quarta-feira, 30 de junho de 2010

Festival Varilux Cinema Francês (O Pecado de Hadewijch)















O Pecado de Hadewijch

Uma das surpresas positivas deste Festival Varilux de Cinema Francês foi O Pecado de Hadewijch, dirigido pelo competente e promissor cineasta francês Bruno Dumont, ao retratar a jovem da classe alta Céline (Julie Sokolowski, em interpretação impecável), que deseja ser freira e tem um envolvimento com dois irmãos muçulmanos que moram na periferia de Paris. A moça é uma católica que tem vocação, mas entra em conflito existencial ao descobrir outras religiões, percebe a fé e os conceitos de devoção contrários ao catolicismo pragmático que conhece e testa sua fervorosa e ardente obsessão, tendo como lema sua obstinação pela igreja.

Dumont revela-se um estudioso da paixão mística, ao abordar com grande sensibilidade o extremismo religioso, com um olhar crítico avassalador, tendo o diretor um papel importante na criação da personagem da conflituada garota. No centro do longa-metragem está uma devoção pelo catolicismo e a fé pelo islamismo. Esmiúça com clarividência como duas religiões têm dogmas pesados e radicais. A católica não aceita uma noviça, sob o pífio pretexto de que falta humildade, faz com que uma jovem se sinta arrogante e não merecedora de Deus. Não chega a fechar portas definitivamente, mas também não aponta e sequer esclarece aquela frágil garota de sua devoção e o seu de amor ao propalado Deus, que a Igreja sustenta como o ser maior que clama pela humildade.

Já no islamismo que acaba por envolver se involuntariamente, tem como pregação a luta armada com atos de terrorismo, deixando transparecer que com as mortes dos seus discípulos é a fonte da humildade que tanto procura para se abastecer. Chega a se converter e participar das manifestações extremadas como militante terrorista, explodindo bombas com resultados inesperados e devastadores para sua índole ingênua, diante da ignorância das raízes fundamentalistas.

O filme flui por uma dramaticidade de forma autêntica. Mostra o inevitável arrependimento que a conduz novamente para o convento, na busca da purificação que vem com uma bela cena da chuva torrencial, sendo recepcionada pelo pedreiro que cumpriu sua pena na cadeia, tendo voltado ao trabalho árduo e profícuo. Outra cena comovente é o mergulho no rio e o encontro com o rapaz regenerado que a induz para o caminho do reencontro com a vida na sua galharda busca pelo Deus que é o seu amor eterno, sem se deixar esmorecer, dando como prova maior de dedicação e perseguição absoluta do caminho almejado a sua virgindade, ainda que pareça obsoleto, porém necessário e imprescindível como grande demonstração de fé.

A contundente reflexão sobre a igreja católica e o islamismo fica evidenciado num mundo de permanente busca, em que há contrariedades em ambas as religiões que tem seus preconceitos, contradições e radicalismo. Ou se fechando dentro dos muros como faz o catolicismo, sendo espreitado pela presença marcante da morte, na impagável metáfora da cena do urubu dentro da tormenta, com a chegada de retorno da desesperada e confusa Céline/Hadewijch; bem como o questionamento sutil e implícito no confronto das agressões e os arremessos de bombas com ataques bem próximo do Arco do Triunfo pelos seguidores fanáticos islâmicos.

O longa também questiona as origens da noviça, que traz na bagagem um pai que é um Ministro de Estado e de uma mãe socialite. Ambos ausentes na educação e formação, vivem em seus palacetes frios como uma fortaleza intransponível. Céline ao adotar o nome de Hadewijch faz uma singela homenagem à sua cidade natal do interior, onde nascera, demonstrando sentimentos ainda arraigados às coisas provincianas e simples, longe da ostentação que está submersa e repudia com intensidade e ardor.

Sobra para todo mundo na película, diante do olhar forte e uma posição firme do diretor sobre os dogmas religiosos e suas aberrações ultrapassadas de proselitismos e epifanias, com o uso inadequado dos seus adeptos; ou pelo fanatismo, ou pelo radicalismo exacerbado. Debruça-se com uma visão crítica sobre a manifesta ausência paterna que aflige os jovens, como também o fizera François Ozon em O Refúgio (2009), onde a juventude está à procura de um ideal e de um objetivo de vida, bem caracterizado por Dumont neste magnífico filme que tem na bela trilha sonora um tom adequado e corrosivo sobre o fervor religioso explorado com dignidade e elegância.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Festival Varilux Cinema Francês (O Refúgio)












O Refúgio

François Ozon é um diretor consagrado na França, apesar de ser jovem, com apenas 42 anos de idade. Já dirigiu e fez sucesso com dramas, comédias, romances, tais como Sob a Areia (2000), À Beira da Piscina (2003), O Amor em 5 Tempos (2004). Seu maior sucesso, talvez tenha sido 8 Mulheres (2004), dirigindo nada mais, nada menos, todas juntas na mesma película: Fanny Andant, Catherine Deneuve, Isabelle Huppert, Emmanuelle Béart, Virginie Ledoyen e Ludivine Sagnier.

Agora em O Refúgio, com grandes atuações de Isabelle Carré e Louis-Ronan Choisy, sua temática volta-se para o drama sobre as drogas e as consequências de uma gravidez indesejada e uma maternidade em conflito com uma nefasta realidade, tendo como oposição os pais do companheiro morto por uma overdose de heroína com cocaína, em que surpreendentemente a jovem sobrevive e traz como herança o infortúnio de uma dúvida sobre seu relacionamento e as causas que levaram ao trágico desaparecimento de seu namorado, sob a ótica de desconfiança e amargura da senhora que seria sua futura sogra.

Há a promessa para que faça o aborto, sob uma condição ameaçadora e impositiva de quem não quer ser avó. Surge a aproximação do cunhado, um rapaz bissexual, embora sua opção seja para a homossexualidade, trazendo seus traumas e revelações daquele núcleo familiar em decomposição que vive, sobre sua situação precária por não ser filho legítimo, questionando a adoção. Busca na aproximação à garota dar apoio explícito, àquela figura desolada que está refugiada numa casa de praia no interior, onde o proprietário é uma velho cego, metáfora sobre um mundo obscuro e que prioriza as aparências.

Ozon faz boas referências e se aproxima seu cinema de filmes consagrados como Quatro Meses, Três Semanas e Dois Dias (2007), brilhante reflexão sobre o regime romeno, sem perder o foco do aborto. Porém, sua infuência maior neste longa está nos Irmãos Dardenne que arrasaram com três filmes sobre filhos indesejados, aborto, culpa e gravidez psicológica, como nos sensíveis e corrosivos O Filho (2002), A Criança (2005) e no extraordinário O Silêncio de Lorna (2008), que retratava ainda a imigração de uma albanesa na Bélgica. O Refúgio é um daqueles filmes de extrema sensibilidade, com cenários em lugares de beleza rara, com uma trilha sonora no ponto certo, sem perturbar os ouvidos dos espectadores. É um longa um pouco lento, não chega a empolgar, mas ainda assim tem mais méritos do que erros.

Ao retratar os problemas inerentes aos jovens, Ozon se debruça nos malefícios das drogas e a perda de um sentido objetivo da vida, tendo na origem os conflitos da família. Reflexões que também já os fizeram seus compatriotas Christophe Honoré com A Bela Junie (2008), Em Paris (2006), Canções de Amor (2007); Jonathan Demme por O Casamento de Rachel (2008); assim como O Conto de Natal (2008), de Arnaud Desplechin e na obra-prima Horas de Verão (2008), de Olivier Assayas, todas películas que mergulharam no ecossistema familiar com suas desarmonias e confrontos em momentos cruciais.

O drama capta com boa receptividade a solidão que se torna contumaz, que está presente em quase todas as cenas, como da ausência dos pais no início do filme, e logo após no velório mostra o distanciamento entre os membros familiares. Apesar de leveza no desenrolar da trama, não afasta a dramaticidade nas cenas intrinsecamente no seu bojo, bem como a estrutura do roteiro é bem elaborada com um seguimento maduro de uma direção sem subterfúgios.

O Refúgio tem a sensibiidade dos filmes que tratam da juventude perdida com seus problemas existenciais que acabam nas drogas. Decorrendo gravidez de risco e uma maternidade rejeitada, com pais se opondo drasticamente. As perdas dos valores e as opções sexuais são abordadas com sutileza, embora sem um enfoque contundente, há o refinamento e a delicadeza dos filmes franceses com seus questionamentos voltados para uma boa reflexão.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Festival Varilux Cinema Francês (8 Vezes de Pé)














8 Vezes de Pé

Um dos razoáveis filmes que passou no Festival Varilux de Cinema Francês foi 8 Vezes de Pé, dirigido por Xabi Molia, tendo no elenco principal Elsa (Julie Gayet) e Mathieu (Denis Podalydès). A comédia dramática é uma trama que envolve Elsa, mulher que busca um emprego fixo e vive de pequenos "bicos", tentando obter a guarda do filho menor, ao se separar do marido, conhece o vizinho Mathieu e compartilha suas frustrações de um relacionamento fracassado. Sua luta tenaz com o ex-marido é pela disputa judicial do garoto Ethiene com evidências de rebeldia, que resiste em aceitar a mãe que ainda tem esperanças de reconquistar e se reconciliar com o velho parceiro.

Elsa vive literalmente num carro velho, que é na realidade seu lar, pois fora despejada por falta de pagamento do aluguel, leva vários foras dos pretensos empregos que tenta sem sucesso. Já o vizinho é um atirador de arco e ex-jogador de futebol frustrado e decepcionado, também despejado e sem grandes perspectivas de vida, que trabalha com pesquisas encomendadas por grandes magazines. Os dois personagens são excluídos de uma sociedade competitiva. Encontram-se algumas vezes na floresta, numa demonstração de que a mata está mais receptiva para ambos. O roteiro leva crer para uma França em crise de trabalho e moradia, onde há nas entrelinhas a clarividência de um mundo globalizado e viril para com os que não se prepararam para enfrentar uma nova realidade de pessoas capacitadas.

Há uma bela cena no epílogo, do encontro com a bola de futebol entre filho e mãe no mar, servindo de elo de união para uma aproximação entre aquelas duas criaturas alijadas de um contexto superior de uma vida desejada por elas. Elsa mostra para Ethiene as dificuldades que o mundo reserva, beirando a uma crueldade, ao jogar várias vezes a bola nas águas turvas, fazendo-o esforçar-se para atingir seu limite físico de uma criança ainda inocente. Seu desespero para salvá-lo é o ápice da luta para vencer os obstáculos criados pela natureza, numa metáfora apropriada apesar do desafio perigoso.

O filho não é uma pessoa ruim como chega a imaginar, sequer a mãe é uma louca desvairada, pois busca a conquista a qualquer preço, diante das terríveis dificuldades de relacionamento na aproximação maternal. Falta para Elsa a estabilidade emocional e o equilíbrio financeiro, que vão com o tempo corroendo pelas entranhas sua paciência e sua obstinação de mãe. Teve a ajuda de um primo, que acaba por se complicar com sua companheira, resultando em mais problemas do que soluções.

O diretor bem que poderia ter feito algo melhor, decorrendo o título de um ditado francês, invocado por Elsa para demonstrar sua tenacidade: "sete vezes ao chão, oito vezes de pé". Faltou profundidade num tema já explorado à exaustão e com melhores resultados, pois ficou na superficialidade, andando aos trancos para um desenlace final, até certo ponto previsível e artificial para uma trama que tinha tudo para ser melhor explorada e com um acabamento digno.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O Escritor Fantasma



Campo Minado da Política

O diretor polonês Roman Polansky é um dos mais maduros e competentes em atividade, embora sua conturbada vida pessoal atrapalhe em muito seu destino no território dos EUA. Seus problemas pessoais e sua suposta dívida para com a justiça não impedem e nem devem servir de obstáculo para atenuar os efeitos de sua meritória obra cinematográfica, como fez uma articulista de uma conceituada revista de grande circulação nacional, se detendo mais na ficha policial do cineasta do que analisar, para tecer uma crítica fundamentada, ou dar alguns tênues elogios ao seu último trabalho, o excelente longa-metragem O Escritor Fantasma, que rendeu o prêmio de melhor diretor no Festival de Berlim.

O filme foi adaptado do romance do jornalista e escritor Robert Harris e trata de um ex-ministro inglês chamado ficticiamente de Adam Lang (Pierce Brosman), casado com Ruth (Olivia Williams), vivendo em semi-exílio numa ilha do estado de Maine, nos Estados Unidos, que na realidade nada mais é que as memórias do primeiro-ministro britânico Tony Blair e suas incursões desastradas e subservientes ao governo americano de George W. Bush.

Lang é criticado asperamente por uma imprensa livre, por ter autorizado a prisão e tortura de suspeitos de terrorismo, em conluio com o governo americano, exatamente como aconteceu entre Blair e Bush. Paralelamente, Lang trabalha sua autobiografia, pela qual recebeu US$ 10 milhões antes de escrevê-la. Contratado pela editora como ghost writer, McCrea morre misteriosamente. Logo tem seu substituto (Ewan McGregor), passando então a realizar suas pesquisas para terminar o livro de memórias de Lang/Blair.

A política é mostrada como uma imensa sujeira e os polos se atraem quando há interesses comuns em jogo. Lang está no meio de um verdadeiro fogo cruzado de acusações da imprensa investigativa e da comunidade inglesa. O substituto ao tentar concluir o livro começa a descobrir as falcatruas e as podridões, bem como o envolvimento de agentes da CIA, como o personagem misterioso que aparece como revelador no final (Tom Wilkinson), e as tramoias contra o Oriente Médio, com armações espúrias para sustentar governos; as ingerências para as guerras, tendo uma imensa teia de aranha que aos poucos vai se dissipando no ótimo e envolvente roteiro do suspense psicológico de O Escritor Fantasma.

Polansky realiza este filme num tom gris de tonalidade claro-escuro, buscando um frio noir que se notabilizou no magnífico Chinatown (1974), gênero bem explorado com toda elegância e frieza neste policial marcante e que deixou belos ensinamentos de uma realização notável e com fôlego até o último minuto da película, criando uma atmosfera exemplar para um final inusitado. O diretor também busca subsídios no excelente longa A Rainha (2006), de Stephen Freas, onde a figura de Blair emerge do cenário inglês para o mundial, no episódio da morte da princesa Daiana, em 1997, mostrando os bastidores da realeza logo após o acidente fatal, tendo como presença destacada o primeiro-ministro da época nos intrincados e rumorosos boatos que quase acabaram com a o governo inglês.

Em O Escritor Fantasma também se pode buscar a alinhar algumas similitudes com o belo filme nacional Budapeste (2009), baseado na obra de Chico Buarque de Holanda, onde um homem separado por dois continentes e dividido por duas mulheres, tem na fascinante viagem a descoberta da capital da Hungria, com suas peculiaridades e as situações políticas controversas e ricas de um passado sempre presente de ditadores como estátuas descendo dentro de um barco enferrujado e decadente, pelo Rio Danúbio, numa metáfora do ocaso do comunismo, contadas por um ghost writer.

Blair é mostrado no personagem de Lang, por Polansky, como um legítimo capacho subserviente, ao colocar o governo inglês à disposição e à mercê dos interesses dos poderosos fabricantes armamentistas dos EUA. O longa tem no seu estofo um suspense com pitadas bem dosadas de emoção, repletas de reviravoltas e tensões oriundas de um roteiro refinado e inteligente, numa direção precisa que segura com dignidade os desdobramentos de figuras proeminentes que se avolumam e entram em contradição no epílogo, demonstrando as diversas facetas de caráter, muitas delas por inexistirem.

O quebra-cabeças que vai sendo montado pelo ghost writer, aos poucos se dissipa numa maré de hipocrisias e interesses governamentais, bem urdido e jogado ao espectador de forma clara por Polansky, demonstrando toda sua revolta, questionando a confiança entre estes pares que têm no dinheiro e no prestígio seus passaportes, como ingredientes de poder, fama e perigo, acobertando um crime para que as situações fáticas não viessem a público. Fica a reflexão nesta retórica da política embasada no suspense, tendo o brilho eficaz e a certeza que o bom cinema voltou com este diretor fabuloso.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Um Segredo em Família



Amor Proibido

O longa-metragem francês Um Segredo em Família mexe novamente com as feridas ainda não cicatrizadas do Nazismo e a consequente ocupação na França. O diretor Claude Miller conduz com sensibilidade este drama que dilacera uma família quase que por inteira. Com um elenco de primeiríssima qualidade, onde Mathieu Amalric tem um papel secundário como o filho François, de 37 anos, embora sempre eficiente e correto na sua atuação. Baseou-se na autobiografia do psicanista Philippe Grimberg.

O filme tem por cenário ao final da 2ª. Guerra Mundial, onde François (Valentin Vigourt, menino de 07 anos) vive numa família judia aparentemente tranquila e sem maiores problemas, inventa para si um irmão e diante de sua solidão passa a imaginar o passado dos pais. No seu aniversário de 15 anos (agora o ator é Quentin Dubuis), descobre um terrível segredo que irá modificar aquela tranquilidade mentirosa: seus pais eram cunhados. A mãe Tânia (a belíssima Cécile de France) na realidade é casada- após alguns anos de amor proibido- com Maxime (Patrick Buel), viúvo da cunhada Hannah (Ludivine Sagnier). Há sequelas oriundas de uma equivocada ocupação nazista em território francês.

O Nazismo serve de pano de fundo para os confrontos amorosos, os desejos proibidos de Maxime por Tânia, ambos casados com os irmãos judeus que foram deportados e mortos na guerra. Há um jogo de palavras no roteiro bem elaborado, onde as paixões e os amores vão se entrelaçando, soçobrando algumas mentiras e poucas verdades num mundo de perseguições e em constante guerra pelo poder e o domínio, perseguindo os judeus e o brusco domínio territorial do governo de Hitler.

O cenário traz uma recriação de época impecável, embora com um roteiro de alguns deslizes, mas que não chega a comprometer, brecando com sabedoria algumas emoções que pederiam tornar-se piegas. O diretor segue uma linha contrária ao politicamente correto, pois o passado é mostrado em cores, contrastando com presente em preto-e-branco e revisitado em flashbacks, num tom acinzentado, numa bela combinação e coloração de cores.

François vai ao encontro do pai que está sumido, diante da morte súbita de seu cão de estimação, na qual assume a culpa pela perda e por sua contumaz teimosia. Lá no banco da praça, Maxime rememora seu passado, como a perda do filho- esperança de torná-lo atleta e derrotar os competidores de Hitler, numa bela cena de Olimpíada- e da esposa que amou até por aí, ambos enviados para o campo de concentração. Embora sempre achasse que o pai lhe preterisse, pois não era o símbolo do jovem forte, levou muito tempo para descobrir que os conflitos e desavenças familiares se davam mais em função do segredo mantido, pois os pais negavam com veemência a existência do irmão deportado e morto.

Ressalte-se que o mal-estar na França pela ocupação nazista já rendeu vários filmes de magnífica qualidade, tais como A Dor e a Piedade (1970), de Marcel Ophüls, O Último Metrô (1980), de François Truffaut, Lacombe Lucien (1974) e Adeus Meninos (1987), ambos dirigidos por Louis Malle, que de debruçavam sobre o conteúdo político e afastavam-se de romances proibidos, procurando se esmerar mais em desajustes comportamentais. Um dos pecados capitais de Um Segredo em Família é o afastamento da política como ponto principal, deixando se aproximar com maior intensidade o intimismo e a impossibilidade, que depois torna-se possível, de um belo e inusitado romance com lacunas e reflexos no filho François e sua dolorosa trajetória de perseguição nazista aos judeus nesta crônica familiar de perdas e descobertas. Permite ao espectador ir montando o quebra-cabeça, num experimento instigante por vezes; mas de muitos clichês, em outras.

Este longa sem exageros, mas com muitos significados e revelações no seu desenrolar, numa famíllia judia conturbada pelos fantasmas da guerra, embora não chegue a ser perturbador, fica um roteiro até inovador como das cores agindo num cenário onde a barbárie está implícita, mas há uma linearidade de um passado, dando um tom muito romanceado e quebrando a reflexão mais apurada, afastando a película de um resultado melhor, embora no todo seja boa a conclusão, ainda que haja um epílogo sem novidades e até previsível; ou que venha deixar uma perturbação instigante, ainda assim não é filme irregular, nem tampouco empolgante, mas que se somará a tantos outros melhores.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo



Monotonia na Estrada

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo é um filme que poderia ser melhor aprofundado. O diretores Marcelo Gomes e Karim Aïnouz seguem uma linha inspirada no que tem de menor em Glauber Rocha, que consolidou seu estilo, pregando: "uma ideia na cabeça e uma câmera na mão", porém sem a competência e o estilo poderoso e crítico do irrequieto e saudoso mestre brasileiro.

O longa tenta mostrar o geólogo José Renato (Irandhir Santos), mas jamais a imagem é perceptível, pois o protagonista nunca é visto, fica apenas sua voz metálica e sonolenta, por 75 minutos, martelando os ouvidos dos espectadores que conseguem permanecer até o final da torturante sessão. Sem diálogos e com uma história pífia de um funcionário estatal que está analisando a estrada e os terrenos com suas dificuldades implícitas decorrentes da natureza, vai colocando seus temores para cumprir o projeto para o qual foi designado. Fala sem parar dos óbices que estão impedindo ou que causam as controversas da realização da pesquisa.

A meta para qual o geólogo foi escalado não é fácil, tendo em vista que chegar a um consenso para atravessar todo o sertão nordestino, visando implantar um represa que alagará toda região não é das mais salutares. Se a missão para avaliar a possibilidade de autorizar o tal canal, mudando o percurso das águas do único rio, causa tamanho transtorno mental e intelectual, com a consequência da saudade da família vem superar seus objetivos, nem por isso deverá infernizar a vida da plateia com suas lorotas e lamúrias inconsequentes e descabidas, oriundas de um roteiro desorganizado e sem inspiração. Seu percurso dia e noite, por uma estrada poeirenta e árida, lamentando a falta da esposa amada, que está na capital cearense, remetendo-o para as imagens do Padre Cícero e as romarias dos fanáticos cristãos, dão a tônica monótona e sonolenta do percurso de seu trabalho excomungado.

Uma constatação é evidente, os diretores do filme se esforçam ao máximo para tentar inebriar os espectadores com uma suposta solidão mesclada com uma dor insuportável de saudade do personagem entediado. Acontece que a viagem ao avançar, o roteiro tenta convergir para uma percepção de relação de coisas em comum com os lugares por onde passa José Renato. Há a sugestão nas entrelinhas de um abandono com a sensação de vazio e isolamento, causando a viagem difícil e impregnada de morbidez, com a perda de referência familiar.

Já se viu filmes brasileiros de estradas bem mais instigantes, tais como Bye Bye Brasil (1979), esplêndido longa dirigido por Cacá Diegues, que artesanalmente captava e mostrava as imagens de um outro Brasil, pelos olhos e ações de seus três artistas mambembes. Outro longa que aborda as transformações de uma geração é Tapete Vermelho (2006), sensível homenagem ao artista Mazzaropi, aproveitando o gancho faz uma reflexão sobre as mudanças dos tempos e a permanência das lendas.

Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo andou ganhando alguns prêmios internacionais importantes, mas nem por isso está imune de críticas. É um longa com um roteiro equivocado e uma técnica de captar imagens com a câmera em movimento com distorções de imagens, como se desta forma tosca e amadora fosse captar elogios para uma possível vanguarda. Ora, isso Glauber fez há décadas. Eram outros tempos e a ditadura militar imperava neste país. Estamos no Século 21 e os tempos mudaram.

Fica a proposta absurda de um filme descartável, por ser desconexo com um cinema voltado para a arte contemporânea. Não se pode confundir evolução com retrocesso técnico e estético, pelo simples fato de uma pseudocriação como desserviço de uma escola cinematográfica que tem muito ainda que crescer no cenário mundial.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Sempre Bela



Buñuel por Oliveira

O inesquecível A Bela da Tarde (1967) é revisitado no tributo de Manoel de Oliveira a Luís Buñuel, no seu estilo formal e clássico de fazer cinema, não faltando a habitual elegância no longa Sempre Bela. O filme traz Bulle Ogier no papel de Séverine Serizy- substituindo a deslumbrante e encantadora Catherine Deneuve- que mesmo demonstrando capacidade, jamais poderá fazer esquecer a musa de Buñuel, provavelmente no maior papel de sua vida como a "Bela". Destaque também para Michel Piccoli, que faz Henri Husson, o velho amigo do marido traído com instinto sádico ao provocar a adúltera, retoma seu papel original com galhardia. Coube a Ricardo Trêpa- o Macário de Singularidades de uma Rapariga Loura- interpretar o barman que tudo ouve e já ostenta uma bagagem respeitável, apesar de sua pouca idade.

Sempre Bela é inspirado no livro de Joseph Kessel, retomando os personagens do clássico A Bela da Tarde, de Buñuel, está o resgate de quarenta anos após o furor causado na época pela película inovadora e controvertida, dirigida pelo mestre espanhol. Há um reencontro tenso da burguesa Séverine, a "Bela", que traía o esposo como prova de amor com o seu melhor amigo. Embora casual, já na troca de olhares no teatro, após terem ouvido um belo concerto de música clássica, já percebe-se toda a eloquência do centenário Oliveira ao conduzir os personagens para o jantar no hotel onde está hospedado Henri, motivo para o qual o grande segredo será ou não revelado.

Séverine é atraída para aquele lugar, diante da dúvida da revelação de sua prostituição, pois aquele homem que ainda guarda uma certa magia do passado, embora a viúva possa demonstrar uma certa culpa, as cenas vão revelando os mistérios que envolveram aqueles dois personagens e o marido morto. O jogo de cena na refeição simétrica demonstra toda a capacidade do velho Oliveira em dirigir seus atores e a competência explícita a cada movimento, como a dos garçons servindo e se retirando posteriormente; o apagar das luzes, contrastando com as velas queimando e se derretendo lentamente; a câmera estática apanhando os personagens que cruzam por ela, como da porta do hotel e depois na loja, são evidências de um diretor de cena estática e de atores em movimento.

Embora seja um filme menor, percebe-se o dinamismo de um cinema eloquente, com o poder de síntese do velho mestre num roteiro enxuto, através de cenários meticulosos, presenteando com júbilo ao seu público fiel. A jovialidade é uma constante neste diretor com mais de 100 anos, mas sempre lúcido e coerente com o que faz e apresenta, até mesmo nesta homenagem ao outro mestre Buñuel, neste Sempre Bela, nos remete ao passado e a vontade de sair da sala e procurar em outra sessão A Bela da Tarde para matar a saudade que fica claramente explícita, como uma retórica imprescindível de uma arte vilipendida, por vezes.

Este filme de 2006, reflete a beleza digna das cenas revisitadas numa Paris atual, que serviu de cenário para o longa de Buñuel com Catherine Deneuve deixando saudades. Porém, Sempre Bela serve para confundir o espectador e a pergunta continuará sendo não uma realidade, mas apenas de elemento ficcional e caracterizada ao extremo pelo humanismo e sensibilidade neste filme menor, mas atualíssimo e revigorado nas mãos do maior cineasta português de todos os tempos, que parece ter esquecido de envelhecer, deixando como legado esta experiência coerente com sua dedicação e amor pela sétima arte.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Alice no País das Maravilhas



















Espetáculo Visual

Alice no País das Maravilhas é um belo exercício de fantasia visual, que deve ser visto em terceira dimensão- 3D. Melhor ainda se for numa Sala Imax, somente encontrável em duas capitais: Curitiba ou em São Paulo, no Espaço Unibanco Pompeia, embora com o salgado preço único da bilheteria para todos os dias da semana de R$34,00, na capital paulista.

A direção de Tim Burton já qualifica e induz o espectador a ver com alegria esta fábula infantil, tendo os ótimos desempenhos de Johnny Depp como o Chapeleiro Maluco, Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha, Anne Hathaway como a Rainha Branca, Crispin Glover na pele do Valete de Copas, e a surpreendente Mia Wasikowska no papel principal de Alice, realizando um trabalho magistral.

O longa é baseado no livro de Lewis Carroll e narra a saga da jovem Alice de 17 anos que ao fugir de um casamento arranjado pelos pais, tendo como pretendente um noivo de família tradicional da aristocracia inglesa, tenta fugir do infortúnio, seguindo um apressado coelho branco que observa o relógio metodicamente, cai dentro de um buraco aberto numa raiz de uma árvore podre, estatelando-se dentro de um buraco profundo que irá dar num mundo subterrâneo e imaginário de maravilhas e dissabores, onde já estivera há 10 anos, mas nada lembra.

Alice conhece o Chapeleiro Maluco que muda seus sentimentos para com a vida, tem a ajuda do gato, do cachorro Bayard, dos dois meninos gordinhos, do coelho, do monstro; enfim de outros tantos animais que a ajudam são solidários nesta batalha épica contra a ira da poderosa Rainha Vermelha que está guerreando pelo poder contra sua irmã, a Rainha Branca.

A cena do monstro horroroso com Alice na jaula, quando esta tenta furtar a chave que lhe dará a espada mágica, nos remete para outra delirante magia do amor como do filme A Bela e a Fera (1991), produzido pelo Estúdio Walt Disney, baseado no conto clássico infantil francês dos Irmãos Grimm, com poderes mágicos de ilusão de ótica e entretenimento para a garotada e os mais crescidinhos.

A magia de assistir com interesse subliminar Alice no País das Maravilhas está justamente no extraordinário visual e a aproximação da tela junto ao espectador, registrando quase que um choque com os atores, fruto da tecnologia avançada hoje encontrada com singular propriedade nas salas Imax, embora possa ser percebido com quase mesmo efeito da magnitude sísmica em 3D, como se fosse captada da energia de um brilho de uma estrela da constelação. Deve ser usado sempre os óculos que darão o efeito perceptível imaginário e notável de um cinema moderno e atual.

Evidentemente que o enredo e o roteito têm quase que uma análise secundária, embora indispensável o questionamento, mesmo quando se trata de um inovação cinematográfica, assim como já foi bem discutida com boa aceitação no ficção científica Avatar (2009), de James Cameron, longa que traz bastante similitude com Alice no País das Maravilhas, pois também se percorre pelas florestas de Pandora, liderando desta feita os soldados com uma tecnologia que permite que seus pensamento sejam aplicados no corpo do Avatar.

A fábula mágica infantil de Burton encanta pelo visual e pela inigualável fotografia, com um colorido que se entranha e faz os sentidos do espectador chegarem ao êxtase imaginário da estética plástica abundante que se desenrola pela tela e nos efeitos visuais com características de interação com a plateia.

Não é um filme voltado exclusivamente para o público infantil, mas para ser apreciado também pelos pequeninos, bem como pelos adultos de todas as idades e classes sociais. O encantamento não tem limites nas pessoas e os efeitos causam uma terapia na alma inimaginável, pois se volta a ser criança com um saco de pipoca doce numa mão e um copo de refrigerante na outra, com direito a fotografias antes da sessão. Isso é felicidade e prazer numa sala de cinema, através de uma viagem ao gostoso mundo daqueles que são inocentes e se preparam para ingressar, mais adiante, no perverso universo da competitividade e da hipocrisia, por vezes da corrupção.

Utopia e Barbárie














Retrospectiva como Documentário

Silvio Tendler já fez algo bem melhor que este insosso Utopia e Barbárie, num misto de documentário com retrospectiva de televisão, com uma colagem de fatos e acontecimentos do início do século passado até nossos dias atuais. É um diretor bem aceito pelas esquerdas e odiado pela direita, tendo em vista seus filmes sempre voltados para personagens controvertidos e visto como comunista, como no caso de Jango (1984), um notável documentário que retrata todas as fases de um presidente da República apeado do poder pelos militares, instalando-se no Brasil a terrível ditadura de 1964, que até hoje tem suas feridas abertas e é questionada a própria Lei de Anistia. Anteriormente realizou Os Anos JK- Uma Trajetória Política (1980), que lhe rendeu bons prêmios e alguns dividendos; assim como abordou a vida de Carlos Marighella em documentário contestado pela ala direitista deste país. Também foi realizador de filmes sobre os personagens famosos como Oswaldo Cruz e Josué de Castro.

Numa espécie de revisão com retrospectiva dos tempos, Tendler traz à tona as mazelas políticas e econômicas desde a 2a. Guerra Mundial. Fala da possibilidade iminente do risco de desaparecimento dos sonhos que embalavam a juventude de sua época e de outras, através destes eventos sócio-políticos-econômicos. No bojo das entrevistas com intelectuais, políticos notórios, artistas de cinema, diretores de teatro, jornalistas conceituados, há uma clara ideia de explicar o porquê das injustiças. Embora fique uma sensação de panfleto, é inevitável deixar de reconhecer que os povos dissociados de seus governantes têm como concepção a justiça, a igualdade e a fraternidade, apesar de escaparem pela desarmonia mundial, frustrando as pretensões e fantasias daqueles que sonham com um mundo dito melhor, não fica demonstrado no documentário a coerência eficaz e plausível.

Apesar do discurso fácil da igualdade de raças, cor, credo, algo parece soar como artificial e as cenas que vão se acumulando sem uma necessária cronologia deixam uma reflexão panfletária num roteiro rápido e acelerado, parecendo ter pressa em acomodar os diversos discursos de uma retórica emblemática de retrospectos sem grandes ilusões; passando pela bomba atômica jogada pelos EUA no Japão, guerras, Diretas Já, eleições de Collor e Lula.

Utopia e Barbárie tem uma cara de manifesto sindical misturado com propaganda eleitoral, com um proselitismo ultrapassado e arcaico, numa visão caolha e desproporcional aos trabalhos já realizados pelo bom documentarista que é Sílvio Tendler, mas que desta vez errou a mão, pois tinha tudo para dar certo. Havia temas como as ditaduras na América Latina, as constantes invasões dos EUA, os movimentos de contracultura, a Guerra do Vietnã, as independências das colônias africanas e asiáticas; porém tudo abordado de forma simplória e sem profundidade, que resultaram num trabalho pífio e de pouca ou nenhuma repercussão.

Não se discute o tom ideológico, mas a forma de colagem como retrospectiva dos tempos, sem se deter e aprofundar, ficando a clara sensação de uma geleia geral ou uma salada desconexa de uma maturidade que poderia ser melhor elaborada, caso houvesse um bom senso e uma preocupação mínima com o resultado e o seu público alvo. Porém, se a pretensão era realizar um documentário para ser exibido num canal de televisão, como aqueles de final de ano, o conceito do filme já não é tão degradante e morno, nem haverá uma crítica tão contundente com relação à linguagem cinematográfica.

Mademoiselle Chambon



Conflito Existencial

Surpreendentemente o filme Mademoiselle Chambon revela-se um belo exercício da existência humana no cotidiano, abordando os conflitos familiares e as perspectivas futuras na vida de um metódico pedreiro. Bem dirigido por Stéphane Brigé, com atuações corretíssimas de Véronique (Sandrine Kiberlain) e Jean (Vincent Lindan), que já havia se notabilizado como um ator magnífico no longa francês Bem-Vindo, com direção de Philippe Lioret.

As conturbadas relações familiares começam já nas primeiras cenas, quando Jean lava os pés do pai numa cadeira, próximo de completar seus 80 anos, explode de raiva em seguida com sua mulher que quer mudar o combinado da festa e agride fisicamente um colega de trabalho. Mas seu destempero tem uma inequívoca causa: a paixão pela professora de seu filho com a consequente revelação da esposa de nova gravidez. Seus sonhos parecem ser sepultados definitivamente. A música que a professora Véronique toca está registrada em seu cérebro com a busca por uma nova vida, mas o fim da rotina cansativa se esvai e a derradeira tentativa na estação ferroviária é como um brado de derrota com o pessimismo se colocando novamente como elemento de dor e revolta, simbolizados pela mala colocada de forma abrupta no canto da casa e o silêncio inevitável do reencontro com o passado da mesmice.

As lágrimas de Jean e Véronique no carro já revelam um final sem grandes perspectivas, bem elaboradas na cena do questionamento das crianças e a resposta seca do pedreiro quanto a base a e a solidez para se construir um alicerce, elemento que se caracteriza como metáfora de uma família sem sustentação e o estremecimento diante da derrota do amor que se perpetua num cotidiano de duas pessoas que estão juntas, mas há a fragilidade de um casamento que se deteriorou pela falta de inovação.

A festa de aniversário do octagenário é uma farsa que irá se concretizar, mas haverá revelações definitivas de uma reação corroída pelo tempo, mas embalada pela bela música do violino tocada por aquela pessoa capaz de demonstrar toda sua grandeza ao desprezar o convite para dirigir a escola, diante da constatação de que podia ser a causadora da discórdia maior. Sem ter nenhuma conotação com o moralismo, o filme dá uma guinada para uma solução até previsível, mas de certa forma sem saída para os personagens conflitantes. Suas irmãs não estão mais na província, sua mãe faleceu e o peso da cobrança só aumentou junto com a falta de perspectiva.

Mademoiselle Chambon é um belo exercício existencial de uma professora dos arredores de Paris com aquele pedreiro provinciano, meio tosco, pacato, simplório, bom pai de família, porém sensível e descobridor de um mundo diferente do seu ninho pequeno e de poucas luzes; o drama interior arrebata sua generosidade e seu equilíbrio, fazendo-o repensar seu modo de viver e aparecendo seus traços de rebeldia. Os longos momentos de silêncio dos personagens demonstram toda luta interior e os questionamentos arraigados numa relação de comprometimentos com a falta de ousadia.

Enfim, se não é um notável filme, é certamente uma bela reflexão sobre o cotidiano de uma rotina que embrutece e alavanca para uma inevitável e sombria dor que atinge a alma e se espalha pelo corpo, metamorfoseando até mesmo o indivíduo simbolizador da simploriedade, no caso o pedreiro amargurado e absorvido pela fantasia de uma visão além de seu alcance, mas que deixou marcas indeléveis que romperam suas atitudes de bom moço.