sexta-feira, 17 de maio de 2013

Atrás da Porta














Segredos do Passado

A Hungria fazia parte do Pacto de Varsóvia, uma aliança militar formada em 14 de maio de 1955 pelos países socialistas do Leste Europeu e pela União Soviética, que também ficaram conhecidos como bloco socialista. Porém, as principais ações do Pacto foram dentro dos países-membros para a repressão de revoltas internas. Em 1956, tropas reprimiram manifestações populares na Hungria e Polônia, e em 1968, na Tchecoslováquia, na chamada Primavera de Praga que pediam a  descentralização parcial da economia e a democratização. O cineasta húngaro István Szabó sofreu algumas restrições e acusações de cooperação com o regime, mas superou tais intrigas e mostrou vigor em suas obras contestadoras ao regime comunista. Seu país sofreu graves consequências por querer ter vida própria.

Szabó consagrou-se no cenário internacional com dois excelentes dramas que renderam uma boa bilheteria: Mephisto (1981) e Coronel Redl (1985). Seu penúltimo longa foi Adorável Júlia (2004), mas sem a mesma repercussão. Nestes dois dramas do diretor húngaro, serviram como cenários a Alemanha nazista em Mephisto,tendo como protagonista um famoso ator alemão que tem sua carreira reconstituída, deixando-se levar pelo charme da fama e do poder, para ser uma marionete do regime; e a Austria com a Hungria em Coronel Redl, onde um homem mascarado busca a ascensão num cenário de falsidade e o leva a ser um mero personagem submisso.

Agora retorna ao mundo do cinema com se último longa Atrás da Porta, baseado no romance homônimo publicado em 1987 por Magda Szabó, dando continuidade à sua trajetória irrequieta, através de Emerenc (Helen Mirren- magnífica no papel), uma governanta que traz um legado misterioso e recheado de incógnitas numa Hungria na metade do século XX. São evidentes os traumas que deixaram efeitos devastadores num povoado de pessoas assustadas e com medo do presente e do futuro, diante de um passado com cicatrizes abertas e revelados num cenário metafórico de pouca luz e extremamente sombrio. A esperança está constantemente conflitada e vai de encontro com a morte, onde o pessimismo é uma marca austera e reveladora, com características que sinalizam para uma dolorida realidade, quando a casa da governanta é aberta abruptamente, deixando transparecer o lixo encontrado em meio as revelações contadas à patroa soam como um estigma da maldade humana ainda remanescente.

Os efeitos da 2ª. Guerra Mundial que deixaram uma Europa destroçada ainda são sentidos e o temor com a esperança são alegorias de uma realidade unificada como registros marcantes que jamais serão esquecidos ou apagados da memória de uma geração frustrada. O filme retrata com bastante lucidez a evidência do medo e da culpa, quando a escritora Magda (Martina Godeck) ganha notoriedade pela premiação de seus romances publicados, faz uma homenagem sincera à empregada idosa e enigmática, resultante da amizade conquistada por um vínculo estabelecidos entre as duas mulheres. A emoção e a quebra dos paradigmas sociais que revelam a verdadeira identidade e o passado de Emerenc são retumbantes naquele lugar pequeno e acolhedor, embora assustador pelas intempéries dos ventos enfurecidos anunciando maus agouros.

As suspeitas e desconfianças são bem enfocadas por Szabó, ao trazer para reflexão horrores trágicos da perseguição aos judeus no passado. Uma mulher vista com seus mistérios por se esconder, também como fazia os perseguidos de Hitler, é acusada de matar o próprio gato; bem como sua sensibilidade e amor aos animais só serão confessados à amiga que deposita confiança irrestrita, bem como seu envolvimento com a ajuda voluntária aos judeus vão se dissipando aos poucos, assim como as tormentas que alegoricamente dão lugar ao sol, diante da fuga das nuvens e da trégua do mau tempo.

Um bom filme que faz menções ao nazismo durante a 2ª. Guerra e a perseguição ao povo semita contrastando com a atitude humanística e sensível de uma protagonista e seus objetos quebrados como demonstração fervorosa de um valor menor às coisas materiais, fortificada pela amizade na cena final, quando a tempestade cede e dá lugar à reconstrução como uma simbiose de harmonia em confronto com o sentimento de revolta.

domingo, 5 de maio de 2013

Festival Varilux Cinema Francês (Ferrugem e Osso)

















Ferrugem e Osso

Uma das grandes promessas do Festival Varilux deveria ser o aguardado Ferrugem e Osso, premiado com os Cesars do cinema francês de melhor ator, roteiro adaptado, trilha sonora e edição. Concorreu ainda como melhor filme no Festival de Cannes ano passado e venceu como melhor filme no Festival BFI de Londres. Um drama sobre segundas oportunidades com bons argumentos de duas pessoas magoadas e destroçadas pelo destino da vida que lhes aplicaram golpes baixos. Mas a superação e a amizade estão presentes na ajuda mútua. A realização é de Jacques Audiard, o festejado diretor de Nos Meus Lábios (2001), De Tanto Bater o Meu Coração Parou (2005) e Um Profeta (2009).

A trama tem Alain (Matthias Schoenaerts- ator belga arrasa no papel) que está desempregado e vive com o filho de apenas cinco anos, no norte da França. É um ex-boxeador que faz bicos e vai morar na garagem da casa da irmã Anna (Corinne Masiero)
em busca de ajuda e logo consegue empregar-se como segurança de boate. Um dia, ao apartar uma confusão, ele conhece Stéphanie (Marion Cotillard- muito contida, a bela já rendeu mais), uma linda treinadora de baleias. Alain a leva em casa e deixa seu cartão, caso precise de algum serviço. Mas o destino guarda surpresas e logo Stéphanie sofre um grave acidente, deixando-a paraplégica, perdida e infeliz, situação esta que mudaria sua vida para sempre. Os dois vivem uma história de amor imprevisível sobre todas as dificuldades, físicas e morais. São pessoas absolutamente diferentes que buscam um relacionamento redentor. Mas entre eles está Louise (Céline Sallette), uma transa carnal sem vínculo, que aceita a condição.

Há uma improbabilidade de relação entre a adestradora de orcas, mulher sensível, delicada, frágil, que não tem nada ver com aquele brutamonte que sabe mesmo é dar murros na cara de seus adversários, por ser um praticante de lutas livres de ruas para ganhar dinheiro, auxilia um amigo em escutas clandestinas para fiscalizar empregados de empresas e acaba prejudicando a própria irmã, criando-se um clima insustentável de convivência entre os dois. Ainda que o leão-de-chácara seja uma pessoa rude e áspera no trato, o drama busca a aproximação com a domadora fragilizada, retratando a solidariedade e a ajuda entre pares excluídos da sociedade. Um por problemas de deficiência física e o outro por excesso e rigidez em seu físico avantajado, mas com falta de melhores neurônios para solucionar problemas que fazem pensar. Só sabe bater e arrebentar o semelhante na mínima dificuldade, embora tenha um coração dócil, mas sobra até para o filho sensibilizado com o destino dos cachorros.

Um longa de pessoas de mundos diferentes, mas que a igualdade é possível e aproxima na desgraça, como demonstrou Eric Toledano e Olivier Nakache na badalada comédia de costumes Intocáveis (2011), sobre uma inesperada amizade genuína entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante, um imigrante do Senegal que busca seu reingresso social na França dos brancos. Com um toque de humor cáustico na busca pela igualdade entre duas pessoas opostas social e intelectualmente. Há a violência física para colocar ordem na casa e na vizinhança, como numa leitura motivacional de autoestima pela sabedoria da escola da vida mesclada com pitadas de autoajuda.

Há semelhanças também com Amor é Tudo o que Você Precisa (2011), da dinamarquesa Susanne Bier, que tinha méritos inegáveis ao abordar uma relação solidária de duas pessoas opostas que se conhecem por acaso e que tornam-se amigas. Embora a reinclusão social seja um dos temas, não há uma profundidade acentuada, além de uma lição de vida, gratidão e superação, buscando-se a alegria de viver numa amizade louca, cômica e faiscante, contrária aos dogmas normativos.

Ferrugem e Osso é simples na sua estética, deixando as metáforas afastadas do enredo, indo direto ao choque cultural entre as duas criaturas arruinadas por circunstâncias alheias às suas vontades, numa interação de uma relação quase que sadia, beirando uma solidariedade fraternal que causa o estreitamento e a aproximação para o amor e o carinho. Um filme sem grandes rodeios ou simbologias das desgraças sociais que tem um ótimo ator e uma encantadora trilha sonora para embalar o clímax. Mas o grande acerto está nos efeitos visuais computadorizados para mostrar as duas pernas amputadas abaixo dos joelhos, dando um realismo impressionante. Audiard trata objetivamente do recomeço da vida e a coragem para continuar, mesmo parecendo tarde demais neste drama que vai do razoável a bom.

Festival Varilux Cinema Francês (Os Sabores do Palácio)

















Os Sabores do Palácio

Mais uma ótima surpresa no Festival Varilux de Cinema Francês deste ano, com o viés da gastronomia, faz uma abordagem suculenta, mas com um molho bem amargo na agridoce comédia Os Sabores do Palácio, dirigido por Christian Vincent, que tem em sua filmografia entre outros longas A Discreta Intimidade de Uma Mulher (1990), A Separação (1994) e Quatro Estrelas (2006).

A trama aborda a história da respeitável chefe de cozinha Hortense Laborie (Catherine Frot) que reside em Périgord e surpreendentemente é convidada e já nomeada para ser a responsável pela cozinha particular do presidente da República, sugerido no longa como François Mitterrand (Jean d’Ormesson) no Palácio do Élysée. Inicialmente, ela se torna objeto de inveja, sendo malvista pelos outros cozinheiros do local, especialmente o chefe da cozinha geral. Com o tempo, no entanto, Hortense consegue mudar parcialmente a situação, traz para seu lado o cozinheiro subchefe Nicolas Bauvois (Arthur Dupont). Mas mesmo estando atenta aos dissabores dos colegas, como intrigas, fofocas e inveja, afinal os bastidores do poder estão cheios de armadilhas, sua resistência fraqueja e os valores são outros.

A burocracia emperra no palácio e o presidente nunca se manifestava sobre a qualidade da comida, tendo Hortense que forçar uma situação inusitada para aproximar-se, já os assessores tinham trânsito livre. Com o desmembramento das cozinhas, houve uma ciumeira geral e o chefe da central não a via com bons olhos. Mesmo com o amparo de Nicolas e também do chefe de cerimonial David Azoulay (Hippolyte Girardot), as coisas não iam bem.

A grande sacada da comédia é o roteiro que tem duas histórias concomitantes. Não há uma sequência de planos, pois além dos acontecimentos no palácio por três anos de atividades, mescla-se com sua reclusão numa ilha deserta que serve de base para pesquisas na Antártida. Sua comida e seu trabalho são reconhecidos e lá se sente importante e reconhecida literalmente. E passa para o espectador algo mais para ficar com água na boca ao vê-la separando ingredientes, salteando legumes, montando e decorando os pratos. Já a cena da despedida, ao findar seu autoexílio é comovente. O carinho e o amor dos pesquisadores tocam-lhe no fundo da alma. Num ambiente de simplicidade e sensibilidade humana, o âmago é fisgado com sutileza e as lágrimas tropeçam nos soluços como agradecimentos sinceros.

Se de um lado há um puro reconhecimento que viceja, de outro a inveja polvilha como erva daninha, contrastando com a solidariedade humanística de pessoas simples e de bem com a vida, longe da pompa reinante palaciana e desmesurada de rituais desgastantes que sufocam e tiram o ar puro das entranhas da chefe, mais para uma estranha no ninho dentro de uma retórica gastronômica de opulência. Lá é mais uma e seu trabalho é ultimamente questionado pelos médicos do presidente com uma dieta que refoge de sua criatividade. Bate de frente com o administrador e suas contas com números contábeis infindáveis e suspeitas de esbanjamento com ingredientes específicos. Até as trufas frescas preferidas do presidente e recém-colhidas no pomar são alvo de um interrogatório inverossímil.

O longa é reflexivo e questionador sobres valores e a ética profissional, mas sua analogia com filmes de gastronomia são bem pertinentes, assim como Chocolate (2000), de Lasse Hallström, com Juliette Binoche arrasando; e Como Água para Chocolate (2002), de Alfonso Arau; e o melhor de todos A Festa de Babette (1987), de Gabriel Axel, retratando o poder do deleite gastronômico com a transformação de Babette, que parece voltar à vida, mesmo com o esforço e o trabalho necessários para preparar e servir o banquete. Também os convidados entram numa metamorfose e chegam ao final do banquete como pessoas diferentes e mesmo melhores que antes, tendo no espectador o convencimento que é possível a felicidade sem pecado, através de um prazer sem culpa.

Os Sabores do Palácio traduz com dignidade a satisfação de Hortense cozinhando e tem-se a certeza de que é o que mais lhe agrada fazer. Um entusiasmo contagiante e apaixonante pela culinária, certamente reflete-se no resultado. Os pratos são mais que apetitosos, tanto os solenes festins palacianos, como os quitutes da ilha de pesquisa, dando sensações e prazeres pelos olfatos, táteis e visuais nesta fabulosa comédia dramática gastronômica sobre a inveja, solidariedade, burocracia e o reconhecimento para a satisfação pessoal.

sábado, 4 de maio de 2013

Festival Varilux Cinema Francês (Aconteceu em Saint-Tropez)

















Aconteceu em Saint-Tropez

Mais uma surpresa positiva do Festival Varilux de Cinema Francês deste ano, num misto de comédia romântica com situações típicas de costumes originou Aconteceu em Saint-Tropez, dirigida pela veterana cineasta Danièle Thompson, que tem em sua filmografia entre outros longas Fuso Horário do Amor (2001) e Um Lugar na Plateia (2005). Tem um olhar amargo e ao mesmo tempo doce sobre o microcosmo familiar, sem deixar de alfinetar com clareza e sem subterfúgios as hipocrisias decorrentes das relações deterioradas pelo tempo.

A trama aborda os irmãos conflitados que se detestam, Roni (Kad Merad) e Zef (Eric Elmosnino- de grande atuação em Gainsbourg- O Homem que Amavas as Mulheres (2010), de Joann Sfar), estão sempre brigando e há uma discórdia permanente entre eles por causa do trabalho, disputa de mulheres e visão de vida no futuro. Uma família de adeptos fervorosos da religião judaica, exceto o irmão mais velho. O clima esquenta mesmo quando Roni decide casar a sua filha no mesmo dia em que Zef enterraria sua esposa em Paris, morta repentinamente em acidente de automóvel. O corpo acaba indo parar dentro da casa do pai da noiva, diante de transtornos encontrados no translado de Nova Iorque para a capital francesa.

A partir do eventos casamento e morte cria-se o estopim que estava faltando e uma plêiade de acontecimentos caóticos vão minar definitivamente os laços familiares, mas sempre tem um porém e fatos inesperados geram uma história de amor, ou até mesmos duas, por que não? O encontro inusitado da prima da noiva com o futuro marido desta, no dia da viagem até Paris e os desdobramentos futuros irão pontilhar encontros e desencontros de membros de uma família heterogênea.

A presença instigante de Giovana, mulher de Roni, no papel de uma italiana aparentemente burra, é um dos pontos altos da comédia, com tiradas maravilhosas em formato de pérolas, tais como: “quando ficar velha quero ter Alzheimer, pois assim não perceberei que estou velha e feia”. Suas entradas em cenas são divertidas e atira com perspicácia sua incontinência verbal, embora passe pra o espectador ser uma mulher nada inteligente. A interpretação é da bela e competente atriz italiana Monica Bellucci, com seus 48 anos bem escondidos, mora no Rio de Janeiro há três meses e foi escolhida recentemente como a mulher mais sexy do mundo pela revista Vanity Fair espanhola. Em sua trajetória já atuou nos filmes Drácula de Bram Stoker (1992), de Francis Ford Coppola, Malèna (2001), de Giuseppe Tornatore e A Paixão de Cristo (2004), de Mel Gibson.

Thompson retrata a história de uma família judaica, que o destino fará que haja por linhas tortas, justamente no casamento da filha de Roni, uma aproximação forçada pela morte da cunhada. É lá que os noivos se casam por interesses mais funcionais do que por amor propriamente dito. Os convidados estão no local para a grande comemoração marcada para o dia da celebração e troca de alianças, embora dentro de casa ocorra um acompanhamento fúnebre pela morta dentro de uma sala isolada da festança. Um fato kafkiano sugere a diretora, liberando Roni para cantar suas canções prediletas e demonstrar toda sua fragilidade de um Frank Sinatra frustrado. Aparece mais que os noivos e a festa é toda dele, aquele homem rico e sem pudores éticos, envolvidos com negócios escusos, vazio como ser humano, só pensa em badalações em iates e navios. Sua filha não está muito distante do caráter duvidoso do pai, demonstra ser uma patricinha com caprichos e o noivo está ali visceralmente por interesses financeiros.

A cineasta faz o contraponto com o irmão mais novo Zef, sua filha e o futuro genro. Todos tocam numa orquestra sinfônica e apresentam-se para um público de bom gosto que aplaude entusiasticamente a valsa Danúbio Azul, de Johann Strauss. Mas há uma tendência deformadora em roubar os pares dos familiares, como da prima fútil; bem como do próprio pai, a enfermeira que faz o velho patriarca ter ânimo de viver, com disposição e muita lucidez e senso de humor magnífico, embora paradoxalmente esteja esclerosado. Seu sonho é realizar seu aniversário no Maximin’s em Paris, restaurante mítico frequentado por celebridades. Poupa por dois anos e a festa é o marco de definições de casais perturbados pelas frustrações e cinismos enrustidos. Busca a reconciliação dos filhos até o fim, sempre apertando suas mãos e dando-lhes picolé de baunilha para um e de pistache para o outro.

Aconteceu em Saint-Tropez é uma comédia de profundas reflexões e com um resultado acima da média das produções cômicas, onde a fotografia é primorosa num cenário de Paris com a grande maioria das locações e Saint Tropez aparece menos. Deslumbra com uma trilha sonora encantadora, com um roteiro instigante de situações novas em cada cena, com toques recheados de um humor refinado por piadas inteligentes e sacadas memoráveis, com sarcasmo, ironia e crítica corrosiva à pequena burguesia que pensa apenas no luxo, pouco percebendo o vazio de suas vidas, num encontro formal que esbarra nas vaidades, idiossincrasias, mentiras, traições e revelações de lado a lado. Prevalece as aparências cínicas e fantasiosas do evento comemorativo, apenas esboçando um quadro cênico de realismo deturpado por normas religiosas ultrapassadas e sentimentos corrompidos.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Festival Varilux Cinema Francês (Camille Claudel, 1915)













Camille Claudel, 1915

Uma das surpresas positivas do Festival Varilux de Cinema Francês de 2010 foi O Pecado de Hadewijch (2010), dirigido pelo competente e promissor cineasta francês Bruno Dumont, retratando uma jovem da classe alta que deseja ser freira e tem um envolvimento com dois irmãos muçulmanos que moram na periferia de Paris. A moça é uma católica que tem vocação, mas entra em conflito existencial ao descobrir outras religiões, descobrindo a fé e os conceitos de devoção contrários ao catolicismo pragmático que conhece e testa sua fervorosa e ardente obsessão, tendo como lema sua obstinação pela igreja.

Dumont é tipicamente um diretor de ator e seu elenco é basicamente de amadores deficientes mentais com diversos tipos de insanidades, ao surpreender novamente no Festival Varilux deste ano, com o estupendo drama sobre a triste trajetória de vida da escultora que empresta seu nome ao título Camille Claudel, 1915, revela-se um estudioso da paixão mística, ao abordar com grande sensibilidade o extremismo religioso, com um olhar crítico avassalador sobre o Cristianismo, tendo no papel principal a artista que é internada aos 30 anos pelo intransigente irmão Paul (Jean-Luc Vincent- atuação sóbria), num hospício do interior da França, sob a alegação de que a arte tira o equilíbrio emocional do ser humano, razão pela qual foi tachada como louca por uma mulher criar esculturas. No centro do longa-metragem está a devoção pelo catolicismo e a fé inabalável do irmão fanatizado. Drumont não poupa a igreja católica e esmiuça seus dogmas conservadores, pesados e radicais.

O cenário da trama é a bela cidade de Avignon, que fica na região da Provence, no sul da França (a 230 km de Lyon), e é conhecida basicamente por já ter sido residência de vários papas. Lá está o hospício dirigido por um médico veterano na psiquiatria e que abriga Camille Claudel, tendo as freiras e algumas noviças fazendo o trabalho dito terapêutico para recuperar pessoas disformes de aspectos horrendos, com terríveis defeitos físicos e deficientes mentais notórios. Neste lugar pavoroso, embora estivesse encravado numa paisagem bucólica e sedutora, foi o verdadeiro inferno dantesco na vida da escultora, interpretado por Juliette Binoche, que está no ápice de sua carreira de sucessos, constrói uma personagem com vida em antológica atuação desta talentosa diva francesa, esbanjando como sempre sua beleza, sensualidade e carisma. Foi vista recentemente no longa A Vida de Outra Mulher (2012), da estreante Sylvie Testud; em Elles (2012), de Malgorzata Szumowska e De Coração Aberto (2012), dirigido pela cineasta francesa Marion Laine.

O drama difere em muito de Camille Claudel (1988), de Bruno Nuytten, que abordava diretamente o relacionamento tortuoso de 15 anos com Rodin em 1885, quando a jovem aprendiz do badalado escultor se transforma em sua amante, embora fosse o mesmo casado, cai em desgraça com sociedade parisiense. Apesar de ter amigos influentes como o compositor Claude Debussy, ao romper o romance, seu destino é a solidão e por fim a internação pelo irmão no hospício em 1912.

O diretor em seu longa anterior O Pecado de Hadewijch focava uma católica que não aceitava uma noviça, sob o pífio pretexto de que faltava humildade, fazendo com que a jovem se sentisse arrogante e não merecedora de Deus. Em Camille Claudel, 1915, a devoção e o seu amor ao propalado Deus pertence ao irmão tresloucado, ao pregar uma igreja que sustenta como o ser maior clamando pela humildade, razão pela qual interna a irmã por ter ela um propalado orgulho do trabalho que lhe causa autossuficiência com ideias próprias e diagnosticada de esquizofrenia. Sua insanidade é visível, mas a atribuída louca que está internada e sofreu visceralmente é Camille, até morrer aos 79 anos.

O filme flui por uma dramaticidade de forma autêntica e demolidora sobre a igreja, basicamente numa época específica como a de 1915, em plena 1ª. Guerra Mundial. Mostra a busca da redenção que vem com a bela cena do vento, quando entra no manicômio na cena próxima do final. Outra cena comovente é o diálogo forte com o médico e sua confissão de dor e perseguição do ex-amante e também escultor famoso Auguste Rodin, que a destruiu com sua paixão mentirosa e recheada de falsidades ao romper o romance aos 30 anos, teve obras e ideias já materializadas virtualmente furtadas pelo grande e decepcionante amor de sua vida, destruindo-a literalmente e induzindo o irmão em jogá-la naquele lugar inóspito como um legítimo sepultamento de uma maldita jovem morta-viva, cheia de alegrias e aspirações.

A reflexão é contundente sobre o catolicismo num mundo de permanente busca, em que a religião reflete seus preconceitos, contradições e radicalismo. Ou se fechando dentro dos muros como faz uma igreja retrógrada, sendo espreitada pela presença marcante da fragilidade humana, através daqueles seres alijados de um convívio social adequado com familiares. Sobra para todo mundo na película, diante do olhar forte e a posição firme do diretor sobre as aberrações religiosas ultrapassadas de proselitismos e epifanias, tanto pelo fanatismo, como pelo radicalismo exacerbado, bem caracterizado por Dumont neste magnífico filme sem trilha sonora para deixar mais impactante o clímax de revolta e ultraje de uma artista excomungada pela família em conluio religioso.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Depois de Maio













Utopias Juvenis

O diretor Olivier Assayas mostrou toda sua competência no extraordinário Horas de Verão (2008), retratando as relações familiares e as transformações no século 20, com o início da globalização, abordou profundamente o fim de uma era glamourizada, onde a cultura e a economia eram fatores sólidos e essenciais da velha Europa e a França fazendo parte como um sustentáculo bem consolidado. Depois realizou o épico de 5h30min Carlos (2010), enfocando a história da vida de Ilich Ramirez Sanchez, de codinome "Carlos" o Chacal, tendo por ídolo "Che" Guevara, com formação marxista, mostra-se um revolucionário que defende a causa da Palestina, tendo como seu crepúsculo profissional justamente a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, foi um dos terroristas mais procurados no mundo por duas décadas, após diversos atos sanguinários.

Assayas se debruça neste seu último longa-metragem sobre os reflexos e as consequências danosas e utópicas da juventude sonhadora do pós-maio de 1968. Os anseios pela manutenção da integridade e do núcleo são rapidamente derrotados por uma expressa vontade dos anos que sucederam aquela efervescência e os desfazimentos dos sonhos por bens materiais que ainda afloram, visando um futuro longe da cultura revolucionária almejada e dos valores plantados num país em derrocada.

A trama tem um cenário sombrio em 1971, onde Gilles (Clément Métayer- de atuação magistral) vive seu último ano no colégio e participa de um movimento estudantil com seus amigos e personagens bem definidos como aqueles jovens que querem modificar o mundo a qualquer preço. Seja incendiando carros, enfrentando a polícia violenta de um sistema conservador, pronta para o revide e a agressão com vítimas barbaramente espancadas. A busca da transformação pela contracultura de espíritos que querem mudar uma sociedade conservadora são seus objetivos imediatistas. Mesmo num tom poético, há a ruptura do vínculo com o sistema.

É impossível não se comparar Depois de Maio com filmes anteriores, tendo em vista as enormes semelhanças de conteúdo e proposta, como Os Sonhadores (2003), de Bernardo Bertolucci, que mostra um rapaz em 1968 indo estudar em Paris. Lá ele conhece dois irmãos e os três logo se tornam amigos, dividindo experiências e relacionamentos, enquanto Paris vive a turbulência da revolução estudantil. Também comparável com Amantes Constantes (2005), de Philippe Garrel, quando em 1969, um grupo de jovens se dedica ao ópio depois de ter vivido os acontecimentos de 1968. Dentro do grupo nasce um louco amor entre uma garota e um garoto que se conheceram durante a revolução.

O diretor filma com sutileza e sua crítica é áspera ao velho sistema oligárquico, onde uma mentalidade arcaica está em extinção e impiedosamente corroída. Mas há a desconstrução de jovens idealistas, embora utópicos em suas angústias e tristezas de um tempo que ficou para trás, restando somente a ilusão de um futuro a ser construído, partindo-se do marco zero, num país que teria que rever seus valores. A corrosão é fulminante e os sonhos e devaneios dão lugar para uma geração nova que surge com a missão de carregar algo que está agonizando.

Depois de Maio é um drama com méritos e tem uma boa essência de cinema irrefutável, diante da onda de protesto do famoso maio de 1968 e a obstinação de um público jovem querendo mudanças no mundo, como o questionando do aborto, a liberação e o uso de drogas, principalmente uma revolução cultural iminente. Assayas dá ao filme tons nitidamente autobiográficos quando tinha tenra idade e seu alter ego está impecável como o protagonista Gilles e seus amores perdidos no tempo, mas há um notório clima de déjà vu cansativo no ar. A solidão dos personagens no epílogo e suas vidas em desencontro são boas referências reflexivas com razoável instigamento do tema já bem recorrente advindo daquela época.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Hoje



















Fantasma do Passado

Vencedor do Festival de Brasília de 2011 e selecionado em 2012 para o Festival de Verão de Porto Alegre e o Festival Latino-Americano do Novo Cinema em Havana, estreou finalmente o badalado filme Hoje, com direção de Tata Amaral, roteiro de Jean-Claude Bernardet, baseado no livro Prova Contrária, de Fernando Bonassi. Ambos já trabalharam com a diretora nos longas Céu de Estrelas (1996) e Atrás da Janela (2000).

O drama Hoje tem uma linha própria de simplicidade, na cidade de São Paulo, com um cenário único dentro de um apartamento fechado em 1998- exceto na última cena-, como visto recentemente no extraordinário Amor (2012) de Michael Haneke, ou no bom filme Deus da Carnificina (2011), de Roman Polanski, ou ainda no magnífico Vocês Ainda Não Viram Nada!, de Alain Resnais. Quando há criatividade o resultado é uma obra profunda e notável em todos os seus aspectos, como nos referidos dramas de cenário único. Mas Tata Amaral não convence e seu filme peca por inércia e falta de dramaticidade cênica, embora paradoxalmente os intérpretes estivessem muito bem em seus papéis. Denise Fraga como Vera/Ana Maria, sem abusar do histrionismo característico, tem uma boa desenvoltura, com uma atuação sóbria e convincente, protagoniza com o ótimo ator uruguaio César Troncoso (O Banheiro do Papa-2007), que está lúcido como o ativista Luís, desaparecido durante o regime militar.

A trama tinha tudo para ser consistente e provocar o espectador, mas o resultado causa um marasmo desanimador na plateia pelo exagerado tom arrastado. Luís reaparece no dia da mudança de Vera- conhecida pela alcunha de Ana Maria na clandestinidade-, quando os funcionários da transportadora estão desenrolando os móveis e utensílios domésticos no novo apartamento. Há um jogo de cena que pareceria deslanchar com o desenvolvimento do enredo. Culpa e questionamento sobre o vínculo com o passado que acarretou na queda do “aparelho” dos ativistas são colocados num diálogo frio e sem emoção. A protagonista é questionada sobre a aquisição do imóvel, oriunda da indenização do companheiro dado como morto pela lei de 1995, depois do desaparecimento em 1974 de Luís, que surge e se materializa exatamente no dia em que a viúva está se instalando em sua nova residência. Afloram os fantasmas do passado e os anos de chumbo de 1964 a 1985 vem à tona como o fato causador. Os traumas sofridos pela dupla são manifestados, mas sem a força e a catarse de contundência de um Arnaldo Jabour em Eu Sei Quer Vou Te Amar (1986), onde um casal faz um jogo de palavras memorável através de uma esplendorosa terapia filmada de forma arrasadora, dissecando e derrubando normas preconceituosas e tabus existentes entre duas pessoas que se amam.

A cineasta que perdeu o marido aos 19 anos, ele com 20, admite que seu episódio pessoal influenciou o relato da perda e da morte em vida da protagonista, ao desabar logo após descobrir que nunca mais veria o companheiro. Não é um filme de imagens eloquentes que falam, nem há uma forte emocionalidade, embora a leitura de documentos e vídeos da época causem algum impacto sensorial ilusório, porém está aquém da expectativa. A tortura e a morte são relatos cênicos pobres de uma dramaturgia teatral pouca imaginativa. Não que isto impedisse o clímax, mas a ausência de um realismo é relevante e leva o drama para um abismo de diálogos frouxos e escorregadios, sem a atitude corporal ou de um magnetismo eficiente que poderia envolver a trama.

O filme empaca na simplicidade incontida de uma câmera fixa, com alguns movimentos pelo espaço fechado, abrindo em raros contraplanos cansativos, sem levar a lugar algum por tenras imagens sem força dramática. Ao optar por não utilizar o recurso do flashback contado em apenas um dia, há uma sonegação do passado que dá uma falsa impressão de encobrir os estragos provocados por um regime totalitário de barbáries sem escrúpulos.

Hoje aborda a sexualidade de Vera como uma forma agressiva para se defender do fantasma que atormenta seu futuro, mas o resultado é um simplório e desvirtuado vulgarismo para uma mulher que busca encontrar forças para viver um novo amanhã e cicatrizar as feridas que latejam. O desfecho pela ida até a praça, diante da conclusão da ruptura com o passado e que o marido não retornará é precário e não convence. Faltou cinema, sobrou uma certa acomodação numa linguagem teatral banalizada, sem perturbar ou provocar o espectador.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Vocês Ainda Não Viram Nada!



Eurídice e Orfeu

O longevo diretor Alain Resnais, com seus 90 anos de idade bem vividos, novamente apronta positivamente com Vocês Ainda Não Viram Nada!, fundindo teatro e cinema para realizar o último desejo de Antoine (Denis Podalydès), um famoso dramaturgo que morre de repente e deixa uma mensagem num vídeo convidando seus melhores amigos para remontar livremente, em quatro atos, a peça escrita por Jean Anouilh Eurídice e o relacionamento conturbado com seu amante Orfeu. A proposta inusitada é transmitida pelo mordomo aos atores que atuaram nas duas versões anteriores, logo que chegam na suntuosa mansão para participarem do funeral, porém este já acontecera rapidamente por desejo do morto.

A ironia mesclada com um humor sutil são marcas registradas deste extraordinário cineasta francês, como visto recentemente no notável Medos Privados em Lugares Públicos (2006) e em Ervas Daninhas (2009), este um pouco abaixo da expectativa. A carreira do velho mestre é brilhante e tem em sua filmografia os ótimos Amores Parisienses (1997) e Beijo na Boca, Não (2003), bem como as obras-primas Hiroshima, Meu Amor (1959) e O Ano Passado em Marienbad (1961). Seu talento é inerente aos diretores decanos do cinema, como o português Manoel Oliveira, 104 anos, esbanjando lucidez no atual O Gebo e a Sombra (2012), sucesso na última Mostra de Cinema de São Paulo ocorrida ano passado.

Vocês Ainda Não Viram Nada! é um drama magnífico, onde o teatro e a sua formalidade estrutural e cênica na apresentação da remontagem da peça dá vazão para um mergulho no imaginário do espectador da sétima arte. A encenação com Sabine Azéma e Pierre Arditi como Eurídice e Orfeu está espetacular, bem acima do casal na versão posterior Lambert Wilson e Anne Consigny. O cineasta brinca e se diverte com a linguagem teatral e cria um atmosfera de amor e ódio, alegria e tristeza entre os atores convidados que chegam na residência do recém-falecido. Aos poucos começam a se envolver no clímax farsesco proposto em vídeo pelo mordomo. Vão entrando cautelosamente na encenação e tomam por todo o espaço do cenário com bastante rigorismo para colocarem como realidade suas interpretações.

É bem original a jogada cênica, como foi também intuitiva a criação de Eduardo Coutinho em seus documentários Jogo de Cena (2006) e Moscou (2009). Mas bem distante em matéria de inovação a Roman Polanski em Deus da Carnifina (2011), que se baseou na peça da dramaturga francesa Yasmina Reza. A estética apurada do veterano diretor é consistente e tem guarida nas abrangentes atuações de Michel Piccoli e Mathieu Amalric, além dos atores que interpretam o casal nas versões reeditadas.

O equilíbrio cênico encontra sustentação no roteiro enxuto e sofisticado para uma atmosfera que vem à tona com lucidez e que são fatores primordiais para o desenlace surpreendente do longa, de certa forma como bem induz o título. Não dá para piscar o olho no final, diante do epílogo elucidativo do cemitério, pois tal qual Eurídice e Orfeu, há o encontro revelador para o grande amor eterno, diante dos indícios reflexivos do dramaturgo Antoine com a atriz e musa que se esconde na última cena. Embora tudo pareça ser uma brincadeira juvenil do diretor, porém a chave do enigma está bem alicerçada num molho saboroso desta obra singular de cinema teatral do incansável Resnais.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Rânia



















Conflito das Danças

A promissora diretora cearense Roberta Marques retrata no seu longa ficcional de estreia Rânia um drama que reflete a preocupação do cinema autoral com a estratificação social e o papel da mulher através da captação da câmera que percorre já no prólogo um bela cena, onde a protagonista que empresta seu nome ao título (Graziela Felix), demarca seu território e os limites que deverão ser costurados e as arestas a serem aparadas, para sair daquele lugar-espaço que lhe é pequeno. A dança é o voo que pretende alçar num futuro bem próximo, pela visão de uma jovem sonhadora e irrequieta com a situação de mesmice dos pais separados e acomodados.

A trama mostra uma garota que não aceita continuar ali e no seu traçado de vida surgem ideias e tentativas, que até podem ser frustradas, mas a teimosia em não desistir está encravada visceralmente em sua personalidade contestadora daquela menina que vive em Fortaleza, no morro Santa Terezinha e ajuda a mãe nas lidas da casa, que estuda numa escola municipal, trabalha numa barraca e vive sonhando em ser bailarina. Tem como amiga inseparável Zizi (Nataly Rocha), de passagem meteórica e nada alentadora pela Itália, que a leva para uma boate de dança erótica, com o sugestivo nome de Sereia da Noite, onde a boemia e o dinheiro fácil estão presentes em parceria com a prostituição.

O conflito interior da adolescente se estabelece e a disciplina da dança entra em choque com as facilidades ali existentes, quando conhece a coreógrafa e dona da companhia de dança Estela (Mariana Lima). Uma mulher com os pés no chão e consciente de seu papel na formação de futuras profissionais. Logo dá as cartas e se posiciona com rigor para eventuais falcatruas. Ir para o Exterior requer a anuência do pai, um homem rude e voltado para o seu barco com o casco avariado. Está mais preocupado é com o conserto e voltar a pescar em alto-mar, única coisa que sabe fazer na vida e determinar que a filha cuide dos dois irmãos menores. A mãe é uma mulher típica sofredora e oprimida, que além do cotidiano caseiro, tem que costurar para sobreviver e alimentar os filhos.

O longa mergulha na vontade daquela menina em ser artista e dançar como uma grande estrela, pois é o que mais almeja e faz de tudo para atingir seu objetivo. Ao seguir o instinto de libertação, haverá interferências que surgirão como possibilidades remotas ou buscar o caminho da facilidade pela aproximação da ilicitude. A diretora mostra um Nordeste com poucas chances, como também foi retratado por Kleber Mendonça Filho no comovente O Som ao Redor (2012), onde a natureza silenciosa e ameaçadora serviu como metáforas de um Brasil inseguro e rodeado pela miséria e pela onda de violência.

Marques vai pelo sensível atalho dos dois caminhos colocados para a protagonista, sem demagogia ou alarde pirotécnico. Indica que há uma opção do caminho sem volta, que é o dinheiro falando mais alto e aparentemente sem problemas através de uma clientela para uma ninfeta bonitinha e saudável. O outro caminho é mais difícil e serpenteado por agruras, requer obstinação individual e coletiva dentro de um regramento para atingir o ápice da carreira artística. Ser famosa por méritos próprios está inserido numa grande entrega profissional, como se viu no extraordinário documentário Pina (2011), de Wim Wenders. O olhar feminino contextualizado em Rânia, também se faz presente nos ótimos O Céu de Suely (2006), de Karim Aïnouz, A Casa de Alice (2007), de Chico Teixeira e Riscado (2010), de Gustavo Pizzi.

Ressalte-se o elenco consistente sem grandes arroubos interpretativos e cênicos, encaixando-se bem com a sutileza dos diálogos que evitam os clichês e excessos, atinge o público de modo sóbrio e ao mesmo tempo com a delicadeza proposta pela cineasta, onde há uma trilha sonora adequada para os personagens, com destaque para a bela voz de Cat Power. Mas nem tudo soa perfeito na harmonia do filme, pois a cineasta peca por não dar ênfase num olhar que deveria ser mais severo e crítico sobre o prostíbulo quase glamourizado sobre o realismo do turismo sexual ali existente. Embora não queira, deixa-se trair em muitas cenas no desenrolar da trama, exceto no surto do namorado de Zizi, próximo de uma realidade apresentada.

Os limites impostos a serem ultrapassados soam como amarras indecifráveis, talvez outro equívoco da diretora. Porém os conflitos da protagonista são bem racionalizados e a dúvida da opção fica no ostracismo de um futuro incerto dentro de um contexto de passividade dos pais, num cenário poético e deslumbrante, mas que no epílogo fica um certo vazio, embora sem maniqueísmos, deste bom drama social brasileiro dos sonhos convulsivos que buscam uma existência.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Pietá



















Culpa e Vingança

O diretor sul-coreano Kim Ki-duk tem em sua filmografia o sensível e comovente Primavera, Verão, Outono, Inverno e...Primavera ( 2003); depois realizou Casa Vazia (2004), sobre um jovem sem rumo que costumava invadir casas estranhas quando os donos estavam fora, mas tudo muda quando encontra a proprietária no local. Agora ousa de forma contundente com Pietá, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza de 2012. Derrotou as produções daquele ano, tais como: o representante da Itália A Bela que Dorme, de Marco Bellocchio; a produção americana O Mestre, de Paul Thomas Anderson e ainda o badalado norte-americano Passion, de Brian de Palma.

A trama do novo longa deste festejado cineasta é centrada em Kang-do (Lee Jung-jin), um cruel cobrador de dívidas impagas aos agiotas. Usa de métodos violentos e torna-se um homem respeitado por ser implacável em seu trabalho solitário e com resultados devastadores para suas vítimas, que acabam sendo mutiladas sem dó e nem piedade. A violência crua faz parte da vingança neste drama social seco e frio das relações familiares distantes dentro de um capitalismo desenfreado que passa por cima dos valores em flagrante crise, onde o dinheiro fala mais alto e a construção de espigões se avoluma e o casario antigo tende a desaparecer.

Com o surgimento repentino em cena da suposta mãe do algoz (Jo Min-su) que o teria abandonado na infância, a fragilidade toma conta daquela criatura de pouco mais de 30 anos. Pede perdão e canta música de ninar para o suposto filho que se esboroa psicologicamente, tornando-se com o passar do tempo uma criança grande dependente e distante daquela falsa fortaleza física insuperável. Um equívoco no roteiro é a tentativa vazia de incutir naquele verdugo que o dinheiro só traz problemas para o ser humano, pois por onde começa fatalmente levará para um fim dolorido. Embora um tanto quanto pueril em seus conselhos, consegue manipular pelo carinho e a atenção como intento proposital de uma artimanha escabrosa.

O filme promete surpresas para o final, tendo no prólogo a cena do gancho que irá materializar a reveladora verdade. São situações familiares não resolvidas, tendo naquela mãe simbolizando as demais e a revelar o enigma, diante da violência que ainda continuará persistindo até o desenlace. Ki-duk vem de uma escola de cinema com méritos invejáveis de seu país, com um cinema onde a crueldade radicalizada já teve outros diretores abordando com eficiência, como no longa Oldboy (2003), de Park Chan-wook; O Hospedeiro (2006) e Mother (2009), ambos de Joon-ho Bong.

Há méritos inegáveis do cineasta ao manter o suspense com bom clímax, deixando a plateia e o filho em dúvidas para aceitar a mãe desnaturada, daí a razão de maltratá-la e o incesto parecer iminente, diante de um cenário de rejeição, onde não faltam tapas no rosto de parte a parte. O microcosmo familiar se abre como um leque na teoria da violência pelo abandono materno, embora exite em aprofundar o tema com o brilhantismo talvez esperado, mas consegue mexer com o espectador e fazê-lo crer num primeiro momento na família como centro universal do indivíduo numa planície de questões debatidas para as soluções apresentadas.

Mesmo com o surpreendente desfecho, dá guarida para a construção da precária pessoa em cena. A crueldade e a solidão do ser humano são fatores resultantes em um núcleo familiar desestruturado e fragilizado pelo sistema em decomposição. A relação de mãe, pai e filho é fartamente abordada, ainda que não seja completamente esgotada, há um indício e uma revelação como de um indivíduo sem raízes e desprovido de vínculos familiares ser levado para a condição de uma fera incivilizada, ou um monstro com o estigma da maldade. É difícil resistir ao apelo materno, como demonstra o diretor, embora a emboscada psicológica esteja presente como uma grande vingança.

Pietá é um filme vigoroso sobre a interação da família como núcleo e base contextualizada, para abordar o sadismo sem limites de um torturador que busca através da invalidez das vítimas resgatar a dívida dos clientes para o mandante na condição de patrão. Mas não é só por este ângulo da perversidade e o prazer pela dor e o sofrimento do próximo que este drama cruel se apoia, pois há uma reflexão clarividente sobre o papel da mãe em xeque, além do brutal avanço do capitalismo e da crise de valores.