sexta-feira, 2 de outubro de 2009

À Deriva



Fragmentos de um Casamento

Uma relação fragmentada como cacos de vidro é o núcleo principal deste ótimo À Deriva, que dá mostra do ocaso pelas fragilidade já na primeira cena. Mathias, interpretado pelo insosso ator francês Vincet Cassel, trai Clarice (Debora Bloch), ao receptar o bife, na ânsia de proteger a filha. Surge a primeira metáfora do fim do casamento. Mathias é um escritor com dificuldades de terminar e comercializar seu romance, conta a história de uma mulher que trai o marido com um jovem 10 anos mais jovem.

O diretor Heitor Dhalia tem na sutileza e na imprevisibilidade como marca de suas qualidades, como já o fizera em seus filmes anteriores Nina (2004) e O Cheiro do Ralo (2006). Há uma homenagem a Ingmar Bergman, principalmente pela obra-prima do diretor sueco, Cenas de Um Casamento. Sua influência é notória e seu gosto bem apurado, pois buscou no mestre da alma suas inspiração maior. Há referência também a outro artesão das palavras e das cenas envolventes Robert Altman por Cerimônia de Casamento (1978). Um discípulo com todo vigor e merece e atinge neste filme À Deriva toda sua supremacia, arrojo e despojamento de um cineasta voltado para a profundidade, refutando obras de apelo fácil.

A película retrata a dor da separação e o sofrimento dos três filhos, em especial Felipa (Laura Neiva), uma adolescente de 14 anos -ao melhor estilo da inesquecível ninfeta Lolita, consagrada pelo festejado escritor russo Vladimir Nabokov- que começa a sentir o desabrochar de sua sexualidade, bem como os problemas emocionais aflorarem com o conflito de relacionamento dos pais. Procura a culpa no pai que se relaciona com a exuberante Ângela (Camilla Belle), não entendendo o que está se passando, do porquê das aventuras fora do casamento. Não há culpados, pois a fidelidade entre pai e mãe se esgotou, fundindo-se em perda irreparável. Resta uma união sobre areia movediça num pântano escuro e em desequilíbrio com a natureza, que está se diluindo e a finitude é iminente. Um microcosmo de uma crise de integrantes de uma família que está vivendo seus últimos dias sob o mesmo teto, com seus enigmas e retratos de sentimentos na tenaz busca de soluções.

Na paradisíaca praia de Búzios está o casal em atrito, na busca de férias e a solução para o impasse, entre os rochedos do mar que formam um belo cenário, que encanta pela sua plasticidade. No alto do morro está fincado um bangalô onde mora Ângela. Ali os fantasmas de Felipa irão se materializar e a conduzirá para as descobertas e revelações do passado em sintonia com as luzes do futuro se produzirão de forma encantadora, embora com inafastável ressentimento.

O longa traz uma reflexão da atmosfera de uma relacionamento desgastado pelo tempo, conduzindo para a abordagem de valores e transtornos invocados por Camila, ao afirmar que Mathias é uma pessoa complicada e complexa como seus personagens, prenunciam e indicam para o rompimento formal e definitivo de uma sociedade conjugal que já não mais existe. O final de pai e filha juntos mergulhando nas águas turvas de um mar revolto, com a finalidade metafórica da purificação, vai ao encontro da reconstrução familiar. Antes, já houvera o acidente do carro com a morte alegórica do cavalo, vem revelar o fim e o início de uma nova união, com a guinada implícita para a vertente de vidas reconstruídas. Os estilhaços da dor entranhados na alma e no coração de Felipa começam a se dissipar para a redenção em consonância com a libertação das amarras envoltas aos pais.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Enquanto o Sol Não Vem

















Monotonia sem Profundidade

Agnès Jaoui atingiu o ápice como uma notável cineasta no filme O Gosto dos Outros, no ano de 2000, sendo inclusive indicada naquele ano para a categoria de melhor filme estrangeiro ao Oscar. Um filme denso e profundo ao retratar um homem de negócios bem-sucedido, que ao assistir uma peça de teatro, encontra-se com a atriz principal, que havia sido sua professora de inglês no passado, vindo a contratá-la novamente. Porém, ao conhecer uma garçonete amiga da atriz/professora, atormentada pelo uso constante de drogas, sua vida se transforma e dá uma volta inesperada, brotando toda a solidão do seu dia a dia, pois é um executivo dedicado exclusivamente ao trabalho, excluído do mundo social e cultural, bem como das mazelas de uma sociedade doente. Uma autêntica obra-prima.

Agnès realizou Uma Questão de Honra (2004), ganhador de melhor roteiro em Cannes, filme que tem na personagem Lolita- uma gordinha infeliz por não se enquadrar no modelo clássico de beleza- a abordagem de fracassos dos outros três personagens pela perda da fé, esperança e por não obterem sucesso em suas vidas pessoais e profissionais. Ao se intelerligarem, os quatro personagens começam a aprender a lidar com a infelicidade na vida. Outra realização grandiosa que transmitia as perdas e fracassos do ser humano diante de seus insucessos.

Agora neste seu último filme, Enquanto o Sol Não Vem, a diretora dá uma grande derrapada e erra a mão. Frustra seus aficionados espectadores. A ideia central da obra fraqueja pela sonolência das cenas e pela inaptidão de segurança de roteiro. Agnès escreve, dirige e protagoniza uma mulher bem-sucedida Agathe que precisa lidar com a crise familiar. Passa 10 dias na casa da mãe falecida, no sul da França, tentando ajudar sua irmã emotiva e mergulhada em mágoas Florence (Pascale Arbillot) a reorganizar os bens patrimoniais da herança deixada pela mãe. Encontra seu cunhado, o sobrinho, uma antiga empregada que tem o filho Karim (Jamel Debbouzze) que está produzindo um documentário e ainda um jornalista distraído e atrapalhado Michel (Jean-Pierre Bacri), mas que questiona sobre a guarda de seu filho que injustamente vê apenas a cada quinze dias. Agathe não tem resposta do porquê a mulher geralmente tem prevalência do filho em detrimento do homem, mas sobre o questionamento dos produtores quanto aos subsídios, rebate que o governo e os políticos não têm culpa da chuva que cai incessantemente. Já Florence responde ao marido que os 14 dias de chuvarada com 5 minutos de sol são os culpados pelo seu estresse.

Suas ideias feministas ficam soltas e sem respaldo de uma causa construtiva ou que tenha um ideal comprometido com uma realidade. Agathe não consegue se desvencilhar de sua personalidade austera e trata a governanta, mulher simples que fugiu da Argélia, como se fosse sua escrava. Cria-se um paradoxo de pensamentos obtusos e retrógrados, em nada verossímil com seu fervoroso discurso, porém nada mais é do que uma ativista de alma vazia, procedendo como uma pessoa rancorosa eivada de preconceitos raciais. Deixa de analisar com clarividência os valores e as relações de um país na era contemporânea. Fustiga e não alcança seus objetivos num panfleto feminista ultrapassado, sem cores definidas de um mundo que deve evoluir para o fim das ojerizas raciais e o desprezo pela xenofobia. O filme é fraco, patina e não avança. Está muito centrado em Agathe e torna-se entediante, monótono e chato.

O longa-metragem traz no seu bojo uma similitude com outro grande filme francês, o soberbo Horas de Verão (2008). Mas fica só na semelhança do enredo, pois naufraga pela inconsistência narrativa da personagem principal, que não transmite a solidez política e o engajamento de uma defensora comprometida com os interesses da classe. A traição da irmã com o jornalista não tem eloquência e se perde debilmente, faltando uma abordagem profunda. Sobra como fator positivo o despertar no relacionamento de Karim com a jovem garçonete que ameaça ir embora para Paris, ao ver seu casamento se esboroar, alcança uma magnitude que leva a uma simbiose de amor e felicidade de dois seres perdidos e esfalfados pelo destino.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Gigante














Paixão Silenciosa

O cinema uruguaio está cada vez melhor e se continuar assim, logo encostará na melhor escola de América do Sul, que é indubitavelmente a Argentina. Teve um início meio tímido, mas em seguida engrenou com Coração de Fogo (2002) com direção de Diego Arsuaga, depois conquistou o público com Whisky (2004), de Juan Pablo Rebella- que se suicidou aos 32 anos, em 2006- e Pablo Stoll, para culminar com a pequena obra-prima O Banheiro do Papa (2007), dirigido por Henrique Fernández e César Charlone. Pablo Stoll dirigiu seu segundo longa Hiroshima (2009) que em breve será lançado no mercado nacional, promete ser outro estrondoso sucesso de junto aos apreciadores da sétima arte. Obtiveram grandes passagens por festivais, como Gramado, Berlim e Cannes.

Agora vem bater em nossas telas, oriundo do país vizinho, este pequeno grande filme Gigante, dirigido pelo estreante argentino radicado em Montevidéu, desde 2004, Adrián Biniez, que faz questão de enaltecer como produção uruguaia, pois escreveu o roteiro pensando nas coisas, pessoas e as ruas da capital do Mercosul. Galgou o Urso de Prata no Festival de Berlim (2009) e três Kikitos no Festival de Gramado (2009) de melhor ator, roteiro e prêmio da crítica, tendo injustamente perdido para A Teta Assustada, como melhor filme latino. Mesmo com um orçamento ínfimo de 600 mil dólares, com um ator estreante no papel principal de Jara, também conhecido como Jarita ou Gordo (Horácio Camandule, de 36 anos, 125 Kgs e seus 1m93cm), contracenando com Julia (Leonor Svarcas). Pequeno pelos seus 84 minutos que passam rapidamente, mas grande pela eloquência, num misto de criatividade com originalidade.

Jara é um segurança de supermercado que se apaixona silenciosamente pela faxineira sem graça, através da câmeras de monitoramento. Quase nunca fala, exceto raras vezes com seus colegas de trabalho e o sobrinho rechonchudo como ele, ao jogarem videogame. Poucas vezes fala, num filme onde o roteiro propositalmente remete para raros diálogos, onde as imagens demonstram sua grandiosidade e todo o esplendor pelos gestos de um homem gigantesco, apreciador de rock da pesada que adora fazer palavras cruzadas, na sua simplicidade de uma pessoa comum, mas de um coração enorme. Seu instinto quase que beira a irracionalidade conflitua com o ser amoroso e de baixa estima pela timidez inata.

Fica evidente a inversão de papéis como da humanização da besta ou do homem que se bestializa. Instala-se um jogo de gato e rato, com passagens fulgurantes de caçador e de caça. Do anjo da guarda passando para o ataque como uma fera incontrolável e não domesticada, bastando para tal, alguém colocar em risco sua protegida que dormita em seu coração. O longa é um poderoso drama da relações humanas, na vulnerabilidade de um homem com seus quase 2 metros de altura, torna-se impotente diante da amada platônica, magra, miúda, frágil, que o deixa transtornado, observando-a sistematicamente pelas câmeras no interior do ambiente. O clima tenso avança para o final, tornando-se iminente um desfecho que irá libertá-los das amarras de sua autocensura e do medo da rejeição.

O longa é denso e as vezes até cômico. Porém, há o clímax explosivo de raiva e ódio que irão transformar o pacato segurança num ser irracional, já prenunciado em cenas anteriores, como a do violento espancamento ao trucidar o motorista de táxi que ousou lançar farpas amorosas para Julia. Sua respiração arquejante, como de um animal selvagem acuado pelo amor, explode com a imposição da injustiça cometida pelo supervisor do supermercado, ao ser esmurrado junto com a demolição literal das gôndolas de alimentos. Há um duelo de poderes a serem decifrados entre o subalterno e o mandatário. Um filme com todos os subsídios psicológicos que levam do tom cômico para o drama magistral. O reflexo da violência implícita se exterioriza quando as evidências da negação da justiça se fazem presentes, refletindo na materialização.

Há evidentes influências de clássicos do cinema, como do célebre filme King Kong (1933), diante da desproporção entre Jarita e Julia, mas em ambos há a paixão fulminante pela fragilidade, como do gorila gigantesco que luta contra os dinossauros e a mocinha é jogada de um lado para outro, bem como no clássico infantil A Bela e a Fera dá conotações e seus ares de influência artística minimalista. Outra obra que o influenciou, mesmo sem ser clássico, é o ótimo drama O Guardião (2006), dirigido pelo argentino Rodrigo Moreno, abordando de maneira profunda a solidão e o silêncio de um guarda-costas de um ministro com a tolerância se esgotando dia a dia.

O final é quase que inusitado de Gigante, mas com todas as condições emblemáticas de uma harmonização do mar revolto precedido pela areia branca, assim como os diálogos cobertos pela mudez e indicadores de uma realidade prestes a se concretizar, mesmo que para tanto haja os contratempos naturais em vidas que se cruzam pelo acaso e se fundem pelo destino. Eis um filme para ser visto e não ouvido, diante da valorização da imagem em detrimento dos cansativos diálogos impostos por alguns cineastas descuidados.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Uma Canção de Amor


















Amizade Acima de Tudo

Em 1942, a Tunísia foi invadida pelas forças nazistas do poderoso exército alemão de Adolf Hitler. Havia uma forte propaganda contra a França que na época mantinha a soberania sobre os tunisianos. Os nazistas acusavam os franceses de protegerem o povo judeu, propiciando-lhes estudar em boas escolas e não usar túnica, e boicotarem os muçulmanos que eram obrigados a vestirem-se de modo inadequado e sem oportunidades de frequentarem bons colégios, razão pela qual conseguia receber certa simpatia e trazer aliados para sua frente de combate. Espalhavam à população manifestos de apoio dos EUA e da Inglaterra à França, fazendo-de bons samaritanos e protetores dos sofridos norte-africanos. Este é o fulcro político principal do comovente filme Uma Canção de Amor, dirigido com exatidão por Karin Albou.

No meio da guerra, com o incessante espocar de bombas e os toques de sirenes ensurdecedores, há uma grande e digna amizade de duas jovens de 16 anos. Myrian (Lizzie Brocheré), com seus graúdos olhos azuis dentro de sua beleza infantil, é a judia que viviam na mesma comunidade, mas passou a dormir na casa de sua inseparável amiga muçulmana Nour (Olympe Borval), uma adolescente de olhar meigo e doce, de corpo juvenil, mas sedutora do primo prometido de casamento Khaled, que passa a ser um colaborador oportunista das terríveis forças alemãs no transcorrer do filme, entregando inclusive Myrian e sua mãe Tita (Karin Albou- que também dirige), fazendo-a perder o emprego e entregar a filha ao médico rico tunisiano Raoul, que também alia-se aos nazistas, traindo colegas e o seu povo indignado, com participação acentuada nas operações do campo de concentração e trabalhos forçados aos judeus.

O longa-metragem traz evidências de situações constrangedoras, arranhando até a amizade das duas garotas, como de Khaled que tenta forçar a ruptura do elo entre sua recém esposa com Myrian. Determina que Nour passe a ler o Alcorão, com passagens de ensinamentos contrários aos cristãos, onde deva converter-se ao islamismo, pois quem contraria o Deus Islã será punido pelo grave pecado. Mas há o pai, pessoa simples, porém de cultura e sabedoria invejáveis, quando aponta para o próprio Alcorão e outras parábolas e verdades que a fazem refletir sobre os valores da vida, como as ideias de negar o Cristianismo e abandonar sua amizade de infância. Cenas magníficas, que são retomadas pela diretora, pois já o fizera anteriormente no belo A Pequena Jerusalém (2005), onde prega um mundo de convivências harmoniosas entre muçulmanos e cristãos, judeus e árabes.

Uma Canção de Amor tem o viés da imparcialidade e o condão da isenção, afastando de vez todo e qualquer ranço religioso ou político. Sua neutralidade conduz e faz um notável filme. Coloca em xeque os dogmas das religiões para serem discutidos, sem eventuais preferências. Fica latente as irracionalidades e os seus contrastes com os interesses políticos de uma guerra patrocinada pela Alemanha, onde joga e se insinua maliciosamente para os muçulmanos. Os choques de deuses e religiões se misturam no conflito de um povo que tem seus País tomado e vilipendiado por outro.

A talentosa diretora consegue extrair de seu bom elenco, uma metáfora significativa da lealdade e do amor das meninas, contrastando com a truculência dos adultos e dominadores de um mundo tumultuado por interesses econômicos, políticos e religiosos. A pujança desta película fica entranhado na alma do espectador que absorve lentamente toda magia de um cinema voltado para o realismo e a denúncia.

O cenário é condizente com a época, numa bela fotografia e roteiro correto. Cabe gizar uma cena reveladora, ao mostrar de forma singular o sono de Myrian sendo interrompido pela orquestra das botas dos soldados ecoando pela madrugada, num prenúncio de dias tenebrosos e noites negras que virão.

Apenas a se lamentar, a meteórica passagem pelos cinema da capital gaúcha, ficando menos de 15 dias em cartaz.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Manhã Transfigurada


















Manhã Póstuma

O primeiro longa gaúcho totalmente produzido no interior do Rio Grande do Sul, na cidade de Santa Maria, vale mesmo pelo esforço da equipe técnica e da produção. Seu diretor Sérgio de Assis Brasil faleceu em 2007, antes de terminar a obra, que levou mais de 10 anos para ser concluída. Coube ao produtor Álvaro de Carvalho Neto terminar bravamente Manhã Transfigurada, lançado agora em Porto Alegre e nas principais capitais brasileiras, entre as quais Rio de Janeiro e São Paulo. Antes houvera uma sessão especial no Festival de Gramado de 2008 e uma pré-estreia na cidade que fora produzido e rodado.

O longa foi adaptado do livro do festejado escritor Luiz Antônio de Assis Brasil, primo do diretor, que pretendia realizar primeiramente uma minissérie, mas ao obter verbas por patrocínios, incentivos legais, optou pelo cinema, com uma tenacidade elogiável na busca de recursos e apoios da iniciativa privada. Gustavo Assis Brasil, filho do cineasta, criou e gravou a trilha sonora em 2004. Percebe-se claramente os diálogos serem dublados e o artificialismo puro das cenas mais dramáticas, tendo em vista as dificuldades com o som direto, diante dos problemas de áudio. É inegável que Sérgio foi um incansável desbravador pela paixão que nutria pela sétima arte. Esta óbra póstuma deve ser prestigiada, pelas dificuldades sabidas de se elaborar, produzir e colocar no mercado uma película sem apelos comerciais e afastado de uma mídia poderosa como a da rede global que enaltece e arrasta multidões para assistir os intragáveis Os Normais, Se Eu Fosse Você 1 e 2, filmes da Xuxa e da Turma dos Trapalhões, subprodutos da televisão.

Os desacertos são muitos na produção, entre os quais o forte sotaque do interior gaúcho, dando uma conotação muito regional para o filme. Obstaculiza desta maneira uma trajetória que poderia ser alvissareira, inviabiliza portanto uma comercialização nacional e um público mais eclético. Peca fundamentalmente pelo simplorismo do roteiro, onde uma moça é ofertada pelo pai para cobrir as dívidas de sua fazenda, no final do século XIX, porém o marido descobre não ser virgem sua esposa na noite de núpcias, buscando a anulação do casamento, deixando-a trancada em casa com sua governanta. Também o final é por demais previsível, numa tentativa forçada de tragédia grega, onde estão envolvidos os sacristão apaixonado e o padre como fruto da nova paixão da jovem estigmatizada pelo esposo, um estancieiro rico mas de uma grossura imensurável.

Os valores como religião, moral e família poderiam ser mais aprofundados. A superficialidade é reinante e a história segue seu périplo sem qualquer contestação, embora haja um conflito bem nítido como da carne e do espírito, provocados Camila, tanto no padre com seus sonhos e devaneios, como no seu ajudante de ordem que chegou as vias de fato, apaixonando-se loucamente pela mulher mais hostilizada da paróquia.

O longa gaúcho segue uma narrativa complicada, pois o roteiro tem uma predileção por novelas de época das 6 da tarde da Rede Globo, como Sinhá Moça, Escrava Isaura, Paraíso, Cabocla, entre outras. A fotografia é alentadora no emaranhado do filme. Quem se salva mesmo é a bela atriz Manuela do Monte, de 17 anos à época, com seus cabelos cacheados, de rosto fulgurante, sedução nos olhos e inocência da fala e corpo esguio, no papel da pseudoexilada Camila, que hoje brilha na novela Paraíso como Tonha. Outro erro é o elenco, exceto a atriz referida, pois o tom teatral em forma de jogral leva as representações a sucumbirem irremediavelmente, diante da farsa dos atos com caricatos diálogos.

Manhã Transfigurada segue uma linha convencional linear, afastando qualquer tipo de surpresa, do início até o final. É notória a sensação do déjà vu. Até o filme Concerto Campestre que passou há alguns anos, também retirado do livro do escritor Luiz Antônio Assis Brasil, dá um resultado bem melhor, com algumas semelhanças e proximidades de roteiro, abordando de forma mais clara e contundente os costumes do interior do Rio Grande do Sul. Fica o esforço comovedor da produção, porém o resultado é decepcionante, restando a semente deste diretor e pioneiro do interior gaúcho.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Teta Assustada















Traumas do Estupro

O cinema da América do Sul tem na Argentina seu polo principal. Pode-se discutir a sequência, talvez seja Brasil, Chile e Uruguai, pela ordem de importância. Porém, o que é incontroverso é que o Peru não tem tradição de uma boa filmografia. Seus diretores são quase que desconhecidos do grande público. Porém, agora surge dirigindo com grande força Claudia Llosa- sobrinha do festejado escritor peruano Mário Vargas Llosa- já demonstra qualidades neste seu longa A Teta Assustada, com reconhecimento em vários países, entre eles aqui no Brasil, quando arrebatou o Kikito de Melhor Filme Latino, Melhor Diretora e Melhor Atriz para Magaly Solier no Festival de Gramado, edição de 2009. Tem também na bagagem o celebrado Urso de Ouro, para Melhor Filme no Festival Internacional de Berlim deste ano.

A premissa do longa parte dos medos e traumas da jovem Fausta que assiste, como ela mesmo enfatiza, todo o estupro de sua mãe de dentro da barriga, quando os fascínoras tentam fazer com que a estuprada comesse o pênis cozido do pai, preferindo morrer a cometer tal barbárie. Há enigmas a serem percorridos no desenrolar do drama, pois não é uma linguagem nada fácil para iniciantes. Terá muitas dificuldades em atingir uma parcela maior de cinéfilos, pois sua tendência será de não virar cult.

O filme traz diversas interpretações, diante de sua complexidade, tem todos os elementos para ser bom, mas deixa a desejar, por ser arrastado e abusa de elipses, como ao levar sua mãe para conhecer o mar em seu desejo derradeiro, há uma interrupção brusca. Tem no seu final a revelação das batatas florescendo com o medo da filha cada vez mais arraigado, não consegue se libertar das correntes que a amarram ao passado. Questiona o tio, porque só nascem flores como girassóis e margaridas no seu jardim, ao invés das protetoras batatas que injeta na sua vagina, como forma de precaução de seu medo claustrofóbico.

As pérolas são uma candente metáfora e evidenciam seu pessimismo com a vida junto aos homens, tendo sua patroa a deixado na estrada, descumprindo a promessa de lhe dar o colar. Assim como a desconstrução de sua vida está metaforicamente incutida no piano estatelado no chão, mesmo com sua reconstrução e a música eclodindo na plateia, querendo evocar uma perspectiva de uma vida com uma promessa de ser melhor, não prospera no final e o seu sentimento de raiva, angústia vai ao encontro do pessimismo da sua alma atormentada pelos seus traumas de infância. Não há verossimilhança e pode ser apontado como uma incongruência no roteiro, o fato da música ser uma personificação do mal, ao ser deixada ao relento como castigo, para purificar-se ou encontrar seus fantasmas da noite. Ficou dúbio e inconsistente.

A Teta Assustada reflete o clima que dá vazão ao entendimento das pessoas do povoado, bem como do medo da mãe pelos terroristas peruanos na década de 80, liderados pelo Sendero Luminoso e Túpac Amaru. Fausta é uma vítima das atrocidades vivida por sua mãe entre várias mulheres violentadas. O imaginário indígena arrola em seu repertório a doença da teta assustada, em que o leite materno secará por ser infectado ao ser transmitido pela mãe abusada à sua filha. O medo recordado pela jovem é devastador para seu futuro como mulher. Ao introduzir a batata em seu órgão genital acredita estar protegida de estupros que dilaceram seus pensamentos, mas acarreta numa infecção tortuosa por sangramento. Ao descrerem do próprio médico que atestará a causa diante das ramificações internas, pode-se perceber uma alegoria, como dos grupos sanguinários que lutam num país em convulsão e fundamentalmente desagregado pelas facções paramilitares.

Há uma cena peculiar no hospital, quando o médico manda embora Fausta, porque esta não levou sua ficha, diz não ter tempo para procurá-la, pois atende mais de 80 pacientes por dia, com as filas se avolumando nas recepções, fica manifesta a crítica ao sistema de saúde pública no Peru. Chega a lembrar nosso velho e surrado SUS brasileiro.

Pode-se perceber algumas homenagens da diretora, entre elas aos filmes iranianos, como Gosto de Cereja (Abbas Kiarostami-1997), quando Fausta sobe a interminável escada naquele cenário desértico, tendo um viés explícito às produções no Irã. Também há uma referência ao diretor alemão Werner Herzog que dirigiu Fitzcarraldo em 1982, na cena em que o caminhão com um barco na carroceria entala no túnel. Não poderia faltar uma alusão à obra-prima Gritos e Sussurros (Ingmar Bergman-1972), quando no canto melodramático da mãe lamentando o abuso sexual sofrido. Lembra as três irmãs reunidas no quarto, naquele inigualável poema de amor, à beira da morte de Agnes que geme de dor através de gritos lancinantes de desespero. Acontece que Bergman é um só e talvez será sempre lembrado como o cineasta da alma, pela sua sutileza e o enorme contingente de seguidores que deixou na sétima arte. Há alguma semelhança, não inspiração, com o recente nacional A Festa da Menina Morta (Matheus Nachtergaele-2008), ao invocar no roteiro aspectos da crendices religiosas e de espíritos do bem e do mal, muito cultuado entre os indígenas. Fica claro esta crença, quando a personagem alerta para que não se caminhe junto a parede, para não ser pego pelas forças do além.

Apesar dos desacertos de roteiro e direção referidos, mas que não chegam a invalidar a obra, diante do encorajamento oriundo de uma produção peruana, que se não é definitiva, é ao menos alentadora. Mesmo sendo controverso, suscita discussões acirradas de num tema proposto como polêmico, leva para a análise da complexidade das propostas secundárias.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Confissões de Uma Garota de Programa























Terapia Sexual

O festejado diretor americano Steven Soderbergh já realizou coisas bem melhores. É de sua filmografia, obras como Traffic (2000), Eric Brockovich- Uma Mulher de Talento (2000), Doze Homens e Outro Segredo (2004), Doze Homens e Um Novo Segredo (2007), Che (2009). Porém, indiscutivelmente Sexo, Mentiras e Videotape (1989) é sua obra-prima, pelo arrojo e a qualidade singular deste filme que arrebatou o Palma de Ouro no Festival de Cannes de 1989, na França, dando-lhe também o Prêmio de Melhor Diretor daquele ano, atingindo o ápice na carreira. Soderbergh não vem repetindo seus trabalhos anteriores, parece estar em declínio na suas criações cinematográficas, dando mostras já em Che, Parte I, filme que não decolou, apenas fez uma base para a Parte II, que ainda não estreou e se espera bem mais do apresentado.

Seu último longa Confissões de Uma Garota de Programa é, talvez, o menor filme deste cineasta que tem indiscutíveis qualidades como bom artesão. Ao escolher a musa do cinema pornô Sasha Grey, no papel principal como Chelsea/Christine, comete um atentado ao bom senso, maculando sua obra. É inegável que a atriz tem dotes físicos e uma certa beleza, mas para por aí. Seu desempenho é fraco, insosso, sem expressão e a representação artística inexiste. Limita-se a responder aos clientes famosos de Manhattan que lhe pagam muito bem para ser a namoradinha de aluguel, um monossilábico Yes ou No. Quando tenta dizer alguma frase, arriscando alguma ideia, nocauteia literalmente com o filme. Provavelmente será a vencedora do Oscar de 2010, na categoria de pior atriz, caso venha a ser indicada, devendo levar para casa o Trofeu Framboesa.

Confissões... peca na estrutura, no roteiro e nas pífias atuações do elenco. Falta aprofundamento nas questões levantadas como as eleições no EUA, onde há uma tímida preferência por Barack Obama, nas apostas em dinheiro dos comuns e mortais americanos. Alguns homens dentro de um avião jogam todas suas fichas no candidato negro como o grande vencedor para governar seu país. O diretor dá uma preferência antiquada por cenários luxuosos em interiores, com pouca luminosidade, refutando completamente os exteriores, num claro e prosaico desleixo. Dá a impressão que está com vontade de livrar-se logo do filme que tem eternos 78 minutos de duração.

O longa vai andando como pode, solto, com confissões surradas de uma moça de programa em vídeo digital, num paradoxo às suas produções grandiosas e de cunho social comprometidas com um cinema de arte. Surgem temas interessantes como a grande quebradeira de empresas e bancos americanos nos dias atuais, mas não há uma reflexão profunda. O diretor conduz para a terapia do sexo com uma plausível e boa solução dos problemas.

Entre um cliente que fala o tempo todo de seus problemas econômicos e familiares, esquece para surpresa de Chelsea, de um relacionamento íntimo; logo entra em cena outro cliente falcatrua com promessas de filmar a vida da prostituta, iludindo-a com viagens ao exterior, entre elas para Dubai, num engodo clássico, deixando-a tristonha; há a patética aparição do parceiro/companheiro que esboça um artificial ciúme, embora se conforme de imediato com a situação. Finca pé apenas para que sua "amada" não viaje com clientes nos finais de semana, sob pena de perdê-lo. E segue a babaquice do roteiro, com desdobramentos inverossímeis. Há o arrependimento de um "senhor sensato" ao falar com a filha, deixa de completar uma "glamourosa viagem", bem como o judeu que fala em ouro e dinheiro num epílogo que revela a continuação da saga da jovem na atividade da profissão mais antiga do mundo.

Ressalte-se que é um filme onde há todos os requintes, inclusive com temas a serem abordados com um olhar crítico. A prostituição sempre que levada ao cinema pode render bons filmes, como muitas vezes trai e detona seu realizador. É inegável que o tema é delicado e sutil em sua apreciação, com poderes de uma visão séria. Mas o diretor encontrou na fórmula da superficialidade resumir essa descartável realização sem inspiração.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Paris

















Essência da Vida

Os filmes franceses definitivamente pululam com extrema qualidade na capital gaúcha. Já haviam estreado O Segredo Grão, Entre os Muros da Escola, Há Tanto Tempo Que te Amo, Bem-Vindo, A Culpa é do Fidel, o recente Horas de Verão e agora o magnífico Paris de Cédric Klapisch (Albergue Espanhol-2002 e Bonecas Russas-2005), tendo na frente do elenco Juliette Binoche como Élise e Romain Duris no papel do irmão Pierre.

Sobre a atriz Juliette Binoche, cabe um capítulo à parte. Mesmo que as pequenas rugas associadas às profundas olheiras já invadam delicadamente seu belo rosto, dando alguns sinais da idade, seu talento unido com sua clássica beleza e seu charme infinito, configura-se cada vez mais na síntese de uma das maiores atrizes francesas de todos os tempos, uma diva completa, ao lado das três maiores celebridades francesas como Catherine Deneuve, Brigitte Bardot e Fanny Ardant.

O longa Paris é um hino à vida, uma ode estridente pela vontade compulsiva de viver e continuar entre os mortais, quando dentro de um táxi , no caminho de sua casa até o hospital, onde fará um transplante com poucas chances de sobreviver, observa no caminho as pessoas andando pelas ruas, caminhando para o trabalho, passeando com seus cachorrinhos. Ou seja, numa bela elegia à vida, tudo que mais quer o personagem é desfrutar da beleza incomum das pequenas coisas, mínimas para alguns, superdimensionadas para outros. Pierre num sopro de desabafo sentencia com simplicidade mas com profunda comoção pela dor dos que não sabem se terão uma nova oportunidade: "Isto é Paris. As pessoas estão sempre reclamando. São muito rabugentas."

O ponto de partida de Paris é a doença grave do dançarino Pierre, que assiste pela janela do quarto o mundo desfilar de várias formas, orbitando pelos seus olhos tristes e pouco esperançosos, num painel da Cidade Luz atual. Observa com ardor a Torre Eiffel ao fundo em um belo contraste com o lindo arco-íris que teima em se exibir. Vê na aluna de beleza juvenil, que mora bem em frente, talvez um alento de futuro, embora se frustre com o passar dos dias. Há uma clara homenagem ao velho mestre do suspense Alfred Hithcock em Janela Indiscreta. Fica evidenciado o protesto pela dignidade da vida como bem maior, restando o libelo de contrariedade pela solidão, a angústia, a dor e a morte que andam às vezes de mãos dadas pelas ruas, bares, cafés e casas noturnas de uma grande metrópole. Há uma volúpia de anseio em Pierre pelo futuro que lhe escapa implacavelmente. Não há pieguice, mas uma trepidante luta que nunca cessa pelo fio de otimismo em continuar vivendo.

O diretor construiu um mosaico bem estruturado como já o fizera Robert Altman em Short Cuts- Cenas da Vida, costurando em várias histórias e entrelaçando-as na medida que se desenrola e avança o filme em seus 130 minutos que passam rapidamente. Além de Élise e Pierre que se unem para a reconstrução familiar, tendo na vida do irmão e a solidão pela separação da irmã com seus três filhos menores, os objetivos principais deste sensível drama francês. Ao contrário do filme Horas de Verão, onde há uma desintegração com a morte da matriarca, acarretando na desestruturação diante dos interesses pessoais e econômicos que levam para um final melancólico, embora haja uma inafastável revisão de valores culturais de um tempo.

No filme Paris há o conturbado relacionamento do professor universitário (Fabrice Luquini) com sua aluna e vizinha de Pierre, com comportamento enigmático e revelador no final. O irmão do professor é um engenheiro (François Cluzet) que vai descobrir toda sua ligação afetiva com sua ex-mulher, quando esta morre tragicamente, libertando-se parcialmente ao conhecer Élise, que sofre dolorosamente com a separação e a manutenção dos filhos. Há também os irmãos camaroneses, que esperam a vinda de outro irmão do país natal, para resolverem os difíceis problemas de documentação e locação de imóvel, padecendo pelos transtornos de comunicação, pois somente o irmão mais velho, de profissão gari, domina o idioma francês. Outra vez há a busca da estruturação mesmo com disputa familiar. Na galeria de personagens, desfila a dona da padaria com seus baguetes infalíveis, dando importância para as superficialidades em detrimento ao ser humano, demonstrando xenofobia explícita já vista no recente longa Bem-Vindos. Há a moça que só compra pela Internet frutas e verduras, conhecendo finalmente in loco uma imensa feira de hortifrutigranjeiros, assim como sua amiga que conhece carne num frigorífico. Ambas tentam seduzir os funcionários numa metáfora nos dias de hoje, quando há um distanciamento entre uma mulher e um homem de forma carnal, ocorrendo invariavelmete os relaciomentos on line. Por isso buscam a libertação dos computadores.

O final pode parecer dúbio, ao deixar margem para interpretações diversas, tornando-o ainda mais instigante, em que cativa pela poesia da brava luta de se viver e pela condição de não ser frágil mesmo com sua finitude. Somente uma obra-prima como Paris, poderia com seu discernimento e distanciamento de obras convencionais, narrar com sintonia fina pela sutileza toda a delicadeza de uma sociedade voltada para pequenas futilidades, esquecendo a essência das coisas mínimas.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Horas de Verão

















Desagregação Familiar

O diretor Olivier Assayas mostra toda sua competência neste extraordinário Horas de Verão. O filme despertou curiosidade e foi um dos mais aclamados e frequentados na última Mostra de Cinema de São Paulo, em 2008. Com um elenco de primeira qualidade, esta película tem o mote na matriarca Hélène Berthier (Edith Scob) ao completar seus 75 anos na linda mansão rural. Por ser sobrinha e manter a guarda de requintada obra do grande pintor Paul Berthier, reúne a família- os três filhos e os netos- para uma espécie de inventário em vida dos quadros, móveis antigos e objetos valiosos do seu tio famoso, além da preocupação com o destino que será dado à sua residência.

Meses após, acontece o previsto, morre Hélène, a desagregação familiar começa a tomar vulto, numa metáfora sobre a perda dos valores éticos, morais e da identidade da França. A reunião inaugural festiva e alegre com a mãe, já revela uma tensa realidade contida nos planejamentos dos três irmãos, com seus propósitos e objetivos diferentes, pois estão dispersos pelo mundo, sem uma identidade mais emotiva e sequer coesa. O carinho e o afeto consanguíneo ficam distantes e sobrepõe clara e manifesta vontade de interesses próprios. Os anseios do irmão mais velho pela manutenção da integridade e do núcleo são rapidamente derrotados por uma expressa vontade dos outros dois pelo desfazimento dos bens materiais que ainda os cercam e o os mantêm reunidos, visando um futuro longe da cultura e dos valores da França. Seus méritos como essência de cinema são irrefutáveis.

Adrienne (a sempre bela e estonteante Juliette Binoche) é designer de moda nos EUA, planeja seu futuro com filhos e o marido em Nova York, tem como aliado seu irmão caçula Jérémie (Jérémie Renier), um própero empresário já radicado e com vínculos econômicos e sociais na China de um mercado de trabalho escravo e contestado. Nesse embate há o irmão mais velho Fréderic (Charles Berling), professor universitário e economista- o único a manter-se em Paris-que tenta conservar e manter a unicidade do núcleo familiar prestes a se deteriorar. Visivelmente contrariado, demonstra toda sua derrota pessoal, pois apesar da luta incessante em manter viva a memória dos Berthier e do velho casarão de reminiscências da infância e juventude, das reuniões e passatempos de férias da criançada, vê evaporar seus ideais de preservação.

Horas de Verão lembra o filme japonês de mesmo nome de Yasujiro Ozu, que trata das relações familiares e as transformações do Japão no século 20, com o início da globalização. Assayas aborda de forma profunda o fim de uma era glamourizada, onde a cultura e a economia eram fatores sólidos e essenciais da velha Europa e a França fazia parte como um sustentáculo bem consolidado. Hoje há a China, emergente na Ásia, como um poderoso país de uma economia quase que indestrutível. Contrapondo temos os EUA sempre eficaz e fortalecido também pela sua economia, mesmo que às vezes abalroada como recentemente pela bancarrota violenta do sistema bancário, segue em frente com luz própria. A corrosão é fulminante e os sonhos e devaneios dão lugar para uma geração nova que terá uma missão de carregar com tenacidade algo que está enfermo e pedindo socorro.

O diretor filma em longos planos, fazendo o espectador atingir o êxtase ao flutuar pelos intermináveis jardins floridos de uma época que deixa saudades. Sua crítica é sutil ao velho sistema oligárquico, onde uma riqueza exuberante como a abordada está em extinção. O longa termina com uma pálida luz de esperança nos olhos e desejos da neta que não mais verá uma era em ocaso, num cenário bonito mas que impiedosamente corroído pela desconstrução nesta obra-prima francesa filmada com dor, angústia e tristeza de um tempo que ficou para trás, restando somente a ilusão de uma arte construída num país que terá que rever seus valores.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Inimigo Público nº. 1- Instituto de Morte



















Inimigo Francês

Agora virou moda com os filmes realizados em duas partes. Assim foi com Che (Steven Soderbergh) que passou a primeira parte há alguns meses e terá a sequência final a ser lançada no Brasil, provavelmente até o final deste ano. Já tínhamos visto outro filme sobre gângteres mitológicos, o correto Inimigos Públicos (Michael Mann), interpretado por Johnny Depp e Marion Cottillard, sobre a vida de John Dillinger, o inimigo público nº. 1 dos EUA, na época da Grande Depressão americana em 1929. Pois não é que a França também tem sua história para contar e o seu "herói" é Jacques Mesrine (Vicent Cassel) no filme Inimigo Público nº. 1- Instituto de Morte, que engordou 20 quilos para estrelar seu personagem, com direção de François Richet, tendo arrebatado três prêmios César na França - semelhante ao Oscar-, como de melhor diretor, ator e direção de arte. Ainda ganhou o prêmio de melhor ator no Festival de Tóquio. Foi rodado em 9 meses as duas partes.

Para não ser diferente de Che, chegou a Parte I e a Parte II virá no final do ano, mostrando as incursões no crime de seu gânsgter, com toda perseguição da polícia até seus últimos dias de vida por emboscada. Numa trajetória marcada por espetaculares fugas de prisões consideradas de alta segurança para a década de 60. Só resta aguardar as continuações das referidas segundas partes destes filmes.

O filme é uma cinebiografia do lendário bandido francês Mesrine, baseada em livro escrito na prisão pelo próprio protagonista. Filho de comerciantes bem-sucedidos, tem uma clara e manifesta aversão ao passado do pai, por ter colaborado com a Alemanha na Ocupação Nazista de Hitler na França. Agride com palavras sua mãe, mulher forte e com gênio dominador. Sua família próspera começa a se dilacerar com os pequenos roubos de Mesrine em Paris na década de 60. Entra para a Frente de Libertação da Argélia e na década 70 adere a um outro movimento de luta para libertar Quebéc do Canadá. Aflora seu sentimento libertário, a partir das torturas impostas pelo exercito francês contra os separatistas argelinos.

As lutas sociais de independência são o mote do filme, decorrendo daí os diversos assaltos para arrecadar fundos para as lutas e combates sociais, tornando Mesrine respeitado por onde anda, uma espécie de ícone libertário nos moldes de Ernesto "Che" Guevara, sobrepondo a vida pacata daquele homem nascido na pequena cidade de Clichy no interior da França. Mas há um mentor e conselheiro para seus atos subversivos, Guido (Gérard Depardieu), com personalidade cruel, ex-combatente frio e sanguinário, não perdoa traições e sequer demonstra algum tipo de arrependimento.

Há cenas deprimentes como a solitária da prisão, sofre torturas e vive em condições sub-humanas, lembrando em muito o filme estrelado, por Steve Mc Queem, no célebre Papillon. Sua vida é conturbada, mesmo não tendo o charme e o glamour de Dillinger, um apaixonado por sua bela graúna Billie Frechete em Inimigos Públicos, casa-se duas vezes, primeiro com a espanhola Sofia (Elena Anaya), com quem tem dois filhos, e, depois com Jeanne (Cécile de France), uma mulher que o segue na luta armada por seus ideais de libertação.

Há algumas irregularidades no roteiro, como na cena patética em que Mesrine retorna à prisão que fugira com um comparsa e tentam libertar outros presidiários, com muitos tiros e cenas que lembram os velhos filmes de aventura hollywoodianos, esquecendo que se deveria trilhar uma linha mais lógica e voltada para ruptura social e separatista. Porém, o que se vê está mais para velhas e surradas películas policiais americanas.

O longa não consegue decolar com naturalidade, faltando fluidez e sobrando superficialidades. Há altos e baixos na sequência, com indefinições de roteiro quanto a proposta a ser apresentada e desenvolvida. Fica tudo muito artificial, com o alijamento de uma profundidade do tema proposto. Parece que há uma preocupação em alicerçar e cimentar uma estrutura para a continuidade que haverá com a Parte 2. Só que o tiro sai pela culatra, pois afunda quando avança, tal qual areia movediça. Faltou definição, quem sabe poderá ser resgatada e venha surpreender na continuação.