sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Trabalhar Cansa

















Vidas Conturbadas

Trabalhar Cansa tem no centro Helena (Helena Albergaria) casada com Otávio (Marate Descartes) que contrata a empregada doméstica Paula (Naloana Lima) para se encarregar de cuidar da filha pré-adolescente do casal, com a supervisão da invasiva avó materna. Otávio é despedido de uma empresa onde trabalhou por dez anos a fio e gozava de um ótimo conceito funcional; já Helena aluga um estabelecimento que tinha falido e monta um minimercado bem sortido.

O filme trata de uma dona de casa que resolve montar seu próprio negócio, pois cansou de ficar em casa cuidando do lar e paparicando o marido e a filha. Mas não está previsto o desemprego do marido quarentão, logo no início da montagem de seu estabelecimento comercial. As coisas começam a se complicar e as relações pessoais do casal desandam e o casamento sofre um abalo forte, pois Otávio passa por diversas seleções de emprego e nada consegue, entrando numa rotina de frustradas tentativas, perde o ânimo e tudo se complica.

Até aí tudo parecia se encaminhar bem com a película, mas começa a se diluir o drama quando entra a equivocada incursão do cinema fantástico. Mistura-se drama do cotidiano e as relações interpessoais de uma união aparentemente estável, para uma inversão de valores na propositura inicial do roteiro, deixando que um cachorro começasse a latir insistentemente para Helena, como a prenunciar que ela seria incomodada por fatores obscuros dentro do seu comércio. A direção torna-se frouxa e o roteiro se perde como que desandasse a maionese, trocando de rumo para o suspense barato e previsível, como o esgoto que transborda no piso e as infiltrações na parede, diante das aparições fora do contexto do proprietário, com algumas exigências inverossímeis, tais quais se sucedem algumas aparições de objetos escondidos nas dependências, todas aparentemente sem solução, porém facilmente imagináveis e com fraqueza de sustentação.

Um filme que começou bem, mas depois perdeu o rumo, chegou a lembrar logo nas primeiras cenas o extraordinário A Casa de Alice (2007), de Chico Teixeira, com uma atuação exemplar de Carla Ribas, que mostra uma família em um pequeno apartamento de São Paulo, expondo a exploração da mulher no Brasil, com as suas tarefas de dona de casa e a necessidade de trabalhar para ganhar dinheiro e o relacionamento afetivo com a solidão da personagem, mesmo vivendo com a mãe, o marido e os três filhos. Nem mesmo o urro de Otávio no epílogo é salvador, numa imitação lamentável e grotesca da cena em que Al Pacino dá um grito ensurdecedor nas escadarias, logo após presenciar a morte trágica da filha querida, na obra-prima O Poderoso Chefão 3 (1990), de Francis Ford Coppola. Oscila de uma linguagem cinematográfica para diálogos teatrais sonolentas, com cortes abruptos em forma de elipses, num tom sequencial desalentador, onde há planos semilongos e desnecessários, com se estivesse preenchendo lacunas vazias.

O elenco é fulminado por uma sofrível falta de dinamismo dos personagens, que tornam-se sem consistência e são desconstruídos com o desenrolar da trama, onde havia elementos de bastantes subsídios para dar uma melhor resposta, sucumbindo diante de uma desarmonia e uma mistura de ingredientes que tornaram a obra insatisfatória. Trabalhar Cansa deixa para trás, num plano secundário, o objetivo primordial do contexto proposto como o desemprego após os 40 anos, afundando assim de vez com toda a reflexão plausível condizente, ao arruinar a temática com o ensaio do fantástico, desnecessário e mutilador da obra.

Debate em Porto Alegre

Trabalhar Cansa teve sessão de pré-estreia em Porto Alegre nesta quarta-feira (24), pois a estreia nacional está prevista para 30 de setembro. Este é o primeiro longa-metragem dos diretores Marco Dutra e Juliana Rojas, que levou o Prêmio Especial do Júri, no último Festival de Paulínia. O longa também participou da mostra Um Certo Olhar, a principal paralela do Festival de Cannes deste ano na França. A dupla de diretores abocanhou o prêmio de melhor curta no Festival de Cannes de 2007, com o curta-metragem Um Ramo.

Após a exibição do filme, a diretora Juliana Rojas participou de um bate-papo com o público, acompanhada da produtora integrante da equipe Dezenove Filmes, a gaúcha Sara Silveira, radicada há anos em São Paulo, respondendo questões e fazendo alguns esclarecimentos aos cinéfilos curiosos sobre as filmagens e a proposta do filme.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Balada do Amor e do Ódio












Palhaços Trapalhões

Os espanhóis sempre se notabilizaram por ótimas obras sobre o período do ditador Francisco Franco, morto em 1975. Tanto pelos quadros de Salvador Dalí, Pablo Picasso, como nos filmes de Luis Buñuel, Carlos Saura e Pedro Almodóvar, entre tantos outros notáveis, de uma extensa lista da melhor qualidade. Porém, desta feita o tiro saiu pela culatra e o resultado não foi nada bom. O diretor Álex de la Iglesia errou feio a mão com Balada do Amor e do Ódio (Balada Triste de Trompeta- título original), um comédia equivocada no seu propósito final, ao abordar o período do franquismo, numa sucessão de erros e gafes intermináveis e desgastantes para um cineasta que se propõe a realizar uma obra com alguma pretensão superior.

O longa se inicia em 1937, em Madri, com a guerra civil se instalando com força na Espanha, com batalhas sangrentas entre governistas e revolucionários. No centro dos conflitos está Javier (Carlos Areces) que ainda criança vê seu pai, o Palhaço Branco (Santiago Segura), morrer na cadeia ao tentar fugir, tendo participação direta no final trágico, por defender um ideal contrário aos interesses do Generalíssimo, depois de lutar muito pelas milícias, destruindo com foiçadas diversos soldados do Exército Nacional. Javier segue a trajetória do pai e vai trabalhar num circo, sendo batizado de Palhaço Triste, acaba por se conflitar com Sérgio, o Palhaço Gracioso (Antônio de la Torre), numa disputa ferrenha por Natalia (Carolina Bang), esposa do seu patrão e dono do circo. O filme começa a se perder com a renhida luta dos palhaços pela bela mulher, que sente prazer em apanhar do marido e ver seu pretendente brigar por ela, desenvolvendo todo seu masoquismo e por vezes sadismo, ao apreciar os dois homens se engalfinhando para ter seu lindo corpo como troféu.

O que era para ser uma alegoria do período do regime da Ditadura Franquista, virou uma comédia de ação e aventura, com muitas correrias causando enormes estrepolias por ande passavam os dois palhaços disputando Natalia. Muitos tiros, os oponentes se esfolando, tendo ambos seus rostos desfigurados por contingências de suas confusões amorosas e inquietações pessoais bizarras. A cena da perseguição que se estende até o alto do prédio, com personagens voando de motocicleta e se espatifando num edifício próximo; a mocinha sendo disputada a tapas e beijos pelos seus admiradores, tiroteio para tudo que é lado, desabaladas corridas, no melhor estilo dos filmes B e C blockbusters americanos, com uma infindável trapalhada de personagens sem consistência e briguentos por pura armação motivacional rancorosa ou vingança barata.

O cineasta já fez filmes bem melhores como O Dia da Besta (1995), Perdita Durango (1997) e Crime Ferpecto (2004), mas agora ficou no meio do caminho, indeciso entre a comédia de costumes com uma crítica ácida e mordaz ao regime do governo Franco e a ação com muita aventura americanizada e sem sentido crítico algum, em cenas que lembram Super-Homem, Mulher-Gato, Batman, e por aí afora. Nem a morte do presidente do governo Carrero Blanco, em 1973, por atentado terrorista consegue convencer e ter um resultado satisfatório. Iglesia começa desenvolvendo o longa-metragem no período franquista de 1937 e termina no início da década de 70, quando morre o ditador e assume o poder o Rei Juan Carlos I. A perda do pai é a mola propulsora no prólogo, acarretando numa tristeza imensurável em Javier, que aos poucos vai se transformando em ódio e rancor, partindo para uma derradeira vingança. A mordida no dedo do Generalíssimo não convence, sequer sua desabalada corrida no mato, todo sujo como um suíno.

Nada alavanca o filme ou resulte numa contingência oriunda do passado. Há uma grande desordem no roteiro com uma falta de consistência de uma direção frágil que chega a dar dó. Deixa para trás um objetivo inicial proposto bem no começo da comédia, afundando assim de vez com toda a temática e uma reflexão plausível mais apurada, deixando o grotesco se sobressair e se misturar com a aventura e bastante ação no epílogo.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A Árvore da Vida



















Sentido da Existência

Terrence Malick é um cineasta formado em filosofia. Leva uma vida de ermitão pelo seu enclausuramento, não dá entrevistas, raramente é fotografado e é chamado de diretor bissexto, pois passa anos sem filmar. É perfeccionista em seu trabalho, roda centenas de negativos e usa seu tempo burilando seu material para editar uma obra. Tem em sua filmografia três obras–primas: Terra de Ninguém (1973), depois arrasou em Cinzas no Paraíso (1978), completando com Além da Linha Vermelha (1998). Mais tarde realizou um longa menor O Novo Mundo (2005).

Agora Malick retorna com outro filme fabuloso A Árvore da Vida, abordando mais de um tema, interligando religião com a perda de um dos três filhos, questionando a opressão do pai, um engenheiro de aviação (Brad Pitt- de atuação irrepreensível) e todo seu rigor e disciplina severa ao preparar as crianças para as adversidades da vida e as peripécias do mundo, principalmente pelo método da repetição até chegar ao objetivo principal de uma meta. Tem na esposa submissa (Jessica Chastain- uma atriz principiante e de futuro promissor) um ponto de equilíbrio e apoio, primando pela suavidade e sensibilidade materna, com sua doçura no olhar e nos gestos para cada filho, ao contrário do tenso marido.

A película começa com o processo de espaço-tempo de Big Bang, tendo no nascimento do universo, a formação das galáxias e planetas e os primeiros movimentos da vida e sua evolução, a Terra com os humanos e suas contradições. Avança para a queda dos meteoros e a abertura de crateras extinguindo os dinossauros e a raiva enrustida nos animais pré-históricos demonstradas na cena em que um deles pisa no outro até sua finitude. Seria maldade pura ou um ato solidário para a morte sem sofrimento? Como não lembrar de 2001-Uma Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kublick, pela semelhança de uma proposta ficcional cósmica e seus elementos temáticos da evolução humana.

O universo cósmico é mostrado em várias cenas, tendo a dor e a tristeza juntas como frutos da morte do filho como pano de fundo, com a reflexão da perda e a culpa pelo fim, sem ser piegas. O sensitivo aflora desordenadamente, mas logo dá lugar para o impacto sensorial que se instala no presente em quase todo o desenrolar do grande enigma da vida, dando um passo redentor para a morte e suas explicações transcendentais num epílogo de reencontros da família O´Brien do Texas, nos anos 50.

Vencedor este ano no Festival de Cannes com esta magia poderosa e suas implicações filosóficas, com suas metáforas e alegorias, como na procura obstinada do sentido da vida num universo misterioso de toda sua imensidão interplanetária, porém sem a explosão devastadora e apocalíptica do filme Melancolia (2011), de Lars von Trier. Traz no conteúdo como síntese sensorial Tio Boonmee, Que Pode Recordar Suas Vidas Passadas (2010), de Apichatpong Weerasethakul, bizarro e equivocado longa-metragem tailandês que venceu o Festival de Cannes do ano passado, sem a grandiosidade e a complexidade proposta por Malick. Também nos remete para o rigor autoritário visto no vencedor do Palma de Ouro de 2009, o magistral filme alemão A Fita Branca (2009), de Michael Haneke.

A Árvore da Vida é um filme de imagens radiantes e surpreendentes, tendo no seu bojo uma proposta filosófica, sem ter a audácia de explicar ou concluir teses exaustivas. Mas usa apropriadamente como metáfora da morte uma grande explosão, seguida de um cogumelo devastador de fumaças, que bem poderia ser a lembrança das bombas jogadas pelos americanos em Hiroshima e Nagasaki. Mas a alegoria da vida está presente e levará a reflexões, quando se observa o poder das imagens, como das borboletas, das árvores nas matas, do gado pastando mansamente, dos embriões dando formato para as vidas que logo virão ao mundo.

A religião é questionada fortemente quando a desilusão vem à tona como forma de revolta. Há a perda do emprego do obstinado pai como símbolo da civilização derrotada, tendo contundência na sentida reconstrução em outro local de um mundo em ebulição, restando como artefatos uma dolorida relação de uma família em vias de extinção, sob o olhar do filho mais velho, Jack (Sean Penn) olhando com amargura e um desgosto profundo os gigantescos edifícios em Dallas. As imagens do passado e a infância povoam suas lembranças. Tanto o irmão, como o pai e a mãe carregam o sentimento de perda que martela incessantemente como um soco no estômago.

Eis um drama estupendo pela estética e sua força de construção de personagens e imagens radiantes e reveladoras. Mexe e remexe no cérebro e com o equilíbrio do espectador na sua plenitude, para uma reflexão do início ao fim da existência, sem ter a pretensão de chegar a algum ponto de vista racional, embora crucial, deixando atordoados os pensamentos menores e simplistas, dando luz para um olhar panorâmico e perturbador, oriundos do talento deste gênio do cinema nesta nova obra-prima inesquecível.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Melancolia
















Vida e Morte

Longe do estupendo longa-metragem Anticristo (2009), Lars von Trier agora está contido e com uma inclinação pelo americanismo com sua recente obra Melancolia. Abandona definitivamente sua passagem de criador do movimento Dogma 95, em parceria com Thomas Vinterberg, no mês de março de 1995, em Copenhague. Era um manifesto cinematográfico internacional, lançado no centenário de nascimento da sétima arte, a partir de uma publicação com dez regras de ética e valores, também conhecido como voto de castidade, tendo como o objetivo principal o resgate de um cinema mais realista e menos comercial, anterior à exploração industrial de Hollywood.

Von Trier inovou com Os Idiotas (1998), segundo filme do movimento, depois vem Dançando no Escuro (2000) com o prêmio Palma de Ouro em Cannes de melhor filme. Solidifica seu talento e consagra o Dogma 95 com o extraordinário Dogville (2003), que tem sequência com Manderlay (2005), também em grande performance e fiel ao seu estilo proposto de um cinema mais simples, sem artifícios e pirotecnias, mantendo o padrão da filmagem em 35 mm, sem muita luz artificial e com cenários externos exclusivamente. Foi a mais inventiva escola, depois da celebrizada Nouvelle Vague.

Melancolia começa com um prólogo que antecede a trama propriamente dita em dois atos que virão no corpo da narrativa, com oito minutos na trilha operística de Tristão e Isolda, de Wagner. É apresentado em câmera lenta, mesma forma como foi o início de Anticristo, seguindo a escola do genial cineasta americano Sam Peckimpah, morto em 1984. Chamado pela crítica conservadora de "poeta da violência", pelo seu modo peculiar de filmar cenas violentas em slow motion, embora sempre dentro de um contexto estético, notabilizou-se como um referencial na arte de produzir e encarar a morte com suas nuanças nos pequenos e mínimos detalhes, como em Meu Ódio Será Sua Herança (1969).

Depois de ingressar no cinema fantástico, com dosagens intercaladas de drama e suspense, mergulhando no inconsciente humano e no exorcismo dos fantasmas da mente como fez com perfeição em Anticristo, agora se volta para o cinema catastrófico, numa mistura de drama e ficção científica, tendo em Justine (Kirsten Dunst- melhor atriz no Festival de Cannes deste ano pela boa atuação) como a referência da primeira parte, envolvida em seu casamento que prenuncia a desagregação familiar com extensão ao universo em extinção pelo apocalipse que se avizinha. A personagem seduz a morte e se relaciona com ela de maneira harmônica e mórbida, através de sua crônica crise de depressão.

Mas as complicações de von Trier começam na segunda parte ou ato, onde a irmã Claire (Charlotte Gainsbourg) é o centro, ou deveria ser, compra veneno, sente-se mal e lhe falta o ar só em pensar no choque nos planetas Terra e Melancolia. Ao contrário de Justine, tem fobia pela morte e encarna a vontade de viver com o filho menor e o marido John (Kiefer Sutherland), um ricaço que gosta de golfe, dono de uma bela mansão, tendo como hobby olhar o cosmo planetário. A construção psicológica nos dois atos está presente no filme, com destaque para as cenas de Justine e seus fantasmas com a lucidez cedendo para a morbidez, deixando transparecer uma bipolaridade escancarada. A edificação da personagem é magnífica com sua exagerada capacidade depressiva de uma mulher possuída pela excentricidade e de um relacionamento afetivo com o lúgubre, tendo a morte à espreita.

Com a câmera na mão, como nos velhos tempos do Dogma 95, as cenas do casamento são mostradas como reveladoras, tendo as fugas constantes do recém-esposo Michael (Alexander Skarsgard) em plena noite de núpcias, já evidenciam uma notável maneira de chamar a atenção, agredindo verbalmente seu grotesco chefe na cerimônia. Fica evidente o relacionamento edipiano com o pai (John Hurt) e a submissão à mãe protetora e niilista (Charlotte Rampling). A traição é somente mais uma faceta desta personagem insegura e corroída pela dor doentia da falta de lucidez. Remete-nos com boas referências aos filmes Casamento de Raquel (2008), de Jonathan Demme e a inesquecível obra-prima Cenas de um Casamento (1974), do mestre Ingmar Bergman.

As florestas estão de volta para os personagens exorcizarem seus fantasmas soltos no universo, como na cena da deprimida Justine deitada nua a contemplar o céu intergalático, é uma volta aos filmes anteriores do cineasta, como Anticristo, Dogville e Manderlay, pelos seus segredos e surpresas oriundas deste universo inesgotável do medo e da irracionalidade. Porém quando o diretor se deixa levar pelo catastrofismo barato no segundo seguimento, beira o artificialismo trágico planetário. A obra fica fragilizada, como por encantamento aos filmes americanos, como A Estrada (2009), de John Hillcoat; Gozdzilla (1998), 2012- O Fim do Mundo (2009), O Dia Depois de Amanhã (2004) e Independece Day (1996), todos do diretor medíocre Roland Emmerich, realizando vários desses filmecos comerciais sem nenhuma contribuição cultural ou reflexiva mais profunda.

A vida e morte estão presentes como metáforas. Justine simboliza o pessimismo pela sintonia fina com o planeta azul Melancolia que trará a devastação; já Claire está sintonizada com a própria vida e sua família, com os pés no chão, ou na Terra como símbolo da existência humana. Mesmo que o longa obtenha bons resultados, principalmente na primeira parte e no prólogo, surgem sérios defeitos narrativos, como o induzimento para a previsibilidade no epílogo, embora seus propósitos iniciais vislumbrem alguns méritos, a inspiração esteve bem aquém do aguardado, deixando como elipses no roteiro o clímax da explosão devastadora e apocalíptica, quase sucumbe num final comercial. Eis um meio filme, apenas.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Lola



Luta das Avós

Filipinas manda para o mundo do cinema o promissor diretor Brillante Mendoza, o mesmo de O Massagista (2005), Serbis (2007) e Kinatay (2008), obtendo o prêmio de direção por este filme em Cannes. Chega pela primeira vez ao Brasil agora com o comovente Lola, com significado de avó no país de origem. Neste terceiro longa-metragem, um drama intimista onde a lola Sepa (Anita Linda- de atuação irrepreensível) vive dentro de um riozinho tomado de palafitas sobre plataformas sustentadas por estacas de madeira dentro das águas profundas, tendo acesso somente por barcos, teve seu neto assassinado pelo garoto Mateo para levar o celular; lola Puring (Rustica Carpio) é a avó do assassino, preso em flagrante e que vive amontoado com outros delinquentes numa prisão em péssimas condições.

A vovó do morto tem vários dilemas em sua vida, uma delas é ter que lidar com a morte súbita do neto e providenciar a compra de um caixão e toda a despesa do funeral, além de sustentar outro neto, uma filha e outros parentes que moram com ela. A pobreza fica escancarada e chega a ser humilhante, quando tem que sair de casa em casa pedindo esmolas para adquirir o famigerado caixão. Pede um empréstimo bancário e deixa em garantia seus cartões de crédito, tudo em nome da dignidade e do enterro justo, sem esquecer de procurar seus direitos e fazer justiça para a vítima fatal. Do outro lado tem a vovó do criminoso, uma pessoa simples que vive do comércio de rua, espécie de camelô, junto com o outro neto. Vive um dilema particular e sua angústia dolorida sem ter fim. Ao chegar em casa tem que dar comida na boca do filho mais velho, que está gravemente enfermo. Busca dinheiro e também tenta um empréstimo financeiro, viaja pelo interior em busca de recursos, numa verdadeira apoteose de dificuldades e empecilhos que vão se colocando no seu destino. Todo esforço descomunal é para indenizar a família do jovem assassinado, na extraordinária saga da busca do acordo para retirar o neto da cadeira. Nas Filipinas não existe intervenção do Estado, caso as famílias ponham fim no processo criminal, através de uma cifra indenizatória.

Além dos problemas inerentes com a ocorrência policial e as investigações no inquérito, a avó leva comida quentinha no presídio e se preocupa com as condições sub-humanas que Mateo convive no dia a dia. Os familiares da vítima não visam vantagens financeiras, nem colocam regras ou sequer exigem alguma condição que pudesse ser visto como chantagem. Os acontecimentos vão tomando corpo e forma do fato circunstancial e a análise recai no martírio de vida e da coragem das avós. As duas “lolas” se enchem de coragem e começam uma busca persistente de um novo rumo de vida. Uma luta para enterrar o neto dignamente e brilha nos seus olhos os peixes que se multiplicam no rio, como uma bela metáfora do dinheiro que buscou para aquele dia marcante do funeral e o ritual nos barcos descendo lentamente numa dor silenciosa, lembra a cena do filho morto do magnífico filme da República do Chade Um Homem Que Grita (2010), dirigido por Mahamat-Saleh Haroun, ganhador do Prêmio do Júri de Cannes de 2010. Passa pelo mais difícil, como as contrariedades e controvérsias acumuladas diariamente. A outra avó também é uma heroína e esbanja bravura, levando sua causa até as últimas consequências dentro da ética e da dignidade, exceto um esbarrão aqui e outro ali, como do troco e da sonegação da moeda de 20 por 50, bem como a venda dos presentes recebidos dos parentes distantes.

As duas vovozinhas alquebradas perambulam nas ruas, ruelas e becos de Manila, sob intermitente tempestade de uma chuvarada com ventos fortes, num aguaceiro que lembra o cenário do filme argentino Chuva (2008), de Paula Hernández, com os frenéticos buzinaços, onde pessoas andam de um lado para outro à procura de seus destinos perdidos ou desencontrados. Já o diretor segue uma linha perigosa de filmagem, onde a condução da câmera está sempre em movimento, nunca deixa em quadro parado ou fixa determinado ponto de forma estática, deixa o som sair direto dos personagens, como numa cena de videoclipe. Usa quase sempre como cenário os carros e os ônibus velhos caindo aos pedaços, numa reflexão da pobreza e miséria reinante naquele país. Às vezes torna-se cansativa a movimentação da câmera, mas não chega comprometer a obra.

A dor de viver é anestesiada pela bravura e da persistência daquelas duas anciãs, como numa simbologia da luta e do seu amor pelos netos e na insistente aproximação com as coisas bonitas da vida como objetivo final, embora os percalços e as humilhações tenham que ser derrubados, com seus efeitos nefastos e devastadores, resultantes de uma reflexão pontual, faz com que as cenas que desfilam tenham o caráter da dignidade daquelas criaturas. Mas a obstinação e a luta que travam por seus netinhos, nos remete para duas películas: uma é Poesia (2010), dirigido pelo sul-coreano Lee Chang-dong, e a outra é Mother- A Busca pela Verdade (2009), do diretor coreano Bong Joon-ho, que aproxima o realismo do fantástico e desqualifica o possível culpado, buscando no jogo de valores sua visão crítica, como na cena inicial que mostra a mãe caminhando dentro de um campo de trigo e em seguida dança uma música, fazendo gestos tresloucados e enigmáticos, que terá a extensão no epílogo. Diante das similitudes, poderá então o espectador fazer suas observações e conclusões de Lola, através destas senhoras de cabelos grisalhos que tentam provar a inocência de um deles e a outra em dar um funeral digno e conseguir a justiça.

A película filipina segue uma temática de reflexão da vida, sem apontar diretamente culpados que aparecem instintivamente nos dilemas diários, pois as vítimas são os seres humanos que vivem em más condições sociais, sem nunca perder ou esquecer as referências familiares. Um filme digno e humano pela sua regularidade, contrastando com as dores arrebatadoras das avós e suas tragédias familiares, com os fatos se intercalando no final. A busca da liberdade segue em caminhos opostos na cena final, tendo do outro lado o sentimento da justiça realizada, fazendo desta forma as maneiras sutis de suas vidas nas modestas residências que habitam, mas nunca sem deixar de buscar o prazer de viver, tornam este longa num instigante depoimento de lucidez.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Antes que o Mundo Acabe

















Caminhos da Juventude

Antes que o Mundo Acabe é uma película com produção e direção da gaúcha Ana Luiza Azevedo, em seu primeiro longa-metragem; tendo como roteiristas a mesma Ana Azevedo, Paulo Halm, Jorge Furtado e Giba Assis Brasil; na bela fotografia assinada por Jacob Solitrenick. Esta é mais uma produção da Casa de Cinema de Porto Alegre, onde a diretora foi fundadora. Obteve os prêmios de Melhor Direção de Ficção, Figurino, Trilha Sonora, Direção de Arte e Fotografia no II Festival de Paulínia em 2009.

Um instigante filme sobre as dúvidas e os caminhos que os adolescentes procuram em suas vidas futuras, com similitude em seu conteúdo de questionamento na infância em outras belas obras, tais como: Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), de Esmir Filho e o magnífico As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bodanzky. Outra busca como inspiração está na disputa da garota pelos dois amigos que se apaixonam pela mesma pessoa como em Jules e Jim- Uma Mulher para Dois (1962), de François Truffaut.

A trama, aparentemente simples, tem muita complexidade e se delineia no seu desenrolar, através do adolescente Daniel (Pedro Tergolina- de inspirada e muito boa atuação) namora Mim (Bianca Menti), uma jovem em dúvida do que quer e pretende, pois flerta com Lucas (Eduardo Cardoso), o melhor amigo de seu namorado. Surge a meia-irmãzinha tinhosa que alucina Daniel, Maria Clara (Caroline Guedes); Elaine é a mãe (Janaina Kremer) casada com Antônio (Murilo Grossi), pai de Maria Clara; o pai de Daniel é um fotógrafo (Eduardo Moreira), que não conheceu o filho, pois abandonou Elaine quando estava grávida e foi conhecer o mundo e fotografar crianças mutiladas em guerras em países conflitados.

O filme tem as características típicas do interior, onde os adolescentes andam de bicicletas, namoram nos aniversários, pegam os carros dos pais e dirigem sem carteira, tomam pileques homéricos e jogam futebol. Os objetivos de vida estão limitados aos costumes de uma bucólica cidadezinha de poucos recursos. Conhecer Porto Alegre e buscar voos maiores são sonhos que aos poucos a realidade torna-se dura e acaba por frear, como na cena em que Lucas não consegue fazer a prova por problemas disciplinares em sua cidade natal.

O aspecto sombrio é latente nos rostos, como no de Daniel que recebe as cartas do pai que vive na Tailândia, responsabiliza-se pela paternidade ausente e tenta equilibrar seu relacionamento com o filho, exaltando as virtudes da mãe e assume a culpa exclusiva pelo abandono. Manda fotos, cartas, máquina de fotografia, colete de fotógrafo, escreve e-mails, tentando uma aproximação. Na relação que está sendo aberta, o filho sente que existem outras fronteiras para serem desbravadas e seu mundo está restrito às mesmices, com poucas opções para o trabalho, bem como continuar os estudos numa universidade. É hora de botar o pé na estrada e seguir em frente.

Antes que o Mundo Acabe sugere uma metáfora da juventude e seu futuro, como a dizer que um dia isso termina e chegará o mundo adulto dos tsunamis, guerras e doenças; ficará para trás os passarinhos na gaiola da vizinha, o santo dentro do andor a percorrer a vizinhança e a vidinha pacata do interior. O longa reflete uma beleza melancólica os prazeres e desprazeres da adolescência, tendo como mote o triângulo amoroso dos três amigos que também são colegas de aula, com as enormes confusões no ambiente escolar, que mergulha na abordagem do universo juvenil das grandes paixões, os relacionamentos com as namoradinhas, os traumas da garotada e a difícil passagem para o mundo adulto repleto de preconceitos e complicações inerentes da transição, sem deixar de abordar a ausência do pai.

Também lembra o filme Em Paris (2006), de Christophe Honoré, onde os irmãos moravam com o pai, pois a mãe os abandonara para viver uma vida livre, após a morte trágica da filha; neste quem sai é o pai a ganhar o mundo, ficando a mãe cuidando dos filhos. Há referência ainda para o francês Entre os Muros da Escola (2008), de Laurent Cantet, que entre outros temas, apreciou com primazia a tentativa de expulsão de um aluno desobediente e de comportamento hostil; no longa de Ana Azevedo, o diretor quer expulsar Lucas por suspeita de roubo na escola e lhe arranca da aula abruptamente.

O vazio existencial dá lugar para as brincadeiras e os conflitos na busca da conquista da garota amada, tendo por objetivo principal ser um vencedor no contexto geral, pois assim os olhares estarão voltados para o conquistador da menina disputada, numa clara alusão da busca insistente de uma autoafirmação e uma identidade ainda debilitada. A dramaticidade dos personagens está bem condensada no roteiro, embora os hipertextos e colagens no filme sejam por vezes exagerados e desnecessários, bem ao estilo do corroteirista Jorge Furtado, que conseguiu impor com inteligência no curta-metragem Ilha das Flores (1989), mas a diretora não derrapa e segura firme sua obra inaugural, construindo e deixando sua marca.

A cineasta teve muita sensibilidade para abordar a temática dos jovens, nesta abordagem sem estereótipos da juventude, com seus anseios à flor da pele, demonstra ser promissora e com amadurecimento neste ótimo longa-metragem que faz reflexão com ternura dolorida numa temática sobre os futuros logo ali como adultos.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Gainsbourg- O Homem que Amava as Mulheres



Complexidade de Uma Rebeldia

A cinebiografia Gainsbourg- O Homem que Amavas as Mulheres começa homenageando no título o mestre François Truffaut, pelo seu filme homônimo de 1977, como também há uma outra pequena homenagem ao inesquecível cineasta Claude Chabrol, com sua pequena aparição no papel de dono de uma gravadora, tendo morrido logo após esta rápida amostragem aos seus fãs.

O filme é um achado do neófito diretor Joann Sfar, em sua estréia com longas, porém dando margens para outras possíveis realizações do mesmo porte, diante de seu talento ao dirigir este marcante filme pela emoção, sobre a vida do polêmico e contestador cantor e compositor francês, descendente de russos e de etnia judia, Serge Gainsbourg (Eric Elmosnino- de atuação antológica e irrepreensível absorção do personagem na íntegra, tendo abocanhado o prêmio de melhor ator no Tribeca Film Festival dos EUA).

O longa mostra um artista de vanguarda pelas posições nitidamente contrárias aos ditames do bom mocismo. Já na esplêndida e imaginativa abertura, logo remetida para as imagens do cantor fumando quando criança junto ao mar, ao lado de uma garotinha, sua fama de conquistador começa cedo e dá sinais de uma grande divagação, tendo em vista os hábitos contrários às normas do certo e do errado. Gainsbourg bebe e fuma à exaustão até morrer (1928-1991), tem uma vida controvertida e avessa aos princípios éticos e morais reinantes numa sociedade conservadora, de uma França dominada pela Alemanha, com as bandeirinhas enfileiradas do Nazismo espalhadas nas ruas de Paris, logo têm respostas naquele garotinho travesso que canta o hino de seu país em forma de sátira corrosiva e brinca com os soldados franceses. Sua rebeldia vem desde menino, avança pela juventude e cessa na finitude.

Demonstra insatisfação ao pai pianista que o quer torná-lo um artista, ao recusar-se peremptoriamente a tocar aquele instrumento, embora se torne um exímio artista do piano com o passar do tempo. Começa pintando quadros, mas logo parte para seu apogeu, pois é dono de uma imaginação musical como poucos, um provocador por natureza, como se fosse um mescla de Raul Seixas e Renato Russo, compõe com extrema facilidade, sempre sendo cutucado pelo alter ego travestido do irmão morto, no formato de um boneco, para tocar em frente suas composições. Tem uma posição política como se fosse um antissemita, embora descendente não prega e ainda abstém-se de divulgar a causa judia. Já nas primeiras cenas fica claro seu senso de improviso e sarcasmo, ao cantar com o coral de crianças russas, apesar de descendente, não tem nenhum conhecimento da cultura ou da língua, improvisa e o resultado fica melhor que o esperado. Também em boa parte do filme se mostra todo o amor e admiração por Charles Aznavour, sendo até repelido por alguns de fãs, que queriam ouvir músicas suas e não do ídolo em quem Serge inspirava-se.

Mas o ápice está reservado do meio do longa até o final, quando seu relacionamento se dá com Brigitte Bardot (Laetitia Casta- surpreendentemente parecida e convincente), no auge da carreira, tendo um affair e sussurrando em seu ouvido, acaba por lançar dois discos maravilhosos em 1968: Bonnie Clyde e Initials B.B. Ao pedir uma prova de amor, compôs com uma inspiração máxima a obra-prima do erotismo Je T’aime Moi Non Plus, porém não é gravada por pedido expresso de Bardot, casada na época com um grande diretor e que poderia acarretar problemas familiares. Não desiste, e entre tantos outros romances, um que se notabiliza é com a inglesa Jane Birkin (Lucy Gordon- também está muito bem no elenco), talvez seu maior amor, dando-lhe dois filhos entre eles a ótima atriz Charlotte Gainsbourg, aparecendo quando adolescente no filme, numas das estrepolias de Serge. Grava com Jane finalmente sua música maior Je T’aime Moi Non Plus, com todos os sussurros possíveis e inimagináveis, numa clara alusão ao orgasmo de um ato sexual, lançando no disco de 1969; posteriormente em 1971, outro fabuloso álbum musical Histoire de Melody Nelson viria fazer outro estrondoso sucesso. Mas em 1980 veio a separação de sua célebre companheira de todas as horas.

Outra cena comovente e arrasadora pela audácia e astúcia é na sua apresentação na Jamaica, ao cantar La Marseillaise, em ritmo de reggae, causando ira em seus desafetos, mas não perde o humor e a compostura, voltando a cantar seu hino oficial, ainda assim não deixa de satirizar na letra. Por isso foi amado e odiado, como um cantor e compositor maldito pelos franceses, pois sempre buscava inovar, embora sem um mínimo de limites, levando outras culturas para a música da França. Uma realização extraordinária onde o realismo tem mescla de fantasias, pela contundência artística e pela trajetória povoada de controversas deste compositor genial pela sua singularidade, faz desta obra uma das melhores do gênero e certamente estará entre as 10 melhores do ano, diante da aversão pelo politicamente correto, pela magnífica trilha sonora, pelo elenco impecável.

Eis um filme sensível que mostra toda rebeldia obsessiva de um artista não celebrizado em sua terra, que chora mais pela morte do cão que do pai ao falecer, numa cena comovente, deixando registrada na tela a beleza e a poesia constrastando com a dor e o sofrimento, tanto físico como da alma, inseridos num contexto de luxúria, insatisfação e os fragmentos na mente de uma ocupação em seu país, por um outro contrário a arte e a inversão retumbante e inesquecível de um povo por outra cultura. Gainsbourg- O Homem que Amavas as Mulheres é uma mini obra-prima que mostra a dor de um artista e sua paixão avassaladora pelas mulheres, num mundo corroído pelas incertezas e pelo descalabro da intolerância. Flutua num horizonte longínquo como se estivesse num paraíso de fantasmas, por isso a complexidade desta cinebiografia redentora do amor.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Namorados para Sempre



Casamento em Ruínas

O filme Namorados para Sempre (Blue Valentine- na versão original, porém teve esta lamentável e enganosa tradução no Brasil estritamente comercial) é um grande romance moderno, quase como um drama erótico, onde as relações de um casal são discutidas às ultimas consequências, mostrando toda a dor e o triste fim de um relacionamento em ruínas que se extingue a cada dia que passa, sob a direção de Derek Cianfrance, em seu segundo longa, antes dirigira Brother Tied (1998).

O longa-metragem começa com se fosse um lindo dia na vida de um casal, na companhia de sua bela filhinha à procura da cadela de estimação que teria fugido de casa, logo aparece morta numa rua deserta, já faz alusão premonitória ao desenlace dos dois jovens apaixonados em conflito. Estrategicamente a criança está à margem dos acontecimentos, sem saber direito o que está acontecendo com sua vida e com quem muito estima. A trama gira em torno de Dean (Ryan Gosling), um rapaz que trabalha como carregador de móveis, que seduz e conquista o coração de Cindy (Michelle Williams- indicada ao Oscar pela sua boa interpretação), logo irá se formar como enfermeira e trabalhará num hospital, apesar de seu sonho ficar frustrado como médica. Ainda solteiros, ela engravida e nasce a adorável garotinha Frankie, nascida por acaso e quase defenestrada por um aborto.

O filme se desenrola em flashbacks, sem ter aquelas voltas ao passado monótonas, muito pelo contrário, a tensão vai aumentando e o fio do nó irá se desatando, com as revelações e as angústias sendo literalmente expostas como vísceras, num clima que vai se construindo com todas as gradações de nuances de uma união em decomposição agonizante e que dá sinais evidentes de irreversibilidade. Namorados para Sempre traz no bojo da abordagem a neurose de um casal e seu relacionamento doentio, como na cena do motel em que Dean nega-se a praticar o sadomasoquismo da companheira que implora em estado quase catatônico. Bebem e fumam à exaustão e a “suíte da fantasia futurista” é o próprio reflexo dos dois seres desajustados no amor, à procura de uma combustão para engrenar a retomada do clímax do amor de outrora. Tudo é válido, até os requintes de jogos de sedução e dor amorosa.

Mas os ciúmes constantes de Dean não são mais suportados ou elaborados pela esposa, como na cena da crise decorrendo no vexame no hospital, com visíveis sinais de alcoolização, logo após a fuga dela da noite decepcionante, que era programada para restabelecer a harmonia no motel. Socos, pontapés, quebra-quebra e chamamento da polícia são fatores que irão minando ainda mais o idílio já instabilizado, inclusive com as ameaças de suicídio por Dean, antes de saber da gravidez involuntária. Como luzes que vão se apagando lentamente aquele grande amor da juventude, numa catarse efervescente de emoções incontidas, colocadas de forma magistral em flashbacks pelo diretor, vão corroendo definitivamente uma união totalmente conturbada, apesar de alguns contratempos no namoro, como o espancamento do rapaz por um dos pretendentes da moça disputada.

Outra situação desgastante do romance que fica evidente nas entrelinhas é o acomodamento do marido, um tanto quanto infantiloide, totalmente voltado para o lar, que contenta-se em continuar como carregador de mudanças, e a subida na escala profissional da esposa. O desnível social e as crises de ciúmes do marido que sente-se traído, irão destruindo aos poucos e pondo fim naquele deslumbrante relacionamento juvenil. O filme traz outra metáfora magnífica, como dos festejos da independência dos EUA, com fogos de artifícios colorindo o céu e simbolizando a cena da separação e da emancipação da Cindy, como na dolorida divisão de Frankie pelos pais, sem saber direito o que estava acontecendo, fica no meio do caminho, à procura de uma explicação plausível do mundo adulto e da minguada atenção lhe é dedicada.

O drama, às vezes lembra o magistral Anticristo (2009), de Lars Von Trier, porém bem mais contido e sem a contundência e a explicitude do diretor dinamarquês; também remete para as tórridas cenas de sexo de 9 1/2 Semanas de Amor (1986), de Adrian Lyne; como faz lembrar ainda o inesquecível Eu Sei Que Vou Te Amar (1986), de Arnaldo Jabor; ou ainda o episódico divórcio de um casal em Amor em Cinco Tempos (2004), de François Ozon. Mas nada se compara com a obra-prima do gênero Cenas de Um Casamento (1974), do mestre Ingmar Bergman, cineasta da alma humana e dos caminhos existencialistas. Mesmo com um título enganoso, os cinéfilos mais atentos estão se dando conta que Namorados para Sempre é um daqueles filmes marcantes e dignos de constar na galeria das obras que mergulham na alma e no âmago de seres humanos apaixonados e perturbados por fatores diversos da plena consciência.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A Última Estação



Melancólico Fim

Michael Hoffman desenvolve neste fabuloso filme A Última Estação uma trajetória com um estilo muito apropriado para descrever o crepúsculo da vida de Leon Tolstói (1828-1910). Logo no início do drama já se percebe as semelhanças evidentes com o grande cineasta russo Alexander Sokurov, embora sem o vigor e os recursos dramáticos deste, que também descrevia os momentos finais de Adolf Hitler em Moloch (1999); os derradeiros dias de Lênin em Taurus (2001); e ainda sobre o imperador japonês Hirohito na bela película O Sol (2005).

Tolstói (Christopher Plummer- de interpretação impecável e sóbria) é o célebre escritor, um dos maiores de todos os tempos, comparado a Homero, autor de Guerra e Paz, Ana Karenina e A Morte de Ivan Ilitch, tendo por lema “justiça e paz”, bem enfocado por Hoffman, com base no romance A Última Estação, de Jay Parini. Denota-se que os dias finais foram conturbados e sem o mínimo de paz, principalmente com seus familiares, em especial o seu amor avassalador pela condessa, que se tornou sua esposa Sofia (Helen Mirren), bem como tem na filha excomungada pela mãe sua aliada inconteste. Plummer e Mirren foram indicados para o Globo de Ouro e para Oscar, nas categorias de melhor ator coadjuvante e de melhor atriz, sem obterem sucesso.

Seus fiéis seguidores literários estavam quase sempre em conflito com Sofia, principalmente o fundador do movimento mundial tolstoiano de desapego de bens materiais, Vladimir Chertkov (Paul Giamanti), um exacerbado nos cuidados, com intromissão na vida particular do escritor, acusado de ser o mandante da renúncia dos bens por Tolstoi, para deixar tudo para a comunidade, teria aconselhado-o a mudar radicalmente o testamento, sem deixar nada para a família. Neste conflito flutua o sensato secretário particular Valentin Bulgákov e seu romance ardente com a bela e fogosa empregada da residência. Ele é uma espécie de assistente direto e que anota todos os movimentos finais do escritor, que se torna pobre e vegetariano, vivendo como um celibatário.

Os seguidores fiéis de Tolstói e a obsessiva vontade em torná-lo um mito, chega a beirar uma adesão religiosa, como se ele fosse uma espécie de líder espiritual que anda pregando uma seita, em contato direto com as pessoas. Tem na morte pela pneumonia adquirida de seu estado frágil de vida que leva, andando em vagões de terceira classe, sem nenhum conforto para descansar ou dormir, quando foge de seu lar no meio da noite para se alojar naquela longínqua estação de Astapovo, numa humilde casa de um funcionário, na procura iminente da tão propalada paz espiritual e seu desprendimento com as coisas materiais e sua fortuna adquirida, razão pela qual acaba se conflitando com a esposa.

Ainda que Sofia seja uma mulher extremamente materialista e pense constantemente nos direitos autorais, pois gostaria de ver passado em vida ou através do guerreado testamento, o marido quer deixar para seus seguidores do movimento tolstoiano, com a expectativa de que estes divulgarão sua obra e seus pensamentos sobre o mundo como “tudo o que sei só sei porque amo”, numa clara aversão pelas diferenças sociais sua simpatia pelo socialismo e contrário ao czarismo enraizado na Rússia por volta de 1910. Sofia sofre e acusa-o de mulherengo contumaz frequentador de cabarés, buscando em seus defeitos as razões para não deixá-lo livre para realizar a distribuição da fortuna por testamento, motivo crucial de tanta celeuma.

O diretor passa com clarividência o relacionamento do escritor com a mulher e a paixão por ela, em mais de 40 anos de casamento, tendo Sofia sempre participado diretamente com opiniões sinceras e influenciando nas obras-primas que vieram acontecer com o tempo. O conflito de ideias de um pensador mitológico com outras voltadas para o mundo material é o grande debate reflexivo na época do czarismo de um país em efervescência no século passado. A fuga de Tolstói de casa tem grande repercussão na imprensa, levando os jornalistas a acompanhar passo a passo os instantes finais do gênio em seu refúgio e a invasão da privacidade perdida. Nem morrer em paz se consegue, é o que sente o escritor, na abordagem de Hoffman.

A Última Estação fica na retina do espectador , não só pela beleza plástica magnífica de um cenário radiante, mas de um filme que retrata com sobriedade um momento histórico da humanidade. Tem méritos maiores ainda ao mostrar com imparcialidade um relacionamento controverso, mas sem nunca deixar escapar o grande amor, com o acompanhamento musical da ópera de Mozart. Um filme para ser apreciado com todo o desnudamento, sem procurar tomar partido do que é certo ou errado na relação a dois. Fica expressa na tela a reflexão da obra de um gênio que deixa seu legado para a posteridade, como sendo o mais importante e necessário para todas as gerações neste extraordinário drama de época.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Xeque Mate

















Jogo da Vida

Um outro filme que esteve no Festival Varilux de Cinema Francês está agora na Mostra de Sandrine Bonnaire, em Porto Alegre, dedicada à atriz que foi musa de Claude Chabrol e Philippe Lioret, é o bom drama de costumes Xeque Mate, tendo na direção a promissora Caroline Bottaro. Neste seu filme de estreia que segue uma linha de reflexão muito semelhante a outro sucesso atual do cinema francês Potiche: Esposa Fiel (2010), de François Ozon, tendo por tema a mulher objeto e submissa na família.

Na trama que tem como cenário a bucólica vila de Corse, bem distante de Paris, Hélène (Sandrine Bonnaire- de boa atuação e convincente no seu papel) leva uma vida apagada e obscura como faxineira numa residência colossal de um exímio jogador de xadrez, um homem recluso, o orgulhoso e sarcástico viúvo Kröger (Kevin Kline- numa interpretação surpreendentemente humana), encaminha aquela mulher de vida pacata e sem objetivos maiores para uma nova carreira, onde seu brilho logo poderá ser notado e invejado, depois de uma relação silenciosa e pragmática entre patrão e empregada. Hélène lava, passa, cozinha, faz faxinas e ainda aguenta os ciúmes de seu marido acomodado, bem como de sua filha adolescente preocupada com as diabruras do namorado e todas as suas complexidades inerentes da idade. Tem ainda uma atenta gerente no hotel em que presta serviços de camareira, que também lhe começa a cobrar pelas reclamações dos clientes que se tornam constantes ultimamente, embora antes só tivesse elogios. Sua jornada é tripla: em casa, no hotel e na residência do enxadrista.

Xeque Mate é um filme que tem muitas similitudes com o recente Potiche: Mulher Troféu. No filme de Ozon, Catherine Deneuve dá a volta por cima e se transforma numa empresária de sucesso nas negociações com os grevistas na fábrica de guarda-chuvas, vindo a se alçar com todos os méritos no mundo da política partidária, chegando a ser aclamada e eleita como deputada, enfim uma mulher que vence e tentará novos e ainda mais altos voos, deixando para trás sua condição de esposa bibelô; já neste longa-metragem de Bottaro, Hélène também se torna uma aspirante de vencedora e sua vida sem graça e medíocre, aos poucos irá apenas integrar um passado. As superações são vencidas e os obstáculos de um casamento em fase de extinção são bem colocados pela diretora como na cena em que Hélène, apesar de se produzir é rejeitada peremptoriamente pelo marido. Nem sexo existe mais e as ruínas da instituição da união afetiva entre aqueles dois são fatos inexoráveis.

A Dama é a peça mais forte do jogo, simbolicamente está no entrave da ferrenha busca da vitória, pois a obsessão daquela dona de casa, que nada mais é do que um objeto descartável, é cada vez maior pelo tabuleiro e suas peças. Todo o seu jogo e o pensamento de que não se pode errar, devendo levar o adversário à derrota por um erro mínimo qualquer, tal qual como na vida as pessoas estão sempre buscando no confronto seus objetivos que almejam para atingir a glória. De forma obstinada, sendo que a esperança e a persistência estão irmanadas, como simbolizam as peças que são estudadas minuciosamente para serem movimentadas. Bottaro fez do tabuleiro de xadrez uma bela metáfora do jogo da vida. Para se chegar a determinado lugar, pode existir a perda da realidade do dia a dia. O esposo é considerado traído pela comunidade. A busca da liberdade e o desfazimento das amarras são bem retratadas com muita eloquência e exatidão simbólica.

Mas a diretora tem alguns pecados veniais, como do exagero e na repetição dos jogos, por vezes tornando-se enfadonho e desnecessário para a continuidade do longa, parece esquecer-se sistematicamente das elipses pontuais. Embora não invalide sua obra, são defeitos de edição e montagem. Ainda assim, apresenta uma clara proposta feminista e vai até o fim com ela, deixando uma boa lição na simbologia do xadrez e um ensinamento metafórico às mulheres.

A sedução do jogo naquela cena de amor de um casal no terraço do quarto do hotel em que trabalha Hélène é o grande mote, alavancando para um desenlace final de uma mulher submissa e sem grandes propósitos, que a levam ao estrelato do esporte para sua redenção; tanto das picuinhas familiares como das intrigas da vizinhança de uma aldeia de pessoas com pensamentos pequenos e maldosos, repletos de fuxicos, preconceitos sociais e falsos moralismos. Eis um filme que se não é notável, tem seus reconhecidos méritos de profundidade reflexiva, com reivindicações coerentes para o púbico feminino, sem excluir o humanismo dos homens e sem submetê-los com chacotas fúteis, obtendo um resultado no seu todo como bem satisfatório.