quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

De Coração Aberto
















Tormentas do Vício

O filme De Coração Aberto foi escrito e dirigido pela promissora cineasta francesa Marion Laine. Em 1998, dirigiu seu primeiro curta-metragem Le 28, após realizou outros dois curtas: Derrière la Porte (2000) e Quiproqu Eau (2006). Em 2003, participou do média-metragem coletivo Hôtel des Acacias, estreou em longa com Um Coração Simples (2008). Agora encanta com seu poder de sutileza e brutalidade mesclados no comovente drama que traz um tema recorrente no cinema como o alcoolismo e suas consequências devastadoras, tanto no relacionamento profissional como na vida íntima a dois, como no clássico americano Farrapo Humano (1945), do mestre Billy Wilder, onde Ray Milland protagoniza aquele triste espetáculo dantesco de uma pessoa desmoronando; ou de quem está preso e dependente, como bem retratado em O Ébrio (1946), drama brasileiro do cinema novo, dirigido por Gilda de Abreu, com Vicente Celestino no papel do homem derrotado; e ainda no recente Coração Louco (2010), de Scott Cooper, sobre um famoso cantor de música country, beberrão inveterado e fumante contumaz.

Embora haja uma grande paixão entre o casal de médicos cirurgiões, fatores externos como o vício da bebida alcoólica causa estragos irreparáveis do autodestrutivo marido Javier, de impecável interpretação do venezuelano Edgar Ramirez, que tem em seu currículo o protagonista “Chacal” no drama épico Carlos (2010), de Carlos Assayas, e também no filme em cartaz A Hora Mais Escura (2012), de Kathryn Bigelow. Na outra ponta está Mila, interpretada por Juliette Binoche, em mais uma grande atuação desta magnífica e talentosa diva francesa, esbanjando como sempre sua beleza, sensualidade e carisma; está no ápice da carreira. Foi vista recentemente no longa A Vida de Outra Mulher (2012), da estreante Sylvie Testud, e em Elles (2012), de Malgorzata Szumowska.

A trama é bem conduzida pela cineasta que mostra com sensibilidade ao abordar um casal feliz que está junto há dez anos e opta por não ter filhos. Tudo andava bem até a médica engravidar e querer abortar. Para surpresa o marido se opõe e resolvem ter a criança. Neste meio tempo surgem imprevistos em suas vidas, como o afastamento drástico de Javier do bloco cirúrgico do hospital em que trabalha. É impedido de continuar realizando transplantes de coração, mesmo sendo considerado o melhor profissional da área. Resta-lhe como prêmio de consolação a condição secundária de apenas dar aulas. Mas o pior ainda estava por vir, o motivo da decisão fora uma denúncia pertinente de alcoolismo do profissional no horário de trabalho. Um drama que não cai na caricatura fácil e nem no melodrama, pois Binoche atua com vida e constrói uma médica com seus problemas pessoais que se agravam ainda mais, diante das constantes bebedeiras homéricas do marido e suas constantes acusações infundadas, por vê-la cada vez mais perto do cirurgião (Hipolyte Girardot) que o substitui e deixa transparecer seu amor platônico, flertando com a linda colega.

Laine cria um enredo para causar um verdadeiro furor de turbulência na vida de Mila, através de uma reflexão madura sobre o alcoolismo. O clímax se acentua com a evolução da gravidez, surgindo discussões e brigas violentas que causam instabilidade no casal, com cenas de violência explícita, porém sem exageros. Há uma explosão de raiva e ressentimentos de Javier, que vê sua vida fracassar. Mergulha em delírios de crises de ciúmes, tornando-o agressivo, o que o faz colocar o apartamento abaixo depois de surtos incontidos. O próprio filho que está para nascer é questionado e sua paternidade é colocada em dúvida, ao perder a própria consciência pelo desequilíbrio emocional de uma mínima racionalidade. Há um transtorno de personalidade pela decadência humana de um médico bem-sucedido que vira um decrépito, onde tudo está à deriva e o grande amor de sua vida escorrega entre os dedos com a iminência da perda, diante de sua instabilidade e derrocada como pessoa segura, dando margem para desconfianças e a insegurança toma-lhe por completo, sentindo-se um inútil parasita.

Baseado no livro Remonter L’Orénoque, de Mathias Enard, o longa reflete em algumas cenas, que o único lugar que o protagonista sente-se bem é uma jaula no parque, junto com um chimpanzé, como se o instinto animal lhe estivesse a dominá-lo irracionalmente. Há algumas similitudes com o dilacerante drama Amor (2012), de Michael Hanecke, como na finitude do casal pelo temática do alcoolismo e com final inusitado. Os sentimentos de amor e paixão são mostrados com intensidade e o epílogo remete para o drama franco-austríaco ganhador do Palma de Ouro e do Oscar de melhor filme deste ano. O impacto é suavizado levemente por Laine, mas são corações que buscam uma abertura no infinito para dar continuidade ao vínculo entre um homem e uma mulher que viviam com bom humor dentro de uma paixão juvenil estabelecida na primeira cena, em plena cirurgia de um transplantado. A analogia da vida por um fio, mencionada pelo marido numa das cenas, já demonstra um contraste com a existência inconsequente levada quando se joga na bebida.

De Coração Aberto é o retrato da queda vertiginosa de um profissional e a derrocada fulminante de uma vida compartilhada a dois, tendo como resultado a busca no paraíso ou um pós-vida abordado no brilhante Amor. Com o nascimento de uma nova vida, fruto de um louco amor, ao som de Besame Mucho, na bela versão de Tino Rossi, há a busca de uma relação universal neste cativante drama intimista de perdas e ganhos, ao melhor estilo da velha escola francesa.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis














Musical Antigo

A adaptação do musical da Broadway escrita em 1980 por Alain Boubril e Claude-Michel Schönberg, traduzida para 22 idiomas, encenada em 42 países e visto por mais de 60 milhões de pessoas, foi baseada no clássico Os Miseráveis, obra publicada em 1862, pelo célebre escritor Victor Hugo. É ambientada em Paris, no ano de 1832, na fase pós-Revolução Francesa, em pleno século XIX e tem na direção Tom Hooper, o mesmo do burocrático, embora vencedor do Oscar daquele ano, O Discurso do Rei (2010). Simon Hayes é o responsável pela mixagem de sons diretos dos microfones dos atores em cena, descartando a gravação em estúdios, com um resultado pífio, diante da má qualidade da maioria dos atores cantando suas canções escolhidas no roteiro.

A trama está centrada na história de Jean Valjean (Hugh Jackman) que rouba um único pão para matar a fome da irmã caçula e é preso pelo insignificante delito. Consegue se libertar após alguns anos na cadeia, diante do ato de heroísmo de levantar a bandeira da França pregada num poste caído. Vai em busca da reconstrução de uma nova vida e tenta escapar do implacável inspetor Javert (Russel Crowe). Um filme que mostra-se previsível já na cena inicial da perseguição pelo homem da lei contra o fugitivo. Ao encontrar o abismo como saída, o final trágico do inspetor está traçado, diante da sua intolerância e sem uma mínima compreensão na busca da vingança a qualquer preço.

Quanto ao som direto, salva-se Anne Hathaway no papel de Fantine que consagra definitivamente as canções On My Own e I Dream a Dream, pela sua bela voz numa perfeita dicção; bem como Jackman pelos seus recursos vocais em carreira extensa no teatro musical nos EUA, Austrália e Reino Unido; outra surpresa positiva é a atriz novata Samantha Barks na pele da tristonha e desprezada Éponine. Já os demais intérpretes afundaram rotundamente, inclusive Amanda Seyfried como a personagem Cosette, filha de Fantine na fase adulta- na infância atuou Isabelle Allan-; nem Crowe se safa e suas tentativas de cantar direto são frustrantes; ou ainda o jovem revolucionário Marius (Eddie Redmayne), com risível desempenho, em nada convence. Para completar os destoantes há o casal de trapaceiros vividos por Helena Bonham Carter e Sacha Baron Cohen que mais irritam do que agradam com um tedioso teatro de revista.

O melomusical que concorreu a oito Oscar e levou apenas como atriz coadjuvante para Hathaway, bem merecido apesar do pequeno papel; na maquiagem esteve correta a premiação, porém na mixagem de som, só ganhou pela ousadia, pois o resultado foi desastroso. Um filme frustrante que decepciona pela falta de qualidade no enredo, jogando fora um tema que poderia ser melhor aproveitado se tivesse um roteiro elaborado com acuidade e se houvesse uma montagem mais enxuta, pois as 2h40min são exaustivas, tornando-se desnecessárias ao espectador mais atilado uma trama tão enfadonha. Ao abrir mão dos diálogos tradicionais numa audácia que praticamente lhe custa um resultado mais satisfatório, Hooper busca nas imagens e nas canções emotivas uma fórmula para conquistar um público menos exigente e que se deixa levar por cenas de pieguismos, como o descartável encontro no paraíso ou no inferno- não fica bem claro- da continuação da revolução Francesa, com frases de heroísmo nacional exacerbado de apoteose; ou ainda na agonia de Éponine sob a chuva caindo nela e no amado que a socorre; sem esquecer o garotinho fuzilado à queima-roupa pelos maus soldados governistas.

Um musical pode ter dramaticidade para fisgar o espectador, desde que não seja apelativo por uma emocionalidade desproporcional e risível de interpretações calamitosas, como de Crowe, que não é um mau ator. Porém, se a proposta era uma reflexão sobre ética dentro de um ensaio de ficção, na abordagem do ex-presidiário solto após 19 anos recluso, por ter furtado um mísero pãozinho, o tiro saiu pela culatra e o cineasta perde-se totalmente no foco da questão. Ora ia para um meloso e antigo musical americano dos anos 40, 50 e 60; ora ia para a batalha sangrenta na França, deixando Fantine voltar só no epílogo, numa aparição equivocada e politicamente correta. Os Miseráveis está longe de ser um musical compromissado com uma reflexão mais elaborada, embora o diretor dê vazão ao deixar a música solta e sem concessões, num estilo quase que irresponsável, onde soçobra um tema profundo de um dos maiores clássicos de todos os tempos, para dar guarida a desempenhos malogrados de um equivocado musical que não empolga e beira ao inexpressivo.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

As Sessões

















Poesia com Persistência

O longa-metragem As Sessões é um instigante drama com um bom humor refinado, que conta a história real da vida do escritor e poeta americano Mark O’Brien (1949-1999), interpretado pelo inspirado ator John Haukes, de atuação soberba e irretocável nos mínimos detalhes das minúcias e trejeitos da expressão física deformada de um protótipo aleijado; é o mesmo caipira assustador que atuou no filme Inverno da Alma (2010), de Debra Granik, indicado ao Oscar há dois anos. O diretor polonês Ben Lewin também foi vítima da mesma enfermidade quando criança, que lhe deixou sequelas e o faz andar de muletas, razão pela qual conhece bem a situação abordada.

O filme retrata a iniciação sexual do escritor, tendo em vista que na infância foi afetado pela poliomielite aos seis anos, que lhe retirou seus movimentos, exceto a cabeça que conseguiu girar, deixando-o paraplégico com uma vida quase vegetativa, pois está sempre deitado e respira através de um pulmão de aço ligado nas máquinas que o auxiliam no seu dia a dia. Faz frequentes visitas à igreja e tem no padre (William H. Macy) o seu confidente e conselheiro, assegurando-lhe que a iniciativa de buscar o sexo sem amor não é pecado, indicando-lhe uma terapeuta (Helen Hunt- mesmo discreta no papel, foi indicada ao Oscar como melhor atriz coadjuvante) para superar suas dificuldades físicas e as fragilidades inerentes de um homem, por sofrer de timidez e os temores são muitos, mas a persistência é seu lema para alcançar o objetivo maior que é a busca da forma do aprendizado para a sexualidade.

Um drama sobre uma deficiência física irreversível de um homem que quer relacionar-se sexualmente com uma mulher. Há na direção competente uma condução com suavidade e ternura na trajetória do personagem, como se fosse um percurso realizado por um determinado corpo no espaço, com base em um sistema coordenado e pré-definido, onde o vínculo afetivo entre a profissional e o paciente parece ser inevitável na abordagem, mas os parâmetros ficam evidenciados e pré-estabelecidos entre ambos para ser cumprido à risca, sob pena do resultado ser prejudicado e fracassar.

As Sessões é baseado no conto do escritor sobre a sexualidade efetiva em pessoas deficientes físicas. O tema é serio e o cineasta ao optar pelo tom cômico não esvazia a complexidade dramática da trama, muito pelo contrário, prende ainda mais o espectador. Há alguma similitude com o longa Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, onde havia uma inesperada amizade entre um tetraplégico e um ex-assaltante de uma joalheria, que buscava seu reingresso social; porém sem a sisudez e o desconforto do relato de O Escafandro e a Borboleta (2007), de Julian Schnabel, que abordava um homem apaixonado pela vida, mas subitamente tem um derrame cerebral, acorda e se depara com uma rara paralisia. E o único movimento que lhe resta no corpo é o do olho esquerdo, comunica-se piscando letras do alfabeto e cria um mundo próprio, contando com aquilo que não paralisou: a imaginação e a memória; ou ainda do bizarro e inverossímil drama japonês Carterpillar (2010), de Koji Wakamatsu, numa reflexão sobre os efeitos nefastos e devastadores da sobra mutilada de um ser humano, resultantes da dor e da demagogia da guerra, decorrendo ódio e irresignação daquela que tem que lhe servir sexualmente, lavar e fazer sua higiene pessoal, dar comida e bebida compulsivamente.

A película é uma notável artimanha para mostrar que um deficiente paralítico pode sim ter vida normal e se satisfazer sexualmente com sua parceira, embora haja dificuldades e grandes percalços no caminho árduo, Lewin dá um tom emocional contido e sem pieguismo, com extrema sensibilidade na erotização de seu personagem. É difícil não torcer por O’Brien que busca na poesia e na sedução a fórmula adequada para obter o objetivo maior que é perder a virgindade e ser um homem realizado.

Embora simples na sua estética, deixando as metáforas afastadas do enredo, vai direto ao ponto pela ótica da comicidade, tendo como ingredientes essenciais: a poesia, o sexo, a vida e a morte do protagonista, resumida na comovente homenagem realizada na missa pelo padre, um mero interlocutor das palavras do escritor para as mulheres que o entenderam de alguma forma e o fizeram uma pessoa morrer quase que totalmente feliz. Há evidências de desprendimentos e a refutação de quaisquer tipos de ressentimentos, com notáveis cenas emotivas flutuando entre os espectadores, pelo olhar atento deste veterano cineasta que flerta com a sensibilidade e a compaixão, através de uma luz lançada na humanidade pelos méritos inegáveis ao abordar uma relação solidária de duas pessoas, além da gratidão e superação, nesta obra magnífica que se afasta do politicamente correto para buscar a alegria de viver.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

O Mestre



Alma Perdida

Em seu novo filme O Mestre, o diretor californiano Paul Thomas Anderson segue uma trajetória pessimista sobre o ser humano, assim como foi em Boogie Nights- Prazer sem Limites (1997), Magnólia (1999) e Sangue Negro (2007). Há cinco anos de abstinência criativa, o cineasta retorna com este devastador drama ambientado nos anos de 1950, nos EUA, sobre os reflexos posteriores da guerra como mote para a tentativa de recuperação, mesclada com a subjugação da vítima por um misto de pastor e mentor espiritual, com amplo domínio da palavra e da persuasão. Faz uso sistemático de métodos de regressão da mente por uma manjada hipnose, em forma de terapia de grupo para obter mais seguidores.

A trama tem o marinheiro Freddie Quell (Joaquin Phoenix) voltando dos combates da 2ª Guerra Mundial, com intermitentes lembranças sobre os japoneses. Fica evidente sua perturbação pelo passado das lutas travadas e seu comportamento errático como sinal de desequilíbrio extremo, que o faz um alcoólatra que se utiliza da violência física para resolver os entraves na vida. São evidências de um homem atordoado por traumas oriundos de sua passagem no fronte que lhe marcam profundamente, causando-lhe enormes dificuldades de readaptação à civilização pós-guerra. O longa traz ao espectador o momento que Freddie embarca por acaso num navio iluminado que parte para alto-mar. É mais uma de suas fugas para não ser morto, após aprontar mais uma tolice. Ao ser conduzido ao dono da festa, o reverenciado mestre Lancaster Todd (Philip Seymour Hoffman) detém a liderança de uma seita, mas que não passa de um golpista, auxiliado em seu séquito pela esposa controladora da situação (Amy Adams), o casal de filhos e o genro.

As atuações são extraordinárias, principalmente Phoenix com uma expressão facial agonizante e um andar encurvado de um corcunda, dando vida e construção para um personagem antológico, em sua melhor interpretação de toda carreira. Deveria ganhar o Oscar de melhor ator pelo arrebatador desempenho, pois já ganhou no Festival de Veneza, dividindo o título com Hoffman- que concorre na categoria de ator coadjuvante no Oscar-, abocanhou ainda prêmio de direção em Veneza. Bem que merecia concorrer no Oscar como melhor filme e direção, mas inexplicavelmente está fora, embora Ammy Adams concorra como atriz coadjuvante. Porém Phoenix tem pelo caminho um Daniel Day-Lewis na pele do presidente histórico no filme Lincoln, de Spielberg, que também impressiona pela exuberância na performance, com uma voz tênue e calma, costas curvadas, carismático e sem exageros ou clichês caricatos, carrega o filme nas costas praticamente sozinho.

O cineasta desfila com habilidade seus personagens e as situações vão se encaixando sem sensacionalismo, mas abstém-se das fórmulas e métodos quantitativos e qualitativos da quadrilha, Mostra o grupo seguindo a cura do passado e a suposta liberdade do futuro pelo livro “A Causa”, escrito pelo líder espiritual para arrebanhar suas ovelhas desgarradas. Ele mesmo se intitula um mestre e sabedor de tudo, ao autoproclamar-se como médico, médium, filósofo e físico. O livro condutor da seita mescla diversas alternativas de correntes, entre as quais o autocontrole, o conceito de extraterrestres e hipnose, com a finalidade de ajudar pessoas na busca de algo promissor, como bem enfatiza o estelionatário da cura.

Um filme com profundidade que apresenta Thomas Anderson com firmeza e estilo próprio nesta obra autoral, ao buscar na relação do ex-militar com o líder religioso. A desmistificação pelo diretor está alicerçada na amostragem de novos seguidores e celebridades captadas por uma ciência empírica de fundamentos duvidosos e deturpados espiritualmente. Deixa nas entrelinhas que a farsa continua e se espalha, aproveitando as fraquezas pessoais e o controle sobre os impulsos de um protagonista em crise existencial e sem um norte de vida definido, que está preso e acorrentado ao seu mentor espiritual pelo comando da palavra e a ameaça do retorno ao passado perturbador. Embora haja uma reação para cortar o vínculo, há uma complexidade e um terror que lhe são incutidos no seu psiquê de lembranças que tanto lhe assusta.

As águas revoltas simbolizam e remetem para seu estado de desordem mental e a lucidez se esboroa como pó e que são apresentados em forma de desenho de figuras humanas, como na cena sexual chocante entre Freddie com a abstrata mulher de areia, soa como um desafio para o espectador em desvendar os enigmas apresentados e tentar compreender aquela relação visceral de dentro de um vazio existencial do subjugado. E o surto latente que emerge e toma conta do protagonista é a simbolização do desespero autodestrutivo e revelador de uma caótica e delicada relação de dependência, como se fosse o criador com sua criatura.

O Mestre é um mergulho profundo no tema dos princípios da cientologia, retrata mesmo que de forma sutil e sem citá-la explicitamente, aborda com dignidade a irracionalidade das seitas, esmiuçando seus efeitos e consequências advindas de um líder negativo pregando a imortalidade da alma para afastar os traumas do passado que estão na memória, com uma notável reflexão sobre as doutrinas que se aproveitam de uma situação de vulnerabilidade de um ser humano fragilizado pela atormentação de uma guerra dolorosa e suas perdas que teve, diante de um futuro incerto, numa fabulosa abordagem de um diretor de elenco.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O Som ao Redor



Vidas Silenciosas

Pernambuco está vivendo um bom momento no cinema de autor, como Árido Movie (2005), de Lírio Ferreira; Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e Era uma Vez Eu, Verônica (2012), ambos de Marcelo Gomes; Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011), todos de Cláudio Assis. Surge agora o badalado O Som ao Redor, do ex-crítico de cinema e diretor em seu segundo longa-metragem, Kleber Mendonça Filho, que lhe rendeu o prêmio da Crítica no Festival de Roterdã, na Holanda; o Kikito em Gramado de melhor direção; e o título de melhor filme no Festival do Rio. Ficou ainda ao lado dos festejados longas Amor, de Michael Haneke e Lincoln, de Steven Spielberg, ao ser incluído entre os dez melhores de 2012, pelo crítico Anthony Oliver Scott, do New York Times. Sua carreira começou com os curtas A Menina de Algodão (2002), Vinil Verde (2004), Eletrodomésticas (2005) e Recife Frio (2009), estreou em longas com o documentário Crítico (2008).

Um drama que reflete a preocupação do cinema autoral com a estratificação social, através da captação da câmera que percorre a rua Setúbal, na zona Sul de Recife, mostrando belos lugares com moradias bem protegidas. Logo se percebe as crianças nos edifícios gradeados e com assistência de babás, mas em contrapartida a classe menos abastada é representada por Bia (Maeve Jinkings), uma mulher insatisfeita sexualmente, que busca o prazer na maconha e na relação alegórica com a máquina de lavar roupas- uma citação ao seu curta Eletrodomésticas- enquanto o marido dorme e ronca. Um retrato do cotidiano de uma dona de casa cansada e com dois filhos, representante típica da classe social menos favorecida, sendo obrigada a ouvir o latido estridente do cachorro da vizinha.

Mendonça Filho não deixa escapar a imposição do coronelismo dominador, representado por Francisco (interpretado pelo escritor W. J. Solha) que manda e desmanda no entorno. Demonstra seu poder ao chamar o recém-contratado segurança do bairro Clodoaldo (Irandhir Santos- de convincente atuação) para uma boa conversa e já pede sem constrangimento para deixar em paz seu neto que tem por hobby fazer pequenos furtos, pois não quer que o garoto seja incomodado. Existe até uma pressão inicial ao garoto, mas logo há uma recuada estratégica. Só o primo João (Gustavo Jahn), também neto de Francisco, um rapaz que vende e aluga imóveis bate de frente com protegido avô. O longa reserva para a cena final a revelação inusitada do encontro para o acerto de contas do passado.

O Som ao Redor é fundamentalmente um filme silencioso que capta os barulhos externos, como do cachorro que late sem parar e causa insônia em Bia; bem como o argentino perdido na rua sonolenta, não acha o caminho da festa; há os pássaros cantando no mato que tomou conta do cinema em ruínas; ou do inusitado banho de cachoeira com sangue, como um prenúncio de coisas ruins que estão por vir. Paradoxalmente a insegurança vai instalando-se e reflete lentamente naquele bairro de classe média alta, em franca decadência, a perda da propalada tranquilidade dos moradores. Foram anos áureos que ficaram para trás, quando inexistiam as grades nas janelas, portões encadeados e câmeras de vigilância, símbolos de uma brutal realidade atual. Até a natureza torna-se ameaçadora, como no banho de mar na madrugada em área infestada de tubarões loucos para atacarem. São metáforas de um Brasil inseguro e rodeado pela miséria e pela onda de violência.

Mas o cineasta retrata com sensibilidade e sem estardalhaço os contrastes pela visão social nordestina como uma realidade brasileira num drama preocupado com as anomalias e distanciamento entre as classes sociais e a insegurança rondando por todos os lados. É bem peculiar na reunião de condomínio, onde há moradores atônitos e outros fora da realidade e do contexto; ou ainda a busca de uma alternativa para despedir por justa causa o velho e descartável porteiro cansado da vida e do trabalho.

Não é um filme sobre a violência urbana repetida à exaustão em várias obras similares, mas Mendonça Filho vai além e se fixa numa rua aparentemente calma e sem problemas para refletir pela densidade que converge para fatos além do bairro. A segurança é contraditória para os moradores: para uns trará harmonia; para outros surge como uma ameaça à paz. Uma trama que avança com cautela e sensibilidade sensorial dos sonhos convulsivos que poderão ser realidade.

Um cineasta que fala de sua aldeia com magnífica precisão, seguindo a recomendação de Tolstoi. Todos os sons são familiares para o diretor, que apresenta um singular domínio de cenas nos planos e contraplanos, quase impecáveis, com uma estrutura narrativa de inspirada criatividade, sem cair na obviedade. Cada situação dos personagens torna-se autônoma na trama narrativa, embora direcione para a abordagem do coronelismo e seu domínio territorial no bairro, sem perder a poesia. São elementos bem caracterizadores e envolventes que marcam com rara qualidade este belo e badalado filme de cores bem brasileiras como uma obra maior no cenário nacional.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Lincoln















Mensalão Norte-Americano

A campanha aética dos jogos de poder e toda sua corrupção política são os principais componentes do roteiro na trama que enfoca a paixão de um homem por uma causa no fim da Guerra Civil e a reeleição do mítico Abraham Lincoln, o 16º presidente dos EUA nos primeiros dias de 1865, mas que lhe doía a cultura escravocrata. Lincoln é um épico de acontecimentos históricos que mexe na vida dos norte-americanos, que mostra uma luta incansável do presidente republicano reeleito para aprovar no Congresso a abolição da escravatura em meio a uma carnificina entre irmãos da mesma pátria. Um tema popularizado no clássico E o Vento Levou (1939), de Victor Fleming.

O longa retrata uma disputa enfadonha por votos, num duelo travado para conseguir o objetivo presidencial antes de terminar seu segundo mandato. Além de contar com o apoio maciço da bancada de seu partido, vai em busca de votos dos democratas oposicionistas que lhe oferecem uma forte resistência entre os parlamentares. Com discursos inflamados contrários aos direitos iguais entre brancos e negros, a oposição marca presença na tribuna, mas acaba perdendo líderes preciosos que se aliam à situação.

Mas Steven Spielberg não é o mesmo de seu último longa Cavalo de Guerra (2011), da bela e profunda amizade de uma insuperável solidariedade entre um jovem e um cavalo puro sangue. Longe do encantamento terno de E. T.- O Extra Terrestre (1982), ou da dramaticidade eloquente de A Lista de Schindler (1993), ou ainda do fascinante O Resgate do Soldado Ryan (1998). Em seu 28º longa, Spielberg está um pouco sonolento, ao deixar a câmera colhendo discursos vazios e diálogos soltos e improdutivos. Seu forte nunca foi a fala, pois a imagem sempre lhe marcou mais, a qual abandona propositalmente em quase toda a trama de Lincoln.

Embora indicado para doze estatuetas, deverá ganhar na categoria de melhor ator para o britânico Daniel Day-Lewis, o que seria sua terceira premiação e inédita no Oscar, superaria assim Tom Hanks, Dustin Hoffman, Jack Nicholson e Sean Penn, todos já ganharam duas vezes. Seu desempenho na pele do presidente histórico impressiona pela exuberância na performance, da primeira até a última cena, com uma voz tênue e calma, costas curvadas, carismático e sem exageros ou clichês caricatos, carrega o filme nas costas praticamente sozinho. Joaquin Phoenix no longa O Mestre (2012), de Paul Thomas Anderson, é o único que poderá estragar a festa e abocanhar o título de Lewis. Nem Sally Field no papel da esposa mandona consegue ofuscar o brilho do ator inglês. A primeira-dama Mary Todd Lincoln é uma mãe que já perdeu um filho nos braços e não quer perder o segundo na guerra sanguinolenta que se arrasta por quatro anos, razão pela qual bate de frente com o marido para tentar impedir que o outro filho vá lutar. Outro ator de boa atuação é Tommy Lee Jones no papel de um congressista do Partido Republicano, de uma ala mais radical. Suas aparições são recheadas de sarcasmo e tem vigor na defesa abolicionista, até porque vive com uma descendente negra e sua conduta é coerente. Junto com Lewis tentam não deixar cair o enredo na monotonia. Ao surgir em cena, embora poucas vezes, valoriza seu personagem.

Spielberg comete um equívoco capital, quando insiste explicitamente em glamourizar o protagonista, como se fosse um semideus. É cuidadoso no figurino e reconstitui a época com bastante correção e sobriedade. Mas peca fundamentalmente na edição, tornando arrastado e cansativo seus 153 minutos. Demonstra outro equívoco na montagem, tendo em vista que muitas cenas podiam ser cortadas, como se viu numa primeira hora exaustiva e pouco producente, derivando para uma lenga-lenga de diálogos inócuos, perdidos em formalismos estéreis e inconsequentes. A fotografia ocre-amarelada pouca funciona num ambiente escuro e sóbrio demais, beira a um rigorismo estético desproporcional e inadequado para um diretor avesso à retórica da persuasão e da eloquência de intermináveis lorotas. Quando o cineasta busca nas imagens, onde tem amplo domínio, demonstra capacidade singular, como no episódio do filho de Abraham Lincoln observando o carregamento de pedaços de pernas e braços sendo jogados na vala comum; ou no epílogo com o presidente deparando-se com a cena dantesca de corpos jogados uns sobre os outros, já cansado e demonstrando um profundo mal-estar desanimador com uma guerra absurda de valores invertidos, bem como num prenúncio de seu assassinato que lhe ceifaria a vida.

Lincoln é inferior ao filme Tudo pelo Poder (2011), de George Clooney, que abordava os ardis inescrupulosos, tornando-se cético pela forte consistência de personagens com diálogos equilibrados, revertendo e mudando as expectativas. Mas Spielberg mostra com menos ardor que desde aquela época já havia conchavos inescrupulosos e a corrupção estava presente para serem aprovados projetos de interesses do governo, como uma espécie de mensalão de nossos dias, embora sem o uso direto de dinheiro em contas correntes de laranjas, mas com recompensas por compras de cargos e apoios políticos desastrados e repulsivos, ainda que a causa fosse boa, como diz o deputado radical em sua última estocada.

A aprovação da 13ª Emenda da Constituição no Congresso dos EUA para a abolição dos escravos, mesmo com toda legitimidade, soa no filme como um propaganda governamental para causar um diversionismo político, visando as famílias que perderam maridos e filhos na Guerra Civil e ufanisticamente saudarem “a democracia americana”, através da voz embargada do presidente, mesmo com a fúria dos focos sulistas rebeldes e contrários ao fim da escravatura e favoráveis ao prosseguimento das batalhas campais.

Mesmo que haja um viés de visão corrupta dos homens públicos pelo poder e seus envolvimentos com situações escabrosas, dignas de maracutaias da melhor estirpe, Lincoln é realizado de forma romântica para agradar os norte-americanos e os velhinhos da Academia. A política sempre rendeu bons filmes e grandes tramas envolventes e Spielberg não deixa de dar sua razoável contribuição, faz concessões, equivoca-se e mostra distorções cinematográficas. Mas tudo pode acontecer em se tratando de uma produção de doze indicações ao Oscar, até ganhar é possível, embora com poucos méritos está longe das melhores obras do realizador.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Django Livre

















Vingança no Velho Oeste

Quentin Tarantino em sua última frase de Bastardos Inglórios (2009) dizia: "acho que essa é a minha obra-prima". E era mesmo. Um filme recheado de ironia fina, com uma violência não violenta, apesar do paradoxo, mesmo com a vingança explícita do massacre da família estampado no rosto da judia-francesa, reescreveu a história de forma consagradora. Embora haja algumas restrições pela facilidade da violência, arrasa novamente com Django Livre reescrevendo a saga no efervescente e bem original longa que dá oportunidade aos escravos do Sul dos EUA, dois anos antes da sanguinolenta guerra civil (1861-1865), em mandar para os ares os brancos que tanto lhe oprimiram. É a vingança escravocrata no Velho Oeste contada pelo irrequieto e inesgotável cineasta, assim como fizera em Bastardos Inglórios, seguindo a mesma estética narrativa desde o prólogo com as cenas sequenciais da urdida trama. Agora é só aguardar o filme que fechará a trilogia.

Já na cena inicial arrebata o espectador com a trilha da belíssima música-tema composta por Luis Enríquez Bacalov para o cult spaguetti western Django (1966), de Sérgio Corbucci, numa bela homenagem ao filme inspirador de Tarantino que coloca frente a frente os dois protagonistas no encontro para tomar uma bebida na fazenda do excêntrico vilão Calvin Candie (Leonardo DiCaprio- em ótimo desempenho). De um lado está o Django de Corbucci, estrelado por Franco Nero, faz uma ponta como um senhor de terras que adora lutas de escravos; de outro lado vemos um Django remasterizado como um escravo com brasa nos olhos (Jamie Foxx- impecável interpretação).

O faroeste em nada se compara com o filme de Corbucci, pois Tarantino é hábil na condução da trama pela conveniente e suposta amizade do alemão Dr. King Schultz (Chistoph Waltz- o impagável coronel Landa de Bastardos Inglórios; a atuação deste ator austríaco tem uma grandeza de absoluta precisão em seu comportamento e no jogo de palavras, tanto nas perguntas como nas aparições impecáveis, rouba literalmente o filme pela sua extraordinária performance novamente), na pele de um caçador de recompensas em busca de dinheiro fácil, anda atrás de indivíduos que valem muito dinheiro. Ao comprar a liberdade de um negro que conhece três procurados que renderão bons dividendos e que está à procura da sua mulher Broomhilda (Kerry Washington), se estabelece um vínculo de cooperação. O alemão é um obcecado por recompensas financeiras e o recém-alforriado busca sua amada, mas incomoda-o ver de negros chicoteados e esfolados de forma exposta visceralmente por homens brancos, ou ainda a tétrica cena dos cachorros estraçalhando o fugitivo.

No caminho há o cruzamento com o sádico Candie que se satisfaz com as brigas entre escravos até à morte e é senhor e dono de Broomhilda na sua fazenda. Uma referência à princesa que Sigfried tenta resgatar no ciclo de óperas O Anel dos Nibelungos, de Richard Wagner, fala alemão e nem assim consegue esconder de Stephen (Samuel L. Jackson- de estupenda atuação), uma espécie de assessor e bajulador que vende a honra e a dignidade ao patrão, torna-se um severo e intransigente personagem contra a própria raça, mas que na lenda operística é o dragão que vigia Brünnhilde.

Tarantino é um diretor irrequieto e inesgotável com seu notável senso de deboche. Diverte-se com os brancos ao criar uma espécie de fábula moderna colocando os negros como seres em vantagem, embora vitimimizados e torturados pelos escravagistas. Pode parecer uma falsidade, mas o que interessa é o prazer paradoxal da vitória, com a explosão e o banho de sangue dos submissos negros aos seus pseudos dominadores. Não poupa ninguém e inexistem santos em profusão. Veja a sequência de tiros no prólogo e a explosão final no epílogo uma sarcástica demonstração da troca de personagens, remetendo para Bastardos Inglórios, com abundância de tiros e sangue esguichando dentro de uma violência incontida presente como ingredientes de uma luta dura, sem ser gratuita.

Outra cena reveladora é a provocação bizarra ao grupo de extermínio Ku Klux Kan, numa referência pastelona de sua idiota e estúpida atividade de perseguição aos negros, mostrada de forma escrachada, além do cavalo adestrado e os absurdos desta quase seita que beira o surrealismo, onde os cavaleiros não enxergam, pois os furos dos panos não estão adequados aos olhos, como metáfora de suas cegueiras. Incompreensível que Spike Lee tenha criticado a abordagem do faroeste sem vê-lo “A escravidão nos EUA não foi um spaghetti western de Sergio Leone, foi um holocausto”. Confessou que não viu o filme, o que é pior ainda, não sabe o que está perdendo e atesta uma monumental bobagem de um patrulheiro xiita.

Nada mais execrável e violento do que o horror da escravidão de uma raça depauperada brutalmente. Uma abordagem digna e magnífica pelo olhar de um cineasta irônico e de humor mordaz. Ao reescrever a história da escravatura dá vazão para a vingança e o reparo de injustiças contra o negro e o índio num EUA pré-guerra civil. Há a catarse de uma raça humilhada, mas que pelas tintas fortes do diretor busca a redenção e a dignidade esfacelada no tempo. Com uma trilha sonora sob embalo de Ennio Morricone- compositor predileto de Sergio Leone, traz lembranças de seus antigos faroestes, bem como de John Ford, prenunciando uma situação incômoda e perigosa; passando por 2Pac e James Brow.

Django Livre tem a beleza plástica e a astúcia de um jogo de xadrez que propõe uma magistral obra. Ao desafiar a história e fazer seu julgamento próprio, como se fosse de todas as vítimas escravizadas, conta de maneira corrosiva, numa sequência espetacular, através de um roteiro esteticamente perfeito e de uma memorável situação de pessoas que pela tolice tornaram-se irracionais ao extremo pelas suas preferências raciais. Lava a alma até do mais distraído cinéfilo ainda confuso pela variedade da irreverência e da criatividade espantosa desencadeada por um cinema abundante de verdades e mentiras de um delírio salutar, mesmo com sabor de déjà vu.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Amor
















Ocaso Agonizante

No longa-metragem A Professora de Piano (2001), o cineasta austríaco por adoção e alemão por nascimento Michael Haneke, evidencia seu talento na abordagem da personagem da professora que instiga pela perversidade latente de uma misteriosa educadora de música com gostos estranhos; em Cachê (2005), aborda as questões intrínsecas ao mistério de uma fita de vídeo enviada para a casa de uma casal francês que está sendo vigiada; e em A Fita Branca (2009) demonstra lucidez com a parábola sobre o nazismo que se alastrou pelo mundo e estigmatiza sutilmente o rigorismo da religião, propiciando questionamentos como o extremo ardor pela ordem.

Premiado com a Palma de Ouro em Cannes ano passado, escolhido como o melhor filme de 2012 pela Federação Internacional dos Críticos de Cinema e ganhador do Globo de Ouro este ano, Amor é um mergulho crepuscular na vida um casal de professores idosos aposentados da música, que vive apaixonado por mais de cincoenta anos em Paris e depara-se com a doença terminal. Haneke mostra o epílogo de uma existência e toda sua decomposição humilhante, decorrente de dois derrames cerebrais na mulher e sua decrepitude com o passar do tempo.

Um filme instigante sobre as relações humanas e o grande amor de Georges para com Anne. O relacionamento se intercala com as visitas esporádicas da fria, egoísta e pouco participativa filha Eva (Isabelle Huppert- uma coadjuvante de luxo em pequenas aparições) com seus problemas pessoais diante de uma mãe em estado beirando ao vegetativo. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva arrasam na interpretação do casal de idosos, em papéis difíceis que requer uma entrega de corpo e alma aos protagonistas. Trintignant foi o ator da fase da nouvelle vague, trabalhou com François Truffaut, Claude Chabrol e Éric Rohmer, ou ainda com diretores renomados como Ettore Scola e Bernardo Bertolucci; Riva consagrou-se no memorável clássico Hiroshima, Meu Amor (1959), de Alain Resnais.

Rodado praticamente todo o longa no interior de um apartamento, exceto as cenas iniciais do teatro. Face a face estão marido e mulher, em todo o desenrolar da trama, em cenas inspiradíssimas, embora cruéis como o tapa no rosto em Anne aplicado por Georges, após cuspir a água com o remédio repelindo a situação caótica. Soa como um desabafo e um descontrole emocional, que irá se refletir na inusitada cena do travesseiro. A dor dilacerante corta e mexe com o espectador e suas emoções, mesmo sem ser um filme de grandiloquência, mas que se estende silenciosamente pelas dependências do apartamento. A ausência da trilha sonora é para dar um clímax de melancolia, apenas entrecortado pela bela cena do jovem ex-aluno que toca piano para sua professora, como se estivesse a homenagear a música e a vida.

O cineasta conduz a trama de forma enxuta, sem arroubos ou manifestações esperançosas, como já antecipa o prólogo. Num cenário que lembra o teatro e a peça sendo rodada em longos planos-sequência com alguns contraplanos menores que individualizam e marcam a dor dos protagonistas, bem como da mulher reclamando constantemente “que dói”. O companheiro pacientemente troca suas fraldas geriátricas, a alimenta com papinha na boca, medicação, água e lhe dá banho. Inicialmente há o auxílio da enfermeira, depois da cabeleireira, mas logo todas são dispensadas por inaptidão laboral com a aproximação da iminência do ocaso da vida.

Haneke não é unanimidade e chega a ser acusado de misantropo pela festejada revista francesa Cahiers du Cinèma, num entendimento equivocado de aversão à espécie humana lançado na edição de novembro. Talvez esta crítica desproporcional se deva por não usar subterfúgios no seu estilo direto e seco de dirigir, abordando a doença de forma nua, crua e arrebatadora, sem recursos alegóricos. A grande e única metáfora do filme é buscada na pomba invasora do apartamento e expulsa por Georges, assim como Anne quer libertar o corpo do espírito como se fosse um cativeiro indesejado, transposta para a magnífica cena final do retorno do casal ao teatro, sem as amarras do sofrimento angustiante da moléstia devastadora e implacável, numa poética licença lírica para amar. Como se a matéria e o espírito se unissem na busca da retomada do amor no cotidiano e a grande paixão se mostrasse indissolúvel. Usa as elipses das cenas com propriedade, mas com um olhar implacável.

Temas como a morte, solidão, doença e velhice foram exploradas com méritos inegáveis pelo genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957) e na incomparável e inigualável obra-prima Gritos e Sussurros (1972); ou ainda em Viver (1952), de Akira Kurosawa, mas em Amor há um naturalismo exposto como vísceras e a dacadência humana é intensa, embora bergmaniano na abordagem proposta, tem na forma a crueza direta e em nada comparável com a estética criativa e metafórica dos mestres inspiradores. O drama invoca uma notável reflexão sobre a morte, tem na vida um final que dilacera num contexto de grande amor e amizade como infinito neste fabuloso longa sobre o relacionamento a dois. Há subtemas interessantes como problemas das clínicas de repousos e hospitais sendo repelidos pela enferma quando ainda lúcida.

Amor é perturbador por destruir dogmas como a defesa de uma eutanásia abrupta redentora ao dar um soco no estômago do espectador, deixando-o meio grogue, mas ao mesmo tempo reflexivo sobre os métodos de carinho, ternura e da defesa incondicional do amor eterno, retirando os véus dos bons costumes, dando um tapa na cara da morte, como fez o protagonista num ato de desabafo pelo desespero, já perdendo a lucidez e partindo para o confronto entre vida e morte e as emoções existenciais sobre o progressivo fim do ser humano.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Tudo o que Desejamos














Justiça Dolorida

Philippe Lioret é conhecido por seu surpreendente filme Bem-Vindo (2009), numa abordagem harmônica sobre a política das imigrações que causou muita polêmica na França, por tratar dos desdobramentos sociais e políticos, com explícita intolerância racial, evidenciado pelo choque cultural e a iminente violência, decorrentes da questão da imigração mal resolvida por dezenas de anos. Foi eleito o melhor filme europeu da Mostra de 2009 do Festival de Berlim. Lioret vem agora com o instigante Tudo o que Desejamos, em nova parceria com o roteirista Emmanuel Corcol e com o admirável ator sempre em grande performance Vincent Lindon, que interpretou o professor de natação no longa anterior.

O drama é adaptado da obra Outras Vidas que Não a Minha, de Emmanuel Carrère, aborda a vida de uma juíza idealista em Lyon, de infância pobre numa cidade vizinha do interior, teve o abandono do pai aos dois anos e conviveu com a mãe, uma mulher que gastava desregradamente, ou seja, uma legítima perdulária sem qualquer controle do dinheiro. Claire (Marie Gillain- de grande atuação, além de sua beleza) formou-se com sacrifícios, casou-se com Chisthophe (Yannick Renier), um homem pacato, voltado para as coisas domésticas que adora plantar e cozinhar para agradar a mulher. Um dos filhos menores é amiguinho da filha de Cèline (Armandine Dewasmes), que por ironia do destino é centro de uma causa judicial numa audiência sobre financiamentos de empréstimos pessoais, onde Claire é a juíza por simples acaso. Aplica a lei com dureza contra as grandes financeiras e busca uma justiça equilibrada, mas envolve-se num processo administrativo no Conselho da Magistratura e é afastada por suposta imparcialidade no processo de Cèline.

A trama mostra a jovem magistrada se deparando com um câncer degenerativo, oriundo de um tumor cerebral agressivo que funciona como uma metáfora de um sistema econômico corroído e com o beneplácito de um Judiciário estagnado e agonizante, distante das pessoas pouco esclarecidas que se jogam de ponta cabeça em empréstimos de dinheiro, contraindo dívidas impagáveis através de cláusulas leoninas em contratos com redações em letras bem abaixo de 5 mm, inferiores ao estipulado em códigos internacionais, numa clara afronta aos direitos do consumidor. A aproximação com o colega juiz experiente Stéphane (Lindon), um apaixonado pelo viril esporte rúgbi, traz novas luzes para o judiciário, assumindo a causa e sentenciando favoravelmente. Há desdobramentos de recursos e o processo vai até a Corte Internacional da Europa. O filme fica dinâmico pelo cotidiano do embate sem ser técnico. Com o avanço progressivo da moléstia, há uma reflexão sensível e implacável contra a injustiça praticada pelas classes dominantes economicamente, através de um olhar sutil para com as pessoas vitimadas pelo poder financeiro que assola aquele país e o mundo.

Um drama triste e belo paradoxalmente, quando da união de dois defensores entusiastas por uma adequada legislação, mais equânime e não discriminatória, numa luta que é travada com vigor até o fim, passando por momentos tensos, como na cena do afogamento no lago, onde Claire busca nas reminiscências de sua adolescência o resgate do passado, pela dor que ela carrega da mãe atolada em dívidas, e no presente há um futuro incerto, por saber que não há perspectivas de cura.

Tudo o que Desejamos apresenta sentimentos que podem ser confundidos dos dois magistrados, ambos casados, mas o lado humano prevalece sem um acentuado interesse sexual, como na cena em que a juíza chama o colega de pai, para que ele assine sua alta no hospital. O idealismo racional está acima dos sentimentos do coração, e a amizade entre um homem e uma mulher pode ser por causa boa e justa, é o que demonstra o cineasta.

Lioret afasta-se do melodrama com estilo e domínio das cenas, não se deixa cair em sentimentalismos baratos ou pieguismos. Afirma-se como um excelente diretor por retratar com dignidade alegórica as dificuldades que passam os europeus em constantes desempregos de uma economia devastada por circunstâncias decorrentes de uma crise sem precedentes. Está amparado por uma trilha sonora densa que transmite a dor e a perda, neste notável drama edificante sobre os valores humanos.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

As Aventuras de Pi



















Luta pela Sobrevivência

Vem do polêmico escritor canadense Yann Martel a adaptação para o cinema de seu controvertido romance homônimo As Aventuras de Pi, acusado de plagiar o livro Max e os Felinos do imortal acadêmico gaúcho Moacyr Scliar, falecido em 2011, esteve em debate dez anos antes de ser filmado. Não houve uma convincente negativa e ainda lançou uma espécie de agradecimento no prefácio, quase como um pedido de desculpas e alegou ter sentido muito pelo ocorrido.

Ang Lee é um diretor taiwanês radicado nos EUA, mostra-se versátil em seus longas por ser muito dinâmico e criativo. Começou sua carreira com A Arte de Viver (1992) e Banquete de Casamento (1993), passou por Razão e Sensibilidade (1995) e O Tigre e o Dragão (2000), polemizou em O Segredo de Brokeback Mountain (2005) e agora atenuou com uma simplicidade exagerada e previsível em As Aventuras de Pi, embora tenha obtido onze indicações para o Oscar deste ano. Nesta sua nova incursão cinematográfica a trama retrata a história de um menino pobre e dedicado aos animais, filho do dono de um zoológico na Índia que sobrevive a um naufrágio, quando a família toda está indo embora para o Canadá, na busca de dias melhores e novos horizontes. Fica 227 dias à deriva no Oceano Pacífico, após o navio afundar por decorrência de uma enorme tempestade em alto-mar, servindo-lhe a lição de moral do pai sobre a relação entre humanos e animais ferozes como muito importante para sua sobrevivência.

O filme mostra o medo como sendo a dúvida de uma ameaça constante de um tigre-de-bengala batizado ironicamente de Richard Parker ao único sobrevivente. Uma luta da razão contra a irracionalidade, mesclada por doses de razoável suspense nesta fábula moderna adulta que instiga o espectador e o faz ficar atento às manobras instintivas do garoto nesta viagem fantasiosa com seu arquirrival irracional. Surgem de todos os lados algumas alucinações decorrentes da situação inusitada como supostos delírios daquela criatura com seu destino entrelaçado com o animal, tendo na água seu elemento motivador de vida.

É uma fábula com a constante luta desesperada para continuar vivendo, onde não deixa de existir velhos clichês, como do manuseamento de manuais que indicam o caminho da vitória heroica, beirando a ensaios de autoajuda. É contado na primeira pessoa pelo protagonista já adulto para um escritor interessado em publicar a história do naufrágio, tendo dúvidas em qual versão das duas seria a autêntica. Lee busca na alegoria uma saída honrosa, ao invocar a hiena, o macaco, a zebra e o tigre sob a lona do bote e adicionar com personagens humanos de carne e osso como a mãe, o pai, o cozinheiro mau, e o protagonista.

Os efeitos especiais são bem elaborados, embora haja um esvaziamento cansativo na trajetória, como milhares de peixes voando sobre aquele feroz tigre realizado por computação gráfica. Há pouca verossimilhança num realismo forçado nas cenas de confronto no oceano dentro da embarcação e seus acessórios que criaram a balsa improvisada como uma rota de fuga. A montagem é enfraquecida por um filme longo demais para uma historia carecedora de maior abrangência no contexto e dividida por versões inconsistentes, tornando-se tedioso numa abordagem pouca imaginativa e de aprofundamento tênue, principalmente nos diálogos vazios de Pi e o escritor.

Não é um grande filme, embora as reflexões levem para uma frágil constatação de uma civilização desejada, como o fim da era de uma família estruturada aparentemente na Índia e um futuro buscado no Ocidente com revelações contidas de um passado, como na alusão às despedidas que inexistiram e deixaram marcas. É uma aventura com um resultado bem menor e aquém do aguardado na filmografia de Lee, mas que não invalida no todo a obra, embora haja um destaque especial para a fotografia primorosa dentro de um contexto raso numa estrutura narrativa simples sobre os desafios da sobrevivência e teorias pragmáticas da fé com a natureza.