segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Mostra de Cinema São Paulo (Visages, Villages)


Visages, Villages

Vem da França outro interessante filme na 41ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o documentário Visages, Villages, com direção e roteiro da dupla Agnès Varda e JR. Eles têm coisas em comum: a admiração apaixonante por imagens e o interesse pelos outros, além do questionamento sobre os lugares onde são mostradas as fotografias e a maneira como são compartilhadas e expostas, com entrevistas simples e soltas de personagens comuns do povo e sem voz, em especial as mulheres pelo perfil feminista da diretora. JR, de apenas 34 anos, é famoso por criar galerias e murais fotográficos ao ar livre, uma paixão deste artista visual brilhante. Quando os dois se conheceram, em 2015, logo deu o estalo, foram trabalhar juntos e realizar um filme no interior da França, bem longe das grandes cidades. Montaram um roteiro com um plano pré-concebido e até certo ponto aleatório e discutem o espaço de fruição da arte. Logo partiram rumo ao encontro de pessoas que são convidadas para segui-las em sua viagem no caminhão para realizar este comovente documentário road movie, que venceu o Olho de Ouro da categoria no Festival de Cannes.

A cineasta belga, naturalizada francesa, de 89 anos, que parece uma jovem pela energia abundante, é a grande homenageada deste ano na Mostra de São Paulo, em uma justa celebração deste ícone do feminismo nas telas, que teve As Praias de Agnès (2008), seu último filme e o segundo longa autobiográfico, ganhador do prêmio César de melhor documentário, com uma narrativa sensível e poética num passeio pelas praias que marcaram sua existência entre prós e contras, alegrias e dissabores, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar a vida. Além de lançar um olhar breve de lembranças do passado, não deixa de mostrar seu presente e a alegria de dizer “estou viva, e eu me lembro” e na mais bela frase do filme que resumia seu amor imensurável pela sétima arte, assevera: “o cinema é minha casa”. Prestou um belo tributo ao seu marido morto de Aids, em outubro de 1990, o inesquecível Jacques Demy, autor de obras como Lola, A Flor Proibida (1961), Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) com Catherine Deneuve e Duas Garotas Românticas (1967). Demy foi seu grande e único amor, mas quando fala dele embarga a voz, bem como ao prestar a homenagem com pétalas de flores e afirmar que é a pessoa que mais lhe faz falta na convivência diária, numa cena emocionante.

Varda é uma realizadora extraordinária e sua participação junto ao marido no antológico movimento Nouvelle Vague é uma contribuição valiosa e histórica para o cinema, ao lado de monstros sagrados como Jean-Luc Godard, François Truffaut, Marguerite Duras, Éric Rohmer, Jacques Rivette e Alain Resnais. Tem uma filmografia marcante e recheada de grandes filmes como Cleo das 5 às 7 (1962), As Duas Faces da Felicidade (1965), Teto Sem Lei (1985) e Os Catadores e Eu (2000). A diretora autoral e o muralista colocam na tela um mosaico do presente e o futuro, onde aparecem intercalados personagens com seus gatinhos de estimação; cabras com o leite sendo ordenhado manualmente para se evitar o barulho das máquinas; a voz sendo dada para três mulheres de estivadores colocarem seus pontos de vistas e ainda posarem em murais nos contêineres no local de trabalho dos maridos; a visita ao minúsculo cemitério para reverenciar Henri Cartier-Bresson, o pai da fotografia; mas há ainda o frustrante desencontro com o colega Godard, que grosseiramente a deixou esperando e não apareceu para um reencontro tão desejado, mas pouco inteligente de parte dele. Não faltou uma merecida alfinetada no veterano diretor.

Visages, Villages é uma verdadeira jornada itinerante pelas estradas em uma busca no paraíso de histórias contadas pelos outros para enriquecer com simplicidade, sutileza e sensibilidade o universo rico do cinema e seu fascínio inesgotável. Uma aula de vitalidade desta octogenária jovial acoplada com o gosto de viver intensamente, deixa sua zona de conforto em casa para se jogar numa aventura repleta de reminiscências e otimismo de uma realizadora fabulosa na companhia do talentoso fotógrafo e muralista, para dar vida a este documentário instigante desta “baixinha fofa” que mantém a alegria de viver como uma menina serelepe e altaneira. Atenta ao mundo e suas modificações e inovações, nem parece aquela garota que viu bombas explodirem da 2ª. Guerra Mundial, ao deixar Ixelles (sua terra natal), próximo de Bruxelas, e ir para a França buscar agasalho; presenciou crianças judias serem levadas para os campos de extermínio, além de outras adversidades como a prematura morte do marido, como registrou no filme anterior.

Uma vida dedicada exclusivamente ao cinema como elementos de amor e paixão pela vida e pelo que faz, que se fundem como uma simbiose com JR, neste quase ensaio em forma de apresentação dos resultados dos trabalhos realizados em torno de uma temática eclética, que desfila como a busca pelo novo e o interesse genuíno pelo ser humano, embora seja uma artista realizada com sua produção, mas que não pode parar, pois tem muito ainda para dar. Um filme delicioso e leve sobre a essência da existência, seus ensinamentos reflexivos e emoções com tiradas incríveis como: “Vai ver se eu estou lá na esquina”. Eis uma boa obra que contribui neste registro magnífico sobre a arte da criação cinematográfica com simplicidade e amor dos eficazes moradores contando suas histórias e situações típicas, registrando tudo aquilo que achavam interessante sem ter um personagem central, captando sons e as belas imagens da região com seus locais pitorescos que fundamentalmente giram em torno dos acasos e das situações genéricas e peculiares com as idiossincrasias regionais. Um cinema da pura essência.

domingo, 22 de outubro de 2017

Mostra de Cinema São Paulo (A Cordilheira)


A Cordilheira

Um filme que era aguardado com boa expectativa e não decepcionou na 41ª. Mostra de Cinema de São Paulo é este misto de drama político com familiar A Cordilheira, terceiro longa-metragem do argentino Santiago Mitre, que também é responsável pelo instigante roteiro em coautoria com o parceiro Mariano Llinás. Mitre foi roteirista dos filmes Leonera (2008), Abutres (2010) e Elefante Branco (2012), todos realizados por Pablo Trapero, fez sua estreia como diretor em O Estudante (2011), ano marcado por convulsões sociais nos EUA, Chile e na Europa, tendo abocanhado mais de 20 prêmios em festivais pelo mundo. O seu segundo longa, Paulina (2015), foi baseado no filme homônimo La Patota, de Daniel Tinayre, produção de 1961, retratando a temática da violência contra a mulher de uma maneira pouco convencional, sem ser sensacionalista, contextualizou a trama e deu luzes à história em uma reflexão mais profunda, tendo como subtema a justiça a serviço dos interesses pessoais de poderosos. O sucesso sorriu para este cineasta de apenas 36 anos, que obteve premiações de repercussão com a realização anterior em San Sebastián, Lima, Turim, Biarritz e Chicago, mas a principal láurea veio ao ganhar o troféu principal da Semana da Crítica em Cannes.

Eis um belo painel sobre os bastidores da política mesclado com os problemas pessoais de um chefe da nação que são abordados com esmero em A Cordilheira. Estão bem construídos psicologicamente pelo diretor os personagens fictícios, mas que são até bem facilmente identificáveis no cenário atual. Um retrato mordaz e bem fundamentado de uma conferência de presidentes latino-americanos na Cordilheira dos Andes, no Chile, na deslumbrante fotografia captada pelas lentes de Javier Juliá. Lá se discutem as estratégias com alianças espúrias para as geopolíticas da região num luxuoso hotel cinco estrelas. O presidente argentino recém-empossado em crise Hernán Blanco (Ricardo Darín- impecável e quase sempre ótimo em seu desempenho) enfrenta um drama que o forçará a encarar os mais intrincados conflitos das relações internacionais com seus vizinhos países. Numa situação antiética é mostrada toda a podridão dos bastidores da política e os principais componentes bem apontados no roteiro desta trama que enfoca o primeiro mandatário argentino (seria Macri?) tomando decisões que podem mudar o curso de sua vida púbica e privada para sempre, mas mesmo assim faz e joga pesado com a corrupção e os malefícios dos porões palacianos a serviço da grande farsa.

A reunião dos chefes de Estados da América Latina para discutir um projeto de aliança petroleira, mas que atrai a América Central por osmose, é recepcionada pela líder máxima do Chile, que tudo indica ser Michelle Bachelet, do México, Venezuela, Uruguai, Paraguai e o do Brasil (Leonardo Franco), apelidado de Imperador (seria Lula por ser espaçoso?), tendo em vista ser o país mais importante do Continente Sul-Americano financeiramente, além da presença de um representante dos EUA, que chega de repente para balizar os destinos e observar de perto as decisões da vizinhança e fazer ofertas indecorosas para Blanco virar o jogo e incluir os norte-americanos por tabela. Nem mesmo a filha, Marina (Dolores Fonzi- atriz de Truman, O Crítico e Paulina), escapa das tramoias do pai, embora casada, mas em fase de separação, na qual o ex-genro acusa o sogro de falcatruas na presidência, o que lhe custará muito caro, pois mexer com o poder tem um preço fatal.

A trajetória da realização é como se fosse um jogo de xadrez, com as mudanças no tabuleiro com tacadas certeiras e diretas ao ponto. Leva ao clímax somente no desfecho, pois no desenrolar do enredo gira entre as armações quase que sem saída, com os surtos psicóticos da mulher doente no hotel e a chamada com urgência de um médico que usa a hipnose como um método eficaz para trazer Marina para uma realidade, que parece não ser a mais adequada para o futuro da política do pai. Revelações do passado vêm à tona e poderá explodir um cataclismo pelos segredos guardados como fantasmas enjaulados e amordaçados, metáfora da filha vista pelo pai como um estorvo que continua sem tratamento para mantê-la alienada e ausente do núcleo familiar dos pseudolúcidos. No meio do turbilhão do processo que se desenvolve, a corrupção campeia nas cúpulas diretivas de alianças com tensões e desdobramentos escusos que os mortais ficam à mercê e sequer imaginam os resultados e o quanto lhes custarão no futuro. Abafar o escândalo que se avizinha como devastador é iminente, o que pode resultar na interdição da própria filha e calar sua precária lucidez.

Em A Cordilheira, todos os discursos daqueles homens da cúpula de líderes soam falsos, vazios e hipócritas, mas aos poucos vira uma contraditória verdade no voto derradeiro do pouco carismático presidente em sua busca obstinada pela manutenção do poder. Um filme que aborda os ardis inescrupulosos, torna-se cético e tem uma forte consistência de personagens com diálogos de interesses tacanhos e, às vezes, reverte e muda o rumo das expectativas que poderiam se encaminhar como soluções transparentes. Não é só uma reflexão ou crítica aos bastidores dos porões governamentais, mas o paradoxo da sutileza da mentira para fazer valer uma liderança contestada. Muitos golpes baixos e deslizes tumultuados pela falta do decoro, pois não há lugar para ingênuos e bonzinhos. O maquiavelismo está explícito onde “os fins justificam os meios”, parece ser copiado com maestria do livro O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, criador do verdadeiro manual da política. O longa cumpre seu papel objetivo de apresentar as falcatruas das abjetas coligações, o jogo da politicagem e a sujeira empurrada para debaixo do tapete, vender a alma para o diabo, os conflitos de lealdade e confiança e o questionamento ético na vida pública. Fica a visão doentia dos homens obcecados pelo poder e seus envolvimentos com situações escabrosas, dignas de maracutaias da melhor estirpe. Um drama sutil e objetivo na sua conjuntura temática das causas e efeitos pelas imagens com força de grande expressividade, com rostos e olhares de certa perplexidade por algumas surpresas.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Glory


Valores Corrompidos

Vem da Bulgária em coprodução com a Grécia o segundo longa-metragem dos diretores Kristina Grozeva e Petar Valchanov, Glory, presente no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça. Para contar uma triste história real, a inspiração dos realizadores veio por uma notícia veiculada na imprensa búlgara, em que um humilde operário de manutenção da rede ferroviária comete um ato politicamente correto, ao ligar para a polícia e informar que encontrou sacos com milhões em dinheiro espalhados nos trilhos dos trens, por acaso. Enquanto algumas pessoas de sua comunidade o ridicularizam, o Ministério dos Transportes quer agraciá-lo com um relógio de pulso para desviar as atenções da sociedade de um escândalo por superfaturamento na compra de vagões, com o intuito de torná-lo um herói nacional. Acontece que o objeto é de má qualidade e logo para de funcionar. É a segunda parte de uma trilogia que seguirá a proposta de transformar notícias da mídia em produção para o cinema, que começou com A Lição (2014), ao abordar sobre uma professora toda certinha de ensino fundamental de uma escola pública, que descobre um furto de dinheiro dentro da sala de aula, cria-se uma obsessão em descobrir quem foi o culpado e as justificativas que levaram os personagens para o crime.

A trama acompanha a saga de Tsanko Petrov (Stefan Denolyubov- de impecável desempenho), um trabalhador honesto com barba longa decorrente de uma promessa, de hábitos simples, mora sozinho numa aldeia rodeado de animais domésticos, que sente dificuldades de expressão pela gagueira. Ao encontrar uma pequena fortuna no seu local de trabalho, seu périplo começa com o presente recebido de péssima qualidade e com a perda de seu antigo relógio guardado no momento do tributo articulado por parte de Julia Staikova (Margita Gosheva- ótima interpretação, foi a professora de A Lição), uma ardilosa chefe do departamento de relações públicas do governo, que está mais preocupada com sua inseminação artificial para engravidar, deixando as tarefas profissionais para o marido resolver e sequer atende as ligações do outrora homenageado. Razão pela qual faz com que ele inicie uma busca intensa e sem limites pelo relógio confiscado de relevante valor estimativo por ser uma relíquia familiar, que empresta o nome ao título do longa, no qual acertava metodicamente pelo serviço telefônico de ajuste de horas.

O filme tem um roteiro enxuto e com uma narrativa direta e sem invenções mirabolantes, num tom cru, com diálogos curtos e objetivos, coloca o protagonista envolvido numa engrenagem burocrática kafkiana com pessoas perigosas que farão de tudo para afastá-lo do cotidiano, após dar um depoimento contundente num canal de televisão afirmando que o ministro fez vistas grossas para seu alerta de furto de combustíveis pelos seus colegas ferroviários nos trens estacionados. Uma poderosa denúncia de corrupção que soa como uma epidemia espalhada em países pouco democráticos que esbarram nos padrões da moral e da dignidade de pessoas que ainda sustentam com bravura a honestidade tão escorraçada em nossos dias. Eis um primoroso drama social que faz um retrato profundo dos valores éticos corrompidos num país deteriorado institucionalmente no leste europeu, como metáfora de um regime arcaico comunista em vias de extinção pelas fragilidades de uma burocracia emperrante de um sistema totalmente superado. Os cineastas colocam no meio deste turbilhão o carismático Petrov na tentativa de solucionar o seu caso particular que irá enfrentar uma série de adversidades inverossímeis que o faz questionar os limites da urbanidade, numa meditação sobre o que é certo ou errado, tendo como mote a recorrente ilicitude praticada com a anuência do alto escalão governamental em conluio com uma vilipendiada polícia e seus atos de torpeza. O epílogo é a síntese da agressividade contida no ser humano e a vingança sintomática estampada no homem oprimido em seus valores maiores pela injustiça.

Glory é um retrato digno sobre as circunstâncias relevantes que levaram o personagem central para uma verdadeira teia de aranha na armação de seus fios condutores, no qual o emaranhado de desculpas, farpas e acusações incriminatórias o leva para seu retiro à espera do bote final. O diploma honorário recebido foi outro repugnante blefe inquietante. O embrião fecundado contrasta com o novo visual do protagonista e suas marcas relevantes pelas cicatrizes advindas da atrocidade da força do poder e da violência desmesurada. São metáforas de uma nação integrante da antiga cortina de ferro dentro de um continente em crise sócio-econômica. A ética e o bom senso estão literalmente estraçalhados por um motivo maior e enobrecedor do ferroviário com seu olhar fulminante, aspecto sombrio e dolorido, com um gesto de defesa dos atribuídos fatos indignos que o perseguem, deixa a imaginação retumbando no olhar do espectador agoniado e envolvido pela luta tenaz e desesperada de nosso anti-herói para manter a dignidade apesar de tudo.

Um drama minimalista na essência da produção, com foco nos problemas universais, num cenário que contrasta o urbano com o abandono rural, através de uma narrativa de realismo seco, com momentos de um clímax de suspense pela surpresa sequencial, bem construída na cena da vida comum de uma pessoa conflitada pelas situações alheias ao desejado. A dupla Grozeva e Valchanov se debruça nos valores éticos degenerados pela corrupção sem controle. Um mergulho profundo sobre a doença sistêmica de uma crise sem precedentes e as consequências nefastas da humilhação que arrasará com o objetivo mínimo de uma pessoa íntegra como símbolo alegórico de um Estado desatento de suas obrigações precípuas e inerentes para com seus filhos e a opressão de classes mais pobres. São elementos notáveis deste magnífico drama pelos questionamentos e a exposição do processo burocrático que remete para uma reflexão imparcial e impactante, com um desfecho revelador.

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Como Nossos Pais


A Família

Laís Bodanzky é um diretora atenta às circunstâncias e às reflexões de todas as idades e à intolerância civilizatória. Assim foi com o ótimo Chega de Saudade (2008) que procurava retirar o peso da terceira idade, mas com muita sutileza e doçura demonstrava todos os seus problemas inerentes à velhice e o tempo que se esvai lentamente, deixando recordações mescladas com mágoas e lembranças saborosas da vida. Em Bicho de Sete Cabeças (2000), debruça-se sobre o sistema que devora a presa, corroendo todas as suas fragilidades e virtudes encobertas por nuvens negras refletidas das drogas, numa metáfora magnífica realizada no conflito do pai com o filho drogado. As Melhores Coisas do Mundo (2010) retrata os prazeres e desprazeres da adolescência, onde um jovem vê seu pai se separar da mãe e assumir a homossexualidade, motivo este que lhe trará enormes desavenças no ambiente escolar, sofre bullying dos colegas que têm atitudes agressivas pela violência explícita e hostis como o isolamento na turma, surgindo claramente o preconceito sexual, num mergulho no universo juvenil das grandes paixões, os relacionamentos com as namoradinhas, os traumas da garotada e a difícil passagem para o mundo adulto repleto de preconceitos e complicações inerentes da transição.

O último longa da cineasta, que escreveu o roteiro com seu ex-marido Luiz Bolognesi, foi o grande vencedor do Festival de Gramado deste ano, ganhando seis Kikitos: melhor filme, direção, ator, atriz, atriz coadjuvante e montagem. Abocanhou o prêmio do Festival de Cinema Brasileiro de Paris, e teve também boa aceitação na Mostra Panorama do Festival de Berlim. Como Nossos Pais é um drama familiar sobre o neofeminismo, numa urdida trama na qual Rosa (Maria Ribeiro), 38 anos, é uma típica brasileira, classe média, que passa por momentos conturbados na sua vida particular e profissional, marcada por conflitos pessoais e operacionais. Divide seu tempo com as lidas domésticas, educa e leva as duas filhas para o colégio, sustenta o lar e tem atritos com o marido, Dado (Paulo Vilhena), um antropólogo que está quase sempre viajando em aldeias indígenas. Esta supermulher contemporânea tem seus sonhos frustrados por um emprego burocrático até ser despedida por uma confusão de um texto que pretendia escrever, que dava asas à sua imaginação fértil e redentora de uma dramaturga sufocada pelo trabalho rotineiro, inspirada na peça teatral Casa de Bonecas (1879), do dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, motivo de muitas polêmicas, mediante o teor, que denunciava a exclusão das mulheres na sociedade burguesa da época.

Um filme sobre as ilusões reprimidas e os objetivos profissionais enfraquecidos, além das dificuldades da vida matrimonial e o cotidiano numa trama simples, construído para uma reflexão sobre a rotina metódica e os aspectos da solidão familiar, o desfortúnio do amor, a mesmice diária atordoante e as fantasias eróticas com um pai de uma coleguinha das filhas. Há menos vitórias e mais derrotas da vida banal que leva, pelos detalhes da singeleza de um turbilhão de pensamentos que povoam e permanecem para evidenciar a racionalidade de continuar lutando com dignidade. Um drama alicerçado com sobriedade pelas tintas sombrias da razão e da emoção contida dos dias que passam sem um objetivo maior no futuro do casal de pouca perspectiva. Rosa continua também sendo uma filha insegura e careta às vezes, possui uma convivência conflitada de vínculos estremecidos pelos anseios recorrentes da ligação com a arrebatadora mãe, Clarice (Clarisse Abujamra), uma mulher esforçada para derrubar as barreiras das convenções pré-estabelecidas, que descobre uma doença grave, e de quem receberá sem muita cerimônia a revelação da paternidade biológica, decorrente de uma freudiana relação beirando um clima de rivalidade entre elas. Mais um problema a ser resolvido. Quem é seu verdadeiro pai? O pai afetivo, que a criou, Homero (Jorge Mautner) é um artista plástico que também está sempre com o pé na estrada e eles têm pouco contato. O biológico é um ministro de Brasília que não quer aproximação ou estreitar laços, para não ser prejudicado em seu cargo e sua família.

O realismo está presente nos gestos e atitudes pelas imagens e diálogos reveladores da realizadora. Assim foi nas obras anteriores, tanto no relacionamento de pai e filho com as drogas; como falar da terceira idade, sem criar clichês constrangedores, nem glamorizar por uma retórica falsa de melhor idade, afastando-se deste ardil com sabedoria; na abordagem sem estereótipos da juventude, com suas agonias à flor da pele. Demonstra estar cada vez mais madura, ao retratar uma sociedade que ainda dá pouca importância na valoração da mulher no contexto da sociedade. Como Nossos Pais tem intensidade e luz própria no vigor do enredo, mas simplifica no simbólico desfecho em aberto, ao remeter para o clássico romance Dom Casmurro, de Machado de Assis: Capitu traiu ou não Bentinho? Aqui os personagens se invertem. Uma narrativa sem grandes invenções estéticas, que tem um bom elenco como sustentação, com destaques para Maria Ribeiro que carrega o filme na difícil tarefa de múltiplos papéis de filha, mãe e supermulher, além da ótima presença de Clarisse Abujamra. Pode não ser o melhor de Bodanzky, mas há muita sensibilidade e humanismo carreados para um questionamento verossímil na turbulência das contradições que o universo feminino sofre e carrega, estando muitas vezes num isolamento de cobranças diárias sem limites impostas pelo fechado espaço machista com reflexos no complexo núcleo familiar.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

João, O Maestro


Superação de Vida

Considerado unanimemente como um dos grandes talentos da música brasileira, o maestro João Carlos Martins volta a ser tema no drama cinebiográfico João, O Maestro, filme apresentado recentemente na abertura do 45º. Festival de Cinema de Gramado deste ano. Escrito e dirigido por Mauro Lima, um especialista em cinebiografias, foi também o realizador de Meu Nome Não É Johnny (2008) e Tim Maia (2014), no qual o sarcasmo e a vida desregrada surgiam como pilares. A história do pianista descendente de uma família de portugueses é justamente o contrário por ser solene e até moderada. Recontada novamente, depois de ser transposta para a telona no documentário A Paixão Segundo Martins (2004), pela ótica da cineasta alemã Irene Langemann, que retrata a trajetória de triunfos, grandes momentos e fracassos do músico, traz no título uma brincadeira com Paixão Segundo S. Mateus, de Bach, mostra a herança deixada na gravação completa da obra do compositor alemão, que totalizam 21 CDs.

A trama no longa brasileiro é apresentada em três fases que se intercalam em flashbacks. Davi Campolongo é o intérprete na fase de criança, quando já se mostrava um apaixonado por música clássica e um prodígio do piano com amplo domínio de notas e partituras, embora tivesse uma saúde debilitada na infância. Iniciou a carreira aos 7 anos, quando recebeu um prêmio. A partir daí, estudou e se tornou uma celebridade mundial com apresentações no Uruguai, Argentina, EUA, Bulgária, Alemanha e outros países da Europa. É vivido por Rodrigo Pandolfo quando jovem, o ótimo ator gaúcho que despontou em Elis (2015) e Minha Mãe É Uma Peça (2013), tem uma entrega irretocável pela dedicação à arte e a obsessão pelo perfeccionismo técnico do personagem retratado. A terceira e última fase é a adulta, e que tem no papel o ator global Alexandre Nero, de discreta força dramática e com um desempenho burocrático, sendo um pouco mais contido seu histrionismo.

O protagonista deslancha e firma-se como um dos maiores intérpretes e conhecedores mundiais do vasto repertório de Johann Sebastian Bach (1685-1750), músico, compositor e organista, que faz parte da tríade ao lado de Mozart e Beethoven. Martins esteve presente ao lado das mais importantes orquestras do mundo e teve contato com artistas renomados. Pandolfo dá uma sustentação ao biografado numa construção psicológica exemplar, dá vida e emoção no maior papel de sua carreira, mesmo que esteja apenas dublando, atua com uma assombrosa naturalidade, muito além da expectativa. Está perfeito ao se desreprimir sexualmente num bordel em Montevidéu, há uma boa passagem pelas festas memoráveis com mulheres e conquistas amorosas que levam ao primeiro casamento (Fernanda Nobre), os dois filhos e à separação. Mas a carreira teve de ser interrompida por causa de dois acidentes. O primeiro ocorreu em 1966, em Nova Iorque, quando joga bola com os atletas da Portuguesa de Desportos (SP) num treino em um parque, seu time do coração, uma pedra entrou em seu braço, prejudicando os movimentos da mão direita que trará sérios transtornos. Depois de um longo tratamento, voltou a tocar com esforço redobrado, apresenta-se em concertos com uma mão só. Porém, o pior acidente viria mais tarde, em 1995, na Bulgária, ao reagir a um assalto levou um golpe na cabeça, que resultou numa lesão cerebral com desdobramentos na fala e nos movimentos da mão esquerda pelas dores intensas, além das dificuldades inerentes que o levaria a abandonar a carreira por muitos anos e se dedicar a empresariar cantores e lutas de boxe.

Com a nova esposa (Alinne Moraes) surge o retorno e a reinvenção do pianista, que não desiste da música. É o começo de mais uma superação diante das precárias condições físicas para tocar piano, que se dá na Orquestra Bachiana Filarmônia de São Paulo, através do auxílio institucional do SESI/FIESP, quando é guindado a regente. O diretor, porém, se perde nesta fase que encaminha para o desfecho e quase que liquida, mas macula, a isenção da realização, ao confundir merchandising com uma agressiva propaganda explícita e desnecessária de um dos patrocinadores do drama. Ficaria de bom tamanho se fosse inserida somente nos créditos finais. Apesar da derrapada, Lima tem méritos inquestionáveis neste tributo humanista ao insuperável homem da música, por construir um cenário edificante com acerto na reconstrução de época e a trajetória pobre na infância sendo bem pontificada.

Um bom filme que oscila do intenso para um pragmatismo recorrente no epílogo, numa narrativa didática com um elenco em que há homogeneidade, inclusive nas dublagens perfeitas na história incomum do emblemático maestro. As relações atribuladas com conquistas e desfazimentos afetivos pela compulsão, os acidentes pelos azares da vida sem pieguismos, mas além de tudo, um impressionante vigor acima de tudo para superar as turbulências sem deixar o desânimo tomar conta. São circunstâncias essenciais para uma vida intensa do virtuose biografado, de altos e baixos, advindos de reveses e vitórias das armadilhas do destino e sua força para manter-se de pé nos piores momentos neste passeio de fatos verídicos que marcaram uma existência entre prós e contras, alegrias e dissabores, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar uma trajetória recheada de futilidades, dando lugar para uma saga que ainda segue o mestre enfrentando pelos infortúnios das dores físicas crônicas.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Afterimage


Arte e Política

Afterimage é o derradeiro filme do longevo cineasta polonês Andrzev Wajda, morto ano passado, aos 90 anos, em 9 de outubro, logo após o lançamento no Festival de Toronto, no Canadá, em 10 de setembro de 2016. Considerado um dos maiores diretores de todos os tempos, começou a estudar cinema depois da Segunda Guerra Mundial, na qual participou lutando com a Resistência Francesa, em 1942. Deixou um legado histórico e significativo para a sétima arte, com realizações abrangentes e muitas reflexões na construção de uma filmografia poderosa de humanismo e crítica contumaz da política repressora pela subserviência de seu país. Conquistou a Palma de Ouro em Cannes com O Homem de Ferro (1981), dirigiu os inesquecíveis Cinzas e Diamantes (1958), Terra Prometida (1974), O Homem de Mármore (1976), Danton- O Processo da Revolução (1982) e Katyn (2007). Pela trajetória de participação com quatro longas na disputa de melhor filme estrangeiro, ganhou em 2000 um Oscar honorário pelo conjunto da obra.

Sua despedida se deu em alto nível e novamente marca presença positiva com este drama biográfico, uma narrativa sem subterfúgios e com profundidade sobre a vida do pintor vanguardista Wladyslaw Strzeminski (1893-1952), nascido na Bielorrússia, mas cidadão polonês, com a estupenda interpretação de Boguslaw Linda. O cenário temporal da magnífica reconstituição de época vai de 1948 a 1952, num retrato das dificuldades físicas pela deficiência da falta de uma perna e um braço do artista, que sofre com o ódio, a crueldade e a indiferença das autoridades da Polônia, por ter batido de frente contra o cerceamento político e cultural às suas pinturas pelos soviéticos depois da II Guerra Mundial. Porém, apesar de toda a censura e castigo, torna-se um dos mais aclamados e renomados criadores do século XX.

Wajda mostra com realismo a dor e a amargura dos quadros sendo destruídos e apagados da memória de uma sociedade sufocada. O biografado sofre humilhações públicas por não conseguir emprego em lugar algum, diante de sua desobediência em aderir ao regime totalitário imposto pela extinta URSS, além da perseguição à filha (Bronislawa Zamachowska), com quem tem uma relação conturbada desde a separação da ex-esposa, também há ameaças e hostilidades diretas aos fiéis alunos da arte em seu local de trabalho. O prólogo do drama já dá indícios e evidenciam dificuldades que teria, na bela alegoria dos entraves físicos, quando rola como uma bola por um barranco abaixo para receber uma nova aluna que se juntará com o grupo de estudantes no campo da Escola Belas Artes de Lodz. Nas aulas, o seleto grupo fica atento à explicação do mestre sobre o sentido da imagem residual que permanece na visão após a versão original ser observada, dando novas cores e formas, que dá título ao longa-metragem da expressão Powidoki.

O cultuado cineasta Aleksandr Sokurov já havia retratado esta temática instigante sobre a opressão e o poder da arte em Francofonia- Louvre Sob Ocupação (2015), ao flutuar de uma simples narrativa para mesclar um docudrama, rompendo padrões clássicos na abordagem com desenvoltura e iluminar estas relações com a força dos usurpadores, através da sedução pela bela caminhada no Museu do Louvre, o singular templo edificante da civilização na preservação da história. Wajda denuncia para sugerir a interação e a aproximação, estreitando as distâncias no conjunto de aspectos peculiares, artísticos, morais e materiais de épocas dos países e das sociedades em seus falsos picos revolucionistas. Renova e não deixa margem para dúvidas no seu libelo contra os desmandos ditatoriais com um visual arrebatador da manutenção e da exaltação à arte como forma de sair da escuridão pelos caminhos mostrados como irreversíveis da resistência. Um período obscuro refletido no cinza captado nas imagens da fabulosa fotografia que dá uma conotação de uma visão dos tempos duros de imposição ferrenha aos amigos solidários, além dos alunos seguidores do artista que são jogados no ostracismo por serem resistentes à ética da preservação de um ideal sonhado.

Afterimage é um filme exemplar pela singularidade em seu contexto para celebrar o ocaso de um gênio da criação e da essência cinematográfica. Um retrato fidedigno da abrupta ocupação nazista em conluio com a Rússia que sustentou com toda a potência tirana pelo poderio bélico, subjugando seu país para o comunismo, sem deixar opção para outro regime. Strzeminski foi um dos fundadores do primeiro museu de arte da Polônia e um dos principais da Europa, mas mesmo assim não foi relevado, pois seu crime fora imperdoável, tendo em vista que as acusações se deveram pelo não engajamento cultural doutrinário para implantar o realismo preconizado pelo socialismo que alijaria o rigor estético formal sem ideologias de cunho político. O artista repelia terminantemente qualquer tipo de fusão, defendia a liberdade de expressão pela pureza da arte inspirada, refutando ideias e dogmas ditados por generais de plantão com o intuito de atrair o povo polonês para um sistema por decreto, através da burocracia dominante comandada por um vil ministro da Cultura simpático à intervenção. Uma narrativa com fôlego exemplar que foge da obviedade e amplia a universalidade do tema, que encontra sustentação no roteiro enxuto e direto de uma atmosfera que vem à tona com lucidez humanista, bem alicerçada neste vigoroso drama que encerrou a carreira com dignidade de Andrzev Wajda.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

O Filme da Minha Vida


Pai e Filho

O escritor chileno Antonio Skármeta é uma inesgotável fonte de inspiração para os cineastas e roteiristas atentos. Michael Redford levou para a telona o best-seller O Carteiro e o Poeta (1994); Fernando Trueba realizou A Dançarina e o Ladrão (2009) com base no romance O Baile da Vitória; já o conterrâneo Pablo Larraín adaptou para o cinema uma peça inédita El Plebiscito e consagrou-se com No (2012), indicado pelo seu país ao Oscar de melhor filme estrangeiro. O mineiro Selton Mello, por uma daquelas felizes coincidências da vida num encontro casual, teve sugerido pelo próprio romancista que lhe deu a ideia para adaptar seu livro Um Pai de Cinema. Era o que faltava para materializar seu terceiro longa-metragem, rebatizado de O Filme da Minha Vida, transpondo a história do interior do Chile dos anos de 1950 para a serra gaúcha, com locações nos municípios de Bento Gonçalves e Garibaldi (RS), na década de 1960, com a colaboração do roteirista Marcelo Vindicatto.

Um enredo que tem por tema a recorrente relação do núcleo familiar e o vínculo afetivo entre pai e filho, com um cenário estonteante de paisagens e brumas captadas pelas lentes do renomado diretor de fotografia Walter Carvalho. Selton segue sua trajetória intimista, como já o fizera na excelente estreia com o denso drama Feliz Natal (2008), ao abordar os vínculos de família corroídos pelo tempo e o balanço da vida do personagem principal, nas busca de reencontrar-se com o mundo. Na realização anterior, O Palhaço (2011) foi visto por mais de 1,5 milhão de pessoas, com sucesso de público e aclamado pela crítica, demonstrou todo seu talento no mergulho circense de personagens que buscam pelo interior do Brasil suas glórias e a maneira de sobreviver em um retrato fiel dos bastidores e a difícil arte de fazer rir, com ar melancólico e saudosista dos velhos palhaços. Um estilo muito semelhante na forma encontrada naquela galeria de figuras bizarras e a peregrinação pelas estradas poeirentas no paradigmático Bye Bye Brasil (1979), de Cacá Diegues, que tinha no roteiro três artistas mambembes cruzando o país, fazendo espetáculos para o setor mais humilde da população que ainda não tinham acesso à televisão.

O Filme da Minha Vida é uma trama intimista numa viagem ao passado, quando Tony Terranova (Johnny Massaro- de impecável desempenho), um jovem professor de 20 anos volta dos estudos da Capital para sua cidade natal, a fictícia Remanso, é surpreendido com a notícia de que seu pai, Nicolas (o consagrado ator francês Vincent Cassel) havia retornado para a França, seu país de origem, sob alegação de sentir falta dos amigos. Surge uma nova realidade, logo começa a lecionar para uma turma de adolescentes que, como ele, lidam com os conflitos e as inexperiências juvenis. O recém-chegado rapaz está diante da ausência daquele homem que lhe ensinou a andar de bicicleta, dar bons conselhos e, principalmente, amar o cinema acima de tudo, falando sempre de como gostar de bons filmes. As lembranças são doloridas e a saudade é imensurável e, além de tudo, observa a mãe (Ondina Clais) sofrendo em silêncio e sem dar maiores explicações sobre o abandono do marido.

Como Leon Tolstoi que ensinava: ao falar de sua aldeia estará falando do mundo, Selton desenvolve um painel romântico e enfatiza as vicissitudes da vida, a beleza de seu lugar com aparência de certa ingenuidade dos habitantes dali e as mazelas decorrentes das ocorrências naturais do cotidiano e pertinentes do ser humano. Aproxima-se de Luna (Bruna Linzmeyer), uma bela garota com quem pretende namorar, mas apenas flerta de longe na fase inicial, e que tem na estranha irmã (Beatriz Arantes), a chave do enigma que irá se desvendar no epílogo, além do vizinho e suposto amigo Paco (Selton Mello), um esquisito criador de porcos que nutre uma paixão velada pela sua mãe. É com ele que irá até o prostíbulo na cidade vizinha Fronteira para alguns fugazes momentos de prazer, onde aparece em rápidas cenas Skármeta como proprietário do bordel, ao melhor estilo Hitchcock, marcando presença. Completa o elenco o maquinista (Rolando Boldrin) e sua filosofia sobre a pressa em dar partida ao trem Maria Fumaça, com o olhar de testemunha dos fatos que pairam naquele lugar de poucos acontecimentos. Apesar de invasiva em algumas cenas, a trilha sonora é da melhor qualidade, com canções francesas primorosas, em especial, Charles Aznavour com Hier Encore e sua peculiar interpretação retratando os vinte anos; passando por Coração de Papel, com Sérgio Reis, uma antiga música que fez sucesso no início da carreira do cantor, que depois se desviou para o sertanejo.

Um filme que se debruça sobre as reminiscências e a angústia do tempo que custa a passar, com um tom nostálgico das lembranças do passado que se confundem com o presente, através de memórias e alguns flashbacks entre o pai e o filho na infância alegre, que direciona para o encontro inusitado na saída da sessão, na qual Tony assistia O Rio Vermelho (1948), o clássico faroeste do mestre Howard Hawks com o mocinho interpretado pelo lendário John Wayne. Embora esteja aquém das obras anteriores, sem uma pretensão maior como consistência de uma reflexão aprofundada, O Filme da Minha Vida é o mais disperso dos três, ainda que haja uma poética narrativa, com um elenco homogêneo em que ninguém chega a destoar, com uma fotografia esplendorosa e uma trilha que embala com deliciosas melodias. Um passeio ao passado sem pieguismos, com muitas imagens e uma visão onírica bem centrada numa fantasia de muito humanismo, doçura e um desfecho bem aos moldes dos velhos romances nostálgicos entrelaçados, sem perder a ternura para os incômodos conflitos que se sucedem, com a assinatura deste realizador que segue fazendo carreira como ator e conquista bons subsídios para uma promissora jornada por trás das câmeras com o olhar sutil para as delicadezas do microcosmo familiar.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dunkirk


Encurralados

O filme Dunkirk- a versão nacional mantém o título em inglês- foi inspirado na história verídica da Operação Dínamo, na qual houve o resgate histórico realizado no início da Segunda Guerra Mundial, para salvar cerca de 400 mil homens das tropas aliadas da Inglaterra, França, Bélgica e Escócia. Foram literalmente encurralados contra o Canal da Mancha pelas forças do exército e aeronáutica nazistas de Adolf Hitler na Praia de Dunquerque, no Norte do território francês, numa batalha feroz sem limites e de proporções gigantescas. O local é raso e só na ponta do molhe que avança mar adentro haveria alguma possibilidade de atracar os destróieres que tentam desesperadamente recolher as filas enormes dos soldados acuados e sem uma perspectiva de fugir daquele lugar inóspito, um buraco sem saída, com a morte rondando a cada minuto.

O longa-metragem dirigido com habilidade pelo britânico Christopher Nolan, o mesmo do suspense Amnésia (2000), o drama O Grande Truque (2006), a ficção científica A Origem (2010), o super-herói Batman- O Cavaleiro das Trevas (2008), e Interestelar (2014). Um cineasta adequado para a combinação de suspense e entretenimento para o cinema-espetáculo. Realiza com bastante fôlego esta superprodução de guerra, numa abordagem de muito realismo e dificuldades extremas para a missão do resgate de milhares de combatentes durante o intenso bombardeiro aéreo, problemas com a maré baixa para os navios ancorarem. O governo britânico através de seu primeiro-ministro, Winston Churchill faz um discurso eufórico ao pedir ajuda aos civis ingleses para que, solidariamente, em seus barcos particulares de pesca, iates de passeios, botes e traineiras ajudem e façam quase que uma missão impossível na praia francesa, ou seja, trazer de volta para casa os compatriotas prioritariamente, como se vê nas cenas dramáticas de sobrevivência, deixando em segundo plano os coitados dos aliados.

A história é contada em três momentos distintos e entrelaçada, no fim de maio de 1940: explora a experiência nas batalhas por terra; foca com precisão os pilotos rasgando o céu em combates e perseguições a aviões caças alemães pelos ingleses; e dá uma entonação de intensidade com muito frenesi em alto-mar, no confronto de gigantes das forças aéreas despejando bombas sobre as cabeças dos soldados da força resistente aliada, bem como a tentativa dramática de socorrer os sobreviventes dos destroços dos navios em chamas afundando. Acompanha o piloto Farrier (Tom Hardy) que precisa destruir um avião inimigo; mostra o conterrâneo civil britânico Dawson (Mark Rylance) levando seu barco de passeio para ajudar a resgatar o exército de seu país; além do jovem soldado Tommy (Fionn Whitehead) como símbolo do medo da morte e sua luta para escapar de qualquer maneira. Porém está bem aquém do inesquecível prólogo do notável O Resgate do Soldado Ryan (1998), de Steven Spielberg.

O épico faz um retrato da falta de provisões e de água potável, das dificuldades de recuperação dos feridos, a estratégia errada do local para os combates, além da preferência pela retirada dos militares britânicos, com algumas pitadas leves de crítica social aos governos da época, exceto um personagem que questiona superficialmente sobre os filhos que morrem no front por culpa de quem os empurra para lá, bem distante do arrebatador discurso feito em tom de protesto no admirável drama Frantz (2016), de François Ozon. Dunkirk está mais para um tributo respeitoso ao império britânico derrotado do que uma homenagem reverencial às vítimas das forças aliadas, ou ainda um libelo antibelicista. Embora a dor das perdas e a derrota estejam estampadas nos rostos dos heróis sobreviventes, o cineasta não deixa de dar uma patriotada no desfecho, que evidencia as pretensões da obra e seu cunho de parcialidade, com didatismo de valores da tradição e da família, como visto em Argo (2012), pelo produtor, diretor e ator Ben Affleck. Eis um filme de guerra para ser visto em tela grande, de preferência em Imax, tendo vista que foi rodado em 70 milímetros, é desaconselhável ser assistido em plataformas de streaming, que perderia em muito a qualidade do som e na grandiloquência das cenas pirotécnicas de bombardeiros por terra, mar e ar.

Demora um pouco, mas logo os personagens se cruzam em suas sagas de luta num roteiro flexível e complexo pelo clímax neurotizante sem tempo para muitas delongas, deixando o fervor do cenário se diversificar. Há poucos diálogos, muitas bombas quase que ininterruptas explodindo e corpos boiando como reflexo de uma carnificina doentia pela estupidez humana, mas com uma reflexão pálida e sem um aprofundamento das causas e com raros questionamentos. Os efeitos se sobressaem para dar um tom de cinemão para aquele espectador menos exigente com teorias e satisfeito com o resultado aterrador imposto aos seus olhos de testemunha dos fatos, sem se preocupar com as redundâncias do realizador pelo extravagante som dos ruídos dos motores confundido com a trilha sonora de um melodrama lacrimejante e da imagem repetitiva captada no meio do turbilhão. A fotografia oscila entre cores radiantes para um saturamento de uma tomada em Tecnicolor completamente ultrapassada. Uma obra com o viés politicamente correto, que quase funciona quando retrata as individualidades, mas derrapa ao negligenciar as causas políticas e econômicas que pairam da loucura dos conflitos coletivos da chacina dos mortos pela irracionalidade.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

De Canção em Canção


Sussurros e Contemplações

Terrence Malick tem por formação a filosofia e é chamado de cineasta bissexto e ermitão. Levava uma vida enclausurada e não é de dar entrevistas, raramente é fotografado e passava anos sem filmar. Perfeccionista em seu trabalho, é conhecido por rodar centenas de negativos e usa seu tempo burilando material para editar uma obra. Realizou em 2011 o fabuloso A Árvore da Vida, que lhe deu a Palma de Ouro em Cannes. Porém, ultimamente, não está deixando passar muito tempo para lançar um novo longa e já é visto em público, abandonando gradativamente a clausura. Em forma de continuidade realizou Amor Pleno (2012), filosofando sobre o amor e as paixões desencontradas, o vazio existencial e a busca pelo imaginário da completude da vida. Se no drama transcendental anterior falava sobre a ausência de Deus, interligando religião com a perda de um dos três filhos, questionando a opressão do pai, no filme subsequente reverteu a situação e fez uma verdadeira ode a Cristo pelos ensinamentos de uma padre exilado que lutava arduamente com os desígnios da vocação. Em 2015, filmou Cavaleiro de Copas, tão irregular como o antecessor, ambas as produções descartáveis.

De Canção em Canção é seu oitavo longa-metragem, uma obra com uma trama novamente experimental sobre o nada e o tudo, ou o nada sobre o nada, recheado de traições, culpas, ressentimentos e retornos às mancheias, num enredo pouco convencional que prima pela inconstância e uma indefinição estéril. O roteiro é de idas e vindas, sussurros do início ao fim, com palavras e juras de amor brotando e se dispersando com o andar da história. A abusiva narrativa em off com diálogos repletos de lugares-comuns é debilitada e logo se esvai num cenário de personagens que flutuam como zumbis à procura de algo sem muita clarividência, em que as evasivas estão preponderantes e transbordam sobre a consistência cinematográfica de uma realidade objetiva. Tanto na forma como no conteúdo há o empirismo estético e recorrente de figuras humanas flanando de um lado para outro, sem se encontrar com o que querem ou nem sabem o que procuram. Descontextualizado e solto para manejar em off com som, imagem e música, resultando numa miscelânea desastrosa de montagem que sucumbe. Faltou clímax para a realização de Malick, que se passa nos bastidores de um efervescente festival de rock e suas tendências musicais em Austin, no Texas.

O enredo foca em dois casais: os compositores Faye (Rooney Mara) e BV (Ryan Gosling), o magnata da música (Michael Fassbender) com a sonhadora garçonete Rhonda (Natalie Portman). Eles perseguem o sucesso através de um cenário de rock and roll, sedução, decepções, flertes, sexo e drogas. Os personagens se encontram e trocam de parceiros em relações livres e bissexuais numa ampla cobertura com uma bela paisagem, mas sem a essência do cinema, através de uma explanação pulverizada que carrega no artificialismo, sem vínculo com uma existência distante e completamente vazia. Interagem com seus ídolos John Lydon, Red Hot Chili Peppers, Florence Welch e Pati Smith. Tudo é falso, nada é verdadeiro. Desfilam colagens de imagens numa fotografia esplendorosa em contraluz, o corte seco num enquadramento enviesado de rios, pássaros, um céu carregado com contrastes, um templo religioso, uma lanchonete, e por aí vai. Uma pretensa ousadia, mas sem densidade dramatúrgica no contexto das cenas que se tornam áridas por ausência rítmica de elaboração plausível.

De Canção em Canção está mais próximo de Amor Pleno, do que de A Árvore da Vida, completamente distanciado dos inesquecíveis Terra de Ninguém (1973) e Cinzas no Paraíso (1978), e do extraordinário drama de guerra Além da Linha Vermelha (1998), que realizou vinte anos depois do último sucesso cultuado, retornando em 2005 com O Novo Mundo. Malick, aos 73 anos, parece ter perdido o gosto de escrever seus roteiros e filmar. Dá sinais evidentes de cansaço e está cada vez mais indolente, como demonstra nas suas três últimas realizações tediosas. São filmes com roteiros soltos embevecidos de devaneios enfadonhos que logo cairão no esquecimento. Abusa do experimentalismo e da repetitiva contemplação, um método perigoso que acaba se tornando obsoleto.

Da trilha sideral, nem o blues Rollin’ and Tumblin, tantas vezes regravado, desta vez por Bob Dylan, salva o prolixo longa da mesmice, que tem um elenco recheado de estrelas, além dos personagens principais, os coadjuvantes têm nomes conhecidos como Holly Hunter, Cate Blanchett, Bérénice Marlohe e Val Kilmer, que não conseguem dar equilíbrio e sustentar, soçobra por falta de uma direção que se mostra frouxa. Sobra pouco, ou quase nada deste drama que tinha tudo para arrebatar, mas pelo contrário, faz as salas perderem boa parte dos espectadores antes do epílogo previsível, de pouca lucidez, que prega um moralismo barato: para ser feliz tem que ter uma vida simples. É o tédio fastidioso que danifica a ideia da continuidade, causando bocejos, diante do excessivo esvaziamento da proposta. Parece ser o crepúsculo de um notável diretor que perdeu a inspiração, embora tenha inegável talento já demonstrado em sua apreciada filmografia pungente. Talvez um período sabático lhe fizesse bem para um novo ciclo de fertilidade.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Frantz


O Perdão

O prolífico cineasta francês François Ozon, nome constante em festivais como Cannes e Berlim nos últimos anos, está de volta com Frantz, uma adaptação livre da peça escrita por Maurice Rostand, que já havia sido adaptada para o cinema por Ernst Lubitsch em Não Matarás (1932). Um dos filmes mais badalados no último Festival Varilux, com sucesso de público e visto com entusiasmo pela crítica internacional. O drama histórico recebeu onze indicações ao Prêmio César, o Oscar da França, abocanhando a láurea de melhor fotografia que oscila do preto e branco nos momentos de tristeza para o colorido que pressupõe a esperança fugaz, sem a pretensão estilística, mas como um ingrediente eficiente da narrativa, e ainda agraciou com o prêmio de melhor jovem atriz no Festival de Veneza de 2016 para a bela Paula Beer, pelo seu desempenho irretocável no papel principal como Anna.

Depois dos longas O Refúgio (2009), Potiche-Esposa Troféu (2010), Dentro de Casa (2012) e Jovem e Bela (2013), o diretor constrói um painel contundente ambientado numa pequena cidade alemã, em 1919, após a desastrada Primeira Guerra Mundial, na qual a protagonista chora constantemente no túmulo de seu noivo alemão- que empresta o nome ao título da realização-, morto em uma batalha na França. Porém, num dia qualquer, encontra Adrien (Pierre Niney- magnífica interpretação), um rapaz francês que foi soldado e lutou pelo seu país, que por ironia ou compaixão, também leva flores no jazigo do suposto amigo que teria conhecido em Paris, logo após o revés da Alemanha no conflito bélico, causando repulsa e inflamando ressentimentos hostis da população dos derrotados.

Frantz acompanha e retrata com sutileza a aproximação do misterioso forasteiro e da moça condoída. Ambos sofrem pela perda da mesma pessoa, por situações diferentes e adversas, que se conhecem por acaso no cemitério e iniciam uma busca do passado e seus enigmas ocultos que aos poucos se decifram. O pai da vítima resiste em receber em sua casa um inimigo francês, mas a mãe vê com bons olhos a amizade com alguém que teria convivido com seu filho antes de sua morte trágica. Anna, que reside no mesmo teto com o sogro e a sogra, uma espécie de filha adotada por eles, faz a interação dolorida e tenta conciliar as mentiras e omitir a verdade por ser dura demais para todos. É o desencanto de uma geração que perdeu a juventude nos campos ensanguentados da guerra sem limites, alimentados pelos pais dos jovens que os incentivam e os mandam para morrer no front de forma brutal em nome da pátria, como na comovente cena do bar em que tomam cerveja e lastimam o revés, mas há o protesto como um desabafo angustiado do pai que deixa a pergunta no ar para a reflexão sobre as perdas de seus filhos, num questionamento legítimo e lúcido: Quem são os verdadeiros responsáveis?

Um drama que conta a história dura e cruel sobre a culpa e a busca do perdão dos resquícios logo após a guerra, em que dois países europeus se envolveram e perderam muitos compatriotas pela truculência exacerbada de bestiais interesses econômicos e políticos. Os momentos de prazer e alegria que teriam passado os amigos estão pontilhados em ficções como os passeios turísticos pelo Museu do Louvre e a fixação pelo quadro O Suicida (1880), de Édouard Manet. O encantamento dos pais de Frantz com o amigo estrangeiro desemboca na volta da alegria de viver, construído num imagninário falso de fantasias alegóricas como areias movediças para o esperado perdão de um segredo inimaginável. São situações criadas com esmero pelo diretor na sua versatilidade temática e o aprofundamento de questões instigantes numa trama bem urdida sobre as cinzas que pairam da loucura dos conflitos interpessoais coletivos.

Ozon se utiliza muito bem dos recursos para elaborar um cenário convincente da época em Frantz, como o trem cortando as estradas e seu uivo estridente como um silvo agudo de um animal angustiado que traz para os passageiros a melancolia e a agonia da ausência dos entes queridos próximos, simbolizado no olhar atônito e de tristeza da personagem central em sua viagem em busca da verdade e das revelações que lhe aguardam na aristocrática família francesa, bem como as causas e efeitos que proliferam para o remorso que acompanha o ex-soldado. Não há vítimas e nem algozes, todos são culpados e responsáveis pela chacina dos mortos numa guerra irracional. Um filme dilacerante e imparcial pelo olhar comovente deste realizador surpreendente em seus desenlaces para um reflexivo e perturbador desfecho de muito humanismo durante o luto familiar, os traumas decorrentes, e suas alternâncias com a dignidade questionada como um fardo insustentável e pesado que tomam dimensões estratosféricas.