sexta-feira, 27 de abril de 2012

O Porto

















Imigrantes Marginalizados

O cineasta finlandês Aki Karismäki ambienta sua trama na cidade portuária Le Havre, na gris e sorumbática região da Normandia, na França, bem longe da glamourosa Paris com seus cafés, bistrôs e o romantismo da Cidade Luz ou do litoral ensolarado de belas praias. O filme retrata a solidariedade e a amizade aos imigrantes que desembarcam clandestinamente na França, vindos como animais em contêineres e jogados em solo perigoso, abordados de maneira magnífica no excelente O Porto, ganhador do Prêmio da Crítica no Festival de Cannes de 2011.

O longa retrata o boêmio e escritor aposentado Marcel (André Wilms) que engraxa sapatos e mora com a mulher Arletty (Kati Outimen), uma estrangeira regularizada vinda da Escandinávia, que guarda suas economias numa caixinha. O casal mora numa modesta casa e frequenta restaurantes baratos, tendo na companhia o amigo vietnamita com seus documentos falsos comprados no mercado paralelo, diante da burocracia e da xenofobia estampada inerentes para os imigrantes em regularizarem suas vidas. Marcel abandonou a ambição literária para residir naquela cidade portuária com dificuldades para os forasteiros que não conseguem se estabelecer legalmente. Há uma frieza nas relações com a polícia que parece estar sempre na caça daqueles evadidos de seus países e em estado de desamparo na busca da liberdade de dias mais promissores, exceto a parceria oculta do sensível comissário.

A vida do engraxate muda bruscamente com a chegada do garoto africano Idrissa (Blondin Miguel), que tenta ir para a Inglaterra em busca da mãe, após a morte do pai. Há uma semelhança incrível com o longa-metragem Bem-Vindo (2009), de Philippe Lioret, focando a política das imigrações, através de um garoto curdo refugiado da guerra do Iraque, na tentativa incessante de ver a namorada na Inglaterra, tendo se estabelecido temporária e ilegalmente em Calais, na França. Recebe ajuda do professor de natação que o treina secretamente e logo mantém um estreito relacionamento de amizade, embora confundido por vizinhos e pela própria polícia francesa de imigração, como um "relacionamento especial”. Lioret tem um olhar de fidelidade com a dolorosa saga dos imigrantes com todo o tipo de intolerância e preconceito, não podendo sequer tomar um banho diariamente por serem ilegais, vivendo em albergues de péssimas condições humanas, como se fossem prisioneiros da pior espécie. Comem e dormem muito mal, sofrendo a ojeriza de uma casta que lhes viram as costas, fruto da xenofobia racial.

Karismäki coloca a relação de Marcel com Arletty sendo invadida pelo garoto africano, que acaba suprindo a falta da esposa gravemente enferma e internada, em parceria com a cadelinha Laika, nos momentos difíceis da vida de Marcel, restando a ternura de Idrissa pelas lentes do cineasta, que lança um olhar de misericórdia e esperança, sendo mais otimista que Claire Denis no instigante longa Minha Terra, África (2009); ou do arrasador O Segredo do Grão (2007), do tunisiano Abdellatif Kechiche; ou ainda do contundente Caché (2003), de Michael Haneke; sem esquecer de O Visitante (2006), de Tom McCarthy, sobre a situação dos imigrantes ilegais, também se questionava a política xenofóbica aplicada institucionalmente nos EUA, derivando daí o ódio entre as raças.

Os filmes que abordam o polêmico tema da imigração, portanto, são vários, como elencados acima, mas em O Porto, Karismäki sustenta o drama no escritor desiludido da raça humana, pois ele também é constantemente enxotado de suas tarefas atuais de engraxar sapatos na frente de estabelecimentos comerciais pelos seus responsáveis, embora seu trabalho seja sério, honesto e humilde. O que lhe dá força moral também é o carinho de uma mulher da vizinhança, que não dispensa a cooperação e o agasalho ao menino fugitivo, sempre que solicitada.

O drama tem um ambiente carregado de certa forma, até porque a cidade está na divisa com a Inglaterra, servindo de rota de passagem por barqueiros que cobram valores escorchantes para o translado dos imigrantes sem visto, logo se percebe a rede solidária clandestina para ajudar o africano, numa alegoria da vida em risco e a falta de uma política de governo para atender os refugiados da ex-colônias africanas da França, que buscam atravessar o Mediterrâneo na esperança de viver com dignidade. Ou seja, ficar bem longe dos campos de concentração espúrios mostrados, numa premissa otimista, mas sem deixar de apontar e refletir sobre a ausência de vontade, neste manifesto crítico de um libelo contra a intransigência dos povos ditos de primeiro mundo, ainda que tenha na mentira do seu personagem principal a forma ilícita para salvar a pele do garoto, protegendo-o da sanha irascível de uma política de imigração abominável que deve ser questionada à exaustão.

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