terça-feira, 15 de maio de 2018

Os Fantasmas de Ismael



Triângulo Amoroso

O drama psicológico Os Fantasmas de Ismael é uma realização que tem como principal atração o festejado trio de intérpretes da primeira linha do cinema francês: Mathieu Amalric, Marion Cotillard e Charlotte Gainsbourg. Na direção, está Arnaud Desplechin que tem uma trajetória razoável e nunca chegou a despontar como um cineasta inquestionável, sem marcar com uma obra arrebatadora, diante de sua diversidade de temas e subtemas dentro de seus filmes. Raramente se aprofunda, razão pela qual não empolga sua filmografia de resultados apenas discretos. É conhecido do público cinéfilo pelas obras Reis e Rainhas (2004), Um Conto de Natal (2008), Terapia Intensiva (2013) e Três Lembranças de Minha Juventude (2014).

O longa atual do realizador é mais um destes condensados que mistura ficção com realidade, com um filme dentro do outro, ausência de coesão, com uma sugestão de uma metalinguagem rasa, que pouco atrai a atenção do espectador mais exigente e atento à proposta principal. A narrativa é inconsistente, tanto para o que se vê na tela como uma suposta inovação, bem como para o que está sendo filmado dentro do drama proposto propriamente dito das relações conturbadas dos personagens em conflitos amorosos e existenciais. O enredo segue uma ciranda de amores rompidos bruscamente, reaparições do nada e o envolvimento de uma terceira pessoa que fica no olho do furacão, mas que apesar da paciência, cansa, vai embora, e retorna no vaivém segmentado de forma artificial pelo resultado de um roteiro com oscilações de altos e baixos, assinado pelo diretor em parceria com Léa Mysius e Julie Peyr.

Desplechin cria um clássico romance dividido num amor a três. O cineasta Ismael (Mathieu Amalric) está traumatizado pelo desaparecimento abrupto da ex-mulher, Carlotta (Marion Cotillard), com quem se casou quando ela tinha 20 anos. Simplesmente a mulher sumiu, teve uma vida promíscua e por último um relacionamento sério finalizado na Índia. Retorna ao lar num belo dia, após 21 anos, 8 meses e 6 dias, tempo este contabilizado com exatidão pelo marido abandonado. Ela encontra o ex-parceiro numa relação aparentemente duradoura e fortalecida com a astrofísica Sylvia (Charlotte Gainsbourg), uma pessoa que pensa no infinito e em ter filhos com ele. Entretanto, a repentina reaparição irá causar fissuras com uma flagrante desestabilização do casal apaixonado que acarretará num conflito psicológico de abalos sísmicos que tomam conta daquele radiante cenário da região costeira litorânea, captado pelas lentes da bela fotografia de Irina Lubtchansky.

O atormentado personagem central está em meio às filmagens de seu novo filme sobre a vida do irmão bem-sucedido, Ivan (Louis Garrel). Logo, entra em um processo de estresse, larga tudo e refugia-se na casa que morava na infância. Mas o produtor irá buscá-lo no seu retiro espiritual, agora dedicado a cuidar de galinhas. Desplechin não aprofunda nem o tema principal e sequer a subtrama, com elipses sendo realizadas a bel-prazer. Carlotta custa a se reaproximar do pai (Hippolyte Girardot), mas quando decide, há um choque no ancião com uma situação que irá desencadear no triste e derradeiro episódio da emoção desmedida fatal. As relações conflitadas são fragmentadas como indicativo de possível causa para a fuga como elemento de mote construído numa mescla de alguma rejeição, antes do desenlace. Os diálogos pouco elucidam e convergem para um acontecimento que estava desenhado como pouco improvável de uma rotina estabelecida pela amargura da pouca idade ao contrair matrimônio, embora sem uma motivação eloquente, deixa alguns resquícios da projeção de liberdade para sair de Paris e ganhar o mundo. Eis um núcleo em processo de dissolução dos vínculos ainda restantes do casamento, mas com uma reflexão reduzida dos fatores que motivaram as situações demonstradas.

O experiente Amalric sucumbe como um caricato diretor em crise; além de Cotillard estar insossa e pouco expressiva, numa atuação equivocada; já Charlotte se salva com uma performance muito boa, ilumina a tela em suas aparições para dar vida e segurar a trama como pode nos vínculos de fratura nas típicas relações familiares em rupturas de amarras de uma realidade ambientada numa mescla ficcional com um drama de frágil consistência com características particulares. Não engrena pela ausência de harmonia nas sequências de tempo de tela com as episódicas alternâncias de peculiaridades distintas e pelo roteiro confuso e sem força. Ou pela perda da dramaticidade envolvendo casais que buscam curar cicatrizes e fantasmas do passado, ou ainda pela comicidade pouco sutil com hilárias representações de um filme dentro de outro filme. Os Fantasmas de Ismael é estruturalmente uma espécie de continuação com situações evidentes de uma repaginação da realização anterior, Três Lembranças de Minha Juventude. Os planos de continuidade com personagens sendo colocados à margem, deixam o drama sem um clímax de uma narrativa satisfatória pela falta de foco, com a desmesurada incongruência que o torna desinteressante no desenrolar da história, para um epílogo novelesco convencional e previsível.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Baseado em Fatos Reais



Crise da Criação

Roman Polanski, aos 84 anos, está em boa forma e é um dos mais competentes cineastas em atividade, embora sua conturbada vida pessoal atrapalhe seu destino no território dos EUA e países que façam extradição para lá. Seus problemas pessoais e sua suposta dívida para com a justiça não impedem e nem devem servir de obstáculo para atenuar os efeitos de sua meritória trajetória na sétima arte. Em 2010, preso na Suíça, não pôde receber o Urso de Prata de direção, em Berlim, por O Escritor Fantasma (2010). Voltou a participar do Festival de Cannes com A Pele de Vênus (2013), penúltima realização, baseada na peça Venus in Fur, do norte-americano David Ives, que por sua vez inspirou-se no romance de Leopold von Sacher-Masoch, publicado em 1870, que viria tornar-se célebre definidor da fábula clássica da dominação sexual nas relações por perversão, advindo dele a terminologia masoquismo.

Já o excelente longa O Escritor Fantasma, adaptado do romance do jornalista e escritor Robert Harris, retrata um ex-ministro inglês chamado ficticiamente de Adam Lang, casado com Ruth, vivia em semi-exílio numa ilha do estado de Maine, nos Estados Unidos, que na realidade nada mais é que as memórias do primeiro-ministro britânico Tony Blair e suas incursões desastradas e subservientes ao governo americano de George W. Bush. É criticado asperamente por uma imprensa livre, por ter autorizado a prisão e tortura de suspeitos de terrorismo, em conluio com o governo americano, exatamente como aconteceu entre Blair e Bush. Trabalha sua autobiografia, pela qual recebeu US$ 10 milhões antes de escrevê-la. Contratado pela editora como ghost writer, McCrea morre misteriosamente. Logo tem seu substituto, passando então a realizar suas pesquisas para terminar o livro de memórias de Lang/Blair. Havia similitudes com Budapeste (2009), de Walter Carvalho, baseado na obra de Chico Buarque de Holanda, onde um homem separado por dois continentes e dividido por duas mulheres, tem na fascinante viagem a descoberta da capital da Hungria, com suas peculiaridades e as situações políticas controversas e ricas de um passado sempre presente de ditadores como estátuas descendo dentro de um barco enferrujado e decadente, pelo Rio Danúbio, numa metáfora do ocaso do comunismo, contadas por um escritor anônimo.

Agora em sua última realização, Baseado em Fatos Reais, Polanski retoma a temática e dá uma espécie de continuidade ao filme O Escritor Fantasma, ao adaptar para a telona o livro de Delphine de Vigan, em parceria com o realizador francês Oliver Assayas. O roteiro é inspirado não por acaso em Acima das Nuvens (2014), de Assayas, que retrata a relação desarrazoada de sentimentos entre duas mulheres, ponto nevrálgico daquela produção francesa. Porém, em sua nova realização, o diretor polonês se afasta da política e vai fundo na perseguição de uma admiradora em uma sessão de autógrafos de uma escritora famosa para abordar a invasão de privacidade como uma neurose obsessiva, valorizar o realismo e lançar a tênue divisória entre a fronteira da realidade com a ficção, através de uma narrativa sobre a vida alheia, as redes sociais e as cartas anônimas endereçadas à protagonista em crise de criação e acusada de apropriar-se de dramas dos outros, tema também visto recentemente na ótima coprodução da Argentina com a Espanha O Cidadão Ilustre (2016), da dupla Mariano Cohn e Gastón Duprat.

O thriller psicológico, gênero em que o diretor é mestre, como no tensionamento sinistro e apavorante de O Bebê de Rosemary (1968), obra-prima do terror; o instigamento de O Inquilino (1976), um verdadeiro achado de suspense e que está presente em Baseados em Fatos Reais, como nas aparições por trás das janelas da fã endiabrada. O cenário da obra atual é o lançamento do mais novo best-seller de Delphine (Emmanuelle Seigner- casada há mais de 20 anos com o cineasta polonês), baseado na história de sua própria mãe, que conhecerá por acaso Elle (Eva Green), uma de suas admiradoras, que lhe pede para autografar um exemplar e se diz escritora, com trabalhos de ghost writer em biografias de celebridades. Aos poucos as duas se aproximam, a moça se torna cada vez mais íntima e presente na vida da autora consagrada. Cria-se um vínculo estreito e quase que insuperável, porém por mais que se sinta incomodada com a onipresença da nova amiga, Delphine permite a aproximação devido à sua fragilidade emocional, por sentir-se solitária, vulnerável com a ausência dos filhos que saíram de casa e a distância do marido (Vincent Perez) sempre envolvido com o trabalho na TV, onde é apresentador de um programa literário. Acaba sendo dopada de remédios pela amiga imaginária ou não, eis a grande questão lançada, que cuidará de sua agenda pessoal e a isolará do mundo num lugar distante para escrever o próximo livro, diante da crise do poder criativo ausente pela falta de novas ideias.

Polanski imprime consistência num aparente mote simples, embora haja complexidade humana que toma vulto e persista nas relações dolorosas e instigantes da intelectual submissa com a dominação tresloucada da personagem usurpadora, que dará durante a trajetória algumas pistas para o espectador optar pela ficção imaginária ou pelo realismo duro e doentio, diante da sucessão de fatos que acontecem até o desfecho pouco convencional, que irá desfazendo o quebra-cabeça, numa verdadeira ciranda de situações inusitadas que se avolumam com o desenrolar da história, marca registrada do cineasta que nunca passa indiferente e seus filmes sempre causam reações na plateia, por sua verve sarcástica inerente. São as relações intrincadas com submissões quase que humilhantes, num desdobramento que segue um ritmo fervoroso até o epílogo, por ser complexo e provocativo, pois consegue fazer de um encontro de amizade e solidariedade numa sessão de autógrafos, para uma transformação do cotidiano da vida numa prisão de almas amarguradas e ressentidas em busca da libertação de seus fantasmas. O resultado de Baseado em Fatos Reais é um suspense psicológico equilibrado e envolvente para uma sensível reflexão sobre as relações de sedução, obsessão, submissão, malícia, perversidade e o delírio catártico, com impacto que só o cinema propicia.

sexta-feira, 2 de março de 2018

Três Anúncios Para Um Crime



Rastros de Intolerância

Vencedor de quatro prêmios no Globo de Ouro, entre eles o de Melhor Filme drama e forte candidato ao Oscar, concorrendo em seis categorias, Três Anúncios Para Um Crime tem a competente direção do britânico Martin McDonagh, que também escreveu o dinâmico roteiro. É reconhecido por Na Mira do Chefe (2008) e Sete Psicoptas e Um Shih Tzu (2012), realizações que tiveram boa repercussão no meio cinematográfico. O cineasta está de volta com este vigoroso drama mesclado com faroeste contemporâneo. Trata-se de um filme consistente, com uma abordagem bem mais profunda que as produções anteriores, enfatizando temas como a vingança, a culpa, a hipocrisia, o trauma e as injustiças sociais na pequena e pacata cidade de Ebbing, no estado de Missouri, no Sul dos EUA.

Talvez seja a obra mais madura de McDonagh, que monta um painel distinto para contar uma história que não tem vilões, heróis e nem vítimas determinadas neste contexto de violência numa região fortemente marcada com tintas remanescentes de um racismo ignóbil e persistente. As intolerâncias não são somente quanto à distinção de raças: branco e negro, mas também pela discriminação sexual aos homossexuais e o rancor destilado aos imigrantes, principalmente os cubanos, como no personagem retratado pela perseguição. O filme é tangenciado por certa generosidade com toques de humor, embora em escala bem menor, e a ira latente. O conservadorismo está presente nos sulistas norte-americanos e a intolerância é uma das apresentações hostis para quem ousar bater de frente ou contrastar aquelas ideias ali encravadas e pouco solidárias com o politicamente correto estabelecido por um expressivo contingente de uma sociedade doentia e deformada pelo preconceito da realidade sombria para o desenvolvimento de uma pacificação.

O mote do enredo do longa está centrado no inconformismo de uma mãe pela ineficácia da polícia em encontrar o culpado pelo brutal estupro sucedido pelo assassinato de sua filha com requintes de crueldade. Mildred Hayes (Frances McDormand- estupenda atuação), ao ver três outdoors abandonados na beira de uma estrada secundária, decide chamar a atenção para o crime insolúvel ocorrido sete meses atrás e sem mostras de uma investigação eficaz. Tem a ideia de alugá-los e fazer uma cobrança direta pedindo explicações ao xerife da cidade, Willoughby (Woody Harrelson), que está agonizando em silêncio de uma doença grave e terminal. A inesperada atitude repercute e terá consequências trágicas com a explosão de uma onda de violência beirando a uma atmosfera catártica, com incêndios, morte, lesões graves por queimaduras, numa devastação que toma contornos surreais afetando parte da população. É a simbolização de desencanto que sofre uma comunidade de pouca lucidez numa iminente desagregação que deixa rastros de ódios e resultados pouco convencionais. A fragilidade da paz entra em choque com os distúrbios ocorridos simultaneamente confrontando com a esperança da solução pragmática esfacelada.

As relações conturbadas são fragmentadas pela dura ruptura de um ordenamento ineficaz pelo fracasso das apurações policiais, que desencadeiam de um episódio para a perda de controle como elementos magníficos retratados de uma realidade cruel e selvagem, bem construída pelo realizador. Mostra a cobertura midiática televisiva que busca dar o tom parcial pela espetacularização do caso, diante dos desdobramentos e as ligações do fato com a morte inesperada. Mas as cartas deixadas irão dar luzes e afastar as referências maldosas e tendenciosas, tanto da imprensa afoita em dar show, bem como de alguns personagens sequiosos por culpar o possível responsável pelo desatino circunstancial, inclusive o padre entra em cena para opinar com um discurso demagógico. Ao colocar lado a lado, o grotesco, violento e perverso policial Jason Dixon (Sam Rockwell) com a protagonista para irem atrás de um improvável suspeito, o realizador escapa com boa imparcialidade dos maniqueísmos que rodeiam e poderiam aflorar para um desenlace reduzido da obra. Ali fica estampado que a heroína está bem longe da justiça propriamente dita, pois seu lema é a vingança pela velha lei de talião: “olho por olho, dente por dente”. Por isto, confunde-se com a própria polícia inoperante pela lerdeza de investigar, o que caracteriza o fracasso do sistema, porém com desdobramentos que transbordam da civilidade. Um dos méritos do filme é deixar para o espectador escolher o melhor resultado para o epílogo em aberto, ao abandonar a clássica simplificação caolha, facilmente encontrada em produções menores de qualidade pífia.

Três Anúncios Para Um Crime é uma realização exemplar pelo seu coeso elenco, em que todos brilham, especialmente Frances McDormand na pele da protagonista pouco óbvia, ao encarnar uma mulher fria e calculista com obstinação implacável, às vezes até esboça lampejos de algum carinho e seus diálogos fluem naturalmente assustando pelo sentimento arraigado de cólera vingativa. Deverá levar a estatueta pela sua imposição e facilidade de comunicação expressiva. Sam Rockwell e Woody Harrelson disputam o Oscar de ator coadjuvante e ambos têm chances, especialmente o primeiro pelo inesquecível personagem truculento, às vezes forte e arrogante e em outras fragilizado como o macho alfa. A trilha sonora é fascinante em seu todo, por não ser invasiva e entrar no momento oportuno sem atravessar a narrativa. Destaque para a composição irlandesa no prólogo do drama, a canção A Última Rosa do Verão, de autoria de Thomas Moore, belissimamente interpretada pela soprano americana Renée Fleming. São componentes de uma realização de humor cáustico, intercalado com algum lirismo em cenas marcantes pela violência de um conservadorismo arcaico, através de um crime hediondo como pano de fundo para reflexão da intolerância sexual e das crônicas questões de cunho racial, além da raiva, da vingança e do ódio aplastantes numa região conflagrada.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

O Insulto



Julgamento de Ódios

A aguardada produção que representa a primeira realização do Líbano na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, O Insulto, dirigido pelo libanês Ziad Doueiri, o mesmo dos premiados Zeit Beirut (1998) e o polêmico O Atentado (2012), corresponde bem a expectativa depositada. O longa foi premiado no Festival de Veneza com a láurea de melhor ator para o veterano Kamel El Basha, no papel do palestino refugiado mestre de obras Yasser Salameh. As autoridades do país natal do diretor impuseram que fosse colocado o aviso: “o filme não representa a visão do governo libanês.” O realizador não é benquisto pelos governantes. Chegou a ser preso após a premiação do filme anterior na Itália, tendo em vista que gravou as cenas em Israel, mas logo foi solto. Já a realização atual tem como cenário a capital Beirute.

A forma é alegórica da trama para enfatizar as desavenças pelos ódios raciais e religiosos na conflitada região do Oriente Médio que vive permanentemente em alta tensão, principalmente no campo político. Logo já se observa quando no prólogo do enredo, o libanês Toni Hanna (Adel Karam) entra em confronto por uma situação banal. É um adepto fervoroso do Partido Cristão da extrema-direita, admirador confesso e fiel do líder nacionalista Bashir Gemayel, mecânico de profissão, ele tem uma oficina de automóveis num bairro populoso na Capital, na qual sustenta a família. Sua esposa, Shirini (Rita Hayek), está grávida e prestes a dar à luz ao primeiro filho do casal. Mas num dia qualquer, Toni que sempre rega as plantas de sua varanda, acidentalmente, acaba molhando por uma calha estragada o palestino. Este vai até o pequeno apartamento e se oferece para realizar o conserto, mas não há guarida do proprietário. Mesmo assim, tenta com sua equipe de trabalhadores fazer o reparo pelo lado externo sem a permissão expressa do libanês, que ao perceber a atividade profissional, acaba por rebentar a marretadas o novo cano ali instalado. Yasser não deixa por menos e responde com um impropério ultrajante, mas Toni responde asperamente que teria sido bom que o ex-primeiro-ministro israelense Ariel Sharon tivesse dizimado todos os palestinos.

Diante do conflito exposto como metáfora dos desatinos raciais e religiosos, começa uma intensa batalha verbal com desdobramentos que ultrapassam as matizes do bom senso e da civilidade. Toni quer uma retratação formal e não deixa por menos, exige desculpas do acusado. Depois de algumas tentativas de acordo, partem para as vias de fato e o caso vai parar no tribunal, com contornos políticos e repercussão nacional. Um advogado renomado das causas do Partido Cristão se oferece para defender o pseudo-herói da resistência libanesa contra uma experiente advogada das causas palestinas, por coincidência filha do veterano bacharel, que assume a defesa do muçulmano agressor pelas grosserias verberadas. Simbolizado como um palestino refugiado à procura de um lugar seguro para residir e trabalhar dignamente, mas que enfrenta ações extremadas.

O roteiro eclético do diretor em parceria com Joëlle Touma conduz para um estrondoso julgamento com ampla cobertura midiática, num tom circense de espetacularização em uma estrutura de melodrama. O drama social de uma pendenga pessoal de dois cidadãos vai ao encontro dos conflitos recorrentes por questões de âmbito racial, religioso e político, numa mescla que explode numa quase catarse pelas manifestações nas ruas em defesa de suas causas propriamente ditas do mundo árabe. Eis um cotidiano que é abordado através de uma história aparentemente singela, mas complexa na essência, ao adquirir grande amplitude no desenrolar da trama. O intimismo dos personagens em foco é esmiuçado pelo diretor em vários momentos distintos pela importância da história no contexto, com revelações pretéritas que deixaram feridas abertas da guerra civil no Líbano entre 1975 e 1990. As raízes do conflito afloram do passado com marcas tingidas pelo sangue, através da memória das lutas contra Israel, os massacres constantes nas aldeias e o revide de facções do povo da Palestina e sua luta por mais terras com o aumento geográfico de seu território.

A narrativa segue a descrição dos debates jurídicos de filmes hollywoodianos, com as reviravoltas de expectativas do binômio: do bem e do mal, para um desfecho ambíguo a todos os envolvidos. Não há vítimas e réus distintos, todos podem assumir qualquer papel no enredo, sem que haja discordância ou heroísmos. A fragilidade da paz entra em choque com os distúrbios sociais confrontando com a esperança em formato de quimera. O tribunal está ali com seus julgadores e uma imprensa sensacionalista sequiosa por noticiar mais um descalabro de um evento transformado num gigantismo desproporcional à causa da origem. Uma realidade sombria para o desenvolvimento bem urdido do roteiro proposto para uma eficiente alegoria. Não propõe mostrar inocentes neste painel de erros, culpas e nenhum arrependimento, onde todos estão interligados numa babel de confrontos e acusações. Todavia, nem mesmo o que há como elementos fortes de ligação justificam as atitudes que ficam à deriva como consequência de uma crise institucional desde o passado pelos seus fantasmas, sem grandes esperanças no futuro. Repete-se neste aspecto pelo olhar realista para um país de discutíveis atitudes certas ou erradas, bem longe do maniqueísmo de alguns realizadores, mas que mantém com força significativa, sem simplificar, o conteúdo contextualizado de um clímax com direcionamento para descobrir se há um verdadeiro culpado.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Sem Amor



Desagregação Familiar

Vencedor do Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2017 e forte candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro deste ano, Sem Amor é o digno representante da Rússia, com a excelente direção de Andrey Zvyagintsev, que dividiu o enxuto roteiro com Oleg Negin. A fascinante fotografia é assinada pelo competente Mikhail Krichman. O cineasta tem em seu currículo o cultuado longa-metragem Leviatã (2014), também finalista do Oscar daquele ano, que retrata na península do Mar de Barents, no Ártico, um pai de família lutando contra os desmandos e falcatruas de um prefeito corrupto que quer se manter no poder. Porém, para enfrentar o político desonesto que o coage para tentar desalojá-lo, ele recorre a um colega influente de Moscou. É dele também O Retorno (2003), premiado no Leão de Ouro no Festival de Veneza.

O mote do enredo do longa de Zvyagintsev está centrado numa família em processo de divórcio já encaminhado pelos protagonistas da dissolução dos vínculos ainda restantes do casamento. Boris (Alexey Rozin) e Zhenya (Maryana Spivak) estão concluindo a divisão da partilha dos bens materiais deles, com a venda do apartamento, único patrimônio que os mantêm precariamente próximos através de diálogos ríspidos e rancorosos, repletos de mágoas e ressentimentos. Depois de anos juntos, os dois se preparam para suas novas vidas paralelas em curso repletas de esperanças. Ele com sua nova namorada (Varvara Shmykova), que já está grávida e cobra constantemente uma participação mais efetiva durante a gestação. Ela com seu parceiro milionário (Andris Keiss), um homem já separado e que tem uma aparência distante pelo olhar perdido no universo, de vez em quando faz contato com a filha pela internet. É a simbolização de desencanto que sofre a sociedade russa numa iminente desagregação pela melancólica alegoria apresentada.

Diante das preocupações futuras, o casal pouco liga para o bem-estar do filho, Alyosha (Matvey Novikov), um menino de 12 anos que acaba desaparecendo misteriosamente, logo após uma discussão dos pais e a rejeição explícita a ele sobre a respectiva guarda. Sente-se um verdadeiro estorvo, chora copiosamente e resolve por conta própria sumir da vida deles, diante da negligência familiar estampada para o fato consumado, após o clímax daquele ambiente sem saída. Aflora a falta de amor, o carinho e a desatenção. As metáforas políticas envolvendo o país natal do realizador são evidentes, através do tom seco e os relacionamentos mal resolvidos como características presentes na sua filmografia. Sem Amor é daquelas produções típicas da escola soviética, com uma bem elaborada história, numa narrativa seca, direta e sem subterfúgios pirotécnicos. Mostra uma triste realidade construída a partir de um imenso vazio naquele microcosmo familiar entre os pais e o filho num cenário gelado pelas nevascas, para abordar metaforicamente uma falsa aparente simples separação. Aprofunda-se quando deixa transparecer nas entrelinhas as relações de rompimentos da Rússia com os países que almejam a independência, como no caso específico do noticiário da TV sobre a Ucrânia no epílogo, dividida pela linguagem, pelo histórico social de divisão e por fatores políticos.

As relações conturbadas são fragmentadas pela ruptura, que desencadeiam num episódio de fuga como elemento magnífico da alegoria bem construída pelo diretor. A rejeição, na verdade, se dá bem no início, antes do desenlace inusitado. Os diálogos da mãe, explicitando a opção pelo aborto, soam como um acontecimento que estava desenhado. Há uma série de fatores para o desfecho, como o retorno à noite para casa, após o encontro com o atual namorado, sem sequer ir ao quarto do filho. O pai que está dividido entre a atual namorada e o filho que logo nascerá, além dos trâmites da separação, afasta-se completamente daquela criança abandonada, que se veste, pega a mochila, vai para o colégio, retorna, dorme, acorda, numa rotina sem o acompanhamento de nenhum deles.

Na procura incessante pelo menino desaparecido, surge a figura da avó materna, que vive num lugar distante, escondida entre muros, explicita-se a péssima relação com a filha. Chamada simbolicamente de stalinista, pela sua conduta de durona, cruel e ditatorial, tendo em vista pelos conceitos em relação aos conterrâneos que não são de seu agrado ou pensam contrariamente. Enclausurada num contexto amargo e com atitudes pouco amigáveis aos parentes, inclusive ao neto e à filha. Eis um retrato não só do casal em litígio, mas ao país e o seu contexto social em ebulição antidemocrática sob o comando de Vladimir Putin. O sumiço sem vestígios focado do garoto é o mesmo do opositor que desaparece sob o regime vigente, em uma alusão desde Josef Stalin até os tempos atuais. É a metáfora de um povo e sua desintegração pela desinformação de um sistema antiquado e distante da população sofrida, pela ausência de uma união por laços de amizade, carinho e afetuosidade.

Sem Amor é estruturalmente uma realização que lembra o iraniano Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), de Abbas Kiarostami, pela retratação similar da trama. Há algumas semelhanças com A Floresta (2017), do compatriota Roman Zhigalov, na abordagem das relações de família e a interação com a vizinhança e seu cotidiano inerente, além do avanço acelerado do capitalismo e da ganância diante da crise de valores. Mas aproxima-se bem mais de A Separação (2010), outra produção iraniana, dirigida por Asghar Farhadi, monumental metáfora que separa o estado de direito democrático, simbolizado pela esposa; do outro lado está um regime ditatorial, de pouco ou quase nada de direitos, representado pelo marido, um defensor até por ali da situação caótica em que vive em seu país. São obras com temáticas que vão ao encontro do regime dissociado com os vínculos da integração, pelo estado de fratura, assim como nas típicas relações familiares em rupturas. As alegorias são emblemáticas e indicam uma dolorosa realidade, como se depreende deste singular drama familiar, ambientado com consistência na burocracia de uma polícia inoperante para investigar, ao deixar a responsabilidade para os voluntários realizarem as buscas, o que torna um fracasso do sistema.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

No Intenso Agora



Memórias da História

João Moreira Salles é um especialista em documentários como mostra sua filmografia. Dirigiu dois extraordinários filmes do gênero que ficaram na retina do espectador acostumado com obras marcantes. Primeiro foi Nelson Freire (2003), sobre a carreira e a vida do mestre do piano, retratando através de vários blocos a rotina do pianista e sua contagiante música em concertos e recitais. Depois brindou seu público com Santiago (2007), abordando a vida do mordomo que faleceu logo após as filmagens, além da carta filmada endereçada aos irmãos, num compartilhamento das memórias familiares de rara sensibilidade poética. Houve interrupções por alguns anos na conclusão deste filme, tendo em vista algumas dificuldades logísticas. É dele também Entreatos (2004), sobre os bastidores da campanha política de Lula em 2002.

Dez anos após a última realização, o cineasta retorna com todo fôlego para dirigir com muita sutileza e delicadeza o emblemático No Intenso Agora, além de escrever o roteiro e o texto de apresentação na primeira pessoa. A revista Variety fez rasgados elogios e o apontou como uma das melhores produções exibidas no último Festival de Berlim. E ainda foi escolhido como o melhor filme brasileiro pela Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (ACCIRS). Os primeiros trechos deste longa-metragem revelam uma família alegre se divertindo, e o diretor aparece ainda como uma criança. O ponto de partida está nos filmes caseiros resgatados dos pertences particulares oriundos das viagens da mãe do cineasta, verdadeiras raridades num achado fascinante destas preciosas joias, retratando as imagens com registros históricos sobre a passagem pela China, em 1966, sob o regime de Mao Tsé-Tung, nesta experiência vivenciada na época da Revolução Cultural.

O mote familiar é o pretexto para retratar com extrema habilidade os inesquecíveis confrontos de maio de 1968, que brotaram como uma força avassaladora das ruas de Paris, sob a égide revolucionária pelos protestos estudantis pelas mudanças sociais. Porém estes logo se aliaram com os operários em greve, parando literalmente a França, para desespero do presidente Charles De Gaulle, o general e estadista que liderou as Forças Francesas Livres durante a Segunda Guerra Mundial. Com seus discursos inflamados em tom paternal, toma medidas drásticas de repressão, pede paz, ordem e disciplina. O documentário é preciso ao focar a burguesia aliada com a classe média, com as passeatas contrárias ao movimento cultural. Surge a marcha patriótica no Champs-Élysées decorrente de uma acentuada camada da sociedade conservadora, defensora da moral e dos bons costumes, reagindo aos avanços das classes proletárias e estudantis. Mas a violência se espalha ainda mais por todos os cantos da cidade. Um jovem acuado morre afogado ao se jogar no rio Sena; já um policial é prensado numa ponte pela multidão, também não resiste.

Novamente Salles busca interagir com a plateia através deste belo filme-ensaio, assim como fora em Santiago, justapõe, através de imagens de arquivo, uma série de acontecimentos diferentes da década de 1960, para marcar com retumbância este vigoroso painel relevante da Revolução Cultural que se espalhou por países europeus, chegando até a América do Sul. Eis uma rebeldia indomável que tomava conta de jovens ativistas insatisfeitos que bradavam por uma causa libertária, sem amarras e preconceitos, através de uma entusiasta onda mágica dos sonhos decantados. Queriam mudanças, apesar de não terem exatamente um objetivo definido, como se constata no encontro com o cultuado filósofo do existencialismo Jean-Paul Sartre. O cenário era de substanciais transformações comportamentais, lideradas pelos estudantes. Porém o encontro com os sindicalistas engajados no Partido Comunista que selou um acordo sobre as condições de trabalho, horas extras e espaços dignos nas fábricas, acabou por jogar um balde de água fria neste movimento muito maior que as relações de trabalho entre sindicatos e empregados, tendo em vista a frustração de centenas de milhares de simpatizantes pelo sentimento de perda da ilusão pela realidade cruel.

O realizador mostra com clareza os desdobramentos na antiga Tchecoslováquia, com os tanques da União Soviética invadindo e tomando conta das ruas no famoso episódio denominado de Primavera de Praga. Morre inexplicavelmente uma liderança estudantil, o que acarreta na imolação de um outro ativista político, que ao fenecer queimado chama a atenção dos compatriotas inebriados pela letargia. Milhares de pessoas acompanham o cortejo fúnebre num silêncio dolorido, mas com indignação nos olhos daquela população esmagada moralmente pelos russos. Houve respingos no Brasil em plena ditadura militar, com o assassinato do estudante paraense Edson Luís Souto, de apenas 17 anos, quando jantava no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, diante da invasão da polícia militar. Com o desfecho trágico, uma multidão acompanha o enterro e protesta pelas ruas com cenas de violência pela repressão do regime. Enquanto na Europa havia a contrariedade ao domínio comunista; na China, as crianças decoravam os ensinamentos do Livro Vermelho ditado pela URSS, maltratando professores e intelectuais.

Salles coloca com exatidão o material de arquivo organizado em capítulos desta seleção minuciosa, através de uma narrativa de boa cronologia dos fatos sobre os temas abordados. Devem ser guardados na memória pelas imagens históricas capturadas deste acervo cultural pesquisado. Está bem focalizado o líder da revolta, Daniel Cohn-Bendit, atualmente faz parte do governo de Emmanuel Macron, presidente de centro de direita. Há reveladoras cenas de dramaticidade com a intensidade dos manifestantes, ora calados e sombrios; ora correndo e se expondo nos conflitos efervescentes das ruas. O diretor tem méritos inquestionáveis por se afastar da fórmula recorrente já gasta dos grandes dramas épicos sobre aqueles anos conturbados, porém quase que esgotados. É proposta uma análise a partir de elementos pesquisados, sem desprezar a interação do movimento com o espectador. Deixa evidente a ideia de que os estudantes eram vistos tão somente como anarquistas que iriam contra os interesses de Moscou. Fica marcada a falta de abertura para as mulheres, negros, imigrantes e homossexuais, todos sem voz naqueles duros anos de 1960, abrindo espaços para as conquistas que viriam muito tempo depois. No Intenso Agora é uma magistral obra de registro que simboliza a liberdade de expressão, hoje tão vilipendiada pelo conservadorismo reacionário.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

The Post: A Guerra Secreta


Imprensa Livre

Considerado pela crítica como uma realização paradigmática para o estudo das teorias do jornalismo contemporâneo e ganhador de quatro Oscar, o sempre lembrado, por ser bem retratado é o clássico do gênero Todos Os Homens do Presidente (1976), de Alan J. Pakula. O cenário é o ano de 1972, no qual um repórter do jornal The Washington Post farejou algo ali de gravidade e iniciou uma investigação sobre a invasão de cinco homens na sede do Partido Democrata, que dá origem ao escândalo Watergate e que teve como consequência a queda do presidente Richard Nixon. Recentemente, o diretor Tom McCarthy se baseou em fatos reais ocorridos no ano de 2002, em Boston, cidade do Estado de Massachusetts, no Leste dos Estados Unidos, com Spotlight- Segredos Revelados (2015), vencedor de melhor filme e roteiro original do Oscar de 2016, para contar uma intrincada história do bom jornalismo sobre um tema de preocupação do Papa Francisco nos cerrados gabinetes do Vaticano: os relatos cada vez maiores da pedofilia incrustada na Igreja Católica. Abordava um grupo de jornalistas do famoso jornal The Boston Globe que mergulharam numa parafernália de documentos sobre diversos casos de abuso de crianças por padres, que se confirmaram pelos depoimentos.

Agora chegou a vez do festejado cineasta Steven Spielberg, nesta primorosa realização The Post: A Guerra Secreta, prestar uma calorosa e merecida homenagem ao jornalismo isento e imparcial como virtudes inerentes de uma mídia livre e descompromissada com o poder, exatamente num momento em que alguns meios de comunicação pouco confiáveis sofrem duras críticas pela divulgação na internet de “fake news” (falsas notícias). O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer tem um formato linear, através de uma narrativa que tem uma estrutura em ritmo acelerado, abdicando dos recursos de pirotecnia ou sensacionalismo barato. Embora haja algum romantismo na profissão focada da imprensa investigativa, mostra os tempos das redações com máquinas de escrever e uma nuvem de fumaça de cigarros, obviamente sem o uso de celulares e computadores por ser retratado em 1971. Conta os bastidores da uma verdadeira batalha para ser publicado pelo jornal The Washington Post os famosos “Papéis do Pentágono” sobre um relatório que revelou as mentiras escancaradas da participação dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã para enganar a opinião pública, que depois levaria para o rumoroso caso do Watergate. Prende o público pelo desempenho sóbrio de um elenco coeso e uma adequada trilha sonora assinada pelo veterano John Williams.

O enredo do drama aborda Katharine Graham (Meryl Streep- de ótima atuação) como a proprietária viúva do célebre jornal local, que está envolvido justamente no lançamento de suas ações na Bolsa de Valores para ter liquidez de receitas ao se capitalizar e, consequentemente, ganhar um bom fôlego financeiro. Como um dos expoentes do jornalismo independente e imparcial centraliza na figura de Ben Bradlee (Tom Hanks- convincente no papel), o implacável editor-chefe do jornal, sempre atento por alguma notícia de repercussão que possa alavancar o periódico para subir de patamar no sempre concorrido mercado jornalístico. Quando o maior concorrente The New York Times dá início a uma série de publicações de matérias que denunciam vários governos norte-americanos, desde Eisenhower até Nixon, que deliberadamente mentiram acerca da posição do EUA na Guerra do Vietnã, com base em documentos sigilosos que vazam do Pentágono, o presidente Richard Nixon decide processar o jornal com base na Lei de Espionagem, para que nada mais seja divulgado. Um juiz de primeira instância concede a proibição, o que acarretará na mudança de rumo da fatídica documentação que parará nas mãos de Bradlee e sua competente equipe. Porém, terão que dissuadir a dona do jornal que é amiga de pessoas poderosas do governo envolvidas nas falcatruas que causarão escândalos. São questionados os possíveis favorecimentos de políticos próximos quando alguma coisa negativa lhes acontece neste mundo da realidade. O departamento jurídico teme o fechamento do jornal, inclusive com a prisão da proprietária e os responsáveis pela publicação. Trava-se um duelo sobre a importância da publicação da notícia para defender a liberdade de imprensa, ficar ao lado do público, e manter a ética e o profissionalismo dos jornalistas destemidos que querem correr o risco.

Os desdobramentos e as decisões nas batalhas com os tribunais superiores, inclusive a Suprema Corte, são um achado magnífico no belo drama de Spielberg. Ele coloca o espectador no interior da redação e o interliga com a correria das ruas pelos profissionais para apurar e descobrir os fatos novos, os entraves da burocracia no judiciário para julgar os limites da Lei de Espionagem sobre os documentos sigilosos, tidos como de segurança máxima da nação enxovalhada pelas reportagens que vasculharam os porões e gabinetes reservados a poucos, embora bem fechados, causando danos irreversíveis nos governos e desmascarando suas mentiras agasalhadas pelo manto protetor de um pseudopatriotismo. Dentro de uma atmosfera recheada de polêmica e dúvida, eis uma apropriada maneira de questionar e refletir sobre a complexidade do jornalismo investigativo responsável com nuances indicativas de combate ao atual governo de Donald Trump. Como é feito pelos erros e acertos, a motivação para justificar uma denúncia forte e perigosa, os riscos inerentes dos jornalistas envolvidos que poderão sofrer o furo da matéria pela concorrência, além do hermetismo hipócrita de um poder conservador e pouco comprometido com a verdade dos fatos noticiados. The Post: A Guerra Secreta é uma significativa obra de dignidade com a virtude da denúncia verdadeira que retrata com pujança a força de uma imprensa séria e corajosa, embora suscetível a pressões, com o cuidado dos princípios da boa, correta e fiel informação de credibilidade para tirar o véu dos segredos e suas falsidades ideológicas.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Lumière! A Aventura Começa


Legado Monumental

Com A Invenção de Hugo Cabret (2011), o cineasta norte-americano Martin Scorsese prestou seu júbilo aos pais da primeira filmadora e máquina de projeção, os irmãos Lumière- Auguste e Louis-, com flasbacks de 1895, no filme mudo de 50 segundos A Chegada de Um Trem na Estação, mostrando a entrada de um comboio puxado por uma locomotiva a vapor em uma estação de trem na cidade costeira francesa de La Ciotat. Nesta inestimável homenagem, baseada no livro homônimo infantojuvenil de ficção de Brian Selznick (2007), visava especialmente o carinho justo ao cineasta esquecido e relegado, na pele de um anônimo proprietário de uma loja de brinquedos na estação, o notável sonhador do cinema e grande ilusionista George Méliès (1861- 1938), interpretado com brilhantismo por Ben Kingsley. Ilustrou muito bem com a cena do garoto Hugo ao lado de seu robô que tentava reconstruir, tendo as imagens do filme Viagem à Lua (1902), de Méliès, inaugurando a era do cinema, através de imagens fantásticas para os primórdios daqueles tempos terrivelmente difíceis.

Agora chegou a vez do cineasta, roteirista e montador Thierry Frémaux, também diretor geral do Festival de Cannes e do Instituto Lumière, prestar uma reverência com tintas eminentemente instrutivas da agradecida cinefilia. Ele prefere não ser visto como o diretor do magnífico Lumière! A Aventura Começa, seu primeiro longa-metragem, mas como um crítico e pesquisador desta obra inestimável. Para ele, os verdadeiros autores são os irmãos Auguste e Louis Lumière. O documentário foi organizado com extrema precisão em blocos temáticos para uma visão mais ampla e acurada pelo espectador atento, cinéfilo ou não. Uma produção que mergulha numa jornada fascinante pelo universo dos fundadores do cinema, os irmãos Lumière. São as primeiras históricas imagens em movimento restauradas pelo olhar único da França e do mundo da Era Moderna, através de 108 filmes compilados de 1.428 curtas resgatados da indústria de produção dos verdadeiros precursores desta magia de sonhos, que é mostrada em breves 50 segundos cada um e sucessíveis na tela. Devidamente montados para celebrar o legado da dupla, de 1895, data da primeira sessão em espaço público de cinema, até 1905, quando a sétima arte se tornaria mundial e um fenômeno de público no planeta.

Um achado poucas vezes visto é este documentário memorável de imagens capturadas deste monumental acervo cultural que fisgam os apreciadores do cinema. Uma homenagem direta e jamais feita na essência com tanta originalidade à dupla pioneira do cinema. A Chegada do Trem na Estação e A Saída da Fábrica, de 1895, são duas relíquias históricas do marco do registro de cinematógrafo dos irmãos Lumière, que Frémaux parte para visitar o volumoso catálogo. Outro joia rara incrível é O Regador Regado, com o banho de mangueira proposital no rapaz que apronta uma travessura. Passa ainda por cenas que influenciaram velhos mestres como Orson Welles, Alfred Hitchcock, Elia Kazam, e John Ford que comentou o belo Fila Indiana Numa Geleira com Sapatos de Neve, de 1899, inspiração para os enquadramentos em plano aberto das câmeras nas planícies e grandes paisagens dos seus antigos faroestes; as relações íntimas de Yasujiro Ozu em Fumantes de Ópio, em 1899; os passeios da burguesia em As Escadarias da Pont de L’alma, de 1900, estabelecem o vínculo de Proust na Paris eterna; até o clássico Encouraçado Potemkim (1925), de Serguei Eisenstein, bebe nas águas de um curta sobre os marinheiros. São pequenas preciosidades fascinantes de filmes originais muito  bem restaurados desta coletânea, trazendo plena nitidez às imagens originais singulares de mais de 100 anos.

Lumière! A Aventura Começa tem muito mais ao longo dos rápidos 90 minutos desta seleção minuciosa organizada em capítulos, como se fossem diamantes brutos que viriam a ser lapidados. Há cenas marcantes como do primeiro jogo de futebol disputado Inglaterra, em 1897, com os atletas vestindo uma indumentária exótica, a câmera estática focando os jogadores sem a bola, com movimentos estranhos para uma fértil imaginação. Outras cenas inesquecíveis são as lavadeiras na beira do rio, como um alegórico balé de mãos sincronizadas; o barco à deriva, numa dança pela sobrevivência; os meninos fazendo poses ao se jogarem nas águas de um trapiche; a criança brincando com o gato; os cinco mil soldados marchando nos EUA, sendo que somente três não tinham bigode; e a criança caminhando, tropeça espontaneamente na frente da câmera. O mundo se estreitava e as distâncias inimagináveis davam lugar para a o início da globalização pelas telas cinematográficas. Tudo começava a ficar próximo e os tabus iriam de dissipando.

Os irmãos Lumière e sua equipe de operadores não deixaram de registrar os franceses trabalhando e se divertindo numa época de poucas opções de lazer. A cidade de Lyon, cidade natal dos pioneiros, e berço do cinema, foi o cenário para os primeiros filmetes. Somente depois eles vão para Paris filmar as pessoas andando pelas ruas de bicicleta em meio das charretes puxadas por cavalos, com a Catedral de Notre-Dame, o rio Sena, a Torre Eiffel e outros pontos turísticos como locações referenciais das imagens captadas. Depois vem o Big Ben em Londres, Egito, Rússia, EUA e Veneza na Itália. O epílogo celebra a criança e sua felicidade, diante do deslumbramento da garotinha vietnamita na aldeia em A Vila de Namo, de 1900, através da câmera posicionada numa liteira. Uma aula de cinema e cultura geral contada didaticamente por Frémaux sobre os planos abertos nas grandes locações, bem como os fechados em lugares exíguos. Em toda narrativa há uma precisão cronológica extraordinária sobre os temas abordados para serem guardados na memória advindos deste tributo arrebatador de imagens artesanais históricas protegidas para a posteridade.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

120 Batimentos por Minuto


Aids em Debate

O diretor francês Robin Campillo, que divide o roteiro com Philippe Mangeot, está de volta em seu terceiro longa-metragem, 120 Batimentos por Minuto, vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes. Foi premiado ainda pela Fipresci, bem como pela Queer Palm de melhor realização LGBT, além de melhor filme estrangeiro pelo Los Angeles Film Critics Association e pela New York Film Circle. Como representante da França, acabou ficando fora da pré-seleção ao Oscar de 2018, além de perder merecidamente a Palma de Ouro do ano passado para The Square- A Arte da Discórdia (2017). O longa-metragem de Ruben Östlund, embora tenha uma temática completamente diferente e seja o representante da Suécia, é muito mias completo, apesar da reclamação ostensiva do presidente do júri, Pedro Almodóvar, e de boa parte da crítica especializada. Campillo dirigiu anteriormente os longas Les Revenants (2004) e Meninos do Oriente (2013), porém é mais conhecido pelos roteiros de Entre os Muros da Escola (2008), Além da Ilusão (2016) e A Trama 2017).

O drama social com conotações políticas tem como cenário os anos de 1990 na França, em pleno governo de François Mitterrand, baseado em fatos reais, centra seu foco na luta de jovens pelas suas vidas, num intenso movimento pela prevenção e o tratamento da Aids. O grupo ativista Act Up em Paris intensifica seus esforços para que a sociedade reconheça a importância de suas manifestações justas e comprometidas no combate à moléstia que explodiu como uma epidemia letal e continua matando há mais de décadas. A batalha chega às ruas para pedir camisinhas para protegê-los e reivindicam novos remédios para debelar o famigerado mal do século, tendo em vista que a medicação AZT já não dava mais os resultados esperados para quem contraiu o vírus HIV. Naqueles anos de pouca esperança, as peles com as lesões do tipo Sarcoma de Kaposi, os sangramentos e as manchas avermelhadas pelo corpo, eram vistas como a morte iminente por decorrência das pessoas infectadas.

O cineasta enfatiza a liderança do militante Sean (Nahuel Pérez Biscayart), com sintomas da doença e a brutal derrocada humana, mas que encontra tempo para lutar com afinco pela sobrevivência e manter um romance com o recém-chegado ao grupo, Nathan (Arnaud Valois), que se impressiona com a dedicação do rapaz, apesar de seu estado de saúde completamente fragilizado. A realização mostra os ativistas invadindo as dependências de um grande laboratório de pesquisas e estudos de produtos farmacêuticos biológicos e biotecnológicos. A polícia é chamada para intervir, mas mesmo assim os protestos deixam vestígios fortes para uma boa repercussão na imprensa. Os resultados da grande indústria de fármacos foram pífios e a doença continuou ceifando vidas, principalmente os homossexuais e bissexuais, como coloca com tintas fortes no drama o realizador. Talvez aí esteja o maior equívoco de Campillo, ao vincular e não descolar a Aids do universo gay, deixando os heterossexuais de fora do debate, embora houvesse a tendenciosa ligação da época com a homossexualidade, por pesquisas médicas apressadas e doutrinas religiosas conservadoras com o viés do politicamente correto. Deixa a desejar como uma obra mais reflexiva, e talvez, devesse ser mais comprometida com uma análise e crítica mais aprofundada, ao conduzir para os estereótipos se emaranharem no enredo.

120 Batimentos por Minuto começa com um grande debate com discussões acaloradas entre os membros da associação, que se propõe na defesa dos marginalizados à sociedade da moral e dos bons costumes, entre os quais estão as prostitutas, os drogados e os homossexuais. Por vezes, cai no vazio das ideias e acentua a prolixidade de pensamentos e algumas tolices, com resmungos desnecessários e sem nexo causal ou que traga algum efeito, sobrepondo-se à própria história. Embora a causa seja de todos como a prevenção e a cura da Aids com medicações eficazes, o diretor custa a tomar as rédeas do longa, quando o faz se trai e deixa levar para contornos de pieguismo para derrapar no melodrama rasteiro. Mas logo se recompõe e parte para uma narrativa equilibrada para buscar o propósito do tema ressaltado, com citações de estatísticas das mortes que se avolumam até o desfecho previsível do líder da causa, com a finitude já aguardada e a celebração de todos os amigos nesta batalha inglória. É revelador o inusitado epílogo com as cinzas sendo jogadas no coquetel da festa dos descompromissados executivos da indústria farmacêutica.

O cinema francês sempre foi avançado em levantar bandeiras sociais para quebrar paradigmas e tabus, com um olhar característico para o libertário, um mérito inquestionável. Porém, nesta realização, mesmo sendo um bom filme sobre a moléstia devastadora que ainda faz muitas vítimas, temática esta que foi retratada em outras realizações recorrentes e universais, como no superior e bem aprofundado Filadélfia (1993), do norte-americano Jonathan Demme, com a inesquecível atuação de Tom Hanks. Campillo faz uma obra menor e pouco convincente no âmbito de uma construção mais abrangente e enérgica. Deixa uma lacuna aberta sobre o preconceito e o sofrimento das vítimas em todos os escalões do painel da humanidade abatida visceralmente pelo HIV, por não ser definitivo neste drama com excessiva duração de mais de duas horas. Contribui de maneira apenas razoável no cenário da denúncia e da reivindicação pouco expressiva sobre os riscos gerais em toda sua amplitude conceitual da desesperança dolorosa e fatal da triste realidade, mas marcada pelo reducionismo.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Roda Gigante


As Escolhas

No apagar das luzes de 2017, surge Woody Allen na sua trajetória de comédias de costumes dramáticas, mantendo-se fiel no sarcasmo e na sutil ironia fina como marcas registradas de sua extensa filmografia, por ser um dos melhores cineastas em atividade no mundo. Roda Gigante é o 49º. longa-metragem do diretor e roteirista que nos remete para a lenda do vinho: “Quanto mais velho é melhor”. Assim como nos filmes anteriores, Café Society (2016) e Homem Irracional (2015), também não atua, mas mantém o vigor e a capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações angustiantes do cotidiano e a análise dele mesmo através desta fascinante história de amores e desamores que é contextualizada no verão dos anos de 1950, num parque de diversões à beira-mar, em Coney Island, praia do bairro do Brooklyn, em Nova Iorque, sobre uma barraca de tiro ao alvo com vista para uma enorme roda-gigante, onde moram os personagens principais. Mescla elementos de pessimismo com algum otimismo, passando por ideais anacrônicos fundidos numa realidade de devaneios que desembocam em pesadelos, pela narrativa, às vezes, direta ao espectador por um salva-vidas que escreve roteiros para teatro nas horas vagas, quando não está na guarita.

Numa visita à filmografia de Allen, Zelig (2003) é uma de suas das obras-primas; bem como se vislumbra uma retomada do inesquecível longa, talvez o maior filme do velho mestre, A Rosa Púrpura do Cairo (1985), naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película para fugir do martírio de sua vida sem graça. Porém, Roda Gigante, assim como a realização anterior, se aproxima das melhores obras do velho mestre que centra seu foco no cenário da frustrada atriz Ginny (Kate Winslet), que trabalha como garçonete e é casada com um operador de carrossel, Humpty (Jim Belushi), que trabalha em um parque nas cercanias. Ela conhece Mickey (Justin Timberlake), o guarda-vidas intelectualizado, que lê e escreve nos momentos de folga, logo se apaixona por aquele trabalhador que sonha em ser um poeta e dramaturgo reconhecido. Ele narra a história como se fosse uma tragédia grega naquela ciranda de ilusões que começa a estremecer e atinge o ápice, quando a filha do marido da personagem central, a destrambelhada enteada Carolina (Juno Temple), uma moça de 25 anos, volta para casa fugindo do esposo, um gângster perigoso da máfia que a persegue sem dar trégua, e ela também irá cair de amores por Mickey.

Habilmente o cineasta forma um quadrilátero amoroso, outra marca de Allen, sem que as duas mulheres percebam no início, mas os desejos giram como a roda do parque e a verdade tomará contornos impiedosos e dramáticos na essência dos vínculos amorosos diante da forte concorrência. Os corações explodem de paixão, mas a protagonista que tem um romance secreto, embora casada, que também já havia traído o baterista de uma banda, pai de seu filho, um adolescente que não gosta de estudar e tem instintos de um incendiário psicopata, percebe que a mãe apanha do padrasto. O painel de elementos neuróticos e de fracassos do dia a dia irão formar motivos brutais para as fantasias serem superadas pela sombria realidade da disfunção familiar. Uma comédia dramática que reflete as esperanças e desilusões dos destinos cruzados que irão ao poucos formatando o imbróglio de situações e enroscos que se apresentam na urdida trama. Explora com sensibilidade os meandros da alma nesta contribuição significativa para o cinema voltado para os acontecimentos rotineiros do amor, da paixão desenfreada, os destroçamentos do ser humano e o pessimismo com o mundo das pessoas amarguradas, pelo olhar profundo deste assumido realizador bergmaniano. Ironiza a vida pelos vestígios eivados de perturbações latentes reveladas, mas isso não é o todo, apenas um resultado através da busca do significado existencialista.

Eis um mergulho de boa profundidade nos relacionamentos despudorados, nas traições com método de sedução convencional ou não. As relações interpessoais e os romances fracassados servem de alicerce para explorar uma narrativa densa e presente como uma fórmula que deu certo. Os personagens do cineasta muitas vezes são reescritos, às vezes com razoáveis resultados e em outros se superam. Mais uma vez parte dos desajustes do amor e da paixão para ingressar na melancólica solidão existencial do amargo romance, como no magnífico desfecho teatral protagonizado por Ginny e Humpty (com soberba atuação de Kate Winslet, em uma de suas melhores interpretações da sua carreira, já ganhou o Oscar por O Leitor, e poderá levar novamente como melhor atriz, juntando-se a Diane Keaton, Dianne Wiest, Mira Sorvino, Penélope Cruz e Cate Blanchett, todas ganhadoras da estatueta pela direção de Allen) traídos pelo destino e por caprichos circunstanciais que só o coração direciona e comanda o caminho da agridoce desilusão. Tudo isso regado com apreciável sutileza e a analogia pertinente nas colocações para armadilhas lançadas com primazia no enredo, como típicas características do realizador.

Roda Gigante é deslumbrante visualmente pelas cores fortes marcantes mostrando um cenário típico romantizado pela fabulosa fotografia assinada do veterano fotógrafo italiano Vittorio Storaro, três vezes vencedor do Oscar, com O Último Imperador, Apocalypse Now e Reds, já havia feito parceria com Allen em Café Society. É quase uma fábula sobre pessoas humildes sonhadoras e a impossibilidade da felicidade desfeita pelas circunstâncias periféricas que rondam os destinos marcados, com diálogos primorosos nos encontros e desencontros. Há uma harmonia paradoxal na essência da existência, mas principalmente na felicidade rompida do sonho pela realidade traiçoeira do destino. É difícil apontar, ou achar, algum defeito deste octogenário cineasta cerebral que constrói mais um filme revelador, através de planos longos com aproximações e afastamentos da câmera no ponto certo, por meio da leveza e da suavidade da bela trilha sonora do recorrente jazz para os personagens inquietos pelas andanças e desatinos da vida.