sexta-feira, 28 de março de 2014

Prenda-me


Violência Doméstica

Depois de fazer relativo sucesso no Festival Varilux de Cinema Francês na edição de 2013, só agora estreia Prenda-me em Porto Alegre, com exclusividade na alternativa Sala Norberto Lubisco da Casa de Cultura Mário Quintana. Tem na direção o pouco conhecido Jean-Paul Lilienfeld, embora conste em sua filmografia um curta e cinco longas, tendo em O Dia da Saia (2008) a mesma estrutura fechada num ambiente com diálogos fortes. Também assina o enxuto roteiro, que se baseou no livro "Les Lois de la Gravité", de Jean Teulé, mostra méritos em torno da expectativa criada da acusada e as reviravoltas da trama para um apreciável clima de suspense psicológico.

A abordagem de Prenda-me enfatiza a abnegada inversão de papéis e os valores questionados numa noite na delegacia de polícia, quando uma mulher que trabalha como carteira (Sophie Marceau) decide ir lá e dizer que, contrariamente ao laudo policial, está fazendo dez anos que matou o marido Jimmy (Marc Barbé), e que no dia seguinte haverá a prescrição da pena. Ou seja, não houve suicídio, mas ela o teria empurrado da janela do oitavo andar, por isso quer ser presa. Diante da confissão inesperada a inspetora de plantão Pontoise (Miou-Miou) coloca em dúvidas o suposto crime assumido.

O cineasta se utiliza da atípica confissão para investigar o caso com cautela, começando um jogo de poder e manipulação entre as personagens. A policial logo descobre que, na realidade, a carteira é vítima e não ré, diante dos frequentes abusos físicos e psicológicos que sofria do marido, inclusive era estuprada e achava normal o fato. No embate travado, Pontoise, que em tese, deveria usar a lei fria do papel, tenta convencer e mostra minuciosamente todos os dissabores da cadeia, um lugar em que as pessoas deveriam passar bem longe, por ser inóspito e nada hospitaleiro.

Há um cenário retratado com perspicácia pelo diretor, em que também a plantonista sofreu muito com a violência doméstica, pois seu pai espancava a mãe barbaramente. As imagens em flashbacks são fortes e ela ainda menininha nunca esqueceu as atrocidades presenciadas nos dias e noites de terror. Mesmo que sua atitude caracterize uma grave infração e cometa prevaricação, porque não cumpre disposição expressa em lei, ou seja, prender aquela mulher que lhe suplica e implora para ser encarcerada para reparar uma culpa que lhe aflige e traz um sofrimento por todo este período, diante dos fantasmas do passado que a atormentam e não a deixam em paz.

É nítida a preocupação no resgate da dignidade pela culpada, ao autoproclarmar-se uma assassina confessa. Ela acha que ao conhecer seu companheiro, ele não era assim, por isto acredita ser a responsável por tudo, até mesmo na agressividade dos anos de convivência. A cena com seu filho é reveladora e vai ao encontro do perdão daquele jovem que adora o pai e a odeia, numa situação emblemática pelo constrangimento familiar, na dura luta travada com os princípios morais e éticos que a norteiam. No calor dos argumentos, a inspetora tenta achar uma solução diplomática, tenta até mesmo caracterizar a legítima defesa no caso concreto, diante das constantes agressões que eram causadas à esposa, com dor e ultrajes físicos no trabalho. É tentada exaustivamente uma forma para legitimar a saída da delegacia e abandonar de vez a obsessiva culpa em pagar pelo crime.

O suspense tem uma estrutura dramática magnífica, com as excelentes interpretações de Miou-Miou e Sophie Marceau nas cenas vividas nessa inesperada e interminável jornada noite adentro. A abordagem indica uma justiça cega, diante da impunidade recorrente que leva à violência exacerbada dos maridos que espancam sem dó e nem piedade suas companheiras do dia a dia. Os sentimentos que rasgam a inocência da vítima vão ao encontro do perdão da plantonista, como simbologia do Estado que admite a culpa e deixa de punir; ou da mulher travestida em autoridade que busca uma vingança sofrida na infância e os efeitos psicológicos devastadores que a atordoam e a faz carregar uma carga emocional com dolorida amargura. A bela cena do cemitério e da tormenta que cai e lava sua alma é sugerida como metáfora da purificação pela água de um segredo que guardava por incomodá-la até o encontro noturno que a libertará, depois do duelo de palavras e atitudes na penumbra entre duas sofredoras que se encontram por acaso.

Prenda-me é daqueles ditos filmes de denúncia que traz no seu bojo uma reflexão sobre a violência diária nos lares ou em qualquer lugar ermo. Soa como um brado de socorro da mulher humilhada que quer pagar sua dívida com a sociedade, por se achar devedora, embora seja a vítima, para recuperar a sanidade mental e a dignidade num clímax da perda momentânea da lucidez. A outra mulher quer a redenção das reminiscências hipnotizadas pelo tempo e busca as verdades escondidas. São as sombras daquelas duas criaturas vistas num cenário quase que de guerra. Um drama singular pela comovedora cruzada contra a violência num contexto machista ainda bem marcante num cenário mundial, com questionamentos lançados pelo cineasta, que busca uma cumplicidade do espectador para o desfecho instigante.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Trem Noturno para Lisboa


A Viagem

O diretor dinamarquês Bille August em nada lembra seu conterrâneo Lars von Trier, sempre envolvido em uma boa polêmica, com filmes instigantes e arrebatadores. Prefere as tramas açucaradas e sem contundência, com início, meio e fim. Está bem longe de grandes arroubos ou incursões por movimentos de vanguarda como o Dogma 95, criado por Von Trier em parceria com Thomas Vinterberg, no mês de março de 1995, na Dinamarca. A filmografia de August é recheada de filmes razoáveis e poucos expressivos, como vemos em Mistério na Neve (1996), Os Miseráveis (1998), Mandela- A Luta pela Liberdade (2007), sendo o mais conhecido e de melhor repercussão A Casa dos Espíritos (1993), numa abordagem rasa da história do Chile da década de 20 aos anos 70, contada através da saga familiar dos Trueba, que começa pela união de um homem simples que fica rico, com uma jovem paranormal. Esta família é atingida pela revolução, que no início da década de 70 derrubou o presidente Salvador Allende.

O último filme de August é Trem Noturno para Lisboa, numa trama envolta de mistérios e recheada de reminiscências do passado, contada em flashbacks a trajetória do pacato professor suíço de latim de ensino médio Raimund Gregorius (Jeremy Irons- de boa performance), que abandona suas palestras e sua vida conservadora para embarcar numa aventura de trem que o levará a uma jornada cansativa de Berna até Lisboa e concluída na Espanha, com pouca inspiração e muita repetição de cenas. É uma coprodução alemã, suíça e portuguesa, falada em inglês, com locações em Portugal e um roteiro burocrático assinado por Greg Latter e Ulrich Herrmann.

O drama é uma adaptação do best-seller homônimo de Pascal Mercier, partindo do encontro inusitado do protagonista com uma jovem de casaco vermelho que pretende jogar-se da ponte de Kirchenfeld. É salva e levada por ele para a sala de aula, mas lá foge e deixa como pista um livro escrito pelo médico Amadeu de Prado (Jack Huston) e uma passagem de trem. Raimund larga tudo, inclusive seus alunos em plena aula, e vai atrás do autor do misterioso e filosófico romance deixado para trás, como uma forma de renascer para a vida. Ao chegar na capital portuguesa, descobre por Adriana (Charlotte Rampling), irmã de Amadeu, que há muitos enigmas a serem decifrados e que o livro faz menções a situações relacionadas com a resistência ao fascismo implantado por Salazar em Portugal, de 1889 a 1970.

O filme não avança com solidez ou determinação de um foco profundo. Enfatiza um professor cansado da vida em seu país, que se autodenomina de chato, tendo em vista que a ex-mulher o largou pela sua rotina desgastada, pois gosta mesmo é de jogar xadrez e dar aulas, como suas únicas atividades. Nas andanças por Lisboa descobre que o médico escritor é uma pessoa humanista e revolucionária, envolvido num triângulo amoroso no grupo de resistência ao salazarismo, que se apaixona por Estefânia (a bela Mélanie Laurent quando jovem e Lena Olin já mais velha), sendo ela a namorada do líder Jorge (August Diehl jovem e Bruno Ganz velho). Tudo é contado por João (Tom Courtenay), amigo dos personagens envolvidos no romance, que tem como sobrinha Mariana (Martina Gedeck), que está muito interessada no professor e o leva de um lado para outro. Dentro desta miscelânea do roteiro, surge novamente na história a suicida e seu parentesco com Mendes, O Carniceiro de Lisboa. As revelações não causam impacto e sequer grandes surpresas, diante de um cenário de confissões aguardadas e repletas de estereótipos manjados como recursos para fisgar o espectador pela simploriedade das armações arranjadas, com diálogos pasteurizados e dignos de um típico novelão.

Trem Noturno para Lisboa carece de consistência e há uma mesmice enfadonha para uma boa construção psicológica, esboroando-se por uma trama sem força, com ausência de autenticidade para Amadeu e os demais personagens. O longa perde o glamour inicial e descamba para uma narrativa sonolenta, que se torna óbvia e previsível. O protagonista tenta salvar o tedioso enredo com sua obstinação pela busca do passado na viagem para elucidar o misterioso livro e fio condutor da trama genérica e de pouca profundidade, mas também não resiste e sucumbe na adocicada adaptação de August com pouca inspiração. Deixa escapar um bom tema de reflexão sobre os anos tensos da ditadura salazarista em Portugal, insistindo numa abordagem de utopias de derrotas e confrontos pessoais no ciclo de amigos e pouco esclarecedoras. Sobrou um esmaecimento fragilizado de uma situação que existiu, mas que cai na abordagem tênue de um idealismo questionado com resultados minguados e pouco satisfatórios pela irregularidade da obra.

terça-feira, 18 de março de 2014

Ninfomaníaca- Volume 2


Terapia Sexual

Lars von Trier apostou no marketing com cartazes de apelos sexuais em rostos de atores simulando orgasmos e a promessa de um filme forte para Ninfomaníaca- Volume 1. Afastou-se do erotismo puro, para abordar a sexualidade sem prazer, com a perversão sendo apontada como a causa e a culpa um ingrediente de uma resposta à vida de Joe (Charlotte Gainsborg) que faz um relato a Seligman (Stellan Skarsgard), um homem com jeito de pastor, uma espécie de terapeuta momentâneo que busca na matemática e na música polifônica as respostas para os desatinos da jovem que encontrou desmaiada no meio da rua. Há uma construção com vigor numa narrativa em flashbacks, desde os 02 anos de idade, passando pela fase da juventude, após o encontro casual, com revelações e explicações para uma situação atípica.

Em Ninfomaníaca- Volume 2 há mais densidade dramática e menos sexo, sendo dividido em capítulos, tais como: As Igrejas Oriental e Ocidental (O Pato Silencioso), O Espelho e A Arma, que formam nos dois volumes oito capítulos, para um desfecho inusitado com uma surpreendente cena sem imagem e com prevalência do som entre a protagonista e seu interlocutor. Ele tudo ouve e tenta fazer com que a sua eventual hóspede expulse os fantasmas sexuais do passado, para que as feridas abertas entrem num processo de cicatrização, numa narrativa que mantém a mesma dinâmica entre os dois personagens. Um conta suas experiências com vários homens, relembra as passagens com o pai e a indicação da árvore da vida demonstrada com ênfase e que todos devem escolher em suas trajetórias; o outro ouve, aconselha e expõe sua assexualidade. O cineasta faz uma espécie de jogo de xadrez com o espectador e em várias cenas são expostas as fragilidades de Joe, que é instigada por Seligman que a compara com Messalina, mulher do imperador romano Cláudio, como se estivesse num divã em uma sessão de terapia.

Diante da contundência de algumas cenas cruas, faz com que muitos dos espectadores abandonem a sala como um ato de protesto, tendo em vista que nem todos estão preparados para o ensaio sexual de Von Trier, ao apresentar em sequência as mazelas de sua protagonista com requintes perversos. O filme não pode ser visto como uma ode ao sadomasoquismo em cenas não esperadas pela plateia. Tudo faz parte de uma grande encenação na busca do resultado final, como das 40 chibatadas– uma a mais que Cristo levou na cruz- é a perseguição consciente daquela mulher pela libertação de sua sexualidade para atingir o clímax do prazer, bem como as bofetadas no rosto e a livre escolha por dois africanos para um ménage à trois. São cenas que não podem ser vistas como requintes de crueldade, como no recente drama épico “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen, onde os negros eram açoitados pelo senhor branco como forma de punir e reprimir barbaramente pela ótica do racismo, em situações de desespero para criar o inferno na terra e toda a angústia em planos detalhados, aproximando a câmera dos corpos esfolados.

Neste segundo volume, Von Trier tem por objetivo ir ao encontro da explicação para a falta da satisfação e do deleite, onde o vício é abordado como uma doença séria e leva a protagonista a torna-se uma escrava do sexo, tendo no masoquismo a passagem tortuosa que serve de ligação para tornar sua vida mais prazerosa e menos dependente, brilhantemente interpretada por Gainsborg, a atriz-fetiche do diretor. Tudo é feito para encontrar na razão o caminho da causa, embora o efeito seja devastador para ela, pois perde o marido Jerôme (Shia LaBeouf) e o filho que vão embora, a própria enteada P (Mia Goth) que também é usada na engrenagem com o profissional L (Willem Dafoe) e o metódico chicoteador K (Jamie Bell). O perigo e o sofrimento estão presentes novamente, como vistos em O Anticristo (2009), em ambos os longas do cineasta uma criança se dirige para o abismo e a protagonista sofre e pratica mutilações. Sua abordagem é diametralmente oposta de Steve McQueen em Shame (2011), onde um nova-iorquino bem-sucedido que não gostava de manter vínculos afetivos com as mulheres, praticava o sexo compulsivo na busca de resolver problemas e frustrações, num ensaio sobre os doentes sexuais.

Ninfomaníaca- Volume 2 retrata o prazer físico como o condutor da história, porém o emocional é aprofundado com nitidez e absorve o contexto da trama com harmonia e equilíbrio demonstrado pelo cineasta, o que o torna menos artificial do que o primeiro volume. A mulher que apanha sem dó e nem piedade do açoitador causa impacto e consternação na plateia, porém ao deixar as emoções de lado e refutar os panfletos feministas, o diretor vai fundo e se aproxima do realismo cênico distante do grotesco e próximo da busca de soluções sem hipocrisia, mandando o politicamente correto para bem longe, embora a conduta arrojada possa ser vista de forma deturpada, mas as questões cruciais são lançadas para que haja realmente debate com muita polêmica.

O drama erótico sobre a sexualidade e a doença de Joe, admitida por ela mesma, são elementos de reflexão e discussão, como Von Trier gosta e não foge da controvérsia, aproxima-se muito de Pasolini em Decameron (1970) e Saló (1975), ao não passar sem ser discutido com fervor. Ainda que o marketing tenha sugerido para uma pornografia, logo se vê que não é, após a conclusão da obra neste segundo volume. Há uma incursão nos desejos obscuros e enigmáticos, sem ser moralista ou conservador, dando uma estupenda contribuição na abordagem do calvário da protagonista e sua libido insatisfeita, sangrando algumas vezes, e em outras há a blasfema como o orgasmo e sua mística, num cinema perturbador pela proposta grandiloquente.

terça-feira, 11 de março de 2014

12 Anos de Escravidão


Racismo Venenoso

Steve McQueen é um bom diretor afro-britânico (não confundir com o ator de Papillon (1973) e Inferno da Torre (1974), morto em 1980), que realizou o intenso Fome (2008), seu primeiro longa-metragem sobre a solidão e a liberdade, com interpretação de Michael Fassbender no papel de um soldado guerrilheiro do IRA preso e em greve de fome na cadeia. Causou uma impressão alentadora com Shame (2011), segundo longa do cineasta e vencedor do Prêmio da Crítica do Festival de Veneza, com Fassbender protagonizando um nova-iorquino bem-sucedido que não gostava de manter vínculos afetivos com as mulheres, praticava o sexo compulsivo na busca de resolver problemas e frustrações, num apreciável ensaio sobre os viciados e doentes sexuais.

Ao vencer o Oscar deste ano como melhor filme, McQueen corta fundo na carne dos negros açoitados para demonstrar a execrável violência da escravidão de uma raça depauperada brutalmente em 12 Anos de Escravidão. Baseado no livro homônimo e autobiográfico de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor interpreta com eficiência) os fatos reais ocorridos de 1841 a 1853, no Norte dos Estados Unidos, onde um escravo liberto toca violino, é respeitado como músico e vive em paz ao lado da esposa com os filhos. Num dia qualquer aceita tocar seu instrumento que o levará para o Sul do país, numa trapaça dos parceiros do trabalho, é sequestrado, acorrentado e vendido como se fosse um não alforriado. O diretor mostra com realismo as humilhações físicas e psicológicas que o protagonista sofrerá para sobreviver na saga dos intermináveis doze anos. Passa por dois senhores: o religioso de bom coração e frouxo nas atitudes Ford (Benedict Cumberbatch); e o déspota cruel e mulherengo Edwin Epps (Michael Fassbender- de grande atuação na terceira parceria com o diretor), que o submete a todas as privações e rompimentos com a dignidade mínima de um ser humano. A dureza cênica vira o estômago e lembra A Paixão de Cristo (2004), beirando o sadismo de Mel Gibson.

Os Estados Unidos aboliram a escravidão em 1863, num processo conflituoso que gerou uma guerra e dividiu o país. Embora faça tanto tempo, o racismo ainda é um problema presente em nossa sociedade, mesmo com a eleição de um negro para presidente dos norte-americanos, há ainda insultos bem presentes como nos campos de futebol, com injúrias ofensivas e preconceituosas pipocando ali e acolá. Recentemente um negro foi agredido, despido e acorrentado em um poste no Rio. As amostras corroboram para a atualidade do enredo de McQueen, que fez um filme tão político como o drama épico histórico Lincoln (2012), de Steven Spielberg, embora sem contar com o extraordinário ator Daniel Day-Lewis, abandona a fotografia gris que representava a personalidade doentia do personagem de Fassbender em Shame, para mergulhar em tomadas mais reais do clima proposto dos sulistas nos EUA. Vai fundo nas situações de desespero do protagonista para criar o inferno na terra, tendo no fotógrafo Sean Bobbitt, uma parceria certa para demonstrar toda a angústia em planos detalhados, aproximando a câmera dos corpos esfolados. A violência é atenuada na cena em que Solomon toca seu violino e acentuada em outra pelo impacto das chibatadas recebidas, crescendo com o escravo sendo enforcado numa árvore rangendo, sobrevive por arrastar bravamente os pés no chão, já com a respiração abafada.

O drama épico foge do maniqueísmo das duas cores antagônicas, mas resvala na abordagem do homem branco do Norte como símbolo do progresso, religioso e até atencioso por vezes, contrastando com o sulista caricaturado como símbolo diabólico. A solução apresentada pode ser vista como uma singela tentativa de escapar do clichê, diante do senhor dos escravos Ford, dando a impressão de ser acolhedor e menos repressor, porém de presença questionadora, pois embora não torture seus escravos, não deixa de tratar o protagonista como mera mercadoria e acaba por revendê-lo ao facínora Edwin, o enlouquecido de desejo e possessão pela escrava Patsey (Lupita Nyong'o- excelente atuação que lhe valeu o Oscar de atriz coadjuvante). Acerta a mão com o enviado anjo bom (Brad Pitt), em convincente surgimento para a liberdade.

O diretor, paradoxalmente, dá mais vida ao brutamonte de personalidade doentia, que faz os escravos acordarem na noite para dançar para ele, do que ao senhor dito bonzinho. Demonstra possuir sentimentos, ainda que deturpados pelos desvios de personalidade pela jovem escrava. McQueen constrói uma criatura autêntica, mas vacila e se deixa levar para os sentimentos exagerados e descamba para o melodrama, como no epílogo desnecessário e com sinais de panfleto, que nos remete para A Cor Púrpura (1985), também de Spielberg. Acerta ao se afastar dos closes e frases de efeito moralista, optando por cenas cruas de realismo intenso, mas quase esbarra novamente nos excessos que sucumbiram Gibson em A Paixão de Cristo. Reabilita-se nas cenas de sexo: o estupro de uma escrava por seu dono e a ideia de propriedade; a outra é entre dois escravos sem sentir desejo, ressaltando apenas a evidência de um mero preenchimento de tempo para aguardar o dia seguinte e as torturas da odisseia.

Inferior tecnicamente na comparação inevitável com Django Livre (2012), de Quentin Tarantino, que arrasa ao reescrever a saga no efervescente e bem original longa que dá oportunidade aos escravos sulistas dos EUA, dois anos antes da sanguinolenta guerra civil (1861-1865), em mandar para os ares os opressores, numa magnífica vingança no Velho Oeste protagonizada pelo escravo com brasa nos olhos (Jamie Foxx- impecável interpretação), não faltaram os negros chicoteados e esfolados de forma exposta visceralmente pelos seus senhores, ou ainda a tétrica cena dos cachorros estraçalhando o fugitivo. 12 Anos de Escravidão é um admirável filme de denúncia e retrata os horrores da escravatura para não ser esquecidos, onde a barbárie aniquila uma civilização representada por um homem simples e em paz com a família, mas que seu crime foi ter nascido de pele negra no século XIX, num país que ainda não tinha abolido a segregação racial. É uma abordagem marcante pelo olhar de um cineasta que queria sanar uma lacuna na sua filmografia sobre o tema e as injustiças de uma raça humilhada, mas que busca a redenção e a dignidade esfacelada no tempo.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Inside Llewyn Davis- Balada de Um Homem Comum


Crônica da Derrota

O 16º. longa-metragem dos irmãos Ethan e Joel Coen é o sombrio drama Inside Llewyn Davis- Balada de Um Homem Comum que acompanha a trajetória de uma semana na vida de um jovem cantor de folk em 1961, ambientada no bairro de Greenwich Village, em Nova York. Vencedor do Grand Prix no Festival de Cannes de 2013, foi indicado apenas em duas categorias do Oscar deste ano: melhor fotografia e mixagem de som, bem que poderia concorrer para filme, direção e ator. Teve a honraria de abrir a 37ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo no ano passado. Os diretores já se aventuraram no gênero musical em E aí, Meu Irmão, Cadê Você? (2000), também dirigiram O Homem que Não Estava Lá (2001) e o inesquecível premiado Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), abocanhando os prêmios do Oscar de melhor filme, direção e roteiro adaptado.

O filme dos irmãos Coen acompanha, livremente inspirado, o caminho frustrante do obscuro e fracassado cantor e compositor Dave van Ronk (1936-2002), rebatizado com o nome de Llewyn Davis (estupenda atuação do ator guatemalteco Oscar Isaac, que se notabilizou em Drive, de 2011) que sonha viver de suas composições e seguir carreira, mas ao mesmo tempo padece com o dilema de ser sustentado pelos amigos e outro artistas. Traz apenas um violão em punho, sofre com o inverno rigoroso novaiorquino de belas imagens da nevasca. Por onde passa, enfrenta obstáculos difíceis de serem superados, muito por escolhas equivocadas, como de Jean (Carey Mulligan, atuou em Shame, de 2011), uma mulher casada com o amigo Jim (Justin Timberlake), por quem nutre uma grande paixão, não realiza o primeiro aborto e engravida novamente, entrando numa outra ciranda de perdas. O protagonista anda de bar em bar em suas desventuras entre o Village e um clube vazio em Chicago, ao percorrer quilômetros para ter um contato com o influente empresário musical (John Goodman), para só depois retornar sem grandes esperanças.

Inside Llewyn Davis- Balada de Um Homem Comum é embalado por músicas de época e está distante de ser uma cinebiografia como Ray (2004), de Taylor Hackford, sobre a vida de Ray Charles, acompanhando toda a ascensão ao estrelado, desde a infância pobre. Os irmãos cineastas buscam a essência do filme e contam os dissabores sustentados pelo derrotismo do cantor de folk, nos anos de 1960, com várias músicas interpretadas por Isaac, Timberlake e Mulligan, ainda com a bela assessoria de Marcus Mumford e Punch Brothers na trilha sonora, tendo a produção musical de T Bone Burnett, vencedor de múltiplos grammys e oscars. Na década de 60, este gênero musical fervilharia com o brilho dos gênios Bob Dylan e Joan Baez cantando magistrais canções com suas roucas vozes que rasgavam os corações, num misto de poesia e protesto.

Existe alguma similitude bem próxima com o excelente drama musical Coração Louco (2009), de Scott Cooper, que retratava na tela o clássico caminho de derrotas do fictício cantor country Bad Blake, com uma vida desregrada pelo alcoolismo, mulherengo inveterado, mas sempre sozinho pelo mundo, fazia shows em tabernas e lugares de reputação duvidosa, em franca decadência humana corroída pelo tempo e em estado quase de decomposição iminente, desce ladeira abaixo, tendo como patrimônio uma surrada guitarra e uma velha caminhonete caindo aos pedaços. Llewyn Davis carrega a amargura dos destroçados, como se vê na canção que realiza para o pai, um velho pescador que agora já não fala mais, numa cena comovedora. Nem o gato que virou seu companheiro por acaso, ele não consegue cativar pela fragilidade na sedução da conquista do bichano astuto que dá no pé e vai para bem longe. Às vezes parece um azarado contumaz na vida com o suicídio do parceiro na música ou com a encrenca no amor com a gravidez da grande amiga; por outro ângulo de diagnóstico está presente a falta de inspiração nas composições, bem como não consegue se administrar financeiramente.

A saga malograda do protagonista é evidente daquelas criaturas que ficam pelos desvios do trajeto, diante da forte carga emocional contrária. Há também o componente da falta de uma melhor intuição, como os alegados percalços dos vitimizados pelos desastres do destino. Não é à toa que suas canções são repletas de um visceral pessimismo acompanhado de uma tórrida solidão, dentro de uma amargura melancólica destruidora. O estado de penúria comove e choca pela ruína da perda da dignidade humana naquele ambiente hostil, mas que surge como uma redenção e a tomada de consciência de um futuro que se esvai num mundo que desmorona, porém sem os horizontes infinitos de um ídolo que nunca foi e jamais teve aparições ao grande público. Um notável drama da derrota como se contado numa crônica recheada de fragilidades, onde tudo parece conspirar contra num enxuto roteiro sobre o resumo de alguém que está no fundo do poço e busca uma inspiração para se libertar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Ela


Paixão Virtual

O filme Ela é ambientado numa Los Angeles do futuro, com um cenário predominantemente com cenas em tom avermelhado, tendo na figura masculina um vestuário de calças com cintura alta e reta. Ganhador do Globo de Ouro como melhor roteiro, foi indicado em cinco categorias ao Oscar deste ano: melhor filme, roteiro original, trilha sonora, canção (The Moon Song) e desenho de produção. A direção e o roteiro são de Spike Jonze, o mesmo do badalado Quero ser John Malkovich (1999) e dos menos cotados Adaptação (2002) e Onde Vivem os Monstros (2009).

O drama retrata o solitário Theodore (Joaquin Phoenix- em grande performance numa atuação irrepreensível), que acaba se apaixonando pela voz de uma mulher de um sistema operacional de comnputador (Scarlett Johansson- dubla a personagem invisível Samantha), dando início a uma inverossímil relação amorosa entre o homem contemporâneo e a tecnologia. O longa parte da inusitada aventura virtual do protagonista com uma suposta namorada criada por um sistema operacional de software, levando à loucura aquele escritor de cartas de amor, que dita mensagens sensuais e românticas, sendo o responsável pela empresa Lindas Cartas Manuscritas. Seu passatempo é ver filmes pornográficos e jogar games, estando sempre conectado no mundo cibernético. Vem do rompimento com a esposa Catherine (Rooney Mara) que o acusa, quando assinam o divórcio, de ser “uma pessoa sem condições de enfrentar as emoções reais”, indo ao encontro da apática relação entre eles, muito mal resolvida, especialmente por Theodore, que resiste em não cortar o vínculo definitivamente.

Jonze retrata com sutileza a solidão humana no tema da incomunicabilidade e por consequência o fantasioso namoro virtual, com a entrega de corpo e alma do escritor para sua paixão abstrata, numa obsessiva cobrança e dependência psicológica e física para estar on-line permanente, causando transtornos quando a voz desaparece e não consegue conectar-se para interagir. Tudo então vai mal e sua vida apresenta terríveis dissabores, ao perceber que a namorada perfeita idealizada está off-line, num processo desgastante e demolidor da ausência. A abordagem tem profundidade no vazio existencial do protagonista, diante da inibição e do distanciamento da realidade aterradora pelo fracasso com duas mulheres reais: a ex-esposa e a garota de encontros (Olívia Wilde). Na mesma esteira de isolamento e de romance desfeito, o cineasta coloca a melhor amiga Amy (Amy Adams- vista recentemente em Trapaça) que perde o marido e também se envolve com contato fabricado no computador.

O filme é uma ciranda de encontros e confissões entre os dois personagens ao mostrar os tempos cibernéticos frios e as loucuras advindas de cabeças perturbadas pela falta de limites de hiperconectados. Há um mergulho na alma dos dois, como um desbloqueio dos sentimentos e do futuro que é visto como um aceno de socorro. Catherine era uma companheira que passou e não tem mais chances de retorno; já a perturbação mental pela inexistente Samantha é visceral e dizima a lucidez de Theodore, quando este descobre que ela se relaciona com mais de 600 outros homens iguais a ele. Fica amassado e reduzido a nada, ao receber a notícia arrasadora e bombástica daquela voz perturbadora, com quem conversa e faz sexo todas as noites em seus devaneios.

Ela é daqueles filmes enigmáticos que se debruça sobre as atitudes de pessoas, que cada vez mais estão fora do realismo do mundo, sem chão e sem perspectiva. Não há uma crítica direta aos conectados e seus desencantos que remanescem da virtualidade, porém sobre os exageros doentios ilimitados, como uma metáfora evidente dos homens com suas máquinas criadoras que se deixam engolir. O roteiro está bem estruturado pela fantasia e nas armadilhas impostas pela existência, com os entraves contemporâneos que dificultam a relação entre pessoas no aspecto físico e psicológico. Destaque para a bela trilha sonora da banda Arcade Fire, que retrata a perplexidade do espectador diante da improvável relação amorosa recheada de simbolismos sobre a incerteza, neste magnífico e sensível drama humano futurístico, embora bem atual e constante sobre o artificialismo da vida.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Nebraska


Viagem ao Passado

O cineasta Alexander Payne é daqueles ditos independentes que gosta de contar histórias enternecedoras, às vezes engraçadas, e seus filmes têm poucos recursos financeiros se comparados com os investimentos milionários de Hollywood. Brilhou com Sideways- Entre Umas e Outras (2004), o melhor filme de sua carreira até perder o posto para Nebraska. Abordava um homem depressivo que tenta se tornar um escritor, fascinado por vinhos e decide dar como presente de despedida de solteiro a seu melhor amigo uma viagem pelas vinícolas da Califórnia. Logo se envolvem com duas mulheres, o que faz o amigo querer o rompimento do casamento já marcado para os próximos dias. Enquanto o futuro escritor se apaixona por uma jovem que também aprecia os vinhos pinot noir. Também em sua carreira assinou os insossos Eleição (1999) e As Confissões de Schmidt (2002), e o moralista e preconceituoso Os Descendentes (2011).

Nebraska é uma produção que sequer chegou a US$10 milhões e já arrecadou US$15 milhões. Concorre ao Oscar em seis categorias, entre elas a de melhor filme- com remotas chances de ganhar, embora seja uma obra magnífica, bem que poderia ser o grande azarão-, também foi indicado como melhor diretor, roteiro original, melhor ator para Bruce Dern, aos 77 anos, que finalmente ganhou um papel digno de seu talento, 35 anos depois de indicado em Amargo Regresso (1978). Está brilhante nos detalhes das sutilezas do olhar desorientado e o corpo que não quer acompanhar o personagem Woody Grant, que lhe rendeu o prêmio em Cannes ano passado pela sua atuação. O longa também foi indicado para atriz coadjuvante June Squibb no papel da fofa Kate, a mulher do protagonista que passa o dia criticando o marido, mas sabe defendê-lo como ninguém, em desempenho formidável nas suas poucas aparições em cena. Porém tudo leva a crer que a grande chance de levar o Oscar está mesmo na radiante fotografia em preto e branco de Phedon Papamichael, que explora o contraste com tons acinzentados, é filmado com lentes especiais no processo Cinemascope, através de negativos 35mm para telas em grandes dimensões no formato mais horizontal.

Um filme que é sutil e cativante desde o início, comove pelo vínculo familiar, especialmente pelo filho mais novo David (Will Forte- em atuação sensível e de boa dramaticidade) com o pai, um idoso que parece estar rasgando a tênue barreira da senilidade, ao receber pelo correio uma carta de propaganda prometendo um prêmio de US$1 milhão. Está convicto de que recebeu um bilhete premiado, que terá um prazo limitado para resgatar a fortuna e ninguém lhe tira da cabeça seu intuito. Ou seja, ir de Montana, onde reside, até Lincoln, a capital de Nebraska. Woody é um alcoólatra inveterado desde a juventude e suas ideias estão cada vez mais embaralhadas, dando sinais de ter contraído Alzheimer, como indaga a moça da fajuta lotérica ao filho, que responde “Não, ele acredita no que as pessoas dizem”. Embora transpareça uma loucura ser simplório, há uma pura convicção na sua cabeça, pois ele é daqueles homens que só se convencem quando veem. Não se conforma com argumentos soltos e vazios por informações verbais.

O roteiro é instigante, tendo o drama familiar como seu propósito temático neste road movie, onde o diretor coloca os personagens na estrada para um entendimento, além da análise crítica dos costumes dos norte-americanos. De uma cidade até outra, percorrem 1,3 mil quilômetros o pai com o filho, este uma pessoa com muita paciência e que faz tudo o que o velhinho de cabelo desgrenhado quer. Diferente é o filho mais velho (Bob Odenkirk), um aspirante à âncora de televisão, mais parecido com a mãe pelo pragmatismo e pelas soluções rápidas, por isto irão se encontrar bem depois na cidade de Hawthorne, como um complemento da família. Uma espécie de reconstrução do passado onde viveram, numa visita reminiscente a lugares que ficaram para trás como sombras de outros tempos.

Payne é um diretor autoral, que busca nos pequenos detalhes uma amostragem da essência cinematográfica. As peripécias da família Grant são pontuadas pela habilidade e a sutileza da firme direção, com a recriação de cidades interioranas dos EUA, sendo uma demonstração indicativa de que elas não evoluíram e pararam no tempo, sem ser piegas ou saudosista. A cena reveladora posiciona a câmera atrás da TV da sala, mostrando o tristonho lugar onde homens, velhos e jovens, sentados em frente ao aparelho, quebram o silêncio para falar sobre carros. Há uma pura química entre os personagens que voltaram para descobrir fatos ainda guardados em segredo, como o grande amor da dona do jornal pelo protagonista. Nem tudo é uma relação calorosa, tendo em vista a nova condição de milionário de Woody, muitas pessoas se aproximam dele para tirar vantagens, sendo que umas lembram de supostas dívidas antigas, principalmente os parentes próximos. Mas há aqueles que realmente demonstram carinho, afeto e ficam radiantes com os reencontros.

Nebraska é uma comédia dramática contida e bem elaborada nos diálogos, com imagens reveladoras pela fotografia primorosa, bem coadjuvada por uma trilha sonora não invasiva e que dá o tom certeiro na melodia. É uma viagem sem sentimentalismo barato, mas de reencontros e fortalecimento dos vínculos, como se vê no epílogo comovente registrado pela câmera, dentro de uma atmosfera equilibrada dos contrastes da liberdade de uma jornada familiar intimista inesquecível, como só o cinema pode produzir com a magia peculiar inerente.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Trapaça


Os Vigaristas

David O. Russel é um seguidor inspirado no estilo de Martin Scorsese, dirige e assina o roteiro com Warren Singer no filme Trapaça e obtém um resultado convincente pela profundidade. O longa recebeu dez indicações e é um forte concorrente ao Oscar, entre as quais: filme, diretor, roteiro, ator e atriz (Chistian Bale e Amy Adams), os coadjuvantes (Bradley Cooper e Jennifer Lawrence). No Globo de Ouro levou três estatuetas: melhor comédia, atriz e atriz coadjuvante no gênero. O diretor tem em seu currículo a razoável comédia romântica recauchutada O lado Bom da Vida (2012), numa abordagem no melhor estilo dos filmes românticos de Hollywood, retratando o encontro de duas pessoas problemáticas com dramas pessoais significativos, mas que querem reerguerem-se de traumas do passado, que rendeu o discutível Oscar a Jennifer Lawrence.

Scorsese com O Lobo de Wall Street (2013) abordava um jovem aspirante a corretor da bolsa de Nova Iorque, que faturou bilhões de dólares em golpes financeiros, manipulando com discursos eletrizantes e que levou investidores à bancarrota, por ensinamentos decorrentes de uma oratória convincente, num cenário de iates e lindas mulheres, tudo regado com champanhes e iguarias nas festas e encontros que se tornavam um transe beirando à Sodoma e Gomorra. Os crimes do colarinho banco são enfocados de forma cômica e extravagante numa história com componentes de drogas e extrapolando todos os limites de regras normativas, através de pilantragem para sonegar impostos. Realizado com uma narrativa frenética que se confundia com uma animação infantil, com um humor nada sutil e excesso de palavras chulas, com muita gritaria no desenrolar de três horas. Tornou-se massificante uma obra que poderia ser reduzida pela metade, num erro crasso de edição.

O discípulo supera o mestre na homenagem direta e sem rodeios nesta inteligente comédia, com uma reconstituição magnífica de cenário, com um figurino exemplar e irretocável. O longa retrata fatos reais de uma investigação entre 1978 e 1980 pela FBI, nos EUA, recriando parcialmente o escândalo na famosa operação Abscam, tendo levado à justiça muita gente importante, entre os quais políticos poderosos de conceituada fama. Segundo eles, em suas defesas pífias, alegavam ter recebido incentivos financeiros de um xeique para custear obras para o povo, na realidade uma criação fantasiosa para despistar as investigações.

A estrutura criada por Russel é a mesma de Scorsese, como uma dinâmica construtiva de um cinema de alta voltagem. Uma narrativa sem subterfúgios que vai direto ao ponto, no âmago da falcatrua, mostrando o imbróglio sem tintas coloridas ou alegorias histéricas. Nisto Trapaça dá de goleada em O Lobo de Wall Street, pela embalagem de um cinema realizado com todo requinte e convencimento da vigarice, sem perder a elegância e a classe. É bem verdade que Scorsese se faz presente, pois seu excelente Os Bons Companheiros (1990) serve de inspiração máxima para o homenageante deitar e rolar na esteira da corrupção passiva e ativa dos personagens. Havia o garoto que contava a sua história do sonho em ser gângster, começando a carreira aos 11 anos e se tornando protegido de um mafioso (Robert de Niro- que também é um temido mafioso com Russel) em ascensão, envolve-se em golpes cada vez maiores e acaba se casando com sua amante. Conquista prestígio, se envolve com o tráfico de drogas, prática grandes roubos e ganha muito dinheiro, mas os agentes federais o perseguem, seu destino pode mudar a qualquer momento.

Trapaça também tem a trama no mundo do crime, envolve o espectador por ter uma edição enxuta, com uma trilha sonora adequada e condutora numa trama bem elaborada por um diretor que consegue obter resultados surpreendentes de atores limitados, demonstrando domínio de elenco e extraindo uma química renovada de todos eles, sem exceção. Vê-se Irving Rosenfeld (Bale- perfeito como canastrão barrigudo, até sua peruca dá um desenrolar com eloquência) é um grande trapaceiro que trabalha junto da sócia e amante Sydney Prosser (Adams- está irresistível com suas madeixas, além da pose sedutora). O casal de vigaristas é forçado a colaborar com o inescrupuloso agente do FBI Richie DiMaso (Bradley Cooper), sendo infiltrado no perigoso mundo da máfia comandado por Victor Tellegio (De Niro). Numa situação dúbia e arriscada para fisgar os corruptos, o trio se envolve na política do país, através do falso moralista e candidato populista Carmine Polito (Jeremy Renner). Tudo parece dar certo num plano bem articulado, até surgir a esposa de Irving, Rosalyn (Lawrence- derrama charme e está melhor do que quando ganhou o Oscar), para que as regras do jogo comecem a mudar e causar surpresas no roteiro, deixando todo mundo em maus lençóis. Numa sacada digna de um bom aluno que demonstra ter aprendido bastante com o mentor.

Se a estrutura de O Lobo de Wall Street era muito semelhante ao filme Cassino (1995), como se Scorsese remasterizasse o tema numa refilmagem com cenários diferentes, Russel inova seus personagens no universo da safadeza dentro da ilegalidade e da proteção do já mencionado Os Bons Companheiros, dando frescor aos seus anti-heróis, sem ranços moralistas ou comprometimentos com mocinhos e bandidos. Mesmo não sendo um filme inesquecível, tem consistência construtiva na estrutura de personagens de carne e osso, com problemas psicológicos evidentes, como Rosalyn; ou físicos apresentados por Inving; de histrionismo sem escrúpulos do agente do FBI. Uma comédia provocadora, escrachada sem ser exagerada, com desenvoltura de um enredo picante de trapaceiros bem ou mal intencionados, diante de um capitalismo que permite fraudes e desvios, estreitando a tênue linha divisória da legalidade para o crime, vistas por imagens e soluções num ritmo equilibrado.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Philomena


As Perdas

Stephen Frears é um veterano diretor britânico de 72 anos, com mais de uma dezena de filmes. Acerta a mão algumas vezes, como em Ligações Perigosas (1998), Alta Fidelidade (2000), A Rainha (2006); erra em outras realizações como Herói por Acidente (1992), O Retorno de Tamara (2010) e O Dobro ou Nada (2012). É um cineasta instável e muito imprevisível. Seu último longa Philomena fica no meio termo, embora seja um bom drama familiar que mereça ser visto, apresenta algumas deficiências estruturais, que não chega a comprometer no todo, mas tira o brilho de uma grande obra. Concorre a quatro Oscar: melhor filme, atriz (Judi Dench), trilha sonora e roteiro.

A trama está centrada na história real da octagenária Philomena Lee- que nesta semana foi recebida pelo Papa Francisco no Vaticano, pois está à frente do "Philomena Project" de ajuda a outras mães a encontrar os filhos, luta para que o governo irlandês promulgue uma lei que permita a consulta aos registros de crianças adotadas- que engravida quando mocinha e é mandada para um convento pelos pais, na Irlanda, no ano de 1952. O recém-nascido é doado pelas freiras para um casal norte-americano de alto poder aquisitivo e some no mundo. Ou seja, na realidade é vendido, o que se descobre depois ser uma prática corriqueira. No dia em que o filho sumido Anthony completaria 50 anos, Philomena (Judi Dench- quando jovem é interpretada por Sophie Kennedy Clark, vista em Ninfomaníaca- Volume 1, de Lars von Trier) começa uma busca incessante para reencontrá-lo, com a ajuda do jornalista Martin Sixsmith (Steve Coogan- que também assina o roteiro com Jeff Pope), que é mostrado inicialmente deprimido ao ser demitido pela BBC de Londres.

Ao viajar para os Estados Unidos, a dupla descobre informações apimentadas sobre a vida do procurado, criando-se um estreito laço de afetividade entre os dois. A personagem-título carrega como marca do passado a intransigência da doação sem sua anuência, numa demonstração de pura agressão psicológica, que a torna uma pessoa de olhar melancólico, com a ênfase convincente da interpretação clássica de Dench, uma espécie de Fernanda Montenegro do cinema e teatro do Reino Unido. Traz como lembrança de uma boa freirinha aliada na juventude, apenas a foto do menino que lhe foi arrancado abruptamente, contrastando com a perversidade da madre superiora que a humilhou. Há um evidente viés de maniqueísmo, um clichê utilizado muitas vezes entre o bem e o mal, em que o diretor não escapa.

Do encontro do jornalista com a mãe angustiada para saber o destino do filho, surgem dúvidas sobre o rapaz. Será que ele pensou nela por estes longos anos? Onde estaria naquele momento de incertezas do futuro? A perda poderia se repetir novamente, o que tudo indica se repetirá. Martin é ateu e tenta entender o que acontece na alma daquela mulher obcecada pelo objetivo traçado. Mesmo não gostando de “matérias de interesse humano”, como afirma, pois prefere a rotina da investigação política, abraça a causa e se comove com a situação, diante do pacto contratual de lançar um livro, razão pela qual se deixa seduzir pela busca, que não está tão distante do que gosta de fazer: a investigação. Mostra-se avesso ao catolicismo e fica perplexo com a fidelidade da “parceira-contratante” e sua fé religiosa, mesmo com todas as agruras que passou no convento, tem uma invejável dignidade e uma irrepreensível devoção religiosa, com um singular senso de perdoar aquelas freiras que a fizeram definhar pela vida.

O cineasta aborda a tensa procura nos EUA e as revelações que irão construir a trajetória do desaparecido, inclusive sua boa performance profissional no governo e com bom trânsito na Casa Branca, bem como os conflitos pessoais e a relação amorosa, que não é surpresa para a mãe, pois já na infância percebia sua opção sexual. Mas o que ela quer saber é sobre o vínculo familiar e a relação com seu país de origem, neste aspecto Frears demonstra lucidez com uma grande surpresa no final. Peca por não ir a fundo na questão da venda de crianças para o Exterior, sem grandes desdobramentos, exceto nas informações oficiosas lançadas nos letreiros de encerramento.

Há uma abordagem rasa e sem grande aprofundamento sobre a Igreja Católica, nos seus usos, costumes e a própria repressão ao sexo fora do casamento, além da homossexualidade vista com distanciamento, temas estes discutidos vagamente para mudar no Concílio do Vaticano, na gestão dos papas conservadores João Paulo II e Bento XVI, como tentativas inócuas de reestruturar a igreja ainda ortodoxa. Frears passa rapidamente pela confissão da madre superiora sobre a perda da castidade e a menção às pecadoras que deveriam ser condenadas, entre elas a protagonista. Não fica claro, diante do obscurantismo temático e suas derivações, como das crianças e das mães sepultadas aparentemente clandestinas no cemitério do convento.

Em filme similar, Bruno Dumont se sai melhor na reflexão contundente sobre o catolicismo no excelente O Pecado de Hadewijch (2009), sobre uma jovem da classe alta que deseja ser freira e tem um envolvimento com dois irmãos muçulmanos, num olhar forte e posição firme sobre os dogmas religiosos e suas aberrações ultrapassadas de proselitismos e epifanias. Em Philomena há a busca comovedora do filho extraviado no tempo, bem como a relação dos dois personagens centrais. Há diferenças enormes entre eles de crença religiosa e filosofia de vida. De um lado estão a simplicidade e a ternura de uma mãe despedaçada no seu interior, mas com força para perdoar; do outro lado a intelectualidade e o pragmatismo do pensar que sabe tudo, que num último gesto se rende com a doçura maternal e lhe compra uma imagem de um santo que vem calar fundo como emoção, ponto forte do diretor. Já no aspecto da abordagem sobre a religião demonstra fragilidade sobre o tema.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Gloria


Presente e Passado

Vem do Chile, em coprodução com a Espanha, o ótimo drama romântico Glória, protagonizado pela chilena Paulina García, que levou o Urso de Prata no Festival de Berlim de 2013 na categoria de atriz. A direção é do argentino, nascido em Mendoza, Sebastián Lelio, que também assinou o roteiro com Gonzalo Maza, rendendo-lhe o prêmio de melhor filme pelo júri ecumênico da Associação de Cinemas de Arte e Cinema Experimental da Alemanha. O cineasta tem em filmografia os longas A Sagrada Família (2006), Navidad (2009) e The Year of the Tiger (2011).

Não deve ser confundido com o cult homônimo de John Cassavetes de 1980 (com Gena Rowlands), em que a personagem é uma ex-namorada de um gângster obrigada a proteger um garoto que teve a família assassinada pela máfia; que Sidney Lumet refilmou sem inspiração em 1999 (com Sharon Stone). A Gloria de Lelio começa o filme dançando num baile da terceira idade com sabor de músicas de salão, como no drama brasileiro Chega de Saudade (2007), de Laís Bodanzky, e termina dançando entre muitos homens e mulheres que se divertem. Não tem aquele ranço feminista de Os Belos Dias (2012), da francesa Marion Vernoux.

O cenário é Santiago, onde uma mulher solitária de 58 anos, divorciada há mais de 10 anos, cujos filhos já saíram de casa, se recusa a ficar sozinha em casa às noites, conhece vários homens, empolga-se e decepciona-se. Para completar, quando chega em casa há um gato do vizinho tresloucado que não a deixa dormir pelos constantes barulhos. A situação da protagonista dá uma guinada ao conhecer Rodolfo (Sergio Hernández), um ex-oficial da Marinha, sete anos mais velho do que ela. Surge a paixão e a chance de um relacionamento sério, mas logo confronta-se com alguns dos segredos da trama. Embora esteja divorciado, o namorado permanece vinculado à ex-mulher e às filhas, como pesos que não o libertam. Mas o casal faz sexo sem censura e com erotismo mesclado com amor, lembra o longa Late Broomers- O Amor Não Tem Fim (2011), de Julie Gavras, com a temática do amor na meia-idade, após os filhos saírem de casa há bastante tempo, surgem os problemas de memória e o casal assume estar envelhecendo.

Um filme com leveza, humanismo e sensibilidade de uma mulher aparentemente feliz, atrás dos óculos enormes, que bebe, dança, fuma até um baseado, pratica esporte radical e sofre calada com as agruras das experiências afetivas e familiares. Tem um filho casado que não sabe o que fazer com o recém-nascido, diante da ausência da mulher, já a filha solteira viaja para a Europa atrás do namorado, com a esperança de ir ao encontro da felicidade, como se vê na cena comovente do aeroporto a mãe que finge ir embora e retorna para soltar as lágrimas presas pela separação. Para isto conta com a atuação exuberante de Paulina García, perfeita no papel e com muita naturalidade das pessoas comuns, sem parecer artificial, dando a impressão que se conhece alguém com aquele perfil.

Além da abordagem da solidão e do sexo na idade madura mostrado sem pudor, há a instabilidade de Rodolfo como prisioneiro do passado, que não consegue se desvencilhar do cotidiano da família constituída e com as consequências da recente separação. Há ainda uma dependência econômica e até física que o inibe e criam entraves. Gloria quer viajar para o Exterior, numa referência à globalização e do boom de um crescimento muito rápido no Chile, diante da expectativa econômica criada no governo Pinochet. Porém, o máximo que consegue é ir até Viña del Mar, onde está a famosa casa do poeta Pablo Neruda como ponto turístico, o grande e odiado opositor da ditadura chilena instalada entre 1973 e 1990. São indicativos nas entrelinhas de que o filme não é apenas uma história de amor, mas que Lelio conta a versão daquele país em forma de metáfora política. A crise agravada do relacionamento do casal, diante do caráter dúbio do ex-militar não é fortuita, é outro sintoma metafórico ao regime de exceção vivido, sem o corte do vínculo da situação familiar, nem com o país ditatorial que não quer ficar para trás. Não é por acaso que o produtor Pablo Larraín é o mesmo que dirigiu o festejado drama político No (2012).

Soa bem a canção Águas de Março, celebrizada por Tom Jobim e Elis Regina, cantada em português com forte sotaque num sarau. A aparição do ex-marido no aniversário do filho é uma demonstração de que escolher um bom companheiro não é o forte da protagonista, que assim se define sobre sua alegria: “Às vezes fica triste pela manhã, às vezes, à tarde”. É uma típica filha da ditadura, embora haja um silêncio sobre sua condição política, há apenas imagens de protestos de estudantes pelas ruas. O filme é um retrato do país atual, deixando transparecer as dificuldades dos personagens em lidar com o passado. Gloria é o retrato magnífico dos contrastes da liberdade e da sociedade que lava a alma do espectador como essência de cinema.