sexta-feira, 27 de julho de 2012

A Velha dos Fundos
















Gerações Solitárias

Vem da Argentina em coprodução com o Brasil, o drama contemporâneo A Velha dos Fundos, escrito e dirigido por Pablo José Meza, com uma temática sobre a solidão na cosmopolita Buenos Aires, que abocanhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Huelva de 2010; melhor roteiro e ator no Festival de Gramado de 2010; seleção oficial nos festivais de Mar del Prata, Cairo e São Paulo, inserindo-se como um promissor cineasta, após deixar boa impressão na estreia atrás das câmeras com Buenos Aires 100 km (2004).

A trama retrata o isolamento vivenciado em duas gerações distintas: uma é a de Marcelo (Martín Piroyansky), um jovem estudante de medicina, sem dinheiro para pagar o aluguel, pois recebe míseros trocados entregando panfletos na rua, não tem amigos, oriundo de La Pampa no interior da Argentina, de pais pobres que trabalham nas terras de uma pessoa importante, como relata o rapaz. Tem como musa uma garota enigmática que trabalha com a mãe como secretária num escritório de advocacia. Na outra ponta está a vizinha Rosa (Adriana Aizemberg), uma senhora de 81 anos que mora sozinha, ranzinza, mal-humorada, nunca abre as cortinas do apartamento para não ser vista por ninguém da rua e sobrevive de uma pequena pensão. Após ter viuvado, apenas nutre um amor platônico pelo vendedor de flores, admirando-o por muitas horas.

O cenário é uma Buenos Aires cosmopolita e decadente, já tendo perdido muito de seu charme pela crise econômica que assola o país, onde dois vizinhos do mesmo andar de um prédio antigo se encontram por acaso no obsoleto e barulhento elevador, com seus crônicos problemas de manutenção. Os personagens são muito parecidos com os do longa Medianeras (2011), de Gustavo Taretto, onde também duas criaturas desconhecidas que moram no mesmo edifício e são sós, numa profunda abordagem do vazio existencial de dois jovens.

O rapaz ao se dispor morar com a idosa não tem outra saída para seus problemas financeiros. Nada lhe é pedido em troca, exceto que converse todos os dias antes de dormir. A anciã não tem parentes e sequer amizades. Se antes não trocavam nenhuma palavra nos encontros fortuitos, agora terá que dar uma atenção especial para a velhinha, como recompensa pelo alojamento e assim suprir sua solidão, com assuntos que nem lhe interessa muito, mas tendo na companhia do estudante uma maneira de afastar-lhe do tédio, dando-lhe novo alento para quem tinha apenas um pássaro estressado na gaiola dentro do humilde apartamento.

Um filme que aborda o intimismo de duas pessoas opostas de gerações, mas próximas e universais no aspecto de melancolia que os assola. Num contexto de vidas aparentemente diferentes na essência, tanto pelos gostos, usos e costumes que converge dois seres excluídos e à beira da ruína. Marcelo não quer voltar para o interior sem realizar as provas finais na faculdade e a generosa Rosa precisa da presença humana daquele que simboliza a juventude e a esperança. O braço engessado é uma alegoria dos enigmas da vida e serve como uma alusão à situação caótica que ambos passam, quando liberta-se das amarras, numa sugestão de que a vida segue. A solidão também é muito bem abordada no comovente filme portenho Chuva (2008), de Paula Hernández; bem como no fascinante Encontros e Desencontros (2003), de Sofia Coppola, retratando dois personagens sozinhos o tempo todo, sofrendo com o fuso horário em Tóquio. Porém, nada se compara com o inesquecível episódio Shaking Tokio, dentro do longa Tóquio (2008), dirigido pelo coreano Bong Joon-ho, num dos mais melancólicos e devastadores relatos de isolamento humano no cinema.

Um filme com elenco consistente, destacando-se a atriz Adriana Aizemberg, numa atuação impecável e comovedora, faz jus à sua fama de estrela no teatro da Argentina por 40 anos. Teve outros grandes papéis como em O Abraço Partido (2004) e As Leis de Família (2006), ambos e Daniel Burman. Meza tem o domínio exato e certeiro da elipses, dando um clímax correto e profundo nas cenas que se sucedem, com uma perfeita visão de estrutura, deixa fluir seus longas num roteiro enxuto, o que torna-os bem distante da mesmice e de cenas chatas ou prolongadas que caem no vazio, como visto recentemente em Na Estrada (2012), de Walter Salles. Um diretor com estilo próprio e que espera-se outras obras no mesmo nível.

A Velha dos Fundos é uma película sem muitos diálogos, prevalecendo o silêncio sintomático dos desesperançados à procura de um foco de vida. O cineasta lança um olhar universal para as situações dos indivíduos solitários. Filma o contraponto do urbanismo com a intimidade de seus personagens individuais, dentro de seus movimentos e suas dificuldades no coletivo, onde pessoas atônitas e excluídas de uma instigante relevância social ficam à mercê de um convívio salutar, deixando o pessimismo tomar corpo e erguer-se como uma espada na cabeça neste sensível e belo drama.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Violeta Foi para o Céu















A Mulher e o Mito

Andrés Wood é um diretor bem conceituado no Chile. Seus filmes mais recentes no Brasil são A Febre do Louco (2001) e o cultuado Machuca (2004), com o qual obteve sucesso internacional. Com Violeta Foi para o Céu, uma coprodução entre Chile, Argentina e o Brasil, teve indicação para o Oscar deste ano pelo Chile; venceu o Festival de Sundance, nos EUA, com os prêmios do público e do júri internacional; melhor atriz em Guadalajara, prêmio do júri em Miami; e ainda um dos finalistas do prêmio Goya, na categoria de produção ibero-americana. Foi sucesso total e campeão de público chileno em 2011, sendo assistido por mais de 400.000 pessoas.

Wood conta a trajetória da vida de Violeta Parra, baseado no livro homônimo escrito por um de seus filhos, Ángel Parra. O longa começa com a infância humilde na Província de Nuble, na região das Cordilheiras dos Andes, acompanhava o pai tocando pelos bares e passa pelo interior de seu país. A narrativa foge do linear e vai traçando um painel diversificado da protagonista, intercalando-se com trechos de uma entrevista concedida para um canal de televisão nos anos 60. O que lembra como mote Chico Xavier- O Filme (2010), de Daniel Filho. Com uma fotografia primorosa do rústico cenário, sendo complementado por uma trilha sonora soberba, mas tendo no ponto mais alto a antológica interpretação da atriz Francisca Gavilán na pele de Parra, canta e não dubla as canções, dando uma dimensão natural e singular.

A cinebiografia é recheada de cenas marcantes e com uma dramaticidade em alto estilo, sem ser piegas ou cometer excessos ou devaneios inconsequentes. Há o relacionamento conturbado com o suíço Gilbert Favre e os percalços de relacionamentos, como o primeiro marido, de quem quer esquecer e jamais lembrar, pela suposta omissão na morte do filho ainda bebê, quando estava em turnê e atinge a consagração na Europa (Polônia e França). Violeta Parra foi uma artista completa, pois além de cantora, era compositora, folclorista, poetisa, pintora, escultora, ceramista e uma grande guardiã das tradições de seu país. Continua sendo um ícone da cultura no Chile, grande amiga de Pablo Neruda, ambos eram comunistas. Esteve sempre muito próxima da outra notável cancioneira argentina Mercedes Sosa (La Negra), que lhe prestou tributo após sua morte, gravando suas canções, como Gracias a la Vida-paradoxalmente acaba com a vida em 1967, ao se suicidar-, Volver a los diecisiete, também com a companhia nas homenagens de Milton Nascimento. Já Victor Jara celebrizou a canção Arriba Quemando el Sol, no movimento contra o truculento Pinochet, que lhe custou a própria vida por fuzilamento no Estádio Nacional. Estas composições viraram verdadeiros hinos da música latino-america.

O filme emociona na cena do avô negando-se em nunca mais cantar, após a perda do neto, mas que abre uma exceção para Parra, ao saber da dor daquela mãe que perde seu filho precocemente. Outra cena simbólica é a do pai tendo um surto e quebra o violão, após perder seu patrimônio em jogos de azar, deixa como legado para a filha ainda criança, um outro violão sinalizando com as composições que falam de pássaros. Com este gesto está alavancando a carreira da extraordinária intérprete de voz clara e poderosa, que sufoca as mágoas e as tristezas pelos caminhos tortuosos da vida defendendo a arte, como deixa transparecer num desabafo e assevera que sua vida é marcada em 40 anos por lutas sustentadas por uma grande fibra, mas que aos 50 anos sucumbe, ao pôr fim na sua trajetória.

O longa omite alguns momentos históricos da passagem da artista, como seu envolvimento com a política, sem comprometer mas fluindo os relatos ao mostrar uma mulher que deixa para trás os filhos na ânsia de buscar a carreira, mas logo os reencontra, mostrando-se uma mãe amorosa. Sua exposição de algumas obras de arte no Museu de Louvre, em Paris, é apresentada como uma meta atingida, pois consegue algo que parecia impossível. Nunca se dá por vencida, por ter um temperamento sanguíneo e quase temperamental dentro de uma aparência desleixada quando lhe convém, mas é vaidosa quando está amando. Tem uma vida marcada pela solidão com os desprazeres amorosos. É pouco reconhecida em Santiago, ao montar uma espécie de galpão cultural, vê fracassar sua iniciativa pela falta de público.

Violeta Foi para o Céu retrata o crepúsculo de uma artista e de uma mulher fascinante, de bom gosto musical, senso crítico apurado, determinada e que nunca se submete aos caprichos dos que pretendem lhe tirar alguma vantagem. É o símbolo da cancioneira latino-americana que cantou as dores e as tristezas dos amores equivocados. Magnífica a cena da alegoria do gavião e da galinha, simbolizando a luta do capitalismo embrutecido contra o trabalhador inferiorizado. Perturba por ser contundente nas recordações retratadas neste fabuloso filme sobre os desdobramentos da vida, seus ensinamentos reflexivos, as emoções existenciais de uma mulher à frente de seu tempo, que despreza as convenções sociais para ser ela mesma.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Na Estrada

















Geração Perdida

O best-seller de Jack Kerouac On The Road, de 1957, é levado pela primeira vez às telas do cinema pelo festejado diretor brasileiro Walter Salles, numa produção dos EUA, França e Grã-Bretanha, através do cineasta e produtor Francis Ford Copolla, que em 1979, adquiriu os direitos legais para realizar a adaptação. Salles recriou de forma elegante a saga da contracultura dos jovens perdidos no mundo do pós-guerra, deixando nítidos os reflexos violentos do período da Grande Depressão americana de 1929.

O manifesto de Kerouac escrito de 1947 a 1951, tomou forma e acabou por ser publicado em 1957, sobre a trajetória vivida pelo autor com seus amigos Neal Cassady, Allen Ginsberg e William S. Burroughs, conhecidos posteriormente como figuras exponenciais e inventores do movimento literário beat. Suas experiências foram levadas para a literatura e transformadas em livro que virou um clássico da juventude, principalmente dos jovens à procura de seus destinos e de um sentido para a vida, ainda que, como enfocado pelo cineasta, redunda num processo de desintegração pelo excesso de álcool, droga e fumo. Deixa-os completamente hipnotizados pela amargura e pelo desejo de liberdade, através de uma rebeldia que beira quase aos sem causa. Os relatos são bem mais profundos e complexos nos seus modus operandis intrínsecos de vidas perdidas e sem nexos existenciais.

Na Estrada tem presenças marcantes como de Marylou (Kristen Stewart), surpreende ao aparecer nua e participa de um ménage à trois, bem oposta de sua personagem em Crepúsculo (2008); mas para contracenar com a musa do filme, apresentam-se os viajantes Dean Moriarty- o ex-marido- (Garret Hedlund) e Sal Paradise- alter ego do autor do livro- (Sam Riley) que dão consistência e embasamento para o drama e o desenvolvimento sobre as angústias e os dissabores da vida, como do protagonista que procura seu pai junto aos mendigos de rua. Logo se vê os reflexos em sua personalidade, ao largar mulher e filhos para uma vida sem objetivos e completamente vazia para um adulto, largando o pé pelo mundo à procura de aventuras bissexuais.

O cineasta brasileiro já havia realizado um filme similar de estrada em Diários de Motocicleta (2004), sobre a vida Che Guevara, agora atinge um resultado acima do razoável, longe de uma obra maravilhosa e bem distante da obra-prima de Dennis Hopper Sem Destino (1969), marco histórico da rebeldia de dois amigos que saem em uma jornada desenfreada de sexo, drogas e liberdade pelas estradas poeirentas do Sul dos EUA; mas está próximo de Thelma & Louise (1991), de Ridley Scott; ou ainda de Antes Só do Que Mal Acompanhado (1987), de John Hughes.

O diretor busca a fidelidade nos relatos, dando autenticidade ao livro que se embasou. Desveste o clássico para uma linguagem cinematográfica, destacando-se a figura singular criada em Dean, na realidade Neal Cassidy, um irlandês órfão de mãe e pai alcoólatra que perambula pelas ruas como um excluído social. Ou na melancolia devastadora de Sal, logo após a morte do genitor, que o fez se lançar como um itinerante pelas estradas da vida de diversas cidades dos EUA e por fim no México.

Salles conduz a trama com segurança até mais da metade do filme, deixando transparecer falta de fôlego para os restantes 40 minutos, embora tivesse uma boa estrutura para o longa, peca pela pouca dramaticidade e investe mais no tecnicismo, mas evita bem os arroubos de grandes cenários, com um domínio muito bom dos planos e contraplanos de cenas. Mas o grande equívoco desta produção é a montagem precária, que acarreta sequências longas e sonolentas, especialmente na parte final, tornando extenuado para o espectador. Fica a indagação do por que não deixar mais enxuto e dinâmico, pois seria bem mais palatável a película.

O filme centraliza seus personagens numa viagem existencial improvável, de rumos irrefreados a cada parada, sem um norte, ou apenas tendo como lema a inspiração para viver bem longe de um universo incerto pelos dogmas e normas. Tudo é buscado com voracidade e sem um regramento preocupado com os ditames estabelecidos pela sociedade de consumo. Eis um satisfatório drama que aborda os prazeres de viver muito em tão pouco tempo, como se o mundo fosse acabar no outro dia, com cores de doloridas e tristes, apesar dos excessos e repetições de cenas.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Fausto

















Profundezas do Inferno

Alexander Sokurov encerra sua tetralogia com Fausto, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, baseado livremente no famoso livro filosófico do festejado Goethe, considerado símbolo cultural da modernidade e de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, um médico e estudioso da astrologia desiludido que faz um pacto com o demônio e recebe as endiabradas energias insufladoras da paixão. Foi levado ao cinema pela primeira vez pelo cineasta alemão F. W. Murnau, em 1926, consagrando-se como um autêntico filme do cinema mudo. Embora haja alguma resistência em vê-la como uma obra dentro do contexto, tendo em vista que os longas da trilogia, até então, eram baseadas em homens políticos de carne e osso, tais como: Hitler em Moloch(1999), Lênin em Taurus (2001) e Hirohito em O Sol (2005). São vazias as argumentações contrárias, numa visão caolha apressada, provavelmente.

O cineasta russo demonstra no filme toda sua capacidade inventiva de criação e de sedução com o cinema na melhor tradição europeia expressionista, ao abordar com desenvoltura um clássico da literatura alemã. Coloca-o dentro de uma sequência de filmes sobre os tiranos que fizeram a humanidade padecer, principalmente com as inúmeras atrocidades dentro de seus respectivos países, como na forte cena inicial da dissecação de um corpo humano para estômagos menos sensíveis. Ali, já se afasta do tom glamouroso da obra-prima Arca Russa (2002), onde havia uma simbiose de cinema, história e artes plásticas, filmado em um único plano-sequência de 97 minutos, sem cortes, atravessando as salas do museu e transformando a tela num quadro vivo por onde desfilam personagens da história da Rússia: Pedro, o Grande; Catarina, a Grande; Catarina II, Nicolau e Alexandra.

A trama enfatiza o Dr. Fausto (Johannes Zeiler), uma pessoa materialista à procura de uma linda mulher, ou seja, Margarida (Isolda Dychauk) e muito dinheiro, que perde a dignidade ao vender a alma para o diabo Mefistófeles (Anton Adasinsky), um sujeito manipulador e horrendo, de corpo deformado, traiçoeiro, fedorento ao extremo, que anda num cenário da Idade Média, onde há muita fome e miséria num lugarejo alemão, por reflexos da corrupção que ali campeia solta. Ao submeter-se como um dependente físico e espiritual do mentor diabólico, o médico acaba por cometer um crime, refletindo em abalos profundos na sua existência, levando-a conhecer as profundezas e os horrores inóspitos do inferno. Num duelo entre o bem e o mal, Sokurov mostra que nada resta após a dignidade ter sido negociada de maneira irreversível com as forças satânicas do além.

Sokurov é um discípulo de seu compatriota e amigo Andrei Tarkowsky, outro genial cineasta russo, e ao concluir a tetralogia apresenta como seu tirano maior e pai de todos o Satanás, buscando inspiração no clássico de Goethe, para de forma alegórica e fulminante refletir se existe salvação ainda para o ser humano, numa colocação brilhante, não deixa pedra sobre pedra, vai embrenhando-se pelas cavernas que começam na Terra e atravessam fronteiras. Faz uma alusão a Ingmar Bergman, como no funeral e a pompa lúgubre dos que partem para o infinito, marcados pela dolorida perda entre seus próximos, lembra o drama Morangos Silvestres (1957), no temor da morte que se aproxima e nas lembranças que estão presentes ao encontrar diversas pessoas pela estrada; ou ainda nos reflexos do rosto petrificado pelas sombras e dúvidas de Margarida, como uma típica figura bergmaniana.

Há algumas cenas marcantes, como na do vinho jorrando das paredes, servindo como mote induzido para o grande blefe; ou na morte involuntária do jovem, mas que bem poderia ter sido premeditada pelo símbolo da violência e da loucura, que tem a condução e as soluções da caminhada inglória. Logo adiante há o reencontro entre os protagonistas do ato, sendo que a vítima ainda sofre e vive como uma alma penada no purgatório. O diretor russo não deixa margem para dúvidas no seu libelo contra a opressão e das lutas sem sentido patrocinadas pelos ditadores, como na cena dos soldados vindos da guerra, cruzam com Fausto e Mefistófeles, todos eles têm na morte suas lembranças maiores que ficaram para trás, num ambiente sombrio e horripilante, com um visual arrebatador e dolorido. É o indivíduo perdido na escuridão da eternidade e sua luta tenaz pela volta.

O cineasta segura firme o longa-metragem, num cenário estupendo e alicerçado por um figurino impecável de época, abordando com coragem e contundência a repressão tão contestada em seu país, para dar luzes mórbidas num clima de desespero pela volta ao estado anterior do médico, aonde os enigmas vão se desanuviando numa implícita alegoria aos expurgados dissidentes inconformados de um regime autoritário. Os caminhos são mostrados como irreversíveis neste fabuloso Fausto, um filme sobre a dignidade humana perdida dentro de um contexto formado pela tirania de falsos líderes.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Para Roma, com Amor















Tributo à Italiana

No seu 42º longa-metragem, Woody Allen, além de diretor, acumulou as funções de roteirista e ator em Para Roma, com Amor, contando quatro histórias na Capital italiana, baseadas em Decamerão de Bocaccio, porém ficou bem aquém de sua capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações angustiantes do dia a dia. Evidente que poucos filmes se comparam com Zelig (2003), uma das obras-primas do cineasta; ou o inesquecível longa, talvez o maior filme do velho mestre, A Rosa Púrpura do Cairo (1985), naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película, para fugir do martírio de sua vida cotidiana na época da Grande Depressão dos EUA.

Depois que começou sua fase europeia, ao filmar em lugares distantes de sua querida Nova Iorque, iniciando por Londres com Ponto Final- Match Point (2005), um dos melhores dos últimos anos; Scoop- O Grande Furo (2006); e O Sonho de Cassandra (2007). Seguiu como turista com sua câmera na mão e ancorou na Espanha com Vicky Cristina Barcelona (2008). Passou pelos EUA de regresso e assinou Tudo Pode Dar Certo (2009), onde escolhe com perfeição seu alter ego como Boris (Larry David), no papel do velho rabugento e neurótico. Retorna para a Inglaterra e realiza Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010); passando pela França dirige Meia-Noite em Paris (2011), possivelmente sua melhor obra nos últimos anos, tanto pela grandeza artística como pela ótima recepção de público e crítica, num filme singular e magnífico, ao transpor as barreiras da ficção pragmática, mergulha na fantasia e nos sonhos, deixa a realidade como fator secundário, não sem antes dar algumas alfinetadas nos americanos estereotipados e engajados com o consumismo e com as guerras frias.

Para Roma, com Amor  tem como ponto de referência um casal americano que vai conhecer os familiares ricos do marido Antônio (Alessandro Tiberi), que acaba de apresentar numa farsa a prostituta (Penélope Cruz) e não a mulher verdadeira (Alessandra Mastronardi- de beleza marcante e grande revelação no elenco), causando situações embaraçosas e desconcertantes. Outra figura estranha é Leopoldo (Roberto Begnini), que acorda de manhã famoso, sendo perseguido pelos paparazzis ensandecidos na procura de alguém para a fama instantânea, numa abordagem sobre a transitoriedade de pessoas do povo para a glória repentina, em prol de notícias de notoriedades fabricadas, como se vê na sequência com outro ilustre desconhecido. A película tem fatos inusitados como do arquiteto John (Alec Baldwin) sendo abordado pelo jovem Jack (Jesse Eisenberg- cada vez mais o alter ego do diretor), que se apaixona por Mônica (Ellen Page), a melhor amiga da namorada e no desenrolar da trama revive momentos tristes da trajetória de sua vida. John circula por Roma e surge como um anjo da guarda e voz presente para Jack, dando-lhe conselhos e tornando os personagens num só.

Mas as grandes tiradas se concentram em Jerry (Allen), um músico de orquestra aposentado que descobre um grande talento cantando no banheiro. Nada mais, nada menos, do que o sogro de sua filha. Sofre, entretanto, a oposição de seu genro, um comunista ferrenho, que não quer ver o pai deixar a profissão de dono de uma funerária para tentar ser tenor ao melhor estilo de Caruso. Os fatos se sucedem e a montagem da ópera do Pagliacci, de Leoncavallo, acaba por ser uma realidade magnífica numa solução encontrada para o desfecho insólito e arrebatador, dentro do contexto criativo para aproveitar-se o potencial artístico da revelação musical.

Allen se debruçara em imagens bem conhecidas no longa Meia-Noite em Paris, como a Torre Eiffel, o rio Sena com seus barcos e o Arco do Triunfo; agora já na abertura desta última produção, mostra o carrossel da Piazza del Pappolo, com um guarda se descuidando de seus afazeres provocando um acidente de trânsito. A comédia é divertida, mas contida, e o humor sarcástico está presente mesclado com um surrealismo em quase todas as cenas, como se Fellini estivesse ali com seus notáveis A Doce Vida (1960) ou em Abismo de um Sonho (1952), no episódio da mulher casada perdida na cidade; ou ainda na homenagem à ópera, como na bela cena do epílogo.

O cineasta tem fôlego e monta uma verdadeira associação de seres diferentes dentro da mesma espécie, como nas inter-relações íntimas de traições, como se fosse uma simbiose. Enfoca Roma e o painel ali existente de várias castas da sociedade, inclusive sem deixar de mostrar a evolução de uma era primitiva para os novos tempos, estando no meio das ruínas o simbólico Coliseu, como uma metáfora civilizatória para a modernidade. Aborda com relativo interesse as neuroses e os relacionamentos despudorados, bem como as traições voluntárias ou induzidas, com métodos de sedução nada convencionais para libertar e expulsar os fantasmas como numa terapia nada ortodoxa, neste filme mediano de encontros e desencontros e situações surreais de expurgos das angústias atormentadoras.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios



Relações Perigosas

O triângulo amoroso já rendeu vários bons filmes pelas mãos de diversos cineastas pelo mundo. Agora Beto Brant e Renato Ciasca dirigem com muita habilidade e dão um suporte denso nesta nova incursão pela paixão entre três seres distintos e antagônicos no instigante Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, com Ciasca e Maçal Aquino assinando o enxuto roteiro.

A trama tem no vértice a espetacular Camila Pitanga, sensual ou catatônica, em sua maior atuação no cinema, ao encarnar de forma despudorada a jovem instável de belo corpo Lavínia. Este papel lhe rendeu como a melhor atriz no Festival do Rio. Nos outros extremos estão os dois homens: o fotógrafo forasteiro Cauby (Gustavo Machado- não está no mesmo patamar de interpretação de Pitanga), com um olhar nos fatos quer acontecem ao seu redor, faz da moça sua musa inspiradora em seu atelier fotográfico; e do outro lado o marido Ernani (Zécarlos Machado), um pastor que lança palavras de estímulos aos seus devotos, mostrando o suposto caminho do bem e alertando sobre os problemas que rondam a região, tendo em vista as constantes devastações da Floresta Amazônica com as consequências do clima, vegetação, relevo, fauna, flora e a preservação. Fala das queimadas e da ausência de um governo mais atuante e divorciado das peculiaridades daquelas pessoas humildes.

Aproveitando mote do romance proibido, os diretores mostram um povo empobrecido no Pará, predominantemente de índios, onde seus habitantes vivem em condições precárias pela pobreza ali arraigada, bem próxima dos protagonistas principais e com uma boa dose de densidade aos personagens são evidentes em cada cena que avança até o epílogo, fluindo belas imagens de uma fotografia esplendorosa, entrecortadas por cenas apimentadas de sexo com um erotismo de muita sensualidade.

O drama vai crescendo aos poucos, mas já no início o dono do jornal (Gero Camilo) alerta o fotógrafo e antevê dias difíceis e conturbados, ao recitar versos de poemas de Cecília Meireles, numa clara alegoria de um final com tendência de tragicidade. Tanto a perda do olho de Cauby, como o estado de catatonismo de Lavínia, são ingredientes sinistros de uma região violenta e acometida de selvageria, passando por um processo de incivilização de povos e governantes dentro de um sistema bancarrota. Dá margem para um olhar preocupante e devastador de uma área geográfica em conflito de cangaceiros. É visível que o pistoleiro está presente e bem perto como uma ameaça, como na cena em que o fotógrafo o recebe sem perceber, mas que dará desdobramentos por mortes encomendadas e prisões de inocentes com o transcorrer da trama.

Eu Receberia... mostra-se como uma película pungente com bastante intensidade no desenrolar. Aborda o passado da musa no Rio e Janeiro com magnífica discrição, sem ser omisso e deixando os fantasmas surgirem em sua cabeça, razão pela qual resiste em deixar o marido pastor. A doença da hibernação que a aflige causa-lhe medo, diante da possibilidade da reviravolta que teria de dar em seu futuro. Luta contra as lembranças da vida marginal que a persegue, estando agora num quase isolamento no interior da Amazônia, buscando exorcizar freneticamente os fantasmas que estão ao seu redor.

O filme fala de amor e de interação entre personagens que querem se reabilitar. Lavínia tem na ânsia da paixão e da insaciabilidade o regozijo de uma situação menos opressora, diante do contexto de um espaço imaginário, onde a emoção está acima da razão como forma de escapar da perversidade de um mundo infestado de maledicências e picuinhas. Ciasca e Brant conduzem o filme para um clímax adequado sem firulas e exageros, nem dispersivo ou apelativo. Brant é um diretor seguro e completou agora seu sétimo longa-metragem, com destaques para os anteriores O Invasor (2002), Ação entre Amigos (1998), e o melhor de todos é Os Matadores (1997). Fica um recado da obra: o cinema brasileiro precisaria de outras realizações deste nível de reflexão como este excelente e maduro longa, que faz pensar e tentar entender o universo humano.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Habemus Papam

















O Papa Conflitado

O último longa-metragem do festejado e premiado Nanni Moretti, um diretor ateu, mordaz e crítico dos poderes da Itália, causou um temor no Vaticano, ao realizar uma obra sobre os bastidores da eleição de um Papa. Porém, mostra-se elegante e bastante contido, sem ultrapassar os limites do bom senso. Já em A Missa Acabou (1985), o cineasta satirizara a igreja, através de um complicado padre na periferia de Roma; no longa O Crocodilo (2006), sobrou para o ex-primeiro- ministro Silvio Berlusconi, que teve sua imagem abalada sem perdão pelas críticas do diretor; mas sua obra maior talvez seja o ganhador do Palma de Ouro em Cannes, O Quarto do Filho (2001), sobre o drama de um psicanalista que reside e trabalha na cidade de Ancona, tem dois filhos, até que uma tragédia o transtorna completamente, ao deixar de acompanhar o filho à praia e nesse passeio o rapaz morre afogado. Uma magnífica reflexão sobre a morte e a forte sensação de remorso. Também ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes pelo longa Caro Diário (1993).

Habemus Papam é um drama com boa dose de humor e ironia fina, ao abordar a eleição papal realizada entre os cardeais, sendo escolhido o vacilante Melville (Michel Piccoli- aos 86 anos, demonstra plena forma e esbanja talento, como já fizera em A Bela da Tarde (1967) e O Discreto Charme da Burguesia (1972), ambos de Buñuel, como o santo padre, pois hesita em manifestar-se para os fiéis que o esperam na Praça de São Pedro. Moretti aborda com sutileza a angústia do Papa e lança uma hipótese arrasadora, ou seja, caso vacilasse e desistisse da missão de Deus de conduzir os homens na terra, como seria o futuro e a fé dos cristãos?

O filme retrata um homem falível, por ser uma pessoa conflitada com um novo desafio pela frente, decide abandonar seus compromissos momentaneamente e foge em pânico para fazer suas reflexões. Busca no teatro seu refúgio de um humano claudicante, na desesperada aflição existencial que o atinge, vai ao encontro da suas reflexões e faz críticas à própria Igreja. Ao juntar-se com os mortais no ônibus, na cafeteria ou ainda caminhando pelas ruas, a crise estabelecida na Santidade se esboroa e os caminhos parecem encurtar e jogá-lo num labirinto de dúvidas e fragilidades, que sequer imaginava vem à tona e o coloca de frente com uma realidade obscura e terrível de um futuro incerto e cheio de antagonismos.

Na cena em que busca refugiar-se no ensaio da peça teatral, fica evidenciada a metáfora do jogo de cena e da interpretação que terá ao enfrentar os fiéis, quando chegar a hora de falar e levar uma palavra de devoção e religiosidade àqueles que o esperam ansiosos, além da imprensa faminta por informações e sequiosa de uma publicação nas páginas dos jornais e revelar a identidade do eleito.

Tudo é muito rápido na vida de Melville e o grande momento lhe aguarda. O mundo parou para vê-lo, a fumaça branca chega ser confundida com a preta nas chaminés, porém a falibilidade não está no roteiro e apesar de sua devoção, ainda não está suficientemente preparado para o posto máximo. Ou seja, sequer teria o direito de renunciar, tendo em vista que a pressão é avassaladora e quase suplanta caprichos ou hesitações, ainda que seu sonho fosse uma antiga vocação frustrada de ser um ator de teatro em detrimento da eleição que o guindou ao topo do catolicismo.

Outra cena ferina é a do porta-voz (Jerzy Stuhr- ótima interpretação) quando chama o psicanalista Brezzi (Nanni Moretti- também atua em elogiável desempenho) para auxiliar e estimular o Sumo Pontífice eleito que grita: “não posso”, “não quero” e “não estou pronto”. É proibido tratar de sexo e sonhos, embora sem permissão para comunicar-se com o mundo exterior, acaba por enclausurar-se no Vaticano, perde o controle da situação e inventa jogos ente os cardeais, sendo o mais disputado o torneio de voleibol entre os representantes dos continentes, apesar da Oceania estar em flagrante minoria, a disputa é interrompida abruptamente. Brezzi visa a razão num cenário dominado pela extremada fé. Outra cena marcante é a do guarda suíço investido no papel de Papa, simulando no quarto sua presença para iludir o povo na praça e a imprensa.

Fé e coragem são demonstrações que não podem faltar, apesar do final de aparência politicamente incorreto, mostra-se corrosivo diante de uma suposta intransigência deturpadora e verossímil entre o desejo e a vocação, onde a estupidez paira nos homens, principalmente quando a religião está em foco, sem o menor escrúpulo ou abertura para um diálogo próspero. São reveladas inaptidões e falta de habilidade para conduzir situações pragmáticas do cotidiano. Moretti sutilmente deixa transparecer que fica um controvertido sacrifício pelo ideal da fé religiosa manifestada como demonstração de um louvor abalado neste bom drama reflexivo sobre a Igreja Católica.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Deus da Carnificina

















Revelações Cínicas

Ainda que o diretor polonês Roman Polanski esteja meio preguiçoso para filmar, sua última obra Deus da Carnificina tem bons motivos para ser assistido. Não é um daqueles filmes como acostumou seus fãs, sem o vigor do suspense em alta tensão ou a abordagem profunda de uma sociedade em decomposição. Mas ainda assim tem elementos consistentes neste seu último drama, tendo na hipocrisia entre dois casais, sua grande arma para levar até o fim o enredo.

Polanski é um dos mais maduros e competentes cineastas em atividade, embora sua conturbada vida pessoal atrapalhe em muito seu destino no território dos EUA. Seus problemas pessoais e sua suposta dívida para com a justiça não impedem e nem devem servir de obstáculo para atenuar os efeitos de sua meritória trajetória cinematográfica. Sempre é bom lembrar o tensionamento sinistro e apavorante em O Bebê de Rosemary (1968), uma obra-prima do terror; ou o mais leve A Dança dos Vampiros (1967), um misto de terror e comédia; o frio noir que notabilizou o magnífico Chinatown (1974), gênero bem explorado com toda elegância e frieza num policial marcante e que deixou belos ensinamentos de uma realização com fôlego até o último minuto da película; sem esquecer o instigante O Inquilino (1976), um verdadeiro achado de suspense; a perturbadora reflexão sobre a guerra no filme O Pianista (2002), que lhe valeu o prêmio de melhor diretor do Oscar; e recentemente o penúltimo longa, o excelente suspense de política O Escritor Fantasma (2010), que rendeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim.

O filme é baseado na peça de teatro da dramaturga francesa Yasmina Reza, que foi encenada várias vezes, iniciando em 2006. Foi realizada no Brasil com Paulo Betti, Júlia Lemmertez e Deborah Evelyn. A própria Reza é a autora do roteiro do longa, talvez por isto a narrativa segue um ritmo teatral, ou seja, uma peça do palco filmada e transportada para a linguagem do cinema, mas bem solucionada pelo diretor, que evita a simplicidade de apenas adaptá-la e busca a interação, pois coloca um razoável ritmo sequencial nos planos. Polanski é daqueles cineastas que nunca passam indiferentes e seus filmes sempre causam reações na plateia, por sua verve sarcástica e inerente ao velho mestre de 78 anos. Burilou a versão do teatro para o cinema quando estava em prisão domiciliar na Suíça.

O cineasta imprime consistência num aparente mote simples, embora a complexidade humana tome vulto e persista, onde um casal Nancy (Kate Winslet) é uma beldade que se acha a melhor mulher de todas e é casada com Alan (Christopher Waltz-o inesquecível nazista do soberbo longa Bastardos Inglórios (2009), de Tarantino), um advogado de uma indústria farmacêutica multinacional, que vende remédios duvidosos para os cardíacos. Visitam os pais do menino agredido, Penélope (Jodie Foster), uma dona de casa com algum interesse em arte, escritora nas horas vagas sobre o sofrimento da África e seu marido Michael (John C. Reilly), um homem simples que vende produtos domésticos, num encontro que tem como objetivo o pedido desculpas pela agressão do filho.

O drama começa com uma cordialidade até dignificante na recepção do casal que tem o filho agredido injusta e covardemente por um taco numa praça com seus verdes espalhados. A mesma cena se repete no final, já sem a agressão, mas com personagens distantes de uma realidade. O cinismo inicial entre os pares logo dará lugar para uma verdadeira catarse de acusações mútuas, tanto de marido para mulher nos dois casais, como de pai para pai, ou de pai para mãe, onde a reciprocidade se espalha e atinge o âmago dos gladiadores como se estivessem numa arena.

Com um elenco ótimo, os diálogos são bons e o clima esquenta como bem sugerido em Deus da Carnificina. Sobra para todo mundo e o diretor mostra um cenário de pais desajustados, onde estão mais voltados para o mundo exterior, como o personagem do advogado, sempre falando pelo celular com seus clientes e interrompendo constantemente sua conversa, numa pura demonstração de incivilidade e desrespeito com as pessoas próximas; ou Michel que recebe várias ligações da genitora, uma dependente e viciada em remédios; ou as esposas sempre afiadas com alfinetadas pontuais para o rompimento da relações, bem ou mal assessoradas pelos maridos, verdadeiros pais ausentes e distantes dos problemas dos filhos.

Apesar de complexo, trata-se de um filme menor na carreira de Polanski. Não deixa de ser provocativo e polêmico, pois consegue fazer com que um encontro amistoso de retratação se transforme em um exorcismo de almas e mágoas que estavam jogadas debaixo do tapete. A partir disso, surge uma grande discussão regada a bebidas e sessões escatológicas de vômitos. O resultado é um filme inferior aos anteriores.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Girimunho















Viúvas do Sertão

Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina são dois diretores mineiros promissores desta nova geração de talentos que surge no cinema brasileiro. Num momento em que despontam como renovação, pois o que falta é espaço para os neófitos que ficam oprimidos e com um vazio no cenário nacional, aparecendo quase sempre as mesmas figurinhas marcadas, deixando pouco espaço para os novos mostrarem suas obras.

O belo drama Girimunho tem uma dinâmica documental e é um exemplo que está aí, ao mostrar toda sua beleza e criatividade destes dois competentes cineastas brasileiros estreantes que estão dando vazão de suas qualidades, embora esteja passando somente na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Houve apresentações nos festivais de Toronto, Nantes, Veneza, Nova Iorque, San Sebastian, Havana e Roterdã, bem que poderia ter mais salas disponíveis, com menos blockbusters que infestam e ocupam lugares de filmes qualificados.

O longa conta a história das duas amigas viúvas octagenárias que reinterpretam seus cotidianos. Bastu é uma figura carismática, espontânea pelo seu brilho próprio e por ter facilidade comunicativa faz o tempo voar; já Maria do Boi simboliza a alegria de seu povo tocando o tambor numa batucada de sons que não podem ser esquecidos pelos mais jovens. As duas mulheres singelas vivem na longínqua cidade de São Romão, no Sertão de Minas Gerais. Elas mostram suas vidas e ensinamentos numa linguagem bem peculiar, necessitando corretamente de legendas para não se perder nada dos diálogos.

Bastu é a condutora da película e fala do marido que perdeu tomando cachaça, mas não chora na despedida para a eternidade. Surpreende um dos netos, mas afirma enfática ter sido a pedido do próprio avô. É uma pessoa com muita sabedoria de vida e coloca para a neta “o tempero é a alma da comida e a calma é o mais importante”. Vai desfiando seu rosário de conhecimentos que a idade lhe ensinou, tendo a cena reveladora de toda sua magnitude como pessoa forte e emblemática, aquela do epílogo, ao falar de sua relação com os peixes dourados no rio e sua luz que ilumina, numa metáfora de vida a ser seguida, sem ser professoral, filosofa com ternura pela dócil boca a simbólica frase “a gente não sabe se é velho ou se é novo; a gente vive”.

Recentemente foi visto por poucos espectadores o grandiloquente documentário Terra Deu, Terra Come (2010), do surpreendente diretor mineiro Rodrigo Siqueira, embasado na obra maravilhosa do festejado Guimarães Rosa, fez uma verdadeira visita ao universo e ao reino da terra tão cultuada pelo escritor, com alusões ao rico e mitológico universo do autor de Grande Sertão: Veredas, criando uma autêntica obra autoral, deslumbrando com sua linguagem típica regional. Tão eloquente pela contundência narrativa é Girimunho, realizado com poesia e ardor, com interpretações valiosas e um elenco amador, mas pungente e humano, diante de um brilho sensorial poucas vezes visto.

O filme é marcante em seu todo, mas não pode ser esquecida a cena de Bastu descendo o Rio São Francisco, com uma comunicação instantânea com o público, decorrente da esplendorosa fotografia captada dos lindos lugares de um cenário mágico corroborado pelo desapego daquela criatura idosa e reflexiva, que aprende a olhar o horizonte e banhar-se no rio. Assim como fica pela madrugada sentada na frente de sua deliciosa casinha modesta, limpa e bem cuidada. Tem amor e muita voracidade em viver a cada instante, cada momento, não lhe escapando nenhum detalhe, numa verdadeira aula do sentido da vida. O drama não tem emoções gratuitas, mas apenas deixa desfilar os prazeres de uma vivência simples com as duas netas sequiosas no aprendizado, retribuindo-lhe o afeto na mesma proporção de doçura.

O longa é uma abordagem magnífica entre o real e a ficção nas aparições do fantasma do marido morto e o folclore típico regional, como a decisão insólita e definitiva de colocar as roupas remanescentes do defunto num local bem longe da residência, para evitar a presença material e espiritual de quem não mais pertence ao mundo dos vivos. Girimunho enriquece as tradições, as lendas, os cânticos e versos regionais e folclóricos, especialmente realizados sobre pessoas humildes e pobres, mas ricas de conteúdo e experiências de vidas longas. Uma construção literária soberba, ao melhor estilo de Guimarães Rosa, mas que no cinema fascina e dá luzes para novos redemoinhos, na tradução popular do título a obra, conduzido primorosamente pela dupla de diretores, com um jeito novo de filmar inovam, saindo da mesmice dos demais.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

As Neves do Kilimanjaro



Solidariedade com Fé

O diretor Robert Guédiguian já realizou obras diversas e temas pungentes ou doces. Foi otimista em Marius e Jeannete (1997); um tanto pessimista como em A Cidade Está Tranquila (2000); terno e sensual em Marie Jo e Seus Dois Amores (2002); ou ainda apresentando com ternura a biografia de François Mitterrand atormentado pela doença terminal, com algumas lições sobre política, história, amor e literatura do ex-presidente em O Último Mitterrand (2004). Seus filmes são basicamente com o mesmo elenco que está com ele há mais de 30 anos na sua cidade natal, a portuária Marselha, onde sua mulher Ariane Ascaride, os atores Jean-Pierre Daroussin- foi o sensível comissário em O Porto (2011), de Aki Karismäki-, e Gerard Meylan formam um elenco com vínculos.

Nesta sua última produção de 2011, As Neves do Kilimanjaro, está baseada numa adaptação livre do poema Os Pobres, de Victor Hugo, não confundir com o conto clássico de Ernest Hemingway. O drama é aparentemente modesto com traços de ingenuidade e um sentimentalismo quase que piegas, mas o cineasta vai se livrando com alguma maturidade das armadilhas do roteiro que levam para pessoas bondosas e desprovidas de maiores voos e ambições pessoais, surgem a todo o momento desprendidas, mas vão acomodando os problemas e os percalços da vida e suas surpresas de última hora, beirando quase ao simplório.

A trama está centrada no líder sindical portuário Michel (o magnífico Daroussin) sendo demitido num sorteio, aonde vem a perder o emprego, pois alguém teria que sair, e apesar de sua estabilidade, colocou seu nome no rol dos concorrentes e acabou “contemplado”. Diante de uma aposentadoria compulsória, teve o apoio irrestrito da mulher Marie-Claire (a irrepreensível Ascaide) com sua generosidade, trabalha para ajudar na composição da renda da família. Vivem rodeados dos filhos e netos e são premiados na bonita cerimônia de aniversário de casamento no sindicato com uma viagem para o monte Kilimanjaro, na África, além de uma significativa soma em dinheiro. A festa foi organizada pelo melhor amigo Raoul (Meylan), regada a vinho rosé, mas a frustração vem logo, ao ser roubado por um ex-colega de trabalho também demitido, sob a canhestra alegação de pagar as contas atrasadas e ter recursos para criar os dois irmãos menores abandonados pelos pais.

Guédiguian busca no abandono familiar de uma mãe tresloucada e de um pai totalmente omisso dar o tom no longa, com os problemas sociais do desemprego de uma França enfraquecida pelos desmandos de uma burguesia ultrapassada, ajudada por uma esquerda que perde o horizonte crítico por suas idiossincrasias, sofre seriamente com a crise europeia. A cena do reencontro ente vítima e réu revela os dissabores do agressor e sua mágoa remanescente com a condução do sindicato sem ética, que usa meios discutíveis para atingir fins nebulosos e contraditórios de um discurso de igualdade, afastado de uma política salarial condizente e sem acautelamentos nas demissões sumárias. Fica latente a acusação burguesa a Michel, que recebeu euros para ver animais na África e com a bela alegoria aos franceses tomando banho no mar e as ácidas comparações.

Discussões à parte da conduta sindical, o cineasta traz à baila o problema do microcosmo familiar sendo questionado como o abandono de crianças, surgindo neste ínterim a figura fraterna de Marie-Claire com seu bom coração para afagar os desamparados, numa atividade que deveria ser de uma assistente social do governo, tendo a anuência explícita do marido. É um filme interessante pelos questionamentos e a exposição de feridas abertas longe da cicatrização, que remete para uma reflexão imparcial, embora o filme peque estruturalmente na profundidade, um tanto quanto rasa e sem um grande debate.

Elogiável o ótimo elenco, uma trilha sonora adequada por ser correta e sem interferir nos diálogos. Ainda assim o drama não deslancha e a temática fraqueja por alguns excessos de bom-mocismo e uma altivez desproporcional, diante de um discurso quase que religioso de um futuro do mundo com muita fé e sem pessoas más, desnecessário e inconsequente para um realizador de um retrospecto de credibilidade, mas que não chega a liquidar com a obra, embora tenha andado perto.