terça-feira, 21 de junho de 2022

Está Tudo Bem

 

Direito de Morrer

Um dos mais aguardados lançamento do Festival Varilux de Cinema Francês de 2021 foi o controvertido Está Tudo Bem, com direção do producente François Ozon, nome constante em festivais como Cannes, Berlim e Veneza. O longa-metragem foi visto com algum entusiasmo pela crítica internacional no Festival de Cannes do ano passado. O cineasta tem em sua filmografia realizações com temáticas diversas, tais como O Refúgio (2009); Potiche-Esposa Troféu (2010); Dentro de Casa (2012); Jovem e Bela (2013); o premiado Frantz (2016), drama histórico que recebeu onze indicações ao Prêmio César, o Oscar da França, abocanhando a láurea de melhor fotografia, além da premiação de melhor jovem atriz no Festival de Veneza de 2016 para a linda Paula Beer; o magnífico O Amante Duplo (2017); e o polêmico Graças a Deus (2019), baseado em fatos reais ocorridos em Lyon, na França, no qual retratou de forma imparcial, nua e crua, a pedofilia escancarada na Igreja Católica, com denúncia de requintes psicológicos nefastos na sua mais pura essência, mesmo sem grandes pretensões estilísticas.

Ozon, agora, constrói um painel doloroso para contar uma amarga história sobre André (André Dussollier), o industrial de 85 anos de idade é acometido de um AVC irreversível que o deixa semiparalisado. Ele é um homem totalmente independente, homossexual, e apaixonado pela vida, porém está cansado da situação crítica de sua saúde cada vez mais debilitada, acaba por decidir que não quer mais continuar a viver sequelado e pede à sua filha Emmanuèle (Sophie Marceau), uma romancista realizada na sua vida privada e profissional, para ajudá-lo a terminar com esta agonia. Ela consulta e pede orientação à irmã, Pascale (Géraldine Pailhas), sobre a escolha em aceitar a vontade do pai ou convencê-lo a mudar de ideia. Convivem com a presença indesejada do suposto namorado do pai, que ronda constantemente o hospital, e as irmãs o chamam de “O Canalha”. A ex-esposa de André, mãe das duas mulheres indecisas, Claude (Charlotte Rampling), é uma escultora famosa que tem o Mal de Parkinson, parece não estar entendendo lucidamente o que está acontecendo. O realizador busca no cotidiano familiar a leveza de fatos pitorescos para diluir as emoções sentimentais da jornada dos personagens em cena que transitam do choro quase contido contrastando com aspectos irônicos da vida, porém o espectador assiste de maneira curiosa o desenrolar da trama contada com elegância e sem artifícios da comiseração alheia.

A temática é polêmica por retratar a decisão das filhas sobre direito de morrer do pai pelo método do suicídio assistido na Suíça, uma situação controvertida e bem atual como do ator Alain Delon que optou pela prática diferente da eutanásia ao exigir do paciente ingerir uma cápsula que contenha substância letal, prescrito por autoridades médicas, de maneira discernida e consentida expressamente, mas com o auxílio de terceiros. No longa, o protagonista inicia uma ampla mobilização para conseguir o direito à morte assistida numa clínica na Suíça, mas para isto precisará convencer totalmente as filhas relutantes. Uma profunda abordagem da escolha em continuar vivendo ou não, além de contar a história comovente e surpreendente de uma família em busca de entendimento acerca da existência e o desenlace pela morte com dignidade. Uma reivindicação feita por muitos pacientes, embora ainda seja um assunto tabu na França. O diretor, de forma admirável, não cai em armadilhas fáceis para fisgar o espectador com situações lacrimejantes, mas poderia pelas circunstâncias conduzir a trama para um filme menor com demagogias baratas, faz uma narrativa hábil com um propósito sério para uma realização madura e provocativa, afastando-se das tentações de pieguismos apelativos.

Tanto no suicídio assistido, como na eutanásia onde outra pessoa executa o pedido do paciente, geralmente através de uma injeção letal, eis uma boa contribuição do cinema para esta temática tabu e polêmica, com ótimas obras de abordagem idêntica. O tema por ser indigesto e contraditório fez Marco Bellocchio não se posicionar em A Bela Que Dorme (2012), deixa nas entrelinhas uma contrariedade implícita, possivelmente por não querer se incomodar com a igreja, tudo meio que implícito, completamente oposto a Alejandro Amenábar em Mar Adentro (2004), que aborda diretamente um homem que luta para ter o direito de pôr fim à sua própria vida. Lúcido e inteligente, luta na justiça para decidir sobre seu destino, o que lhe gera problemas religiosos, com a sociedade e até com os familiares. Michael Haneke em Amor (2012) instiga por destruir dogmas como a defesa de uma eutanásia abrupta redentora ao dar um soco no estômago do espectador, deixando-o meio grogue, mas ao mesmo tempo reflexivo sobre métodos de carinho, ternura e da defesa incondicional do amor eterno, retirando os véus dos bons costumes, dá um tapa na cara da morte, como fez o personagem central num ato de desabafo pelo desespero. Stéphane Brizé em Uma Primavera com Minha Mãe (2012) fustiga pela sua essência direta rasgando a alma do espectador numa amostragem sobre a morte e as consequências de seus vínculos e relações decorrentes de uma vida repleta de contratempos e solidão para uma decisão tomada com lucidez pela ausência de perspectiva para o ser humano.

Está Tudo Bem é uma realização sustentada de forma marcante ao retratar com leveza um tema árido e tão controvertido. Há ainda os instrumentos burocráticos de documentos, consultas, viagens, medicações e autorizações para atingir a finalidade desejada em meio a dores, tristezas, lembranças do passado das filhas, e o pai com a ideia fixa e intransigente. Antes, o paciente quer uma despedida de gala da vida que lhe foi tão boa. O roteiro minimiza a finitude, mas aponta a triste ironia de perceber que a opção do velho pai burguês, brincalhão, ranzinza, tirano, e, às vezes violento, passará deixando a vida que segue, como a do neto que se prepara para um recital musical. Um drama significante de uma proposta sincera e crucial para uma análise quanto às posições religiosas e da legalidade abordada na França e na Suíça. O grande mérito de Ozon é retratar com equidistância a polêmica do drama, especialmente a morte, numa narrativa com sutileza e boa dose de desprendimento equilibrado. Afasta-se dos horrores da perda melancólica definitiva, mantendo a lucidez e o desejo como fusão de maneiras dignas do indivíduo pelas suas escolhas. Arrebata com interessantes cenas, como a do jantar de despedida. Um filme maior pelo realismo cênico de um epílogo improvável em nossa realidade para refletir sobre a espera do ocaso sem volta, que cativa pela condução sem arroubos, num roteiro enxuto que aponta dogmas existentes dos defensores da vida a qualquer preço.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Tre Piani

 

Angústias Familiares

O festejado cineasta Nanni Moretti flutua entre os dramas familiares e filmes religiosos, políticos e sociais como O Crocodilo (2006), quando abordou o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que teve sua imagem abalada sem perdão, questionou a escolha do papa em Habemus Papam (2011) com boa dose de humor e ironia fina, ao discorrer sobre a eleição do Sumo Pontífice realizada entre os cardeais na escolha do vacilante Melville, como já o fizera em A Missa Acabou (1985), ao satirizar a igreja através de um complicado padre na periferia de Roma. Ganhou o Prêmio do Júri em Cannes com Mia Madre (2015), num retorno às origens de abordagens profundas sobre a morte e a forte sensação da perda pelas lembranças pretéritas, bem como o que poderia ter feito e não fez para quem partiu, quase um remorso instintivo dos que ficaram. Uma análise sincera e despojada das picuinhas que remanesceram da existência e sua complexidade, como fez no drama O Quarto do Filho (2001), possivelmente sua obra maior, sendo premiado com a Palma de Ouro em Cannes, na história do psicanalista residente em Ancona, tem dois filhos, até que uma tragédia o transtorna completamente, por deixar de acompanhar o filho à praia, e que acabou morrendo afogado. Moretti gosta de usar situações que vivenciou para incrementar suas realizações de cunho pessoal, assim foi em Caro Diário (1993), Aprile (1998) e Mia Madre, drama este que o faz relembrar a morte de sua própria mãe durante as filmagens de Habemus Papam.

Retorna agora em grande estilo no drama Tre Piani (em tradução livre significa Três Andares) ao retratar três famílias que vivem no mesmo condomínio de classe média alta, e suas vidas acabam ardilosamente se entrelaçando. No impactante prólogo, o jovem Andréa (Alessandro Sperduti) dirige o carro embriagado, atropela e mata um pedestre ao desviar para evitar bater em Monica (Alba Rohrwacher), uma gestante que estava indo para o hospital ao romper a bolsa. Está sempre sozinha, pois o marido vive viajando a trabalho, tem na filha a única companhia até surgir o cunhado, um vigarista simpático. A solidão faz com que ela imagine muitas coisas, o que a deixa ainda mais tensa porque pensa que pode ter herdado da mãe problemas mentais. Os pais de Andréa são os juízes Vittorio (Nanni Moretti) e Dora (Margherita Buy). A doce mãe quer ajudar o filho, mas o austero e inflexível pai não faz nada, por entender que ele é o culpado e terá que pagar pelo crime, numa espécie de reserva moral incorruptível. Na sequência, o rapaz acaba também batendo o carro no imóvel de Lucio (Riccardo Scamarcio) e sua esposa Sara (Elena Lietti), que tem uma filha pré-adolescente que frequenta a casa da vizinhança, pois seus pais estão sempre ocupados com seus afazeres profissionais. A garotinha chama o vizinho de avô, um idoso (Paolo Graziosi) com demência, que mora com a neta adolescente (Denise Tantucci). Porém, um inusitado incidente no parque desperta em Lucio a suspeita de que sua filha poderia ter sido abusada sexualmente, dúvida que irá persistir por quase toda sua vida.

O longa foi baseado no livro homônimo do escritor israelense Eshkol Nevo. O diretor, que escreveu o roteiro em parceria com Valia Santella, traz o cenário de Tel Aviv para Roma de maneira admirável, embora pudesse pelas circunstâncias conduzir a trama para um filme menor com demagogias baratas e lacrimejantes, mas habilmente foge das armadilhas piegas e faz uma obra espetacular com cenas marcantes, como dos casais dançando na rua. Cada um dos moradores do prédio, enquanto os anos passam pela narrativa que dá saltos de cinco em cinco anos, no qual todos terão suas vidas transformadas e irão avançar no tempo. As pessoas crescem, tanto na idade como em suas maneiras de vida através de mudanças de hábitos, para gradualmente buscarem um lampejo de paz, em alguns casos; estender o perdão para refazer as relações, em outros. Moretti é hábil ao apresentar o pai obcecado pelo suposto estupro de sua filha vulnerável, mas o mesmo acaba se envolvendo com a adolescente desmiolada. Passa com sensibilidade as agonias e devaneios à flor da pele com ingredientes delicados e demolidores até chegar ao epílogo transformador.

Neste grande mosaico construído por uma gama enorme de personagens em ciclos de amor e ódio, em que as histórias são de desencontros e aflições da vida no universo do cotidiano, com luzes de esperanças contrapondo com desesperanças, em muitas vezes. O medo do presente traz os fantasmas do passado que atormentam paulatinamente pelas recordações que fragilizam um futuro incerto povoado de temores pelas referências do destino ingrato. A solidão vem acompanhada pelas mazelas de um mundo conturbado que provoca um grande vazio existencial da maioria dos personagens em foco. Tre Piani é uma grande babel que resulta neste filme significativo de qualidade superior, que mostra com extrema profundidade os desencantos da humanidade através de uma abordagem madura, transparente e equilibrada pelo olhar atento do realizador sobres os dramas pessoais em que as desavenças acabam sendo retratadas pelas reveladoras imagens na busca do equilíbrio para o convívio harmonioso.

O cineasta traça com sutileza um retrato com realismo sem metáforas para tentar entender a subtração marcante daquelas famílias em seus microcosmos amargurados como decorrência da solidão e dos vínculos estremecidos em vias de ruínas. Dilacera e mergulha nos momentos conturbados do cotidiano carregado de problemas sociais e complexos oriundos de uma sociedade em desconstrução universal de seus habitantes, embora o desfecho traga um sopro de esperança e vida de continuidade e renascimento através da simbolização da criança. O diretor dá o recado ao mostrar a manutenção da herança infinita familiar de valores a serem seguidos, mesmo que num lugar quase que inacessível, mas em que a natureza propicia o reencontro com a vida e a dignidade como elementos sublimes e maiores da perseverança. A narrativa tem o naturalismo exposto como vísceras expostas da decadência humana intensa, embora bergmaniano na abordagem proposta como o envelhecimento, morte e solidão, além das superações diárias, tem na forma e na estética criativa os traços singulares da marca registrada do mestre italiano com seu estilo do controle preciso de tempo e intensidade com notável construção psicológica na complexidade dos personagens focados como conexões numa teia de aranha. Há perdas, culpa, arrependimentos, renovações e desajustes pelas decepções e sofrimentos familiares na essência da abordagem reflexiva deste drama estupendo.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Drive My Car

 

Culpa e Solidão

O mestre Alain Resnais em Vocês Ainda Não Viram Nada! (2011) fundiu teatro e cinema para realizar o último desejo de um famoso dramaturgo que morreu de repente e deixa uma mensagem num vídeo convidando seus melhores amigos para remontar livremente, em quatro atos, a peça Eurídice, escrita por Jean Anouilh, e o relacionamento conturbado com seu amante Orfeu. Na sua despedida, que ocorreu em alto nível, novamente aprontou positivamente com Amar, Beber e Cantar (2014), outra vez presta uma bela homenagem ao teatro como prova da estima do veterano diretor por essa arte, ao trazê-la para o cinema, dentro do seu contumaz formalismo. O cineasta japonês Ryüsuke Hamaguchi segue esta mesma estética de linha narrativa em Drive My Car, ao mesclar teatro com cinema numa perfeita estrutura cênica na montagem e edição de três horas de duração, que parece arrastado, mas é na lenta trajetória que o torna admirável e reflexivo, ao adaptar livremente para a telona em parceria com Takamasa Oe, um conto homônimo do livro Homens Sem Mulheres, de autoria do famoso escritor conterrâneo Haruki Murakami, lançado em 2015 no Brasil. Está em cartaz nos cinemas e na plataforma MUBI.

Drive My Car, justamente premiado como Melhor Filme Internacional no Oscar deste ano, também levou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes do ano passado, é um drama comovente, onde o teatro com sua formalidade estrutural cênica se faz presente na apresentação da remontagem da peça Tio Vânia, de um dos principais autores do Realismo russo Anton Tchekhov, que já havia chegado ao cinema pelas mãos de Andrei Konchalovski, em 1971, e pelo cultuado diretor francês Louis Malle com Tio Vânia em Nova Iorque (1994). Hamaguchi dá vazão para um mergulho no imaginário do espectador da sétima arte ao levar a peça para encenar em Hiroshima, não por acaso a cidade que foi destruída por uma bomba atômica lançada pelos EUA, e que agora se mostra renascida, é o mesmo cenário do clássico Hiroshima, Meu Amor (1959), de Resnais. Elogiáveis os magnéticos diálogos dos personagens teatrais com os do cinema até o inusitado desfecho fundido de peça com a realização pelo magistral monólogo elucidativo, que comove e impressiona de maneira original as duas plateias.

O realizador perturba os mais desatentos com as duas linguagens distintas e cria um ambiente psicológico de amor e ódio, alegria e tristeza entre os personagens envolvidos no magnífico enredo cinematográfico cativante pela sua singularidade, que se torna ficção no cenário das interpretações pela estética apurada com consistência no equilíbrio cênico que encontra sustentação no roteiro dinâmico para uma atmosfera que vem à tona com lucidez, bem alicerçada num molho saboroso desta vigorosa obra de cinema teatral. Aos poucos, os espectadores começam a se envolver no clímax pela proposta, diante das artimanhas que entram cautelosamente na encenação e vão tomando o espaço dos dois formidáveis cenários com bastante precisão para ser colocada a realidade de suas interpretações. Diante do luto pela morte prematura e a solidão são sentimentos complexos que atordoam os seres humanos e que são explorados com sensibilidade através de uma admirável delicadeza pelas diferentes formas alternativas da arte.

A história em foco, que tem um prólogo de mais de meia hora de encantamento do amor com o ingrediente da traição improvável, capta com sutileza, afastando-se de qualquer indicativo de pieguismo. Méritos para o realizador, que constrói um clima de dor dilacerante da perda que repassa ao espectador, além das frustrações decorrentes da vida, o resgate para um renascimento para continuar vivendo, sem abdicar da esperança e de alguma alegria no decorrer da trama. Com um elenco homogêneo e convincente, especialmente o desempenho do personagem que lida com a vida conjugal em risco até a perda impactante da esposa, Oto (Reika Kirishima), uma linda mulher, porém também uma roteirista com muitos segredos, com que divide sua vida, seu passado e sua prestimosa colaboração artística. Ela é casada com o personagem central Yusuke Kafuku (Hidetoshi Nishijima- de soberba atuação), um ator e diretor de sucesso no teatro que entra num período nebuloso de perturbação pela dúvida alucinante. Muitas perguntas ficaram sem respostas do relacionamento do casal que perdeu um filho, além do arrependimento de nunca ter conseguido compreender a companheira.

O cineasta dá um salto no roteiro de dois anos para estabelecer a profunda tristeza do enlutamento que se encontra o protagonista. Ele é convidado para dirigir uma peça no teatro de Hiroshima, onde lidará com a adaptação dos manuscritos de sua amada falecida, mas para isto terá que ceder ao pedido da produção, que condiciona ter que aceitar como motorista de seu majestoso automóvel a jovem Misaki Watari (Toko Miura- de desempenho impecável), com que dividirá suas angústias e dúvidas pretéritas durante o trajeto do hotel até os ensaios no teatro. Porém, logo surgirá um vínculo progressivo de uma especial relação amigável entre aqueles dois seres solitários que irão encontrar coragem para enfrentar o passado sequelado que deixa uma agonia latejante. O veículo, que substitui o divã, vira uma espécie de confessionário entre eles, com troca de mágoas, confissões, emoções reprimidas e causas devastadoras como resquícios anteriores povoados de fantasmas que se esgueiram pelas suas almas, mentes e corações atormentados pela culpa, como tendo que ouvir a gravação da interpretação das falas da peça para uma fuga exorcizante.

Um filme contemplativo das viagens para o interior de cada personagem com uma imensidão infinita de sentimentos abalados. Ambos estão presos a um passado, onde as amarras parecem não poder libertá-los, ou por consequência fazer entender de vez o destino traiçoeiro daqueles sentimentos doloridos. Somente os poucos gestos ou confissões, mas significativos para revelar as complexas dúvidas e a melancolia incrustada naqueles dois seres humanos que carregam muitas emoções reprimidas que assombram e reduz a capacidade de lucidez. Mas é significativo quando eles compartilham suas histórias marcantes de feridas abertas, mostram arrependimentos, para chegar até o abraço afetuoso e a conclusão da peça teatral como forma inequívoca de libertação para a paz interior diante da volta à arte para esquecer as mazelas pretéritas que rondam o presente, dar o mergulho em si mesmo para obter a redenção e o novo recomeço. Elementos intrínsecos não faltam para a construção psicológica e suas complexidades dos personagens focados nesta saga sobre perdas, danos, culpa, arrependimentos e renovações neste extraordinário drama familiar dos desajustes do amor até a solidão implacável pelas decepções e sofrimentos da existência na sua plena essência. Até agora, o melhor filme de 2022.

terça-feira, 22 de março de 2022

A Felicidade das Pequenas Coisas

 

Sonho e Realidade

Vem do Butão em coprodução com a China o sensível drama social A Felicidade das Pequenas Coisas (o título original seria Lunana, um Iaque na Sala de Aula), indicado ao Oscar e considerado um dos favoritos para abocanhar a estatueta de Melhor Filme InternacionalA direção é do estreante Pawo Choyning Dorji, de 38 anos, que também assina o enxuto roteiro. Ele é cineasta e fotógrafo butanês. O cenário é Lunana, distrito de Gasa, no noroeste do país, onde está localizada a "escola mais remota do mundo”. A maioria do elenco é de estreantes que moram na região e nunca saíram de lá. Butão tem a alcunha de ser “o país mais feliz mundo”, com uma população de 771 mil habitantes, está localizado no extremo leste do Himalaia, na Ásia, sendo conhecido por seus mosteiros, suas fortalezas e suas paisagens impressionantes que incluem desde planícies subtropicais até montanhas íngremes e vales. A Capital é Timbu e fica a 3.000 metros de altura, e seus habitantes usam roupas tradicionais no dia a dia, tendo o regime da monarquia constitucional exercido pelo rei que lá também faz o papel político e ainda governa o Estado.

A trama é uma realização minimalista sobre as descobertas do jovem professor relutante Ugyen Dorji (Sherab Dorji), que está terminando sua formação profissional, mas não tem nenhuma vocação para ensinar. Seu grande sonho é conseguir um visto para a Austrália, mas há uma enorme dificuldade burocrática para sair, o que só o desanima ainda mais a cruzar o país, diante do desejo inegociável de poder cantar e tocar violão nos bares de Sydney. Ele é enviado pelo governo ao longínquo vilarejo de Lunana, no topo de uma imensa montanha, com 56 moradores aproximadamente. Um lugar de pouca transitabilidade que só é possível chegar lá a pé, após uma semana de caminhada com alguma alternância de andar no lombo de cavalos cansados por trilhas nas matas virgens. Não há condições de qualquer outro tipo de transporte, como carro, por exemplo, que é desconhecido pela população. Quando chega a nevasca, a região fica inacessível e incomunicável por vários meses. Inexiste tecnologia para o uso de celular, internet, televisão e energia elétrica, sequer um quadro negro na precária escola para os alunos, nem uma bola para se jogar basquete ou outro esporte, além do péssimo estado do quarto que é destinado ao docente com janelas protegidas do frio com papel de arroz. O estrume do iaque, uma espécie de búfalo, com presença marcante em pequenos rebanhos, serve como combustão para acender o fogo.

O diretor dá ênfase no realismo pujante da comunidade e seu afeto e louvação aos educadores que perderam sua autoridade, pois lá ainda se acredita que “os professores tocam o futuro”, razão pela qual o protagonista é visto como uma celebridade e tem um tratamento privilegiado, tendo revelações constantes para perder o gelo da alma e colocar generosidade, amor e gratidão numa pessoa que vai ao iminente encontro da felicidade. O filme nos remete para o extraordinário drama similar do gênero Sociedade dos Poetas Mortos (1989), de Peter Weir. O surgimento da jovem pastora Saldon (Kelden Lhano Gurung) que o conquista através de suas músicas pela bela voz que se esparrama na natureza para os possíveis espíritos que flutuam naqueles deslumbrantes vales montanhosos, além de presenteá-lo com um iaque que deve ser criado dentro da sala de aula, para ser protegido do frio, o animal irá dividir o espaço com os alunos. O sonho do personagem central vai sendo desconstruído com muita delicadeza e sensibilidade para o emocionante desfecho com um banho de humildade trazida dos ensinamentos de outrora, ao interpretar a canção já em Sydney, com mais de 5 milhões de pessoas, que aprendeu na aldeia. Até a metáfora do célebre educador brasileiro Paulo Freire se faz presente: “a educação se faz até debaixo de um pé de manga”. Todos vivem como se fossem uma grande família sob a batuta do chefe da aldeia e sua garra e obstinação para obter o melhor a todos. Embora haja algumas desestruturas, como o pai da encantadora menininha líder da turma de aula (Pem Zam), um alcoólatra inveterado e ausente no núcleo, fica acentuada a contextualização da vizinhança e seu cotidiano inerente com suas fraquezas, mas com um raro humanismo e solidariedade.

Com uma linda fotografia que capta com arte as cenas com imagens de paisagem exuberante das montanhas, traz sequências com grandes planos abertos de uma região vazia, porém mágica e envolvente, que será relevante para a narrativa que cresce com a evolução do enredo, embalada pela pontual e cativante trilha sonora. Uma obra que aborda de forma clara e inequívoca a educação como elemento primordial naquelas contradições de uma aldeia que refletem uma sociedade em ruínas, embora haja civilidade, ternura e amor. Mesmo que aparente um falso universo de paz nas relações humanas num contexto amargo pelas circunstâncias precárias, com poucas condições de dignidade para uma população humilde que recebe de braços abertos os indivíduos aparentemente frios, desconectados da família e da triste realidade que atinge a pureza daquelas crianças que vivem naquela natureza selvagem encravada nesta inóspita região.

A Felicidade das Pequenas Coisas tem um epílogo otimista e redentor, por ser instigante a saga do professor e seu encontro com o sentido da existência humana num filme seco, direto e com boa dose de sobriedade, sem grandes rodeios ou exercícios pirotécnicos, usando apenas a equilibrada dose de amargura mesclada com algum alento. Não há cenas de pieguismos, méritos para o cineasta que conduz com criatividade o espectador a acompanhar sem lamentar o destino dos desprivilegiados. É contagiante na essência cinematográfica pelo simbolismo do descaso com o ensino das crianças pela ausência de um vínculo de importância de seus governantes diante dos fatos que se sucedem numa atmosfera criada em torno daquele bucólico lugarejo com seus costumes cultuados que passam a fazer parte do cotidiano dos habitantes. O drama comove o espectador, fisga pela boa narrativa das idiossincrasias dos personagens envolvidos e suas más condições econômicas, ainda que sem atritos ou violência, que levam para um realismo social presente nas comunidades afastadas para ser refletido. Eis uma mini obra-prima que deverá estar entre os dez melhores filmes no final do ano.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A Noite do Fogo

 

Domínio do Cartel

A competente cineasta Tatiana Huezo, de 50, anos tem dupla nacionalidade, pois nasceu em El Salvador e atualmente reside no México onde se naturalizou. Iniciou a carreira com o premiado documentário El Lugar Más Pequeño (2011) que abordava a Guerra Civil Salvadorenha. Seguiu no mesmo gênero com A Aula Vazia (2015) e Tempestade (2016). Estreia na ficção com este potente drama social A Noite do Fogo (na Netflix), coproduzido com Alemanha, Brasil, Catar, Argentina e Suíça, tendo escrito o roteiro baseado no romance Reze Pelas Mulheres Roubadas, da escritora Jennifer Clement, publicado em 2014. Conquistou a Menção Especial na Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes e foi indicado para representar o México no Oscar de Melhor Filme Internacional em 2022. A realizadora não se intimida e revela muita segurança ao abordar um tema pesado, complicado, tenso, e com grandes implicações econômicas em seu país e nos EUA por envolver o dominante cartel mexicano do narcotráfico e da corrupção. Há efeitos maléficos que deixam cicatrizes como marcas definitivas das mazelas nos personagens atingidos por uma nociva guerra suja entre poderosos que reflete em inocentes na disputa de territórios para dominar o mercado.

A trama gira em uma cidade pequena e solitária situada nas montanhas mexicanas, onde três pré-adolescentes brincam numa casa de uma família que fugiu. Às vezes, se vestem e se pintam como mulheres adultas, desconhecendo o perigo iminente que ronda o lugar. Enquanto isso, a magia, a alegria e o lado lúdico tentam se fortalecer naquele inóspito e impenetrável universo. As mães orientam como podem as três garotas para se protegerem dos grupos de sequestradores de meninas que atuam na região. A diretora faz bem ao contar de maneira delicada a história sob o prisma e o cândido olhar infantil daquelas crianças. A protagonista Ana (interpretada por Ana Cristina Ordóñez González na infância e Marya Membreño na adolescência) vive com sua mãe Rita (Mayra Batalla- de atuação arrebatadora), tem como suas melhores amigas Maria (Blanca Itzel Pérez-com lábio leporino- e Giselle Barreira Sánchez) e Paula (Camila Gaal e Alejandra Camacho). A diretora buscou atores/atrizes amadores para obter mais autenticidade, tendo como preparadora de um elenco infantojuvenil a brasileira Fátima Toledo, que também orientou com os mesmos recursos técnicos Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles e Katia Lund, nesta fascinante temática da infância à deriva no meio da criminalidade.

O drama reflete a ingenuidade das meninas que não compreendem e nem desconfiam os reais motivos que fizeram algumas mães ardilosamente cortarem os cabelos ao melhor estilo curto masculino. É comovedora a determinação da genitora de Ana para que a filha escavasse um buraco na terra em formato de um abrigo subterrâneo, como se fosse um bunker para esconder-se quando o perigo fosse iminente pelos homens fortemente armados na busca de ninfetas para raptá-las. O intuito único é comercializar as meninas para a prostituição, diante das evidências que existem dos desaparecimentos constatados, e de uma jovem que apareceu morta na mata. O treinamento dado à filha no bosque para entender e ouvir os sons de humanos e animais emitidos bem distantes é uma esperança e uma das poucas e eficientes armas bem utilizadas pelos nativos, bem como as cores decoradas para identificar a cobra coral. A defesa ferrenha da prole reflete o ponto de vista maternal na imaginativa e enternecedora proteção pelo ataque furioso do cartel que controla o povoado. Neste meio tempo, há os momentos pueris de descoberta da primeira menstruação e a candidez do amor platônico pelo professor, com as recorrentes confidências do trio de amigas.

A Noite do Fogo é um retrato fiel das fissuras sociais abertas pelas suas complexidades no México criadas pelo tráfico, na qual se busca um espaço para chegar ao poder, envolvendo diretamente as políticas governamentais. A violência extremada e explícita é o cartão de visita destes grupos do narcotráfico, provocando o horror constante, como já foi muito bem abordado em filmes da mesma temática sobre o cartel mexicano, entre os mais vigorosos estão Sicário- Terra de Ninguém (2015), de Denis Villeneuve, numa realidade de barbárie da divisa dos EUA com o México, com cercas de arames como se fosse uma guerra entre os dois países, expondo as vísceras de uma situação traumática dos excluídos da sociedade, pelo prisma da CIA, que prepara uma audaciosa operação para deter o grande líder de drogas na fronteira. Segue na mesma esteira o excelente Heli (2013), do espanhol Amat Escalante, na denúncia de um país envolvido num clima nebuloso e catastrófico sob o ponto de vista do comércio ilegal e da corrupção ativa, em que o realizador intencionalmente provoca mal-estar no espectador, decorrente da violência explícita da história. Tem ainda o comedido La Playa (2012), do colombiano Juan Andrés Arango Garcia, sob um contexto humano naquele cenário de uma cidade violenta, num retrato sombrio de um país em ebulição, em que o tráfico também se faz presente.

A triste e dolorosa sina de uma realidade de barbárie que expõe uma situação caótica pelo abalo constante dos habitantes que estão sozinhos nessa árdua luta contra as forças do tráfico. Até mesmo o exército consegue enfrentar o temido cartel, enquanto isto a própria polícia dá suporte por estar em conluio com os criminosos. Os moradores do povoado para sobrevierem trabalham para uma facção daquele lugar com o pagamento correspondente a uma pífia ajuda de custo nos campos de plantação de papoulas na qual a flor produz a seiva que serve de matéria-prima para a fabricação de heroína e outros opiáceos. Porém, vivem sob o domínio diário do medo aterrorizante, inclusive os professores são ameaçados e desistem de dar aulas. A inevitável catarse trágica está anunciada, como parafraseando Gabriel García Márquez, em sua obra Crônica de Uma Morte Anunciada, no clímax de tom dramático que chega de maneira devastadora, como se arrebentasse uma grande guerra com barricadas nas ruas que contrapõe com os prazeres da infância, pré-adolescência e adolescência neste conflitado ambiente. Há se ressaltar a bela analogia do resistente professor no desfecho ao divulgar tese da cadeira virada para algum aluno se sentar, instigando pela luta de seus direitos de cidadãos numa narrativa que vai do delicado ao intenso pela explosão na épica noite para a sobrevivência. Transita da estupidez humana irracional para o grito de liberdade das amarras neste drama imperdível para quem aprecia singularidades com ênfase neste painel delirante.

quarta-feira, 2 de março de 2022

A Filha Perdida

Maternidade em Xeque

O tema contemporâneo da maternidade parece estar na moda e vem rendendo boas e interessantes realizações com ressonância positiva nas redes sociais. Pedro Almodóvar construiu dilemas e situações bem características sobre suas figuras femininas em Mães Paralelas (na Netflix). Aborda duas mulheres que se conhecem no hospital, sendo que uma é aparentemente independente, com uma carreira sólida e alguma segurança financeira, porém não é tão bem resolvida como demonstra. A segunda é uma adolescente fragilizada, mas com pensamentos avançados teoricamente, que sofreu um estupro coletivo, tem problemas com os pais e está visivelmente assustada e traumatizada com a nova situação. No meio da trama há uma inusitada de troca das crianças no berçário. Já o diretor islandês Valdimar Jóhannsson estreou com o perturbador Lamb (disponível no MUBI), um enredo dividido em três atos com cenas de pouquíssimos diálogos. Gira em torno de um sofrido e silencioso casal de fazendeiros diante da prematura morte da filha, até o dia em que nasce um cordeiro com semelhanças e atributos humanos, que anda de pé sobre duas patas e veste um casaquinho com macacão. É batizada com o mesmo nome da bebê falecida, embora seja grotesca, anda de mãos dadas com os pais adotantes, e dorme languidamente num bercinho no quarto.

Outro sucesso com ótima repercussão de público é A Filha Perdida (em exibição na (Netflix), com a estreia na direção de Maggie Gyllenhaal, que também assina o dinâmico e instigante roteiro adaptado do livro homônimo da escritora Elena Ferrante, tendo levado o prêmio na categoria de melhor roteiro no Festival de Veneza. Demonstra sensibilidade, sutileza e boas qualidades para contar uma interessante história que prende o espectador diante do olhar investigador sobre a vida da mulher que tem dupla e até tripla jornada no dia a dia. Muitas vezes as condições humanas sobrecarregadas fraquejam durante a dura jornada com a missão a ser cumprida por imposição da estrutural sociedade machista hoje ainda existente, mesmo que anacrônica. O manual comportamental dever seguido com o cumprimento rígido dos ditos bons mandamentos orientados por uma casta aristocrática já pré-falimentar. A narrativa toca o espectador, até mesmo os mais insensíveis machos alfas de alguma maneira, diante das ideias e dos sentimentos, até então ocultos ou abafados, sem ter tido um grito de liberdade que tenha ecoado com lucidez e bravura. Romper as regras e os tabus dos conservadores do mundo dominado pelos bons costumes permanentes como prerrogativas da falsa moral é uma tarefa árdua, que reina na sociedade da hipocrisia em que a mulher/mãe perfeita cozinha, limpa a casa, cuida dos filhos, do marido, tudo de forma impecável, sem reclamar das dificuldades, por ser isto que lhe é cobrado diariamente.

O enredo foi bem elaborado e a apta imaginação deu resultados satisfatórios como uma obra de muito bom foco para atingir a meta esperada sobre uma mulher que precisa se recuperar ao confrontar o presente com o passado. Apesar disso, há um excesso de flashbacks com cortes sucessivos, e, em muitas vezes o clímax distensiona involuntariamente a trajetória. As idas e vindas da protagonista, do passado para o presente, foram a nota destoante da neófita diretora, que preteriu equivocadamente uma narrativa mais segura com o uso adequado de voz em off, mas que mesmo assim não conseguiu invalidar ou tirar méritos do todo de sua proposta. Leda (Olivia Colman) é uma professora de literatura comparada e devotada na área acadêmica, de meia-idade, divorciada, com duas filhas já emancipadas, mas que quando crianças davam muito trabalho, ainda que a jovem mãe (Jessie Buckley) fosse muito dedicada e quase sempre presente, demonstra ser sentimental, tem ambição, faz sacrifícios, é explosiva algumas vezes, charmosa e sensual em outras, fica conflitada entre estar com as filhas ou ter que optar pela profissão, além da ausência constante do marido que só lhe cobra resultados do cotidiano. O envelhecimento inevitável traz as angústias do passado, inclusive uma paixão impulsiva que estava anestesiada, mas que aos poucos veio à tona, pelas lembranças pretéritas que emergem ao tirar férias numa paradisíaca ilha costeira da Grécia. Lá ela começa a se sentir mais leve e livre apesar de estar envergonhada pela sensação solitária, pois aproveitou a brecha das filhas que foram visitar o pai no Canadá, ficando com a imagem da boneca raptada por maldade ou impulso que irá ao encontro da relação ambígua na infância de suas crianças agora já adultas.

O zigue-zague do roteiro aproxima a personagem central de uma família nova-iorquina suspeita de pertencer a uma máfia, pois elementos e situações corriqueiras não faltam, como supostas ameaças e um jogo sujo de alguns integrantes daquele esquisito núcleo. Leda se identifica e demonstra um certo fascínio incomum pela jovem Nina (Dakota Johnson), uma espécie de alter ego na frente de seus olhos reflexivos, que lançam luzes novas para um resgate, quase como um fantasma, que martela sua cabeça naquele lugar aprazível e redentor. Tudo é muito semelhante, até mesmo o desaparecimento da filha pequena na praia, rendendo uma procura incessante por todos nos arredores, até chegar ao ápice que é a iminente traição ao marido ameaçador (Oliver Jackson-Cohen). O vínculo e a amizade se estabelecem para elas interagirem com confissões recorrentes que irão construir um forte vínculo diante do atual momento das duas com as inerentes adversidades do cotidiano intenso de caminhos tortuosos. Mas prevalece a intensidade com o denodo do instinto maternal, embora as reações amorosas por ausência de afeto de seus pares sejam uma realidade profunda e mesmo não sendo descartadas as paixões de outrora, marcam corações, almas e mentes infinitamente, deixando feridas abertas com lacunas doloridas. A frase da famosa filósofa francesa feminista Simone de Beauvoir resume tudo: “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.

Nem tudo é só lazer no passeio turístico na vida de Leda, que encontra naquela estranha família coincidências que a faz lembrar dos períodos conturbados e as penitências que teve de absorver como mãe, que lhe vem instantaneamente como memórias recuperadas que passam como um filme antigo, ou nem tanto. Traz uma reflexão comovente sobre entrar nos meandros mais sombrios e inexplorados da maternidade, individualidade e culpa implícita ou explícita do que mais poderia ter feito e não realizou, principalmente o sufoco para a criação intelectual. Tanto como mãe ou como mulher com seus desejos sexuais por paixões efervescentes da juventude. Ou os grandes amores frustrados ou colocados em prática. Há uma teia de aranha envolvendo as lembranças, os esquecimentos e alguns devaneios interrompidos repentinamente com elipses corriqueiras no desenrolar da trama. Talvez a protagonista pudesse ser mais ousada, quem sabe respirar o lado feminino muitas vezes despedaçado em fragmentos que são empurrados para uma linha tênue de seus limites, tanto do cansaço físico como da opressão emocional. São perguntas latentes que ficam no epílogo em aberto para abrir muitas possibilidades interpretativas de cada pessoa na dicotomia apresentada da condição feminina e sua empatia ao trazer um olhar inovador ao questionar a maternidade com todas as complexidades inerentes neste admirável drama familiar.

terça-feira, 1 de março de 2022

Lamb

Revolta da Natureza

A Islândia está em alta em suas realizações e brinda os espectadores com ótimos filmes. A Ovelha Negra (2015), do diretor islandês Grímur Hákonarson, venceu a Mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes, em 2015, e foi indicado para representar o país no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016. Retratava de forma comovente a relação estremecida de dois irmãos septuagenários, que não se falavam por 40 anos, correspondiam-se por mensagens em bilhetes escritos à mão, sendo levados ao destino por um cachorro, uma espécie de pombo-correio. Surge uma violenta determinação do governo para a eliminação de todo o rebanho de ovinos da família, após ser constatada uma doença contagiosa nas respectivas fazendas deles e de alguns vizinhos criadores da espécie, onde a população de ovelhas é maior que a dos seres humanos em todo território islândico. Como um prosseguimento da realização anterior, embora menor, Hákonarson cria uma atmosfera tensa em A Resistência de Inga (2019), diante da iminente falência do sustento familiar de uma fazenda e traz como reflexão literal o monopólio de uma cooperativa de criadores de bovinos.

Agora chega à plataforma MUBI o perturbador Lamb, do diretor estreante Valdimar Jóhannsson que já se credenciou com grande potencial, vencedor do prêmio de originalidade da mostra Um Certo Olhar, em Cannes, no ano passado, também venceu o prêmio máximo do Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, e ainda foi escolhido para representar a Islândia na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar de 2022, e esteve na programação da Mostra de Cinema de São Paulo no ano de 2021. Há elementos suficientes para uma primorosa história contada com simplicidade, ternura e situações típicas do cotidiano de uma bucólica aldeia de pastores de ovelhas. Ali encontraremos a ruptura e a reaproximação forçada para uma reintegração da união familiar estremecida neste suspense com variações para uma fábula adulta de terror com pitadas de fantasia sensorial. Proporciona uma rara oportunidade de se conhecer alguns estilos de vida diferentes dos habituais que desfilam nas telas dos cinemas, como os aspectos pitorescos arraigados de uma cultura pouco difundida.

A trama é dividida em três atos com cenas de pouquíssimos diálogos e gira em torno do casal de fazendeiros Ingvar (Hilmir Snaer Guönason) e Maria (Noomi Rapace, atriz sueca famosa por protagonizar Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, de 2011) que vivem numa fascinante planície isolada de uma região muito fria com frequentes nevascas. Sofrem com a morte prematura da filha pequena, até o dia em que um suposto milagre na noite de Natal proporcionaria o nascimento de um cordeiro com semelhança, forma e atributos humanos, que anda de pé sobre duas patas e veste um casaquinho com macacão. É batizada com o mesmo nome da bebê falecida, Ada, sendo uma figura grotesca que anda de mãos dadas com os pais e dorme languidamente num bercinho no quarto como se fosse natural. O realizador dá asas à imaginação ao transformar um drama familiar aparentemente simples mergulhado num luto profundo, quando o roteiro, também escrito pelo diretor, dá uma guinada na envolvente história, com significativa mudança de rumo para um surrealismo sutil e de boa narrativa numa construção alegórica que beira a inverossimilhança.

O casal ao abraçar este presente que teria caído como uma dádiva superior dos horizontes celestiais, jamais imaginaria que estivesse infringindo algumas regras claras da natureza, como humanizar um cordeiro, que seria de Deus ou do demônio? Mesmo que para isto houvesse o sacrifício da verdadeira mãe em forma de execução dentro do processo de luto. Neste meio tempo surge o irmão do protagonista, Pétur (Björn Hlynur Haraldssson), um homem forasteiro e descompromissado, com um passado nada íntegro, que dá em cima da cunhada, mas mostra-se sensível ao tentar aceitar a aquela criatura nada convencional. O trator que enguiça na estrada e os sinais que surgem durante a trajetória do longa são evidências e acenos de que a natureza acusou o golpe das armadilhas que lhe foram impostas. O ritmo lento da tensão pelo silêncio constante leva para um grau de imprevisibilidade permanente, conduzindo o espectador para uma surpresa que está por acontecer a qualquer momento.

A fotografia de Eli Arenson traz sequências com grandes planos abertos de uma região vazia, porém bela e envolvente, que trará uma intensidade relevante para a narrativa que cresce com a evolução do enredo. Tudo conduz para um desfecho catártico ao ser humano, porém com o viés redentor e significativo do conjunto de elementos do mundo natural advindos das montanhas, árvores, animais decorrentes do ecossistema, diante dos desmandos e irracionalidades coercitivos do egoísmo e da intransigência fruto de uma melancolia enraizada pela perda da filha. A maternidade ficou fragilizada com resquícios doentios para uma sobrevivência com um mínimo de qualidade, ainda que o preço seja muito alto, e ao ir de encontro das forças da natureza, a vingança pode demorar mas virá como um prato frio pelas mãos e/ou patas do além.

Lamb é um filme contagiante e traz na sua essência o lado sinistro de um certo mistério no bojo da narrativa, por isto prende o espectador que cria uma interessante perspectiva de visão para o desenlace, toda vez que observa a fisionomia daquela criatura aparentemente meiga que carrega algo sobrenatural. A simbiose da paz e da felicidade que poderia lacrar uma união abalada pela perda inesperada é negada. A própria criatura que solta seu balido ecoante no prólogo irá se socorrer da espécie que sai em sua defesa pelo tom da fábula mitológica reveladora. Uma magnífica reflexão sobre as consequências diante da interferência da dita civilização em situações aberratórias que buscam na excentricidade, como se vivêssemos num universo com características de um grande hospício. Qualquer ação violenta com uma retirada abrupta haverá uma resposta de punição à humanidade pela revolta da natureza agredida de maneira egoísta, sórdida e pusilânime. As referências do vínculo familiar, independente de espécie, ficarão ali marcadas pelo tempo e pelas adversidades inevitáveis nesta estupenda obra com tintas fortes de tragicidade, que mexe com o mais distraído dos espectadores no epílogo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

Mães Paralelas

Resgate do Passado

O cultuado cineasta espanhol Pedro Almodóvar está de volta com Mães Paralelas, 23º. longa-metragem, em cartaz na Netflix, para construir dilemas advindos das figuras femininas como pretexto para um filme de resgate sociopolítico. Embora sem se reinventar totalmente, o bom domínio estético narrativo que o consagrou nestes mais de 40 anos de carreira segue sendo sua marca pessoal. Na sua penúltima obra, Dor e Glória (2019), retratou uma autoficção intimista do próprio realizador, um diretor homossexual no ocaso da carreira, alter ego de seu criador, com tintas autobiográficas melancólicas do declínio profissional. Encerrou a trilogia espontânea sobre o projeto focado em desejo e ficção cinematográfica mesclados com a vida real de dores e paixões inerentes como sustentação de personagens masculinos que dirigem na sétima arte, sendo que antes vieram A Lei do Desejo (1986) e Má Educação (2003). Seguiu o mesmo caminho de vários artistas em crise ou próximos do fim da existência, transformando a trajetória como um legado histórico da arte, como visto recentemente no documentário da legendária Agnès Varda, que fez um inventário de sua vida e carreira em Varda por Agnès (2019); ou ainda a realização Maria Callas- Em Suas Próprias Palavras (2017), dirigido por Tom Volf, sobre a grande diva da ópera do século 20, a bela e talentosa Maria Callas, uma das mais consagradas cantoras e intérpretes da história da música, teatro e cinema.

Almodóvar dava sinais de estar terminando a carreira, mas retorna com seu clássico estilo de filmar e o rigor característico formal, com o uso de cores fortes tendo a predominância do vermelho. Inova desta feita ao abordar as cicatrizes do passado da era do general Francisco Franco, com este melodrama sobre a maternidade de duas mulheres que não planejaram a gravidez. A protagonista Janis (Penélope Cruz) é uma mulher aparentemente independente, com uma carreira sólida que dá certa segurança financeira, porém não é tão bem resolvida como demonstra. Tem como amiga a estranha e segura Elena (Rossy de Palma); o namorado é o antropólogo casado Arturo (Israel Elejalde); e a distante mãe Brigida (Julieta Serrano). No hospital conhecerá a outra personagem central, Ana (Milena Smit), uma adolescente fragilizada, mas com pensamentos avançados teoricamente, que sofreu um estupro coletivo. O pai sequer deu alguma atenção, e ainda tem sérios problemas de relacionamento com sua mãe, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), que está focada unicamente na carreira de atriz de teatro. Se Janis entende estar preparada e eufórica para ser mãe, Ana está visivelmente assustada e traumatizada com a nova situação.

O diretor dá vida para as duas futuras mães que esperam pela chegada de seus filhos, passeiam pelos corredores do hospital, trocam informações, confissões, e fazem fortes desabafos. Dão à luz no mesmo dia e no mesmo local, dividem o mesmo quarto, bem como irão construir um forte vínculo de amizade diante do momento de transformação das duas, com as inerentes situações de dor, tanto do parto como do cotidiano intenso de seus caminhos atribulados, onde prevalece a bravura do instinto maternal. Diante das reações amorosas por ausência de afeto profundo em que elas interagem como forma de confissão, há uma derrapada pouco comum em se tratando de Almodóvar, no affair surgido de inopino e colocado fora de contexto por ser desnecessário e interromper o clímax da realização. Ficou vago e estranho ao cortar, até então, a bem elaborada narrativa da troca das crianças no berçário. As desconfianças e as buscas pela verdade emergem de uma realidade que ficou silenciosa por um bom tempo, mas que os fatos novos viriam clarear com o passar do tempo. Embora sem a mesma imaginação para abordar a temática do festejado cineasta japonês Hirokasu Kore-eda, no perturbador drama Pais e Filhos (2013), inspirado em casos reais de bebês trocados que serviram para que fosse contada a comovente saga. Ou ainda no belo filme brasileiro na mesma esteira de um dos episódios de O Que se Move (2012), de Caetano Gotardo, sobre um fato real acontecido em 2002, mais conhecido como Pedrinho de Goiânia, diante do roubo de uma criança da maternidade, e somente aos 16 anos iria encontrar seus pais biológicos.

Dá para dizer que é mais uma produção com a grife Almodóvar, que transparece como uma evidente tentativa de resgatar as feridas pretéritas, embora seu propósito tenha ficado no meio do caminho. Afastou-se do discurso inflamado para dar um viés contido embasado pelas lembranças afetivas e dos fantasmas que habitam as memórias nas cabeças, mentes e almas dos que efetivamente tiveram familiares e amigos trucidados. Há referências aos fatos de modo que a ficção pode se confundir com o passado sem haver uma grande revelação final, um grande conflito caótico, com a escavação que recupera os restos mortais de parentes, através do antropólogo no desfecho. O resultado se confunde com um projeto mais vigoroso por uma obra sem contundência deste fabuloso artesão em fase de declínio, dando mostras de pouco ânimo para o presente. Focaliza as personagens femininas pelas suas confissões e angústias mostradas como para purificar a própria alma pelos eventuais equívocos praticados. Eis um enredo peculiar e cinzento, através de um olhar de clemência lançado sobre o passado pelos sentimentos atormentados das transformações emocionais na construção psicológica do sofrimento humano do outrora sangrento regime opressor que irá se conectar com a maternidade pelo drama familiar.

Mesmo sendo um filme menor, sem fisgar plenamente o espectador por não empolgar, mas que não chega a decepcionar, fica num plano intermediário ao se estabelecer a relação com obras anteriores arrebatadoras como A Pele que Habito (2011); o brilho e a eloquência em Abraços Partidos (2009); o sempre lembrado Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (1988); o notável Fale com Ela (2002); Volver (2006) como a ode máxima ao feminismo; assim como em Ata-me (1990); De Salto Alto (1991), Carne Trêmula (1997) e a obra-prima Tudo Sobre Minha Mãe (1999). Ainda assim, está acima de realizações medíocres que infestam as salas de cinema e os streamings que pululam na grande maioria as diversas plataformas. Apesar disso, ainda há críticas rasas de acusações levianas de bobagens escritas com o viés de uma militância engajada na defesa de velhos clichês, entre as quais de que o cineasta trouxe ao cinema uma misoginia inédita. Almodóvar pode ser acusado de qualquer coisa, até de realizar uma obra de forma preguiçosa com uma narrativa sonolenta e sem a essência do cinema que lhe é peculiar. É evidente que Mães Paralelas não se aprofundou no estupro, na maternidade, na trocas de bebês, no luto, na ausência dos pais, na ditadura protagonizada por Franco na Espanha com as consequências nefastas dos inocentes que perderam suas vidas por um ideal. Misoginia, jamais! Há, sim, o olhar atento de um cineasta que ainda tem boa lucidez para contar uma relevante história.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Eduardo e Mônica

 

Elegia do Amor

Assim como no longa-metragem Abismo Prateado (2011), do diretor cearense Karim Aïnouz, que foi baseado na canção Olhos nos Olhos de Chico Buarque de Holanda, que compôs e gravou em 1976, Faroeste Caboclo (2013) também se inspirou numa música, que empresta o nome ao título do filme, lançada em 1987 pelo grupo Legião Urbana e composta por Renato Russo. Foi uma adaptação livre para o cinema do diretor estreante na época René Sampaio, sem se preocupar com a fidelidade absoluta da letra, acabou por se dar bem no resultado final de uma alegoria sobre a corrupção e os escândalos no Distrito Federal, embora com algumas obviedades no roteiro sobre a vingança e a raiva de um negro pobre, sem se aprofundar, permanecendo mais na superficialidade das contradições. Em seu segundo longa-metragem, com lançamento previsto inicialmente para 2020, mas adiado por conta da pandemia, Sampaio segue o mesmo caminho anterior, ao adaptar para a telona a cultuada música Eduardo e Mônica, também de Russo, de quatro minutos e meio para duas horas. O roteiro segue fielmente o desenrolar da letra com a assinatura por dez mãos, de Matheus Souza, Claudia Souto, Michele Frantz, Gabriel Bortolini e Jessica Candal. Conta a história de uma relação improvável de um grande amor incondicional e o sofrimento de um casal que precisa superar as diferenças de idade, social e cultural.

A trama é ambientada em Brasília, no ano de 1986, quando do lançamento do disco da banda brasiliense Legião Urbana, com homenagens e eventos emblemáticos de um período pós-ditadura (01 de abril de 1964 até 15 de março de 1985). Em um dia atípico, uma série de coincidências leva Eduardo (Gabriel Leone- apenas aceitável, pois cantando esteve melhor que interpretando) a conhecer Mônica (Alice Braga- numa atuação arrebatadora, ilumina a tela com seu sorriso e o fascínio magnético de uma grande atriz no auge da carreira com todos os seus recursos técnicos, em um de seus melhores papéis), tendo como pano de fundo uma festa da diversidade. Um amor despertado nos dois, embora completamente diferentes, eles se apaixonam e não se desgrudam mais. Além da discrepância de idade entre os dois, com gostos diferentes, tudo se encaminha para uma relação incompatível que deveria durar poucos meses. Ele não tem muito objetivo de vida, não é muito chegado nos estudos e no trabalho, mas tenta passar em engenharia no vestibular, não pretende sair do Planalto Central, onde mora com o avô (Otávio Augusto), um ex-militar conservador, homofóbico, que sente saudades e tece loas ao regime ditatorial. Ela é uma médica residente que sonha em trabalhar e morar no Rio de Janeiro, que tem como severa professora na faculdade, a própria mãe (Juliana Carneiro da Cunha).

O cineasta, que está bem mais maduro e criativo neste seu segundo filme, e já promete uma terceira adaptação musical para fechar a trilogia, aborda com delicadeza e sensibilidade esse amor que precisará amadurecer e aprender a superar os contratempos das diferenças nos encontros e desencontros amorosos que permeiam esta admirável comédia romântica. O casal ainda terá que lutar contra o preconceito etário visto pelos outros, bem como transpassar o discurso e as atitudes do avô. O rapaz mergulha em um intenso processo interno de descoberta existencial para tentar lidar com seus sentimentos marcados por uma educação rígida de outrora. As diferenças culturais distintas entre dois são retratadas no painel da atmosfera criada desde o encontro inusitado. São os mecanismos de manipulação e a culpabilização arraigados que passam despercebidos, no qual a turbulência se estabelece marcada por uma educação típica de um microcosmo familiar que entra em choque diante de revelações e experiências nunca vividas num relacionamento de pessoas opostas.

Eduardo e Mônica é um filme que trata do romantismo com sutilezas, discussões e debates pelos espaços de cada um que não devem ser invadidos. Sem se afastar das questões sociais e culturais, enquanto a canção fala que Eduardo sugeriu uma lanchonete e Mônica queria ver o filme do Godard, no belo diálogo dos dois, ela pede para irem numa Mostra de filmes da Nouvelle Vague, mas ele com sua ingenuidade pergunta se estão passando novelas no cinema. Os diálogos estão no ponto certo sem histeria, distante das velhas comédias anacrônicas de lirismos exacerbados que descambam para o intragável pieguismo. Sampaio conduz com equilíbrio os dias marcados por desatinos e transtornos do casal, embora haja poucas esperanças de um happy end, o filme é levado com um bom clímax de expectativa até o agradável epílogo. Os quatro minutos e meio da belíssima canção cantada no epílogo com os créditos são o complemento necessário e delicioso da obra, e faz com que o espectador permaneça até o letreiro final sair da tela ouvindo: “E quem um dia irá dizer, Que existe razão, Nas coisas feitas pelo coração?, E quem irá dizer, Que não existe razão?”. O desfecho deixa um bálsamo acalentador nos corações dos espectadores em tempos tão duros de negacionismos com ameaças de retrocesso institucional proporcionado pelo conservadorismo grotesco, como forma de reflexões pertinentes e provocativas da energia e do magnetismo de um amor intenso e efervescente.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O Festival do Amor

 

As Escolhas

Woody Allen reaparece no início deste ano em sua trajetória de comédias de costumes dramáticas, mantendo-se fiel no sarcasmo e na sutil ironia fina como marcas registradas de sua extensa filmografia, por ser um dos melhores cineastas em atividade no mundo. O Festival do Amor é o 51º. longa-metragem do diretor e roteirista que nos remete para a lenda do vinho: “Quanto mais velho, melhor”. Reprisando elementos dos filmes anteriores: Roda Gigante (2017), Café Society (2016) e Homem Irracional (2015), novamente não atua, mas mantém o vigor e a capacidade de construção de um cinema voltado para as inquietações angustiantes do cotidiano e a análise dele mesmo através desta boa história de amores e desamores contextualizada no Festival Internacional de Cinema de San Sebastián, na Espanha, nesta linda cidade turística na Baía de Biscaia, no montanhoso País Basco. Mescla elementos de pessimismo com algum otimismo, passando uma realidade distante com devaneios que desembocam em pesadelos, pela narrativa de relacionamentos extraconjugais que acabam influenciando a dinâmica do casamento do casal protagonista. Em meio das tensões românticas com traições e descobertas, o longa explora um debate sobre os caminhos do próprio cinema e suas manifestações políticas indo ao encontro da arte, com posições e divergências dos personagens acerca da temática.

A penúltima realização deste incorrigível cineasta romântico-nostálgico foi Um Dia de Chuva em Nova Iorque (2018), onde focava um casal de jovens que planejou uma viagem à Nova Iorque. Ao chegar lá, os planos mudam, pois a moça descobre a possibilidade de fazer uma entrevista com um famoso cineasta, e o rapaz acaba encontrando a irmã de uma antiga namorada. Durante o passeio, eles descobrem novas paixões e oportunidades únicas de vivenciarem fortes emoções contidas. Agora, em O Festival do Amor, transparece quase que uma espécie de continuação do tema retratado anteriormente. Mort Rifkin (Wallace Shawn), alter ego de Allen, é um ex-professor de cinema especializado nos clássicos, e escritor frustrado que não termina nenhum livro. Ele acompanha a esposa Sue (Gina Gershon), uma assessora de imprensa a serviço das estrelas no festival para o lançamento do novo filme do jovem e promissor diretor francês Philippe (Louis Garrel). O envolvimento cada vez mais próximo de sua mulher acarreta em ciúmes e desconfiança de que os dois estão tendo um caso, faz com que se distancie. Procura a médica espanhola Jo Rojas (Elena Anaya), casada com um pintor traidor e amalucado, Tomás (Enrique Arce), arruma pretextos absurdos para marcar sucessivas consultas com a profissional. Logo, o envolvimento é inevitável entre os traídos e uma relação de amizade e amor platônico fica estreita com pitadas de flertes.

Numa visita à filmografia de Allen, Zelig (2003) é uma de suas das obras-primas; bem como se vislumbra uma retomada do inesquecível A Rosa Púrpura do Cairo (1985), talvez seu maior filme, naquela que se consagrou como cena antológica do cinema, a saída do herói da tela indo ao encontro da garçonete que assiste pela quinta vez a película para fugir do martírio de sua vida sem graça. Porém, O Festival do Amor, assim como as realizações anteriores, tenta se aproximar de suas melhores obras ao focar nas perturbações existenciais do escritor em crise de criação, hipocondríaco e neurótico. Critica o cinema atual pelos favorecimentos à indústria cinematográfica decorrente de uma forte influência econômica de transformação do mercado. Defende e imagina em devaneios a gradiloquência dos mestres europeus a quem faz tributos, tais como: Fellini em Oito e Meio (1963), John Ford em Rastros de Ódio (1956), Orson Wells em Cidadão Kane (1941) e Luis Buñuel em O Anjo Exterminador (1962), da Nouvelle Vague francesa como Godard em Acossado (1960) e Truffaut em Jules e Jim- Uma Mulher para Dois (1962), ou ainda as obras existenciais sobre a morte e velhice que inspiraram Allen, do genial Ingmar Bergman em Morangos Silvestres (1957), O Sétimo Selo (1957) e Persona (1966). Uma amostragem da crise e dos contrastes de interesses que geram abismos, mas que não isenta sequer Allen de fazer uso e lançar um olhar sobre o turismo das lindas praias paradisíacas da Espanha.

Uma comédia deslumbrante visualmente pelo fascínio da fotografia do italiano Vittorio Storaro três vezes vencedor do Oscar: O Último Imperador, Apocalypse Now e Reds, já havia feito parceria com Allen em Café Societ e Roda Gigante. Ressaltar a beleza da cidade espanhola que serviu de locação para mostrar o contraste do mar distante romantizado com a linda arquitetura, todo um conjunto para as reflexões do protagonista. Quase uma fábula sobre pessoas sonhadoras e a impossibilidade da felicidade desfeita pelas circunstâncias periféricas que rondam os destinos marcados através dos diálogos nos encontros e desencontros. Habilmente é formado um quadrilátero amoroso, outra marca do cineasta, onde os desejos giram e a verdade tomará contornos na essência dos vínculos afetivos diante das desilusões. Os corações vacilam na paixão, como de Sue que tem um romance não tão secreto. O painel de elementos neuróticos e de fracassos do cotidiano irão formar motivos forjados para as fantasias serem superadas pela sombria realidade do distúrbio familiar. Reflete as esperanças e as desilusões dos destinos cruzados que irão aos poucos formatando o imbróglio de situações e enroscos que se apresentam na urdida trama. Explora os meandros da alma nesta contribuição interessante para o cinema voltado para os acontecimentos rotineiros da paixão desenfreada, os destroçamentos do ser humano e o pessimismo com o mundo das pessoas amarguradas, pelo olhar profundo deste assumido realizador bergmaniano. Ironiza a vida pelos vestígios eivados de perturbações latentes reveladas, mas isso não é o todo, apenas um resultado através da busca do seu significado.

O Festival do Amor tem uma harmonia paradoxal na essência existencial, mas principalmente na felicidade rompida do sonho pela realidade traiçoeira do destino. É difícil apontar, ou achar, algum defeito deste veterano de 86 anos que constrói mais um filme revelador, através de planos longos com aproximações e afastamentos da câmera no ponto certo para observar os personagens inquietos pelas andanças e desatinos do cotidiano. Um mergulho de boa profundidade nos relacionamentos despudorados, nas traições com método de sedução convencional ou não. As relações interpessoais e os romances fracassados servem de alicerce para explorar uma narrativa densa e presente como uma fórmula repetida que deu certo. Os personagens de Allen muitas vezes são reescritos, às vezes com razoáveis resultados, e em outros se superam. Mais uma vez parte dos desajustes do amor e da paixão para ingressar na melancólica solidão do amargo romance, como no desfecho que o coração direciona o caminho da agridoce desilusão amorosa, decepções e sofrimentos do sonho. Regado com apreciável sutileza e ironia a analogia pertinente nas colocações para armadilhas lançadas com primazia no enredo, como típicas características da sensibilidade do velho mestre.