terça-feira, 29 de maio de 2012

Girimunho















Viúvas do Sertão

Helvécio Marins Jr. e Clarissa Campolina são dois diretores mineiros promissores desta nova geração de talentos que surge no cinema brasileiro. Num momento em que despontam como renovação, pois o que falta é espaço para os neófitos que ficam oprimidos e com um vazio no cenário nacional, aparecendo quase sempre as mesmas figurinhas marcadas, deixando pouco espaço para os novos mostrarem suas obras.

O belo drama Girimunho tem uma dinâmica documental e é um exemplo que está aí, ao mostrar toda sua beleza e criatividade destes dois competentes cineastas brasileiros estreantes que estão dando vazão de suas qualidades, embora esteja passando somente na Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre. Houve apresentações nos festivais de Toronto, Nantes, Veneza, Nova Iorque, San Sebastian, Havana e Roterdã, bem que poderia ter mais salas disponíveis, com menos blockbusters que infestam e ocupam lugares de filmes qualificados.

O longa conta a história das duas amigas viúvas octagenárias que reinterpretam seus cotidianos. Bastu é uma figura carismática, espontânea pelo seu brilho próprio e por ter facilidade comunicativa faz o tempo voar; já Maria do Boi simboliza a alegria de seu povo tocando o tambor numa batucada de sons que não podem ser esquecidos pelos mais jovens. As duas mulheres singelas vivem na longínqua cidade de São Romão, no Sertão de Minas Gerais. Elas mostram suas vidas e ensinamentos numa linguagem bem peculiar, necessitando corretamente de legendas para não se perder nada dos diálogos.

Bastu é a condutora da película e fala do marido que perdeu tomando cachaça, mas não chora na despedida para a eternidade. Surpreende um dos netos, mas afirma enfática ter sido a pedido do próprio avô. É uma pessoa com muita sabedoria de vida e coloca para a neta “o tempero é a alma da comida e a calma é o mais importante”. Vai desfiando seu rosário de conhecimentos que a idade lhe ensinou, tendo a cena reveladora de toda sua magnitude como pessoa forte e emblemática, aquela do epílogo, ao falar de sua relação com os peixes dourados no rio e sua luz que ilumina, numa metáfora de vida a ser seguida, sem ser professoral, filosofa com ternura pela dócil boca a simbólica frase “a gente não sabe se é velho ou se é novo; a gente vive”.

Recentemente foi visto por poucos espectadores o grandiloquente documentário Terra Deu, Terra Come (2010), do surpreendente diretor mineiro Rodrigo Siqueira, embasado na obra maravilhosa do festejado Guimarães Rosa, fez uma verdadeira visita ao universo e ao reino da terra tão cultuada pelo escritor, com alusões ao rico e mitológico universo do autor de Grande Sertão: Veredas, criando uma autêntica obra autoral, deslumbrando com sua linguagem típica regional. Tão eloquente pela contundência narrativa é Girimunho, realizado com poesia e ardor, com interpretações valiosas e um elenco amador, mas pungente e humano, diante de um brilho sensorial poucas vezes visto.

O filme é marcante em seu todo, mas não pode ser esquecida a cena de Bastu descendo o Rio São Francisco, com uma comunicação instantânea com o público, decorrente da esplendorosa fotografia captada dos lindos lugares de um cenário mágico corroborado pelo desapego daquela criatura idosa e reflexiva, que aprende a olhar o horizonte e banhar-se no rio. Assim como fica pela madrugada sentada na frente de sua deliciosa casinha modesta, limpa e bem cuidada. Tem amor e muita voracidade em viver a cada instante, cada momento, não lhe escapando nenhum detalhe, numa verdadeira aula do sentido da vida. O drama não tem emoções gratuitas, mas apenas deixa desfilar os prazeres de uma vivência simples com as duas netas sequiosas no aprendizado, retribuindo-lhe o afeto na mesma proporção de doçura.

O longa é uma abordagem magnífica entre o real e a ficção nas aparições do fantasma do marido morto e o folclore típico regional, como a decisão insólita e definitiva de colocar as roupas remanescentes do defunto num local bem longe da residência, para evitar a presença material e espiritual de quem não mais pertence ao mundo dos vivos. Girimunho enriquece as tradições, as lendas, os cânticos e versos regionais e folclóricos, especialmente realizados sobre pessoas humildes e pobres, mas ricas de conteúdo e experiências de vidas longas. Uma construção literária soberba, ao melhor estilo de Guimarães Rosa, mas que no cinema fascina e dá luzes para novos redemoinhos, na tradução popular do título a obra, conduzido primorosamente pela dupla de diretores, com um jeito novo de filmar inovam, saindo da mesmice dos demais.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

As Neves do Kilimanjaro



Solidariedade com Fé

O diretor Robert Guédiguian já realizou obras diversas e temas pungentes ou doces. Foi otimista em Marius e Jeannete (1997); um tanto pessimista como em A Cidade Está Tranquila (2000); terno e sensual em Marie Jo e Seus Dois Amores (2002); ou ainda apresentando com ternura a biografia de François Mitterrand atormentado pela doença terminal, com algumas lições sobre política, história, amor e literatura do ex-presidente em O Último Mitterrand (2004). Seus filmes são basicamente com o mesmo elenco que está com ele há mais de 30 anos na sua cidade natal, a portuária Marselha, onde sua mulher Ariane Ascaride, os atores Jean-Pierre Daroussin- foi o sensível comissário em O Porto (2011), de Aki Karismäki-, e Gerard Meylan formam um elenco com vínculos.

Nesta sua última produção de 2011, As Neves do Kilimanjaro, está baseada numa adaptação livre do poema Os Pobres, de Victor Hugo, não confundir com o conto clássico de Ernest Hemingway. O drama é aparentemente modesto com traços de ingenuidade e um sentimentalismo quase que piegas, mas o cineasta vai se livrando com alguma maturidade das armadilhas do roteiro que levam para pessoas bondosas e desprovidas de maiores voos e ambições pessoais, surgem a todo o momento desprendidas, mas vão acomodando os problemas e os percalços da vida e suas surpresas de última hora, beirando quase ao simplório.

A trama está centrada no líder sindical portuário Michel (o magnífico Daroussin) sendo demitido num sorteio, aonde vem a perder o emprego, pois alguém teria que sair, e apesar de sua estabilidade, colocou seu nome no rol dos concorrentes e acabou “contemplado”. Diante de uma aposentadoria compulsória, teve o apoio irrestrito da mulher Marie-Claire (a irrepreensível Ascaide) com sua generosidade, trabalha para ajudar na composição da renda da família. Vivem rodeados dos filhos e netos e são premiados na bonita cerimônia de aniversário de casamento no sindicato com uma viagem para o monte Kilimanjaro, na África, além de uma significativa soma em dinheiro. A festa foi organizada pelo melhor amigo Raoul (Meylan), regada a vinho rosé, mas a frustração vem logo, ao ser roubado por um ex-colega de trabalho também demitido, sob a canhestra alegação de pagar as contas atrasadas e ter recursos para criar os dois irmãos menores abandonados pelos pais.

Guédiguian busca no abandono familiar de uma mãe tresloucada e de um pai totalmente omisso dar o tom no longa, com os problemas sociais do desemprego de uma França enfraquecida pelos desmandos de uma burguesia ultrapassada, ajudada por uma esquerda que perde o horizonte crítico por suas idiossincrasias, sofre seriamente com a crise europeia. A cena do reencontro ente vítima e réu revela os dissabores do agressor e sua mágoa remanescente com a condução do sindicato sem ética, que usa meios discutíveis para atingir fins nebulosos e contraditórios de um discurso de igualdade, afastado de uma política salarial condizente e sem acautelamentos nas demissões sumárias. Fica latente a acusação burguesa a Michel, que recebeu euros para ver animais na África e com a bela alegoria aos franceses tomando banho no mar e as ácidas comparações.

Discussões à parte da conduta sindical, o cineasta traz à baila o problema do microcosmo familiar sendo questionado como o abandono de crianças, surgindo neste ínterim a figura fraterna de Marie-Claire com seu bom coração para afagar os desamparados, numa atividade que deveria ser de uma assistente social do governo, tendo a anuência explícita do marido. É um filme interessante pelos questionamentos e a exposição de feridas abertas longe da cicatrização, que remete para uma reflexão imparcial, embora o filme peque estruturalmente na profundidade, um tanto quanto rasa e sem um grande debate.

Elogiável o ótimo elenco, uma trilha sonora adequada por ser correta e sem interferir nos diálogos. Ainda assim o drama não deslancha e a temática fraqueja por alguns excessos de bom-mocismo e uma altivez desproporcional, diante de um discurso quase que religioso de um futuro do mundo com muita fé e sem pessoas más, desnecessário e inconsequente para um realizador de um retrospecto de credibilidade, mas que não chega a liquidar com a obra, embora tenha andado perto.

terça-feira, 15 de maio de 2012

As Praias de Agnès



















Um Autorretrato

A diretora Agnès Varda promete que As Praias de Agnès é seu último filme, ganhador do prêmio César de melhor documentário. Dificilmente são encontradas ou exibidas suas obras no circuito comercial brasileiro. Este é o segundo longa-metragem autobiográfico e realizado como um documentário obteve um resultado fabuloso, numa narrativa sensível e poética que passeia pelas praias que de certa forma marcaram sua existência entre prós e contras, alegrias e dissabores, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar a vida. Além de lançar um olhar breve de lembranças do passado, não deixa de mostrar seu presente e a alegria de dizer “estou viva, e eu me lembro” e na mais bela frase do filme que resume seu amor imensurável pela sétima arte, assevera “o cinema é minha casa”.

A trajetória do documentário começa com sua infância ao lado dos pais na Bélgica, lembra da falta da figura paterna que lhe faz quando morre o pai num cassino, após perder uma boa quantia em dinheiro. Logo vem o período de uma expressiva fotógrafa e da artista plástica; o engajamento na causa feminista, diante dos estupros e submissões frequentes das mulheres; há as belas viagens que lhe foram dando bons subsídios para sua imaginativa criação de filmes que marcaram sua carreira prodigiosa.

Não deixa de prestar um belo tributo ao seu marido morto de Aids, em outubro de 1990, o magistral Jacques Demy, autor de obras como Lola, A Flor Proibida (1961), Os Guarda-Chuvas do Amor (1964) com a beleza rara e já estonteante de Catherine Deneuve e Duas Garotas Românticas (1967). Demy foi seu grande e único amor e quando fala dele embarga a voz, bem como ao prestar a homenagem com pétalas de flores e afirmar que é a pessoa que mais lhe faz falta na convivência diária, numa cena comovente. Menciona sua participação junto com o marido no movimento Nouvelle Vague, ao lado de Jean Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais.

A cineasta define seu filme como autobiográfico documental e enfatiza “se você abrir uma pessoa irá achar paisagens; se me abrir, irá achar praias”. Faz uma revisita em sua própria história com entrevistas de personagens como Philippe Noiret, Gérard Depardieu e Michel Piccoli de seus grandes filmes que ficaram mais velhos como Cleo das 5 às 7 (1962), As Duas Faces da Felicidade (1965), Teto sem Lei (1985) e Os Catadores e Eu (2000). Também emociona com as aparições de Jane Birkin e o marido Serge Gainsbourg, entre tantas celebridades que desfilam seus rostos no painel do tempo da diretora e colocados novamente na tela neste mosaico do passado, onde aparecem intercalados com seus gatinhos de estimação. Sempre bem acompanhados de belas fotografias, reportagens e trechos fragmentados de filmes de sua autoria ou de Demy. Ou ainda a alegoria em que ela monta um teatro circense à beira-mar e faz alusão a figura de Jonas na barriga da baleia.

Um verdadeiro passeio pela história do cinema e seu fascínio, com um a aula acoplada para os apreciadores devotados, sob a batuta de Varda que completara 80 anos ao realizar este documentário instigante. Há a linda cena da homenagem dos atores e da equipe técnica como uma reverência carinhosa e digna da “baixinha fofa” que mantém a alegria de viver como uma jovem serelepe e altaneira, estando agora com 83 anos. Está sempre atenta ao mundo e suas modificações e inovações, nem parece aquela garota que viu bombas explodirem da 2ª. Guerra Mundial, ao deixar Bruxelas sua terra natal e ir para a França buscar agasalho; presenciou crianças judias serem levadas para os campos de extermínio, além de outras adversidades como a prematura morte do marido. Mas ao filmar os dois filhos com os netos, genro e nora todos de branco e a cineasta de preto, está implícita a fantasia decorrente da beleza de uma paz interior de seu espírito criativo e leve, sem mágoas ou ressentimentos do passado da mãe e avó afetuosa.

O grande amor pelas praias demonstrado à exaustão neste brilhante As Praias de Agnès, a reverência à família e, em especial, ao inesquecível companheiro Demy com uma vida dedicada exclusivamente ao cinema são elementos de amor e paixão pela vida e pelo que faz, que se fundem como uma simbiose, neste ensaio em forma de apresentação dos resultados dos trabalhos realizados em torno de um tema, que desfila como recordações mostradas como um autorretrato de uma artista realizada com o que faz e que não pode parar, pois tem muito ainda para dar. Um filme notável sobre a essência da vida, seus ensinamentos reflexivos e emoções existenciais.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Vida dos Peixes

















Buscas do Passado

O Chile vem fazendo bons filmes e se destacando no cenário internacional, sendo A Culpa é do Fidel (2006), de Julie Gavras, seu melhor cartão postal e referência nacional, bem como o magnífico Machuca (2004), de Andrés Wood. Tem ainda dos últimos anos boas realizações, tais como: Na Cama (2005), de Matías Bize; Tony Manero (2008), de Pablo Larraín; Ilusões Óticas (2009), de Cristián Jiménez; A Criada (2009), de Sebastián Silva; Nostalgia da Luz (2010), de Patricio Guzmán; Os Mistérios de Lisboa (2010), de Raoul Ruiz, morto recentemente e Dawson- Ilha 10, de Miguel Littin, que dirigiu um dos maiores filmes de seu país El Chacal de Nahueltoro (1969), abordando o assassinato de uma mulher e seus cinco filhos por um alcoólatra incivilizado e analfabeto. É um cinema com propósitos de uma indústria claramente voltada para a arte na essência. Segue de perto as produções do Uruguai e da Argentina, embora tenha muito que aprender ainda com os argentinos, este sem dúvida o melhor da América do Sul e um dos melhores do mundo.

A Vida dos Peixes é uma produção chilena em coprodução com a França, tendo na direção Matías Bize em seu quarto longa e Na Cama é o mais conhecido no Brasil. Esta sua última realização é de 2010 e recebeu o prêmio Goya de melhor filme hispano-americano e foi o escolhido para representar o Chile no Oscar de 2011 como melhor filme estrangeiro, mas conquistado pelo o argentino O Segredo de Seus Olhos (2009), de Juan José Campanella. Foi o terceiro filme chileno que obteve o Goya, depois de La Frontera (1991), de Ricardo Larraín e A Boa-Vida (2009), de Andrés Wood.

A trama é uma volta às origens com as reminiscências de um passado de 10 anos, quando o jornalista Andrés (Santiago Cabrera) foi embora para Berlim trabalhar numa revista de turismo, decide retornar ao Chile uma década depois, a convite de um amigo para ir numa festa de aniversário, mas lá encontra Beatriz (Blanca Lewin), seu grande amor do passado que terminou mal resolvido e o faz confrontar e reavaliar sua vida, além de algumas pendências que ficaram pouco esclarecidas. Na festa do antigo amigo sente que tem pouco em comum com o mundo que deixou para trás e o reencontro com colegas de infância é gélido.

O mote principal do drama é o reencontro com a ex-amada, embora os amigos sejam secundários, muitas circunstancias voltam a aflorar e as recordações vão desfilando na sua mente. Andrés circula no ambiente aparentemente festivo como se fosse um fantasma entre seres vivos intergaláticos, dentro de um silêncio sinistro e pessimista de um futuro incerto. As pessoas o encontram casualmente e as velhas amizades vão ao encontro daquela criatura angustiada e dolorida, que volta a seu país depois de uma turbulência política implícita superada.

A paz parece reinar entre os convivas animados, menos para Andrés, um legítimo peixe fora d’água, na sua busca de soluções para aparar arestas deixadas pendentes. Uma delas é a cena reveladora do encontro com a mãe do amigo Francisco que se suicidou, já antecipado pela garota alcoolizada que faz questão em gizar sobre a repercussão do fato e da presença de Andrés no dia trágico. A genitora da vítima, ao falar das coisas do quarto que permanecem impecavelmente arrumadas parecem lhe esperar do retorno, não esconde a mágoa da perda dentro de um sorriso mordaz e irônico, como se o questionasse e o incriminasse por ter sido supostamente ausente e omisso. Já o irmão de Francisco é menos viril e o deixa à vontade para relembrar os bons tempos que não voltam mais ou escapam por uma culpa involuntária de desejos e atitudes tomadas sem emoções, transparecendo o racional na escolha.

Deve ser ressaltada a cena final comovente com a dignificante interpretação da atriz Blanca Lewin como a namorada descartada, refletindo as dores e insatisfações de seu presente infeliz, demonstrando com sutileza e sensibilidade num bem elaborado longo plano-sequência toda sua derrocada, atingindo no âmago daquela criatura que busca a reconciliação, embora haja toda uma complexidade para ser superada. Deixar o final em aberto sugere uma direção segura de Bize, tendo na trilha sonora funcionando como um verdadeiro espasmo de um clímax melancólico, onde a bonita fotografia está adequada num cenário de uma luz como se fosse um lusco-fusco em harmonia.

Eis um belo filme sobre as tragédias pessoais traídas pelo destino ou impulsionadas por um momento em suas vidas, onde as decisões manifestam equívocos apressados, mas a angústia e a dor marcam com contundência. Enquanto isto os peixes flutuam no aquário numa demonstração alegórica de suas vidas tranquilas, pois nadam e não chegam a lugar nenhum e o protagonista tenta resgatar a essência da vida nas reflexões e emoções das lembranças conflitadas.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sete Dias com Marilyn

























Sedução e Carisma

O pequeno drama documental dirigido por Simon Curtis tem como mote o romance relâmpago de uma semana, entre a grande diva do cinema mundial Marilyn Monroe (1926-1962) com o terceiro assistente de direção, baseado no livro de memórias Minha Semana com Marilyn, do documentarista inglês e agora protagonista principal Colin Clark (1932-2002), na interpretação de Eddie Redmayne apenas convincente como um galã pálido. Já Michelle Williams encarnou a loiraça, tendo engordado 7 kg para ficar mais voluptuosa, amarrou cintos nos joelhos para andar como a personagem, ainda assim a atuação foi sem brilho e raro glamour, deu para o gasto.

O affair aconteceu durante as filmagens do longa em 1956, em Londres, O Príncipe Encantado lançado em 1957, no auge da carreia da loira vulcânica mais carismática e sensual que o cinema já conheceu, originariamente ruiva, mas logo foi platinada, tendo estraçalhado corações por onde passou, com seus 53 kg e 1,66cm, bem curvilínea e cheinha, nada magra, embora bem abaixo em beleza e talento das estrelas contemporâneas hollywoodianas Ava Gardner, Grace Kelly, Audrey Hepburn, ou a inesquecível atriz exótica de olhos violetas Elizabeth Taylor, somente para citar algumas.

Não chega a ser um filme dentro do outro, pois o diretor deixa bem claro nas gravações de O Príncipe Encantado estar dentro do longa Sete Dias com Marilyn, com a atuação e direção do monstro sagrado sir Laurence Olivier (Kenneth Branagh), tendo ainda a presença magnífica da personagem coadjuvante Sybil Thorndike, interpretada pela fabulosa Judi Dench, sempre uma atração à parte. De imediato se percebe Marilyn sufocada por um exército de pessoas, não faltando bajuladores, seguranças, secretários, motorista particular, todos lhe cercando e não a deixando praticamente respirar com liberdade. Há ainda os dissabores das brigas com o seu terceiro marido, o escritor e dramaturgo Arthur Miller (Dougray Scott), que também se queixa da falta de espaço para sua criação literária, devido à fama e os paparicos despendidos para a mulher mais famosa do planeta na década de 50.

No drama se vê Marilyn no seu lado fraco, doce e sensível, ao se aproximar de Colin, um ilustre desconhecido, derramando-se como uma mulher carente e afetuosa, embora um vulcão adormecido pronto para a erupção junto aos homens que parecem temê-la ou assustarem-se com a catarse de sensualidade oriunda da grande estrela. Não deixa de ser uma criatura com problemas existenciais de uma solidão de afeto, tanto é que usa frequentemente calmantes para dormir, chega a perder as gravações por estar dormindo em excesso, mostrando em algumas cenas um estado precário de uma moribunda, derivado da doença da alma e do espírito enfraquecido pela perturbação que lhe assola, embora esteja sempre cercada de muitas pessoas, que a procuram para pedir autógrafos e tocar no mito americano que faz furor em Hollywood.

O longa tem no personagem Colin o protetor e amante platônico da deusa do cinema, numa tensa relação de trabalho com a produção, logo após os problemas da grande atriz, quando começa a esquecer os diálogos de seu papel, deixando de comparecer em algumas gravações e os ensaios ficam em segundo plano para aquela mulher estonteante de uma fleuma arrasadora, mostra-se debilitada e fragilizada, marcas constantes de sua trajetória, deixando transparecer um afeto infantil de uma infância dolorida, como na cena em que vai ao museu e se depara com uma boneca, surgem as lembranças do passado e do presente da mãe, que em seguida foi internada num hospício. Os pequenos conselhos nos diálogos com Colin sobre a estrutura familiar são comoventes, sem ser piegas ou babacas, mas não são colocados com eloquência pelo diretor, que tem suas limitações, embora conduza com galhardia dentro de um roteiro enxuto, num cenário deslumbrante de jardins e castelos da corte inglesa, quando se completa 50 anos da morte da sempre lembrada e imitada loira errática.

Sete Dias com Marilyn não é um filme superior, mas não decepciona em quase nada, a não ser a performance da atriz principal que fica devendo em muito ao interpretar a mitológica Marilyn Monroe com seus encantos artísticos e sexuais fascinantes de uma era embevecida pela diva. Curtis criou um romance efêmero como um belo conto de fadas, tendo apresentado bastante sensibilidade e sutilezas, alcançando um resultado final bom, deixando como reflexão a solidão estampada dos grandes ídolos, abordando as carências afetivas que os tornam pessoas de carne e osso.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Porto

















Imigrantes Marginalizados

O cineasta finlandês Aki Kaurismäki ambienta sua trama na cidade portuária Le Havre, na gris e sorumbática região da Normandia, na França, bem longe da glamourosa Paris com seus cafés, bistrôs e o romantismo da Cidade Luz ou do litoral ensolarado de belas praias. O filme retrata a solidariedade e a amizade aos imigrantes que desembarcam clandestinamente na França, vindos como animais em contêineres e jogados em solo perigoso, abordados de maneira magnífica no excelente O Porto, ganhador do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 2011.

O longa retrata o boêmio e escritor aposentado Marcel (André Wilms) que engraxa sapatos e mora com a mulher Arletty (Kati Outimen), uma estrangeira regularizada vinda da Escandinávia, que guarda suas economias numa caixinha. O casal mora numa modesta casa e frequenta restaurantes baratos, tendo na companhia o amigo vietnamita com seus documentos falsos comprados no mercado paralelo, diante da burocracia e da xenofobia estampada inerentes para os imigrantes em regularizarem suas vidas. Marcel abandonou a ambição literária para residir naquela cidade portuária com dificuldades para os forasteiros que não conseguem se estabelecer legalmente. Há uma frieza nas relações com a polícia que parece estar sempre na caça daqueles evadidos de seus países e em estado de desamparo na busca da liberdade de dias mais promissores, exceto a parceria oculta do sensível comissário.

A vida do engraxate muda bruscamente com a chegada do garoto africano Idrissa (Blondin Miguel), que tenta ir para a Inglaterra em busca da mãe, após a morte do pai. Há uma semelhança incrível com o longa-metragem Bem-Vindo (2009), de Philippe Lioret, focando a política das imigrações, através de um garoto curdo refugiado da guerra do Iraque, na tentativa incessante de ver a namorada na Inglaterra, tendo se estabelecido temporária e ilegalmente em Calais, na França. Recebe ajuda do professor de natação que o treina secretamente e logo mantém um estreito relacionamento de amizade, embora confundido por vizinhos e pela própria polícia francesa de imigração, como um "relacionamento especial”. Lioret tem um olhar de fidelidade com a dolorosa saga dos imigrantes com todo o tipo de intolerância e preconceito, não podendo sequer tomar um banho diariamente por serem ilegais, vivendo em albergues de péssimas condições humanas, como se fossem prisioneiros da pior espécie. Comem e dormem muito mal, sofrendo a ojeriza de uma casta que lhes viram as costas, fruto da xenofobia racial.

Kaurismäki coloca a relação de Marcel com Arletty sendo invadida pelo garoto africano, que acaba suprindo a falta da esposa gravemente enferma e internada, em parceria com a cadelinha Laika, nos momentos difíceis da vida de Marcel, restando a ternura de Idrissa pelas lentes do cineasta, que lança um olhar de misericórdia e esperança, sendo mais otimista que Claire Denis no instigante longa Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Caché (2003), de Michael Haneke; sem esquecer de O Visitante (2006), de Tom McCarthy, sobre a situação dos imigrantes ilegais, também se questionava a política xenofóbica aplicada institucionalmente nos EUA, derivando daí o ódio entre as raças.

Os filmes que abordam o polêmico tema da imigração, portanto, são vários, como elencados acima, mas em O Porto, Kaurismäki sustenta o drama no escritor desiludido da raça humana, pois ele também é constantemente enxotado de suas tarefas atuais de engraxar sapatos na frente de estabelecimentos comerciais pelos seus responsáveis, embora seu trabalho seja sério, honesto e humilde. O que lhe dá força moral também é o carinho de uma mulher da vizinhança, que não dispensa a cooperação e o agasalho ao menino fugitivo, sempre que solicitada.

O drama tem um ambiente carregado de certa forma, até porque a cidade está na divisa com a Inglaterra, servindo de rota de passagem por barqueiros que cobram valores escorchantes para o translado dos imigrantes sem visto, logo se percebe a rede solidária clandestina para ajudar o africano, numa alegoria da vida em risco e a falta de uma política de governo para atender os refugiados da ex-colônias africanas da França, que buscam atravessar o Mediterrâneo na esperança de viver com dignidade. Ou seja, ficar bem longe dos campos de concentração espúrios mostrados, numa premissa otimista, mas sem deixar de apontar e refletir sobre a ausência de vontade, neste manifesto crítico de um libelo contra a intransigência dos povos ditos de primeiro mundo, ainda que tenha na mentira do seu personagem principal a forma ilícita para salvar a pele do garoto, protegendo-o da sanha irascível de uma política de imigração abominável que deve ser questionada à exaustão.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Xingu

















Os Lendários Villas Bôas

No ano passado o Parque Nacional do Xingu completou 50 anos, localizado no Centro-Oeste do Brasil, fundado em 14 de junho de 1961, através de Decreto-Lei do então presidente Jânio Quadros. É a maior reserva indígena com 27.000 quilômetros quadrados, do tamanho da Bélgica, criado graças ao trabalho dos irmãos Villas Boas: Cláudio (João Miguel), Leonardo (Caio Blat) e Orlando (Felipe Camargo), todos com menos de 30 anos, alistaram-se na Expedição Roncador-Xingu, que iria cumprir uma jornada pelo interior do Brasil, começando no sugestivo nome do Rio das Mortes. Logo os irmãos foram guindados ao comando da empreitada árdua, um desafio que começou em 1944 pelas matas brasileiras, numa defesa ferrenha dos índios e seus conflitos tribais e divergências com o homem branco, mas notório invasor dos territórios indígenas.

Aproveitando mote do cinquentenário aniversário do Parque, o diretor Cao Hamburger, o mesmo de O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006), rende uma bonita homenagem e conta a saga épica dos Villas Boas. O longa Xingu busca situar as dificuldades desta aventura juvenil no contexto nacional. Ou seja, quando tudo parecia estar resolvido amigavelmente em 1961, em pleno regime democrático, com a concessão das terras por decreto pelo intempestivo presidente renunciante, ao criar a reserva indígena tão desejada, houve o golpe militar em 1964.

O início dos problemas e dificuldades de assentamento dos povos tribais aflora com uma verdadeira rebelião de insatisfação entre o Centro-Oeste e a Amazônia, diante da construção da fatídica e mal planejada Ferrovia Transamazônica, com os conflitos protagonizados pelos homens brancos ditos civilizados, onde peões e jagunços estimulados pelo Exército num enfrentamento desproporcional com os índios defendidos ferozmente por Cláudio, Orlando e Leonardo que logo se evadiu da missão por um envolvimento com uma indiazinha, vindo a falecer após por um infarto fulminante.

O filme mostra as vicissitudes decorrentes do choque de civilizações entre o branco e o indígena, acarretando na epidemia da gripe que dizimou os nativos indefesos e não acostumados com a doença dos invasores, uma população enganada e ludibriada com promessas de territórios para se estabelecerem, mas não passando de um grande blefe, onde os irmãos resistentes também foram usados ingenuamente, caindo em armadilhas bem arquitetadas pelo Governo Militar instalado na época.

Um elogio que se faz necessário é para o ator João Miguel como o idealista Cláudio, sempre ótimo, assim como o fora em Cinema, Aspirinas e Urubus (2005), Mutum (2007) e Estômago (2007). Outra grande surpresa positiva foi para o desempenho impecável de Felipe Camargo encarnando Orlando, o mais intelectual e popular dos manos, bem mais comedido e demonstrando recursos pouco conhecidos do público, sendo o grande interlocutor dos índios em Brasília, na sua causa legítima e justa em defesa dos silvícolas.

Xingu é um filme que conta em tom documental, embora não seja um simples documentário, classificado como uma aventura épica, pelas conquistas e desbravamentos das matas virgens e inóspitas pelos Villas Boas, resgata as conquistas e dissabores desses bravos aventureiros que abriram pistas de pouso no meio da floresta, tendo o fim prematuro do irmão mais jovem. Não chega a atingir um clímax de dramaticidade esperado, diante do retrospecto exitoso de Hamburger.

O cineasta ficou mais nos relatos e dados estatísticos, afastando-se de um envolvimento mais profundo de um cinema de denúncia, pois sequer confronta ou refuta dados oriundos dos militares. Está bem abaixo do aguardado filme de um diretor que brilhou na sua obra anterior, mas que desta feita foi burocrático e não se expôs, deixando fluir belas imagens de uma fotografia esplendorosa, num resultado final apenas razoável e sem maiores revelações, contestações ou algo que pudesse ter uma consequência corrosiva. Ainda assim é louvável o tributo aos irmãos Villas Bôas pela trajetória truncada e estigmatizada pelos governantes divorciados das causas dos povos indígenas.

terça-feira, 10 de abril de 2012

Um Método Perigoso



Freud e Jung

O canadense David Cronenberg é um diretor dinâmico em sua trajetória cinematográfica. Realiza filmes de terror como A Mosca (1986), embora assustador, mas ao mesmo tempo extremamente cativante e romântico; mas nos ótimos dramas Marcas da Violência (2005) e Senhores do Crime (2007), busca um cinema voltado para a denúncia social, a corrupção e o medo como temas mais palatáveis, embora realizados com bastante crueza. Agora com Um Método Perigoso dá uma guinada para o drama psicológico, encenando de forma astuta e inteligente a discórdia do mestre austríaco e pai da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939) com o seu discípulo suíço Carl Jung (1875-1961), representados brilhantemente por Viggo Mortensen e Michael Fassbender, respectivamente em seus papéis.

O mote da trama é a relação pessoal conflitada profissionalmente dos dois maiores psiquiatras de todos os tempos, após o encontro inaugural de 13 horas de conversa, no dia 27 de fevereiro de 1907, colocadas de forma ficcional entre o jovem psicanalista Jung, que começa um tratamento inovador na histérica Sabina Spielrein (Keira Knigthley- considerada exagerada por alguns críticos, sua atuação é perfeita), ao chegar no sanatório de Zurique, em 1904. A paciente judia-russa é tratada com métodos de flagelo e demonstra gostar da humilhação, diante das revelações que sentia prazer em ser torturada pelo pai com castigos físicos violentos, como uma típica Electra satisfeita. Ela, uma futura médica na Rússia, senta-se de costas para Jung nas sessões rotineiras, acaba por ser o pivô do rompimento do discípulo com Freud, pois ao penetrar com mais afã nos mistérios da mente humana, vê suas teorias irem de encontro com as do mestre, sendo suas ideias rebatidas por serem contrastantes e chocando-se frontalmente com as do professor que coordenava o tratamento por cartas no início do século 20.

O longa mostra Freud rompendo a amizade e desistindo de levar adiante a intenção de fazer Jung seu sucessor, embora lhe doesse muito, também não aceita e critica o colega pelo seu envolvimento emocional e antiético num romance com a paciente. Os contratempos pelas divergências de postura e métodos de trabalho são fatores exponenciais para ficarem de lados opostos, inclusive com a insinuação intempestiva da simpatia pelo Nazismo por Jung, sem se aprofundar logo se esvai, pois se Sabina e Freud eram judeus, as razões e métodos aplicados para a terapia da psicanálise deturpada não se pode confundir com antissemitismo de Jung e seu pragmatismo dissidente contrário à defesa da sexualidade e da libido defendida pelo mestre como uma psicanálise da conversa frontal como diagnóstico sem abandonar a fala, embora afirmasse ironicamente que um paciente nunca teria a cura total.

Cronenberg entra no terreno da psicanálise e os métodos usados pelos dois monstros sagrados. Apresenta as teses defendidas e controvertidas com as descobertas das fronteiras da alma do ser humano com um requinte bem apropriado de um cineasta maduro e liberto das amarras da ficção pueril ou comercial para um grande público, principalmente envolvendo a repressão e a libertação como antagonismos de uma boa e isenta reflexão. Mostra os conhecimentos técnicos de uma abordagem serena num roteiro bem elaborado, numa síntese de um filme contundente e com um resultado acima da média de certas mediocridades que assolam e pululam o mercado cinematográfico.

Um Método Perigoso é um longa que retrata com fidelidade a relação do mestre e do discípulo que se tornaram inimigos por um choque de pensamentos divergentes, afastando o maniqueísmo e as soluções fáceis, sem tomar partido da causa, embora exagere na afirmação de que Jung fora o maior psicanalista, talvez por preferência pessoal, num excesso perdoável. Eis um filme que se aprofunda com dignidade e vai ao encontro das mazelas e perturbações psíquicas e neuróticas inerentes dos mortais e insatisfeitos seres humanos, neste excelente drama reflexivo da psicanálise e suas teorias divergentes de um cinema autoral.

terça-feira, 3 de abril de 2012

Heleno



















Ocaso de uma Estrela

O diretor José Henrique Fonseca, filho do escritor Rubem Fonseca, estreou em longa-metragem com O Homem do Ano (2003), participando do Festival de Berlim de 2003, recebeu o prêmio de melhor primeiro filme no Festival de São Francisco de 2003. Agora se consagra de forma definitiva ao atingir o ápice com esta cinebiografia realizada sobre o primeiro jogador-problema no futebol brasileiro Heleno de Freitas (1920-1959), que jogou e foi ídolo do Botafogo em quase toda sua trajetória, sem nunca ter obtido um título. Teve uma meteórica passagem pelo Boca Juniores da Argentina, sendo o primeiro atleta brasileiro a ser vendido para o Exterior. Nem chegou a esquentar o lugar no Vasco da Gama, embora fosse campeão, ainda assim foi mandado embora, finalizando sua carreira em 1948, de forma melancólica no América do Rio. Não foi convocado para a Copa do Mundo de 1950, no Brasil, pela iminente decadência; em 1946 teve muito azar com o cancelamento da Copa, em virtude da II Guerra Mundial. Fez 209 gols em 235 partidas.

O longa Heleno frustrará quem for buscar emoções e alegrias no futebol, mas brindará um público maior, aquele for assistir os prazeres e aa dores da ascensão e queda vertiginosa do craque polêmico e colérico. Mostra o perfil de um jogador arrogante, terror dos adversários e dos colegas pela falta de humildade e espírito coletivo. A cena em que ele dá a preleção antes da final do Campeonato Carioca é emblemática e reflete o deslumbramento pela fama, com palavras de desconforto para seus pares e seu egocentrismo aflora.

Os jornais da época, entre 1940 e 1950, logo o classificara de integrante do “Clube dos Cafajestes”, pois vivia dividido entre a esposa (Alinne Moraes) e a amante (Angie Cepeda) e batia nas companheiras. Levava uma vida de galã entre as mulheres pela sua compleição física avantajada, rosto bonito, era comparado com o bailarino Nijinsky pela sua elegância dentro de campo e fora das quatro linhas lembrava Rodolfo Valentino pelo charme irresistível. Chamado pela torcida do Fluminense de Gilda, personagem de Rita Haiworth, pelo temperamento intempestivo e a vaidade exacerbada. Bebia muito, fumava de maneira inveterada, adorava carros importados, usava ternos de tecido inglês feitos por alfaiate e era viciado em éter. Arrumava confusão com todo mundo, demonstrando ser uma pessoa temperamental com um acentuado desvio de conduta, mas contraditoriamente apreciava ópera e vibrava com os filmes de John Wayne.

O filme mostra em flashbacks os momentos bons e fulgurantes da carreira do craque, contado na primeira pessoa, pois Heleno de Freitas está louco no hospício consumido por sífilis, que o fez morrer abraçado com uma bola num canto do sanatório, segundo a lenda daquele que foi para muitos o “príncipe” do futebol brasileiro da era de ouro do Rio, que morreu aos 39 anos, mas com elipse proposital do diretor não é mostrada, nesta obra filmada num adequado preto e branco, embalado por uma trilha sonora harmônica, num roteiro enxuto e bem ajustada com o desenrolar da trama.

A narrativa tem a sensibilidade de mostrar os impulsos de uma grande estrela problemática, superando em muito atletas de pavio curto como Edmundo, Adriano e outros. Refutava peremptoriamente submeter-se a preparação física, treinos e concentração, odiando a mediocridade e tornando-se grosseiro neste aspecto, mas Fonseca aborda com elegância e bom humor os desatinos tresloucados, desfilando as derrotas acumuladas pelo despreparo emocional e psicológico, bem como a ausência do afeto e da estrutura familiar, embora fosse oriundo de uma classe mineira bem aquinhoada, pois chegou a se formar como advogado no Rio de Janeiro, num desejo da mãe. Seu irmão era o mais próximo a lhe dar apoio e a figura paterna nunca se fez presente num núcleo restrito de parentes distantes neste microcosmo.

O ator Rodrigo Santoro é um capítulo à parte, emagreceu 12 kgs para encarnar Heleno, fez aulas de futebol com o ex-jogador Cláudio Adão e de dança com Marcelo Misailidis, obtendo um resultado singular, possivelmente a maior atuação de sua carreira como ator, superando o jovem drogado de Bicho de Sete Cabeças (2001), arrasando no personagem charmoso que dizia aos seus companheiros para entrar em campo “com os olhos em brasa, a cabeça fervendo e a faca entre os dentes” e ainda de preferência “ouvir antes uma ópera” sustentava eufórico.

Eis um filme magnífico que mostra visceralmente o amor dos cariocas pelo futebol numa era pré- Bossa Nova e com todos os encantos do majestoso estádio do Maracanã inaugurado para a Copa de 50, sendo refletidos nos diálogos. O cineasta aborda e aprofunda o glamour do futebol contrastado pelos fracassos e sonhos desfeitos, diante das dificuldades e fraquezas do ser humano superável, mas que se imagina invencível, como temas universais e sem maniqueísmos nesta cinebiografia fabulosa de um mito esquecido pelo tempo e pelas gerações derrotadas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Shame

















Vício do Sexo

Steve McQueen é um diretor britânico e polêmico (não confundir com o ator de Papillon (1973) e Inferno da Torre (1974), morto em 1980), realizou o festejado e intenso Hunger (2008), seu primeiro longa-metragem sobre a solidão e a liberdade, com interpretação de Michael Fassbender no papel de um soldado guerrilheiro do IRA preso e em greve de fome na cadeia. Causou uma impressão alentadora em sua estreia.

Agora com Shame (vergonha seria a tradução literal), segundo longa do cineasta e vencedor do Prêmio da Crítica do Festival de Veneza, com o mesmo ator encarnando Brandon-interpretração pálida-, um nova-iorquino quase quarentão, bem-sucedido, residente na linda cobertura de Manhattan, não gosta de manter vínculos afetivos com as mulheres. Foge como o diabo da cruz. Vive para a prática sexual compulsiva de um amante sedento, que busca resolver seus problemas e frustrações praticando sexo como um vício incontrolável. Mas com a chegada da irmã Sissy (Carey Mullingan- boa atuação, esteve recentemente em Drive), uma jovem rebelde e repleta de problemas, complicada e com tendências suicidas, leva o irmão a perder a calma e o controle sobre sua vida privada e o mundo restrito e fechado que leva.

Sissy é vista como um fardo pesado e invasora do recanto para as necessidades patológicas de Brandon, pois o apartamento das compulsões por orgias e masturbações não é mais inviolável. As taras doentias estão sendo reprimidas e vão para os ambientes sórdidos das ruas e dos labirintos escuros, como alguns bares e restaurantes frequentados por pessoas esquisitas e de índole da pior espécie. A degradação humana se estabelece e parece ser bem-vinda no universo reprimido da vítima dos prazeres desconexos.

O diretor aborda a compulsão como uma doença do ser humano, tal qual uma outra qualquer, mas seu objetivo se esvai e perde-se na estética e nas longas cenas de plano-sequência, desnecessárias e cansativas, causando grande aborrecimento e bocejos nos espectadores como a maninha cantando New York, New York, de Frank Sinatra; ou o ménage à trois de Brandon nos cabarés; ou ainda as cenas no interior da estação do metrô, embora os flashbacks fossem recorrentes, pouco adiantou, tendo em vista que as elipses custaram para serem realizadas.

O pecado do filme é não mostrar o passado irmãos doentios, sabe-se apenas que vierem da Irlanda e nada mais. O vício de Brandon e sua mania por sexo remunerado para as prostitutas, sugerem que o amor e o envolvimento estão ausentes, como na cena com a bela negra, onde o rapaz sucumbe e fracassa sexualmente, após um clima romântico de uma relação com vínculos que se desenhava num horizonte obscuro. Sua tendência é pela banalidade pervertida, talvez um desvio de conduta, como se vê em seus acessos assíduos às redes de pornografia da internet.

Outro grande problema do longa é estar divorciado de uma proposta concreta e profunda sobre a doença que atingiu celebridades como o ator Michael Douglas; o ex-jogador da NBA Winston Bennett, que atuou entre 1989 e 1992 pelo Cleveland Cavaliers; e o mais famoso caso do jogador de golfe Tiger Woods. Liberdade e solidão estão bem presentes, mas dissociados do contexto da película, diante do aprofundamento extremamente raso sobre a reflexão que deveria ser melhor observada, faltando um olhar mais contundente e um passeio pelo interior das criaturas abandonadas.

Shame é um filme focado num cinema menor, com rodagem de cenas lembrando videoclipes de pornô, distanciado e descompromissado com as causas, deixando que os efeitos fluíssem soltos, sem empolgar ou cativar numa dramaticidade opaca, inclusive nas próprias cenas toscas de sexo explícito. Frio em tudo, desde as causas até as consequências, numa conclusão melancólica e chata neste esquecível ensaio sobre os viciados e doentes sexuais.