sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Folhas de Outono

 

Os Solitários

O finlandês Aki Kaurismäki é um realizador voltado para as questões sociais, tanto em seu país como as diversas mazelas na Europa. No excelente O Porto (2011), ganhador do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes, possivelmente seu melhor longa-metragem, ambienta sua trama na cidade portuária Le Havre, na gris e sorumbática região da Normandia, na França. A solidariedade e a amizade aos imigrantes que desembarcam clandestinamente, vindos como animais em contêineres e jogados em solo perigoso, são abordadas magnificamente neste manifesto crítico de um libelo contra a intransigência dos povos ditos de primeiro mundo. Ainda que tenha na mentira do seu personagem principal a forma ilícita para salvar a pele de um garoto, protegendo-o da sanha irascível de uma política de imigração abominável. Também é dele O Homem Sem Passado (2001), no qual um homem após chegar a Helsinque de trem é surrado tão brutalmente que perde a memória. Vive como pode, no submundo da cidade, onde encontrará pessoas como ele, deserdadas da sociedade, que serão suas companheiras e o ajudarão a reajustar sua existência. Em O Outro Lado da Esperança (2017), narra um fugitivo da guerra na Síria que busca asilo. Depois de percorrer vários países, solicita permissão de estadia na Finlândia. Enquanto espera pela resposta, busca pela irmã, desaparecida, obtém ajuda de um pequeno comerciante que dá emprego em seu restaurante.

O veterano cineasta tem em sua filmografia a instigante A Trilogia do Proletariado, mostra a classe trabalhadora protagonizada por mulheres e homens marginalizados pela falta ou condições precárias de emprego. Um ensaio que tem como objetivo verificar como a desolação humana traz em suas narrativas retratos atuais de uma sociedade em decadência, com o sistema capitalista vigente. Sombras no Paraíso (1986) aborda uma caixa de supermercado e um motorista do caminhão de lixo, que tentam nas poucas horas de descanso divertimento em bares escutando música; Ariel (1988) conduz para a história de um homem, que nos minutos iniciais do filme perde seu pai por suicídio. Decide sair da pequena cidade em que vivia e ir para a capital ganhar a vida. Nesse processo passa por momentos complexos em que a brutalidade e o individualismo surgem como os novos pilares de sua jornada; A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforos (1990) retrata uma supervisora de embalagens numa linha de produção em uma fábrica, mora com sua mãe e seu padrasto. Vive uma relação bastante caótica e tão exploradora quanto de seu emprego. Agora segue com a saga proletária com Folhas de Outono, coproduzido com a Alemanha, numa quadrilogia que reabre a temática do diretor, que também assina o roteiro, com suas marcas autorais interessantes.

Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes do ano passado, indicado para representar seu país na 96ª. edição do Oscar, e apontado pela Revista Time como o melhor filme de 2023, esta comédia romântica com tons de dramaticidade acompanha a história de Ansa (Alma Pöysti), uma estoquista de supermercado, e Holappa (Jussi Vatanen), um operário alcoólatra da construção civil que manuseia o compressor de ar, tem como seu único amigo oriundo do último emprego, Huotaria (Janne Hyytiäinen). A trama é ambientada na periferia de Helsinque, quando a Rússia continua bombardeando a Ucrânia e a personagem feminina ouve por um antigo rádio as notícias trágicas, mas cansa dos desprazeres do cotidiano e troca para outra emissora musical que traz mais leveza ao momento delicado mundial. Ela mora sozinha num pequeno apartamento, enquanto ele divide as acomodações precárias com os colegas num contêiner. O destino mostra os dois perdendo os empregos, quase simultaneamente. Um por colocar em sua bolsa um produto vencido da prateleira que era para ser descartado no lixo, metaforicamente alguém se resume àquela parte do resto a ser ignorado e jogado fora; o outro por beber em pleno expediente de trabalho e sofrer um acidente, o que faz o empregador despedi-lo por justa causa, embora os Equipamentos de Proteção Individual essenciais ao trabalhado seguro estivessem vencidos e inapropriados para uso na empresa. Completamente desconhecidos, os caminhos dos dois se cruzam acidentalmente numa noite em um pub de karaokê com frequentadores solitários. Ouvem músicas populares com títulos desde um cancioneiro pop finlandês até a apresentação da girl band Maustetytöt, cuja canção "Nascida na tristeza e vestida de decepção” resume o estado de espírito decorrente do capitalismo tardio.

Folhas de Outono é uma agradável obra marcada por diálogos, embora seja silenciosa e repleta de angústias daqueles seres solitários trabalhadores à deriva de uma sociedade de desafios para o futuro. Por não ser descartável, o prazo de validade do casal ainda não expirou, por isto precisa de poesia e direito ao amor na sua plenitude. O cineasta aponta para episódios sombrios através de personagens tragicômicos. Flutua com boa ternura da comédia agridoce romântica para pequenas tragédias pessoais, como o atropelamento que adia ainda mais essa união. A construção de um painel convincente comove e fisga o espectador para os dilemas dos dois desajustados socialmente, que querem e desejam amar. A procura do personagem por auxílio nos Alcoólicos Anônimos é edificante e mostra o quanto o rapaz luta para se afastar do vício destroçante, mas para isto é fundamental o voto de confiança da pessoa amada. Admirável as cenas sequenciais envolvendo a ida e o ponto de encontro dos dois no cinema como resgate e bálsamo para continuar vivendo com dignidade. Assistem um filme contrário ao que ele imaginou, por não ser nada romântico, como Os Mortos Não Morrem (2019), de Jim Jarmusch, com Bill Murray e Adam Driver, comparado por alguns distraídos com obras notáveis de Robert Bresson e Jean-Luc Godard. Ironicamente ela diz que nunca tinha rido tanto.

Eis um retrato melancólico dessa realidade difícil na qual estão inseridos personagens que vagueiam desanimados como zumbis num cenário adverso, mas com a esperança da essência do amor. Automaticamente atraídos um pelo outro, eles decidem sair em um encontro e, talvez, começar um relacionamento improvável que pode ser a solução para afastar o tédio de uma solidão existencial aniquiladora dos dois. Por culpa da desatenção de um deles, acabam se afastando. São encontros e desencontros marcados por uma melancolia avassaladora, mas que ainda acreditam na felicidade, embora haja uma atmosfera carregada de certa forma pelo pessimismo. Para alguns críticos, uma homenagem ao gênero romântico criado por Charles Chaplin em Luzes da Cidade (1931) e Luzes da Ribalta (1952), protagonizados pelo eterno personagem vagabundo e Calvero, respectivamente. A história é marcada por elipses que impulsionam o enredo, ou o minimalismo nas expressões, gestos e as belas imagens apanhadas dos personagens, como no desabafo de Holappa: "Estou deprimido porque bebo muito". Questionado pelo amigo "e por que você bebe muito?" Responde "porque estou deprimido". O diretor reforça seu estilo que combina questões sociais e mundiais como o desemprego e a guerra nos países vizinhos, através de um humor sutil numa estética e questionamentos bem peculiares.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

O Melhor Está Por Vir

 

Tributo a Fellini

Nanni Moretti é um dos mais importantes e competentes diretores da Itália. Flutua entre os dramas familiares, religiosos, políticos e sociais como O Crocodilo (2006), quando abordou o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que teve sua imagem abalada sem perdão; questionou a escolha do papa em Habemus Papam (2011) com boa dose de humor e ironia fina ao discorrer sobre a eleição do Sumo Pontífice realizada entre os cardeais na escolha do vacilante Melville. Já fizera antes em A Missa Acabou (1985) ao satirizar a igreja através de um complicado padre na periferia de Roma. Ganhou o Prêmio do Júri em Cannes com Mia Madre (2015), num retorno às origens de abordagens profundas sobre a morte e a forte sensação da perda pelas lembranças pretéritas, bem como o que poderia ter feito e não fez para quem partiu, quase um remorso instintivo dos que ficaram. Uma análise sincera e despojada das provocações que remanesceram da existência e sua complexidade, como fez no drama O Quarto do Filho (2001), possivelmente sua obra maior, sendo premiado com a Palma de Ouro em Cannes, na história do psicanalista residente em Ancona que tem dois filhos, até que uma tragédia o transtorna completamente, por deixar de acompanhar o filho à praia, e que acabou morrendo afogado. Gosta de usar situações que vivenciou para incrementar suas realizações de cunho pessoal, assim foi em Caro Diário (1993), Aprile (1998) e Mia Madre, drama este que o faz relembrar a morte de sua própria mãe durante as filmagens de Habemus Papam.

Moretti voltou em grande estilo em sua realização anterior, Tre Piani (2021), ao retratar três famílias que vivem no mesmo condomínio de classe média alta, e suas vidas acabam ardilosamente se entrelaçando. Embora pudesse pelas circunstâncias conduzir a trama para um filme menor com demagogias baratas e lacrimejantes, mas habilmente foge das armadilhas piegas e faz uma obra espetacular com cenas marcantes, como dos casais dançando na rua. Agora faz uma justa e merecida homenagem ao mestre conterrâneo Federico Fellini ao realizar um remake de Oito e Meio (1963). Além de assinar o disperso roteiro em parceria com Francesca Marciano, Federica Pontremoli e Valia Santella, também atua como protagonista na comédia de costumes italiana O Melhor Está Por Vir, coproduzida com a França. O longa acompanha o ultrapassado cineasta Giovanni (Moretti), que tenta terminar um filme de época, ambientado em Roma, em 1956, sobre os comunistas italianos, mas enfrenta uma série de obstáculos. Está sempre no limite de suas forças com o contumaz estresse para alcançar seu objetivo de acreditar em algo melhor para sua carreira e vida pessoal conturbada com a esposa Paola (Margherita Buy), uma produtora de cinema que ao mesmo tempo divide as atenções com outra produção para um jovem promissor diretor. Ou seja, dois filmes dentro de um terceiro principal..

Embora faça uma reflexão amargurada com algum humor irônico, o realizador tenta nesta obra retratar uma concepção sobre a arte com o viés da abordagem das ideologias que cercam a sociedade contemporânea, como o comunismo e suas linhas da praticidade e as inconveniências políticas históricas. As diversas contradições são apontadas pelos seus erros, como os comunistas italianos oriundos da extinta União Soviética. O personagem central assume uma postura de desvairado ao encarnar as memórias e os incômodos que o atormentam. Diante das recorrentes provocações rasteiras de uma esquerda em choque com o mercado cinematográfico e os rumos com os novos talentos que surgem e a recepção de um novo público de espectadores. Estão presentes os empecilhos profissionais e pessoais para concluir seu novo filme de esperança. Acredita sinceramente que deve levar para a telona a história do Partido Comunista da Itália, bem como ter perdido a grande oportunidade de ter rompido com os tiranos russos para obter a verdadeira liberdade e o caminho da independência. Porém, ninguém mais se lembra desses acontecimentos, tendo em vista que o mundo mudou e a maneira de fazer uma película sobre aquela época também soçobrou. Pensa que está fazendo uma obra política, mas a atriz entende que ele está realizando é um filme de amor, possivelmente ela esteja com a razão.

O longa de Moretti peca por se tornar chato e repetitivo. Ele que sempre estrelou seus filmes, desta vez exagerou, ao usar e abusar do protagonismo histriônico que leva o espectador à exaustão. Nem como temática principal, sequer como construção de personagens, o filme não consegue decolar, tornando-se enfadonho e arrastado até o desfecho ufanista. A história deveria ter um frescor próprio pela tentativa de ser atual neste recorte específico na representação de um artista maniático no decorrer de seu processo de criação. Há uma tentativa válida de explicar as cenas musicais, deslocadas e atravessadas no enredo. Comportamento este que não está na criação do personagem, mas nas incursões dos rumos da história maçante, onde o circo húngaro poderia ter um aproveitamento melhor, mesmo que haja uma tentativa pouco convincente de colocá-lo no enredo através de uma situação de mudanças e conflitos na Revolução da Hungria com a ocupação soviética. Os rituais familiares com a maneira de expressar opiniões, afastam a esposa, que não quer mais continuar com a relação pelos episódios de picuinhas do marido em crise profissional, de ideias e vida amorosa dividida pelos conflitos do cotidiano. Já a filha prefere namorar em segredo um diplomata idoso polonês.

A comédia apresenta, apesar de ter dificuldade de aceitar que as coisas andam rápido, o personagem central com uma tendência de abraçar as novidades e mudar seus caminhos e o destino que o cercam quando observa os novos rumos. Apesar de ser uma contradição de comportamento e de ideais que nem ele acredita, mas que percebe e reconhece os novos horizontes existenciais batendo à porta. Nas variações da visão artística estão presentes as concessões que precisam ser feitas para que haja o financiamento e a distribuição, quando Giovanni fica inconformado numa reunião com a Netflix ao buscar financiamento para seu projeto de filme. Os executivos asseveram que "nossos conteúdos são vistos em 190 países, 190 países, 190 países”, e que sua produção não serve para o streaming. Mas há uma esperança que vem dos cofres da Ásia, após fracassar com a França. Na crise criativa proposta e nas escolhas de filmes dentro de um outro, a comédia se refere diretamente a Oito e Meio. Também há citações aos longas Caçada Humana (1966), de Arthur Penn e Um Grito de Revolta (1972), dos Irmãos Taviani, nas relações amorosas e clichês abundantes. Apesar das boas intenções de Moretti para uma reflexão sobre esquecer ideias retrógadas e dar alvíssaras para um futuro melhor, radiante e politicamente correto, O Melhor Está Por Vir não correspondeu à expectativa. Um mosaico construído por uma gama enorme de personagens em ciclos de amor, política, frustrações, arrependimentos, renovações e desajustes pelas decepções familiares e profissionais. Eis um tributo a Fellini que merecia ser mais meritório, mas que ficou devendo.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Maestro

 

Cenas de um Casamento

No apagar das luzes de 2023, Maestro entrou em cartaz na plataforma Netflix, o segundo longa-metragem do ator galã de 48 anos e agora diretor Bradley Cooper, que havia estreado por trás das câmeras com relativo sucesso em Nasce Uma Estrela (2018), estrelado por Lady Gaga. Uma cinebiografia de Leonard Bernstein interpretado por Cooper que usa um postiço nariz falso para retratar “Lenny”, como era conhecido o regente, compositor e pianista por seus amigos ao focar sua personalidade e suas paixões na vida real. Responsável pela composição da trilha sonora de filmes famosos como Um Dia em Nova Iorque (1949), de Gene Kelly e Stanley Donen, Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan, e Amor, Sublime Amor (1961), de Robert Wise e Jerome Robbins. Natural de Massachusetts, nos Estados Unidos, condutor principal da Orquestra Filarmônica de Nova Iorque por 18 anos. Foi o primeiro maestro norte-americano a reger orquestras europeias, como a Filarmônica de Viena com as sinfonias de Gustav Mahler. O diretor e o corroteirista Josh Singer destacaram a Segunda Sinfonia de Mahler, denominada Ressurreição. Compôs obras como Missa, a pedido de Jacqueline Kennedy para a inauguração do Kennedy Center, trecho que está presente no filme. Notabilizou-se como um condutor que não usa apenas os braços e a batuta para controlar o ritmo, a direção e o tom geral de uma orquestra.

Deve ser ressaltado que era para ser uma cinebiografia deste consagrado músico em orquestras que tocaram obras de Mahler, Beethoven, Wagner e Strauss, mas virou um melodrama ao abordar as complexas relações com cenas inusitadas do casamento com a atriz costarriquenha de TV e teatro Felicia Montealegre (Carey Mulligan), na mistura de suas maiores paixões: a arte pela música, a esposa e os flertes com alguns homens. O casal se conheceu em uma festa, em 1946, passando pelo primeiro noivado que foi rompido, e reiniciado para chegar ao matrimônio com vinte e cinco anos de duração, tendo três filhos da união. Um filme oposto a outras cinebiografias convencionais, por ser ousada e estranha. Diferente do empolgante documentário Ennio, O Maestro (2022), de Giuseppe Tornatore, que contava a vida e a carreira artística do lendário maestro italiano Ennio Morricone; de Bohemian Rhapsody (2018), dirigido por Bryan Singer, sobre Freddie Mercury e seus companheiros; bem como do outro grande compositor no documentário Aznavour por Charles (2019), de Marc di Domenico, sobre o icônico cantor e compositor mundial Charles Aznavour; nada a ver com a cinebiografia Elvis (2022), de Baz Luhrmann, que documenta a vida e a carreira artística do músico que se tornou o Rei do Rock’n’Roll; nem próximo de Maria Callas- Em Suas Próprias Palavras (2017), do competente Tom Volf, entre tantas outras realizações similares sobre grandes estrelas.

Em Ennio, O Maestro havia intensidade, grandiloquência, sublimação e um formato espetacular, que vai muito além de enumerar os sucessos na eficiente montagem que une vários pontos de uma trajetória em que a música é o foco primordial da história contada. Já em Maestro, a música e a história da carreira de Bernstein com todo seu magnetismo, exuberância e brilho estão em segundo plano. Na realidade, o filme está interessado nos conflitos por trás do gênio, relatando seu relacionamento atribulado com Felicia. Apresenta uma análise de um personagem forte e complexo como pretende ser, em uma discutível visão sobre as contradições de um artista entre a vida pessoal e a profissional. Mira completamente na vida dupla do cinebiografado por trás da figura icônica e suas contradições, num duvidoso recorte voltado especialmente para seu casamento com as constantes traições. Com a música de fundo, a trama segue o relacionamento com a esposa como o objetivo principal. Desinteressado em esmiuçar a biografia do regente para quem não o conhece, o que pode deixar muitos espectadores sem norte. Mais preocupado em mostrar os affaires homossexuais pela infidelidade, quando chega a abandoná-la, mas volta para casa apenas quando fica sabendo do diagnóstico de câncer pulmonar agressivo da mulher. A sexualidade e a indecisão do regente renderam uma carta da companheira frustrada: “Você é homossexual, nunca mudará – você não admite a possibilidade de uma vida dupla, mas se a sua paz de espírito, a sua saúde e todo o seu sistema nervoso dependem de um determinado padrão sexual, o que você pode fazer?”

O prisma do enredo é construído sobre um casal aparentemente feliz e perfeito que acabou se separando devido ao constrangimento insuportável da mulher e o medo do marido em assumir a vida dupla. A preocupação do diretor é clara em explorar os desatinos complexos dos sentimentos de uma pessoa indecisa na relação amorosa ao invés de contar sua trajetória artística inquestionável da grande estrela mundial. Até o desfecho, o compositor se mostra inconstante, embora mencione a mulher como seu grande amor, ainda que os percalços, contraditoriamente, estejam presentes no longo relacionamento. Ela diz que sempre procurou um substituto para a figura paterna, enquanto ele revela seu amargor pela violência do pai, revelam angústias e fragilidades presentes, com o passado influindo no comportamento dos dois. O longa inicia com a citação do próprio maestro que não quer trazer respostas, mas simplesmente provocar perguntas. O espectador que esperava uma realização dedicada ao processo criativo e informativo, possivelmente irá se decepcionar.

Eis uma narrativa com minguados questionamentos do cinema e sua fusão com a música, sendo um filme pouco objetivo. Embora nos caminhos percorridos pelo casal exista alguma beleza com certa tristeza, quando o microcosmo familiar se reúne para uma confraternização para celebrar a existência. A cena ambientada dos dois participando de uma outrora sequência em preto e branco tem o condão de fantasiar uma paixão sob o embalo musical. Também a morte sendo mostrada através do pai abraçando a filha para interromper a dor. Outro significativo momento é o plano do carinho derradeiro aos três filhos com ausência de palavras, apenas a imagem que revela a perda. Cooper faz uma abordagem atípica e completamente fora do convencional para cinebiografias musicais. Por isto, seu filme Maestro, com toda a abundância dos complexos relacionamentos pessoais e focos sexuais reiterados, mesmo deixando de lado muitas informações sobre a vida profissional do personagem central, tem tudo para ser um grande premiado e o queridinho da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no Oscar de 2024. Ainda que haja irregularidades e ausência de profundidade, bem como um distanciamento do artista com a essência da música e o descaso voluntário do cineasta com sua obra na criação e fundamentos, com cenas de um casamento fluindo à exaustão, na qual o genial Ingmar Bergman foi mestre em mergulhar nas profundezas da alma, há bons argumentos para os defensores deste melodrama.

sábado, 30 de dezembro de 2023

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2023)

 

Os 10 Mais e as 05 Menções Honrosas

Já é final de ano e todos os críticos estão publicando suas listas de melhores filmes vistos nos cinemas e nas plataformas de streaming em 2023. Também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda as 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. Assassinos da Lua das Flores, de Martin Scorsese (foto acima);

02. Memória, de Apichatpong Weerasethakul;

03. Retratos Fantasmas, de Kleber Mendonça Filho;

04. Afire, de Chistian Petzold;

05. Monster, de Hirokasu Kor-eda;

06. Eo, de Jerzy Skolimoswki;

07. Triângulo da Tristeza, de Ruben Öslund;

08.Meu Nome é Gal, de Lô Politi e Dabda Ferreira;

09. A Noite do Dia 12, de Dominick Moll;

10. Sem Ursos, de Jafar Panahi.

Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

- Elis & Tom, de Roberto de Oliveira e Tom Job Azulay;

- Os Fabelmans, de Steven Spielberg;

- Close, de Lukas Dhont;

- O Crime é Meu, de François Ozon;

- Holy Spider, de Ali Abbasi.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2023

Puan

Embates Filosóficos

Vem da Argentina em coprodução com o Brasil, Puan, apelido pelo qual é tratada uma instituição universitária que fica perto da estação do metrô em Buenos Aires, que empresta seu nome. Esta comédia dramática com uma temática aparentemente simples, mas enganosa, diante da boa reflexão da privacidade e das relações em sociedade, que faz uma obra interessante, deixando o enredo correr, para um desfecho inusitado que chegará à proposta dos seus realizadores, tendo em vista a complexidade dos seres humanos pelo paradoxo da harmonia com o conflito e os valores que são dados às vidas, aos interesses particulares e amizades. Apesar do emprego de um humor pastelão com excessivas cenas escatológicas na parte inicial, mostra-se atual e esclarecedora do meio para o fim, pela valorização do cotidiano de alguns personagens em conflito, tanto pessoal como profissional. A dupla de cineastas María Alché, do longa de estreia Família Submersa (2018) - é a mesma atriz revelada por Lucrecia Martel em A Menina Santa (2004)- e Benjamín Naishtat, diretor dos admiráveis Bem Perto de Buenos Aires (2014) e Vermelho Sol (2018). Foi laureado com dois prêmios no Festival de San Sebastián, na Espanha: Melhor Ator para Marcelo Subiotto e Melhor Roteiro.

Já se tornaram frequentes as produções do país vizinho terem características muito peculiares nas suas abordagens como a sutileza e a sensibilidade, com abordagens discutidas buscando como mote a simplicidade, deixando os grandes cenários em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e as conclusões filosóficas de vida e das relações humanas tangenciadas pelo clima hostil ou pela solidariedade, como visto nas realizações de Carlos Sorín em Histórias Mínimas (2002), O Cão (2004) e A Janela (2008); Pablo Trapero com Família Rodante (2004), Nascido e Criado (2006) e Abutres (2008); Lucrecia Martel com a obra-prima O Pântano (2001); Marcelo Piñeyro no belíssimo Kamchatka (2002); Paula Hernández no comovente Chuva (2008); e Mariano Cohn e Gastón Duprat com os ótimos O Homem ao Lado (2008) e O Cidadão Ilustre (2016), e outros tantos cineastas comprometidos com o cotidiano singelo. Muitas vezes invadido ou perturbado por problemas familiares, ou pela crise social econômica que ainda perdura. Também se impôs no mercado, entre tantos outros fatores, pela presença do icônico ator Ricardo Darín.

A trama retrata a força cultural do povo argentino diante da crise política e sócio-econômica ao focar a árdua trajetória de um professor de filosofia, aparentemente já ultrapassado. Após a morte por mal súbito do mentor do protagonista, o docente Marcelo Pena (Marcelo Subiotto- em interpretação pouco inspirada) está pronto para assumir a cadeira de professor titular de Filosofia da Universidade de Buenos Aires (UBA). É um homem pouco interessante no dia a dia, com atrapalhações em seu cotidiano com a crise da meia-idade iminente. Embora seja aplicado, demonstra algumas limitações, ainda que se ache apto para a escolha no cargo, seus esforços de anos de labuta podem ter sido em vão. Tudo muda com o retorno inesperado do ex-colega, de Rafael Sujarchuk (Leonardo Sbaraglia- convincente na atuação). O oponente é mais atraente, carismático, dotado de oratória brilhante, leciona na Alemanha, dá cursos em Nova Iorque e namora uma famosa estrela do cinema. Quer a vaga e acaba afetando os planos de Pena, que utiliza exemplos do cotidiano de seus alunos para ilustrar as complexas teorias de Thomas Hobbes, Heidegger e, principalmente, o pensamento do filósofo suíço defensor do iluminismo francês Jean-Jacques Rousseau: “o ser humano é melhor quando está mais próximo da natureza”. A rivalidade entre os dois mestres de filosofia se estabelece para concorrer na substituição do célebre professor titular que morreu. Há as ambições reais que sempre foi e continuará sendo o caminho para discussões e encenações desprovidas de uma boa lucidez.

A comédia é apresentada de forma intercalada por capítulos que se encerram com a câmera com um tempero agridoce na rotina dos dias de ebulição em Buenos Aires que se revelam fragmentos de situações de um caos social com o fechamento prematuro da faculdade por corte de verbas, numa situação bem típica de governantes divorciados do ensino e da educação, que remete para a premonição do governo recém- empossado de Javier Milei. A dupla de realizadores aborda com uma dose de cinismo mesclado de humor escrachado os rancores, os ciúmes e uma pitada de amargura na volta do consagrado intelectual do exterior, que lembra o retorno do escritor no drama O Cidadão Ilustre, visto como um estranho no ninho pela maioria dos habitantes daquele lugarejo distante que parou no tempo. Sujarchuk é um galã vaidoso e suscetível às bajulações que deu asas para sua candidatura ao cargo, faz um discurso exibicionista em alemão. Por tudo isto é visto como um oportunista por alguns, mas para outros como um elemento de salvação para um momento de efervescência política do contexto social na qual está inserida.

A inflação galopante e os cortes nos gastos públicos fazem parte do dia a dia da população, que impulsiona os conflitos da história, exibindo as manifestações dos estudantes que tomam as ruas portenhas diariamente e a luta para manter viva a universidade, símbolo poderoso da realidade pelas distorções apresentadas. Puan aponta as contradições e constatações num cenário construído pela mediocridade e ausência de inteligência, como da fútil idosa milionária que paga bem por aulas de filosofia, mas dorme quando está sendo iniciada numa explanação sobre O Estrangeiro, de Albert Camus. Só acorda com o barulho ensurdecedor do aspirador de pó acionado pela empregada. A mesma personagem que simboliza um cenário de decadência, desprovido de interesse maior, contrata um mágico para seu aniversário que acaba rompendo o contrato, mas logo é substituído por um pensador grego, transformado numa figura caricata. Os defeitos e as virtudes oriundos da pretensão dos donos da palavra final estão embutidos na citação no epílogo da última parte de Fédon, um dos Diálogos de Platão, onde é narrada a morte de Sócrates. Disseca sobre a maturidade que poderia chamar-se “da imortalidade da alma”, ou “das ideias”, ou “dos contrários”. Eis um dos grandes momentos deste instigante filme, quando no encerramento de um ciclo e de uma vida, uma pergunta existencial fica sem resposta, porque nada é definitivo e absoluto.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Pedágio

 

Cura Milagrosa

O cineasta baiano Aly Muritiba em seu último filme, Deserto Particular (2021), contava uma história de amor em tempos de ódio com a recorrente intransigência brutal de nossos dias atuais. A sensibilidade e a ternura deveriam falar mais alto, mas as diferenças culturais entre dois polos distintos retratadas no painel da atmosfera criada entre as duas regiões brasileiras ficaram mais visíveis. Retratava o envolvimento na construção da trama de amor através dos contrastes de cores e alguma melancolia na temática principal. No encontro dos personagens desencontrados pelas circunstâncias, surgiu a mulher trans criada pela avó, diante do pedido do pai, para tentar uma cura gay numa igreja evangélica pentecostal. Trabalhava durante o dia num centro de distribuição de alimentos, sonhava em por o pé na estrada e se libertar das amarras pelos grilhões que o prendiam àquele ambiente retrógrado; à noite se transmutava e vivia um outro mundo da fantasia, a mulher que mora dentro dele, até encontrar um policial pelo WhatsApp, que cometeu um erro grave e o coloca numa situação constrangedora e de iminente risco na carreira.

A promissora diretora e roteirista paulista Carolina Markowicz, conhecida pelo seu elogiado longa-metragem Carvão (2022), retoma e aprofunda a temática da cura gay em Pedágio. Faz uma crítica mordaz à opressão sofrida pela comunidade LGBTQIA+, onde não faltam os discursos conservadores da moral e dos bons costumes com viés homofóbicos através dos dogmas religiosos, iguais aos da nossa realidade brasileira. No enredo, Suellen (Maeve Jinkings – mais um atuação irrepreensível) é uma mãe que leva uma vida simples trabalhando como cobradora de uma praça pedagiada em Cubatão (SP), onde a solidão e a frieza da vida estão presentes. Sua colega de trabalho, Telma (Aline Marta Maia), é uma religiosa ferrenha e carismática, embora seja uma falsa moralista, facilmente manipulável, fica o tempo todo aconselhando a protagonista a inscrever seu filho, Tiquinho (Kauan Alvarenga), num curso ministrado pelo pastor evangélico Isac (Isac Graça), um estrangeiro que propaga milagres com terapias para converter pessoas fora dos ditos padrões normais. O garoto é um adolescente que trabalha numa lancheria, usa cores vibrantes e se maquia em seus vídeos ao dublar divas com muitas plumas e paetês. Embora ainda não tenha atingido a maioridade, tem o próprio dinheiro para seu sustento e até ajuda a mãe como pode financeiramente. Mesmo que não seja dependente, ele precisa do carinho e do afeto maternal daquela que não aceita o filho como ele é ao depositar toda confiança no milagreiro divino que chegou na comunidade.

A trama aponta as idiossincrasias e as contradições da colega de trabalho e da mãe, que se julgam corretas, mas distantes de colocar alguém em um patamar moral, tanto pela ignorância como pela ingenuidade. Suellen está obsessiva em transformar em heterossexual o filho, que não se abate por essa rejeição, mostra-se firme e convicto do que quer ao lutar pela própria liberdade sexual. Logo percebe que pode usar o emprego como uma maneira de adquirir uma renda extra ilegal ao montar um plano com seu namorado, Arauto (Thomas Aquino), um homem envolvido em uma gangue de assaltos contumazes. Arrisca tudo, inclusive sua dignidade, embora esteja decidida de que fará por um motivo justo, ou seja, arrecadar dinheiro para fazer o caro tratamento para curar o filho. A temática que trata da homofobia e terapia religiosa com um mergulho na criminalidade desemboca na crise do microcosmo familiar, transmitida com uma falsa leveza, mas de uma dura realidade que se torna densa e cruel. Há todos os elementos de uma experiência amarga, sem ser rasa ou apelativa, embora haja alguns exageros na linguagem vulgar, fica distante do melodrama barato, fútil, eivado de clichês, encontrado em obras menos meritórias. Markowicz é ousada e faz questão de mexer nas feridas abertas da homofobia e dos discursos protagonizados por discípulos de seitas oportunistas. Ao mesmo tempo em que provoca, lança soluções como no desfecho, que vai do grave infortúnio pessoal da mãe ao encontro do amor afetuoso e sem mágoas do filho e suas convicções inalienáveis atenuadas pelas imagens do reencontro redentor como luzes para um futuro menos amargo, na reviravolta do roteiro.

Constrói uma relação de vínculos, bem simbolizada sobre as identidades através de uma obra que espelha as complexidades que habitam os lares brasileiros. Inevitáveis os rumos diferentes tomados pelos protagonistas, mas na realidade nunca se afastam totalmente, pois o vínculo maternal é mantido nesta metamorfose. Eis um drama familiar com pitadas sociais e religiosas que se faz necessário por ser importante em um país com forte influência das igrejas evangélicas, sobretudo pelo enredo para narrar os milagres de um impostor. O objetivo é desconstruir em doses homeopáticas a obsessão doentia da protagonista e, ao mesmo tempo, mostrar as diferenças e contradições de uma sociedade machista e conservadora. A diretora coloca com sutileza empatia à tolerância no improvável relacionamento afetuosos de duas pessoas antagônicas, mãe e filho, mas com capacidade de mudança pela transformação em suas vidas. Uma espécie de alegoria de tempos enraizados no reacionarismo de um futuro cada vez mais sombrio, onde a harmonia familiar pode ser um alento, embora distante por conta de um permanente estereótipo advindo de um mundo tirano do patriarcalismo. O propósito principal é a transformação interior das pessoas diante dos medos e anseios na vida com as conexões e experiências acumuladas no tempo, onde o amor transgride e a mudança interior é o elemento buscado diariamente nos encontros inesperados que aproximam emoções.

Em Pedágio se pode visualizar uma essência humana de personagens psicologicamente bem concebidos dentro de uma realidade brasileira com afetos e desafetos que compõem a existência de pessoas próximas do nosso cotidiano, sem afastar a empatia, para lutar contra a intolerância. Há uma atmosfera social míope de uma prática anacrônica de ideias e imposições ultrapassadas. São situações tóxicas contrastando com o afeto e o carinho dos excluídos nesta espiral de sofrimento de vidas infelizes. Refletem uma sociedade em que há um intenso processo interno de descoberta para tentar lidar com seus sentimentos marcados por uma educação rígida de outrora, em alguns casos. São os mecanismos de manipulação e a culpabilização arraigados que passam despercebidos, no qual a desorientação se estabelece por uma educação típica familiar que entra em choque diante de revelações e experiências raramente vividas em relacionamentos que cruzam do hétero para homossexual. Conceitos que deixam inúmeras perguntas, poucas respostas, para cutucar o espectador mais distraído, sem insultar ou induzir, deixando a meditação livre, diante das consequências apresentadas pela história sem tomar partido ou realizar discursos eloquentes como bandeira de opção sexual. As sutilezas dos diálogos com frases sucintas, mas com um objetivo puramente reflexivo, porém sempre atingindo o alvo como o coração e a lucidez, sem a pretensão do didatismo definitivo. Uma admirável abordagem sobre as diversidades sociais e culturais na busca de um futuro mais tolerante e menos opressivo com as diferenças.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

Monster

 

Verdades e Mentiras

O festejado cineasta Hirokasu Kore-eda herdou a sutileza e a sensibilidade dos inspirados diretores japoneses conterrâneos Yusujiro Ozu de Era Uma Vez em Tóquio (1953), Mikio Naruse por Midareru (1964), e o criador do cinema de animação Hayao Miyazaki com temas recorrentes da relação da humanidade com a natureza. Na sua extensa filmografia encontramos o longa Ninguém Pode Saber (2003), com a temática da mãe ausente dos filhos e a falta de afeto aos mesmos que literalmente viviam confinados num apartamento; em Pais e Filhos (2013), conquistou o Prêmio do Júri em Cannes, discutia-se os efeitos futuros dos bebês trocados no berçário com as revelações recebidas, num clima de tensão instalado diante do amor pelo filho de outros pais e a intolerância de um deles; em Nossa Irmã Mais Nova (2014), mostra-se a dolorosa distância de três filhas que não veem o pai há 15 anos, mas ao saberem da morte dele, resolvem ir ao seu enterro, e lá conhecerão a tímida meia-irmã; em Depois da Tempestade (2016), o enredo é traçado com um sabor agridoce para deixar emergir fatos que trarão conflitos sentimentais que envolvem pais que terão de lidar com adversidades repentinas, pois precisam tocar suas vidas. Foi premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes em Assunto de Família (2018), sua obra-prima, uma abordagem profunda e sem restrições sobre o conceito propriamente dito do núcleo de uma família, com discussões ácidas e controversas de contornos de grande relevância sobre as regras e o formato que estruturam as relações sociais aceitas ou não pela convivência dolorosa do cotidiano. Não faltou singeleza e uma aparente serenidade para buscar a construção dos vínculos afetivos com muita ternura, carinho e amor, afastando-se do julgamento precipitado de normas morais vigentes.

O realizador prima pelas crônicas ambientadas na classe média de seu país, dando um mergulho no microcosmo familiar para contar histórias verossímeis do dia a dia. Segue a trajetória do questionamento primoroso dos velhos mestres para mergulhar no universo peculiar das tradições da cultura japonesa. É um observador das mudanças inerentes que acontecem com o passar dos anos, expondo as feridas não cicatrizadas para lançar luzes ao universo das distorções dos lares desagregados e em ruínas, ou pela violência doméstica ou pela desestruturação financeira. Sempre com uma temática voltada para as perdas, enigmas da vida, a hipocrisia social e os desatinos pelas rupturas dos laços que unem os seus respectivos membros no microcosmo familiar, amizade e amor, o preconceito numa idade em que há tantas mudanças da pré-adolescência para a adolescência colocada de maneira direta, embora haja sutilezas na narrativa. São as construções impostas pela sociedade que nos rege e com elementos fortes de bullying, principalmente entre os grupos de colegas do colégio onde estudam os personagens amigos em foco. Diante da prática sistemática de atos de violência psicológica, intimidação e humilhação, com duras consequências pelo rumo da reviravolta da história, acaba por se tornar uma amarga e cruel realidade. Abordagens estas encontradas no laureado Monster, vencedor na categoria de roteiro no Festival de Cannes deste ano, escrito por Yuji Sakamoto, um quebra-cabeça inspirado na versão do filme Rashomon (1950), do mestre Akira Kurosawa, que realçou as dificuldades inconclusas na análise de fatos quando há vários interesses envolvidos.

Em seu novo filme, o diretor reconstitui o cotidiano e deixa os personagens darem suas versões numa história contada pelos diversos ângulos dos pontos de vista. O espectador faz parte do enredo como uma suposta testemunha dos acontecimentos reconstituídos numa estrutura de mistério que é usada para apontar uma burocracia rígida que tem o viés das hipocrisias latentes e destruidoras de seres humanos para sufocar e humilhar num contexto de submissão de um universo contemporâneo doentio. As versões são intercaladas por flashbacks que tentam reconstituir uma verdade eivada de mentiras. Nada é o que parece e fica pontuada a pressa em julgar. Saori (Ando Sakura) é uma viúva angustiada diante dos entraves burocráticos do mundo dito civilizado. Preocupada com a possibilidade do filho Minato (Soya Kurokawa) estar sofrendo agressões de um professor (Eita Nagayama), tenta resolver na administração da escola. Recebe apenas frases vazias devidamente ensaiadas que não solucionam seu problema, apenas há olhares confusos e elucubrações estéreis. O comportamento do menino apresenta sinais de anormalidades e indícios de bullying, violência física e psicológica que estão aparentemente evidentes. O sistema conservador, representado pela diretora do colégio (Yûko Tanaka), uma mulher fria que repassa a culpa de uma tragédia familiar ao próprio marido para manter a fleuma aristocrática e se passar por vítima do destino. A mãe só recebe pedidos de desculpas num mecanismo social de submissão e concordância para afastar as verdades e desviar o foco das causas originárias dos sofrimentos num cenário da total ausência de lucidez.

Ryuichi Sakamoto, autor da linda música original, falecido após o encerramento das filmagens, teve o filme dedicado nesta narrativa com um eletrizante roteiro repleto de reviravoltas, no qual as aparências enganam e as revelações vão surgindo no tempo certo em doses homeopáticas. Não julgar ninguém ao ouvir uma história, é o recado do diretor, que nos remete na primeira parte de seu longa para o magnífico drama A Caça (2012), do dinamarquês Thomas Vinterberg, na abordagem nua e crua de forma transparente ao colocar em xeque a crença equivocada de que crianças não mentem. Os preconceitos contemporâneos e a pressão de uma casta dentro de uma comunidade conservadora sobre os direitos e princípios morais de um indivíduo acuado e liquidado moralmente numa acusação injusta de pedofilia numa creche. Na segunda parte até o epílogo fica evidente a influência e a similitude com Close (2022), o admirável drama belga sobre amizade e amor, do diretor Lukas Dhont. Retrata o dia a dia com uma delicadeza naturalista marcante registrada com notável sensibilidade poética, que mostra dois meninos de 13 anos, dois amigos inseparáveis, que passam 24 horas juntos. Eles brincam, andam de bicicletas, dividem tudo que gostam, dormem um na casa do outro. Mas logo as insinuações e as provocações dos colegas colocam em xeque a conexão da amizade pueril.

Em Monster, os vínculos que unem são fortes ao revelar um cotidiano de intenso afeto e sentimento de apreço, solidariedade humana, e liberdade para uma reflexão humanista pelo despojamento de falsos tabus do pai preconceituoso do melhor amigo do protagonista. O cineasta tem como marca registrada as histórias familiares tradicionais e suas gerações, mas agora se detém nas transformações de uma composição ampla e irrestrita, para retratar estas novas situações diárias de simples coisas que irão ao encontro de relações intrincadas e modificações relevantes. O drama é marcante pelo equilíbrio, embora seja sombrio com alguns momentos de felicidade para os jovens personagens. O desfecho traz cenas comoventes, como o renascer diante da foto do pai morto. O desenlace é fascinante e poético entre os destroços de um trem como processo de deterioração. Mas iluminados pela liberdade do lindo cenário das imagens de um outro mundo, como se uma luz alentadora brilhasse para uma nova realidade substituindo as ruínas, como uma alegoria sob os acordes da trompa e do trombone. Eis uma temática universal sobre angústias humanas num mundo ameaçado pelo fogo e pela dissimulação. Um extraordinário filme sobre as sutilezas dos laços de ternura com suas ligações se esboroando, que remanescem entre verdades e mentiras. Emociona por ser intenso na complexidade das relações conceituais de uma provável nova sociedade, por isto é uma obra madura e completa na carreira de Kore-eda.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Assassinos da Lua das Flores

 

Extermínio Indígena

Adaptado do best-seller homônimo do escritor David Grann, também baseado em uma história real, Assassinos da Lua das Flores é um faroeste épico do veterano cineasta Martin Scorsese, de 79 anos. Provavelmente o melhor filme de toda sua filmografia, com um roteiro fabuloso escrito a quatro mãos por Eric Roth e o diretor. Uma antiga parceria é retomada com Leonardo DiCaprio e Robert De Niro, que sempre rendeu bons frutos ao longo da carreira do realizador, mas o trio nunca tinha trabalhado junto. DiCaprio está impecável, cada vez melhor e mais maduro, com desempenho em alto estilo, devendo ser creditados os méritos também ao diretor nesta sexta parceria, no papel do protagonista Ernest Burkhart, lembrou os melhores momentos do Marlon Brando pelos movimentos faciais, arrasou. Antes, estiveram juntos em Gangues de Nova Iorque (2002), O Aviador (2004), Os Infiltrados (2006), Ilha do Medo (2010), e O Lobo de Wall Street (2013), que lhe rendeu o Globo de Ouro. Em 2016, finalmente conseguiu levar o Oscar de Melhor Ator no filme O Regresso (2015), de Alejandro González Iñárritu. Já De Niro, quase sempre sóbrio, impressiona magistralmente como um personagem desprezível e estúpido, frio e calculista, ao interpretar William Hale, tio de Ernest. Encarna um pecuarista ambicioso que sempre quer mais financeiramente, que se porta publicamente como um cavalheiro, uma pessoa bondosa, pragmática, respeitado na cidade do povo indígena Osage. De Niro completou agora dez filmes em parceria com o diretor, iniciando com Caminhos Perigosos (1973), passou por Taxi Driver (1976), Os Bons Companheiros (1990), Cassino (1995), O Lobo de Wall Street (2013), sendo o mais recente O Irlandês (2019).

Scorsese firmou seu nome como um dos realizadores mais influentes e cultuados da história, não apenas em Hollywood, mas também no cenário mundial. Um legítimo artesão do cinema que impacta mais uma vez pela importância da obra, e que demonstra ainda ter muito para dar. Pelas suas lentes retrata a verdadeira faceta ambiciosa e preconceituosa com que Hale sente e nutre pelos nativos, além de sua busca incessante por dinheiro e o envolvimento direto com uma engrenagem obscura. Usa o sobrinho que retornou da Primeira Guerra Mundial, como um típico fantoche de seus planos diabólicos para se apropriar da riqueza das terras indígenas como uma grande riqueza em Fairfax, na região norte-americana de Oklahoma. Para melhorar ainda mais seu patrimônio, como símbolo poderoso de um patriarcado, convence o rapaz a se casar com Mollie Kile, uma grata surpresa positiva pela irrepreensível interpretação da atriz descendente indígena Lily Gladstone, no papel mais importante de sua carreira. Rouba as cenas com sua presença marcante e seu poder de falar através do olhar penetrante de uma eloquência poucas vezes vistas numa narrativa, tem uma delicadeza agradável peculiar. Herdeira de terras ricas em petróleo, ela e sua família logo despertam interesse e cobiça dos homens brancos aventureiros.

A trama se passa num recorte do ano de 1920, em que a tribo de Osage é forçosamente deslocada de Arkansas e Missouri para se estabelecer em Oklahoma, quando diversos assassinatos acontecem a partir de circunstâncias misteriosas. Diante de denúncias, o caso acaba desencadeando uma grande investigação envolvendo o poderoso J. Edgar Hoover, considerado o primeiro diretor do FBI, agência que tinha acabado de ser criada na época, sendo representado pelo investigador Tom White (Jesse Plemons). Os crimes são enfocados por um duro realismo, mas com requintes de crueldades numa história com componentes ardilosos campeando por todos os lados, extrapola todos os limites de princípios e regras normativas. A exposição dos fatos é abrangente e colocada com boa intensidade, buscando um humor sutil, onde a ambição é o elemento essencial como mola propulsora para manter a fleuma da canalhice e seus excessos de desumanidade, ausente de qualquer ética pelo tio espertalhão. É inegável o envolvimento complexo bem explorado dessa história de amor entre duas pessoas, mas também de traição, culpa e submissão do sobrinho.

Assassinos da Lua das Flores incrivelmente passa rápido em suas 3h26min de duração, sem ser arrastado, distante do entediado, através de uma narrativa com clímax dinâmico e inspirado, a conspiração e a tensão constante são elementos apropriados para prender o espectador desde o início até o desfecho com a aparição do cineasta ao melhor estilo do mestre Alfred Hitchcock, pelas lentes fascinantes da fotografia de Rodrigo Prieto e a cativante trilha sonora de Robbie Robertson. O épico contextualiza e coloca para reflexão as relações de poder em conluio com a maçonaria para retratar com contundência os abusos oriundos da violência, principalmente da traição famigerada, do homem branco em relação ao povo indígena. Uma abordagem que atinge um resultado singular ao mostrar a importância do cinema para desnudar, perturbar e apontar os crimes pela humanidade e o extermínio de um povo indefeso. Eis um novo olhar para aqueles faroestes estereotipados, preconceituosos e reducionistas, por serem avessos aos índios colonizados e dizimados pelos governos dos Estados Unidos. A desconstrução se faz necessária e Scorsese pontua uma crítica ao materialismo do homem branco ganancioso, nefando, e sem limites pelo descontrole abissal, assim como já o fizera em O Lobo de Wall Street.

O questionamento da moralidade do sobrinho e seu amor confuso e pouco honesto pela mulher são colocados em xeque. Exterioriza o caráter deturpado e minguado ao concordar com o tio na armação para assassinar membros da própria família para lucrar. É devidamente revelador ao optar pelas suas próprias escolhas, como apresenta na essência um sintoma nauseante. Não tem bom moço diante das circunstâncias em que se apresentam os caminhos tomados, ainda que sob uma coação afetiva familiar do maléfico tio, não há posição de ingenuidade ou inexperiência. Sobra realismo para os atos cruéis nefastos, as abjetas armações, comandados pelo inescrupuloso Hale, elemento dominador na figura portadora da autoridade paternalista, no seu universo selvagem e desenfreado, dito civilizado. A tirania opressora dos Estados Unidos é denunciada em relação à cultura dos povos indígenas subjugados e humilhados dentro de seu território. Um notável documento histórico de conhecimento obrigatório sobre relacionamentos humanos que refletem os combates covardes sobre os mais fragilizados que desvendam segredos e mostram as verdades mantidas ocultas diante da máscara que cai para lançar luzes sobre as sombras do passado. Um monumental relato cinematográfico, uma verdadeira obra-prima no sentido mais genuíno da palavra, que deverá estar no topo das listas dos críticos de melhores filmes do ano de 2023.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Tia Virgínia

As Irmãs

O longa-metragem de estreia do roteirista e diretor goiano Fabio Meira foi As Duas Irenes (2017), que abocanhou quatro prêmios no Festival de Gramado daquele ano: roteiro, ator coadjuvante, direção de arte e melhor filme da crítica. Agora, o cineasta nos brinda com o segundo longa, Tia Virgínia, que ganhou cinco Kikitos no Festival de Gramado em agosto deste ano: roteiro, atriz (Vera Holtz), prêmio da crítica, direção de arte e desenho de som. Bem que poderia ter saído com a láurea de Melhor Filme, mesmo que Mussum, O Filmis (2022), de Silvio Guindane, tenha ficado em boas mãos. Em uma trama aparentemente simples, embora haja muita complexidade nas relações familiares, retrata as dúvidas e os caminhos nas vidas presentes e futuras. Conta com muita sensibilidade e perspicácia a história de uma mulher que dá nome ao título (Vera Holtz, de estupenda atuação para uma construção despojada que atinge uma exuberância impressionante na dramaturgia) aos 70 anos, que não tem nenhum filho e nunca se casou. Acaba sendo convencida pelas irmãs, Vanda (Arlete Salles) e Valquíria (Louise Cardoso) a se mudar para outra cidade com a tarefa de cuidar dos pais. Uma temática contemporânea, sempre latente e difícil de abordar em nossa sociedade de consumo com descarte dos mais idosos e a recepção dura, às vezes, principalmente para os mais jovens.

Eis uma comédia dramática honesta e cativante que se passa em apenas um dia numa casa e acompanha a preparação da ceia pela protagonista para receber as irmãs que estão chegando para celebrar o Natal, após a morte do patriarca. Vanda é casada com Tavares (Antônio Pitanga) e mãe da doce Ludmila (Daniela Fontan); já Valquíria tem um filho entediado que está se formando em Medicina (Iuri Saraiva). A situação de Virgínia é melancólica, que por codependência se vê obrigada na sua rotina em cuidar da mãe de 99 anos (Vera Valdez), uma anciã em adiantado estado de demência, que não interage, de corpo esquálido e que precisa de cuidados especiais, como no banho sentado numa cadeira, medicação, alimentação na boca e o uso constante de fraldas geriátricas. O cenário retrata um ambiente típico da classe média brasileira, onde o tempo parece estar estático, com a indissolúvel presença de um relógio de parede que anuncia a troca de horas, uma rústica cristaleira antiga com as taças e os pratos do casamento da matriarca, e um presépio para iluminar a chegada da pseudonoite festiva. Um mergulho nos confrontos e adversidades da irônica chamada "melhor idade" e o espectro da triste solidão, tanto da protagonista, a “tia solteirona”, enquanto as outras constituíram suas próprias famílias, bem como da mãe decrépita rumo ao ocaso.

Há alguma similitude em seu conteúdo de questionamento de vida com outras belas obras, tais como: A Partilha (2001), de Daniel Filho, quando quatro irmãs estão reunidas para o enterro da mãe discutem a divisão entre elas de um amplo apartamento em Copacabana e os móveis contidos nele. Passam a confrontar entre si suas opções de vida, já que todas seguiram caminhos bem diferentes. Fazem um balanço do passado e dos bons momentos que tiveram juntas, sendo obrigadas ainda a enfrentar as novas situações que o cotidiano impõe. Também em Feliz Natal (2008), de Selton Mello, o protagonista de 40 anos trabalha em um ferro-velho no interior, tem uma companheira e uma ocupação constante, mas no passado levou uma vida de grande irresponsabilidade, da qual saiu vivo por sorte. A proximidade do Natal faz um levantamento de sua vida, decidindo retornar à capital, enquanto que ele próprio está em busca de sua identidade.

Quem não conhece ou não teve no seio familiar, ou de amigos próximos, uma situação semelhante tão envolvente e humana apresentada? A dignidade de ambas, da filha no papel de cuidadora da mãe, é colocada em xeque pelo tempo e seus estragos existenciais do envelhecimento, pelo diretor. Há uma madura direção que demonstra controle sobre a narrativa e sobram méritos por não deixar cair em pieguismos ou exageros sentimentais baratos pela eficiência da condução equilibrada dos diálogos ásperos entre as irmãs. Os conflitos vão desde o engraçado para revelações dolorosas, com uma tensão constante na inveja, na chantagem emocional, muita hipocrisia, em que não falta a discussão do patrimônio, dinheiro, e até o assédio do futuro médico à empregada grávida. Assim já o fizera o argentino Daniel Burman em Dois Irmãos (2009), pelo afago final das águas do rio que servem de cenário para o domicílio daquelas idosas criaturas inertes, distantes e sobreviventes do universo familiar. Ou pelo olhar do diretor carioca Marcos Bernstein no ótimo O Outro Lado da Rua (2004), refletindo a dor da solidão da idade, reavaliando suas vidas e descobrindo novos rumos. Ou com GranTorino (2008), de Clint Eastwood, sobre as perdas hereditárias e os valores dos descendentes colocados em risco pelo herói de guerra decadente, e ainda em Aos Olhos de Ernesto (2017), de Ana Luiza Azevedo, que mostra os traumas das perdas e dissabores do envelhecimento com muita sutileza para uma profunda reflexão.

O cenário único funciona como um grande teatro do realismo familiar estampado, no qual a protagonista pretende usar seu vestido de formatura no jantar como metáfora de uma vida que se perdeu no tempo, e o sonho de ser atriz talvez se esvaíra para sempre. A penumbra da virada da noite de Natal será marcada pela revelação de um grande segredo sob os acordes do clássico Bolero, de Ravel. Ela armazena ressentimentos, tristeza imensa, solidão e o sentimento de ingratidão das irmãs. Guarda em seu íntimo um sofrimento silencioso. Como num jogo de xadrez, a importância pelas nuances das relações de familiares fragilizadas ao extremo, fio condutor para o desfecho do processo de libertação da mulher sufocada pela dor do tempo e as frustrações advindas dos insucessos amordaçados pela estagnação e conformismo de uma realidade como um beco sem saída. Culpa, responsabilidade e liberdade de escolha se misturam nos ingredientes agridoces. Um magnífico drama existencial humano em formato de comédia dramática alicerçado com simplicidade sobre o angustiante tema universal do envelhecimento e suas idiossincrasias do tempo em seus dias próximos da finitude. Tia Virgínia soa como uma luz de força e equilíbrio, com suas mágoas e alegrias, mas nada definitivo no horizonte. As emoções e a vazão para o grande amor profissional de uma ilusão nunca esquecida pelo longínquo tempo, a ser reconciliado pela rebeldia da rotulada irmã louca, com a revelação do sigilo numa sequência singular da narrativa que leva para a metamorfose redentora.


quarta-feira, 8 de novembro de 2023

Afire

 

Juventude Angustiada

O cineasta e roteirista Christian Petzold é considerado um dos principais expoentes do movimento cinematográfico contemporâneo da Alemanha, possivelmente o mais bem-sucedido da chamada Escola de Berlim. Autor da trilogia Amor em Tempos de Sistemas Opressivos, que iniciou com Barbara (2012), tendo recebido o prêmio Urso de Prata por melhor direção no Festival de Berlim. Ambientado nos anos de 1980, num bucólico vilarejo, ao Leste de Berlim, em pleno regime comunista instalado na Alemanha Oriental, numa análise sobre a divisão do país antes de cair o muro, no constrangimento da protagonista em ser vigiada e passar por humilhantes revistas íntimas no seu local de trabalho sob o autoritário regime sem liberdade de expressão, onde a reunificação era completamente descartada. No segundo longa, Phoenix (2014), centralizou a história na judia desfigurada enquanto esteve presa num campo de concentração em Auschwitz, que retorna à sua cidade natal em escombros na busca de um cirurgião plástico para recuperar a imagem deformada, mesmo que o passado lhe traga perseguições. Reencontra o marido e recebe a ajuda de uma militante solidária com seus compatriotas, orientando-os para viajarem em definitivo ao recém-criado Estado de Israel. Fechou a trilogia com Em Trânsito (2018), uma realização ao melhor estilo da escola de seu país, com um roteiro dinâmico, com cortes certeiros e precisos, concessões moderadas para o espectador, num tom seco e direto com artimanhas adequadas, retrata um painel do flagelo humano decorrente das aflições políticas contemporâneas em um mundo de dúvidas constantes.

Está de volta com mais uma obra instigante, Afire, título que pode ser traduzido livremente para Em Chamas, último filme do realizador e ganhador do Prêmio do Júri no Festival de Berlim de 2023. Venceu também o prêmio de Melhor Filme Internacional para a Crítica na 47ª. Mostra de Cinema de São Paulo deste ano, suplantando por um voto Ervas Secas (2023), do festejado diretor turco Nuri Bilge Ceylan. No seu penúltimo longa, Undine (2020), Paula Beer interpreta uma historiadora abandonada pelo namorado que busca a vingança, conforme o mito que inspirou seu nome. Novamente a atriz brilha e dá toda sua magia numa atuação inspirada que dá vida à despojada personagem central Nadja, uma estudiosa em letras, que tem papel importante na trama, quando os personagens se referem à literatura alemã do século 19. Ela disfarça bem como vendedora de sorvete, e ainda cuida a casa dos pais de Felix (Langston Uibel), um fotógrafo que quer criar um portfólio, amigo de Leon (Thomas Schubert- atuação impecável), rapaz formal e sério, desconfiado, com dificuldade para dormir diante do barulho das relações sexuais no quarto ao lado, escritor em crise existencial e de criação para seu próximo romance, que aguarda a visita do seu editor (Matthias Brandt). O outro personagem é Devid (Enno Trebs), o salva-vidas do local, que tem um affaire com Nadja. Estes são os personagens do ótimo enredo construído num roteiro versátil, que se passa numa pequena casa de férias na região da Pomerânia, entre a Polônia e a Alemanha, ambientado às margens do Mar Báltico, com proximidade de uma imensa floresta em chamas com ameaças intensas pelos focos frequentes de incêndio, contígua a uma praia, onde os dias são muito quentes e não chove há semanas.

Petzold menciona com precisão certeira no roteiro Pompeia e o desastre romano com a erupção do Vesúvio, em uma das cenas em que os animais estão morrendo queimados ou sufocados pela fumaça. Já no prólogo, o carro enguiçado e a busca do caminho para se chegar até o destino, evidencia e antevê os problemas naquele lugar em que os jovens irão se reencontrar com os novos amigos. O diretor traz à baila os problemas ambientais climáticos do aquecimento global como pano de fundo para se aprofundar nas emoções em que estão relacionadas à felicidade, à luxúria e o amor que brota no desenrolar da história. Há pitadas de ciúmes e ressentimentos que trarão em doses homeopáticas as tensões geradas no grupo. Os incêndios florestais próximos funcionam como metáforas de um processo das relações humanas dentro de um panorama de solidão, na qual os personagens se aproximam por instinto dentro da casa, até que os focos amorosos são iminentes dentro de um contexto que é impossível ser ignorado.

Um cineasta instigante de filmes intimistas com fundo social, que aborda temas históricos e identitários para iluminar a consciência dos alemães pelo passado nazista. Tanto nos dramas anteriores como no atual, há uma densidade fascinante sobre a reconstrução da vida. Contextualizado dentro de um clímax equilibrado e coerente, através de uma história contada com suavidade contraditória dentro da angústia e das fragilidades de Leon, porém embrutecida por um panorama claustrofóbico oriundo dos incêndios que devastam as florestas. Permeia pela melancolia intercalada com momentos líricos, embora doloridos, neste impactante drama profundamente atual. Um filme de imagens e diálogos com força de grande expressividade pelos rostos e olhares. Mencionado por alguns críticos a similitude temática de Afire com Contos das Quatro Estações (1990-1998), dirigido pelo renomado francês Eric Rohmer, Três Formas de Amar (1993), de Andrew Fleming e Deus Sabe Quanto Amei (1958), de Vincente Minnelli. Já o diretor confessou nos debates da Mostra de Cinema de São Paulo que entre outros filmes de verão, Mônica e o Desejo (1953), de Ingmar Bergman, preferido de Jean-Luc Godard, foi sua grande fonte de inspiração.

Uma obra densa num encontro aparentemente agradável entre bons amigos, embora alguma ameaça sombria esteja rondando no ar, como o fogo da floresta ou da paixão que se aproxima. Com o escritor relutante em se relacionar tentando encerrar seu segundo livro, sente a vida mais pesada como um fardo, frisa de forma recorrente: "O trabalho não (me) permite". Afire está entre as melhores realizações do cineasta pelas suas qualidades indiscutíveis e meritórias de grande artesão. Um drama que não cai na caricatura e nem nas armadilhas fáceis do maniqueísmo contumaz de alguns filmes pouco consistentes. Há tensão, amor e intensidade elaborados sem exageros, com cenas de construções de personagens aparentemente fortes, mas psicologicamente fragilizados, bem alicerçados por uma direção autoral magnífica, através de uma amostragem pela beleza dos detalhes, marcante no olhar revelador, segurando até o desfecho inusitado de um enredo recheado de realismo de um cinema perturbador na essência. Os acontecimentos deixam sequelas que irão marcar as vidas desses jovens. A reflexão indica que há motivos para uma admirável aprendizagem. O desfecho em aberto deixa margem para interpretações do espectador, por ser sensível e comovente como na última cena deste fabuloso filme, um dos que deverá constar nas listas dos críticos de melhores do ano.