores belgas Jean-Pierre e Luc, mais conhecidos como os irmãos Dardenne, que também são responsáveis pelo enxuto roteiro. O longa-metragem é baseado num fato verídico, em que uma funcionária é demitida de forma sumária do emprego, após uma votação conduzida de maneira parcial para afastar uma colega de trabalho depressiva, que recém retorna à fábrica de painéis solares após tratamento de saúde, para dar continuidade aos seus afazeres profissionais, é trocada como moeda por um bônus de mil euros para quem votar a favor da empresa.

Na obra anterior dos cineastas, O Garoto da Bicicleta (2011), tinha por tema um menino que buscava desesperadamente encontrar o pai ausente que o abandonara há um mês num orfanato, pois queria se livrar dele e reconstruir com outra mulher uma nova família. Uma criança nada dócil, de comportamento com sérios desvios de conduta, agressivo ao ser rejeitado definitivamente. Tratavam o drama com mais delicadeza e menos rudeza, embora sem perderem o foco e o cerne da questão. Os personagens dos cineastas geralmente parecem moribundos numa Bélgica que esqueceu das classes menos abastadas. Filhos e pais estão em confronto de relacionamento permanente, decorrente das mazelas de uma sociedade que virou as costas para uma classe menos protegida, que busca nasRosetta (1999), o grande vencedor de Cannes daquele ano; O Filho (2002); A Criança (2005) também vencedor do Palma de Ouro; O Silêncio de Lorna (2008), para muitos o melhor de sua invejável filmografia, na profunda abordagem de drogadição e gravidez psicológica.
drogas suas realizações pessoais e profissionais. Como também os pequenos furtos para sobreviverem são marcas registradas em seus filmes de excluídos que vagam pelas ruas. Assim foi com o mesmo rigor profundo de uma estética que aborda a virilidade e a violência reafirmadas das realizações anteriores:

Os irmãos Dardenne fazem uma análise profunda da crise do emprego e das condições paupérrimas de seus conterrâneos, sem dissociar das terríveis precariedades abordadas por eles em filmes anteriores, na busca incessante de uma realidade melhor, embora pelo prisma de um olhar pessimista e sombrio de escassa esperança, exceto a dignidade que é bem retratada com isenção e sem maniqueísmo barato e distante de cair na armadilha de um proselitismo ingênuo, diante do terror psicológico colocado pelos condutores diretivos de uma fábrica inescrupulosa, como metáfora de um país dentro de um continente em crise sócio-econômica.

Uma trama com uma história consistente segurada por um elenco elogiável de amadores, exceto a dupla principal de profissionais consagrados. Sandra (Marion Cotillard- dispensa apresentações, mais uma vez brilha sem nenhum glamour, em desempenho formidável e convincente) é a operária que vê seus colegas de jornada trocá-la por mil euros mensais em suas contas minguadas, ainda que explorados por chefes desonestos e antiéticos como os parceiros de labor têm preços, na maioria. Ou para reformar a residência, ou ajudar no sustento familiar, ou até crescer o patrimônio como a cobertura de uma amiga. Tem aquela que ainda mente no interfone para não recebê-la, mas há o imigrante negro que coloca seu emprego temporário em risco, demonstrado altivez de espírito. São decepções que se sucedem e ampliam seu pessimismo, levando-a para uma desesperada tentativa de suicídio, fruto do desencanto com o ser humano. Tenta reverter os votos, indo de casa em casa para a nova votação que irá acontecer na outra semana, com o apoio do marido (Fabrizio Rongione- o mesmo de O Silêncio de Lorna e O Garoto da Bicicleta).

O tema não é tabu, recentemente foi bem explorado pelo diretor francês Robert Guédiguian, em As Neves do Kilimanjaro (2011), adaptação livre do poema Os Pobres, de Victor Hugo, uma história do líder sindical portuário Michel (o fabuloso Jean-Pierre Daroussin- no sensível comissário em O Porto-2011) sendo demitido num sorteio, aonde vem a perder o emprego, porque alguém teria que sair, e apesar de sua estabilidade, registrou seu nome no rol dos concorrentes e acabou “contemplado”. Diante de uma aposentadoria compulsória, teve o apoio irrestrito da mulher generosa, que trabalha para ajudar na composição da renda da família. Vivem rodeados dos filhos, netos e são premiados na bonita cerimônia de aniversário de casamento no sindicato com uma viagem para o monte Kilimanjaro, mas a frustração vem logo, ao ser roubado por um ex-colega de trabalho também demitido, sob a alegação de pagar as contas atrasadas e criar os dois irmãos menores abandonados pelos pais.

Guédiguian busca no abandono familiar de uma mãe tresloucada e de um pai omisso dar o tom no longa, com os problemas sociais do desemprego de uma França enfraquecida pelos desmandos de uma burguesia ultrapassada. Os irmãos Dardenne miram na ética profissional e o preço de cada trabalhador fragilizado pelo sistema competitivo: bastante para alguns e pouco para outros. Um mergulho dolorido sobre a perda do emprego e as consequências nefastas do cotidiano que advirão pela humilhação que arrasará com o objetivo mínimo de uma pessoa íntegra, ou seja, sua dignidade colocada em xeque. Dois Dias, Uma Noite é um drama notável pelos questionamentos e a exposição de cicatrizes ainda abertas do bônus financeiro, que remete para uma reflexão imparcial.

domingo, 19 de outubro de 2014

Mostra de Cinema São Paulo (Acima das Nuvens)


Acima das Nuvens

Um dos bons filmes da 38ª. Mostra de Cinema de São Paulo é este drama que retrata o passado num presente atual, com deformações do tempo que passa em Acima das Nuvens, de Olivier Assayas, em mais um longa-metragem repleto de inovações e candente crítica ao mundo da indústria cinematográfica mais poderosa do mundo: Hollywood e seus intrincados acontecimentos sui generis, deste cineasta voltado para o momento atual e reflexões sobre uma esfera bem próxima das imperfeições do ser humano e o envelhecimento que não perdoa sequer as grandes divas que perderam o glamour pelos anos que ficaram para trás definitivamente.

O diretor tem uma filmografia digna de um grande realizador no marcante Horas de Verão (2008), na qual mostrou toda sua competência no extraordinário retrato das relações familiares e as transformações no século 20, com o início da globalização, abordou profundamente o fim de uma era de ouro, onde a cultura e a economia eram fatores sólidos e essenciais da velha Europa e a França fazendo parte como um sustentáculo bem consolidado. É responsável pelo épico de 5h30min Carlos (2010), produção inicial para a televisão, enfocando a história da vida de Ilich Ramirez Sanchez, de codinome "Carlos" o Chacal, tendo por ídolo "Che" Guevara, com formação marxista, mostra-se um revolucionário que defende a causa da Palestina, tendo como seu crepúsculo profissional justamente a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, foi um dos terroristas mais procurados no mundo por duas décadas, após diversos atos sanguinários. Depois, debruça-se sobre os reflexos e as consequências danosas e utópicas da juventude sonhadora do pós-maio de 1968 em Depois de Maio (2012), nos anseios pela manutenção da integridade e do núcleo derrotados por uma expressa vontade dos anos que sucederam aquela efervescência e os desfazimentos dos sonhos por bens materiais que ainda afloram, visando um futuro longe da cultura revolucionária almejada e dos valores plantados num país em derrocada.

Assayas constrói com bom vigor a personagem da célebre atriz Maria Enders interpretando Helena (Juliette Binoche- um diva glamourizada no prólogo e transformada numa apagada mulher sem brilho do meio para o final). Uma abordagem que mescla ficção com realidade no desenvolvimento da história, quando entra em cena a assistente Valentine (Kristen Stewart- a insossa atriz da personagem em Crepúsculo que está muito bem neste papel sério de alta compenetração), que se envolve ao extremo na trama, auxiliando a protagonista na atuação que irá fazer na remontagem da peça do dramaturgo Wilhelm Merchior.

Maria que tornou-se famosa há 20 anos no papel da jovem mocinha Sigrid, terá um destaque menor por força das circunstâncias. Em Acima das Nuvens Maria será uma lésbica senhora com instinto suicida que o tempo foi ingrato, em que Assayas retratará com fidelidade e levará ao extremo para o desenlace da estrela decadente, que agora será coadjuvante da esfuziante atriz em ascensão por filmes de ficção científica, a bela Jo-Ann (Chloë Grace Moretz) que fará a personagem que foi da famosa diva de um passado não tão distante, mas inexoravelmente tragado pela velocidade de um mundo à procura de novos supostos talentos de belezas vazias.

Mas o realizador faz um painel complexo e coloca a assistente como uma peça chave na trama, diante de sua intromissão quase que direta no roteiro da remontagem teatral que irá acontecer, inclusive com seus palpites e intromissão direta na escolha da atriz que substituirá a velha estrela, terá participação fundamental e contribuirá para o desenlace da obra. Antes, as duas fazem uma viagem de inspiração dos personagens pelos belos Alpes da Suíça, num cenário estonteante de uma fotografia mágica das lentes do fotógrafo Yorick Le Saux, com um deslumbrante colorido junto aos vales e montanhas indescritíveis.

É inegável a boa crítica retratada com mordacidade aos costumes pouco humanitários de Hollywood para seu rol de astros desgastados, com soluções simples como o uso até o seu descarte. Assim é na utilização de uma emergente bonitinha de poucos recursos técnicos no papel da protagonista, em detrimento de uma veterana, que causará desconforto e um racha na produção por gerar polêmica na construção da controvertida peça. Um filme equilibrado e com nuances de crítica ácida à poderosa indústria cinematográfica norte-americana. Embora haja alguns equívocos técnicos nas elipses, com alguns cortes abruptos e em outras cenas um prolongamento excessivo, deixa uma boa reflexão sobre o tempo que passa e o envelhecimento precoce, como na perseguição pelos paparazzis à atriz ascendente e o esquecimento voluntário de alguém que o futuro engoliu, deixando um olhar sombrio para o mundo das aparências.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

O Estudante
















Políticas de Conchavos

O roteirista Santiago Mitre dos filmes Leonera (2008), Abutres (2010) e Elefante Branco (2012), todos realizados por Pablo Trapero, faz sua estreia como diretor no drama O Estudante, produção de 2011, ano marcado por convulsões sociais nos EUA, Chile e na Europa. Também assina o roteiro e é responsável pela produção que abocanhou 20 prêmios em festivais, entre eles o Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires, Locarno na Itália, Cartagena na Colômbia, Toronto no Canadá, com destaque ainda para o obtido da Associação de Críticos Argentinos.

A trama centra o foco em Roque (Esteban Lamothe), um rapaz recém-chegado de Mar del Plata, que vem cursar na Capital pela terceira vez a faculdade de Ciências Sociais, participa de festas regadas com drogas e bebidas, se envolve emocionalmente com a jovem professora Paula (Romina Paula), uma liderança forte de um dos grupos militantes que está disposto a desbancar da direção estudantil a facção enraizada e com tentáculos vinculados na universidade, em conluio com a reitoria. Antes fizera amizade com uma garota descolada, não muita afeita a relacionamentos sérios. Logo, o aparente ingênuo moço interiorano ingressa na militância política acadêmica, conhece um ex-político engajado que também é professor na universidade, deixa de lado os estudos e novamente compromete sua aprovação, tendo em vista o desleixo para as cadeiras e a alta infrequência em aulas.

"É uma fábula política, sobre o poder e os consensos, mas passada num microcosmo particular: o da universidade pública", afirmou o cineasta à Folha de São Paulo. O drama faz uma razoável síntese e reflete com alguma maturidade sobre a efervescência política estudantil bem próxima da partidária, lotada de cartazes com palavras de ordem e debates políticos recheados de conchavos, coligações e falcatruas, num universo de sujeira, traição e os interesses puramente pessoais. O peronismo é colocado em discussão numa abordagem de mesa de um bar, quando o pai do acadêmico vem visitar-lhe e ali são demonstradas as alianças e seus equívocos que levaram o país à bancarrota pela instabilidade econômica, numa oportuna e adequada atmosfera que cerca a película.

Mitre demonstra ter bons conhecimentos por trás das câmeras, com elipses quase sempre no ponto, boa trilha sonora, fotografia discreta, um elenco interessante numa consistente estrutura dos personagens, embora por vezes peque nos excessos de diálogos e com explicações didáticas demais, trancando a fluidez do desenrolar da história. Recupera-se da metade para a parte final do longa, ao apresentar a capacidade de convencimento e descoberta de vocações de liderança. Não faz concessões no epílogo seco e definitivo para quem espera o fim clássico, soando como redenção do promissor cineasta.

O Estudante é um bom filme sobre a política partidária incrustada no mundo acadêmico das utopias da juventude e os aspectos contraditórios daqueles que querem mudar os rumos da nação, que se deixam levar por vaidades personalíssimas, quando costuram ligações de grupos opostos para chegar ao poder, mesmo que para isto tenham que ferir a ética e pisotear os valores morais dos indivíduos. Há mágoas e rupturas de vínculos mínimos de amizades, tal qual se observa no cotidiano da política de partidos tão desacreditada. A trama de questões que tocam os bastidores é apropriada, mas a forma é exaustiva, por vezes, pelo vazio dos simplismos de cenas didáticas por vícios de raciocínio que consiste em desprezar soluções mais abrangentes, no qual deixa de ser um trabalho mais significativo, embora a obra tenha algumas virtudes como as tensões entre os ideais traídos e a vida pública.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Último Concerto


Conflito nos Bastidores

Yaron Zilberman tinha em sua filmografia o documentário Watermarks (2004), até realizar em 2012 O Último Concerto, primeiro filme de ficção do cineasta, com destaque no conceituado Festival de Toronto. Embora autor da ideia original, deixou para Seth Grossman desenvolver e assinar o turbulento roteiro de quatro astros do violino, filme que aborda o quarteto de cordas Fulguet, famoso internacionalmente pela qualidade da apresentação impecável de seus integrantes. A trama é bem complexa e o prólogo prenuncia o epílogo sobre a triste notícia de que um de seus integrantes, Peter Mitchell (Christopher Walken), acabara de ser diagnosticado com Mal de Parkinson, colocando em risco iminente o futuro do grupo que irá preparar uma última apresentação apoteótica.

Após o desenlace do trauma inicial, o filme trará à tona os amores e desafetos criados entre eles nestes longos 25 anos de parceria próximo da implosão. Alain Resnais foi singular em Amar, Beber e Cantar (2013), um drama com algumas similitudes sobre a morte que se aproxima de um colega de um grupo teatral, quando surge a informação da doença terminal de seis meses de vida. As mulheres relembram a antiga paixão pelo mulherengo colega; os homens pensam no amigo que irá partir para sempre e numa justa homenagem de despedida, como convidá-lo para a derradeira interpretação de um dos personagens. Dustin Hoffmann também realizou o drama O Quarteto (2012), no qual três músicos aposentados vivem numa casa de repouso da categoria e todos os anos realizam um concerto para recolher fundos que permitem a sobrevivência da instituição. Com a chegada da nova habitante que recusa-se a cantar, cria-se um clima de hostilidade e lavagem de roupa suja, trazendo à baila para questionamento as amizades e os amores de outrora na tentativa de convencê-la.

Zilberman escapa das armadilhas melodramáticas e não deixa descambar para a pieguice barata, com um retrato fiel de convivência de muitos anos e as consequência iminentes que trarão para o grupo, como os conflitos pessoais bem centrados no casal em crise de relacionamento: Juliette (Catherine Keener) e Robert (Philip Seymour Hoffman- em uma de suas últimas atuações, viria falecer em fevereiro deste ano). O músico ainda teria uma rixa pessoal com Daniel (Mark Ivanir), logo travam um duelo de egos que estremece as relações amistosas e mínimas de convivência para definir sobre quem será no futuro o primeiro e o segundo violinista, numa típica fogueira de vaidades. Além das brigas e ciumeiras do casal, o evento da doença grave, a trama esquenta ainda mais quando explode uma situação inusitada advinda da filha deles (Imogen Poots) com um integrante do grupo.

Diante da ameaça de término do quarteto por brigas, traições, ciúmes e crises existenciais nas relações afetivas, há uma dose de intensos conflitos pessoais, como da filha que pede socorro, mas leva uma bofetada no rosto, ao questionar a mãe sobre sua a ausência de sete meses no ano, bem como do pai, deixando-a desprotegida e abandonada como ser humano. Chega afirmar que o aborto teria sido uma solução melhor para todos. O diretor se aproxima mais de Hoffman na essência e na maneira de conduzir a trama, bem distante do mestre Resnais, este sim um artesão inovador e estupendo pela estética apurada com consistência e rigor no equilíbrio cênico. Porém, segura bem o clímax e mantém um ritmo crescente com personagens bem construídos, mas que por vezes tornam-se previsíveis nas soluções simples e temporais do drama, que apresenta artistas imbuídos em manter a arte acima de tudo, superando todas as diferenças e as picuinhas particulares entre eles, para uma causa maior que é a manutenção do grupo filarmônico.

O Último Concerto parte de uma narrativa clássica bem arquitetada, com uma dosagem razoável de dramaticidade, numa conjuntura elaborada distante de arroubos e inventividades, mas que funciona pela forma até simples diante das manipulações das diversas situações que darão solução para os casais em cena, bem auxiliado pela música clássica de Beethoven como fio condutor na notável Opus 131 String Quartet in C# Minor, interpretado com sintonia e um sabor edificante para os ouvidos mais atentos. Contrasta com o sabor amargo de melancolia da perda que se avizinha, sendo reforçado pela fotografia exemplar de Frederick Elmes. O realizador não deixa muito tempo para reflexão, talvez esteja aí um dos poucos equívocos, pois o filme acelera e os conflitos aflitivos se sobrepõem aos prazeres dos encantos da melodia. Há um contexto de envolvimentos emocionais interligados por uma boa atmosfera deste promissor cineasta desta significativa obra de cinema sobre a música, perdas e os bastidores conflitados.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

A Oeste do Fim do Mundo


Reaproximações Silenciosas

A inóspita Patagônia argentina com seus mistérios e forte magnetismo tem sido cenário de filmes recentes. Carlos Sorín realizou seu último longa Filha Distante (2012) e Lucía Puenzo dirigiu o thriller O Médico Alemão (2013). Também o cineasta gaúcho Paulo Nascimento, um obstinado e trabalhador pela causa do cinema, buscou naquele lugar de muitos ventos e ruínas o local ideal para construir A Oeste do Fim do Mundo, seu melhor longa numa coprodução Brasil-Argentina de 2012. Antes, dirigiu as equivocadas obras Diário de Um Mundo Novo (2005), Valsa para Bruno Stein (2007) e Em teu Nome (2009), além do fracassado projeto infantil A Casa Verde (2009), sem receptividade de espectadores, logo saiu de cartaz.

A história de Nascimento tem boa narrativa e desta vez acerta em cheio no alvo. O protagonista é Leon (César Troncoso- sempre lembrado pelo magnífico O Banheiro do Papa, de 2007), um homem solitário, tristonho, que guarda para si as lembranças de quando lutou na Guerra das Malvinas, em 1982. O ex-combatente traz uma melancolia e um desleixo que afeta sua relação com o filho menor, que vive com a avó, após a mulher ter abandonado os dois. Sobrevive sem perspectiva de vida num velho posto de gasolina, perdido na imensidão da Ruta 7, uma estrada transcontinental entre a Argentina e o Chile. Seu único amigo é Silas (Nelson Diniz), um brasileiro trambiqueiro sem destino que almeja isolar-se do mundo e faz visitas frequentes para trazer peças para consertar a moto do veterano de guerra.

A trajetória da dupla é abalada com a chegada de Ana (Fernanda Moro), uma jovem também brasileira que escapou da tentativa de estupro de um caminhoneiro que pegara carona, traz lembranças que quer esquecer e seu objetivo principal é ir em definitivo para Santiago. A mulher não tem para onde ir, pois está no meio do deserto, busca um refúgio inicialmente para apenas um dia. Embora, sem ser bem-vinda, convence Leon a abrigar-se na precária casa e ali vai ficando com o passar dos dias. O diretor cria uma atmosfera de olhares e alguns diálogos nada amistosos entre o trio com o cotidiano alterado, mas que aos poucos a barreira do silêncio e a superação do idioma irá estabelecer um elo com algumas possíveis soluções para suas vidas desregradas. Parece que nem tudo está perdido para aqueles personagens que foram parar ali por acaso. Os três estão fugindo de um passado misterioso, que irá se revelar com o andar da trama.

A Oeste do Fim do Mundo tem uma instigante paisagem que envolve os personagens num jogo de situações com reflexos dos traumas que ficaram bem distantes. É uma busca da redenção, como se ali fosse um purgatório para emergir e dar luzes para o futuro, na qual a superação está presente, lançadas como metáforas pela barreira do entendimento de uma comunicação idiomática confusa entre eles. Um não entende o português; outro desconhece o espanhol, mas a relação faz concessões e aos poucos diminuirá os entraves e crescerá o vínculo, tornando os problemas mais acessíveis e de melhor compreensão para as respostas que virão como se um novo dia nascesse.

Com um enxuto roteiro e um elenco harmonioso através de uma estrutura de personagens, secundado por uma fotografia radiante com imagens que superam os diálogos, através de uma trilha sonora adequada na maioria das cenas, embora em alguns momentos soasse um tanto artificial, chega a abafar o clímax, inclusive as intempéries do tempo pelo vento uivante sempre próximo atuando como se fosse um motivador ou um personagem do drama, também presente no comovente drama familiar Filha Distante, de Sorín, ao acompanhar o protagonista nos caminhos de sua existência, para restabelecer os vínculos afetivos deteriorados com a filha, em que o pai não sabe o endereço e para a isto terá de encontrá-la com muito esforço naquele lugar de rara comunicação. Nascimento faz o caminho inverso para o reencontro de pai e filho, construindo com sensibilidade e boa dose de emoção a luta para reparar um passado, reconstruir um presente e estabelecer um definitivo elo familiar delineado pela ausência paterna rompida no cotidiano de dias entediantes.

Uma boa abordagem pela busca do sentido da existência marcado pelas perdas profundas oriundas do abandono, após a separação abrupta pós-guerra. Restaram fissuras indeléveis como herança de erros de rota mal calculados pela inconsequência, que agora estão mais difíceis de serem reconectadas, após fendas latentes com feridas abertas para serem cicatrizadas, diante de questões mal resolvidas. O afeto esbarra e se escancara na distância entre pai e filho, principalmente quando não atende o telefone. Há um espaço aberto de amor a ser preenchido, que ora está vazio e incompleto nesta película sem grandes pirotecnias, que deixa um legado de conteúdo e complexidade humana.