terça-feira, 21 de junho de 2011

Meia-Noite em Paris



Tributo à Cultura Parisiense

Os últimos filmes de Woody Allen ficaram bem aquém de sua capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações e neuroses do dia a dia. Principalmente depois que começou sua fase europeia, ao filmar em lugares distantes de sua querida Nova Iorque, assim foi em Vicki e Cristina em Barcelona (2008), decepcionante sob todos os aspectos, salvando-se tão somente Penélope Cruz; O Sonho de Cassandra (2007), um pouco melhor, com alguma graça e finesse; Scoop- O Grande Furo (2006) com certa dose de ironia, era muito irregular e sucumbiu.

Poucos filmes se comparam com Zelig (2003), uma das obras-primas de Allen; outras grandes realizações foram Dirigindo no Escuro (2002), Trapaceiros (2000) e Tudo Pode Dar Certo (2009), onde Allen escolhe com perfeição seu alter ego como Boris (Larry David), no papel do velho rabugento e neurótico, que tem por hábito insultar e humilhar seus alunos de xadrez, típico morador de nova-iorquino, que abandona seu estilo de vida com os amigos, buscando na boemia uma existência mais complexa; tem ainda o penúltimo filme que é Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (2010), uma produção menor na vasta filmografia deste genial diretor bergmaniano voltado para os acontecimentos do cotidiano, do amor, da paixão desenfreada, os fracassos do ser humano e o pessimismo com o mundo das pessoas amarguradas. É quase consenso que o melhor filme dos últimos anos de Allen foi Ponto Final- Match Point (2005), na fase pós-EUA, filmado em Londres.

Já inesquecível foi o soberbo, talvez o maior filme do velho mestre, A Rosa Púrpura do Cairo (1985), naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela e indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película, para fugir do martírio de sua vida cotidiana na época da Grande Depressão dos EUA. Há um forte relacionamento afetivo com o personagem fictício. Realidade e ficção se misturam e a garçonete passa a ter uma nova perspectiva de vida. Insuperável pela magia e pela beleza plástica deste fabuloso filme, que é retomado de certa forma agora em Meia-Noite em Paris, numa viagem fantástica à boemia e os interiores da Cidade Luz.

A comédia romântica traz de volta a Paris Woody Allen, que dançara com Goldie Hawn, às margens do rio Sena, no longa-metragem Todos Dizem Eu Te Amo (1996), agora na pele de Gil (Owen Wilson), um roteirista de filmes babacas em Hollywood, nada mais é do que o seu alter ego, bem elaborado e interpretado pelo ator de Marley e Eu , Penetras Bons de Bico 1 e 2 e Entrando numa Fria. Gil quer mesmo é escrever um grande romance e decide viajar com a noiva Inez (Rachel McAdams) e os pais da garota (Kurt Fuller e Helen Mimi), protótipos americanos simpatizantes do partido republicano, adoradores de Bush, mas já no início do filme Allen dá uma cutucada, ao lançar farpas sobre a alegação mentirosa para invadir o Iraque. Há uma certa controvérsia e desgosto do futuro sogro para com o abnegado e apaixonado pretendente a genro pela cultura parisiense, de seu cenário maravilhoso pelas ruas tanto com sol, como com as belas imagens da chuvarada.

O filme dá uma guinada logo de início, quando Gil e a namorada discutem numa festa se devem voltar caminhando ou de carro para o hotel, pois o rapaz prefere curtir cada rua, a lua e o rio Sena, contrariado pela garota consumista, típica patricinha americana, de pouca cultura, só voltada para suas compras, pouco se importando com a parte cultural. Sendo voto vencido, volta a pé, mas antes de terminar o percurso, recebe um convite para uma carona num velho Peugeot, carro típico dos anos 1920. Como recepcionistas no veículo estão Scott Fitzgerald (Tom Hiddeleston), autor da obra-prima O Grande Gatsby, morto há mais de 70 anos, e sua esposa Zelda (Alison Pill), que o propiciam uma viagem fantástica ao túnel do tempo com personagens como Ernest Hemingway (Corey Stoll) como um homem beberrão e mulherengo; Cole Porter (Yves Heck); Luis Buñuel (Adrien de Van); Pablo Picasso (Marcial di Fonzo Bo); Matisse (Yves-Antoine Spoto); Salvador Dalí (Adrien Brody); a poetisa feminista Gertrude Stein (Kathy Bates) e outros personagens históricos.

A Cidade Luz oferece a boemia, o charme e a beleza, tornando-se acolhedora culturalmente como escreveu Hemingway em seu livro Paris É Uma Festa (1951). Allen mostra o Museu de Rodin, onde a guia é interpretada pela primeira-dama francesa Carla Bruni, de atuação medíocre. Mas tem para encher os olhos na trama a modelo Adriana (Marion Cottilard-sempre bela e talentosa), dividida entre dois corações (Picasso e Modigliani) e inspirando Gil pela atmosfera efervescente da Belle Époque dos anos de 1890, mas prefere mesmo é a época Renascentista, sendo secundada pela vendedora de livros Gabrielle (Léa Seydoux).

Não falta nem a velha pílula do futuro Valium, quando Gil dá para Zelda Fitzgerald antes dela tentar pular no rio Sena, num instinto suicida e que demonstra que nem tão maravilhosos eram aqueles idos dos anos 20, sem os grandes ansiolíticos e antibióticos. Porém tem seus valores históricos e glamourosos como a chamada “idade de ouro” parisiense com seus cafés, bistrôs, parques, rio Sena, pontes, as praças floridas e os mitológicos boulevards nos bairros Montmartre e Montparnasse, da Torre Eifel, do Museu de Louvre ou da Catedral de Notre Dame. Com chuva ou com sol, à noite ou durante o dia, sempre é uma festa para olhos e para a inteligência civilizatória de uma cidade emblemática, que tenta se distanciar da barbárie e da violência hoje tão frequentes nas grandes metrópoles sucumbidas pela claustrofobia do medo.

Allen sempre foi um cineasta de uma reflexão mais pessimista, mas desta vez leva os espectadores até os píncaros edificantes de um filme singular e magnífico, ao transpor as barreiras da ficção pragmática, mergulhando na fantasia e nos sonhos, deixando a realidade como fator secundário, não sem antes dar algumas alfinetadas nos americanos estereotipados e engajados com o consumismo e com as guerras frias. O imaginário fantástico flutua e flui com harmonia e beleza plástica inconfundível, num roteiro enxuto, numa estonteante magia de um cenário que funciona como um colírio para os olhos, faz desta película uma agradável e marcante obra que atinge todas as camadas de apreciadores da sétima arte. Difícil é não gostar de Meia-Noite em Paris, pois quando a fita chega ao seu epílogo, fica o gosto de quero mais.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Homem ao Lado















Janela da Discórdia

Novamente vem da Argentina um filme com uma temática aparentemente muito simples, mas enganosa, diante da reflexão magistral da privacidade e das relações em sociedade, que faz desta película uma obrigatoriedade aos cinéfilos em assisti-la. Sem tomar partido dos protagonistas, deixando o enredo correr, para uma final aonde certamente se chegará à proposta dos seus diretores, tendo em vista a complexidade dos seres humanos pelo paradoxo da harmonia com o conflito e os valores que são dados às vidas e às amizades.

Já está se tornando corriqueiro nos filmes procedentes da Argentina terem características muito peculiares nas suas abordagens como a sutileza e a sensibilidade. Nos temas discutidos há a busca como mote a simplicidade, deixando os grandes cenários em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e às conclusões filosóficas de vida e relações humanas tangenciadas pelo clima hostil ou pela solidariedade, como visto nas obras de Carlos Sorín com Histórias Mínimas (2002), O Cão (2004) e A Janela (2008); Pablo Trapero com Família Rodante (2004), Nascido e Criado (2006) e Abutres (2008); Lucrécia Martel com a obra-prima O Pântano (2001); Marcelo Piñeyro com o belíssimo Kamchatka (2002); Paula Hernández, com o comovente Chuva (2008), e outros tantos cineastas comprometidos com o cotidiano e com as coisas simples e belas da vida, muitas vezes invadidas ou perturbadas por problemas familiares, ou pela crise econômica que assolou o país vizinho e que ainda não se afastou totalmente.

O Homem ao Lado é mais uma dessas maravilhas portenhas que chega às telas brasileiras, numa trama em que Leonardo (Rafael Spregelburd) é um professor de arquitetura e designer muito descolado, sua mulher é esnobe e gélida (Eugenia Alonso), a filha é uma pré-adolescente sempre com os fones enfiados nos ouvidos, distante, quase uma legítima rebelde sem causa (Inés Budassi), assistidos pela empregada. Vivem numa casa singular em Buenos Aires, a única projetada na América do Sul pelo arquiteto franco-suíço Le Corbusier (1887-1965), um dos ícones do modernismo, motivo de visitas frequentes e rotineiras por curiosos e alunos de arquitetura.

O casal e a filha vivem num mundo tido como perfeito, até que um dia as batidas ensurdecedoras em uma de suas paredes despertam para o que vem por aí. Do outro lado está o vizinho Victor (Daniel Aráoz- em soberba atuação, arrasa com o resto do elenco), um homem abrutalhado, de voz poderosa, metido a conquistador barato, por ser um colecionador de armas dá um tom assustador, porém é generoso, de bom coração e solidário, como se evidencia na cena final. O que quer é apenas um pouco de sol no seu minúsculo apartamento em que vive com um tio deficiente. Os diretores Mariano Cohn e Gastón Duprat tiveram muita sensibilidade ao relativizar a amizade, a solidariedade e os problemas de vizinha, a invasão de privacidade e o medo como ingredientes para colocarem frente a frente Leonardo e Victor, num duelo de palavras e argumentos inimagináveis, com tiradas e sacadas inteligentes, nesta notável comédia dramática.

Os conflitos familiares ficaram em segundo plano, mesmo assim são reiteradas vezes enfocados, como no diálogo de Leonardo com a filha rebelde nas atitudes e inconformada pelo silêncio com o vazio existencial entre ela, a mãe e o pai. As causas não chegam a serem abordadas, ficando uma distância entre eles a ser decifrada; como também na procura por sexo com a esposa fria, que sempre dá uma boa desculpa, até que acaba assediando uma aluna. Mas o duelo dos vizinhos com seus problemas vão sendo escancarados. Leonardo não aceita a invasão da privacidade por aquela janela disforme, que poderá lhe controlar sua vida e tirar o brilho de sua mansão, com o apoio irrestrito da esposa. Já Victor tenta se aproximar, manda flores para a mulher de Leonardo, dá uma escultura de armas velhas para seu vizinho, visando conquistá-lo e persuadi-lo da construção daquela janela, que irá lhe propiciar a entrada de sol em sua residência acanhada e mal iluminada.

O conflito e a intransigência são fatores fortes da discussão e da peleia de dois tipos de argentinos: um é Victor, o protótipo charmosão, bom papo, convida o oponente para tomar uma cerveja nas proximidades e busca dialogar à sua maneira, tentando resolver o impasse; o outro é Leonardo, um argentino cosmopolita, com problemas pessoais, frio e vazio, tal qual sua família, se distancia dos demais, mora muito bem e quer distância dos comuns, odeia problemas e ter que resolver situações conflitantes. Tudo gira para si e seus familiares, como se fosse uma espécie de umbigo do mundo, por ser detentor da sabedoria e do modernismo.

O embate entre os vizinhos e os diálogos inicias nos remetem para uma clara alusão de Cohn e Duprat ao mestre Alfred Hitchcock, pela obra prima-prima Janela Indiscreta (1954), na incessante discussão da privacidade sendo invadida por um voyer. Embora a barbárie esteja metaforicamente embutida no clássico duelo e no rancor que vai até as últimas consequências, como na reveladora cena final, do assalto à mão armada e a solidariedade sendo vista como uma forma melancólica de vingança. Fica marcada inexoravelmente na tela que os valores de uma casa sem os obstáculos são bem mais significativos e maiores que uma vida agonizante. A morte tem seu significado e defenestrar o próximo pode ser festejado, não importando ser uma tolice abjeta. Um magnífico filme de reflexão sobre o ser humano.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Chuva

















Buscas do Passado

O cinema argentino tem características muito peculiares nas suas abordagens como a sutileza e a sensibilidade nos temas discutidos, embora muitas vezes o cenário fique em segundo plano, dando-se mais importância para o roteiro e a sua eficácia como meta a ser atingida. Diretores como Carlos Sorín com Histórias Mínimas (2002), O Cão (2004) e A Janela (2008); Pablo Trapero com Família Rodante (2004), Nascido e Criado (2006) e Abutres (2008); Lucrécia Martel com a obra-prima O Pântano (2001) e A Menina Santa (2004); Marcelo Piñeyro com o belíssimo Kamchatka (2002), e outros tantos que se podem dizer como cineastas comprometidos com o cotidiano e com as coisas simples e belas da vida, muitas vezes invadidas ou perturbadas por problemas familiares.

Vem surgindo lentamente uma nova diretora neste rol elencado, embora ainda com alguma dificuldade de elaboração e conclusão de uma obra maior, Paula Hernández, com este bom Chuva, vencedor do Prêmio do Júri e Fotografia no Festival de Cinema de Gramado de 2009, com uma linda fotografia, que marca a tonalidade gris típica dos dias chuvosos. Antes já fizera Herencia (2001), onde uma italiana que chegou à Argentina logo após a 2ª Guerra Mundial, em busca de seu grande amor, sem conseguir encontrá-lo, decide permanecer no país como dona de um restaurante.

O longa-metragem traz no acaso e na precipitação do tempo, com aquele aguaceiro interminável por três dias, levando ao encontro duas pessoas perdidas numa metrópole comprometida com um trânsito caótico e enlouquecedor, completamente abarrotado de carros num mundo que parece não ter saída. Servindo assim como figura de uma metáfora das intermináveis enrascadas que cada ser humano pode ter no seu dia a dia. A fuga de uma pessoa leva ao abrigo e ao encontro da desolação de outra que tem suas perdas corroídas e com as feridas abertas de uma separação mal resolvida. Chove muito em Buenos Aires, assim como poderia ser no México, São Paulo, Rio ou Porto Alegre. Uma jovem mulher que tem no nome sugestivo toda a sua fibra e a cara da tristeza Alma (Vanessa Bertuccelli- de desempenho magnífico e comovedor, também protagonizou em Clube da Lua e XXY) dentro de seu automóvel parado no trânsito, sob uma torrencial chuvarada, vê um homem barbudo e sangrando na mão Roberto (Ernesto Alterio, de fraca atuação) entrar e sentar ao seu lado, invadindo sua privacidade e logo comendo seu sanduíche, mostra-se atônito e encharcado, com frio e angustiado, tem um blusão alcançado pela perplexa motorista.

Nenhum dos dois parece disposto a contar sobre suas vidas pessoais, procurando esconder seus segredos que serão revelados em seguida. Surge o paradoxo de dois estranhos sentados num veículo parecerem estar tão próximos e aflitos para se comunicarem e abrirem seus corações. Roberto e Alma estão contraditoriamente unidos pelo destino de um temporal e de uma inundação sem fim. Porém deste encontro puramente casual, pode-se perceber a descoberta de cada um e a ampliação dos valores que serão dados à vida, a partir deste momento inusitado com o reencontro de suas identidades. Mas a constatação crucial vem com as revelações da construção das perdas e buscas do casal na metrópole que engole ambos, no caso Buenos Aires serve de cenário deste encontro e das confissões de solidão e desatinos. Sem ter para onde ir, sendo a única pessoa pela qual se sente a vontade para contar detalhes da vida é aquela criatura estranha ao seu lado, Roberto relata que faz 30 anos que não vem ao seu país. Sua viagem agora é para encontrar um desconhecido de afeto e carinho, mas que nada mais é que o seu pai que está na finitude, ligado à musica, lembra apenas de suas mãos tocando piano. Neste aspecto a diretora remete para o filme Tetro (2009), de Francis Ford Coppola, tendo na visita ao escritor recluso e sem sucesso, desaparecido dos EUA há mais de uma década, o irascível Tetro recebe a visita de seu irmão mais novo, um jovem de 17 anos, que vai procurá-lo em Buenos Aires. A fuga de casa tem um segredo familiar e um mistério guardado a sete chaves.

O longa mostra o sofrimento de Alma, que de forma repentina chora copiosamente sem explicar suas motivações, tentando esconder o abalo emocional da separação e do lar, acaba por adotar o carro como sua residência e lá vive, sem tomar banho ou perfumar-se como qualquer mulher normal. Fuma muito, come pouco, tem um olhar perdido no horizonte emoldurado de forma magnífica pela poesia da chuva que tamborila no capô e nos vidros do carro-casa. Por outro lado, Roberto custa a esclarecer as razões pelas quais estava machucado quando conheceu Alma, até que num restaurante, ainda sob o impacto da forte tempestade, conta sua vida particular e seu sofrimento naquela Buenos Aires que lhe é tão fria, distante, estressada, onde as pessoas não se veem, com rostos anônimos, assim como seu relacionamento paterno.

A intimidade entre os dois vai se direcionando para um final previsível, após as confissões e revelações de seus estados civis. Consolida-se uma amizade entrecortada por desejos e frustrações amorosas. Aos poucos, o espectador começa a desvendar as precariedades e objetivos dos dois. A película é uma obra madura mas menor, longe de retratar ou refletir com profundidade o comportamento humano, buscando na trama de dois estranhos solitários que se encontram fortuitamente, que descobrem algumas afinidades. Chuva tem um defeito grave de direção que é o direcionamento da previsibilidade, dando elementos e subsídios claros e inequívocos do epílogo. Mas tem outras virtudes inerentes de um bom cinema, como a reflexão dos solitários perdidos numa barulhenta cidade entre ausências, saudades e medos nas buscas pessoais e seus desejos complexos.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Homens e Deuses














Religão e Política

O longa-metragem Homens e Deuses com a brilhante direção de Xavier Beauvois foi o vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes de 2010. Premiado ainda com o César (o Oscar francês) para melhor filme, fotografia e ator coadjuvante para Michael Lonsdale. Baseado em fatos reais ocorridos em 1996, no interior da Argélia, onde um mosteiro com freis franceses em missão pacífica vive harmoniosamente com os moradores muçulmanos, é o alvo da intolerância religiosa e política daquele país africano em convulsão social.

De um lado, um governo truculento que acusa a França de imperialismo e responsável pelo atraso, pobreza e inferioridade de seus cidadãos- numa crítica velada e verdadeira-, sugerindo profeticamente a retirada imediata dos religiosos para salvar-lhes suas vidas, chegando ao cúmulo de proibi-los de prestar ajuda ou qualquer auxílio para os opositores enfermos. De outro lado, um grupo de manifestantes fundamentalistas islâmicos que procuram remédios e dinheiro no mosteiro, sem qualquer cerimônia, justamente na noite de Natal. Os oito monges que ocupam aquele lugar singelo entre os humildes, com o intuito de pacificação, logo se veem acuados na comunidade muçulmana pobre e carente de recursos, tendo no frei Luc (Michael Lonsdale, em atuação singular e irrepreensível) um médico atento para todos os momentos e com os problemas de saúde daqueles sofridos seres humanos sem assistência do governo.

A intransigência dos homens do governo e dos fanáticos islâmicos colocam em ebulição e põem fim na paz daquele lindo lugar prazeroso, onde está plantado o mosteiro no alto da colina, com uma vista deslumbrante servindo de cenário àquele lugar que mais parece uma pintura desenhada num lindo quadro pelo impressionista clássico Renoir ou o barroco europeu Rembrandt. O diretor é cáustico e não poupa sequer a cena da degola dos croatas pelos rebeldes islâmicos, sem dó nem piedade; como também a chacina dos insurretos na estrada poeirenta e perigosa, comandada pelo ataque e execução sumária dos homens do exército governante. O filme tem uma eloquência de cenas com uma transição invejável, tendo em Beavois uma segurança precisa, mantendo o suspense e a elaboração do roteiro sempre num tom de expectativa e com uma densidade poucas vezes vista nos filmes atuais, mais preocupados em apresentar as últimas inovações tecnológicas como a febre do 3D.

Uma cena marcante que deve ser ressaltada é a do helicóptero sobrevoando a casa religiosa com seu ronco ensurdecedor e atemorizante, mas direcionando a câmera aos freis que demonstram também serem humanos e revelam suas fragilidades, medos e anseios inerentes aos mortais, pois de deuses têm pouco, exceto a fibra e a crença como clamor de uma fé por uma luta inglória. Mas nada se compara com a cena da última ceia, talvez a mais bela filmada pelo cinema nas últimas décadas. O frei e médico Luc serve vinho a todos os companheiros religiosos e coloca uma fita cassete de O Lago dos Cisnes, de Tchaikovsky, com a câmera percorrendo o rosto de todos os demais monges, fechando em close-ups um a um, inclusive no líder Christian (Lambert Wilson- de atuação estupenda) que deixa sua emoção contagiar o grupo, ao derramar lágrimas de sufoco, tensão e angústia, como uma redenção de amor ao próximo e arrependimento pelo pior que poderia acontecer ao som da música que toma conta do ambiente.

Fé e coragem são demonstrações que não faltam, apesar do final pessimista, mas revelador de uma a intransigência animalesca e verossímil com a estupidez dos homens, principalmente quando mistura-se religião e política, sem o menor escrúpulo ou abertura para um diálogo próspero. Homens e Deuses tem no seu formato inicial e o cenário a lembrança de O Nome da Rosa (1986), de Jean-Jacques Annaud, logo se afastando, deixando que o roteiro pela sua contundência e grau de maturidade estética e formal, fizesse deste um filme magnífico e comovedor com seus cantos gregorianos, como no epílogo pela sua fotografia radiante na neve com um nevoeiro cinza-claro, remetendo para o apocalipse dos homens numa alegoria da morte, como se estivesse aproximando-se tragicamente.

Este é um drama francês que se insere como um dos melhores da temporada, pela sua elegância ácida de filmar e na sensibilidade narrativa, contrastando com a intolerância de classes e o fanatismo religioso islâmico fundamental extremado, tentando decifrar pelas várias citações bíblicas como se o mundo estivesse de cabeça para baixo, como nos créditos iniciais prenuncia: “vós sois deuses, todavia morrereis como homens”. Porém, pregar o bem tem um preço caro e logo são aviltados, dando lugar para o ódio e a violência, ainda que a Bíblia e o Alcorão estivessem lado a lado na pregação das rezas. Fica o sacrifício pelo ideal da fé religiosa tentada como demonstração de amor.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Feliz Que Minha Mãe Esteja Viva



















Maternidade Irresponsável

Com uma direção a quatro mãos de Claude Miller e Nathan Miller, tendo como roteirista Alain Le Henry, o longa-metragem Feliz que Minha Mãe Esteja Viva é uma boa e agradável surpresa neste 2011. Um filme quase maldito, após o produtor Jean-Louis Livi ter encaminhado para Jacques Audiard- antes de dirigir O Profeta- para fazer a adaptação em 1996, de um artigo de Emmanuel Carrère, mas que houve a desistência posterior, bem como também desistiu o autor do artigo meses depois de trabalhar no projeto.

O drama francês familiar centra-se na busca de Thomas (Vincent Rottiers, na fase adulta), filho adotivo do casal Annie e Yves (Christine Citti e Yves Verhoeven), por sua mãe biológica Julie (Sophie Cattani- em desempenho notável pelo convencimento do papel de mãe desnaturada e inumana). Aos quatro anos, o garoto interpretado por Gabin Lefebvre, é abandonado de maneira irresponsável junto com seu irmão, então ainda bebezinho.

Thomas nutre um ódio assustador e uma sensação melancólica de uma incontida raiva e revolta, que se materializa explicitamente ao completar 12 anos, persistindo até sua condição de vida adulta. A trama é elaborada em doses homeopáticas e é contada em três fases, mostrando os diversos momentos da construção psicológica daquele homem teoricamente insensato, mas que saiu de uma dolorosa infância, entrando numa pré-adolescência e dando de cara com a dura realidade do mundo adulto, buscando trabalho como mecânico numa oficina de carros, tornando-o um ser irracional em determinadas atitudes. O mote da busca da mãe biológica pelo filho adotivo, como lema principal de sua trajetória de vida, tentando a qualquer preço encontrar suas origens, sem ter bem ao certo se quer sua presença para perdoá-la e no amor esquecer seus rancores convulsivos nutridos durante toda sua existência, ou se é apenas para matá-la, como se fosse um psicopata.

Ao se aproximar da mãe e tentar conquistar seu amor frio e distante por vezes, como se não fosse uma pessoa de carne e osso, sente uma sensação de vazio, mas que aos poucos parece vai sendo superado, com um vínculo tênue, longe do amor maternal, mas que tem repercussão imediata nos pais adotivos, com uma discussão na justiça e o pai tendo sérios problemas de saúde. Feliz Que Minha Mãe Esteja Viva chega a insinuar situações edipianas, mas com o desfecho inusitado e trágico, é solenemente afastado pelos diretores na cena final em que Thomas pronuncia a frase que dá título ao filme, diante da presença arrasada da mãe biológica e da perplexidade da mãe adotiva, naquele julgamento em que Julie perdoa o filho pela loucura cometida, sem deixar de se culpar naquela intrincada e não menos delicada relação de mãe e filho.

O filme não tem por finalidade aparar arestas e sequer apontar culpados, embora as constantes gravidezes de Julie sejam contestadas pelo seu filho e questionadas ao extremo, ao reencontrá-la já com um novo irmãozinho de outro pai. Busca preencher o vazio deixado pelo abandono de anos, indo morar na casa da mãe gélida. Assume a figura paterna do garotinho, levando brinquedos e se esforçando ao máximo para que este não passe pelo que já passou. Confronta-se com o pai do seu novo irmão e cobra os horários preestabelecidos. Mãe e filho têm uma relação nada convencional, deixando os cineastas margens para sugestões e ilações como de Édipo com Jocasta na tragédia de Sófocles.

As sinalizações para um relacionamento edipiano se mostram já no início da película, quando Julie troca de roupa no quarto de um JK em que, sendo observada atentamente pelo filho, na época com 4 anos. Os movimentos lentos da câmera pelo corpo e seus membros superiores e inferiores com toques de languidez preparam e conduzem os espectadores suavemente para situações incestuosas no drama. Um outro filme que tem muito no relacionamento entre pais e filhos é Não, Minha Filha, Você Não Irá Dançar (2009), de Christophe Honoré, que se debruça e aborda com sensibilidade as lacunas e os conflitos familiares, os prazeres da vida e os seus incômodos restritos as suas peripécias e andanças multifacetadas, tendo na mãe a figura da falsa moralista e conservadora, embora com um passado nada recomendável para tanta tirania e proselitismo.

Este é um longa onde há a presença forte e constante de uma relação delicada e controvertida, que desconcerta por vez os menos desavisados, como visto recentemente em Eu Matei Minha Mãe (2009), de Xavier Dolan, onde nas cenas finais são reveladoras e perturbadoras, diante da expectativa não frustrada de um epílogo contundente e soberbo, como daquele jovem que se mostra forte e determinado, não passa de um ser frágil, carente e dependente do carinho materno especialmente, que tanto clamou e suplicou.

Enquanto Dolan usava a temática homossexual para apresentar suas reivindicações e mostrar seu amor e as relações edipianas, mexendo com dogmas e preconceitos nas turvas relações familiares; Christophe Honoré aborda o vazio e o microcosmo familiar com suas lacunas num falso moralismo existente numa sociedade conservadora na figura materna; Claude Miller e Nathan Miller usam o artifício da adoção e da maternidade sem controle e irresponsável, num filme que soa quase como um poema indigesto e dolorido, mas eficaz no seu contexto e na sua proposta que abrange com sensibilidade uma relação não convencional e permeada pela brutalidade com um amor distante, oriundos de vínculos corroídos pelo tempo.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Incêndios















Intolerância Nefasta

O canadense Denis Villeneuve é um diretor que vem tentando se firmar no cenário internacional desde Cosmos (1996); teve títulos ainda não traduzidos como Un 32 Août Sur Terre (1998), Polytechnique (2009); mas possivelmente seu melhor filme fosse Redemoinho (2000), antes da consagração definitiva com Incêndios, seu último longa de invejável performance.

A trama começa com a leitura de um testamento deixado pela mãe recém-falecida, dando a incumbência dolorosa para que os dois filhos descubram e entreguem uma carta para um irmão desaparecido e o pai do casal de gêmeos, tendo que voltar a um passado enigmático e triste, diante das poucas mostragens que lhes eram acenadas. Só poderão colocar a lápide na sepultura da mãe, após cumprirem suas enfadonhas tarefas documentadas expressamente em cartório. Villeneuve segue uma linha clássica de uma tragédia grega, mas sem se deixar levar por emoções exageradas ou choros incontidos, afastando sempre a pieguice. A mãe morta Nawal (Lubna Azabal) aparece em flasbacks contando a história, surgindo em diversos lugares marcantes de sua vida pretérita com passagens pelo terrorismo. Jeanne (Melissa Désormeaux-Poulin) é a filha que encarna na pele a própria mãe e segue literalmente seus passos tendo pouca ajuda do irmão Simon (Maxim Gaudette), que surge para ficar nas cenas finais, tendo um papel bastante participativo e decisivo.

Um longa-metragem sobre os dilemas, intolerâncias e devaneios das múltiplas guerras oriundas de divergências religiosas implacáveis, principalmente entre cristãos e muçulmanos, num cenário que tudo indica seja o Líbano, pelas constantes desavenças entre os povos irmãos, porém divididos pela nem tão singela opção religiosa, onde se estabeleceu um conflito interminável que gerou uma guerra civil de 1975 a 1990, num derramamento de sangue desnecessário se houvesse bom senso, mas que diante de um radicalismo exacerbado resultou em mais uma tolice absurda naquela região conflitada. As cenas vão sendo construídas meticulosamente, desde um início em que já se pressupõe que a violência está arraigada naquele lugar, como na estúpida execução pelos futuros cunhados do jovem ativista namorado da adolescente Nawal, mesmo que ela se encontrasse grávida, razão pela qual ao deixar seu testamento afirma que a infância é como se fosse uma faca na garganta a espreitar. Seu filho nasceu sob a égide do ódio e da barbárie, fruto de uma bestialidade descabida. Será o mesmo que receberá uma das cartas e o mundo implodirá aos seus pés, diante dos fatos e acontecimentos inusitados. Como numa ciranda o ódio que se transformou em vingança, restará numa dor que verterá e o possuirá por todo seu corpo e alma combalidos.

O cineasta tem na imparcialidade um de seus méritos incontestáveis, ao apresentar uma guerra sem vencedores, onde todos são vítimas, inclusive o próprio carrasco e torturador, que é fruto de um sistema de incivilidade das pessoas levadas por uma causa religiosa fanática. Está bem demonstrado na cena do ônibus incendiado pelos cristãos, com a conversão da mãe pela causa muçulmana, prevalecendo o instinto materno na convincente cena da execução, onde tenta proteger a criança inutilmente. O filme tem um nível dramático permanente do início ao fim, sem perder ou diminuir a intensidade, num final perturbador e revelador, onde há uma desintegração total dos valores, restando como cacos de vidros recolhidos de uma contundência devastadora e o epílogo se enquadra numa apoteose de arrasa-quarteirão.

O diretor critica implacavelmente a tortura, a guerra e os dogmas do fanatismo das religiões, sem fazer objeções ou preferências, num cenário que lembra em muito os filmes iranianos, com as longas sequências filmadas dos veículos nas estradas poeirentas, como na obra-prima O Gosto de Cereja (1997), de Abbas Kiarostami. Tanto pela coragem, como pela beleza plástica das imagens mesclada com a dor e o sofrimento dos três irmãos, a intransigência dogmática já viciada, todos vítimas de um sistema falido de vida e conduta, fazem de Incêndios uma obra maior e quase que inigualável na sua temática, inscrevendo-se desde já como uma das 10 melhores realizações passadas nas salas do Brasil neste 2011.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Poesia



Essência da Vida

Vem da Coreia do Sul este magnífico longa-metragem Poesia, um drama intimista com a ótima direção de Lee Chang-dong, onde a avó Mija (Jeong-Hie Yun- de atuação irrepreensível) vive às margens do rio Han, o segundo maior daquele país, com seu neto, um jovem adolescente problemático e abandonado pela mãe, filha de Mija. A senhora tem vários dilemas em sua vida, como ter que criar um garoto com enormes problemas de conduta e vida social, sem perspectiva de vida, vai mal no colégio, tem situações de rebeldia e ainda se envolve num estupro com seus amigos, decorrendo na morte precoce da menina que acaba por se suicidar.

Além dos problemas inerentes com a ocorrência policial e as investigações no inquérito, a mãe da garota chantageia os pais dos infratores em uma quantia vultosa para silenciar, vive em um local pobre na zona rural, aproveita-se do fato inusitado para tirar alguma vantagem financeira, deixando tomar corpo e forma o fato. Mas Mija se enche de coragem e começa a frequentar umas aulas de poesia, por indicação de alguns vizinhos. É desafiada por seu professor para escrever um bonito poema, sua vida toma um sentido diferente e já convalescente do Mal de Alzheimer, parece que tudo fica mais difícil e as contrariedades e controversas vão se acumulando no dia a dia.

Porém a dor de viver é anestesiada pelas palavras poéticas que ouve e escreve, como se fosse uma simbologia da luta e do seu amor pelas coisas lindas da vida, embora os percalços e as humilhações tenham que ser derrubados, como da relação carnal com seu patrão para obter dinheiro, numa clara e nítida repugnância pelo poder, tal qual visto no filme inédito comercialmente, que passou na última Mostra de Cinema de São Paulo, o bizarro Caterpillar (2010- lagarta), do diretor japonês Koji Wakamatsu, com seu inventário macabro e horrendo da sobra mutilada de um ser humano, com seus efeitos nefastos e devastadores, resultantes de uma reflexão pontual, faz com que as cenas que desfilam tenham o caráter da indignidade daquela criatura em forma de miniatura que sobrou da guerra.

Mas a persistência e a luta pela salvação do neto como ser humano lembra e nos remete para Mother- A Busca pela Verdade (2009), do diretor coreano Bong Joon-ho, de influência hitchcockiana com qualidade invulgar, ao aproximar o realismo do fantástico e desqualificar o possível culpado, buscando no jogo de valores sua visão crítica, como na cena inicial que mostra a mãe caminhando dentro de um campo de trigo e em seguida dança uma música, fazendo gestos tresloucados e enigmáticos, que terá a extensão no epílogo, poderá então o espectador fazer suas observações e conclusões desta senhora de cabelos grisalhos que busca freneticamente provar a inocência do filho deficiente mental, mas chamado com prazer pela comunidade de retardado.

Chang-dong não esconde sua inspiração do conterrâneo Bong Joon-ho, como também segue uma temática de reflexão da vida, sem apontar diretamente culpados que aparecem instintivamente nos dilemas diários, sem abrir mão da poesia e da beleza espontânea do cotidiano que a vida insiste na mostragem, apoiando-se na figura materna forte de Mija que começa a esquecer as referências familiares metaforicamente pelo esquecimento das palavras, assolada pela doença que começa a corroer-lhe, assim como o dilaceramento da célula da família já antes em ruína com a fuga da mãe e o retorno inesperado para saber notícias do filho adolescente problemático e encrencado com a justiça, mesmo naquela rua em que ele joga “frescobol” com a avó, num aparente clima calmo e silencioso, há a espreitar a dureza e o acerto de contas final, naquele gesto do policial ao abraçar-lhe quase que afetivamente.

Um filme digno e humano pela sua beleza contrastando com a dor arrebatadora da avó e a tragédia da menina violentada boiando no rio, com os fatos se intercalando no final. A busca da fotografia na igreja e a interferência direta no cotidiano dela e do neto, fazem desta forma que fique e faça parte de suas vidas na modesta residência que habitam, num choque de fraternidade e sacudida no adolescente, mas nunca sem deixar de buscar a essência de viver, tornam este longa com suas elipses adequadas num magistral depoimento de lucidez.

sábado, 16 de abril de 2011

Contracorrente



Triângulo Amoroso

O filme peruano Contracorrente aborda um triângulo amoroso homo/heterossexual, tal qual foi amplamente mostrado com mais propriedade no longa-metragem de Ang Lee, O Segredo de Brockeback Mountain (2005), onde dois vaqueiros são mandados à uma montanha para cuidar de um rebanho de ovelhas. Ambos nos seus vinte e poucos anos, começando a vida adulta, acabam se apaixonando um pelo outro. A relação, a princípio somente sexual, logo se transforma em carinho, solidariedade e amor.

O longa tem direção de Javier Fuentes-Léon, representante do Peru no Oscar de filme estrangeiro, tendo o triângulo de um amor proibido rodado na paradisíaca costa litorânea peruana, com a esplendorosa fotografia de Maurício Vidal tendo o melhor resultado desta película panfletária de viés totalmente voltada para a defesa gay. Afasta-se de uma profunda reflexão ou uma análise mais apurada dos problemas decorrentes dos preconceitos, incorrendo no mesmo erro de Xavier Dolan, no longa Amores Imaginários (2010), que busca fazer um filme mais leve e engajado na causa. Ou seja, uma pequena apologia para tentar manter um relacionamento num típico ménage à trois, ao colocar no centro da proposta de um "homo", um "bi" e um "hétero". Ficou longe de seu primeiro filme, o profundo e magnífico Eu Matei a Minha Mãe (2009).

O recurso já batido de recorrer ao sobrenatural, tal qual foi feito no filme Ghost- Do Outro Lado da Vida (1990), já mostra a fraqueza do diretor em abordar abertamente o tema. O casal ao andar de mãos dadas pela comunidade de pescadores, sem serem vistos inicialmente, em nada acrescenta, a não ser uma tese surrada e batida da obscuridade do amor e da revelação ser deixada para o gran finale, esquivando-se da afronta. A trama tem o pacato Miguel, a esposa grávida Mariela, e o futuro herdeiro Miguelito, surgindo de repente no vilarejo, quase do nada, para compor o triângulo do relacionamento o pintor Santiago, chamado pelos moradores de “Príncipe Encantado”. O filme começa num ritmo acelerado e com a promessa do roteiro se sustentar, o que acaba por não acontecer, pois a previsibilidade logo surge e os contornos melodramáticos são enfatizados, levando para uma sonolenta e condução pífia até o epílogo, intercalados por cenas da novela brasileira O Direito de Amar (1987), dirigida pelo interminável Jayme Monjardim e estrelada pelo saudoso Lauro Corona.

Javier tem um mérito: ele se esforça e busca inspiração em bons filmes, até em novela brasileira para difundir sua obra, embora o resultado seja precário. Louve-se a grande sacada inspirada no célebre filme O Sol por Testemunha (1960), do inesquecível diretor René Clément, ao resgatar o corpo no fundo do mar, trazendo as recordações do passado, surgindo com os fantasmas ressuscitados pelos pescadores que capturaram involuntariamente em suas redes aquele corpo deformado pelo tempo e que suscitará discórdias e traumas, tal qual a grande surpresa que causou na época o clássico francês, ao ser fisgado pela âncora do barco. O inevitável preconceito enraizado pelo tempo logo aflora naquela singela vila de pessoas pobres e de pouca cultura. Mas com o passar do tempo, parece que as coisas voltam ao normal, na pregação simplória de Javier, sem antes ter muita discussão e olhares feios, como da cobrança direta de Mariela para o marido tomar uma posição de “homem de verdade” e assumir uma posição definida de seu amor homossexual clandestino. Incita o parceiro de opção enrustida, causando chacotas e humilhação com piadas e um certo isolamento na comunidade, para um clareza fática.

Javier não chega a e definir e deixa obscuro o conflito de Mariela e seu constrangimento como mulher e mãe, que tem momentos que aceita a situação dúbia numa tranquilidade aparente e insossa; em seguida é radicalmente contrária e a lucidez parece escapar-lhe, flutuando numa indecisão contraditória. Até Miguel escancarar a situação triangular, tanto junto aos colegas como para a ela e a mãe de Santiago. A presença do corpo é definitiva e a culpa pelo ato brota, deixando o sentimento retornar como se fosse um fantasma a atormentar.

O filme é previsível e frágil num roteiro perdido e dúbio de intenções, até o epílogo com a apologia do amor homossexual sobrepondo-se sem amarras, como se exorcizassem todos os espíritos no mar, naquele ritual da morte e a cerimônia fúnebre sendo filmada de baixo para cima, do fundo mar para a superfície, numa técnica elogiável, embora não condizente com um filme confuso nos seus propósitos de arte e sem sutileza para sua causa defendida, pairando o resultado de um manifesto em forma de panfleto.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Em um Mundo Melhor














Manifesto Pacifista

A diretora Susanne Bier era integrante do controvertido Manifesto Dogma 95, nascido e propagado na Dinamarca, mas aos poucos está se desvencilhando. Ou seja, livra-se totalmente como neste seu último longa-metragem Em um Mundo Melhor, com uma produção bem mais arrojada e um custo mais elevado, longe dos princípios norteadores de uma câmara na mão, uma ideia de um cunho técnico com uma série de restrições quanto ao uso de tecnologias nos filmes, com regras quanto ao conteúdo das obras e seus diretores, radicalmente contra a indústria cinematográfica propriamente dita.

O longa trata de duas famílias que o destino fará que se cruzem por linhas tortas. Anton (Mikael Persbrandt, em notável desempenho) é um médico sanitarista que trabalha num campo de refugiados, num longínquo país da África em convulsão social, tendo um ditador que comanda as atrocidades, lembra em muito o Laurent Gbagbo, ex-presidente da Costa do Marfim, preso recentemente no suntuoso palácio do governo. Na Dinamarca, ficaram seus dois filhos e sua ex-mulher, a também médica Marianne (Trine Dyrholm). Os dois acabaram de se divorciar, embora Anton ainda tente a reconciliação e tenha lembranças amorosas. Seu filho mais velho, Elias (Markus Rigaard) sofre um insuportável bullying na escola, porém terá o apoio do imigrante recém-chegado de Londres Christian (Willian Johnk Nielsen), que acabara de perder a mãe por câncer e com a ajuda direta do pai Claus (Ulrich Thomsen), levando-a a eutanásia, sem o perdão do filho enlutado, que se mostra revoltado e com instintos suicidas e assassinos, tal qual o psicopata retratado em O Anjo Malvado (1993), com Macaulay Culkin, que também perdera a mãe.

Bier se debruça com elegância e eloquência na ideia do pacifismo e da luta obstinada por um mundo com outro cara, ao abordar de forma magistral as emoções humanas oriunda da dor, do amor, dos conflitos sociais e da vingança, inerentes ao ser humano e suas precariedades como espécie. A união dos dois garotos, sendo que Christian busca a vingança como instinto de preservação e soberania do macho, ao não suportar a ideia da morte da mãe induzida pelo pai, ainda que este ato fosse por uma eutanásia consentida expressamente pela esposa, rompe os laços de amizade com o pai como símbolo alegórico do fracionamento com o mundo, deixando que Claus se sinta na condição da paternidade ausente; já Elias apanha calado e se submete aos delírios demoníacos do amigo que lhe sopram nos ouvidos, tendo um pai conciliador que é agredido por um mecânico brutamonte e incivilizado, ao retornar à oficina dá o rosto para que fosse batido novamente, numa alusão a Cristo que oferece as duas faces e diz: "ele é um idiota e se bater nele, também serei um". Mas ainda não satisfeito com o que diz ao filho e seu amigo desejoso de vingança, prega com convicção: "é assim que as guerras começam".

Anton não é um modelo exemplar de marido, ao buscar sua reconciliação com Marianne, as vísceras do ressentimento são expostas pela mulher e o sentimento de tristeza pela traição aflora e o perdão fica difícil de acontecer numa clara alusão da diretora, de que não há anjos bons e nem todos são tão maus assim. Tudo é possível se consertar neste enunciado explícito do magnífico Em um Mundo Melhor. Mas as consequências trágicas no final e a redenção de Christian, ao receber o afeto de Anton, após seu choque frontal com Marianne, mostra o caminho pelo amor, da conciliação e dos conflitos humanos e suas emoções, enraizados na obra de Susanne, assim como Assuntos de Família (1994), Corações Livres (2002), Depois do Casamento (2006) e Coisas que Perdemos pelo Caminho (2007). O bullying, eutanásia e conflitos sociais com revoluções na África são novidades em sua filmografia arrebatadora, sempre voltada para as constantes questões sensíveis e humanitárias.

Nesta película vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2011, assiste-se paradoxalmente com prazer e angústia ao mesmo tempo, pois os contrapontos do roteiro são perturbadores, ao refletir os problemas dos adultos em consonância com dos pré-adolescentes conflitados com suas mágoas e reivindicações devastadoras e virulentas. Como não podemos fechar os olhos para os regimes ditatoriais que estão sempre na efervescência social da África, como no caso específico do longa.

A cineasta aborda com maturidade e serenidade nas questões do bullying, eutanásia e conflitos sociais da miséria de um povo, sem ter uma visão unilateral, mas voltada sempre para o debate e o pacifismo fundamental como pregação manifesta e objetiva da sensatez, sem se afastar dos dilemas que atordoam o absurdo dos corações e mentes das pessoas, nem deixar de cutucar com sutileza o direito da vingança.

Um filme maior e notável pelos temas abordados com a profundidade adequada, sem incorrer no discurso barato e vazio, insere-se como um elogiado manifesto pacífico num mundo acostumado aos atos violentos e chocantes de pessoas cada vez mais distanciadas das "coisas que perdemos pelo caminho", em homenagem a citação do título desta excelente cineasta dinamarquesa.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Rio

















Contradições da Cidade Maravilhosa

O longa de desenho animado Rio teve na direção e roteiro o cineasta carioca Carlos Saldanha, que também já havia dirigido A Era do Gelo 2 e 3 e Robôs, é um verdadeiro passeio turístico pela bela e maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, mostrando samba, futebol, carnaval e também os malefícios e contrariedades que estão impregnados por lá, como fizera timidamente antes o filme Alô Amigos (1942), através do papagaio Zé Carioca.

O filme já começa com o transporte ilegal de animais do Rio para Minnesota (EUA), de uma espécie rara de arara macho, cor azul, carinhosamente chamado de Blu, que será adotada pela simpática livreira americana Linda. O animal foi retirado das florestas brasileiras através do tráfico ilegal e contínuo de pássaros em extinção, algo que nem Avatar conseguiu, apesar de todo seu inesgotável aparato. A mocinha recebe a visita do ornitólogo brasileiro Luiz que propõe sua ida ao Brasil e levar Blu para reproduzir com a fêmea Jade, visando manter a espécie.

Mas a recepção na Cidade Maravilhosa não foi da melhores, pois logo há um sequestro da ave rara e a trama toma ares de aventura, levando a garotada a delirar em 3D, esta nova mania de filmar, diante dos inegáveis recursos tecnológicos sofisticados e altamente convincentes, que fazem adultos e crianças se embebecerem de prazer e êxtase no visual que o diretor propicia. Os pontos turísticos são meticulosamente colocados no cenário como pano de fundo, como Copacabana; o Pão de Açúcar; o Cristo Redentor; a Lapa; os desfiles de escolas de samba na Marquês do Sapucaí, colorindo com os carros alegóricos, as fantasias, as mulatas; toda a beleza em voos esplendorosos de asa-delta da Rampa de Pedra Bonita; as idas e vindas do Bondinho de Santa Tereza com os pássaros sobrevoando o local.

O desenho animado visto na versão dublada tem a magia e a originalidade do sotaque carioca maneiro e com seu malemolejo inerente ao povo do Rio, como na amizade dos pássaros cardeal Pedro e o canário Nico; assim como o magnífico personagem do cachorro buldogue Luiz e sua fantasia ao melhor estilo de Carmem Miranda; o carnavalesco tucano Rafael, que tem uma esposa possessiva e ciumenta, é pai de 17 tucaninhos, busca uma oportunidade ímpar para se divertir na folia maior, ao ajudar Blu e Jade a se libertarem das amarras, assim como ele próprio se sente preso no universo do casamento; o mau-humorado e perverso gavião Nigel, a serviço da turma de contrabandistas; os macaquinhos covardes e perniciosos colaboradores do gavião.

O diretor deu uma passada rápida e sem um aprofundamento maior nas favelas, embora seja o local onde os contrabandistas moram, sem que haja uma crítica contundente, ficando mais nas entrelinhas e na implícita retratação de um local perigoso e inseguro, ainda que apresentada a figura do negrinho órfão, que vive na rua e colabora com os bandidos que arrepende-se depois, seja fruto de uma infância conturbada. Saldanha tinha por objetivo evidente mostrar as belezas naturais e o encantamento das maravilhas do Rio, sem fazer uma crítica feroz às mazelas da cidade. O filme foi proposto ao divertimento e atinge em cheio sua meta, pois dificilmente alguém sai entediado ou de cara torcida da sala de cinema. Os aplausos são ouvidos sonoramente e as crianças tentam agarrar os pássaros na ilusão de ótica da terceira dimensão. Registre-se a bela fotografia de Renato Falcão e a agradável trilha sonora de Sérgio Mendes, com as participações de Carlinhos Brown, Bebel Gilberto e William.

Mesmo de forma simples, sem uma retórica esfuziante, há o alerta do tráfico de animais, especialmente aqueles em extinção, são solenemente deportados de nossas florestas brasileiras. Há o brado ecológico no sinal lançado de que muita coisa tem que melhorar na fiscalização, para se evitar que uma espécie única como da arara azul seja enviada para os EUA, sem sequer saber voar, diante do tratamento domesticado que ganhou, numa ironia fina e mordaz aos imaginários civilizados.