quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Depois da Tempestade


Laços de Família

O Festival de Cannes do ano passado teve a presença do Japão, muito bem representado pelo festejado cineasta Hirokasu Kore-eda com Nossa Irmã Mais Nova (2014). Embora aclamado pela crítica e pelo público, saiu de mãos vazias. Foi obter a recompensa pelo seu belo trabalho no Festival de Yokohama, ao ser agraciado com a premiação de melhor filme, e ainda levou o prêmio de público no Festival de San Sebastian. O festejado diretor nipônico já havia concorrido, sem êxito, à Palma de Ouro em outras duas vezes com Distance (2002) e Ninguém Pode Saber (2004). Neste ano, participou da mostra Un Certain Regard com Depois da Tempestade, mas novamente saiu sem premiação. Porém, sua consagração aconteceu na 40ª. Mostra de Cinema em São Paulo, ao ser laureado como Melhor Filme pelo Prêmio da Crítica Internacional.

Kore-eda tem uma vasta filmografia das crônicas ambientadas na classe média baixa de seu país, dá um mergulho no microcosmo familiar para contar histórias verossímeis do dia a dia. Observa as mudanças inerentes que acontecem com o passar dos anos, expondo as feridas não cicatrizadas para lançar luzes ao universo das distorções dos lares desagregados em ruínas, com uma temática voltada para as perdas, enigmas da vida e por consequência a morte. Abordagens estas encontradas em Depois da Tempestade, um drama suave, onde não falta singeleza e uma aparente serenidade para buscar a reconstrução dos vínculos rompidos dos laços afetivos na madrugada de uma iminente tormenta que se aproxima. Um exorcismo das almas magoadas e dilaceradas pelas circunstâncias antagônicas, como do instável e descompromissado Ryota (Hiroshi Abe), um escritor fracassado que ganha dinheiro bisbilhotando a vida dos outros, num subemprego de detetive numa agência antiética e voltada para a extorsão. O protagonista tenta se aproximar do filho pré-adolescente Shingo (Taiyo Yoshizawa) e da ex-mulher Kyoko (Yoko Maki), mas no meio do turbilhão está a carismática avó (Kirin Kiki), que coloca panos quentes na relação conturbada e faz o que pode para dirimir as desavenças.

O realizador tem como marca registrada seu olhar voltado para as transformações das gerações, numa abordagem humana e profunda sobre as relações familiares, o cotidiano das simples coisas que irão ao encontro de situações complexas e modificações relevantes. Herdou a sutileza mesclada com sensibilidade dos inspirados diretores conterrâneos como Yusujiro Ozu em Era Uma Vez em Tóquio (1953), Mikio Naruse por Midareru (1964), e o criador do cinema de animação Hayao Miyazaki com temas recorrentes da relação da humanidade com a natureza. Segue a trajetória do questionamento primoroso dos velhos mestres para mergulhar no universo peculiar das tradições da cultura japonesa. No longa Ninguém Pode Saber (2003), havia a temática da mãe ausente dos filhos e a contundente falta de afeto aos mesmos. Em Pais e Filhos (2013), retratava um drama que discutia a troca de bebês e os efeitos futuros das crianças trocadas no berçário com as revelações recebidas, num clima de tensão instalado diante do amor pelo filho de outros pais e a intolerância de um deles. Na sua realização anterior, Nossa Irmã Mais Nova, mostra a dolorosa distância de três filhas que não veem o pai há 15 anos, mas ao saberem da morte dele, resolvem ir ao seu enterro, e lá conhecerão a tímida meia-irmã.

A história é traçada com um sabor agridoce, sem ser piegas, ao deixar emergir fatos que trarão conflitos sentimentais que envolvem pais conflitados. Os personagens terão que lidar com adversidades repentinas, pois precisam tocar suas vidas e resolverem as encrencas rotineiras, como na bela cena da idosa tentando aproximar o filho da ex-mulher que se tornou fria e pragmática em decorrência do cansaço pelo ex-companheiro que não amadureceu e parece sempre estar no mundo da fantasia, como um adolescente eterno, traz no vício do jogo um estigma de seu pai, um inveterado apostador que também teve problemas com a esposa que escondia o dinheiro dentro de casa para não gastar tudo. A reaproximação é uma tentativa válida almejada, tanto do garoto como da avó. Já o bilhete da loteria que seria uma possibilidade de compra de uma confortável casa para todos morarem juntos, mas com os ventos e a chuva incessante acaba se perdendo na noite, como um prenúncio alegórico da infelicidade que se desenhava como um sonho de uma noite nebulosa. A cobrança da pensão no epílogo, com as palavras duras anteriores de que Ryota brinca de ser pai uma vez por mês, soa como uma balde de água fria.

O drama é uma síntese com delicadeza de amores desfeitos e tentativas frustradas de reconciliação. O cineasta aponta para o sofrimento do filho, o que mais sofre, ao ser usado como um joguete nas mãos dos pais. O diretor é incisivo e pessimista no desfecho da trama, mas retrata o jogo de interesses dos adultos como uma insustentável e cruel realidade a ser trilhada. A leveza é a forma adotada na narrativa linear no ponto de equilíbrio, mas o filme é sombrio e a tristeza se mescla com alguns momentos de felicidade para os componentes do núcleo familiar em extinção, embora todos os ajustes nas buscas da reconstrução que se esvaem. Um magnífico filme sobre as sutilezas do amor rompido e dos laços de ternura com seus vínculos esboroados, mas que tem na doçura da avó com sua culpa e confissão para a ex-nora uma cena comovente de desabafo, neste drama familiar bem estruturado num roteiro enxuto, com uma trilha sonora equilibrada, sendo ambientado em belas paisagens bucólicas de uma fotografia fascinante. Emociona sem ser intenso pela complexidade da relação entre as partes envolvidas. Uma reflexão madura sobre as dúvidas, anseios, o amor fraterno com sua força inerente, para alicerçar as ruínas sendo reconstruídas com exemplar magnetismo de beleza lírica nas relações de afetividade e suas profundas sequelas deixadas silenciosamente.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Cinema Novo


Resgate e Tributo

Vencedor da premiação paralela Olho de Ouro no Festival de Cannes deste ano, o instigante documentário Cinema Novo conta a história do mais relevante movimento cinematográfico brasileiro, ocorrido nos anos de 1960, que projetou nosso país no universo mundial. São 90 minutos de pura magia e beleza apresentado pelo diretor Eryk Rocha, 38 anos, filho de Glauber Rocha, um dos idealizadores e divulgadores exponenciais de uma era artística que já merecia o resgate, tendo em vista que foi importante para nossa autoestima, bem como para a evolução de nosso cinema, com imagens poderosas de clássicos de arquivos e trechos de 130 filmes, como Rio, 40 Graus (1955), Vidas Secas (1963), Terra em Transe (1968), Macunaíma (1969), entre tantas realizações agora homenageadas para não cair no esquecimento e reativar a memória, através da rigorosa montagem poética de Renato Vallone.

Diretor de Rocha que Voa (2002), Transeunte (2010) e Campo de Jogo (2015), Eryk Rocha recupera entrevistas de cineastas que estiveram envolvidos e consagraram o movimento homônimo, tais como: Gustavo Dahl, Mário Carneiro e Paulo Cezar Saraceni, apenas pelas suas vozes, pois ao ser montado o filme, o realizador optou em não colocar imagens atuais deles por já serem falecidos, exceto as antigas. É feito um estudo profundo e vai até os primórdios da história cinematográfica brasileira para evoluir até o Cinema Novo, traz para subsidiar O Limite (1931), de Mário Peixoto. Faz uma saudação especial ao pioneiro Humberto Mauro, falecido em 1983, para chegar até os expoentes Ruy Guerra, Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, David Neves, Walter Lima Jr., Orlando Senna, Geraldo Sarno, Alex Viany, Arnaldo Jabor, Cacá Diegues, Zelito Viana e o crítico  Paulo Emílio Salles Gomes, até chegar a Luiz Carlos Barreto, o maior produtor em atividade, mas sem esquecer e ter um carinho todo especial com o pai, Glauber Rocha, e sua célebre frase: “Uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, numa defesa intransigente da utilização dos meios de produção artística a serviço da transformação social.

Cinema Novo dialoga com as novas gerações,mas sem esquecer da velha guarda que acompanhou e prestigiou aquela fome por inovar o cinema brasileiro. É um fascinante tributo de amor e paixão pelas cores verdes amarelas transformadas em anseios e dificuldades, às vezes regionalizadas, em outras universais como os temas reivindicatórios de uma nação que foi sufocada pelo Ato Institucional nº. 5, o abominável AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968, pelo duro golpe da ditadura militar. Um digno retrato dos protestos nas ruas e os jogos de futebol com Garrincha como símbolo. Fala das religiões, profanando ou não, e suas implicações alienantes no contexto nacional. Um movimento que tinha, e por isto foi marcante, um grau de preocupação e engajamento com as dificuldades socioeconômicas e políticas. Tem em Antônio das Mortes com seu trágico destino de matador de cangaceiro em O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969), de Glauber Rocha, vencedor do Festival de Veneza, alegórico e sintetizador das realizações anteriores, como denúncia do imperialismo multinacional e das elites na manutenção do subdesenvolvimento e da pobreza brasileira.

O documentário retrata com precisão e detalhes cronológicos a evolução do cinema na essência da estética com planos, contraplanos, closes e planos sequências longos, bem como é além de tudo, uma declaração pública da construção de um legado inesquecível pelo ponto de vista político com imagens do passado até o presente, para aproximar e desvendar enigmas para o espectador mais atento e preocupado com a cultura de nosso país, tão vilipendiada e massacrada por alguns governos paraquedistas. Além de uma análise importante, prólogo e epílogo têm a mesma sequência do lendário Deus e o Diabo na Terra do Sol (1963), há uma similitude com o movimento musical no documentário Tropicália (2012), que revelou como lideranças Caetano Veloso e Gilberto Gil, a partir de 1967, do diretor Marcelo Machado, que também resgata uma fase cultural quase esquecida na história do Brasil, onde fervilhavam os festivais de músicas populares, numa época difícil na vida dos brasileiros que viviam amordaçados pelo regime ditatorial implantado, e que tinha a simpatia de Glauber Rocha ao Tropicalismo. Mostrava o realismo e a nitidez de tempos antagônicos culturalmente, com a imposição de uma censura não só dos militares como dos próprios artistas de outras matizes, que não entendiam o que estava acontecendo, mas que deixou raízes e veio para ficar, abrir cabeças fechadas e vislumbrar novos horizontes.

O Neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa estão no contexto de Cinema Novo e as influências da Europa para marcar os fragmentos que constituem o todo de nossa cinematografia brasileira. São os subsídios buscados no Exterior que alavancaram para uma evolução e um certo amadurecimento de nossos cineastas, tanto na estética como no conteúdo enriquecedor que teve como espírito objetivo para se chegar até a integração por uma geração que inventou uma nova forma de filmar e fazer cinema autoral. Uma aula de conhecimentos retirados da história para ser sorvido como uma boa reflexão de riqueza artística que está sempre se modificando para dar luzes de estímulos e recompensas. Eis um registro importante advindo de um olhar pela observação atenta de um diretor promissor neste belo filme-ensaio de coerente narrativa de uma coletânea construída com consistência e amor com marca própria.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (Morte em Sarajevo)


Morte em Sarajevo

O interessante Morte em Sarajevo foi outro filme bem aguardado e com boa expectativa de público e crítica na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo, vencedor do Grande Prêmio do Júri e do Prêmio da Crítica no Festival de Berlim, com direção e roteiro de Danis Tanovic, cineasta nascido na Bósnia-Herzegovina e criado em Sarajevo. O realizador tem em sua filmografia os prestigiados e importantes títulos do cinema do seu país, tais como: Terra de Ninguém (2001), seu primeiro longa e ganhador do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e o Prêmio do Público de Melhor Longa Estrangeiro na 25ª Mostra; também é dele o segmento Bósnia-Herzegovina do filme 11 de Setembro (2002, 26ª Mostra); O Inferno (2005, 29ª Mostra), Triage (2009), Cirkus Columbia (2010, 34ª Mostra), Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (2013) e Tigres (2014, 39ª Mostra).

Um drama sobre os conflitos étnicos da Bósnia, Sarajevo, Montenegro, Croácia e Sérvia que originou uma guerra civil entre os anos de 1992 a 1995. A causa foi por uma combinação complexa de fatores políticos e religiosos com um fervor nacionalista de crises políticas, sociais e segurança que se seguiu ao fim da guerra fria com a queda do comunismo na antiga Iugoslávia. Esta agitação ruidosa é o tema focado no cenário do Hotel Europe, em Sarajevo, para uma movimentada preparação para a festa de gala da União Europeia como manutenção da paz no continente, em memória do centenário do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando pelas mãos de Gavrilo Princip. Mas há um grande entrave: os funcionários do estabelecimento planejam uma greve pelos dois últimos meses de salários atrasados, o que ocasiona um verdadeiro caos que poderá levar à falência o majestoso hotel cinco estrelas hipotecado para um banco e com dívidas astronômicas. Tudo depende deste importante jantar político que não pode dar errado com a presença da mídia internacional.

Em meio ao clima tenso está uma jornalista de Sarajevo que duela ao vivo num programa de televisão com um ativista da Sérvia, sobre as causas e efeitos oriundos desde 1914, que explodiram na ferrenha luta pela separação até o fim da Iugoslávia. O choque de opiniões leva para uma disputa árdua entre os dois, tirando o programa do ar, levando para um desfecho trágico com evacuação das dependências de todos os hóspedes e convidados famosos. As consequências são as piores possíveis e se complicam ainda mais com a deflagração da paralisação, diante do desaparecimento de um líder do movimento e o envolvimento direto de uma antiga funcionária da rouparia que trará indiretamente transtornos à sua filha despedida e assediada sexualmente pelo gerente.

O longa retrata um lugar belicoso que traz angústia e medo, no qual há seguranças armados que agem violentamente para manter a ordem e resolver as questões com ferocidade. Enquanto isto, como uma panela de pressão ideológica, há uma crescente crise que aumenta as tensões, passando pela recepção, lavanderia e cozinha até chegar à direção do estabelecimento. Nesta turbulência toda ainda há um ator (Jacques Weber) dedicado no quarto mais luxuoso, parece estar alheio à realidade, porém não consegue achar o tom correto em seu ensaio solitário, embora seu objetivo maior seja a representação adequada sobre os fatos de 1914. Os três eventos distintos: entrevista, greve e encenação, irão se interligar pelos fatos ocorridos e as consequências da crise financeira e política que fervilham e atingem o ápice, tendo em vista as dificuldades de se manter aberto aquele local. Mas se as coisas não andam pela transição forçada, chama-se a segurança para na base da truculência fazer andar. São métodos enraizados de violência explícita que ainda prevalecem naqueles homens rudes que cheiram pó.

O diretor se arrisca numa crônica de fatos marcantes recentes e os acontecimentos da Primeira Guerra Mundial, com personagens discutindo abertamente as circunstâncias do atentado, para refletir sobre a divisão dos povos, em que as etnias falam mais alto. Eis uma crise evidente e inatacável diante da guerra civil que por muitos anos permeou por ali. Tudo em nome da independência e da liberdade para ter seus espaços respeitados. Mas os reflexos chegaram com o agravamento da economia europeia em decomposição pedindo socorro. O roteiro falha nas exaustivas falas em Morte em Sarajevo, como por exemplo, a longa reportagem televisiva que menciona nomes e fatos pouco conhecidos do grande público, bem como exagera no discurso vazio e repetitivo do ator em seu quarto defendendo a velha Europa. Um bom filme que tem alguns méritos ao passar a limpo a história e as consequências dos reflexos iminentes, embora excessivo no didatismo, como a alegoria do encontro e a discussão entre uma bósnia e um sérvio numa guerra sem pausa que nunca termina. Tanovic ficou devendo uma realização mais consistente e menos alegórica.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (O Apartamento)


O Apartamento

Um outro filme aguardado que correspondeu a expectativa depositada é o agradável O Apartamento, do cultuado cineasta iraniano Asghar Farhadi, que também assinou o enxuto roteiro, emprestando credibilidade para a calorosa recepção de público e crítica na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Venceu os prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Ator no Festival de Cannes. O realizador dirigiu importantes títulos, tais como: Linda Cidade (2004, 28ª Mostra), o frenético e acolhedor À Procura de Elly (2009, 33ª Mostra), vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor no Festival de Berlim; o magnífico, talvez o melhor filme do diretor, A Separação (2011), primeiro iraniano a ganhar um Oscar estrangeiro, Globo de Ouro e Urso de Ouro em Berlim; e O Passado (2013), realizado na França.

A trama retrata um casal de atores que se vê obrigado a sair do apartamento com rachaduras onde vivem por causa de obras inadiáveis que deverão fazer, tendo em vista as escavações no terreno vizinho que comprometeram seu prédio. Emad (Shahab Hosseini) e Rana (Taraneh Alidoosti) se mudam para um novo flat no centro de Teerã. Mas a vida deles dá uma guinada com um suposto assalto com tentativa de morte que sofre a mulher, ao deixar a porta aberta, depois de tocar o interfone, por achar que era o companheiro que estava vindo para casa. Porém os fatos irão clareando do incidente, por estar ligado à antiga moradora que era prostituta. O cotidiano do povo iraniano é abordado novamente, através de uma história simples e complexa na essência, ao adquirir grande amplitude no desenrolar da trama.

O drama intimista dos personagens em foco é esmiuçado pelo diretor em dois momentos distintos pela importância da história no contexto. A vida real e a encenação no teatro, no qual os dois fazem parte como protagonistas da peça montada, transformando ficção e realidade como exponenciais alegóricos para o desenvolvimento bem urdido do roteiro proposto. O ataque violento à vitima por um desconhecido no banheiro é uma síntese alegórica da falta de justiça e da submissão das mulheres. Emad não se conforma com o ocorrido e faz uma meticulosa investigação por conta própria, com a finalidade de descobrir o malfeitor que atacou covardemente Rana.

No longa O Passado havia uma decorrência de A Separação com muitos personagens em comum. Não visava mostrar inocentes neste painel de erros, culpas e arrependimentos, onde todos estavam interligados numa babel de confrontos e acusações. Todavia, nem mesmo o que há como elementos fortes de ligação justificam as atitudes que ficam à deriva como consequência de um regime totalitário implantado como forma de subtrair ideias e manifestações livres e com os anseios que os acompanham. A temática é consistente aos planos intimistas do cineasta que se detém na abordagem moral familiar neste confronto de questões. Assim, como também nos filmes anteriores que desenvolviam um argumento que dava importância às palavras nos diálogos numa forma bem estruturada. Nesta última realização se repete este aspecto pelo olhar realista para um país de conceitos éticos duvidosos para uma justiça plena, inexistindo atitudes certas ou erradas, bem longe do maniqueísmo de alguns realizadores, mas que mantém com brilho significativo o conteúdo contextualizado.

O Apartamento toma contornos de um clímax com direcionamento para o suspense até descobrir quem é o verdadeiro culpado. Deveria ser uma ação do Estado a ser feita pela sua competência no âmbito investigatório, mas a sugestiva temática abordada se depara com elementos de culpa em consonância com a vingança, decorrente de uma justiça arcaica, inoperante e machista. Ou seja, a polícia não é acionada pela descrença na instituição falha, descompromissada e sem nenhum crédito dos cidadãos de bem. A vida imita a ficção artística e as situações se complementam e se fundem num regime totalitário, que aparentemente dá mostras de uma certa evolução, diante de alguma liberalidade teatral, embora sempre haja o medo dos homens do governo em fechar as portas da casa de espetáculos, como é bem enfatizado pela segura direção.

O desfecho com as luzes sendo apagadas, com as cadeiras frente a frente são símbolos de um resquício frequente da inquirição sem a ampla defesa nos tribunais e nos julgamentos no Irã de uma quase inexistente justiça. Tanto no aspecto legal sem a sustentação dos pilares básicos da legitimidade dos parâmetros de uma boa defesa para uma condenação justa, se for o caso. É o que se observa pela metáfora lançada na tela. O escuro e o silêncio são elementos indispensáveis que contribuem para o drama e as angústias de imenso sofrimento que ainda restam como sombras permanentes da tortura ainda viva para todos, neste ótimo filme de Farhadi.

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (A Rede)


A Rede

A Rede é, talvez, o melhor filme da 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo. Com a estupenda direção do sul-coreano Kim Ki-duk, também autor do fascinante roteiro que sustenta uma narrativa sólida e equilibrada. Da sua filmografia destaca-se o sensível e comovente Primavera, Verão, Outono, Inverno e...Primavera (2003); depois realizou Casa Vazia (2004, 28ª Mostra), sobre um jovem sem rumo que costumava invadir casas estranhas quando os donos estavam fora, mas tudo muda quando encontra a proprietária no local; ousou de forma contundente com Pietá (2012), vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, obra vigorosa sobre a interação da família como núcleo e base contextualizada, o sadismo sem limites, o prazer pela dor, o sofrimento cruel do próximo e o papel da mãe em xeque, além do avanço brutal do capitalismo e da crise de valores.

O filme é uma aula de cinema pela maestria de um dos mais expressivos cineastas em atividade. A trama centraliza o foco num prosaico pescador (Ryoo Seung-Bum) que mora na Coreia do Norte com a mulher e uma doce criança. Mas num dia qualquer vê seu barco sofrer uma pane, após a rede se enrolar no motor, fica à deriva e vai parar em águas da Coreia do Sul, ultrapassando a fronteira dos dois países. Uma alegoria premonitória para o terrível drama que lhe espera, pois irá conhecer as profundezas do poder e os métodos de mecanismos pouco convencionais para uma nação capitalista democrática. Ao ser detido no país vizinho, é acusado de espião, passará por sessões de tortura com agressão explícita, física e psicológica. É obrigado a escrever várias vezes nos mínimos detalhes, à exaustão, o que fazia no seu país de origem. A busca do suicídio é uma tentativa desesperada de saída para escapar daquele martírio, ao relutar em dizer o que sabia, tendo vista que prestou serviços militares numa corporação do Exército.

Apenas seu segurança pessoal designado pelo governo acredita nele e cria-se uma relação estreita de cumplicidade e solidariedade. A forjada fuga não tem seu respaldo, pelo contrário, coloca-se contra e aposta na inocência de seu pupilo. O pescador conhece os encantos da deslumbrante Seul e seus avanços tecnológicos. Encontra uma prostituta em situação difícil, mas antes terá um fortuito encontro com um acusado de espionagem, que lhe passará uma missão para encontrar a filha e entregar um aparente e singelo poema. O enredo é instigante e não perdoa nenhum dos lados, fica neutro entre o capitalismo e o comunismo. Após ser submetido a severas investigações, sem provas cabais convincentes, o personagem central é enviado de volta para casa. Nestas alturas o caso já havia virado um incidente diplomático de grandes proporções entre as duas nações, com repercussão na imprensa internacional.

O drama com alta dosagem de suspense pela narrativa fiel, dura e seca, segue o caminho da dolorosa luta daquele homem simplório que perde a liberdade, mas não a dignidade até ser deportado com um motor novo no barco pesqueiro, um ursinho que recebeu de presente para dar à filha e alguns dólares do amigo guardião, o que lhe trará dissabores e mais encrencas. O calvário de tormentos continua no seu retorno tão desejado para os braços dos familiares. Novamente vira alvo de investigação por ter cedido às tentações do capitalismo, sendo mais uma vez interrogado com os mesmos, ou até piores, métodos de um ritual rigoroso, tendo que reescrever todo seu itinerário durante o período preso para averiguações e as ofertas para desertar. Até a esposa aparece com marcas da violência durante o período de ausência do marido. Nada se altera, tudo se repete e se copia. Tanto faz se é democracia ou regime de exceção, pelo olhar pessimista de Kim Ki-duk. O filme escancara a corrupção dos temidos militares norte-coreanos, que não perdem tempo em enfiar no bolso as notas verdinhas confiscadas do pescador e oriundas dos irmãos sulistas separados pela guerra.

O drama explicitado em A Rede comove o espectador como um míssil na boca do estômago, perturba pela exuberante narrativa das idiossincrasias dos governantes e seus poderes ilimitados que irão ao encontro da bestialidade humana, suplantando as feras selvagens das florestas intransponíveis. O desfecho violento, sem esperança e com tintas trágicas do indivíduo simples e honesto, como um marisco entre o rochedo e o mar, sendo a grande vítima, pois nunca mais será o mesmo, é um claro exemplo da desconstrução e da derrocada do indivíduo dentro da coletividade. A guerra entre países vizinhos afastados por um capricho de governos pedantes que deixam a arrogância sem freios invadir o universo da paz e das relações humanas civilizadas sendo atropeladas. O filme promete surpresas para o final, tendo no prólogo a cena do gancho que irá materializar a reveladora mentira dos opressores. Uma mini obra-prima que contextualiza a amargura e o pessimismo sobre as instituições cada vez mais desacreditadas.

domingo, 30 de outubro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (Para Onde, Senhora?)


Para Onde, Senhora?

A Índia está de volta cinema indiano está de volta à 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo com Para Onde, Senhora?, direção e roteiro da cineasta alemã Manuela Bastian, nascida em Munique, estudou artes em sua cidade natal e na Academia de Cinema Baden-Württemberg. Em 2011, viajou à Índia e completou o primeiro documentário Pink Struggle. Também dirigiu os curtas Sandy Lost in Space (2013) e Remis (2013), além do média-metragem Papa Africa (2015). Mostrou todo seu vigor nas discussões acaloradas sobre o machismo enraizado nos indianos, com o viés típico de censura à mulher vanguarda que tenta se libertar das amarras fortemente conservadora na sociedade e na cultura milenar de um povo convicto pelos aspectos religiosos.

Tornar-se motorista profissional é o maior sonho de Devki, neste misto de documentário com drama realizado em coprodução com a Alemanha. Retrata o dia a dia de uma jovem que quer ser taxista, custe o que custar. Mas para isto terá que enfrentar diversos tabus numa sociedade eminentemente com predomínio da cultura dos homens. O longa de 83 minutos está dividido em três partes: Pai, Marido e Filho. A personagem central terá que passar por diversos obstáculos, a começar pelas provas e as dificuldades na autoescola para adquirir a carteira de habilitação.

O docudrama começa com a sua recente separação e retorno à casa dos pais, num ambiente hostil e pouco convidativo para recepcionar uma filha separada de um homem nada carinhoso e compreensível. Devki não é acomodada, quer logo seguir uma carreira e escolhe a profissão sonhada de condução de um táxi na barulhenta Nova Delhi de motos, automóveis e os famosos tuk tuks, uma espécie de triciclo, competindo nas ruas de forma desordenada com grandes congestionamentos. A figura paterna entra em ação, o azulejista tenta disuadi-la sob oforte argumento da falta de segurança à noite na capital cosmopolita e perigosa para todos.

Sua teimosia lhe custa a expulsão da casa pelo pai, tão logo sabe que a filha passou nos testes da autoescola. Começa a andar como uma mulher adulta e liberal no comando do veículo. Seus percalços não terminam aí, terá que enfentar na segunda etapa o namorado, um rapaz do interior que lhe pede em casamento e faz juras de amor. Mudam-se para uma região rural, local da família dos parentes de seu novo marido, que também não vê com bons olhos sua profissão. Com o nascimento do filho, outro ingrediente novo que surge, vem à tona a opressão do sogro que impede seu retorno à capital. Antes de tudo, terá que se adaptar à cultura diferente da sua, tentando entender as tradições milenares dos rituais de usos e costumes paradoxais ao que conhecia.

A protagonista não desiste de voltar a Nova Delhi, busca forças do interior da alma e, com sangue e suor retirados do fundo das entranhas, segue persistente na trajetóra pretendida quase que intransponível na saga obsessiva de um futuro traçado obstinadamente. Embora a casta machista ache estranho e tentem ridicularizá-la por ser a única presença feminina entre os condutores de táxi no trânsito da cidade, tanto no diurno como no período noturno. Mas ela é forte, quase como um carvalho sendo golpeado por um machado, por isto se sustenta firme contra os empecilhos que surgem no cotidiano.

Para Onde, Senhora? é uma boa dissertação sobre história e antropologia, pelas lentes da bela fotografia de Jan David Günther, em que o documentário tem um tom de diálogos em forma de drama, para depois serem ouvidos os personagens para abrir com sinceridade seus corações para a câmera. Os dissabores e as complexidades das relações estão no contexto e faz uma desassombrada declaração de insubordinação. O filme é leve e transita com boa naturalidade narrativa, mostrando fatos pitorescos e os contrastes do interior com o urbano, passando pelo caos metropolitano e do sufoco intransigente das tradições rurais. São registros interessantes de contribuição pela visão feminista naquele universo de submissão das mulheres aos seus intitulados donos de uma legião masculina predominante e repressora que não aceita diálogos e nem concessões.

sábado, 29 de outubro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (Treblinka)


Treblinka

Vem de Portugal o decepcionante filme da 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo, o documentário Treblinka, com direção e roteiro do paulistano Sérgio Tréfaut, ex-assistente de vários diretores portugueses. Viagem a Portugal (2011) foi seu único longa-metragem ficcional. Estreou com o curta Alcibiades (1991), realizou os documentários Fleurette (2002), Lisboetas (2004), A Cidade dos Mortos (2009) e Alentejo, Alentejo (2014, 38ª Mostra), o melhor deles, ao fazer um retrato digno de dezenas de grupos amadores que se reúnem regularmente na cidade que dá título ao filme, ao sul do Rio Tejo. Ali, ensaiam antigos cantos polifônicos e improvisam modinhas contemporâneas, numa curiosa viagem musical por um modo peculiar de expressão e paixão dos seus intérpretes, através da bela fotografia de João Ribeiro, novamente presente em sua última realização sobre os horrores do nazismo.

Um documentário que retrata o presente, o passado e o futuro misturados nos vagões de um trem fantasma que cruza o Leste Europeu no século 21, por Polônia, Rússia e Ucrânia, países que vivenciaram o drama fatídico do holocausto. Foram palcos dos traumáticos efeitos humilhantes aos judeus, que para uns deve ser esquecido; para outros, relembrar é imperioso para a memória dos sobreviventes. O slogan do pós-guerra “Nunca novamente” soa ainda hoje como um conto de fadas. Treblinka fica na Polônia e foi o quarto campo de extermínio, em que milhares dos descendentes semitas foram mortos em câmaras de gás alimentadas por motores de explosão localizados nos arredores da cidade ocupada pelos alemães. Foi também o primeiro campo onde ocorreu a cremação dos cadáveres para ocultar o número de pessoas vítimas do genocídio.

Neste lugar foi criado um sistema de trabalho dos integrantes dos Sonderkommandos para que eliminassem alguns vestígios comprometedores, no qual os judeus eram incumbidos de receber os comboios de trens que chegavam para conduzir os deportados para as câmaras de gás, retirar os cadáveres, extrair os dentes e ouro e proceder a cremação. Este campo foi dividido pelos alemães em dois terrenos menores, onde em um deles os prisioneiros somente se ocupavam do extermínio e recuperação de objetos, e um segundo campo onde os prisioneiros só se ocupavam da retirada dos cadáveres e cremá-los. O filme O Filho de Saul (2015), com direção do jovem cineasta húngaro László Nemes, faz uma abordagem bem mais profunda e meticulosa sobre a temática, o que está ausente no documentário redundante e raso do brasileiro Tréfaut.

Eis uma realização repetitiva que se utiliza dos depoimentos de Isabel Ruth e Kirill Kashlikov, através de imagens distorcidas pela câmera, em um retorno ao passado para contar as artimanhas didaticamente rememoradas para escapar da morte no inferno daqueles campos de banheiros químicos. Mas falta a contundência de Phoenix (2014), de Christian Petzold, sobre a história da sobrevivente judia desfigurada enquanto esteve presa num campo de concentração, durante o período da II Guerra Mundial. Ou em Ida (2013), de Pawel Pawlikowski, no registro fabuloso de uma defesa intransigente para uma verdade não tão absoluta passada pelas gerações, na qual as vítimas são todas aquelas que não participaram diretamente, faz o espectador ter uma visão menos dualista, ao deixar fluir a equidistância da imparcialidade para elaborar uma posição mais crítica e menos escassa da realidade.

Treblinka é um filme menor, sem consistência, embora haja um certo esforço do diretor em transformá-lo num documentário sério e histórico, porém pouco contribui para um registro interessante sobre a realidade cruel do nazismo e seus efeitos destruidores e reprováveis cometidos contra o povo judeu. Quanto à estética utilizada, não há inovação, pouca originalidade num tema recorrente, embora sempre instigante sobre todos os indiscutíveis aspectos. Um filme sem interesse pela monotonia, chato e arrastado nos intermináveis 61 minutos de projeção. Está longe de qualquer interesse mais aprofundado, mas que faz brotar o instinto de busca num alucinante mergulho de um passado brutal para uma solução adotada como prática abjeta por Hitler para resolver e limpar os milhares de exterminados em massa. Como se fosse uma fábrica que tem de manter as máquinas funcionando a todo vapor, era necessário estar sempre aptas as câmaras de gás para receber mais e mais vítimas. Os corpos deveriam ter um destino, entre eles as valas comuns que já não davam mais resultado prático, pois não poderiam ser simplesmente empilhados como numa grande lixeira humana. O horror estava impregnado em todas as vítimas e algozes que faziam parte da terrível paisagem putrefata. Estes são os relatos contados pelos dois personagens, porém tudo já foi visto no excelente filme de László Nemes, o premiado O Filho de Saul.

Mostra de Cinema São Paulo (Paterson)


Paterson

A 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo já tem um filme extraordinário, um dos melhores da cuidadosa seleção de 322 produções de vários países do mundo. Trata-se de Paterson, do cultuado diretor norte-americano Jim Jarmusch, responsável pelo bem elaborado roteiro enxutíssimo, com a maravilhosa fotografia de Frederick Elmes. O cineasta é um dos realizadores mais aclamados pela crítica e pelo público, tem em sua filmografia importantes títulos do cinema. Trabalhou como assistente de Nicholas Ray enquanto escrevia o roteiro de seu primeiro longa Férias Permanentes (1980). Dirigiu filmes como Estranhos no Paraíso (1984), vencedor do prêmio Caméra D’Or no Festival de Cannes e do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, Daunbailó (1986, 11ª Mostra), Trem Mistério (1989), Homem Morto (1995), Flores Partidas (2005) e Amantes Eternos (2013).

Com uma narrativa linear e emblemática sobre o cotidiano simples de um casal, no qual Paterson (Adam Driver) que leva o nome da cidade, em Nova Jersey, dirige um ônibus sempre na mesma rota e vai observando a paisagem que se revela pela janela, ouvindo fragmentos de conversas pitorescas que o rodeiam de segunda a sexta-feira. Folga sempre nos sábados e domingos, levantando-se diariamente entre 6h e 6h30min, para deslocar-se ao trabalho nesta metódica rotina, como manusear a caixa de fósforos e pronunciar uma repetitiva frase. O motorista faz poesia nas horas vagas, escrevendo suas inspirações num pequeno caderno de anotações que guarda com carinho e todo o cuidado no porão da casa, para num futuro publicar um livro, tal qual seu conterrâneo famoso sempre citado com emoção. Sua mulher é a jovial Laura (Golshifteh Farahani- a linda atriz iraniana de À Procura de Elly e Dois Amigos) que fica em casa fazendo minibolos com coberturas também repetitivas, conhecidos como cupcakes, além de pintar tecidos artesanalmente em preto e branco. O casal não tem filhos, somente a presença do atento cachorro da raça buldogue inglês, que irá aprontar para seu dono com estragos irreversíveis.

Jarmusch é um artesão na construção de personagens sofridos na vida e em situações que beiram o abismo. Em Paterson, a rotina é rigorosamente a mesma naquela semana filmada com sobriedade na forma de desconstrução de sonhos e ambições. O filme inicia numa segunda-feira para ter seu desfecho na próxima semana, no mesmo dia. O condutor do coletivo segue seu ritual diário, levanta cedo, observa a mulher dormindo candidamente, às vezes ela conta seus sonhos noturnos repletos de fantasias juvenis, em outras nem o vê sair. Ao retornar à noite para casa, pega o cão para passear nas proximidades, vai sempre ao mesmo bar boêmio na penumbra para beber sua cerveja no balcão, ao som de jazz ao fundo. É lá também que ouve algumas lamúrias de casais desencontrados, assiste a discussões mais acirradas, dentre as quais a de um rapaz negro apaixonado e desprezado pela namorada, apelidados pelo proprietário de Romeu e Julieta.Volta para casa para encontrar Laura, que aprova seu cheiro de álcool para agradá-lo. Ao contrário do marido, ela busca mudanças e sonha com algo melhor e pouco convencional, embora não seja uma transformadora na essência, tem seu apoio, pois ela o encoraja e vislumbra algum talento na poesia.

O filme tem uma trama simples, construído para uma reflexão sobre a existência e os aspectos da solidão. A trilha de Sqürl reflete com precisão na melodia que embala os notívagos, em que o silêncio da noite dos frequentadores só é quebrado por algum lamento, ou uma eventual invasão de um desafortunado do amor, a mesmice diária atordoante. Há vitórias e derrotas da vida cotidiana, pelos detalhes da singeleza de uma poesia que ainda teima em permanecer para evidenciar a razão de continuar a se viver com pureza. Eis um espetacular drama alicerçado com sobriedade das tintas sombrias da razão e da emoção contida dos dias que passam sem um objetivo maior no futuro do casal de pouca perspectiva. Há o inusitado fato após a volta de uma sessão de cinema, mas nem tudo está perdido, nem tudo é só pessimismo e só desesperança.

Há uma saída para a dolorosa tristeza, surge um misterioso japonês de Osaka na praça como um elemento de luz no fim do túnel, que trará um alento com a sábia doação de um bloco em branco, sem escrita, para incentivar a reabilitação do poeta anônimo desestruturado e perdido no tempo pelo incidente caseiro. A naturalidade é o elemento básico e pontual neste drama de cenas repetitivas propositalmente no transcurso do enredo, seguindo o mestre genial da reiteração Abbas Kiarostami, que se consagrou com a obra-prima Gosto de Cereja (1997), ganhadora da Palma de Ouro em Cannes. Paterson é um filme imperdível pela singularidade, não só pelas fantasias e sonhos contrapondo-se com o tédio visceral, mas pelo contexto amargurado, o pessimismo sombrio, mas com uma brecha para se continuar na busca da dignidade humana.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (Elle)


Elle

Um filme aguardado que correspondeu toda a expectativa depositada é o instigante Elle, do festejado cineasta holandês Paul Verhoeven, com o enxuto e seco roteiro de David Birke, que empresta credibilidade para a recepção maravilhosa de público e crítica na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo, além da linda fotografia de Stéphane Fontaine, bem assessorada pela adequada e não invasiva trilha sonora assinada por Anne Dudley. Encerrou o Festival de Cannes deste ano e foi indicado pela França para a disputa de uma vaga ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O realizador dirigiu alguns dos mais importantes títulos do cinema do seu país, tais como: Louca Paixão (1973), Soldado de Laranja (1977) e O Quarto Homem (8ª Mostra, 1983). Deu uma guinada na carreira nos anos de 1980, com os longas produzidos em Hollywood, entre eles: RoboCop-O Policial do Futuro (1987), O Vingador do Futuro (1990) e Instinto Selvagem (1992), da antológica cena do cruzamento de pernas de Sharon Stone.

Elle tem uma significativa dose de suspense com algumas sacadas de fino humor, o que suaviza a narrativa intensa, escapa com inteligência do tema recorrente do estupro propriamente dito. Não é um filme sobre o trauma específico do ato, como do excelente O Silêncio do Céu (2015), de Marco Dutra. Uma realização com duras cenas de um grau incomum de realismo puro que fascina pelo desdobramento na trajetória para um desfecho nada convencional e com tragicidade explícita. Verhoeven retrata Michèle- na soberba interpretação de Isabelle Huppert, uma atriz talhada para este tipo de papel que se doa com notável senso de profissionalismo, assim já o fizera em A Professora de Piano (2000)-, uma mulher determinada, aos 50 anos, que atrai pessoas que a detestam, mas parece ser indestrutível a executiva que chefia uma importante empresa de jogos de videogame predominantemente de jovens masculinos. É implacável na administração dos relacionamentos amorosos como no trabalho pela eficiente organização, mantém a serenidade apesar de ser atacada e humilhada em sua casa por um suposto assaltante mascarado, no qual seguirá os rastros do seu agressor para um jogo perigoso de sedução que perderá o controle. Mantém por perto o ex-marido, o amante que a despreza e a ignora em ocasiões festivas, além dos subordinados garotos suspeitos.

Há questões pertinentes e indigestas na entrelinhas do enredo, como a hipocrisia bem marcante que serve para dissecar as estruturas de poder nas sociedades contemporâneas. Além do ponto principal da sexualidade, como subtemas há a intrincada interação de trabalho com a família visto como formas controvertidas de organização dentro da célula máxima das relações humanas. A mulher se impondo diante da predominância do sexo oposto, ou ainda na rebelião do filho contra a autoridade materna e da pouca participativa presença do pai, bem como a contestação direta do funcionário ao empregador. É um questionamento da dominação que irá sedimentar para culminar na abrupta violência sexual pelo desamor em tempos de solidão e individualismo com os fantasmas e os fetiches.

O impactante drama aborda com profundidade os efeitos da infância sofrida diante dos resquícios maléficos causados pela figura paterna, um serial killer que mata adultos, crianças e estupra mulheres. Embora condenado à prisão perpétua, a protagonista tinha apenas 10 anos, estava na hora errada e no lugar indesejado, ou seja, presente no dia da detenção do pai, com ampla repercussão na comunidade e na imprensa. Carrega com ela este estigma da maldade, que deixou para sempre sequelas, traumas e a agonia da culpa involuntária. Cresceu com problemas sexuais e psicológicos, tornando-se uma mulher fria que se satisfaz pela perversidade, fazendo outras vítimas, principalmente mulheres bem resolvidas e próximas de seu meio no cotidiano. Não há limites para suas investidas cruéis de desejos por relações que descambam para o sadomasoquismo latente que aflora e desperta uma realidade sem alegorias para saciar-se nos subterfúgios. Tem um filho frágil, ingênuo, submisso e dominado pela mulher, que faz gato e sapato com ele. Sua mãe também sofre e torna-se fútil diante do casamento fracassado com o marido preso pelos crimes hediondos cometidos, vira alvo da vingança e do desdém daqueles que nunca a perdoaram por extensão, como se fosse a culpada direta.

A complexidade de Elle vai ao encontro do envolvimento de Michèle com homens do entorno das suas relações com matrimônios desfeitos e a proximidade da tragédia iminente. Culpa e ressentimentos, com doses fortes de repetições de estupros são mesclados com o sadismo e o masoquismo, através de urros de orgasmos que se confundem com a dor da brutalidade selvagem do agressor e estão alinhados como ingredientes indispensáveis para Verhoeven construir este painel perturbador para uma plateia atenta julgar com isenção. Ninguém sai indiferente da sessão, o filme mexe com os espectadores, assim como o gato acinzentado da personagem central que também participa do cotidiano de sua dona. O intimismo da obra traz situações clássicas do suspense bem temperado, para transitar até o drama e selar como um filme marcante pela contundência das cenas arrojadas e bem apimentadas de uma relação violenta e brutal pelo contexto da trama bem urdida de um cineasta irrequieto acima da média para um resultado magnífico.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Mostra de Cinema São Paulo (The Stopover)


The Stopover

Um filme que é uma agradável surpresa na 40ª. Mostra de Cinema de São Paulo é este drama de guerra The Stopover, segundo longa das irmãs francesas Muriel Coulin e Delphine Coulin, que são responsáveis pelo bom roteiro. Muriel iniciou a carreira no cinema como fotógrafa e assistente de câmera, Delphine também é escritora. Elas começaram filmando em 1997 o curta Il Faut Imaginer Sisyphe Heureux e estrearam na direção de longas com 17 Girls (2011). A coprodução é da França com a Grécia, com a bela fotografia assinada por Jean-Louis Vialard no estonteante cenário de mar azul e rochedos, sendo vencedora do prêmio de roteiro da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes deste ano.

As diretoras se utilizaram de uma realidade dolorida e triste, para demonstrar o cinismo francês, que em nome da União Europeia intromete-se em questões alheias, como no caso do Afeganistão em guerra civil, além das frequentes disputas territoriais nas fronteiras com Irã e Iraque. Ao final da temporada de serviços prestados para o Exército no país invadido, um trio de jovens militares femininas: Aurore (Ariane Labet), Marine (Soko) e Fanny (Ginger Roman), ganham três dias de licença para retirar o estresse num fascinante resort cinco estrelas na República do Chipre, a paradisíaca ilha situada no mar Egeu oriental, a terceira maior e mais populosa no Mediterrâneo, ao sul da Turquia, e ao leste da Grécia. A ideia é a realizar uma descompressão com o restante do batalhão de homens em meio aos turistas, mas todos sofrem censura e não podem contar tudo que aconteceu, inclusive abafam seus dilemas pessoais. Mas as dificuldades se agigantam e não será fácil esquecer a guerra e deixar os traumas e a violência explícita para trás.

Estampa-se uma situação de embates pós-guerra com lembranças de um passado torturante para os personagens e seu impacto para o mundo que deverão voltar em breve, após se submeterem a sessões de terapia coletiva com a ajuda da tecnologia da realidade virtual em 3D para simular a guerra e iluminar o âmago e a alma, recuperar o físico e a mente, com o intuito da glorificação nacional no retorno com a pretensa missão cumprida. Tudo balela e hipocrisia dos comandos superiores. “O importante é vencer, o que se vai ganhar não importa”, diz um soldado para a colega mulher, ao dançar com a cabeça colada dividida apenas por uma laranja que não pode cair, num jogo de faz de conta. A serpente sob os cuidados de Marine simboliza a traição que se dará na emboscada que explode dos próprios companheiros enciumados do pelotão, quando a linda Aurore se relaciona amorosamente com o nativo Max (Karim Leklou), mas a cobra ao ser solta na natureza representa uma espécie de libertação às três moças naquela delicada missão de homens rudes. Uma metáfora que é bem manuseada pelas cineastas para lançar um olhar humano sob o ponto de vista feminista das atrocidades hostis sofridas pelas três mosqueteiras num universo machista.

O filme começa bem, ao se debruçar com os fantasmas dos conflitos bélicos que foram envolvidos os soldados franceses. Os delírios da guerra são bem captados pela câmera na primeira parte do longa. Mas aos poucos, o clímax se esvai com o contorcionismo do roteiro, ao abandonar as mazelas e as cicatrizes deixadas num ambiente inóspito para a busca do relaxamento do entretenimento naquele lugar paradisíaco. Porém com a entrada dos dois nativos, o atropelamento da cabra com desdém e as cenas de ciúmes, faz com que The Stopover enverede para uma realidade abordada com superficialidade, ou seja, a presença das mulheres num batalhão eminentemente de homens com os brios feridos no ego do macho preterido. A autoestima afetada dos super-heróis desdenhados sob a ótica da força em detrimento da inteligência do galanteio do galã da região.

Um drama bem fiel de um país que sofre frequentes atentados, tendo em vista suas trapalhadas na esfera da política internacional. É razoavelmente esmiuçado com boa dose de sutileza pelo caminho de violência com rastros de mortes estúpidas daqueles relatos comoventes, como do rapaz que morreu ao sentar no lugar que sempre fora de um outro colega, por uma coincidência do destino, naquele dia inesquecível para o sobrevivente, mas que levará para sempre as lembranças da tragédia. A narrativa está bem equilibrada e coerente, através de uma história contada com uma paradoxal suavidade, embora embrutecida por um panorama do horror dos relatos que deixou feridas abertas de difícil cicatrização, permeando a selvageria intercalada por momentos líricos doloridos, faz deste drama um apreciável manifesto coerente, sem cair no maniqueísmo de outras realizações. É um filme reflexivo pelas imagens com força de grande expressividade, com bons diálogos, embalados por uma trilha sonora fidedigna e saborosa na essência dos rostos e olhares de perplexidades mesclados com surpresa e indignação do passado.