quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Cinema Victória Encerra Atividades









          



Uma triste notícia para os cinéfilos: fechou em definitivo o charmoso Cinema Victória de Porto Alegre. Estava ali, bem localizado no Centro Histórico, com entrada pela Av. Borges de Medeiros e pela Travessa Acilino de Carvalho (Rua 24 horas). Desaparece do cenário cinematográfico uma lenda do patrimônio da arte, um dos últimos cinemas de rua que foi empurrado nos últimos tempos para dentro de uma galeria.

Foi ali que assisti meu primeiro filme na Capital gaúcha, o longa Um Certo Capitão Rodrigo (1971), de Anselmo Duarte, com Francisco Di Franco, Elza Prado e Pepita Rodrigues. Meu tio me levou pela primeira vez naquele suntuoso cinema, com uma entrada principal ao estilo de um teatro, todo atapetado em vermelho para um pisar macio, dois andares de cadeiras de madeiras chiques para se apreciar as películas, com uma sala de espera repleta de sofás e poltronas de couro, portarias com funcionário engravatados e nas laterais bilheterias com moças bonitas e educadas, de cabelos presos e um sorriso carinhoso nos lábios pintados de um batom cintilante.

Havia uma bomboniere com as insuperáveis balas azedinhas e as imperdíveis balas de goma, barras de chocolate ao melhor estilo da Neugebauer. Pipoca não era recomendável, não ficava bem, lembrava pessoas ruminando. À vezes, os filmes paravam de repente para serem trocados os rolos, um bom momento para uma troca de beijos discretos e um agarrar de mãos no escurinho da sala. Um bom local de referência para esperar a namorada e assistir em cinemascope naquele telão Tubarão, de Steven Spielberg, O Vento Levou (1939), de Victor Fleming, Os Dez Mandamentos (1956), de Cecil B. DeMille e o badalado O Exorcista (1973), de William Friedkin.

No Cine Victória levei meus filhos para assistir comédias, suspense, dramas e quase sempre os infantis da Walt Disney, entre os quais Branca de Neve e os Sete Anões (1937), Cinderela (1950) A Bela Adormecida (1959), além de filmes de piratas, ilhas de tesouros, entre tantos. Fica uma ponta de melancolia pelo fechamento e um ciclo que se encerra para o último cinema de calçada, ou quase, pois já estava encolhido dentro de uma galeria. Agora, sobrou ali, apenas um espaço vazio que logo será ocupado por uma agência bancária, ou um restaurante, ou ainda, quem sabe uma agência lotérica. Tudo ficou para trás, repleto de reminiscências das lembranças de um passado, na qual a arte e a cultura sucumbiram diante de uma economia combalida e em crise. A dor da derrota novamente se faz presente no sombrio e desesperançado futuro do cinema. Triste, mas realista.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)


Bastidores Conflitados

O cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu tinha em sua filmografia dramas crus e sem ironia, marcantes pelo realismo sisudo como proposta conceitual, porém instigantes na narrativa como Amores Brutos (2000) e 21 Gramas (2003), exceto Babel (2006), que remonta várias histórias intercaladas. Com a realização de Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), primeira comédia do diretor, que abre seus caminhos para a consagração mundial, tendo em vista que foi indicada em nove categorias ao Oscar deste ano: melhor filme, direção, ator (Michael Keaton), ator e atriz coadjuvantes (Edward Norton e Emma Stone), roteiro original, fotografia, som e efeitos especiais.

Mesmo não sendo o melhor filme em disputa, credencia-se como o grande favorito com este ousado metalinguístico longa-metragem beirando ao surreal, na abordagem esmiuçada com um mergulho no ego de uma estrela em crise de Hollywood, pelo aparente plano-sequência único sem cortes da filmagem pela câmera como uma espécie de espiã pelos cantos de difícil acesso do cenário. Mas é apenas uma ilusão de ótica, pois o filme é colado meticulosamente, sem que haja evidências das incisões, mas elas existem de forma bem delineada e iludem os olhos do espectador que fica com a sensação falsa pelo disfarce, diante da flutuação que impressiona e dá uma beleza renovadora nos 119 minutos de filmagens digitais emendadas invisivelmente por várias sequências, ao melhor estilo de mestre Alfred Hitchcock em Festim Diabólico (1948), que usava artifícios imperceptíveis na troca dos rolos. Cabe ressaltar que plano-sequência único só existiu e merece crédito somente para Arca Russa (2002), de Alexandr Sokurov. Com uma estimulante trilha sonora das batidas da bateria, tem ainda na fotografia e na edição trabalhos realizados com acuidade, logo impressionam e o filme perderia em muito se seguisse o estilo convencional.

A trama mistura ficção e realidade, inclusive pelo próprio protagonista de um passado recente, Riggan Thomson (Keaton) fizera sucesso interpretando o homem-pássaro, um super-herói que se tornou um ícone cultural e referência para espectadores ávidos por aventuras e heroísmos americanos desbragados. No filme, desde que se recusou a estrelar a quarta continuação como personagem da série Birdman, sua carreira começou a decair e despenca ladeira abaixo, como um iminente fim que o leva ao desespero e deixa-o atormentado junto com seu herói que ouve vozes na trajetória do enredo, subsídio buscado na cinebiografia Gainsbourg- O Homem que Amavas as Mulheres (2010), de Joann Sfars, quando era cutucado pelo alter ego travestido do irmão morto, no formato de um boneco, para tocar em frente suas composições. Na vida sem ficção, Keaton também se recusa a interpretar Batman pela terceira vez, dando uma dimensão maior e consistência robusta ao personagem.

Iñárritu dá vida e forma ao protagonista que vai em busca da fama perdida e também do reconhecimento como ator, quando este vai dirigir, roteirizar e estrelar a adaptação de um texto consagrado para a Broadway. Riggan precisa lidar com seu agente Brandon (Zach Galifianakis) e a voz insistente que permanece em sua mente. Há uma luta travada de sentimentos de perdas e dúvidas nos ensaios com o elenco da peça formado por Mike Shiner (Edward Norton), Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough). Em Birdman, o dedo do diretor aponta para a indústria do entretenimento, sem esquecer a reflexão pela crise que se instala nos camarins do teatro. Um retrato cínico e pujante de um momento de angústia e dor, com um olhar para as ligações afetivas que surgem numa realidade típica de constrangimento, na qual a vida imita a arte, tema bem explorado no recente e belo drama francês Acima das Nuvens (2014), de Olivier Assayas, na boa crítica retratada com mordacidade aos costumes pouco humanitários de Hollywood para seu rol de astros desgastados, com soluções simples como o uso até o seu descarte.

Na comédia do realizador mexicano, além da derrocada do antigo homem-pássaro que passa pelo esforço do processo reerguimento do ator decadente para a fama teatral, surge a crítica velada para os personagens criados para a peça, no qual estão mais preocupados com o estrelato nos diálogos sarcásticos, pensando em si mesmos. Como o ator Mike que surta de vez em quando, a atriz Lesley intrincada com relacionamentos antigos, o agente voltado para os lucros, a filha com tendência suicida (Emma Stone) que se sente deslocada e clama pela falta de afeto do pai, muito bem enfatizado por Yaron Zilberman, no drama O Último Concerto (2012), quando a jovem desprotegida pede socorro e leva uma bofetada no rosto, ao questionar a mãe sobre a ausência constante, bem como do pai que a deixa abandonada como ser humano, chega afirmar que o aborto teria sido uma solução melhor para todos.

O sonho americano perdido e distante pelas visões ilusórias do perturbado homem-pássaro e seu voo imaginário de libertação de um mundo de picuinhas e faz de conta, que dá uma sensação de uma realidade ausente de ilusões, onde o desejo se confunde pela manifestação empírica da figura que mexe com os instintos de sobrevivência do protagonista. Um retrato alegórico dos fantasmas que perseguem seu alter ego e que dará vazão para libertar-se daquele insustentável peso que carrega sobre seus ombros, através da responsabilidade de iludir idiotas como se fossem crianças mimadas e sem discernimento, contrapondo pelas citações eruditas, como de Macbeth, de Shakespeare. A contínua aparição está na consciência questionada pelos atos corrompidos do cotidiano, como um alerta objetivo e direto sobre qual mundo quer continuar? Aquele de ilusões ou a realidade ao seu redor numa narrativa de extrema sensibilidade para um mítico Ícaro grego contemporâneo na sua tentativa de deixar Creta voando com asas forjadas. Há um contexto de envolvimentos emocionais interligados por uma boa atmosfera sobre perdas e os bastidores conflitados. Por isto, a representação teatral, quase trágica, trará luzes para o voo final de um dilema existencialista, além de crítico a Hollywood e a Broadway.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Foxcatcher- Uma História que Chocou o Mundo


Solidão e Morte

Baseado em fatos reais, Foxcatcher- Uma História que Chocou o Mundo recria uma história verdadeira e instigante pelas mãos do compenetrado diretor Bennet Miller, meticuloso no formato e no escândalo ocorrido, embora não tão chocante como repercussão na esfera mundial, como retrata o infeliz subtítulo brasileiro. O cineasta já havia recriado situações análogas em dois títulos badalados na sua carreira como Capote (2005) e O Homem que Mudou o Jogo (2011). Em ambos há uma verossimilhança próxima da realidade e do que contam os livros, tendo em vista que o cineasta não é afeito a criar alternativas ficcionais que refogem da versão literária. Para parte da crítica é mérito, para outra seria acomodação.

Mas importa mesmo é que o longa é uma realização magnífica pela atmosfera marcante e bem elaborada no tom certo da dramaticidade contada com eficiência, secundada pela ótima trilha sonora e a estonteante fotografia de interiores e exteriores. É criado um cenário hostil e duro na bela fazenda do milionário egocêntrico John du Pont (Steve Carell- estupenda atuação e digna de abocanhar o Oscar de melhor ator) que aos poucos vai passando para a plateia sua distância e ausência de amor, carinho e vínculo de proximidade com a mãe (Vanessa Redgrave), uma adoradora de cavalos puro-sangue, tudo para ela são os equinos, na fria e distante relação com o filho que se acha escritor, filatelista, ornitólogo e treinador. Na verdade não é nada do que pensa, é apenas um sujeito com evidências claras de patologia doentia pelo estrelato, decorrente de um vazio na sua vida silenciosa e sem graça, embora ricaço.

O diretor enfatiza um protagonista, que passa de um simples observador de pássaros para a construção de um moderno centro de treinamento de esportes para as lutas greco-romanas nas suas fazendas, na Pensilvânia, visando a medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul, em 19888. Para isto foi em busca da contratação do campeão olímpico desta categoria em Los Angeles, Mark Schultz (Channing Tatum), que sempre treinou e foi orientado pelo competente irmão mais velho, um pai para ele, David (Mark Ruffalo), considerado uma lenda como treinador e liderança. Primeiro traz o atleta para sua mansão e destina-lhe uma acomodação digna de um grande campeão que passa a ser um integrante da poderosa equipe de Foxcatcher. Atraído pelo excelente salário e as condições de vida oferecidas, bem como as promessas de aprimoramento físico, o caçula Mark imagina e foca na nova premiação pretendida por ele e pelo seu empresário, que aos poucos se tornam amigos numa viagem apoteótica narcisista. Nem tudo são flores e confetes, logo o campeão olímpico se envolve em drogas e bebidas, seu relacionamento com du Pont torna-se insuportável, diante da personalidade excêntrica do esquisito herdeiro do complexo industrial.

Com a vinda posterior de David, após as coisas se complicarem e a olimpíada cada vez mais próxima, a dupla terá dissabores trágicos por parte do herdeiro patrocinador enlouquecido por medalhas e sua proximidade com o poder, com facilidades bem claras de entrada de armamento na sua residência. Tudo em nome de um patriotismo doentio bem explorado por Miller, no qual eleva o filme para uma esfera superior e distante de patriotadas imbecis ocorridas em realizações comprometidas, entre elas Argo (2012), com o heroísmo desbragado americano insuflado pela paixão nacionalista sem limites, numa louvação de enaltecimento desproporcional, pela direção de Ben Affleck; ou pela forma romântica e patriótica para agradar os norte-americanos e os velhinhos da Academia em Lincoln (2012), de Steven Spielberg.

Premiado no Festival de Cannes como melhor diretor, Miller também foi indicado para concorrer ao Oscar, bem como a roteiro original, ator (Carell), ator coadjuvante (Rufallo), e maquiagem. Injustificáveis as ausências, porém, não ser listado para melhor filme e ator coadjuvante (Tatum). Um filme digno de elogios e referências maiúsculas pela sua complexidade e decorrências edipianas, simbolizadas por uma relação que sugere um erotismo abafado e com ilações que vão para uma imaginária sensação de castração do prazer, que se reflete na mãe e seus apreciáveis amores equinos que contrapõe com o filho a obsessão pelo esporte de luta-livre, deixando transparecer uma sexualidade implícita com seus pupilos.

Foxcatcher- Uma História que Chocou o Mundo é um daqueles dramas exemplares, com recheio de componentes primorosos, entre os quais o suspense. Possui um clímax bem adequado num roteiro enxuto que leva para um final angustiante. Eis o mérito maior de Miller com a tensão sendo mantida em dose equilibrada, intercalada pela metáfora da libertação dos cavalos, após o homicídio acompanhado da morte materna como redenção de uma dolorida solidão e pelas perdas afloradas de forma iminente, num cenário propício pela grande beleza estética como símbolos da liberdade. Em muito se faz lembrar o epílogo do extraordinário drama Winter Sleep (2014), do diretor turco Nuri Bilge Ceylan, refletindo sobre o sentido da existência na essência da vida. Perturbador e reflexivo sobre a alma invadida pelos véus retirados de uma lucidez ausente pelas emoções de uma vitória inexistente, na qual a derrota causa uma catástrofe trágica no seu desenrolar de ilusões perdidas.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Ida


Mergulho no Passado

Pawel Pawlikowski é um diretor autoral que busca nos pequenos detalhes uma amostragem da essência cinematográfica. Nascido há 57 anos em Varsóvia, foi criado desde a infância na Inglaterra com a família, ao fugir do sólido regime comunista lá implantado. Ida é seu primeiro filme rodado no país de origem e falado na língua polonesa, já ganhou aproximadamente 70 prêmios internacionais, entre eles os de melhor filme, roteiro, direção e fotografia no European Film Awards de 2014, tendo figurado em diversas listas de melhores do ano passado nos EUA e Europa, além de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro e concorrer com grandes chances de levar pela primeira vez a estatueta para a Polônia, nacionalidade dos já consagrados diretores Roman Polanski, Andrzej Wajda e Krzysztof Kieslowski. Antes filmara em inglês os longas Last Resort (2000) e Meu Amor de Verão (2004).

A trama é centrada na jovem noviça Anna (Agata Trzebuchowska) que está pronta para prestar seu voto de castidade e tornar-se freira. Porém, antes do evento religioso, ela é instada pela Madre Superiora (Halina Skoczynska) para visitar uma única pessoa restante de seus laços de família, a tia Wanda (Agata Kulesza), uma juíza rígida com os compatriotas renegados, de olhar cínico e que leva uma vida desregrada, beirando uma mulher de vida mundana, solitária, alcoólatra e autoritária nas suas atitudes, principalmente como defensora do Partido Comunista. Sem pestanejar, já diz à queima-roupa à sobrinha que sua origem é judia e que se chama Ida e não Anna. Questiona o futuro dela como freira nesta circunstância paradoxal dogmática, o que faz balançar a vocação da moça. Sem muita cerimônia, revela que seus pais foram mortos pelos nazistas e faz brotar o instinto de busca num alucinante mergulho de um passado brutal.

O cineasta conduz com sensibilidade a viagem da tia e a sobrinha para um caminho de autoconhecimento e localização dos restos mortais para o desfecho redentor da saga familiar oculta até ali. Faz uma abordagem magnífica de uma Polônia com seus traumas da história ocorridos no século XX, através dos choques doloridos marcados por uma trajetória sem vencedores e sem heróis, neste cenário que se passa a trama, em 1962. Muito tempo depois do mergulho nazista do ensandecido Hitler que deixou consequências danosas pelo massacre irremediável, não só para os filhos das vítimas, como também ficaram marcas nos descendentes de colaboradores, simpatizantes e oficiais poloneses, bem como também na extinta Tchecoslováquia, por serem países que alicerçavam a temida Cortina de Ferro no leste europeu, sustentados cultural e religiosamente pela então enérgica União Soviética. Uma realidade de embates pós-guerra e com lembranças de um passado obscuro para a protagonista e seu impacto com o mundo exterior, através de revelações estranhas e inimagináveis que lhe afetariam sua conduta e a fariam estremecer com a história trágica contada pela tia, magistrada implacável com os rebeldes comunistas.

“Acho que uma das razões para gostarem de Ida é porque ele não lida com a História do jeito pomposo, às vezes até patético, que as escolas fazem. Há muitos filmes poloneses que tratam da História do país, mas geralmente eles são cheios de uma retórica que mostra os poloneses como vítimas e nada mais”, assevera Pawlikowski para o jornal O Globo, ao referir-se sobre seu país que passou por várias desgraças e recomeços difíceis para a nação. São fatos marcantes no drama o registro da invasão nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o extermínio macabro de três milhões de judeus poloneses com a colaboração de antissemitas em detrimento do patriotismo, com fins escusos de trocar informações para ficar de posse de imóveis, como no caso dos pais da noviça. Também está bem retratado o longo período stalinista de perseguição aos comunistas no governo de Varsóvia, além da importância fundamental de reconstrução do país pela Igreja Católica.

Um drama fiel da cópia de um país falido e esmiuçado com sutileza pelo caminho de violência com rastros de mortes estúpidas daqueles tristes anos de outrora, num clímax equilibrado e coerente, através de uma história contada com uma suavidade contraditória, embora embrutecida por um panorama do horror do holocausto que deixou feridas abertas de difícil cicatrização, permeando a selvageria intercalada por momentos líricos doloridos, faz desta obra um manifesto contundente, sem se deixar cair no maniqueísmo ou na mesmice de chuveiros químicos esperando pessoas amontoadas dentro de trens rumo à morte.

Ida é um filme reflexivo pelas imagens com força de grande expressividade, suplantando os diálogos que se tornam meros auxiliares na fascinante fotografia em preto e branco que explora o contraste com tons acinzentados, assinadas por Ryszard Lenczewski e Lukasz Zal. Pelas lentes da dupla são mostrados rostos e olhares de perplexidades mesclados com surpresa e indignação sóbria das angustiantes memórias do passado, através de um formato quadrado que lembra as velhas televisões ou os filmes antigos nos cinemas até os anos de 1950, para uma defesa intransigente de uma verdade não tão absoluta passada pelas gerações, na qual as vítimas são todas aquelas que não participaram diretamente da barbárie e faz o espectador ter uma visão menos dualista, ao deixar fluir a equidistância da imparcialidade para elaborar uma posição mais crítica e menos escassa da realidade.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Whiplash- Em Busca da Perfeição


Perfeição Obsessiva

O jovem diretor Damien Chazelle, de 29 anos, demonstra grandes virtudes em seu longa de estreia Whiplash- Em Busca da Perfeição, na abordagem seca e profunda do duelo titânico na tela entre o mestre tirano com o aluno obstinado, sobrando emoção num clima dramático de alta voltagem. O resultado é magnífico neste filme elogiado pela crítica diante da intensidade dos personagens bem estruturados psicologicamente, por um enxuto roteiro e uma estupenda trilha musical. Indicado ao Oscar em várias categorias- inclusive de melhor filme-, já rendeu o prêmio do júri no Festival de Sundance de Cinema e recentemente o de melhor ator coadjuvante no Globo de Ouro para J. K. Simmons no soberbo papel do inesquecível professor enlouquecido pela técnica perfeita para descobrir novos talentos.

Chazelle tem em sua bagagem a responsabilidade dos roteiros dos longas Toque de Mestre (2013) e O Último Exorcismo, parte II (2013), além de Whiplash, recria com consistência a abundância dos abusos psicológicos, físicos e verbais vistos em Nascido para Matar (1987), de Stanley Kubrick, apontado por boa parte dos críticos, no qual um sargento treina de forma fanática e sádica os recrutas em uma base de treinamentos, na intenção de transformá-los em máquinas de guerra para combater na Guerra do Vietnã. Outro filme que traça bem a automutilação é Cisne Negro (2011), de Darren Aronofsky, sobre o destino de uma bailarina na busca obstinada pelo papel principal de rainha, cada vez mais vendo fantasmas escondidos em seu cérebro, mesclada com dores físicas dos pés e ponta dos dedos deteriorados pelos treinos exaustivos, numa clara alusão crítica aos desmandos cometidos nas academias de dança de balés.

A trama retrata um clima emocionalmente tenso e pesado dentro de um conservatório para alunos de música, no qual o jovem Andrew Neiman (Miles Teller) ambiciona galgar um posto de destaque na carreira de baterista profissional de jazz, mas encontra no encolerizado regente Terence Fletcher (Simmons), que tem um método selvagem de lidar com os alunos, dentro de um rigorismo excessivo em que age com assustadora violência física e psicológica, com tapas, bofetões e cadeiras voando, entendendo que assim criará gênios como Louis Armstrong e Charles "Bird" Parker. O filme é intenso e harmônico, duro e leve, de acordo com as cenas que vão se encaixando numa atmosfera de beligerância e suavidade, nos contrastes musicais que a história vai desenvolvendo. As dificuldades são maiores do que as imagináveis pelo determinismo de Neiman que chegam ao ápice, deixando os fantasmas interiores se debelarem pelo seu corpo, penetrando na alma e na rotina de sua vida, tornando-o uma pessoa forte que sai da mesmice e avança no conflito com o mundo exterior, pois o interior já está abalado inexoravelmente pelo suposto fracasso.

Os demônios de Fletcher afloram e explodem contra um mundo de obviedades, diante da possibilidade de desvalorização e a obsessão para a suposta consagração almejada para si e seu pupilo. Há o paralelo traçado para atingir um grau máximo de valorização pela descoberta que cismou ter como meta compatível com seu papel de descobridor, embora tresloucado e sem limites. Com o advento da externação dos sonhos do aluno, há o rompimento das amarras e tabus da convivência civilizada para o ingresso na quase barbárie pelos gestos e ações do mestre. O diretor carrega adequadamente no cenário de violência das automutilações, como dedos e rosto ensanguentados, porém se equivoca nas cenas do acidente de automóvel em que são desnecessárias pela exposição gratuita da correria pelas ruas, deixa transparecer uma certa banalidade que descontextualiza o bom roteiro elaborado, mas que não chega a invalidar a obra.

Whiplash- Em Busca da Perfeição tem na fascinante música a harmonia contrastando com desgaste do sonho dando lugar para as humilhações nos bastidores e todo o intrincado mundo do jazz e suas competições individuais pelo posto pretendido de baterista e se consagrar com o uso das baquetas na perfeita batida, com o ritmo alucinado oriundo de sangue e muito transpiração, além, é claro, da inspiração inerente do artista que nasce na onda inovadora jazzística dos anos 30 aos 70 como mola propulsora das bandas, sobrepondo-se aos demais instrumentos que antes eram os principais, mas que passaram ser auxiliares, como o cineasta registra com sutileza no desenrolar da trama.

O epílogo não chega a ser inusitado, mas cativa, embora haja algum indício do desfecho no seu desenrolar, tornando-se realidade o prólogo pela apresentação apoteótica. Impressiona e marca como um drama consistente ao escapar das armadilhas melodramáticas sem deixar descambar para a pieguice barata, através de um retrato fiel do embate pela pedagogia do insulto dos professores sargentões caracterizados pela brutalidade implacável, onde o máximo rigor é visto como qualidade para se alcançar tudo ou nada como alternativas radicais, num paradoxo bem demonstrado por este promissor diretor na essência deste filmaço através de seu equilíbrio cênico num clímax que mantém um ritmo crescente. Desde já se credencia a ser um dos 10 melhores de 2015.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Os 10 Melhores Filmes do Ano


Os 10 Mais e 05 Menções Honrosas

Como é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos em 2014, também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. Cães Errantes (foto acima), de Tsai Ming-Liang;

02. Alabama Monroe, de Felix Van Groeningen;

03. Nebraska, de Alexander Payne;

04. Inside Llewyn Davis- Balada de um Homem Comum, dos irmãos Ethan e Joel Coen;

05. O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira;

06. Heli, de Amat Escalante;

07. Relatos Selvagens, de Damián Szifrón;

08. A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino;

09. O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra;

10. Boyhood- Da Infância à Juventude, de Richard Linklater.


Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

- 7 Caixas, de Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori;
- Amar, Beber e Cantar, de Alain Resnais;
- Filha Distante, de Carlos Sorín;
- Gloria, de Sebastián Lelio;
- Vic+Flo Viram Um Urso, de Denis Côte.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

O Abutre


O Preço da Audiência

Dan Gilroy estreia como diretor no instigante longa O Abutre, em que também assina o roteiro da conturbada Los Angeles sem glamour, para contextualizar os bastidores do jornalismo de uma rede de TV que tem por objetivo a audiência sem mensurar o custo e as consequências, mesmo que para isto haja muito sangue e um sensacionalismo barato e despudorado. O realizador tem em sua bagagem a assinatura dos roteiros dos filmes Tudo Por Dinheiro (2005), Gigantes de Aço (2011) e o mais reconhecido O Legado Bourne (2012).

A trama tem como fio condutor o inescrupuloso cinegrafista Lou Bloom (com o insosso Jake Gyllenhaal, de O Segredo de Brokeback Mountain (2005), que não passa confiança e tem uma atuação pífia, ainda que arregale os olhos e fale mansamente), um personagem que está longe dos padrões éticos e morais politicamente correto, mas que mergulha fundo pela distorção da concorrência desleal, demonstra ser um vilão sem zelo com o profissionalismo, distante do senso de coleguismo ao apresentar de maneira sórdida o desrespeito com a categoria, como se vê na cena do desfecho com seu auxiliar de equipe (Riz Ahmed), bem como com o cinegrafista veterano que quer fazer uma sociedade (Bill Paxton). A fraude e a armação são suas duas armas potentes e prediletas para combater os concorrentes, além do jogo de sedução que se faz presente na construção psicológica do protagonista que as utiliza como meios inevitáveis para obter seu ideal nefasto.

O drama aborda com consistência a imprensa marrom, embora tenha alguns excessos na narrativa do sangue jorrando na tela, seu resultado é bom pelo foco que pretende mostrar de forma nua e crua. A ética é pisoteada no desenrolar da trajetória que apresenta a busca da audiência a qualquer custo na acirrada concorrência dos canais televisivos de noticiários com imagens fortes que prevalecem, pois é isto que o povo quer ver, como enfatiza em uma das cenas a editora-chefe Nina (Rene Russo- esposa do cineasta), responsável pelo conteúdo do meio de comunicação. Não importa que vidas sejam ceifadas ou que a urbanidade com a categoria seja burlada de forma medíocre pela busca com atropelos pela fama e do dinheiro fácil, sem se importar que para isto o bom senso seja vilipendiado e que a ética se exploda. Ninguém escapa da tramoia da história bem contada por Gilroy.

O diretor gaúcho Jorge Furtado, no recente e elogiado documentário mesclado com teatro O Mercado de Notícias (2014), lançou dúvidas e debateu o futuro do jornalismo, a evolução da internet, a ética e os interesses econômicos das grandes companhias jornalísticas como ponto culminante o papel da mídia, em que a voracidade para informar é cada vez maior, às vezes atropela os princípios básicos do jornalismo, como ouvir os dois lados, causando injustiça e destruição. em O Abutre que é um filme bem construído estruturalmente, também temos a interação com o público, mas pela ótica da concorrência sem limites numa crítica ácida à mídia televisiva de baixo nível intelectual e informativo, principalmente na busca insana da audiência, numa reflexão sobre as consequências das engrenagens quando há manipulação.

Furtado debate a essência do jornalismo e suas origens, num retrato fiel sobre a busca da verdade onde aconteceram os fatos e as fontes fidedignas e seus interesses na publicação da matéria, bem como a obrigação desta escolha. Gilroy retrata a mentira, a empulhação e o fator sanguinário como elementos que norteiam as necessidades que levam para uma imprensa antiética, numa visão crítica para questionar os abusos e falcatruas que são jogadas para os telespectadores. Há uma essencial convicção de encontrar novidades, de revelar novas histórias com o desejo urgente de colocar a matéria no ar, passando pelo crivo traumático de ferir suscetibilidades pelo interesse da sobrevivência, sem se preocupar com os dissabores enormes que poderão advir, ou com a defesa da retidão, embora esteja presente a ausência da neutralidade ou da imparcialidade da notícia na sombria realidade de tempos fustigados pelo dinheiro.

Outro filme que dá suporte ao drama norte-americano é a película de denúncias Abutres (2010), do badalado cineasta argentino Pablo Trapero Abutres (2010), expõe a máfia obcecada pelos prêmios de seguros de acidentes de veículos automotores das mais de oito mil vítimas fatais por ano na busca da notícia privilegiada pelo advogado patético e desonesto, mas boa pinta e hábil na conversa, já com sua habilitação cassada, monta com um outro colega na ativa, com auxílio de policiais corruptos e peritos que fraudam laudos, além de uma jovem médica bonita, inexperiente, estressada e viciada, criam uma verdadeira indústria para receber dinheiro de seguros decorrentes de vítimas fatais ou inválidas de acidentes de carros, até forjando atropelamentos de conhecidos.

Através de uma magnífica fotografia quase sempre escurecida pela madrugada, ou pelos ofuscantes holofotes dos fotógrafos com suas câmeras iluminando por lentes refletoras e lançando um facho de luz, O Abutre aborda a ética profissional pela falta de escrúpulos, em que um cinegrafista ambicioso atua no submundo do crime, registrando tragédias pessoais de acidentes e até um assalto inusitado, tal como um corvo na morte, obsessivo por lucros e ganhos fáceis, sem limites de qualquer constrangimento, perde a vergonha e o caráter inapelavelmente como um anti-herói. Um retrato pujante de um jornalismo apelativo como também é visto nos finais de tarde em vários canais de TV, inclusive em nosso país, onde o sangue é o protagonista das matérias sem qualquer cuidado de princípios com a boa, correta e fiel informação de credibilidade.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ventos de Agosto















As Transformações

Mais um jovem promissor cineasta pernambucano alça alto voo e conquista prêmios importantes, como a menção honrosa no Festival de Locarno, na Suíça, com Ventos de Agosto, único filme brasileiro a participar do evento. Premiado ainda no charmoso 47º. Festival de Brasília com os troféus Candango para melhor atriz e fotografia e o troféu Vagalume de melhor filme. Com apenas 31 anos, Gabriel Mascaro torna-se um proeminente realizador por esta admirável e consistente estreia na ficção, após dirigir com boa receptividade de público e crítica os documentários Um Lugar ao Sol (2009), Avenida Brasília Formosa (2010) e Doméstica (2012).

O drama contou com um elenco de amadores e figurantes, exceto a premiada atriz profissional Dandara de Morais que interpreta Shirley contracenando com Geová Manoel dos Santos no papel do namorado Jeison. O par central foi um dos poucos que estava previsto inicialmente no roteiro de Mascaro, que logo misturou com o pré-escrito para dar liberdade nas ações de improviso dos personagens que desfilaram na tela de forma espontânea. Nem mesmo a protagonista tinha um roteiro definido, ao atuar sem um regramento ortodoxo, ficou à vontade para improvisar. “Assim como a vida e a morte, que não são separados, o real e o ficcional também estão ligados. São parte da mesma questão. É por isso que para mim é importante trabalhar a convergência entre tudo. São partes da mesma experiência de filmar e experimentar a vida”, em entrevista coletiva do cineasta à imprensa do Festival de Locarno. Também o diretor agiu de forma não convencional, ao filmar e montar simultaneamente, como expõe: "tudo foi pensado para incorporar o imprevisto, apropriar-se das coisas que iam surgindo".

A trama retrata Shirley que deixou a cidade para viver numa pequena e pacata vila litorânea para cuidar da avó, em Alagoas. Lá, trabalhava numa plantação de coco dirigindo um trator, gosta de música punk-rock, passa Coca-Cola no corpo para se bronzear, tem como meta ser tatuadora e testa suas habilidades num porco. Busca a felicidade na relação íntima com o namoradinho que também trabalha na colheita de cocos. O rapaz tem como lazer a pesca subaquática e chega até encontrar uma cabeça humana no fundo do mar. O filme tem imagens deslumbrantes que contrastam com a pobreza e a desinformação dos antigos moradores daquele lugar, onde o progresso inexiste e as pessoas já envelhecidas vivem isoladas do mundo da tecnologia e seus avanços como a internet, que estão completamente ausentes naquela região, em que até o celular apresenta dificuldades de sinais.

O pequeno povoado litorâneo sai da mesmice diária com a chegada de um pesquisador (o próprio diretor atua) de som dos fortes ventos alísios com rajadas violentas no mês de agosto, oriundos da Zona de Convergência Intertropical, trazendo altas marés que atingem a costa e mexem com as ossadas dos mortos no cemitério próximo que está na iminência de desaparecer. Sua estadia trará alguns inconvenientes involuntários e seu destino fará com que muitas coisas se revelem, como a falência das instituições pela simbologia da Delegacia de Polícia fechada em pleno dia, tendo um preso por equívoco, sem rosto, mas com voz de protesto. É ele quem responde aos apelos de Jeison e informa que não há expediente e nem servidores. Esta mesma polícia é comunicada pelo rapaz da existência de um cadáver, acaba sendo designado o guardião do corpo, que com o passar do tempo entra em estado de putrefação. Nenhum policial busca o morto e a peripécia para levá-lo à cidade é digna de um romance de Kafka. Ali o cinema é um instrumento de denúncia e indignação de uma comunidade isolada e esquecida, refletida nos barcos velhos e sem segurança que são o único meio de transporte daquela região inóspita e em ruínas.

Ventos de Agosto tem uma fabulosa fotografia de imagens radiantes captadas que superam os diálogos, através de uma trilha sonora adequada na maioria das cenas às pequenas alterações que ocorrem naquele lugarejo pobre e hospitaleiro, com ruídos dos ventos uivantes e suas intempéries climáticas, também presente no comovente drama familiar Filha Distante (2012) de Carlos Sorín, bem como no belo longa gaúcho A Oeste do Fim do Mundo (2012), de Paulo Nascimento. É inevitável também a comparação com O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho.

O cinema autoral de Mascaro, assim como Mendonça Filho e Nascimento, se recorre do cotidiano para falar de sua aldeia com magnífica precisão, seguindo a recomendação de Tolstoi. Todos os sons e ruídos são familiares para o diretor, que apresenta um singular domínio de uma estrutura narrativa de inspirada criatividade, sem cair na obviedade e sem perder a poesia. São elementos bem caracterizadores e envolventes que marcam com rara qualidade este drama com essência da revolta da natureza para colocar os contrastes da vida de um lugar pré-histórico com a existência do mundo dito civilizado de embarcações com turistas ávidos pelo descanso, ignorando a total falta de assistência social àqueles nativos e suas superações que virão como se um peculiar novo dia nascesse como sugere o desenlace, embora dentro de um contexto negativo da estratificação social pelas desigualdades contundentes.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Boyhood- Da Infância à Juventude


Passagens do Tempo

Richard Linklater conquistou fãs pelo mundo com sua badalada trilogia do “Antes”, através de realizações de pouca ambição estética, em que havia mais transpiração e menos inspiração para um público limitado, embora cativo e atento aos lançamentos, que começou com Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013). Agora dá um salto de qualidade com Boyhood- Da Infância à Juventude, um projeto mais consistente e demorado que levou 12 anos rodando com os mesmos atores sendo reunidos de 2002 a 2013, sem se preocupar com indicações ou datas nos períodos que se desenvolvia a história. Amparado pela sensibilidade para abordar a temática da evolução do ser humano com o passar do tempo, numa abordagem sem estereótipos da transição da criança para a fase adulta e seus anseios à flor da pele, acompanhados pelo desenrolar dos pais e suas dificuldades para encontrar o parceiro certo, especialmente no que se refere à mulher, numa reflexão com ternura dolorida numa temática sobre o futuro de todos.

O drama de Linklater conta a vida com os percalços inerentes de um casal de pais divorciados (Ethan Hawke e Patricia Arquette) e dos filhos Mason (Ellar Coltrane- começou com 6 e terminou aos 18 anos as filmagens) e Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). O foco da narrativa está na trajetória do menino ao retratar a relação dos filhos durante a fase do amadurecimento com os enroscos e turbulências em mais de uma década dos pais e seus novos romances, com cenas dramáticas e por vezes até engraçadas, além de muitos diálogos de bom nível, deixando as imagens como plano secundário, como no belo epílogo repleto de naturalidade, diante da beleza das situações simples como se fosse um piquenique. Ou antes, no retrato da emoção da mãe orgulhosa ao ver o filho se formar no ensino médio, já se preparando para a faculdade, através do canto familiar numa bonita roda, em que todos estão com as mãos entrelaçadas como forma de união.

A história mostra uma mãe e suas dificuldades em reconstruir a vida com a sina de arranjar companheiros alcoólatras e violentos. Luta para alcançar seu objetivo de formar-se no nível superior, às vezes parece distante e melancólica com o que lhe reserva o destino. Já o pai parece ser um bon vivant, ligado ao meio musical, faz campanha para Obama e odeia Bush. Porém, tem um caráter duvidoso, como nas cenas da carteira do dinheiro que esquece no carro e do automóvel que prometera para o filho e não lembra mais. Quer fazer do garoto um predador das menininhas, quase sempre ausente nas horas difíceis, ressurge nos bons momentos para mostrar um lado pouco preocupado com um futuro promissor, numa característica bem descolada, mas demonstra afeto e algum vínculo paternal, ao mostrar-se preocupado com a gravidez indesejada e precoce da filha que poderia acontecer. As idas e vindas das relações do pai e as frequentes mudanças de cidades, ou seja, com o equilíbrio da vida, deixam os filhos à margem de uma convivência mais próxima da estabilidade.

Outro acerto inquestionável é a prazerosa trilha sonora com canções diversificadas, que brindam a plateia com Yellow, do Coldplay, Band on the Run, de Paul McCartney, passa por Blink 182, Daft Punk, Pharrell Williams, Foo Fighters, Wilco e até Lady Gaga. Um filme belo pela agridoce singeleza que deixa circunstâncias que agravam e logo depois atenuam a caminhada de Mason em situações comuns cercado por pessoas que também crescem e buscam um futuro, bem secundado pela presença da irmã Samantha, que cria uma personagem marcante e não menos importante na trama que se desenrola com vagar e lucidez nas passagens do tempo. As transições dos irmãos estão bem colocadas e inseridas dentro de um inteligente roteiro singular de Linklater, com a sincronia do envelhecimento natural dos atores desde o início das filmagens, o quer faz o espectador ir percebendo na tela a realidade quase que naturalista do tempo que flui. A acertada direção leva para uma realização que remete para ideias em detrimento da parafernália dos efeitos especiais que pululam o cinema.

Além de ser uma obra instigante no todo, Boyhood- Da Infância à Juventude retrata as dúvidas e os caminhos que os adolescentes procuram em suas vidas futuras, por isto é inevitável a comparação pela similitude de conteúdo dos questionamentos na infância com os excelentes filmes brasileiros de trama aparentemente simples, mas de muita complexidade, entre os quais: Os Famosos e os Duendes da Morte (2009), de Esmir Filho, Antes que o Mundo Acabe (2009), da gaúcha Ana Luiza Azevedo, e As Melhores Coisas do Mundo (2010), de Laís Bodanzky. Reconhecido no Festival de Berlim, Linklater recebeu o Urso de Prata de melhor direção, enfatiza o latente aspecto sombrio nos rostos de seus personagens, como no da mãe e do protagonista. Na relação com o futuro, o filho sente que existem outras fronteiras para serem desbravadas e seu mundo é muito maior que imagina em relação ao cotidiano que deixará para trás, faz refletir sobre uma triste beleza dos prazeres e desprazeres da adolescência que se distancia do universo juvenil com a iminência da difícil passagem para o mundo adulto repleto de preconceitos e complicações inerentes pela transição.

Também lembra o filme Em Paris (2006), de Christophe Honoré, onde os irmãos moravam com o pai, pois a mãe os abandonara para viver uma vida livre, após a morte trágica da filha; neste quem sai é o pai a ganhar o mundo, ficando a mãe cuidando dos filhos. O vazio existencial dá lugar para as brincadeiras e os conflitos na busca das conquistas, tendo por objetivo principal ser um vencedor no contexto geral, como incentiva o pai ao protagonista, pois assim os olhares estarão voltados para o conquistador, numa clara alusão da busca insistente de uma autoafirmação e uma identidade ainda debilitada. É forte a influência de Honoré sobre relação e o núcleo familiar com os jovens na escola e seus problemas fluentes da tenra idade, como a perda da virgindade e a tentativa de se aproximar da mais encantadora aluna como fatores que apenas servem de combustão para questionar situações mais abrangentes e profundas entre jovens pré-adolescentes diante das arraigadas idiossincrasias, buscando suprir as lacunas deixadas pelo pai ou a mãe, bem como os conflitos que se estendem neste drama original sobre os fragmentos familiares do tempo que passa.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Boa Sorte


Destinos da Vida

A estreia na ficção de Carolina Jabor não empolga e quase que decepciona em Boa Sorte, ao contar uma história numa narrativa linear, baseado no conto Frontal com Fanta, de Jorge Furtado, autor do roteiro com seu filho Pedro. O enredo é pouco consistente ao filmar a trajetória de João (João Pedro Zappa) que é internado numa clínica psiquiátrica pelos pais (Felipe Camargo e Gisele Fróes), por apresentar problemas comportamentais depressivos e visões esquisitas que o atormentava frequentemente. Lá conhece Judite (Deborah Secco), uma soropositiva dependente química de todas as drogas imagináveis e já em fase final de sua existência, da qual tem consciência plena. Recebe o carinho da avó (Fernanda Montenegro) que lhe empresta alguma solidariedade afetiva, mas faz questão de frisar não ter culpa na atual situação da neta.

O romance do casal coloca os personagens no mesmo caminho, com a paixão que arrebata os dois a continuidade é improvável no futuro traçado. A reabilitação do rapaz poderá vir pelo amor que constrói, sem se importar com os empecilhos do HIV que não o farão sentir repulsa ou revolta, pelo contrário, joga-se de corpo e alma, como conduz a cineasta para a relação afetiva com culpa de Judite, que demonstra ser boa moça ao armar um fato inusitado para salvar seu príncipe e fazê-lo entrar nos trilhos para recuperar-se de uma pseudodoença, contrário às consultas da cautelosa médica (Cássia Kis Magro), como demonstra o roteiro equivocado.

O filme não chega a inovar e há alguns momentos de lirismo pueril no relacionamento do casal, mas a saga da doença incurável faz o longa navegar pelas águas dos ajustadinhos e simpáticos mocinhos vítimas do destino que lhe aplicou uma punição pelo infortúnio do acaso. Carolina, filha de Arnaldo Jabor, não é uma neófita, pois já tem duas experiências ao codirigir com Lula Buarque dois documentários: Milton Nascimento- A Sede do Peixe (1997) e O Mistério do Samba (2008). Em seu terceiro longa demonstra firmeza na direção, sem se deixar trair pelo maniqueísmo ou descambar para o melodrama fácil. Esbarra num roteiro frágil e mais afeito para uma minissérie televisiva, previsível e recheado de baboseiras, entre as quais coisas que somem e aparecem do nada, talvez por cacoete de Furtado e suas histórias para a telinha global.

Boa Sorte tem uma proposta da procura de autoafirmação redentora, mas derrapa no vício de contar a condenação do ser humano por um fato atípico e sua vitimização em excesso, embora consiga fugir com algum mérito das lágrimas fáceis que partem corações, mas não evita a compaixão desmedida. Neste aspecto e num cenário similar, Laís Bodanzky foi soberba em Bicho de Sete Cabeças (2001), ao mergulhar seus personagens no inferno do hospício e criticar o sistema do modus operandi que existia na época, como os choques elétricos e clima de tensão e horror ali existente; ou no extraordinário e premiado O Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman, com Jack Nicholson; ou ainda em Garota, Interrompida (1999), de James Mangold, com Winona Ryder. Carolina busca a piedade e envereda pelo lado bonzinho dos personagens, sem estruturá-los psicologicamente de maneira convincente, com um humanismo adequado sem extrapolar, para explorar os erros e acertos e suas fraquezas e vicissitudes. Peca pelo maneirismo e pela fuga de uma abordagem mais profunda da complexidade reflexiva.

O grande acerto do drama que merece um registro à parte é Deborah Secco, magérrima ao emagrecer 11 quilos, sem glamour, cabelos picotados e sem viço, carrega o filme com competência e talento ao lado novato e eficiente Zappa. A atriz revela mais uma vez seu carisma e domínio cênico, como já fizera em Bruna Surfistinha (2011), de Marcus Baldini, na qual foi maravilhosa fazendo aquela menina meiga, dócil, ingênua, com cara de santa do pau-oco, mas ao mesmo tempo tinha um tempero feminino especial de uma conquistadora singular. Boa Sorte tem um desfecho ortodoxo e de certo modo previsível, mas o filme se não é elogiável, decepciona em parte para os mais exigentes, porque cinema é mais que simplórios alertas e conselhos fugazes, deixando uma lacuna no vazio existencial, para um epílogo que beira o autoajuda, com a presença recorrente do amor reabilitatório do recomeço pelo fim sombrio.