terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Guerra Fria



Corações Destroçados

Pawel Pawlikowski é um diretor autoral que busca nos pequenos detalhes uma amostragem da essência cinematográfica. Um autêntico artesão da sétima arte. Nascido há 61 anos em Varsóvia, foi criado desde a infância na Inglaterra com a família, ao fugir do sólido regime comunista implantado em seu país. Ida (2013) foi o primeiro filme rodado em sua terra natal e falado na língua polonesa, com o qual ganhou aproximadamente 70 prêmios internacionais, entre eles os de melhor filme, roteiro, direção e fotografia no European Film Awards de 2014, além de arrebatar o Oscar de Melhor Filme de Língua Estrangeira, levando pela primeira vez a estatueta para a Polônia, nacionalidade dos já consagrados diretores Roman Polanski, Andrzej Wajda e Krzysztof Kieslowski. Antes filmara em inglês os longas Last Resort (2000) e Meu Amor de Verão (2004), também é dele Estranha Obsessão (2011) e o ainda inédito Limonov (2018).

Novamente o cineasta teve sua última obra, Guerra Fria, indicada ao Oscar para competir na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, diretor e fotografia, com ótimas chances de levar outra vez a estatueta; também teve boa acolhida no Festival de Cannes, em 2018, esta realização polonesa em coprodução com a França e o Reino Unido, ao ser laureado em melhor direção; arrebatou ainda o prêmio Goya de melhor filme europeu do ano passado. A trama é centrada durante o engajamento da Polônia stalinista que integrava com as repúblicas da Alemanha Oriental, da Tchecoslováquia, da Hungria, da Bulgária e da Romênia, a famosa Cortina de Ferro que separava a Europa Oriental da Europa Ocidental. Eram países que alicerçavam a divisão no leste europeu, sustentados pela então enérgica União Soviética, hoje já dissolvida, que tinha o estrito controle político e econômico. As diferenças de um casal pelas contradições são expostas durante o desenrolar do enredo, entre um mundo ultrapassado e a renovação da esperança futura. Não é uma reconstrução do romantismo tradicional, mas de entraves políticos circunstanciais que se sucedem na vida dos dois, sob uma narrativa que foca na relação visceral dolorosa entrecortada por silêncios e apresentações musicais decorrentes de uma solidão imensurável. Eles enfrentam o problema com maturidade e seus olhares acusam o sofrimento profundo e dilacerante, agasalhados pelo grande amor de sentimentos com ternura, doçura e conformismo.

O arrebatador longa-metragem é baseado em traços biográficos de fatos reais ocorridos com familiares do cineasta, inspirado na saga de seus pais que viveram 40 anos de idas e vindas de encontros e desencontros, teve emprestado seus nomes aos personagens principais da trama. Ambos faleceram em 1989, antes da queda do Muro de Berlim. A história começa em Varsóvia, em 1949, logo após o fim da II Guerra Mundial, e se estende até 1964, por quinze anos no qual Wiktor (Tomasz Kot), um músico experiente que é maestro e pianista, com seus segredos íntimos, amante da liberdade e defensor das prerrogativas do direito de ir e vir, diretor da companhia estatal Mazurka de dança e música folclórica dos camponeses da Polônia. Neste ínterim, ele conhece Zula (Joanna Kulig), uma jovem talentosa cantora extrovertida e acusada de matar o pai, com suas façanhas e de um temperamento completamente diferente do músico. O casal reprimido quer viver, amar e respirar novos ares, embora a relação e o vínculo afetivo sejam ingredientes agridoces de um amor improvável pelas construções sociopolíticas da impossibilidade do contexto da Guerra Fria do país deles.

Pawlikowski acentua com sutileza e sensibilidade a tristeza e a pouca felicidade, em cenas inesquecíveis como da protagonista dançando rock num clube, depois de seu retorno de Palermo, quando se casou com um italiano para adquirir a dupla cidadania, para reencontrar Wiktor, que havia se refugiado em Paris. Ainda que o pianista também tivesse um affair com uma compositora de quem ele gravava algumas trilhas para o cinema, eles entram em conflito outra vez. Zula quer retornar para Varsóvia, pois não se adaptara ao lado ocidental, mas o companheiro respira liberdade e é contrário ao regresso. Os diálogos são curtos em tom direto, no enxuto roteiro em parceria de Janusz Glowacki com o próprio diretor, com cortes certeiros em elipses apropriadas. Lukasz Zal é o responsável pela fascinante fotografia em preto e branco- também usou deste recurso em Ida- que explora o contraste com tons acinzentados, e pelas lentes são mostrados rostos e olhares de perplexidades mesclados de surpresa e indignação da angustiante política adotada pelo país dos personagens, na qual é retratada nos pequenos espaços, através da resolução de um formato quadrado de 4:3, ao estilo dos filmes antigos dos cinemas até os anos de 1950, fechando a imagem num formato adequado e angustiante da melancolia repassada. Embora o cenário seja, por muitas vezes, a efervescente, cultural e boêmia Cidade Luz dos anos de 1950. Ou ainda, quando o realizador foca na turnê da companhia de danças pela Alemanha Oriental (Berlim) e Iugoslávia, entre alguns dos países colaboradores dos soviéticos, entoando canções de propaganda de cunho do regime autoritário.

Entre pequenos gestos de carinho, há os encontros forjados pelo medo da represália das autoridades comunistas, demonstrando o imenso afeto e a união entre eles, tornando o vínculo forte e verossímil num relacionamento sem obviedades e com enorme força interior daqueles seres humanos vitimizados pelos horrores da brutalidade política antidemocrática que despedaça seus corações fragilizados. Guerra Fria é um drama intenso de um amor sublimado da grande paixão com os destroços remanescentes da amargura oriunda do coração e da alma aflorados de uma relação turbulenta de dois amantes de muita química, deixando que as imagens marcantes e os poucos diálogos exprimam os sentimentos do casal, numa obra simplesmente fabulosa e de uma reflexão profunda. Faz uma abordagem imparcial dos traumas da história ocorridos no século XX, através dos choques nefastos registrados por uma trajetória sem vencedores ou vencidos, através de uma realidade de embates pós-guerra pelos efeitos psicológicos e com lembranças de um passado repleto de fantasmas que impactam, com humanismo, melancolia e poesia bem representados no desfecho redentor.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Green Book - O Guia



Preconceito e Intolerância

Vencedor de três prêmios no Globo de Ouro: melhor filme de comédia, roteiro e ator coadjuvante (Mahershala Ali), Green Book- O Guia insere-se como um dos fortes candidatos ao Oscar deste ano, ao concorrer em cinco categorias; também venceu o Grande Festival de Toronto na indicação de melhor filme. A direção é do promissor norte-americano Peter Farrely, em seu longa-metragem de estreia solo, antes dirigiu em parceria com o irmão Bobby as comédias Debi & Lóide- Dois Idiotas em Apuros (1994), Quem Vai Ficar Com Mary (1998) e Eu, Eu Mesmo & Irene (2000). Conhecido por realizações anteriores menores, nas quais predominavam o riso fácil, sem um grande foco. Agora deixa de lado estas obras de pouca relevância para atingir um patamar mais elevado e consistente, com uma abordagem para uma crítica social agradável e leve num contexto bem explorado, sem deixar de ser enfático sobre o racismo e a hipocrisia da injustiça social no Sul dos EUA, através do enxuto roteiro escrito por Nick Vallelonga, Brian Hayes Currie e pelo próprio cineasta.

Eis uma comédia dramática baseada em uma história real, na qual o título faz referência a um livro que apontava os hotéis, pousadas, restaurantes e alguns locais que poderiam aceitar negros, em pleno ano de 1962. A trama retrata Tony Lip “Bocudo” (Viggo Mortensen- de atuação soberba), um homem branco, fanfarrão, o típico brucutu ítalo-americano que leva a vida com pequenos serviços em Nova Iorque. Precisa achar um trabalho, logo após a discoteca em que trabalhava como segurança ter as portas fechadas por culpa dele mesmo, tendo em vista ser uma pessoa violenta e que resolve tudo na base do soco na cara do freguês. Fica sabendo de uma vaga para motorista de um renomado músico, acaba conhecendo Don Shirley (Mahershala Ali- de impecável interpretação), um conceituado e virtuose pianista afrodescendente. A vaga parece cair do céu, pois o artista necessita fazer uma turnê numa região conflagrada pela segregação, no Sul do país, onde as diferenças étnicas ainda são fortemente marcadas pela violência com tintas remanescentes de um racismo ignóbil e persistente. As intolerâncias não são somente quanto à distinção de raças: branco e negro, mas também pela discriminação aos homossexuais e o rancor destilado aos assumidamente não heterossexuais.

O filme avança com sutileza e sensibilidade entre empregado e empregador. Enquanto os dois se chocam no início, um vínculo finalmente cresce à medida que eles viajam juntos e as diferenças injustas brotam por onde passam. É montado um painel distinto para contar uma história que apresenta os vilões nos grandes salões com tapetes vermelhos para uma grande festa, o anti-herói branco em defesa da vítima marginalizada pela cor e a opção sexual num contexto de pura hipocrisia. A realização é tangenciada por certa generosidade com toques de humor, embora em escala bem menor diante da ira latente que vai crescendo. O conservadorismo está presente nos sulistas norte-americanos e a intransigência é uma das apresentações hostis para quem ousa bater de frente ou contraditar aquelas ideias ali encravadas e pouco solidárias com o politicamente correto estabelecido por um expressivo contingente de uma realidade sombria para o desenvolvimento de uma pacificação. É a simbolização da pouca lucidez numa iminente desagregação que deixa rastros de ódio para resultados pouco convencionais na fragilidade da paz em confronto com a esperança de uma solução pragmática esfacelada pelo preconceito de uma sociedade deformada.

Farrely segue uma linha narrativa que lembra pelas semelhanças Conduzindo Miss Daisy (1989), de Bruce Beresford, em que havia a premissa sobre uma idosa branca conservadora que era obrigada a se adaptar a um motorista negro subordinado, mas de personalidade forte; ou ainda na badalada produção francesa Intocáveis (2011), de Eric Toledano e Olivier Nakache, sobre uma relação improvável de uma história real de uma inesperada amizade genuína, entre um milionário tetraplégico e um ex-assaltante, o imigrante do Senegal que busca seu reingresso social na França dos brancos, com um toque de humor cáustico na busca pela igualdade entre duas pessoas opostas social e intelectualmente. Green Book- O Guia tem a dinâmica invertida, porque agora é o artista afro famoso contratando um homem branco de origem italiana com o viés totalmente racista para trabalhar como seu empregado. A inovação está exatamente na troca de papéis, por ser fundamental para criar um clímax de horror e brutalidade, que torna a dramaticidade contextualizada e amplamente complexa na sua essência, inclusive para os familiares e amigos do motorista, todos avessos a tal circunstância, porém o desfecho será redentor e revelador com a chegada da comemoração do Natal.

Uma obra com amplitude maior pela sutileza, acima das banalidades que proliferam em filmes redundantes sobre a temática racial. Um road movie que aborda com eficácia as relações conturbadas e fragmentadas pela dura ruptura social que desencadeiam em episódios grotescos, violentos e perversos sobre a perda do controle como elementos opressores retratados de uma realidade cruel e selvagem, bem construída pelo realizador que escapa com imparcialidade dos maniqueísmos que rodeiam e poderiam aflorar para um epílogo reduzido da comédia. Ali fica estampado que não há heroísmo barato, mas uma tomada de consciência pela transformação que traz reflexos nas mudanças comportamentais de um ser humano boçal em mutação, em que o inesquecível personagem truculento e apaixonado pela esposa, mas sensível e romântico, às vezes forte e arrogante, em outras fragilizado como o macho alfa. Mas a dura realidade que presenciou o torna flexível para ter um olhar mais crítico sobre uma sociedade enferma pelos desdobramentos que transbordam da civilidade. São componentes de uma realização de humor sarcástico, intercalado com algum lirismo, embora haja o preconceito vil de um conservadorismo arcaico, para deixar registrada a reflexão da intolerância sexual e das crônicas questões de cunho racial e do ódio aplastante numa região inflamada pela estupidez.

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Assunto de Família



Amarga Felicidade

O Festival de Cannes do ano passado premiou com a Palma de Ouro o filme do Japão Assunto de Família, em uma abordagem aprofundada e sem restrições sobre o conceito propriamente dito do núcleo de uma família, com discussões ácidas e controversas de contornos de grande relevância sobre as regras e o formato que estruturam as relações sociais aceitas ou não pela convivência dolorosa do cotidiano. A definição tradicional deste eixo composto pelo pai e a mãe com seus filhos de sangue ou não na sociedade contemporânea está em pauta e o questionamento é lançado pelo olhar atento do festejado cineasta Hirokasu Kore-eda. O drama foi indicado entre os títulos pré-selecionados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que também concorreu no Globo de Ouro deste ano na mesma categoria, perdendo para o badalado mexicano Roma (2018), de Alfonso Cuarón. O realizador já havia concorrido, sem êxito, à Palma de Ouro em outras três vezes: Tão Distante (2001), Ninguém Pode Saber (2004), e Pais e Filhos (2013) que conquistou o Prêmio do Júri.

O diretor japonês tem uma vasta filmografia das crônicas ambientadas na classe média baixa de seu país, dando um mergulho no microcosmo familiar para contar histórias verossímeis do dia a dia. É um observador das mudanças inerentes que acontecem com o passar dos anos, expondo as feridas não cicatrizadas para lançar luzes ao universo das distorções dos lares desagregados e em ruínas, ou pela violência doméstica ou pela desestruturação financeira, sempre com uma temática voltada para as perdas, enigmas da vida, a morte por consequência e os desatinos pelas rupturas dos laços que unem os seus respectivos membros familiares. Abordagens estas encontradas no laureado Assunto de Família, que aprofunda o conceito sobre a definição clássica destes personagens sofridos que integram este contundente drama intimista contado com certa suavidade, onde não falta singeleza e uma aparente serenidade para buscar a construção dos vínculos afetivos com muita ternura, carinho e amor, afastando-se do julgamento apressado de normas morais vigentes.

O longa retrata uma paradoxal busca de união fraternal daquelas criaturas excluídas que sobrevivem de migalhas, magoadas e dilaceradas pelas circunstâncias antagônicas, como do inconsequente Osamu (Lily Franky) e o garoto Shota (Jyo Kairi), que mantêm uma convivência de pai e filho. Eles praticam contumazmente pequenos furtos em mercadinhos, lojas e automóveis, tudo sob uma invejável organização por sinais. Já Nobuyo (Sakura Andô) faz o papel da mãe, ela vive maritalmente com Osamu, e também pratica pequenos delitos na empresa em que trabalha, até ser despedida circunstancialmente. Numa noite de frio intenso, depois de uma jornada de trabalhos escusos, pai e filho encontram Yuri (Miyu Sasaki) abandonada na rua, uma menininha com fome e com cara de choro, que é levada para casa. O casal pretende entregá-la às autoridades, mas desistem ao perceberem que é mais uma vítima de violência doméstica pelos pais. Decidem abrigá-la e a adotam como se fosse filha, oportunizando um novo lar, inclusive é treinada para ajudar nos golpes realizados pelo irmão e o pai por afinidades. Abstendo-se de falso moralismo e preconceitos baratos, o filme é conduzido com equidistância, sem cair em armadilhas rasteiras melodramáticas, que somente um notável realizador poderia conduzir com isenção e imparcialidade esta trama locada numa sub-habitação na periferia de Tóquio pertencente à viúva Hatsue (Kirin Kiki, a atriz morreu em setembro de 2018), denominada de vovó. Esta família ainda tem a jovem Aki (Mayu Matsuoka), que deixa de ir à escola para se despir e ganhar algum dinheiro nas cabines de uma loja de sexo.

Kore-eda herdou a sutileza mesclada com sensibilidade dos inspirados cineastas conterrâneos Yusujiro Ozu de Era Uma Vez em Tóquio (1953), Mikio Naruse por Midareru (1964), e o criador do cinema de animação Hayao Miyazaki com temas recorrentes da relação da humanidade com a natureza, como na cena do alegre banho redentor em família no mar. Segue a trajetória do questionamento primoroso dos velhos mestres para mergulhar no universo peculiar das tradições da cultura japonesa. No longa Ninguém Pode Saber (2003), havia a temática da mãe ausente dos filhos e a falta de afeto aos mesmos que literalmente viviam confinados num apartamento; em Pais e Filhos (2013), discutia-se os efeitos futuros dos bebês trocados no berçário com as revelações recebidas, num clima de tensão instalado diante do amor pelo filho de outros pais e a intolerância de um deles; em Nossa Irmã Mais Nova (2014), mostra-se a dolorosa distância de três filhas que não veem o pai há 15 anos, mas ao saberem da morte dele, resolvem ir ao seu enterro, e lá conhecerão a tímida meia-irmã; sem esquecer de Depois da Tempestade (2016), no qual o enredo é traçado com um sabor agridoce para deixar emergir fatos que trarão conflitos sentimentais que envolvem pais que terão de lidar com adversidades repentinas, pois precisam tocar suas vidas.

Assunto de Família é uma narrativa com delicadeza, leveza e senso poético de uma aparente família pobre tradicional em busca de dinheiro dos pequenos crimes efetuados, até que um incidente provocado por um dos personagens que questiona implicitamente os valores éticos, sendo os segredos escondidos entre eles desvendados aos poucos. Neste painel soturno está a ex-prostituta que se juntou ao seu cliente e recolheu uma criança abandonada por um carro de propriedade de alguém de muitas posses; não devolveu a menina que fugiu da violência; além da ocultação de um cadáver enterrado na própria residência. Porém, os vínculos que os unem são mais fortes e revelam um cotidiano de intenso amor, afeto e solidariedade humana para uma reflexão humanista pelo despojamento de falsos tabus. O diretor tem como marca registrada as histórias familiares tradicionais e suas gerações, mas agora dá uma guinada e se detém nas transformações e de uma composição ampla e irrestrita, para retratar estas novas situações diárias de simples coisas que irão ao encontro de relações intrincadas e modificações relevantes. O drama é admirável pelo equilíbrio, embora seja sombrio e a tristeza se mescla com os momentos de felicidade para os personagens daquele núcleo familiar que ruma para a extinção. O desfecho traz cenas comoventes, como a despedida no ônibus e as palavras sussurradas pelo adolescente; ou ainda do registro soberbo da garotinha brincando lúdica e ingenuamente. Um extraordinário filme sobre as sutilezas do amor e dos laços de ternura com suas ligações se esboroando, mas remanescem como a doce culpa do pai e a confissão da mulher para proteger o companheiro. Emociona por ser intenso na complexidade das relações conceituais de uma nova família, e por tudo isto é a obra mais madura e completa que atinge o patamar de melhor filme da carreira de Kore-eda.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Culpa



Cotidiano de Tensão

No apagar das luzes de 2018, eis que surge o surpreendente suspense psicológico Culpa, dirigido pelo sueco Gustav Möller, um cineasta estreante, ousado e com brilho próprio que trabalha na Dinamarca, com indicação para representar este país no Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano. Construiu um painel curioso de tirar o fôlego por meio de relatos de vozes desesperadas de pessoas pedindo socorro por telefone. O filme mostra que também há trotes enviados à central de atendimentos de urgência, e não são raras as burocracias inerentes ao sistema policial de ajuda, o que fica claro pela controversa atuação estática do funcionário público. Ele tem que resolver tudo sem sair do local em que está instalado. Há algumas lacunas preenchidas apenas pela imaginação com decisões que poderão ser precipitadas, por falta de maior informação. São encontradas ainda algumas resistências de colegas pela respectiva área de competência em razão dos limites para se evitar que haja conflitos territoriais que devem ser solucionados em questão de minutos para deslocar uma viatura até o local do fato.

O thriller dá vazão para o imaginário do espectador, tendo em vista os efeitos sensoriais causados pela narrativa com o viés dos diálogos tensos e arrebatadores entre o policial Asger Holm (Jakob Cedergren- de atuação estupenda). Ele está acostumado com as atividades nas ruas de Copenhague, mas devido a um incidente no trabalho, foi afastado por motivos éticos e confinado numa mesa para atendimentos de emergências. O protagonista é o encarregado de receber ligações e transmitir às delegacias responsáveis para as soluções diárias. Entre alguns telefonemas de pouca relevância, acaba sendo surpreendido por um pedido entrecortado por ligações desligadas abruptamente de uma mulher em crise de choro, tentando comunicar o seu sequestro, mas evita que o suposto sequestrador, seu ex-marido, perceba. Os filhos pequenos do casal estão em casa sozinhos e desprotegidos. Mesmo dispondo de poucos dados para encontrá-la, ele começa uma verdadeira odisseia para resgatá-la. Tudo é muito rápido e a situação de risco para descobrir onde ela está é iminente diante da corrida contra o tempo que voa. Há uma grande mobilização de equipes para salvá-la e evitar a tragédia anunciada, deixando a plateia atônita para acompanhar em alta dose de expectativa o desenlace da história, tentando desvendar com o policial o crime em tempo real.

As relações conturbadas são fragmentadas pela ruptura da dor humana, que desencadeiam num episódio de cárcere privado como elemento profundo de uma situação caótica marcada pela violência doméstica, através da sonoridade impactante que despreza as imagens, para soluções reveladoras do sofrimento construídas pelos enigmas da culpa, da responsabilidade, da precipitação e da punição. O agente é um mero instrumento para buscar os transgressores, pelo qual ele também se insere e se pune. Ninguém é inocente, todos têm um passado a ser resgatado, tanto o personagem central como a suposta vítima desesperada e manipuladora pelos seus instintos bestiais oriundos de traumas psicológicos mentais sérios que lhe afetam seus instintos maternais para realizar o pior. O limite estabelecido pelo diretor só é perceptível pelo fone de ouvido entre o atendente e a mulher em crise existencial naquele cenário único e claustrofóbico do interior de uma delegacia, embora repetitivo não é tedioso por ser bem explorado os diversos ângulos, as luzes variando pelo ritmo alucinante dos diálogos marcados pelas repetições e incertezas da linguagem oral, concomitante com os ruídos de carros, pneus, mapas no computador apontando as setas de localização. Em meio a tudo isto, há alguns colegas dele completamente distantes e alheios da catarse exterior que está fervendo nos ouvidos dos espectadores e do protagonista.

Para alguns críticos, o cenário único da delegacia com a capacidade de sugerir imagens sem mostrá-las numa obra minimalista, como no longa de Möller, tem aproximação e alguma similitude com Chaga de Fogo (1951), de William Wyler, bem como de Uma Vida em Suspense (1965), de Sidney Pollak. O cinema é recorrente em personagens solitários na defesa da vida e do amor ao semelhante, como visto em Gigante (2009), do argentino Adrián Biniez, ao retratar no papel principal de Jara, de 36 anos, 125kg e seus 1m93cm, um segurança de supermercado que se apaixona silenciosamente pela faxineira sem graça, através da câmeras de monitoramento. Quase nunca fala, exceto raras vezes com seus colegas de trabalho e o sobrinho, ao jogarem videogame, de instinto quase que beira a irracionalidade conflitua com o ser amoroso num poderoso drama das relações humanas da vulnerabilidade de um homem, num clima tenso que avança para o final, tornando-se iminente um desfecho inusitado. Outra obra que talvez influenciou o realizador, mesmo sem ser clássico, é o ótimo O Guardião (2006), dirigido pelo argentino Rodrigo Moreno, abordando de maneira profunda a solidão e o silêncio de um guarda-costas de um ministro com a tolerância se esgotando dia a dia.

Culpa é uma realização densa, em que há o clímax catártico de raiva e de ódio que irão transformar o epílogo numa quase irracionalidade, já prenunciada em cenas anteriores, como a da busca incessante dos dois perseguidos, explodindo com a imposição das injustiças cometidas pelo sistema de opressão e repressão. Há um duelo de poderes a serem decifrados entre o algoz truculento, a vítima pela sua desfaçatez doentia e o personagem central em meio da burocracia que o leva para uma inquestionável corrupção ativa. Um filme com todos os subsídios psicológicos que levam do tom dramático para o suspense sensitivo e sutil magistral. O policial quer sair para a rua, pegar um carro e libertar a mulher, mas as ordens dos superiores são contrárias para tal atitude. O reflexo da violência implícita se exterioriza quando as evidências da negação de uma simbólica justiça já obsoleta se fazem presentes, refletindo na materialização pelas consequências nefastas que remanescem com tintas de uma violência pontual recrudescente para emergir no microcosmo familiar de uma convalescente sociedade que depende dos modernos meios de comunicação frios e distantes, com resultados devastadores e trágicos para a falta da valorização de diálogos num contexto de um sombrio cotidiano desumano.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Os 10 Melhores Filmes do Ano (2018)



Os 10 Mais e 05 Menções Honrosas

Como é final de ano e todos os críticos estão com suas listas de melhores filmes vistos em 2018, também elencamos o que se viu e ficou marcado como os 10 Mais e ainda 05 Menções Honrosas. Segue em ordem de preferência:

01. Roma, de Alfonso Curón (foto acima);

02. The Square- A Arte da Discórdia, de Ruben Östlund;

03. Sem Amor, de Andrey Zvyagintsev;

04. As Herdeiras, de Marcelo Martinessi;

05. Cachorros, de Marcela Said;

06. Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski;

07. Custódia, de Xavier Legrand;

08. The Post- A Guerra Secreta, de Steven Spielberg;

09. O Banquete, de Daniela Thomas;

10. Visages, Villares, de Agnés Varda e JR.


Dos que não conseguiram constar nos 10 Mais, listamos algumas menções honrosas, que só não entraram por absoluta falta de espaço, tais como:

- O Insulto, de Ziad Doueiri
- Três Anúncios para um Crime, de Martin McDonagh;
- Maria Callas- Em Suas Próprias Palavras, de Tom Volf;
- Carnívoras, de Jérémie e Yannick Renier;
- À Sombra de Duas Mulheres, de Philippe Garrel.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Roma



Reminiscências Arrebatadoras

O cineasta mexicano Alfonso Cuarón é reconhecido pelas obras E Sua Mãe Também (2001), Filhos da Esperança (2006), e os hollywoodianos Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004) e Gravidade (2013). Agora em seu último longa-metragem, Roma, em que dirigiu, escreveu, produziu, montou e foi o responsável pela fotografia, um dos filmes mais comentados e aguardados do ano, que por méritos merece todo o clamor de púbico e da crítica. Por questões de logística de lançamento nos cinemas, foi barrado no Festival de Cannes deste ano, após decisão da organização de excluir produções da Netflix da competição. Mas no Festival de Veneza logrou êxito ao abocanhar o Leão de Ouro de Melhor Filme. Conseguiu ser incluído na programação do Festival de Toronto, e desponta como um dos fortes favoritos a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2019, como representante do México, além de ser indicado em três categorias para o Globo de Ouro do próximo ano.

O título do drama memorialista não tem relação com a capital da Itália, porém a um bairro de classe média da cidade do México, próxima do aeroporto, que serve de cenário entre 1970 a 1971, para ser relembrada e contada as reminiscências da infância e o cotidiano dos familiares do realizador, através de uma família observada com acuidade de maneira silenciosa pela carismática Cleo (Yalitza Aparício- de ótima interpretação), que trabalha como babá e doméstica de confiança extrema, vive e divide um quarto pequeno com a irmã, também empregada. A protagonista foi inspirada na vida de Liboria Rodríguez (Libo), uma espécie de ouvidora do casal pelas passagens atritadas nas relações pessoais que envolvem a infância do diretor, nos remete para o nacional Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert. Também há algumas semelhanças com o documentário intimista brasileiro Santiago (2007), de João Moreira Salles, visto pela ótica do mordomo da família.

A produção se passa durante um ano, onde diversos acontecimentos inesperados afetam a vida de todos os moradores daquela casa, que dará origem a várias mudanças comportamentais, coletivas e pessoais. O machismo é cutucado com ironia, tanto na figura do marido pouco presente, como pelo namorado que rejeita a paternidade e ainda faz ameaças à doméstica. A gravidez e as consequências nefastas que irão advir, tais como o terremoto ocorrido durante a ida de Cleo ao hospital, soa como uma metáfora para o desenlace do parto. O protesto dos estudantes nas ruas com o namorado da personagem central em luta que acaba em mortes beirando o fuzilamento, também é outro presságio de mau agouro. O carro Ford Galaxy enorme que mal entra na garagem e a vida da patroa que terá de se reinventar após a separação, diante do choro compulsivo dos quatro filhos menores inconsolados são os sinais das mudanças iminentes e devastadoras. Não há pregação de falso moralismo entre patrões abastados e os subalternos sofridos, muito menos o panfletarismo recorrente nestas relações próximas em realizações menores.

A cena do mar revolto que quase traga a menina, no contraste novamente entre a vida e a morte em disputa para o renascer da esperança, brilhantemente filmada com a câmera entrando dentro d’água, sem mostrar a criança, cria-se um clímax de suspense com a expectativa agoniante. São tomadas longas de tempo e espaço no enquadramento em oposição aos movimentos panorâmicos, para cima, para baixo e para os lados, nos quais a câmera gira sem se deslocar. Por isto, Roma é um filme soberbo com tintas marcantes de influência da escola italiana do neorrealismo, a começar pela deslumbrante fotografia em preto e branco como elemento de desglamourizar as delicadas e efervescentes mazelas do dia a dia. Atinge no âmago pelo exemplar tom melancólico das situações que perdem a lucidez e ingressam nas conturbadas crises familiares, além da crítica social colocada em xeque pelo cineasta. Um retrato fiel de uma sociedade em transformação com ingredientes amargos dos novos tempos através da impactante narrativa com alta dose de densidade. Neste aspecto está bem evidente a presença dos grandes mestres Roberto Rossellini em Roma, Cidade Aberta (1945), bem como Luchino Visconti com Rocco e os Seus Irmãos (1960) e Vittorio De Sica em Ladrões de Bicicleta (1948).

Há outro aspecto relevante da produção que foi ressaltado pelo designer de produção Eugenio Caballero, ao revelar que 70% da mobília da casa no filme é oriunda da própria família do realizador, além de serem recriadas ruas e até uma avenida de acordo com as suas memórias, como a da cena em que as crianças caminham até o cinema, bem como as cabeças de cachorros empalhadas. Cria-se uma semelhança de realismo puro e próximo de um passado rememorado. Os sons de animais como os cães sempre presentes, os pássaros, o cotidiano com pouco barulho, exceto os aviões, daquele bairro suburbano, são fatores que contribuem para uma extraordinária referência do silêncio emblemático e da solidão aterradora dos personagens, que traz algumas similitudes com o drama O Som ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho.

Pelas abordagens profundas, sutis e sensíveis que são estampadas na telinha (na telona ficaria ainda melhor), Roma é um estupendo drama de intimismo pelas memórias do passado sobre um cotidiano reminiscente que tem na complexidade familiar as consequências marcantes que subsistem como forma para a elaboração do diagnóstico desta mini obra-prima de Cuarón. Dá para dizer, sem medo de errar, que é a realização mais madura, pessoal, intimista e completa, que beira ao épico, para atingir o ápice de uma carreira em evolução através desta fascinante autobiografia. Embora não seja um filme fácil e de rápida digestão, há um falso hiato entre uma produção palatável na relação com o grande público. Porém, seu nível de autonomia estimulada com os adeptos da cinefilia é elogiável pela concisão e o grau de narrativa até o alcance invejável na essência que se propõe como estabelecida no diálogo entre o espectador e o diretor. Um achado ímpar e inquestionável nesta realização em tempos de escassez de obras comprometidas com a cinematografia e seus objetivos de desalienação como meio de expressão e comunicação. Imperdível para quem aprecia singularidades com ênfase na essência pura colocadas neste painel arrebatador, que se insere na listagem dos dez melhores de 2018.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Maria Callas- Em Suas Próprias Palavras



Uma Diva Reverenciada

Um filme sobre a vida da grande diva da ópera do século 20, a bela e talentosa Maria Callas, uma das mais consagradas cantoras e intérpretes da história da música, teatro e cinema. Maria Callas- Em Suas próprias Palavras é dirigido pelo competente Tom Volf, que tem em sua filmografia Le Nègre de Molière (2005), filmado apara a televisão, e Les Aristos (2006). Realizado como documentário intimista obteve um resultado muito além da expectativa, numa narrativa sensível, poética e reveladora que passeia pela conturbada trajetória da personagem-título, através de versões e fatos verídicos que marcaram sua existência entre prós e contras, alegrias e dissabores, mas sem aquele ranço viciado de simplesmente contar uma história recheada de futilidades, ou explicar didaticamente situações evidentes, mas que imprime boa velocidade num clímax certeiro. Lança um olhar sombrio de lembranças do passado, sem deixar de mostrar seus derradeiros dias, já abalada por crises existenciais como uma triste enfermidade da alma, tentando voltar aos palcos que a legitimou como uma soprano tecnicamente perfeita. O retorno sempre foi seu objetivo maior, para relembrar os episódios marcantes de sua virtuosa carreira.

A protagonista nasceu em Nova Iorque em 1923, vindo a falecer em 1977, aos 53 anos. Oriunda de uma família de imigrantes gregos, foi incentivada pela mãe a desenvolver os dotes artísticos desde cedo, teve aulas de canto lírico com a mentora Elvira Hidalgo no Conservatório de Atenas, mostrava-se disciplinada e boa aluna. Logo foi reconhecida internacionalmente como a melhor cantora de ópera de todos os tempos para a maioria dos críticos. O documentarista lança mão de entrevistas na imprensa, com imagens raras buscadas nos arquivos, além de vídeos pessoais amadores realizados pela própria personagem central, com revelações através de diários e cartas íntimas da biografada, em especial com a amiga Grace Kelly. Traça com isenção todo o percurso pessoal e profissional desta celebridade. A vida e a carreira da artista são reconstituídas pelo fio condutor de uma entrevista numa televisão preto e branco, de formato quadrado, dos anos de 1950. Mas é pela atriz francesa Fanny Ardant, que a viveu no drama Callas Forever, que irá emprestar sua voz às cartas confessionais de Callas, narradas em off, num achado significante para a emblemática realização.

O documentário aborda com simplicidade e boa dose de profundidade os grandes momentos do sucesso estrondoso, apresentando interpretações na íntegra como as árias de Donizetti e Rossini, La Traviata, de Giuseppe Verdi, La Sonámbula, de Vincenzo Bellini, e arrasa com Carmen de Georges Bizet. Um dos grandes traumas da diva, foi quando teve uma crise de bronquite e interromper a apresentação de uma ópera em Roma, considerado como um grande escândalo para o público e a imprensa. Foi hostilizada sem dó e nem piedade. Outra situação que o filme tenta esclarecer é a demissão no Teatro Metropolitan, nos EUA. Volf dá voz e apresenta a versão diferente da cantora sobre estes episódios nos bastidores com revelações pouco divulgadas na época. A recuperação aconteceu parcialmente, como ela mesmo diz, a família que imaginava nunca aconteceu, porque o destino guinou para a carreira iniciada precocemente aos 13 anos.

O realizador foca e aborda com farto material o relacionamento de Callas com Aristóteles Onassis. Uma paixão louca que a fez se divorciar do marido, num casamento fracassado, sem apoio e com um viés voltado para as finanças. Renunciou a cidadania norte-americana para se casar com o todo poderoso magnata grego, mas foi trocada pela viúva Jacqueline Kennedy. Outra decepção traumática, ao saber pelos jornais do casamento de sua grande paixão com a não menos linda “Jackie”. Com uma saúde já debilitada acabou por mergulhar numa depressão profunda, que foi curada com o tempo, se reconciliou com Onassis para ficarem bons amigos. O filme aborda a dualidade entre Maria, uma mulher frágil e ao mesmo tempo ousada para época, quando se divorcia, enfrenta as críticas de uma sociedade conservadora numa relação mantida ainda casada com um homem famoso, mas tenta sustentar a imagem de Callas num paradoxo que a leva para crises existenciais e que afetará a carreira profissional. São escolhas difíceis que a marcou pela trajetória de vida, como uma saga. Ao se distanciar e ser incapaz de unir estes dois aspectos cruciais, surgirão os problemas com cobranças severas, bem retratadas como elemento central deste extraordinário documentário.

Maria Callas- Em Suas próprias Palavras é um retrato pungente documentado da vida amarga de uma estrela e sua fervorosa vocação como cantora lírica, com todo seu magnetismo e brilho pessoal inigualável no universo cultuado da ópera, dito por muitos como entediante, porém quando não apresentada de forma correta, afirmava sem titubear a artista. Ainda teve participação expressiva na incursão pelo cinema, ao ser protagonista em Medeia (1969), filme de Pier Paolo Pasolini, um de seus grandes amigos pessoais. Mas gostava mesmo era de interpretar no palco e soltar a voz lírica nas apresentações que a consagraram. Uma pessoa sofrida, mas que acreditava em Deus, nunca desistia, e com muita força de vontade voltava para brilhar. Determinada a lutar contra o conservadorismo de uma época para uma mulher moderna que queria ser livre, imprimindo  muita coragem para enfrentar as rígidas regras morais daqueles anos.

Volf não tem o intuito de colocar julgamentos morais às atitudes no documentário. Transparece um relato conflitado entre os ideais feministas na defesa da mulher de espírito libertário, sem amarras, e com poucas raízes de vínculos afetivos maternais, embora fosse seu desejo íntimo. Havia um contraste na falta de um diálogo harmonioso entre a mulher Maria e a soprano Callas dedicada à ópera como elementos de amor e paixão pela vida e pela profissão, e, pelo que fez e deixou de fazer, que se fundiriam como uma simbiose, dizia: "Quem escutar todas as minhas interpretações vai me compreender por inteiro". Um filme sobre a trajetória marcada por ensinamentos reflexivos e existenciais nada convencionais num passeio pela história de La Divina e seu fascínio. Uma ode para os apreciadores da pura arte na companhia saborosa de uma genial artista com suas dolorosas lacunas pela vida nas armadilhas do destino neste tributo arrebatador.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

O Banquete



Fogueira das Vaidades

Depois do polêmico filme histórico de época Vazante (2017), sobre a escravidão em Diamantina, Minas Gerais, no ano de 1821, pelo olhar de uma garota branca também vítima de uma sociedade austera, e ainda completamente ausente no sentido dos direitos iguais entre homens, mulheres e raças, Daniela Thomas fez ali sua primeira incursão sozinha como diretora. Agora está de volta com seu segundo longa, o fascinante O Banquete, inspirado em personagens reais. O drama foi retirado pela própria realizadora da mostra competitiva do Festival de Gramado deste ano, logo após tomar conhecimento da morte do jornalista Otávio Frias Filho (1957 - 2018), diretor do jornal Folha de S.Paulo, que inspirou o personagem Mauro, um intelectual tímido, sedutor com as mulheres e poderoso num país em efervescência política durante o controvertido governo Collor de Melo.

A cineasta começou a carreira no início dos anos 1980, no Teatro Experimental La MaMa, em Nova York, mas sua estreia foi codirigindo Terra Estrangeira (1995) com Walter Salles. A mesma dupla realizou O Primeiro Dia (1999) e Linha de Passe (2008). Em 2009, codirigiu o longa-metragem Insolação, desta vez com Felipe Hirsch. Filha do famoso cartunista Ziraldo, Daniela começou a escrever o roteiro há mais de 20 anos, com a ideia original para ser uma peça de teatro. Além das lembranças de desenhistas, escritores, jornalistas, atores, músicos e demais artistas que frequentavam a residência da família, ela não se baseou especificamente em um evento que a tenha marcado durante as reuniões com seu pai, um dos fundadores do festejado semanário O Pasquim. Mas se inspirou em obras como O Banquete, de Platão, que se constituiu basicamente numa série de discursos sobre a natureza e as qualidades do amor, e Ligações Perigosas, de Choderlos de Laclos, sempre atual através dos tempos, em sua universalidade e na capacidade de antecipar conceitos apenas muito mais tarde consagrados, nesse caso, as teorias de Freud.

A trama de Daniela tem um formato consistente e teatral, em um único cenário numa noite apenas, no fim da década de 80, quando o Brasil engatinhava em uma democracia com suas fraquezas e o temor da iminência da retomada do governo pelos militares. Era uma época de extrema instabilidade política e econômica que causava uma incerteza geral no frágil equilíbrio da nação, onde a civilização flertava com a barbárie ditatorial. Nora (Drica Moraes) organiza um grande jantar para festejar os dez anos de casamento de Mauro (Rodrigo Bolzan), um editor de uma célebre revista- em que ela trabalha- com a icônica atriz Bia Moraes (Mariana Lima). O marido da anfitriã é o advogado Plínio (Caco Ciocler), que chega bêbado e fica sabendo da festa minutos antes. Dois colegas de trabalho são convidados: a jornalista Maria (Fabiana Gugli) e o colunista social Lucky (Gustavo Machado), além dos convivas surpresas Cat Woman (Bruna Linzmeyer) e Claudinha (Georgette Fadel). A tragicômica refeição é servida pelo jovem Ted (Chay Suede), alvo de investidas amorosas pelo sarcástico colunista e suas tiradas desconcertantes.

No grande jantar de iguarias requintadas regado com variadas bebidas importadas e muita fumaça dos cigarros em profusão, todos se derramam em teses sobre o amor e as relações sexuais. Falam sobre vaginas e pênis eretos e funções, flutuando entre Platão até Sócrates, num retrato sobre a intelectualidade brasileira em discussões prolixas, sendo desprovida de um senso crítico mais apurado para uma capacidade de questionar e analisar de forma racional e com alguma inteligência. Há uma total ausência na busca da verdade para questionar e refletir com profundidade sobre os assuntos colocados de maneira extravagante entre eles, com uma tensão e um pulsar esquizofrênico de ideias a cada minuto que se passa, partindo para explosões que ultrapassam o limite da sensatez, redundando em baixarias orquestradas. A diretora encaixa os personagens num clímax como se estivessem em uma terapia de grupo para exorcizar os fantasmas do passado e as soluções inacabadas de relacionamentos que ainda subsistem com mágoas e rancores. Há uma atmosfera de puro cinismo comprometedor que coloca em xeque aquela casta intelectual de esquerda, diante da arrogância, blefes e investidas libidinosas da turba apresentada como pessoas descoladas e libertárias. Neste contexto todo há a iminente prisão do editor da revista, que assinou uma carta aberta contra o presidente do país, e o seu enquadramento na lei de imprensa vigente à época.

O Banquete é uma simbiose escarrada da contradição dos convidados de conteúdo vazio que buscam um norte numa reunião em torno de uma mesa para discutir assuntos variados de uma burguesia decadente. Eles se insultam e se seduzem, armam pequenos barracos nas ameaças intercaladas por beijos e pequenos afagos com ou sem sentimentos numa orgia de intenções perversas com algumas rasgações de seda em meio a acusações levianas e iconoclastas. A realizadora demonstra eficiência autoral e domínio do ótimo elenco (todos estão muito bem, mas Drica e Mariana estão soberbas) para uma construção magnífica de personagens complexos em suas vaidades que irão se queimando gradualmente na grande fogueira de uma cilada macabra da anfitriã, onde todos já transaram entre si. Daniela ajusta com perfeição as falas com enquadramentos dos rostos tensos para extrair as angústias, anseios, frustrações e o medo da polícia bater na porta. O tom da história vai progredindo até atingir o ápice da histeria e se transformar numa catarse coletiva, em que ninguém escapa de alguma traição ou esteja imune pela inocência. São atitudes de falsas verdades com efeitos danosos para o psicológico do ser humano, diante da gravidade das palavras sem a noção da lógica e do equilíbrio. Predomina o destempero pela facilidade da verve acusatória de não medir as consequências quase que trágicas neste vigoroso drama desafiador pelos diálogos e imagens corrosivos em sequências devastadoras.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

As Herdeiras



Universo Feminino

Vem do Paraguai o surpreendente drama familiar com conotação social que encantou o recente Festival de Gramado ocorrido em agosto deste ano. As Herdeiras arrebatou seis prêmios na categoria da mostra latina: melhor filme, diretor, roteiro, atriz (Ana Brun, Margarita Irún e Ana Ivanova), júri da crítica e júri popular. Com a direção autoral e promissora do estreante em longa-metragem Marcelo Martinessi, um cineasta desbravador em um mercado de poucas luzes e sem qualquer tradição em seu país. Para fazer cinema numa indústria completamente inexplorada, onde recém foi aprovada uma lei de incentivo fiscal ainda não regulamentada, teve que buscar recursos para esta realização em coprodução com a Alemanha, Uruguai, Noruega, Brasil e França. Antes de chegar aqui, faturou o Urso de Prata de melhor atriz para Ana Brum no Festival de Berlim de 2018.

O festejado filme do país vizinho, que antes já havia obtido retumbante sucesso com 7 Caixas (2012), da dupla Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori, vem provar que não é só na Argentina, Brasil, Uruguai e Chile, principais polos da América do Sul, que se produzem boas e inteligentes obras cinematográficas com conteúdo, essência, estética inovadora, pois também é capaz de conquistar espectadores. A pequena produção cinematográfica paraguaia está chegando lá e abre portas para o mundo com criatividade, bom gosto e minguados recursos financeiros, tendo muito ardor conjugado com o amor à sétima arte, bem demonstrado por este realizador motivado com um ânimo comovedor. Agora retoma o caminho com este drama, em que está bem caracterizado pelas sombras e as dores da alma nos ambientes da magnífica iluminação de pouca claridade, e crepuscular como indicativo de tempo. Com grandes janelas e portas, o casarão também é um personagem triste e envelhecido, ornamentado com móveis e utensílios de uma aristocracia decadente, soando como metáfora de uma América Latina e sua crise econômica.

O diretor com sua sensibilidade e aprofundamento dos problemas familiares e sociais, nos remete para uma semelhança estética das obras de Ingmar Bergman e Luchino Visconti, diante das imagens reveladoras num imaginário universo de mulheres dominando e concentrando forças que contrastam com as próprias fragilidades femininas em todas as cenas, em detrimento dos homens, que são meras figuras decorativas, ficam num plano secundário com ausência de diálogos e distantes dos conflitos que os cercam. Elas fazem suas festas e sofrem juntas no karaokê entre amigas, jogos de cartas entre idosas de classe média e alta com suas frustrações sentimentais sem pieguismos rasteiros. As prisões femininas e a injustiças de algumas detentas retratam lugares inóspitos e de má qualidade para a ressocialização, bem como os táxis sem a presença masculina e os hospitais com alas exclusivas. Há o viés feminino que cala com delicadeza e sutileza, sem o feminismo estéril e com aqueles discursos chatos e inconsistentes.

As Herdeiras tem como mote na abordagem a misteriosa Chela (Ana Brun), uma mulher com medo de dirigir, mas que com o tempo terá de superar suas dificuldades psicológicas na direção, aprenderá a perder a fobia da direção para sobreviver. Ela vive um romance com a extrovertida Chiquita (Margarita Irún), que acaba condenada e presa por acusação de fraudes em dívidas fiscais. A relação tem os problemas inerentes do cotidiano e ambas são oriundas de famílias ricas, mas que sofreram com as agruras de uma crise financeira sem precedentes. Acabam vendendo tudo dentro de casa, como o piano, quadros de valor artístico inestimável, mesas com cadeiras e demais objetos de algum valor, para sobreviverem os dias amargos de uma economia devastada por uma inflação galopante. Neste interregno de solidão a carência afetiva fala mais alto, Chela conhece a filha de uma vizinha, Andy (Ana Ivanova), quando transportava as senhoras como motorista particular, no dia a dia de espera e interrupções de visitas à companheira no presídio. A química dos olhares, o convite para tomar vinho, e a sedução da nova amiga levam as duas para um dilema diante da situação precária da personagem central, que tem a explosão de sua libido que a faz se redescobrir para sair da clausura e ir ao encontro do grande amor, mas para isto terá que deixar a aparente zona de conforto.

Uma relação que irá ter contornos para lançar luzes somente no desfecho, quando do retorno da antiga companheira ao casarão. É uma dolorosa decisão de uma união em vias de extinção e que poderá tumultuar a convivência no microcosmo familiar. Aumenta a dúvida com a aproximação das duas mulheres envolvidas emocionalmente, num clímax de amor maduro que pode acirrar os ânimos. A felicidade aparente de seus sorrisos e olhares reveladores esbarram num ambiente de desilusões e de fracassos, que nortearam a relação até agora duradoura, mas não completa, ao não se assumirem publicamente, depauperada por um conceito residual estereotipado como uma imoralidade. A nova relação soaria como uma redenção na escolha alternativa ousada e a busca da felicidade plena, através do silêncio como a marca deste enredo intimista que retrata a difícil realidade de dois seres humanos numa relação ainda pouco aceita na sociedade conservadora paraguaia. A própria equipe do filme sofreu constrangimento no Senado, ao receber homenagens pela premiação em Berlim, muitos senadores não compareceram em sinal de repúdio pelo tema retratado.

As Herdeiras tem como parâmetro o sensível Flores Raras (2013), de Bruno Barreto, em uma abordagem da relação homossexual conturbada no Rio de Janeiro, em 1956. Outro drama similar é Carol (2015), do independente cineasta norte-americano Todd Haynes, contido nas cenas de sexo, flutuou pelos caminhos sugestivos e as carícias sutis das preliminares. Martinessi não tem o fervor do polêmico Azul é a Cor Mais Quente (2013), de Abdellatif Kechiche, que impactou com uma cena tórrida de sexo explícito. O diretor paraguaio constrói uma atmosfera repleta de sutilezas, valorizando as imagens dos olhares e transições que são elaboradas com requintes delicados do tempo que avança com alguma melancolia este mosaico decadente das classes abastadas. Há uma ótima construção psicológica das personagens diante de suas fragilidades e envolvimentos como as descobertas em doses moderadas de erotização, intercaladas por momentos poéticos silenciosos e necessários para o desenvolvimento da história. Uma reflexão dos costumes e do moralismo familiar retratados com profundidade nos pequenos detalhes pela sugestão da lente de um diretor com um olhar de ternura e compreensão.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A Outra Mulher



Fantasias Amorosas

A indústria cinematográfica da França não é uma especialista do gênero comédias, tendo nos dramas seu forte, principalmente quando há conotações sociais ou abordagens sobre as relações humanas, os contrastes do amor e o existencialismo como temáticas aprofundadas. O longa-metragem A Outra Mulher é uma exceção à regra da comédia de costumes, com apimentados ingredientes de romantismo em dosagem bem comportada sobre as convivências amorosas e a fértil criação de um instável homem de meia-idade apaixonado pela esposa que se deslumbra com a namorada de seu melhor amigo. Cria-se uma atmosfera invejável e propícia para traições e fantasias em tom de drama conjugal com sabor agridoce em cenários paradisíacos, no qual os devaneios intensos vêm à tona e fisgam o espectador durante o desenrolar da história, dirigida por Daniel Auteuil, com adaptação da obra original de uma peça teatral escrita por Florian Zeller, responsável pelo enxuto roteiro.

A trama gira em torno de Daniel (Daniel Auteuil), um editor de livros reconhecido pelo seu poder inventivo acentuado que quase entra em transe ao receber em sua casa para um jantar o grande comparsa recém-separado, Patrick (Gérard Depardieu), acompanhado de sua nova conquista, a estonteante e bela Emma (Adriana Ugarte), uma aspirante à carreira de atriz de teatro, vestida de vermelho com o magnetismo de olhares de malícia. Antes, teve que fazer vários rodeios para convencer a esposa, Isabelle (Sandrine Kiberlain), muito amiga da ex-mulher de Patrick, para a turbulenta recepção. Embora tivesse um matrimônio quase perfeito, tendo em vista a perda do interesse de outrora pela companheira e o tédio reinante do trabalho, o protagonista não consegue escapar da tentação carnal dando asas à concepção exacerbada, ao deixar a ética e a cautela de lado, envolve-se numa viagem delirante para a realização dos prazeres libidinosos com elucubrações sexuais enlouquecidas, deixando todos perplexos e agoniados diante de situações inverossímeis de alucinações que perturbam sua mente e são colocadas em xeque.

Os amores com ciúmes como consequência e, em alguns casos, a traição como um elemento de discórdia prepondera nos temas sempre presentes no cinema francês. O mestre François Truffaut obteve resultados magníficos com Jules e Jim (1961) e A Mulher do Lado (1981), assim como o festejado Claude Chabrol retratou com eficácia em Ciúme- O Inferno do Amor Possessivo (1994). Da Finlândia veio outro ótimo filme O Ciúme Mora ao Lado (2009), dirigido por Mika Kaurismäki. As realizações de Philippe Garrel O Ciúme (2013) e O Amante de Um Dia (2017) também manteve a tradição de boas obras sobre a temática recorrente e indispensável para um bom contingente de espectadores fiéis. Auteuil, que estreou na direção com A Filha do Pai (2011), neste segundo longa por trás das câmeras, dá seguimento nestas abordagens, embora bem menores, são inequívocas circunstâncias da alma e do coração, no qual não falta o amor com ardor e dor, a angústia e o prazer entrelaçados, que são criados através de momentos de pura beleza como uma poesia dentro de uma proposta aparentemente simples, na qual está presente o objeto fundamental do estado emocional complexo envolvente de um sentimento provocado em relação ao medo iminente da perda (mais que a própria morte) da pessoa amada.

Importante destacar a primorosa fotografia, o coeso e consistente elenco de atores e atrizes que impressionam pelos desempenhos sem reparos do quarteto, que dão o equilíbrio exato nesta trama bem urdida, aparentemente simples, mas com méritos na conotação sobre as fragilidades dos homens e suas fantasias, seus arrependimentos pelo prazer volúvel, os encantos juvenis na idade já madura, retratados com sutileza e bom alcance de sensibilidade. O cineasta disseca por uma lúcida reflexão os atritos das relações surgidas no cotidiano amoroso em toda sua extensão com os prazeres sexuais e os vínculos afetivos decorrentes. A solidão, o abandono, a iminência da terceira idade e a traição estão presentes nos personagens envolvidos que representam os papéis da vida no dia a dia da ficção mesclada com realidade, da dúvida sempre entrelaçados no realismo lançado dentro de uma verdade inafastável e onipresente na vida masculina do macho alfa com seus vacilos inerentes pela precariedade da incerteza do amanhã, como simbologia da existência e sua finitude, além dos descompassos que levam à procura da essência do amor e do prazer pelo instinto.

A Outra Mulher é um filme que deixa rastros pelo caminho que levam para a aleivosia, o rompimento e a reconciliação de um outro personagem mergulhado na solidão, além das idas e vindas nas relações conturbadas. Há simplicidade com alguma profundidade nos romances desfeitos e refeitos, o que dá realismo e alma à trama. Não há propriamente culpados apontados pelo diretor, exceto as fragilidades masculinas, diante das escolhas e as consequências que os personagens terão que enfrentar. A fuga e a espera pelos conciliamentos aguardados e desejados advindos de uma grande paixão. A infidelidade fugaz no prazer sexual como válvula de escape sem vinculação afetiva é contextualizada para uma reflexão sem preconceitos ou moralismos baratos, vistos como personagens vitimados pelo amor sem fronteiras. O cineasta cria imagens fabulosas nos passeios pelas ruas de Paris e nas gôndolas de Veneza, até o desfecho pouco inspirado, numa narrativa sobre as fantasias e fetiches, traições e reconstrução familiar, desta surpreendente comédia leve pela narrativa com ausência de arrebatamentos prolixos, mas com sentimentos enaltecedores da força e do papel importante da mulher em tempos de igualdade e conquistas universais, sem margem para retrocessos.