quinta-feira, 21 de maio de 2015

Últimas Conversas

















Relatos Sinceros

Morto tragicamente pelo filho ano passado, o veterano documentarista Eduardo Coutinho está presente novamente com seu singular painel de relatos contados pela boca de personagens do povo em Últimas Conversas, 14º longa-metragem de uma carreira rica, com a qual se despede. Desta vez por alunos de Ensino Médio das escolas públicas do Rio de Janeiro, pessoas humildes que tiveram muitas dificuldades no aprendizado e ainda em dúvidas para o futuro. Tentam superar obstáculos, sendo que destes há de tudo um pouco, das grandes paixões até ao sonhador inveterado. Busca extrair e descobrir dos jovens a essência dos seus sonhos, pensamentos e como vivem no cotidiano.

O mérito maior do cineasta é saber selecionar da série de depoimentos aqueles mais consistentes e emocionantes sob o ponto de vista humano e com força de um pensamento positivo e até esperançoso. Sem ser ufanista, longe disto, pois sabe controlar e dar o tom na entrevista. É um emérito perguntador, deixando os entrevistados à vontade para falarem algo interessante ou até mesmo besteiras. É tudo verdade, como o chamado festival que empresta o nome. O material bruto de 32 horas de gravação foi editado pela parceira de outras obras, a montadora Jordana Berg, tendo na versão final a assinatura do inseparável amigo João Moreira Salles, documentarista e produtor que dá um toque requintado pelo seu estilo próprio, assim como fez em Notícias de Uma Guerra Particular (1999) e Santiago (2006). Foram parceiros nos documentários Peões e Entreatos, ambos de 2004, sobre o passado no ABC paulista e os bastidores da campanha política de 2002 do presidente Lula.

O filme começa com o diretor falando sobre a morte, a falta de vontade de viver, se deve continuar filmando, porém cumprirá o contrato, pois recebeu para realizar esta derradeira produção. Desta vez o espectador não só ouve sua voz como o vê com o cigarro entre os dedos, revelando aflição com o filme ora em formação: "é melhor não fazer do que ter um filme de 70 minutos em que não se acredite", chega a afirmar que "sempre cumpri meus contratos, mesmo que tenha assinado para fazer um filme e entregue outro". Mostra-se desanimado no intervalo da quarta entrevista, quase premonitória, fala da tristeza dos adolescentes reprimidos pelos pais e do arrependimento de não ter realizado um filme só com a alegria das crianças, simbolizado com a graciosa garotinha de 6 anos, filha de médicos, que ele chama de lady. Ela dá show ao falar com sinceridade, espontaneidade e clarividência.

O cineasta é hábil ao retirar o substrato de cada adolescente marcado pela dor, tristeza, dúvida e muita mágoa, fazendo-os confessar as verdades, como a primeira moça ateia que escreve poemas; a garota abusada sexualmente pelo padrasto, assim como a irmã que também sofre o mesmo, ambas têm na mãe posição contrária às filhas; a moça almeja ser geógrafa e gostaria de ver um maremoto no Brasil, afirma que seria bem legal, fala em se casar com um homem bonito; tem ainda a jovem que se acha esperta e é contra as pessoas ingênuas, diz com alma e ardor que o mundo é dos espertalhões e que não conhece ninguém que seja bobo que se dera bem; a garota que chama a companheira da mãe de “papi” e que seguirá sua carreira de enfermagem; a jovem que não quis festa de 15 anos, temendo a ausência do pai separado e ausente; o rapaz ateu que quer ser médico; o outro estudante que fala do silêncio e o medo de não ter som por perto, questiona a vida e namora a morte, faz uma profunda reflexão sobre a existência e o seu sentido, num dos melhores depoimentos, pela pujança e o desnudamento para a câmera.

Um realizador nato que será sempre lembrado por Cabra Marcado para Morrer (1984), em que foram iniciadas as filmagens na década de 60, com o assassinato de um líder camponês, interrompidas pelo golpe militar de 1964 e concluídas dezessete anos depois. Este seu último documentário tem muito de sua obra-prima Edifício Master (2002), no qual uma equipe de cinema filmou por sete dias o cotidiano dos moradores de um prédio em Copacabana, com 276 apartamentos conjugados, com cerca de 500 moradores, foram entrevistados 37, com um resultado fabuloso de histórias íntimas e reveladoras; bem como do memorável Jogo de Cena (2007), um achado que mescla realidade e ficção; sem esquecer de As Canções (2011) que aborda com fidelidade as angústias e tristezas mescladas com os amores fundidos em felicidades e recordações amargas ou gostosas de pessoas do povo.

Um cinema com vários questionamentos e indagações como o bullying sofrido pela juventude, além da abordagem das cotas raciais colocadas em xeque, a reflexão da relação da filha com um casal homossexual, a ausência paterna, o abuso sexual, a dor da adolescência pobre, sombria e incerta contrapondo com a espontaneidade e alegria da fase infantil retratada pela criança rica e branca no cenário de uma sala simplória com paredes azul e branca, porta azul e uma cadeira, às vezes preenchida e, em outras, vazia e silenciosa, como a porta aberta para um mundo de hexitações, indagações e difícil para a maioria. Embora melancólico nas situações duvidosas para o futuro, há muita emoção contida, como se fosse uma sessão de terapia, onde o psicanalista é o diretor com seu jeito peculiar e único. Últimas Conversas encerra uma carreira de um ciclo inesquecível de um legado para ser lembrado, sorvido e memorizado pelos problemas deste universo de vidas conflitadas e amargas, porém sem perder a luz da esperança. Dizer que Eduardo Coutinho é um gênio, talvez seja pouco, ele é um dos maiores documentaristas do mundo.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Casa Grande


Elite Decadente

Outro longa-metragem brasileiro que faz furor e repercute de forma admirável é Casa Grande, do estreante carioca Fellipe Barbosa, que também assina o roteiro em parceria com Karen Sztajnberg, título colocado claramente para homenagear Gilberto Freyre, foi baseado em fatos autobiográficos do cineasta, retrata os contrastes sociais de maneira contundente. Ao se debruçar no presente, busca subsídios do passado herdado de uma fase de ouro das elites brasileiras em decomposição pela superada classe nos seus aspectos exteriores, bem focado na cena de abertura do casarão ostentado pelo núcleo familiar em avançado estágio de derrocada.

A história é composta por personagens bem estruturados e são identificados claramente suas fragilidades, desajustes e rompantes mesquinhos. O protagonista é o jovem Jean (Thales Cavalcanti- de boa atuação), que faz de tudo para se desvencilhar dos pais superprotetores Sônia (Suzana Pires- impecável no papel da mãe) e Hugo (Marcello Novaes- uma surpresa agradável). O rapaz tem sérios problemas de ansiedade e está permanentemente em conflito com a figura paterna, um ricaço que começa a entrar em crise financeira pelos negócios da bolsa de valores que despenca. A trama faz um retrato fiel da alta burguesia carioca através daquele grupo familiar abastado que leva uma vida confortável em relação à maioria dos compatriotas.

O realismo está presente nos gestos e principalmente na crítica pelas imagens corrosivas, em especial na entrevista do pai buscando uma nova atividade, quando revela sua verdadeira condição de homem em estado de decrepitude. A falência que emerge de uma situação, que aos poucos corrói e devasta o patamar superior, mas que ninguém sabe de seus problemas financeiros. Para se manter, o casal corta despesas, como a demissão do motorista e de uma das empregadas. O filho, mais preocupado com o namoro e o vestibular, começa a enfrentar pela primeira vez a dura e triste realidade do esfacelamento socioeconômico pela perda do poder aquisitivo familiar, cada vez mais em ruínas.

Um drama que reflete a preocupação desta obra autoral com a estratificação social, através da captação da câmera que percorre a mansão em decomposição e vai até o verdadeiro núcleo familiar do jovem no fabuloso epílogo na favela, que reserva para a cena final a revelação inusitada. Lá, vai encontrar carinho, amor e a libertação sexual no amanhecer daquele lugar acolhedor, mas em contrapartida por aqueles ex-empregados em seus cotidianos quase que inocentes, representantes típicos de pessoas menos favorecidas, contrapondo com sua condição elitizada e solitária. Assim como no badalado O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, fundamentalmente um filme silencioso que capta os barulhos externos, além dos símbolos de uma brutal realidade.

O cineasta retrata com sensibilidade e sem demagogia os contrastes pela visão social desta sociedade representada por uma classe média alta que tenta manter valores superados dos fatos reais bem brasileiros, numa alusão sutil da queda de Eike Batista, demonstrada na matéria do jornal lido pelo patriarca, diante do contraste escancarado na geografia carioca pelos condomínios luxuosos e mansões dividindo a paisagem com as favelas sem infraestrutura nos morros. É instigante a cena de palavras ríspidas, ironias e arrogância explícita, no encontro dos familiares de Jean com sua namoradinha miscigenada Luiza (Bruna Amaya), um choque de ideias sobre cotas raciais na faculdade e o bolsa-família e seus efeitos colaterais, na qual a intolerância prevalece por posições arcaicas. Ele estuda num dos melhores colégios particulares do Rio; ela, numa escola pública. Eis um filme preocupado com as anomalias e distanciamento entre as pirâmides salariais de um contexto severo e implacável para todos, como na busca de uma alternativa para despedir por justa causa a empregada de fantasias eróticas, como se fosse um objeto descartável, embora a motivação fosse bem outra.

O mordaz Casa Grande teve várias premiações merecidas, entre as quais a de Melhor Filme pelo Júri Popular do Festival do Rio, Melhor Filme no Prêmio da Crítica pela Abraccine na Mostra Internacional de São Paulo, reconhecimento do júri, melhores ator e atriz coadjuvantes e melhor roteiro no Festival de Paulínia no ano passado. Não por acaso, pois Barbosa demonstra domínio de cenas nos planos e contraplanos, quase impecáveis, com uma estrutura narrativa de inspirada criatividade, sem cair na obviedade. Cada situação dos personagens torna-se autônoma no desenrolar do enredo, ao direcionar a abordagem das relações afetivas de empregados com os familiares, além da falência de uma elite hipócrita, mas sem perder a poesia e a dor repassada para a plateia. São elementos bem caracterizadores e envolventes que marcam com rara qualidade este belo e perturbador retrato intimista neste filme de cores bem brasileiras, através desta realização maior no cenário nacional.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Dólares de Areia


Triângulo no Caribe

O mexicano Israel Cárdenas e a dominicana Laura Guzmán dirigem o quarto longa-metragem Dólares de Areia, tendo como cenário a paradisíaca região de Terrenas, no norte da República Dominicana. Premiado nos festivais de Havana, Chicago e Cairo, o filme foi escolhido para encerrar com chave de ouro a 38ª. Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2014. Os cineastas são casados, ambos com 34 anos, ganharam reconhecimento pelo sucesso do badalado drama Jean Gentil (2010), com premiação no Festival de Gramado, causou uma impressão alentadora ao retratar a peregrinação desesperada de um haitiano à procura de emprego. São deles também os longas Cochochi (2007) e Carmita (2013).

Produzido com parcos recursos financeiros, a dupla propõe uma obra intimista na essência das relações humanas, derivando para as contradições nesta livre adaptação do romance Les Dollars des Sables (2006), do escritor francês Jean-Noël Pancrazi, além de abordar de forma sutil o paraíso de um turismo sexual decorrente do neocolonialismo europeu nas ilhas caribenhas, palco da trama bem contada do triângulo amoroso de uma relação improvável entre a francesa homossexual idosa Anne (Geraldine Chaplin) com a jovem negra Noelí (Yanet Mojica- uma versão dominicana de Lupita Nyong’, ganhadora do Oscar de atriz coadjuvante por Doze Anos de Escravidão). A garota mora na vilarejo litorâneo de Samaná e sobrevive do corpo fazendo programas com turistas numa economia de plantação de coco, com poucas opções de emprego, sustenta o namorado (Ricardo Ariel Toribio) que a explora como um típico gigolô.

O casal de diretores faz um triste retrato fidedigno da situação caótica dos nativos, sem pieguismo ou demagogia, ao mostrar a conexão entre as duas mulheres envolvidas emocionalmente no idílio de opostos que gera uma rotina de acontecimentos comoventes, diante da gravidez inesperada e a expectativa de conhecer Paris. É o sonho de um mundo novo de esperanças e dignidade, com o intuito de fugir daquela mesmice sem futuro da exploração pela prostituição dolorida e humilhante nas imagens radiantes captadas pela bela fotografia, contrastando com a pobreza e a desinformação dos moradores daquele lugar. Um dos trunfos do filme é o elenco de amadores e figurantes, exceto a desprendida Geraldine que ilumina a tela com seu carisma de notável comunicação pelo olhar magnético, demonstrando forte conteúdo dramático pelo brilho da estrela reluzente, dando autenticidade para sua singular personagem que escolheu viver o que lhe resta da vida perto do mar.

Poder e submissão estão presentes em Dólares de Areia, ao deixar o espectador sentir o clímax daquela relação puramente de interesses, entre a nativa em parceria com o namorado e a rica senhora com a perspectiva de um salto para o outro lado dali, a França prometida com seus encantos e devaneios, diante de um plano para ganhar muito dinheiro na Cidade Luz com remessa mensal para o rapaz. A situação inesperada e o amor próximo das duas enamoradas tornam-se intensos, o ciúme e a incerteza se instalarão de vez com proximidade do embarque. Tudo é registrado com muita sutileza e o fascinante embalo da trilha sonora, porém é difícil não sair cantarolando da sessão a bela estrofe “morenita minha, se és que tu me quieres, não me desesperes e grita a minha alegria...”.

Cárdenas e Guzmán seguem uma linha de cinema autoral propriamente dita, sem interferências ou concessões, com elipses de cortes no ponto adequado, também encontrado em Ventos de Agosto (2014), do pernambucano Gabriel Mascaro, no cenário de um lugarejo pobre e hospitaleiro, com ruídos dos ventos, do mar e dos sons musicais dos nativos da região; ou ainda com O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho. São cineastas identificados com as coisas do cotidiano para falar de sua aldeia com magnífica precisão, seguindo a recomendação de Tolstoi.

Sons e ruídos são familiares para os diretores que apresentam um amplo domínio de uma estrutura narrativa envolvente inspirada com criatividade, sem cair na obviedade e sem perder a poesia, através de elementos bem significativos que marcam com rara qualidade este drama realizado com alma e ardor. Colocam-se os contrastes da vida de um povoado rústico invadido por mansões, como a do artista plástico, em consonância com a existência do mundo visto como civilizado de turistas ávidos pelo descanso e o turismo sexual colonizador, dentro de um contexto da estratificação social pelas desigualdades sociais, no qual estão presentes a solidão e os sonhos fantasiados e abrangentes caracterizados pelos olhares e o silêncio.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Não Olhe para Trás


A Decadência

Roteirista das comédias Amor a Toda Prova (2011) e Última Viagem a Vegas (2013), Dan Fogelman estreia na direção do longa-metragem Não Olhe para Trás, uma comédia dramática que aborda superficialmente um músico que não vive seus melhores dias ao descobrir uma carta escrita para ele por John Lennon há trinta anos e que nunca tinha lido. Com esta proposta inspiradora é motivado para embarcar numa viagem para reencontrar seu filho biológico (Bobby Cannavale). Danny Collins (Al Pacino) está idoso e gasta mais dinheiro do que tem, troca de esposa com frequência, vive de lembranças da fama pelas músicas populares do passado, tem como fãs principalmente o público da terceira idade, está sem compor uma canção sequer e apenas reprisa os seus maiores hits, se vê encorajado a não se deixar influenciar pela indústria. Diante disto, decide ser um homem melhor pelo avançar da idade, já cansado da rotina de drogas e excessos, interrompe a carreira para tentar reatar os laços com a família.

O longa se propõe a resgatar um passado pela história de um pai ausente que agora descobre um caminho promissor para um caminho de purificação da alma. Embora o cineasta não caia no pieguismo lacrimoso, utiliza-se dos velhos clichês do melodrama, mas conduz com algum distanciamento, ao retratar de maneira leve e cômica algumas situações peculiares. Tem no protagonista acostumado a ter tudo que deseja pelo carisma e seus contatos pessoais, às vezes antipático pelo contexto, como no encontro com a nora (Jennifer Garner); em outras beira uma vítima do destino dos deuses, como a famosa carta que chega atrasada. Ainda que atrapalhado pelas circunstâncias, demonstra ser um homem de bom coração, como na cena em que faz de tudo para salvar o filho, sendo doador no transplante de medula.

A comédia não chega a sucumbir e tem boas tiradas, como nos diálogos da gerente do hotel (Annete Bening- de boa performance) com Danny. O roteiro não flui com leveza e sincronia, há percalços na trama com cortes abruptos, deixando sem ritmo de continuidade o desenvolvimento intimista da reinvenção. De forma quase simplória é dito que o dinheiro não traz felicidade, mas os familiares mudam de opinião ao receberem presentes generosos do pai ausente. Outro equívoco é o surgimento inesperado da doença terminal do filho mesclado com a gravidez de risco, acompanhado por uma iminente morte no passado, além da suposta traição, faz render uma salada sem tempero, de pouco sal, muito açúcar e um resultado indigesto. O humor fica devendo, diante da narrativa opaca, como no momento em que o artista doa seu carro caríssimo ao funcionário pobre do hotel. Fica a ideia de um moralismo exacerbado, ao refutar valores morais de maneira franciscana.

Não Olhe para Trás tem contrastes extremados, como do homem rico que ajuda pessoas pouco aquinhoadas, ou ainda do músico decadente e arrogante que torna-se humilde e sentimental, prejudicado na essência pelo bom-mocismo de comportamento exemplar oriundo do capitalismo sem freios, que busca nas doações em dinheiro resgatar um passado inglório. Mas principalmente a relação pai e filho tem boas referências no cinema, como Coração Louco (2009), de Scott Cooper, ao tratar a saga clássica de derrotas de um cantor country que traz a marca da rejeição familiar; ou no documentário brasileiro dirigido por Patrícia Pilar, Waldick- Sempre no Meu Coração (2007), em situação semelhante de afastamento de filho e pai.

Al Pacino é um estupendo ator e dispensa maiores comentários. Está perfeito na narrativa da crise criativa de um veterano ídolo decadente, ao se dar conta do talento que se esvai e perde força aos poucos. Sua imagem é o retrato corajoso e realista de um homem solitário derrotado pelo tempo, mas que ainda tem o carinho dos fãs da velha guarda. Seu personagem é contraditório e nem sempre mantém a coerência, às vezes beira o ridículo e em outras dá uma guinada à medida que as crises se avolumam, diante da comicidade pouco adequada e de ausência de brilho. Um filme que fica no meio termo, sem a consistência de um diretor mais calejado, não alcança força dramática adequada ou de humor condizente com a proposta em foco.

Danny tem no rosto a marca pelos sulcos de toda sua história de músicas e letras prodigiosas, com um conteúdo duvidoso que não atrai os jovens, porém sem os horizontes infinitos de conhecimentos que tinha em mente pelas infindáveis noites de aparições ao grande público, diante das dificuldades do velho cantor em recompor sua vida, há a recomposição familiar fragilizada que conspira para uma solução previsível. Não chega a ser um filme instigante, tem um desfecho nos moldes de telefilmes rasos pela linearidade que ofusca a densidade mais elaborada, resta uma narrativa irregular, mas sem invalidar a proposta esperançosa, mesmo tropeçando no sentimentalismo barato e sem inovação estética, tendo no centro uma personagem repleta de bravatas.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Dívida de Honra


Melancolia Feminina

Tommy Lee Jones já apresentava qualidades significativas ao empolgar no seu longa-metragem de estreia, Três Enterros (2005), mas agora com Dívida de Honra, seu último trabalho, mostra-se consistente como diretor. Além de ser um dos melhores intérpretes do cinema atual pelo carisma a virtude rara de dramaticidade, às vezes comunicando-se só pelo olhar daquele rosto sulcado, que tem nele também um dos roteiristas e como produtor o cineasta francês Luc Besson. Embora seja o protagonista no papel do marginal e desrespeitado George Briggs, divide bem o estrelato com a boa atriz Hilary Swank, vivendo a solteirona Mary Bee Cudy, com fama de mandona e à procura de um marido para ter filhos. O filme não se propõe para a exibição de estrelas, muito pelo contrário, está voltado para revigorar momentos expressivos do faroeste pela perspectiva feminina de suas personagens sofridas por uma dor sem limites.

O longa é baseado na novela de Glendon Swart Hout que retrata a rudeza masculina contrapondo com as dificuldades femininas e seu olhar dolorido pela melancolia, no qual emerge a violência do primitivismo nas belas imagens do fotógrafo Rodrigo Prieto, embalados pela música de uma trilha sonora harmônica de Marco Beltrami, sendo executada perfeitamente como a mola mestra condutora que dita o clímax das cenas daqueles seres humanos pela natureza e seus futuros incertos na conturbada viagem até o destino religioso que esperam as três mulheres tachadas de loucas e condenadas, diante da recusa involuntária de gerar filhos. Ao contrário da personagem central, elas são aterrorizadas pelos próprios maridos medievais que abusam do poder machista e inoculador de ódio e destemperos de uma época em que não havia direitos igualitários, gerando feras enjauladas que são mandadas para bem longe dali, Iowa, expulsas de Nebraska como forma de punição.

O western foi um dos gêneros mais cultuados pelo cinema americano e aos poucos foi deixado de lado, vez por outra cineastas importantes revivem com nova energia a magia do Velho Oeste, como no remake Bravura Indômita (2010), dos irmãos Ethan e Joel Coen), filme em que John Wayne obteve seu único Oscar como melhor ator, na versão original de 1969, dirigido pelo mestre Henry Hathaway. Dívida de Honra é marcado por ser sem tiroteios forçados ou balas perdidas por tudo quanto é canto e lugares inimagináveis, seguindo na mesma esteira do melhor estilo dos grandes clássicos, por isto é enriquecedor seu tema e remete para o inesquecível Os Imperdoáveis (1992), de e com Clint Eastwood, no qual o mocinho é velho e decadente, tendo que cumprir a última missão. Também reporta para Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks e Arthur Rosson; como não poderia deixar de ter referências em Rastros de Ódio (1956) e No Tempo das Diligências (1939), ambos do genial John Ford, com construções fantásticas de personagens; mas como esquecer Meu Ódio Será Sua Herança (1969), de Sam Peckinpah, ou ainda Os Brutos Também Amam (1953), de George Stevens.

Lee Jones tem tudo para fazer parte desta categoria de realizadores consagrados neste gênero que não vai morrer nunca, ainda que passe por transformações estruturais de impulsos para no futuro ser expressivo como requer a essência do cinema, sem abdicar do cenário grandioso e caracterizador do Velho Oeste, no qual os cavalos estão sincronizados pelas frondosas árvores e de um pôr do sol esplêndido e por vezes revelador de um novo dia. O tema da humilhação no sofrimento da mulher, que terá a vingança do protagonista nitidamente mercenário, mas com sentimentos e vínculos éticos, que se revolta e explode como na cena do hotel voltado para a elite endinheirada. Eis um magnífico faroeste que acompanha a trajetória e o caminhar humano destroçado, tendo como objetivo a busca do esclarecimento para lançar luzes sobre o poder feminino enfraquecido, nesta sensível mescla perfeita pela narrativa contundente sobre as perdas da dignidade no cenário sem leis, traz à baila um mocinho que rosna em vez de falar, sujo e rústico como poucos. Uma apreciável revisão sobre os temas principais do gênero inovado pelas mulheres como personagens em foco para desmistificar o velho caubói e fugir dos recorrentes clichês.

O filme demonstra que o gênero não se esgotou diante da renovação proposta, sem se afastar do clássico e bom faroeste, filmado no tradicional cenário de mocinhos e bandidos que embalou os aficionados do cinema de bangue-bangue. Cada detalhe, movimento da câmera, luz, fotografia, as tabernas, o julgamento com a execução sumária e o figurino estão harmonicamente distribuídos com primazia e colocados em seus lugares exatos, pontuais e com fidelidade. O epílogo daquelas mulheres levadas para o agasalho religioso luterano de uma pastora metodista (Meryl Streep) sobre seus destinos, faz com que o tempo passe lentamente pela dura jornada que as levou para um local acolhedor e com o auxílio inesperado de um homem marginalizado dos ditos valores civilizatórios.

Dívida de Honra é marcante pela sordidez e violência latente nas belas imagens daquele cenário provocante de índios em pé de guerra com os brancos, bem como a cena do cavalo que corre loucamente pelos campos carregando a personagem feminina central antes do idílio com o anti-herói, que tem na sua condição de solteira e sem um futuro definido, percebe o tempo se escoando e conduz para uma reflexão. A decorrência da dor pela opção encontrada tem nos percalços da vida que a fizeram nem notar como tudo passa rápido, deixa para trás um outro mundo de reminiscências brutais e uma melancolia enternecedora que encontrará guarida na frustrada homenagem da lápide jogada sutilmente para o rio de dentro da barca que leva de volta o justiceiro carregando com ele uma culpa pela morte trágica e inexplicável, num grande final com emoção digna de um clássico do faroeste.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Se Fazendo de Morto


A Reconstituição

O cineasta francês Jean-Paul Salomé tem em sua filmografia Arsène Lupi- O Ladrão Mais Charmoso do Mundo (2004) e Contratadas para Matar (2008), mostra alguns méritos em torno da expectativa criada na reconstituição de homicídios com toques e reviravoltas na trama, ao estilo consagrado do mestre Alfred Hitchcock, deixa o espectador confuso e muitas vezes é conduzido para uma solução enganosa, na comédia Se Fazendo de Morto. Sugere um clima investigativo de bom suspense de crimes perfeitos como nos velhos policias noir, com suas regras sendo investigadas à distância e nada minuciosamente pela corporação, tendo na magistrada encarregada de elucidar os fatos vários erros grosseiros na sua condução. As evidências são quase que montadas e os artifícios do inquérito direcionam como uma verdade absoluta à espera de uma conclusão convencional pelos interessados na grande farsa, como também foi bem demonstrado pelo estreante inglês Barnaby Southcombe no longa Eu, Anna (2011).

O imbróglio investigativo tem na figura central o ilusório ator de 40 anos Jean (François Damiens, astro belga conhecido por A Família Bélier) que ganhou o prêmio César de revelação em 1987, o maior do cinema da França, mas por questões de escolhas equivocadas o levaram para uma carreira fracassada e com terríveis condições de sobrevivência no mercado artístico. Como não surge um convite significativo, diante de uma proposta inusitada para fazer o papel de um morto na reconstituição de crimes violentos no norte do país, apesar de contrariado, aceita a árdua tarefa quase que humilhante e acaba se envolvendo de corpo e alma, ao mergulhar na tragicômica situação. Bate de frente com a charmosa juíza Noémie Desfontaines (Géraldine Nakache, de Os Infiéis-2012), que não gosta das sugestões dadas pelo protagonista nas investigações feitas pelo policial suspeito Lamy (Lucien Jean-Baptiste), tendo em vista um acidente que vitimou seu filho num teleférico irregular.

O realizador conduz sutilmente a plateia para as intrincadas revelações de um roteiro enxuto e bem construído do fictício personagem em decadência profissional, agora obcecado pelos crimes, busca afirmação na carreira e quer deixar para trás a pecha de suas atuações constrangedoras em comerciais de televisão. Salomé faz aflorar as circunstâncias que poderão incriminar o representante da polícia e absolver o acusado, mas centra o foco na obstinação tresloucada de Jean e o compulsivo direcionamento para a culpabilidade de um inocente, através das colocações sórdidas que são apresentadas para as causas e consequências dos crimes e a perspicácia na abordagem da matéria com domínio amplo sobre o que é explicitado na versão contada. Há boa similitude na essência da narrativa com Tese Sobre um Homicídio (2013), do argentino Hernán Goldfrid, para retratar cenas que seguem um clímax da perda da lucidez, com a ficção se misturando em meio aos fatos reais ocorridos, com a ausência de imparcialidade na investigação policial contrastando com as decisões da afoita magistrada.

Com boa clareza e suavidade, o cineasta mostra um princípio de caos nas improvisações que vão desde a polícia até o judiciário inócuo, com o objetivo de resolver dois homicídios e um atentado com lesões graves. É a falência de toda uma conjuntura estrutural de um sistema decadente, no qual atua como uma alegoria para a destruição de todos os setores e organismos das células de uma sociedade. A vida pessoal do protagonista entra em descompasso e retrata um indicativo de insegurança, razão pela qual o desfecho da aproximação íntima com a magistrada e o vulnerável emprego no hotel são colocados como questões num labirinto de dúvidas e a lucidez se esvaindo, diante da imersão abalada no aspecto emocional e com a razão sendo colocada num plano secundário.

Se Fazendo de Morto aborda a temática crítica ao sistema com concessões, embora não fuja dos questionamentos lançados, busca uma cumplicidade do espectador para desvendar os crimes e indicar elementos com subsídios para associar o prólogo com o desfecho romanesco, neste bom e significativo policial tragicômico que instiga pela narrativa que destaca um falho conjunto operacional, causa humor na decadência dos princípios éticos e morais revelados, à medida que a corrupção e o desemprego são destacados com boa ênfase pelo cineasta. Faz refletir sobre a iminência da perda do domínio do poder e a submissão num subemprego, além de uma suposta ausência de imparcialidade investigativa pelo abalo emocional que destrói a racionalidade.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Mapas para as Estrelas


















Fogueira das Ambições

O lado obscuro de Hollywood sempre foi um tema retratado dentro do próprio cinema. O exercício satírico e crítico já rendeu filmes memoráveis de diretores geniais como Crepúsculo dos Deuses (1950), de Billy Wilder, Assim Estava Escrito (1953), de Vincente Minnelli e O Jogador (1992), de Robert Altman. Os mais recentes que fizeram alusão ou alguma crítica velada foram Acima das Nuvens (2014) de Olivier Assayas e o festejado vencedor do Oscar Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância (2014), de Alejandro González Iñárritu. O veterano diretor canadense David Cronenberg, no auge dos seus 71 anos, chega novamente com mais um filme espetacular, ao satirizar de forma irônica a perversidade inoculada no glamouroso mundo de futilidades e ambições sem limites das celebridades hollywoodianas.

Com cenas que remetem para O Iluminado (1980), de Stanley Kubrick e O Sexto Sentido (1999), de M. Night Shyamalan, diante do cinismo nas visões de crianças mortas perambulando em residências, o cineasta mergulha neste cenário de vaidades com o ácido Mapa para as Estrelas, recheado de sarcasmo para dar vida e consistência devastadora ao roteiro do escritor Bruce Wagner, também com fama de crítico contumaz pela mordacidade em relação à mais famosa indústria norte-americana de entretenimento do mundo apresentado no enorme letreiro como paisagem. O resultado só poderia ser uma obra contundente pelas verdades relatadas em tom de uma grande brincadeira pesada naquele repugnante submundo de um universo fantástico de sonhos realizados ou frustrados.

Cronenberg é dinâmico em sua longeva trajetória cinematográfica. Realizou clássicos bizarros e surreais de terror como A Mosca (1986), embora assustador e nojento, era ao mesmo tempo cativante e romântico; ou em Gêmeos-Mórbida Semelhança (1988), sobre irmãos idênticos de temperamentos opostos; Crash- Estranhos prazeres (1996), sobre acidentes de carros vai criar um clima de grande excitação para a plateia nesta descoberta inusitada para as relações sexuais; mas nos ótimos dramas Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), busca um cinema voltado para a denúncia social, a corrupção e o medo como temas mais palatáveis, embora realizados com bastante crueza. Já em Um Método Perigoso (2011) se aprofunda e vai ao encontro das mazelas e perturbações psíquicas e neuróticas inerentes dos insatisfeitos seres humanos, num excelente drama reflexivo da psicanálise e suas teorias divergentes de um cinema autoral.

A trama de Mapas para as Estrelas traz de forma proposital do penúltimo longa do cineasta, Jerome Fontana (Robert Pattinson- da saga Crepúsculo), um jovem motorista de limusine que sonha se tornar ator, que ironicamente era um passageiro bilionário e egocêntrico que detinha o poder no mundo das finanças prestes a falir em Cosmópolis (2012). Conhece por acaso Agatha Weiss (Mia Wasikowska- de atuação impecável, a mesma beleza e empatia de Alice no País das Maravilhas-2010) que acabou de chegar a Los Angeles com o rosto marcado por cicatrizes de um passado de violência, logo começam a sair juntos e namorar. A garota vai trabalhar para a monstruosa Havana Segrand (Julianne Moore- pela boa atuação levou o prêmio da categoria no Festival de Cannes) é uma atriz decadente que está sedenta para conseguir o papel principal da refilmagem de um sucesso estrelado há décadas por sua mãe. Ao conseguir por linhas tortas, deixa de lado a humanidade e desdenha a moralidade, ao receber a notícia por um a amiga da morte de uma criança, peça chave para seu intento, se faz de impactada. Logo, canta e dança Na Na Hey Hey Kiss Him Goodbye, uma música provocativa entoada por torcidas rivais em estádios de futebol americano. Uma demonstração de egoísmo sem precedentes para inflar o ego adormecido.

Mas o retorno de Cronenberg ao cinema fantástico que sabe lidar como poucos, traz ainda o adolescente Benjie Weiss (Evan Bird) enfrentando problemas de caráter e ausência de humildade, ao lidar com seu novo colega de elenco, tendo em vista ser o astro principal de uma franquia infantil Bad Babysitter de relativo sucesso. Esteve internado por problemas de drogas, por isto tem atenção especial da mãe (Olivia Williams) e dos produtores da série, sempre temerosos por um novo escândalo daquela bomba-relógio pronta para explodir. O vaidoso pai de Benjie, Stafford (John Cusack) é um renomado médico terapeuta de autoajuda que cuida da saúde da doentia Havana com sua faceta de torpeza brutal. Um universo de uma matilha de estrelas enlouquecidas e sem rumo, que age de forma irracional e tresloucada através das personagens egocêntricas e frívolas, distante da realidade dos mortais.

O drama é um retrato pungente de um passado de incestos, incêndios fatais, ambição e ciúmes marcados pela esquizofrenia de uma família enlouquecida, como base para um diagnóstico de uma metáfora crítica das estrelas que perderam a dignidade mínima de um vínculo civilizatório da ética pisoteada que se resolve no providencial banho de sangue. São situações criadas para uma reflexão das buscas sem pudor em episódios inverossímeis, como na cena de uma filha que vê o assédio sexual na mãe morta. É o paradoxo daquele mundo que produz beleza externa, mas demonstra apodrecimento interno no embate de egos. Outra ironia paradoxal é a jovem piromaníaca ser apresentada como a personagem mais humana e sensível, justamente ela que passou sua infância num manicômio afastada do núcleo familiar. O desfecho é revelador naquele céu estrelado na escuridão para receber os fantasmas que se desatam dos estigmas e das amarras para serem livres, perturba na essência. Um soco no estômago para uma depressão absoluta. Um extraordinário filme que estará certamente entre os dez melhores nas listas de fim de ano.

terça-feira, 24 de março de 2015

Para Sempre Alice


Agonia da Memória

Numa adaptação do romance Para Sempre Alice, de Lisa Genova, com direção de Wash Westmoreland e Richard Glatzer, sendo que este último morreu neste mês por um estágio avançado de esclerose lateral amiotrófica. O longa-metragem homônimo conta a triste história da perda de memória da respeitada professora e doutora de neurolinguística da Universidade Columbia, Alice (Juliane Moore- excelente atuação que lhe valeu o merecido Oscar de melhor atriz) de 50 anos, casada com o neurologista (Alec Balwin). A saga da doença maldita começa num dia qualquer, quando a protagonista faz uma conferência em Los Angeles, acaba por esquecer uma palavra fundamental no meio da palestra, porém tira de letra e diz que tomou espumante demais.

O filme vai aos poucos mostrando a dolorida via-crúcis da professora, como as situações constrangedoras de lapsos de memórias que se sucedem, entre elas ao se perder pelas ruas de Manhattan, e não achar o banheiro dentro de casa. Ao ser diagnosticada com o mal de Alzheimer, a moléstia coloca em xeque a força familiar, mas já há um desgaste na relação do casal que se fragiliza, com a paciência se esgotando cada vez mais. Em contrapartida os filhos dão apoio moral, como Anna (Kate Bosworth), Tom (Hunter Parrish) e principalmente a filha caçula Lydia (Kristen Stewart- na interpretação impecável da atriz de Crepúsculo), que se aproxima para estreitar o vínculo, mostra-se bem presente e deixa a profissão em segundo plano. Nas semanas seguintes, com o estágio da doença avançando rapidamente, cria-se um verão familiar na praia. Alice luta contra as probabilidades devastadoras para tentar manter uma vida normal, evitando os percalços que teimam em acontecer seguidamente.

Embora formatado com algum equilíbrio, toma ares de melodrama, ao realçar a tragédia pessoal da mulher que não quer morrer e chega a pensar no suicídio caso perca a consciência, se tiver ainda algum lampejo de lucidez para não tornar-se uma inútil. Juliane Moore dá vida e consistência para Alice, com seus olhos avermelhados e um aspecto debilitado, vai sentindo aos poucos que o marido está mais distante, ainda que presente e esforçado para ser compreensivo, como no fabuloso drama Amor (2012), de Michael Haneke, no qual o companheiro trocava fraldas geriátricas, alimentava com papinhas na boca, medicação, água e dava banho, embora a contundência psicológica do personagem de Amor ser muito mais intensa, agressiva e fascinante, diante da aproximação iminente do ocaso implacável da vida.

Para Sempre Alice vai desconstruindo com golpes suaves a imagem arquetípica da brilhante doutora, subtraindo rapidamente o potencial pleno daquela mulher e fragilizando sua personalidade como um todo em relação à vida e, portanto, do amargo destino que lhe espera. Esvai-se lentamente suas realizações como objetivos que dão mostras de estar se deteriorando pelos sintomas da inexorável perda da memória para desespero do inerte ser humano que vê o tempo avançando e observa como uma vítima impotente a passagem das luzes se apagando, na condição de uma espectadora que contempla a ruptura com o presente, passado e futuro.

Não chega a ser um filme instigante como a comédia dramática argentina O Filho da Noiva (2001), de Juan José Campanella, em que o filho visitava a mãe implicante diante da perda de memória e de uma existência já em decomposição humilhante pela decrepitude com o passar do tempo. Também inexiste a demolidora grandiloquência de Amor, mas tem bons méritos reflexivos no que se refere a degradação mental contrastando com o corpo que dá sinais de derrota, apesar de um desfecho nos moldes de telefilmes rasos. A trajetória é linear, o que ofusca a densidade plena, acaba por deixar uma narrativa menos corrosiva e mais melodramática, mas sem invalidar a proposta nada esperançosa da decadência pelo progressivo fim desesperador do ser humano.

quarta-feira, 18 de março de 2015

Depois da Chuva


A Redemocratização

Com uma produção modesta de R$1,4 milhão, Depois da Chuva é um filme rodado na Bahia, que traz na direção a dupla de estreantes Cláudio Marques e Marília Hughes, retrata um período pouco mostrado no cinema, a transição da ditadura militar para a democracia. Aborda traços autobiográficos do diretor Marques que viveu a efervescência política desta época e sua iniciação amorosa em Salvador naqueles anos conturbados. Diante do enfraquecimento do regime ditatorial nos anos de 1980, a trama acompanha Caio (Pedro Maia), um jovem rebelde de 16 anos de um colégio de classe média e seu idílio com a colega de aula (Sofhia Corral). O garoto vive alguns conflitos ideológicos no processo de amadurecimento político, e ainda tem que harmonizar a relação com os pais separados, especialmente a convivência com a mãe (Aícha Marques), que tem a guarda judicial.

Didático e cronológico na história, o longa direciona o foco para os jovens enamorados que estão vivendo uma fase histórica de mudanças no país pelo contexto político, com as eleições diretas para Presidente, no auge da campanha das Diretas Já, que levou multidões às ruas em 1984, bem como a eleição de Tancredo Neves pelo Colégio Eleitoral com a redemocratização e o fim do regime militar (1964-1985). Mostra a vigília cívica na agonia da doença do primeiro presidente civil eleito desde João Goulart, ao morrer sem tomar posse, restando ao seu vice, José Sarney assumir e comandar a propalada Nova República. Em meio aos percalços políticos, há a descoberta sexual transitando com o fim da adolescência e os ideais utópicos pululando nas mentes da juventude entediada por caminhos obscuros no futuro.

Depois da Chuva venceu o Festival de Brasília de 2013 nas categorias de melhor ator- apesar da pífia atuação de Maia-, roteiro e trilha sonora, é um painel de uma sociedade em turbulência num tempo difícil para os jovens, diante das prerrogativas de uma política castrada por um sistema alienante e sem direitos na sua plenitude. O protagonista tenta entender o que se passa naqueles momentos de tensão. De anarquista e apaixonado por música punk contestadora ao extremo, sente por vezes toda sua fragilidade e a falta do livre direito de expressão, como o radialista agredido num show, além da discussão com colegas pela direção do grêmio estudantil e a clássica música Pra Não Dizer que Não Falei das Flores, de Geraldo Vandré, entoada com ardor, levantando uma massa sedenta de liberdade com os braços levantados em sinal de protesto.

Além dos anos de exceção bem contados no Brasil, eis um drama sobre os reflexos e consequências danosas e utópicas de uma juventude adormecida por um regime extremamente castrador. São os anseios pela manutenção da integridade e do núcleo democrático derrotados por uma expressa vontade dos anos que sucederam aquela ebulição e os desfazimentos dos sonhos aflorados, rompe-se a continuação de um futuro almejado e de valores plantados num país em derrocada num cenário sombrio dos movimentos estudantis, como o protagonista que ingenuamente quer modificar o mundo num sistema conservador. A transformação almejada por jovens que clamam mudanças numa sociedade estagnada são objetivos imediatistas, através de um tom poético pela ruptura do vínculo com o sistema, com a desconstrução de jovens idealistas, embora utópicos em suas angústias e tristezas de um tempo que ficou para trás, restando somente a ilusão de um futuro a ser construído, partindo-se do marco zero.

É quase impossível não se comparar Depois da Chuva com filmes similares sobre temas idênticos, tendo em vista as enormes semelhanças de conteúdo e proposta, como Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci; ou com Amantes Constantes (2005), de Philippe Garrel, no cenário de 1969, um grupo de jovens se dedica ao ópio depois de ter vivido os acontecimentos de 1968, e dentro do grupo nasce um louco amor entre um casal que se conheceram durante a revolução. Mas a semelhança temática maior está em O Estudante (2011), de Santiago Mitre, um drama argentino pontilhado por convulsões sociais nos EUA, Chile e na Europa, quando realizado dois anos antes da produção nacional, ao sintetizar com maturidade sobre a política estudantil bem próxima da partidária, com debates políticos recheados de conchavos, coligações e falcatruas, num universo de sujeira, traição e interesses pessoais.

Os diretores filmam com clareza e fazem uma crítica razoável ao velho sistema em frangalhos, na qual uma mentalidade arcaica corroída dava seus últimos suspiros e impiedosamente se extinguia. Embora com alguns clichês recorrentes num notório clima de déjà vu, entre os quais a velha cantoria de roda de violão, o uso de drogas, ou o clipe de uma música punk para o protagonista apaixonado que praticamente não fala, apenas olha e observa tudo com cara de sonso. Bem que para o papel poderia ser um ator da qualidade de Chay Suede, Ravel Andrade, Jesuíta Barbosa, só para mencionar alguns talentos brasileiros, sem falar no astro Louis Garrel, porque já seria um exagero desproporcional. Também o didatismo exagerado resulta uma obra acadêmica e divorciada de uma realidade mais impositiva, crítica e questionadora para tornar-se reflexiva. Porém, o longa apontado por alguns críticos afoitos como o melhor da década, apesar de alguns equívocos, tem a essência de cinema com bons méritos, ao deixar sua marca como um registro histórico o epílogo dos anos de chumbo para ser esquecido para sempre, traz no prólogo a cláusula pétrea da sonhada democracia.

terça-feira, 10 de março de 2015

Nostalgia da Luz


As Origens no Deserto

O cineasta chileno radicado na França Patricio Guzmán é um dos mais badalados documentaristas em atividade no cinema mundial. O mais recente filme O Botão de Pérola (2015) foi um dos premiados no recente Festival de Berlim como melhor roteiro e Prêmio do Júri Ecumênico. É o diretor do fabuloso A Batalha do Chile (1975-1979), dividido em três partes, no qual passa a limpo o processo político-social anterior ao golpe militar de 1973 de seu país, bem como as nefastas consequências posteriores. É dele também o documentário Salvador Allende (2004).

Agora com Nostalgia da Luz, melhor documentário do European Film Awards, esta invejável produção de 2010, que só agora chega ao mercado exibidor brasileiro, num atraso incompreensível, retrata com discernimento por uma notável analogia sobre a existência da espécie humana e suas origens relacionadas com a religião, a política e a ciência do infinito que se fundem, para propor uma reflexão poderosa e profunda sobre os restos humanos encontrados no Deserto de Atacama, uma grande mancha marrom da terra mais seca do planeta vista do espaço no pé da Cordilheira dos Andes, que funciona como uma porta de um triste passado. Os vestígios humanos são oriundos do genocídio de pessoas contrárias ao sanguinolento tirano, que ali eram jogados para desaparecerem para sempre, e em outras vezes despejados no mar. São importantes questões levantadas para um resgate das memórias da conturbada história chilena.

O mérito maior do realizador é saber selecionar da série de depoimentos aqueles mais consistentes e adequados ao tema, sob o ponto de vista humano e com a força das descrições contadas pela boca de personagens do povo e por cientistas sobre as origens colocadas na temática, sem ser piegas ou definitivo, longe disto, pois sabe controlar e dar o tom na entrevista como um emérito questionador, ao deixar as pessoas à vontade para falarem algo interessante e os enigmas guardados com fervor e paixão pelos remanescentes que procuram indícios de vida seus familiares encravados naquele deserto infinito com seus mistérios do passado. Um grande exemplo de narrativa sóbria e equilibrada são as duas mulheres que falam com o coração e buscam soluções para as dúvidas mencionadas. Às vezes, em comoventes devaneios para continuar lutando com as forças que ainda restam para atingirem seus objetivos vistos como impossíveis. Embora o cientista afirme que é mais difícil encontrar soluções no universo do que achar corpos ali naquele lugar inóspito entre as montanhas.

Na recente premiação de O Botão de Pérola, em entrevista coletiva para a imprensa chilena, Guzmán denota sua preocupação com o passado político, o que já fizera em No e Nostalgia da Luz, ao afirmar que: “Me interessa muito a geografia chilena e creio que se podem fazer metáforas por meio desses elementos. O que mais me interessa é a memória. Me interessa lutar contra a amnésia do Chile.” O documentário proposto tem a essência do cinema, diante das poderosas imagens captadas num cenário distante e sombrio para dar cores fortes de uma realidade que existiu e deixou marcas por cicatrizes incuráveis que as informações desfilam na tela para o espectador refletir sobre uma brutalidade advinda de um processo deformado que atinge em cheio vidas que ficaram pelos caminhos tortuosos de um poder nefasto, como no sincero depoimento de um astrônomo, ao enfatizar o medo dos militares pelo estudo científico quer os deixavam atordoados. Mas Guzmán não é movido pelo discurso panfletário maniqueísta, longe disto, seu cinema busca o equilíbrio e a racionalidade do tema do tempo e da memória por um resgate histórico imparcial.

Com brilho poético, o cineasta demonstra toda sua sensibilidade para um mergulho sobre a existência humana e as questões metafísicas dentro de uma relação de circunstâncias que acompanham os fatos e situações da política e as consequências sociais que faz abrir um debate contextualizado. Com as imagens da Lua refletindo sobre Atacama, o longa traz uma ideia estética que nos remete para 2001- Uma Odisseia no Passado (1968), de Stanley Kubrick, ao encenar no prólogo a evolução da vida em nosso planeta pela semelhança de uma proposta ficcional cósmica e seus elementos temáticos da evolução humana. É difícil não lembrar e relacionar algumas semelhanças com Terrence Malick, no seu extraordinário drama existencial A Árvore da Vida (2011), sobre o sentido da vida, interligando religião com a perda de um dos filhos, questionando a opressão do pai e todo um rigor de disciplina severa ao preparar as crianças para as adversidades da vida.

O filme é um retrato sensitivo da tecnologia que coloca o ser humano diante das suspeitas existenciais, numa mescla de poesia com a verdade pelo impacto sensorial em quase todo o desenrolar da trama com o grande enigma da vida. Há uma tentativa buscada pela arqueologia nos instintos primitivos, bem como os reflexos da energia da explosão do Big Bang e o seu processo de espaço-tempo, tendo no nascimento do universo, a formação das galáxias e planetas e os primeiros movimentos da vida e sua evolução, a Terra com os humanos e suas contradições. Atacama não é apresentado como um bonito cenário para campos de experiências em Nostalgia da Luz, porém, é visto como um cemitério escondido para colocar presos políticos descontentes com o regime truculento de extermínio. A cena do corpo descoberto é reveladora como uma forma de livrar-se do estorvo e dá provas da barbárie, abandonando naquele momento as origens para demonstrar um passado bem presente, advindas de um contexto arbitrário perverso e doentio. Dá luz para um olhar panorâmico e perturbador, decorrentes deste inesquecível documentário.